Função afim (função do 1.º grau)

Guia de estudo · Revisado em 15/09/2026

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Um aplicativo cobra R$ 4 de bandeirada mais R$ 3 por quilômetro; a prova do PAS contou 319 interações em 44 horas de observação e, supondo ritmo constante, chegou a I(t) = 7,25t. Que estrutura o preço da corrida e a contagem de peixes compartilham, e o que uma reta sabe dizer sobre ela?

O que você vai aprender

  • Reconhecer a hipótese de taxa constante em um enunciado e traduzi-la em f(x) = ax + b, identificando a taxa a (com unidade composta) e o valor inicial b no contexto.
  • Explicar por que o gráfico de uma função afim é uma reta e descrever o efeito de mudar a (giro em torno de (0, b)) e de mudar b (deslocamento vertical, paralelismo).
  • Obter a lei a partir de dois pontos, de uma tabela ou de um gráfico, conferir com um terceiro ponto e decidir se um ponto pertence ao gráfico.
  • Determinar o zero, o intervalo de crescimento e o sinal de uma função afim pela leitura de a e b, sem confundir crescente com positiva.
  • Resolver inequações do 1.º grau e sistemas simples de duas retas para comparar planos, tarifas e movimentos, decidindo o lado pela taxa.
  • Distinguir proporcionalidade direta (b = 0) e função constante (a = 0), e julgar até onde um modelo afim vale, recusando extrapolações fora do domínio.

O aplicativo de transporte mostra o preço antes de o carro chegar: R$ 4 de bandeirada e R$ 3 por quilômetro rodado. Uma corrida de 1 km sai por R$ 7; de 2 km, R$ 10; de 10 km, R$ 34. Repare no que não muda: o décimo quilômetro é cobrado exatamente como o primeiro, R$ 3, e a bandeirada é paga uma vez só. Em dezembro de 2025, a prova do PAS 1 partiu de uma reportagem sobre recifes, com 319 interações entre peixes-limpadores e seus clientes contadas em 44 horas de observação, e propôs ao candidato que admitisse um ritmo constante de observação: nesse caso, o total de interações até o instante tt seria I(t)=7,25tI(t) = 7{,}25t. O item não trazia gráfico nem a palavra “reta”; trazia uma hipótese sobre o ritmo e exigia uma única divisão, 319/44319/44.

O preço da corrida e a contagem de peixes são, por baixo da roupa, a mesma estrutura: uma quantidade que recebe sempre o mesmo acréscimo a cada passo igual da outra. A matemática chama isso de função afim, ou função do 1.º grau, e a escreve como f(x)=ax+bf(x) = ax + b. Esta página é sobre o que aa e bb dizem do fenômeno, por que o gráfico é uma reta, como ir da tabela à fórmula e da fórmula ao gráfico, onde a reta cruza o eixo, como comparar duas retas e onde o modelo deixa de valer. O conceito geral de função, a progressão aritmética e os juros simples têm páginas próprias; aqui aparecem só como vizinhos.

O que a afim descreve: acréscimos iguais a passos iguais

O que define o objeto não é a fórmula, e sim a regularidade que ela registra: na corrida, andar mais um quilômetro custa R$ 3 em qualquer trecho do percurso, no início ou no fim. Se o acréscimo por passo variasse, a fórmula teria de ser outra.

Função afim: taxa e valor inicial

Uma função afim é toda função da forma

f(x)=ax+b,f(x) = ax + b,

com aa e bb reais. O coeficiente aa é a taxa de variação: quanto ff muda a cada unidade de xx. O coeficiente b=f(0)b = f(0) é o valor inicial: a saída quando a entrada é zero. Para a≠0a \ne 0 ela é crescente se a>0a > 0 e decrescente se a<0a < 0; para a=0a = 0 ela é constante. Quando b=0b = 0, vira proporcionalidade direta, f(x)=axf(x) = ax.

Para a corrida, f(x)=3x+4f(x) = 3x + 4, com xx em quilômetros e ff em reais: a=3a = 3 reais por quilômetro, b=4b = 4 reais, e f(10)=30+4=34f(10) = 30 + 4 = 34 confere com o preço anunciado. A taxa sempre carrega uma unidade composta, com um “por” no meio: reais por quilômetro, metros por segundo, litros por minuto, pontos percentuais por ano. O valor inicial carrega a unidade da saída. Escrever as duas unidades é o jeito mais barato de não trocar aa por bb.

Gráfico da reta f(x) = 3x + 4 no plano cartesiano, com x em quilômetros e f em reais. O ponto (0, 4) está marcado sobre o eixo vertical como o valor inicial b. Entre os pontos (1, 7) e (4, 16) há um degrau tracejado com base 3 e altura 9, e a razão 9 sobre 3 igual a 3 está indicada como a taxa a.
A reta guarda os dois coeficientes em lugares precisos: bb é o corte do eixo vertical, aqui 44; aa é o degrau, Δy/Δx=9/3=3\Delta y / \Delta x = 9/3 = 3 reais por quilômetro. Diagrama autoral.

A pergunta que decide qualquer item de função afim vem antes de qualquer conta: esta grandeza varia a taxa constante? Se o enunciado diz “a cada hora, mais 250 litros”, “R$ 0,50 por minuto excedente”, “velocidade constante” ou “aumentou a taxa constante”, a resposta é sim, o modelo é afim e o trabalho se reduz a identificar aa e bb no contexto. Se diz “aumenta 10% ao mês” ou “dobra a cada sessão”, a taxa não é constante e a reta não serve.

a não é b, e a unidade denuncia a troca

Em C(q)=3q+18C(q) = 3q + 18, custo em reais de uma compra com entrega, 18 é a taxa de entrega (fixa, em reais) e 3 é o preço por unidade (em reais por unidade). Quem responde “o custo fixo é 3” trocou os papéis. A prova de 2006 construiu um item inteiro em cima dessa confusão: ofereceu dois candidatos a aa e dois candidatos a bb e distribuiu os quatro cruzamentos possíveis pelas alternativas; o bb falso, 85, era a leitura no fim do trecho, e não a leitura no eixo. Pergunte-se sempre: qual dos dois números tem “por” na unidade? Esse é o aa.

Por que o gráfico é uma reta, e o que a e b fazem com ela

O gráfico de uma função é o conjunto dos pontos (x,f(x))(x, f(x)). Se a cada passo de 1 unidade em xx a saída sobe sempre os mesmos aa, então de qualquer ponto do gráfico para o seguinte se anda 1 para a direita e aa para cima: os degraus são todos iguais, e pontos que sobem degraus iguais ficam alinhados. É por isso que o gráfico é uma reta. A recíproca também vale: escolhidos dois pontos quaisquer dela, perto ou longe um do outro, a divisão da subida pelo avanço dá sempre o mesmo número, e esse número é aa. Dizer “taxa constante” e dizer “o gráfico é uma reta” é afirmar a mesma coisa, uma vez em palavras e outra em desenho.

Dois painéis. À esquerda, quatro retas que passam pelo mesmo ponto (0, 2): com a igual a 2, 1, menos 1 e 0, cada uma rotulada; a de a igual a zero é horizontal. À direita, três retas paralelas de mesma inclinação 1 e valores iniciais 3, 0 e menos 2, cortando o eixo vertical em alturas diferentes.
Mudar aa gira a reta em torno do ponto (0,b)(0, b): mais íngreme, menos íngreme, descendo, horizontal. Mudar bb desliza a reta para cima ou para baixo sem girar: retas com o mesmo aa são paralelas. Diagrama autoral.

O painel da esquerda mostra o que aa faz: com bb fixo, aa maior é reta mais inclinada; aa negativo é reta descendo da esquerda para a direita; a=0a = 0 é reta horizontal, a função constante. O da direita mostra o que bb faz: com aa fixo, mudar bb só levanta ou abaixa a reta. Duas retas com o mesmo aa e bb diferentes nunca se cruzam, e isso vai importar quando compararmos dois planos de preço.

Para traçar f(x)=ax+bf(x) = ax + b bastam dois pontos, e os mais cômodos são o corte do eixo, (0,b)(0, b), e o ponto um passo adiante, (1,a+b)(1, a + b). Um terceiro ponto não é necessário para a reta, mas é a conferência mais barata que existe contra erro de conta.

Três retratos da mesma reta: tabela, gráfico e fórmula

A prova cobra a tradução nos dois sentidos, e a matriz do PAS pede com todas as letras “modos de conversão entre as representações gráficas e algébricas”. Tabela, gráfico e fórmula são três retratos do mesmo objeto, e o trabalho é passar de um retrato a outro sem perder nada.

Como extrair a e b de um retrato, e como desenhar a reta a partir deles

Chegando pela tabela ou pelo gráfico. A taxa sai de dois pontos: tome dois pontos A=(xA,yA)A = (x_A, y_A) e B=(xB,yB)B = (x_B, y_B) com coordenadas que se leiam sem adivinhação (cruzamentos de linha de grade, valores dados na tabela) e divida a variação da saída pela variação da entrada,

a=yB−yAxB−xA=ΔyΔx.a = \frac{y_B - y_A}{x_B - x_A} = \frac{\Delta y}{\Delta x}.

O valor inicial é a altura em que a reta atravessa o eixo vertical, quando esse ponto está visível; quando não está, basta levar um dos pontos conhecidos à igualdade y=ax+by = ax + b, já com o aa calculado, e isolar bb. Partindo da fórmula. Dois pontos bastam para o traçado: o do eixo, (0,b)(0, b), e o que fica uma unidade adiante, (1,a+b)(1, a + b). Antes de prolongar a reta, pergunte até onde a entrada faz sentido; se o fenômeno só existe para xx entre 0 e 8, o retrato correto é o segmento, não a reta inteira.

À esquerda, uma tabela com duas linhas: quantidade q igual a 2 e 5, custo C igual a 28 e 46. À direita, o plano cartesiano com os dois pontos marcados, a reta que passa por eles prolongada até cortar o eixo vertical em 16, e o degrau entre os pontos com base 3 e altura 18. A fórmula C(q) = 6q + 16 aparece ao lado da reta, e um terceiro ponto, (0, 16), está destacado como conferência.
Dois pontos determinam a reta: a=18/3=6a = 18/3 = 6 reais por unidade, e 28=6⋅2+b28 = 6 \cdot 2 + b dá b=16b = 16. O corte do eixo, (0,16)(0, 16), é ao mesmo tempo o valor inicial e a conferência. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido 1: da tabela à fórmula. Uma gráfica cobra R$ 28 por 2 banners e R$ 46 por 5 banners, e o preço varia a taxa constante com a quantidade. Escreva a lei do preço e diga quanto custam 12 banners.

Estratégia: taxa constante autoriza C(q)=aq+bC(q) = aq + b. Dois pontos dão aa; um deles dá bb; o outro confere.

Resolução: a=(46−28)/(5−2)=18/3=6a = (46 - 28)/(5 - 2) = 18/3 = 6 reais por banner. Em C(q)=6q+bC(q) = 6q + b, o ponto (2,28)(2, 28) dá 28=12+b28 = 12 + b, logo b=16b = 16. Lei: C(q)=6q+16C(q) = 6q + 16. Para 12 banners, C(12)=72+16=88C(12) = 72 + 16 = 88 reais.

Conferência: o segundo ponto precisa bater: C(5)=30+16=46C(5) = 30 + 16 = 46. Bate. Leitura dos coeficientes: R$ 16 é um custo fixo (arte, montagem), R$ 6 é o preço de cada banner. E o domínio é {0,1,2,…}\{0, 1, 2, \ldots\}: banners são contados em inteiros, e a fórmula aceitar q=2,5q = 2{,}5 não torna dois banners e meio possíveis.

O sentido inverso, da fórmula ao ponto, é a pergunta “este ponto pertence ao gráfico?”. Um ponto (x0,y0)(x_0, y_0) pertence quando f(x0)=y0f(x_0) = y_0, e nada além disso. Em 2012, a prova ajustou uma reta aos tempos dos vencedores olímpicos dos 100 metros rasos, com f(1900)=10,8f(1900) = 10{,}8 s e f(1960)=10,2f(1960) = 10{,}2 s, e afirmou que (1920; 10,5)(1920;\ 10{,}5) pertencia ao gráfico. A taxa é −0,6/60=−0,01-0{,}6/60 = -0{,}01 segundo por ano; em 20 anos a reta cai 0,20{,}2, e f(1920)=10,6f(1920) = 10{,}6. O ponto não pertence. O valor 10,510{,}5 foi escolhido para quem estima “meio caminho” em vez de calcular um terço do caminho.

b é o corte do eixo, não o fim do trecho

Num gráfico com três trechos retos, a massa de uma pessoa partia de 70 kg no dia 0 e chegava a 85 kg no dia 360. A lei do primeiro trecho é f(x)=124x+70f(x) = \frac{1}{24}x + 70: o bb é 70, a leitura no eixo, e não 85, que é onde o trecho termina. E o aa é 15/360=1/2415/360 = 1/24 kg por dia, não 360/15=24360/15 = 24, que seria “dias por quilo”. Inverter Δy/Δx\Delta y / \Delta x e ler bb no lugar errado são os dois erros que a banca oferece como alternativas.

Onde a reta cruza o eixo: zero, crescimento e sinal

Três perguntas têm resposta no sinal de aa e no valor de −b/a-b/a: onde a função vale zero, se ela sobe ou desce, e onde é positiva ou negativa.

Zero, monotonia e sinal de uma função afim

Para a≠0a \ne 0, o zero (ou raiz) é a única entrada com saída nula:

ax+b=0⟹x=−ba.ax + b = 0 \quad\Longrightarrow\quad x = -\frac{b}{a}.

A função é crescente se a>0a > 0 e decrescente se a<0a < 0, em todo o domínio, sem exceção. O sinal troca só no zero: se a>0a > 0, f<0f < 0 antes do zero e f>0f > 0 depois; se a<0a < 0, o contrário. Regra curta: à direita do zero, ff tem o sinal de aa.

Dois painéis. À esquerda, a reta f(x) = 2x menos 8, cruzando o eixo horizontal em x igual a 4, com faixa vermelha marcando f negativa à esquerda de 4 e faixa verde marcando f positiva à direita. À direita, a reta g(x) = menos 2x mais 8, com o mesmo zero em 4, mas faixa verde à esquerda e vermelha à direita.
Mesmo zero, sinais trocados: f(x)=2x−8f(x) = 2x - 8 sobe e é positiva depois de 4; g(x)=−2x+8g(x) = -2x + 8 desce e é positiva antes de 4. O sinal de aa decide de que lado fica cada faixa. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido 2: o zero como data. O volume de um reservatório, em milhares de litros, cai a taxa constante: era 200 em t=0t = 0 e 100 em t=5t = 5 dias. Em que instante o reservatório fica vazio, e o que significa V(12)V(12)?

Estratégia: converter os dois pontos em lei, calcular o zero, interpretar.

Resolução: b=200b = 200 (leitura em t=0t = 0); a=(100−200)/(5−0)=−20a = (100 - 200)/(5 - 0) = -20 mil litros por dia. V(t)=200−20tV(t) = 200 - 20t. Vazio quando V=0V = 0: t=200/20=10t = 200/20 = 10 dias.

Conferência: V(5)=200−100=100V(5) = 200 - 100 = 100, bate com o dado. V(12)=−40V(12) = -40 é o que a fórmula devolve, mas volume negativo não existe: o modelo vale em [0,10][0, 10], e o gráfico é um segmento que termina no eixo. Num item de julgamento que afirme “no 12.º dia o reservatório terá −40-40 mil litros”, a resposta é E, não porque a conta esteja errada, mas porque a fórmula saiu do domínio.

Crescente não é positiva

f(x)=4x−20f(x) = 4x - 20 é crescente em toda a reta, inclusive em x=1x = 1, onde vale −16-16. Ser crescente é uma frase sobre a direção (entradas maiores dão saídas maiores); ser positiva é uma frase sobre o lugar (acima do eixo). Na reta dos 100 metros, m=−0,01m = -0{,}01 é negativo e a função é decrescente, mas todos os valores f(t)f(t) são tempos positivos. O item de 2012 que dizia “mm é negativo, pois ff é decrescente” era certo; quem o marcou errado provavelmente olhou para os valores de ff, todos positivos, e concluiu que nada ali podia ser negativo, atribuindo ao coeficiente o sinal que pertence às saídas.

Uma consequência que vale testar: “toda função afim decrescente tem raiz positiva” é falso. f(x)=−2x−4f(x) = -2x - 4 é decrescente e zera em x=−2x = -2. O zero é −b/a-b/a, e seu sinal depende de aa e de bb.

Inequações do 1.º grau: a mesma reta, uma pergunta de faixa

Uma inequação do 1.º grau é a pergunta “para quais xx a reta está acima (ou abaixo) de certa altura?”. Resolver ax+b>cax + b > c é achar o xx em que a reta atinge cc e decidir de que lado ela fica acima. O gráfico responde sem conta nenhuma; a álgebra confirma.

Exemplo resolvido 3: quando o preço ultrapassa um limite. O valor de uma cesta básica, em reais, é V(t)=600+8tV(t) = 600 + 8t, com tt em meses desde o início do acompanhamento. A partir de que mês o valor ultrapassa R$ 850?

Estratégia: montar 600+8t>850600 + 8t > 850, isolar tt e traduzir a fronteira para o domínio inteiro dos meses.

Resolução: 8t>2508t > 250, logo t>31,25t > 31{,}25. Como tt é número inteiro de meses, o primeiro mês em que o valor passa de 850 é t=32t = 32.

Conferência: V(31)=600+248=848<850V(31) = 600 + 248 = 848 < 850 e V(32)=600+256=856>850V(32) = 600 + 256 = 856 > 850. A fronteira 31,2531{,}25 não é resposta: é o ponto em que a reta cruza a altura 850, e a resposta é o primeiro inteiro depois dela. Um item que afirmasse “o valor ultrapassou R$ 850 antes de completados 36 meses” seria C.

Quando aa é negativo, há um passo que derruba muita gente: dividir os dois lados por um número negativo inverte o sentido da desigualdade. Em −2x+8>0-2x + 8 > 0, tem-se −2x>−8-2x > -8 e, dividindo por −2-2, x<4x < 4. O gráfico de g(x)=−2x+8g(x) = -2x + 8 confirma: a reta desce, está acima do eixo antes do zero. Quem esquece de inverter escreve x>4x > 4 e acerta o zero errando o lado. O esboço da reta é a conferência.

Duas retas, uma decisão: encontro e comparação de planos

Todo dia alguém compara dois planos: telefonia com franquia, estacionamento com hora cheia, dois fretes. Cada plano é uma afim do consumo, e a pergunta “qual compensa?” é a pergunta “onde as retas se cruzam?”.

Encontro de duas retas

Duas funções afins f(x)=a1x+b1f(x) = a_1 x + b_1 e g(x)=a2x+b2g(x) = a_2 x + b_2 têm o mesmo valor onde a1x+b1=a2x+b2a_1 x + b_1 = a_2 x + b_2, isto é, em

x∗=b2−b1a1−a2(a1≠a2).x^* = \frac{b_2 - b_1}{a_1 - a_2} \qquad (a_1 \ne a_2).

Antes de x∗x^* uma das duas é menor; depois, a outra. Quem tem a maior taxa acaba maior para xx grande, mesmo que parta de um valor inicial menor. Se a1=a2a_1 = a_2 e b1≠b2b_1 \ne b_2, as retas são paralelas e nunca se encontram: um plano é sempre mais caro que o outro.

Plano cartesiano com minutos no eixo horizontal e reais no vertical. Duas retas: plano I, começando em 40 e subindo 0,50 por minuto; plano II, começando em 60 e subindo 0,25 por minuto. Elas se cruzam no ponto (80, 80), marcado. À esquerda do cruzamento, uma faixa indica que o plano I é mais barato; à direita, que o plano II é mais barato.
Plano I: 40+0,50m40 + 0{,}50m. Plano II: 60+0,25m60 + 0{,}25m. Empatam em m=80m = 80 minutos, pagando R$ 80. Antes disso o plano de valor inicial menor é o mais barato; depois, vence o de menor taxa. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido 4: qual plano compensa. Uma operadora oferece o plano I, R$ 40 fixos mais R$ 0,50 por minuto, e o plano II, R$ 60 fixos mais R$ 0,25 por minuto. Para quais consumos mensais o plano II é o mais barato?

Estratégia: escrever as duas leis, igualar para achar o encontro, decidir o lado pela taxa.

Resolução: PI(m)=40+0,5mP_I(m) = 40 + 0{,}5m e PII(m)=60+0,25mP_{II}(m) = 60 + 0{,}25m. Encontro: 40+0,5m=60+0,25m40 + 0{,}5m = 60 + 0{,}25m, logo 0,25m=200{,}25m = 20 e m=80m = 80 minutos, com os dois planos custando R$ 80. Como o plano I tem a taxa maior, ele fica mais caro depois do encontro: o plano II é o mais barato para m>80m > 80.

Conferência: em m=100m = 100, PI=90P_I = 90 e PII=85P_{II} = 85: II mais barato. Em m=60m = 60, PI=70P_I = 70 e PII=75P_{II} = 75: I mais barato. Um item que afirmasse “o plano II é o mais vantajoso para qualquer consumo superior a 70 minutos” seria E: entre 70 e 80 minutos o plano I ainda ganha.

A mesma estrutura resolve o encontro de dois móveis em movimento uniforme (mesma posição, mesmo instante) e a pergunta “quando a produção paga o investimento”: receita R(q)=15qR(q) = 15q e custo C(q)=2 000+7qC(q) = 2\,000 + 7q empatam em q=250q = 250 unidades, e a partir daí há lucro.

Dois casos especiais: proporcionalidade direta e função constante

Quando b=0b = 0, a reta passa pela origem e f(x)=axf(x) = ax é uma proporcionalidade direta: dobrar a entrada dobra a saída, e a razão f(x)/xf(x)/x é sempre aa. Foi exatamente o item de 2025: se as interações foram observadas a taxa constante, e em t=0t = 0 nada tinha sido observado, então I(t)=atI(t) = at com a=319/44=7,25a = 319/44 = 7{,}25 interações por hora. A conta fechou exata, o item era C. Repare no que autoriza b=0b = 0: não a fórmula, mas o fato de a contagem começar do zero.

Quando a=0a = 0, a função é constante: f(x)=bf(x) = b para todo xx, o gráfico é uma reta horizontal e a taxa de variação é nula. No gráfico da massa corporal de 2006, o segundo trecho, constante em 85 kg do dia 360 ao 540, é uma função constante. Ela continua sendo função afim no sentido amplo desta página, mas não tem zero (a menos que b=0b = 0) e não é crescente nem decrescente, e é por isso que as afirmações sobre raiz única e monotonia supõem a≠0a \ne 0.

Plano cartesiano com três retas. A reta verde y = 3x passa pela origem, com os pontos (1, 3) e (2, 6) marcados: dobrar x dobra y. A reta azul y = 3x + 4 é paralela à verde e corta o eixo vertical em 4, com os pontos (1, 7) e (2, 10) marcados: dobrar x não dobra y. A reta laranja y = 5 é horizontal. À direita, um painel resume: b igual a zero é proporcionalidade direta; b diferente de zero é a afim geral, em que só o acréscimo é fixo; a igual a zero é função constante, com taxa nula e sem zero.
Três casos da mesma fórmula ax+bax + b: com b=0b = 0 a reta passa pela origem e dobrar xx dobra yy (proporcionalidade direta, y/x=ay/x = a sempre); com b≠0b \ne 0 a reta é paralela mas deslocada, e o que se preserva é o acréscimo, não a razão; com a=0a = 0 a reta é horizontal, a taxa é nula e não há zero. Diagrama autoral.
"Linear" quer dizer duas coisas

Nos livros brasileiros, função linear costuma ser o caso b=0b = 0, e função afim o caso geral ax+bax + b. A prova do PAS, porém, escreve “função linear f(t)=mt+hf(t) = mt + h” para a reta dos 100 metros, com h≠0h \ne 0, e “função linear f(x)=ax+bf(x) = ax + b” para a demanda de água de 2016. É o uso da geometria analítica e da física: linear porque o gráfico é uma linha reta. Ao ler um item, não gaste tempo com o nome; procure a taxa constante.

A reta como modelo: custo, tarifa, velocidade, temperatura

A função afim aparece vestida de fenômeno, quase nunca com o nome na frente. Quatro roupas voltam sempre.

Situação Fórmula aa bb
Custo com parcela fixa C(q)=6q+16C(q) = 6q + 16 preço por unidade custo fixo
Tarifa por uso P(m)=40+0,5mP(m) = 40 + 0{,}5m preço por minuto assinatura
Movimento uniforme s(t)=s0+vts(t) = s_0 + vt velocidade posição inicial
Escala de temperatura F(C)=1,8C+32F(C) = 1{,}8C + 32 graus F por grau C leitura de 0 °C

No movimento uniforme, a matriz do PAS cita a afim nominalmente: posição inicial é o bb, velocidade é o aa, e “quando passa pela origem” é o zero. A conversão Celsius–Fahrenheit é a afim que não passa pela origem e tem uma pergunta clássica: as duas escalas coincidem onde 1,8C+32=C1{,}8C + 32 = C, isto é, em C=−40C = -40. Como FF é afim de CC, uma sequência de temperaturas em progressão aritmética continua em progressão aritmética depois de convertida, com razão multiplicada por 1,81{,}8: função afim preserva passos iguais, e foi um item de 2012.

Exemplo resolvido 5: construir o modelo a partir do comando (item 94 do PAS 1 de 2016, tipo D). O comando do item reunia alguns dados sobre o abastecimento do DF: a demanda de água, medida uma vez por ano, é diretamente proporcional ao número de habitantes; a população de 2016 era de 2,8 milhões de pessoas e o consumo daquele ano, de 7 mil litros por segundo; para 2018 a demanda prevista era de 9,5 mil litros por segundo; e, dentro do triênio 2016–2018, o consumo anual podia ser descrito por f(x)=ax+bf(x) = ax + b, com 2016≤x≤20182016 \le x \le 2018. Três tarefas: a população estimada para 2018, os valores das constantes aa e bb e o gráfico de ff no triênio.

Estratégia: a proporcionalidade dá a população; os dois pontos (2016, 7 000)(2016,\ 7\,000) e (2018, 9 500)(2018,\ 9\,500) dão aa e bb; o gráfico é um segmento entre eles.

Resolução: 7 000/2 800 000=2,57\,000 / 2\,800\,000 = 2{,}5 litros por segundo para cada mil habitantes; 9 500/2,5=3 8009\,500 / 2{,}5 = 3\,800 mil, ou seja, 3,8 milhões. a=(9 500−7 000)/(2018−2016)=2 500/2=1 250a = (9\,500 - 7\,000)/(2018 - 2016) = 2\,500/2 = \mathbf{1\,250} litros por segundo a cada ano. b=7 000−1 250⋅2016=7 000−2 520 000=−2 513 000b = 7\,000 - 1\,250 \cdot 2016 = 7\,000 - 2\,520\,000 = \mathbf{-2\,513\,000}. Gráfico: segmento de reta crescente de (2016, 7 000)(2016,\ 7\,000) a (2018, 9 500)(2018,\ 9\,500), e só ele.

Conferência: f(2018)=1 250⋅2018−2 513 000=2 522 500−2 513 000=9 500f(2018) = 1\,250 \cdot 2018 - 2\,513\,000 = 2\,522\,500 - 2\,513\,000 = 9\,500. Bate. O bb negativo e enorme não tem significado: é o que a reta valeria no “ano zero”, fora de qualquer domínio razoável. Se a variável fosse “anos desde 2016”, a mesma reta seria f(x)=1 250x+7 000f(x) = 1\,250x + 7\,000, com um bb legível. Mas o comando fixou xx como o ano-calendário, e a resposta corrigida é a que respeita essa escolha: quem entregou b=7 000b = 7\,000 respondeu a outra pergunta.

O tempo dos 100 metros que chegaria a zero

A reta de 2012, f(t)=mt+hf(t) = mt + h com m=−0,01m = -0{,}01 s por ano, desconta um centésimo de segundo do tempo do vencedor a cada ano que passa. Prolongada indefinidamente, ela cruzaria o eixo em t=1900+10,8/0,01=2980t = 1900 + 10{,}8/0{,}01 = 2980, que é justamente o último ano do domínio escolhido pela banca, e a partir dali devolveria tempos negativos. O item tipo D pedia um texto explicando por que a função não serve para prever um futuro distante, e três argumentos bastam: ninguém percorre 100 metros em zero segundo; o corpo humano tem um teto de velocidade que nenhuma reta descendente respeita; e os recordes reais melhoram cada vez menos a cada década, o que já contradiz a hipótese de queda uniforme. O modelo afim foi ajustado a um intervalo e descreve bem o que acontece dentro dele; a fórmula continua produzindo números fora, só que esses números deixam de corresponder a alguma coisa.

Ler uma reta num gráfico ou numa tabela de verdade

Gráficos de prova vêm com escala, trechos e ruído, e três cuidados separam a leitura correta da leitura a olho.

A inclinação visual depende da escala. Uma reta que “parece íngreme” pode ter taxa pequena se o eixo vertical estiver esticado. A taxa se calcula pelas coordenadas, Δy/Δx\Delta y / \Delta x, nunca pelo ângulo no papel. Duas retas em gráficos com escalas diferentes não se comparam pelo desenho.

Trecho reto não é a curva inteira. Um gráfico pode ser formado por vários segmentos de reta emendados, cada qual com a sua taxa, e cada lei só vale no intervalo do seu segmento. Os dois itens de 2006 sobre a massa corporal exploraram isso de maneiras opostas: um pedia a fórmula do trecho inicial, o outro pedia uma previsão com o trecho final. No terceiro período, entre os dias 540 e 660, a massa recuava de 85 kg para 73 kg: queda de 12 kg ao longo de 120 dias, a=−0,1a = -0{,}1 kg por dia. Para chegar aos 70 kg restavam 3 kg, que a essa taxa consomem mais 30 dias; a data pedida é o dia 660+30=690660 + 30 = 690. No fundo, é a raiz de uma função afim vestida de calendário, e a conta só usa o trecho ao qual a pergunta se refere.

Na tabela, compare diferenças só com passos iguais. Uma tabela é afim quando a diferença das saídas dividida pela diferença das entradas dá sempre o mesmo número. Com entradas 0, 2, 5 e saídas 16, 28, 46, os acréscimos 12 e 18 não são iguais, mas 12/2=18/3=612/2 = 18/3 = 6: é afim, com a=6a = 6. Quem compara 12 com 18 diretamente e conclui “não é reta” esqueceu que os passos eram 2 e 3. Quando as entradas avançam de 1 em 1 (semanas, meses, filas de arquibancada), as saídas formam uma lista em que cada termo supera o anterior pela mesma quantia: é a progressão aritmética, os pontos de uma reta vistos apenas nas entradas inteiras, assunto de página própria.

O essencial em meia página

  • Função afim f(x)=ax+bf(x) = ax + b: aa é a taxa de variação (unidade com “por”), b=f(0)b = f(0) é o valor inicial. Taxa constante no enunciado é o sinal de que o modelo é afim.
  • Gráfico: reta. bb é o corte do eixo vertical; aa é o degrau Δy/Δx\Delta y / \Delta x entre dois pontos quaisquer. Mudar aa gira a reta em torno de (0,b)(0, b); mudar bb desliza sem girar; mesmo aa é paralelismo.
  • Da tabela ou do gráfico à fórmula: aa por dois pontos, bb pelo eixo ou por substituição; conferir com um terceiro ponto. Da fórmula ao gráfico: (0,b)(0, b) e (1,a+b)(1, a + b), respeitando o domínio (segmento, não reta sem fim).
  • Zero: x=−b/ax = -b/a. Crescente se a>0a > 0, decrescente se a<0a < 0, em todo o domínio. Sinal: à direita do zero, ff tem o sinal de aa. Crescente não é positiva; o sinal de aa não é o sinal de ff.
  • Inequação do 1.º grau: achar onde a reta cruza a altura pedida e decidir o lado; dividir por negativo inverte a desigualdade; em domínio inteiro, a resposta é o primeiro inteiro depois da fronteira.
  • Encontro de retas: igualar as leis; x∗=(b2−b1)/(a1−a2)x^* = (b_2 - b_1)/(a_1 - a_2); depois do encontro vence quem tem a maior taxa; paralelas (a1=a2a_1 = a_2) não se encontram.
  • Casos: b=0b = 0 é proporcionalidade direta (contagem que começa do zero: I(t)=7,25tI(t) = 7{,}25t); a=0a = 0 é função constante (reta horizontal, sem crescimento).
  • Modelos: custo fixo mais preço por unidade; tarifa com assinatura; s=s0+vts = s_0 + vt; F=1,8C+32F = 1{,}8C + 32. Função afim preserva progressão aritmética.
  • O domínio manda: o modelo vale onde foi calibrado; V(12)=−40V(12) = -40 litros e tempo de corrida zero são a fórmula fora do mundo. Leia bb no eixo, não no fim do trecho; calcule a taxa pelas coordenadas, não pelo ângulo no papel.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Função do Primeiro Grau (Função Afim): Conceitos Iniciais (Aula 1 de 9)
Professor Ferretto | ENEM e Vestibulares · 12:49
Introdução. Define a função afim f(x)=ax+bf(x) = ax + b, nomeia os coeficientes e mostra os primeiros exemplos numéricos: é a seção “Uma grandeza que muda sempre no mesmo ritmo” em aula, para quem parte do zero.
Função do Primeiro Grau (Função Afim): Coeficiente Angular e Coeficiente Linear (Aula 5 de 9)
Professor Ferretto | ENEM e Vestibulares · 26:10
Aprofundamento. Liga cada coeficiente a um lugar da reta, o corte do eixo e a inclinação, e usa isso para construir gráficos: o conteúdo das seções “Por que o gráfico é uma reta” e “Da tabela ao gráfico, do gráfico à fórmula”.
FUNÇÃO AFIM - LEI DE FORMAÇÃO | FUNÇÃO POLINOMIAL DO PRIMEIRO GRAU \Prof. Gis/ - AULA 6
Gis com Giz · 25:01
Aplicação. Encontra a lei f(x)=ax+bf(x) = ax + b a partir de dois pontos ou de dados do problema, com vários exemplos: o movimento do exemplo resolvido 1 (da tabela à fórmula) e do exemplo 5 (demanda de água), feito passo a passo.
Função Afim no ENEM | Questões resolvidas
Escola de Números com Thyago Araujo · 21:32
Resolução. Itens reais do ENEM em que a função afim vem vestida de fenômeno (tarifa, custo, comparação de propostas): o mesmo trabalho das seções “Duas retas, uma decisão” e “A reta como modelo”, em ritmo de prova.
Rota PAS 1
Conjuntos, funções e a reta: função afim e PA · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Conjuntos, funções e a reta: função afim e PA · Antes de começar (ideias 2, 3 e 5); Função afim: a grandeza que muda sempre no mesmo ritmo; Do gráfico à fórmula e de volta; Domínio, imagem e crescimento (armadilha crescente/percentual, como ponte); resolvido 'afim — do gráfico à decisão'; exercícios 3, 6, 7, 8, 13, 14 e 15; banco de treino T5, T7, T9, T10, T11, T21 e T22; box Como a banca cobra

    Recorte por assunto: só a função afim. O conceito geral de função, a PA e os juros simples do mesmo capítulo pertencem às páginas funcoes, progressao-aritmetica e juros-simples-e-compostos.

  • Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 1 2006 (itens 46 e 47), 2012 (itens 70, 72, 73 e 75), 2016 (item 94), 2018 (item 44), 2021 (item 37), 2025 (item 86)

    Itens reproduzidos verbatim; gabaritos conferidos em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao/AAAA.json. Os itens 2006/46-47, 2012/72-73 e 75, 2021/37 e 2025/86 já existem em data/hub/questions (criados pela página funcoes) e são vinculados por GUID, sem duplicação.