Geradores e receptores elétricos

Guia de estudo · Revisado em 17/09/2026

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A bateria do carro marca 12 V no voltímetro, acende o painel e o rádio, mas o motor de partida só faz um estalo. A pilha da gaveta acende o LED da lanterna e não move o carrinho. Nos dois casos a fonte ainda tem a tensão da etiqueta quando ninguém pede corrente e a perde justamente quando a corrente cresce. O que há dentro de uma pilha ou de uma bateria que faz a tensão cair sob carga, quanto da energia gerada chega de fato ao aparelho, e por que o mesmo motor que consome energia se comporta como um resistor quando trava?

O que você vai aprender

  • Definir força eletromotriz como a energia não elétrica convertida em elétrica por unidade de carga que atravessa o gerador (ε = W/q, em volts) e distinguir a fem da tensão medida nos terminais.
  • Explicar a origem da resistência interna (eletrólito, eletrodos, contatos, enrolamentos) e escrever a equação do gerador U = ε − ri, com os casos limites do circuito aberto (U = ε) e do curto-circuito (i_cc = ε/r).
  • Ler e construir a curva característica U × i de um gerador: intercepto ε no eixo das tensões, inclinação −r e corrente de curto-circuito no eixo das correntes; obter ε e r a partir de duas leituras de voltímetro e amperímetro.
  • Fazer o balanço de potência do gerador (P_gerada = εi, P_dissipada = ri², P_útil = Ui) e calcular o rendimento η = U/ε = R/(R + r).
  • Demonstrar que a potência transferida ao circuito externo é máxima quando R = r, com P_max = ε²/(4r) e rendimento de 50 %, e distinguir potência máxima de rendimento máximo.
  • Caracterizar o receptor pela força contraeletromotriz ε′ e pela resistência interna r′ (U = ε′ + r′i), fazer seu balanço de potência (P_consumida = Ui, P_útil = ε′i, P_dissipada = r′i²) e seu rendimento η = ε′/U; reconhecer o motor travado e a bateria em carga como casos particulares.
  • Resolver circuitos de uma malha com gerador, receptor e resistores pela lei de Pouillet, i = Σε/ΣR, incluindo todas as resistências internas, e verificar o resultado pela soma das tensões na volta completa.
  • Associar geradores em série (fems e resistências internas se somam) e geradores iguais em paralelo (mesma fem, resistência interna dividida, capacidade em ampère-hora somada) e prever a tensão e a autonomia de cada arranjo.
  • Usar corretamente amperímetro (em série, resistência interna pequena) e voltímetro (em paralelo, resistência interna grande), reconhecer o que cada um lê nos terminais de uma pilha com e sem carga e estimar o erro introduzido por um medidor real.
  • Aplicar o modelo do gerador real à bateria de automóvel na partida, ao banco de baterias, ao carregador de celular como receptor, à pilha fraca que acende o LED mas não move o motor e, qualitativamente, à curva característica de um painel solar.
  • Resolver os itens reais do PAS/UnB sobre o assunto (fem em circuito aberto e potência máxima de 2011, diodo retificador de 2011, motor real do bonde de 2017, gerador de 12 V com resistência interna de 2 Ω de 2013, bateria de lítio de 2020, pilhas do rádio de 2021, baterias em paralelo de 2023 e amperímetro de 2008), evitando os erros de tratar a fem como tensão nos terminais, trocar o sinal de r′i no receptor, confundir os rendimentos e esquecer r ao somar as resistências da malha.

Quem já ficou com o carro parado numa manhã fria conhece a cena. A chave gira, o painel acende, o rádio toca, e o motor de partida responde com um estalo seco e um zumbido curto. O voltímetro do painel marcava 12 V um segundo antes. A bateria não está “sem energia”: ela acende tudo o que pede pouca corrente e falha exatamente no único aparelho que pede muita, o motor de partida, que puxa 150 A ou 200 A por alguns segundos. O mesmo acontece com a pilha esquecida na gaveta: acende o LED da lanterna, que precisa de 20 mA, e não move o carrinho de brinquedo, que precisa de 1 A. Nos dois casos a fonte tem a tensão da etiqueta enquanto ninguém pede corrente e a perde quando a corrente cresce. O responsável é uma resistência que mora dentro da própria fonte, no eletrólito, nos eletrodos, nos contatos, e que come uma parte da tensão a cada ampère fornecido. Toda pilha, bateria, dínamo ou painel solar de verdade carrega essa resistência interna, e é ela que separa o gerador dos livros, com tensão fixa, do gerador que existe.

Esta é a página do gerador real e do seu par, o receptor. Ela define a força eletromotriz como energia por carga, deduz a equação U=εriU = \varepsilon - r\,i, ensina a ler a curva característica U×iU \times i com seu intercepto e sua inclinação, faz o balanço de potência do gerador e do receptor, demonstra em que condição a potência entregue ao circuito é máxima e por que esse ponto não é o de melhor rendimento, resolve circuitos de uma malha com gerador, receptor e resistores pela lei de Pouillet, compara pilhas em série e em paralelo, e explica o que um amperímetro e um voltímetro reais fazem com o circuito que medem. No PAS/UnB o assunto é da 3.ª etapa: a fem em circuito aberto e a potência máxima (2011, itens 56 e 65), o motor real do bonde (2017, item 91), o gerador de 12 V com resistência interna de 2 Ω ligado a um termômetro (2013, item 110), a bateria de lítio de 20 V e 1 Ω (2020, itens 111 e 112), as pilhas do rádio em série e em paralelo (2021, itens 85 a 87), as baterias de 4 V em paralelo (2023, item 95) e o amperímetro de resistência infinita (2008, item 70). A página pressupõe a corrente elétrica, a resistência elétrica e as leis de Ohm, a associação de resistores e a potência elétrica. Circuitos com duas ou mais malhas e sistemas de equações ficam na página de leis de Kirchhoff, em construção; o capacitor ligado ao circuito, na de capacitores; de onde vem a energia que as usinas geram, em geração de energia elétrica.

Força eletromotriz é energia por carga, não força

Um resistor só sabe fazer uma coisa com a energia elétrica: transformá-la em calor. Se um circuito tivesse só resistores e fios, a corrente pararia no primeiro instante, porque nada reporia a energia que os elétrons perdem nas colisões. O que mantém a corrente é um dispositivo que faz o caminho inverso, converte alguma outra forma de energia em energia elétrica e a entrega às cargas: é o gerador. Na pilha e na bateria, a energia é química, liberada pelas reações nos eletrodos. No dínamo e no alternador, é mecânica, vinda do eixo que gira. No painel solar, é a luz. Na termopilha, o calor. O nome “gerador” é da eletrodinâmica e não tem a ver com tamanho: uma pilha AA e a usina de Itaipu são geradores no mesmo sentido, dispositivos que elevam a energia potencial das cargas que os atravessam.

A grandeza que mede essa capacidade é a força eletromotriz, escrita ε\varepsilon e abreviada fem. Apesar do nome, herdado do século XIX, ela não é uma força: é a energia não elétrica convertida em elétrica por unidade de carga que atravessa o gerador,

ε=Wconvertidaq,\varepsilon = \frac{W_{\text{convertida}}}{q},

e por isso se mede em volts, joule por coulomb, como qualquer diferença de potencial. Uma pilha de 1,5 V entrega 1,5 J a cada coulomb que passa por dentro dela; uma bateria de carro de 12 V, 12 J por coulomb. Como a corrente é carga por segundo, a potência que o gerador converte é

Pgerada=εi,P_{\text{gerada}} = \varepsilon\, i,

energia por carga vezes carga por segundo. É a mesma conta P=UiP = Ui da página de potência elétrica, com a fem no lugar da tensão, e vale para qualquer gerador, químico, mecânico ou fotovoltaico.

Força eletromotriz (fem)

ε\varepsilon é a energia não elétrica convertida em energia elétrica por unidade de carga que atravessa o gerador: ε=W/q\varepsilon = W/q, em volts. Dentro do gerador, a corrente convencional vai do polo negativo para o polo positivo, subindo o potencial; fora dele, no circuito externo, vai do positivo para o negativo, descendo. A potência convertida é Pgerada=εiP_{\text{gerada}} = \varepsilon i. A fem é uma propriedade do gerador (da química da pilha, do campo e da rotação do dínamo), não do circuito ligado a ele; a tensão nos terminais UU, ao contrário, depende da corrente que o circuito pede.

Nos esquemas, o gerador aparece como duas barras paralelas, a longa e fina para o polo positivo e a curta e grossa para o negativo, e a fem ao lado. O sentido da corrente dentro dele é o que mais confunde quem começa: no circuito externo a corrente convencional sai do polo positivo, atravessa os resistores e volta ao negativo, descendo o potencial a cada resistor; dentro do gerador ela vai do negativo para o positivo, contra o que faria sozinha, e é justamente aí que a energia química ou mecânica é gasta para empurrá-la ladeira acima. Um gerador é uma bomba de carga, e a fem é a altura que a bomba consegue erguer cada coulomb.

gerador fem típica de onde vem a energia
pilha alcalina AA 1,5 V reação zinco–dióxido de manganês
célula de íons de lítio 3,6 a 4,2 V intercalação de lítio entre os eletrodos
bateria de carro (6 células de chumbo-ácido) 12,6 V reação chumbo–ácido sulfúrico
célula fotovoltaica de silício 0,5 a 0,6 V luz absorvida na junção
alternador de automóvel 13 a 14 V (retificados) rotação do motor via correia
gerador de hidrelétrica 13,8 kV a 25 kV queda d’água na turbina

Em potência elétrica apareceu o item 61 da 3.ª etapa de 2011, em que uma bateria de 12 V fornece 4 A por 5 minutos e diminui sua energia química em 12×4×300=1440012 \times 4 \times 300 = 14\,400 J. Essa é a fem em ação: 12 J por coulomb, 1 200 C em cinco minutos, 14,4 kJ retirados da química da bateria. Repare que a conta usou a fem como se toda ela chegasse ao circuito. Se a bateria fosse real, uma fração desses 14,4 kJ nem sairia dela.

A resistência interna e a equação do gerador

Dentro de uma pilha, a corrente atravessa o eletrólito, uma pasta ou um líquido condutor bem pior do que o cobre; atravessa os eletrodos, porosos e de metais pouco condutores; passa pelos contatos entre as peças. Dentro de um dínamo, atravessa metros de fio enrolado. Tudo isso tem resistência, e a soma se chama resistência interna, rr. Ela não é um componente separado que alguém colocou lá; é a resistência do próprio caminho da corrente dentro da fonte. Numa pilha AA nova, rr fica em torno de 0,15 a 0,3 Ω; numa bateria de carro nova, em alguns milésimos de ohm; numa pilha gasta, rr cresce para vários ohms, porque os reagentes se esgotam e o eletrólito seca.

O efeito de rr segue de um balanço de energia. Cada coulomb que atravessa o gerador ganha ε\varepsilon joules da conversão e perde rir\,i joules em calor na resistência interna (é a lei de Ohm aplicada ao trecho interno: tensão =ri= r i). O que sobra para o circuito externo, por coulomb, é a tensão entre os terminais:

U=εri.U = \varepsilon - r\,i.

A equação do gerador real

U=εriU = \varepsilon - r\,i

UU é a tensão entre os terminais (o que um voltímetro ligado a eles mede), ε\varepsilon a fem, rr a resistência interna e ii a corrente que o gerador fornece. Dois casos limites:

  • Circuito aberto (i=0i = 0): U=εU = \varepsilon. A fem só aparece pura sem corrente; é o que o voltímetro lê numa pilha solta na bancada.
  • Curto-circuito (U=0U = 0, terminais ligados por um fio ideal): a corrente é a máxima que o gerador consegue dar, icc=ε/ri_{\text{cc}} = \varepsilon / r.

Num circuito de uma malha com resistência externa RR, a corrente é i=εR+ri = \dfrac{\varepsilon}{R + r} e a tensão nos terminais é U=RiU = R\,i: as duas expressões de UU, a do gerador (εri\varepsilon - ri) e a do resistor (RiRi), dão o mesmo número, e é isso que fecha a malha.

Volte ao carro. Uma bateria de 12,6 V com r=0,01r = 0{,}01 Ω alimentando o painel e o rádio, uns 5 A, perde 0,01×5=0,050{,}01 \times 5 = 0{,}05 V: o voltímetro marca 12,55 V, nem se nota. Na partida, o motor pede 200 A e a queda interna é 0,01×200=20{,}01 \times 200 = 2 V: os terminais caem para 10,6 V, as luzes do painel diminuem por um instante e o motor gira. Agora envelheça a bateria até r=0,05r = 0{,}05 Ω. Com 5 A, a queda é 0,25 V, e nada muda para o rádio. Com 200 A, a queda seria 10 V, sobrariam 2,6 V para o motor de partida, e ele não gira; a corrente real fica bem menor que 200 A, o estalo é o solenoide fechando e a partida falhando. A bateria “está com 12 V” e está morta para o único aparelho que importa. A pilha da gaveta é o mesmo caso em miniatura: com ε=1,4\varepsilon = 1{,}4 V e r=5r = 5 Ω, ela entrega ao LED (20 mA) uma tensão 1,45×0,02=1,31{,}4 - 5 \times 0{,}02 = 1{,}3 V, suficiente; ao motor do carrinho, que pediria 1 A, ela só consegue dar i=1,4/(5+1)0,23i = 1{,}4/(5 + 1) \approx 0{,}23 A se o motor tiver 1 Ω, e o motor não vence o atrito.

"A bateria é de 12 V, então há 12 V no circuito"

A etiqueta traz a fem, e a fem é a tensão em circuito aberto. Assim que a corrente circula, a tensão nos terminais é εri\varepsilon - ri, sempre menor do que a etiqueta, e menor quanto maior a corrente. Um item que diga que “a diferença de potencial entre os terminais de um gerador real é igual à sua força eletromotriz” só está certo se completar “quando não há corrente”; foi exatamente essa a redação do item 56 da 3.ª etapa de 2011, gabarito certo. Sem essa condição, o item estaria errado.

Uma consequência que a prova gosta: o gerador ideal é o caso r=0r = 0. Ele impõe a fem entre os terminais aconteça o que acontecer no resto do circuito, e a corrente que fornece é decidida pela resistência externa, sem limite. É o modelo usado sempre que o enunciado diz “bateria ideal” ou “sem resistência interna”, como a bateria de 24 V das dezesseis lâmpadas de 2023 ou a fonte de 7 V do bloco de 2025. Quando o enunciado dá a resistência interna, ela entra na malha como um resistor a mais, em série com a fem, e esquecê-la é o erro mais comum do assunto.

A curva característica: uma reta que conta ε, r e a corrente de curto

A equação U=εriU = \varepsilon - r\,i é a de uma reta, com UU no eixo vertical e ii no horizontal. É a curva característica do gerador, e cada elemento da reta tem um significado físico.

  • O intercepto no eixo das tensões é ε\varepsilon: a tensão com corrente zero.
  • A inclinação é r-r: cada ampère a mais derruba a tensão em rr volts. Reta mais inclinada, gerador com mais resistência interna, pior sob carga.
  • O intercepto no eixo das correntes é a corrente de curto-circuito, icc=ε/ri_{\text{cc}} = \varepsilon/r: a corrente que zera a tensão nos terminais.

Como a reta é definida por dois pontos, dois pares (i,U)(i, U) medidos bastam para obter tudo. Suponha que uma pilha marque 1,50 V em circuito aberto e 1,20 V quando fornece 0,60 A. O intercepto dá ε=1,50\varepsilon = 1{,}50 V; a inclinação dá r=(1,501,20)/0,60=0,50r = (1{,}50 - 1{,}20)/0{,}60 = 0{,}50 Ω; a corrente de curto é 1,50/0,50=3,01{,}50/0{,}50 = 3{,}0 A. Se os dois pontos medidos não incluem o circuito aberto, a conta é a mesma com duas equações: com U1=εri1U_1 = \varepsilon - r i_1 e U2=εri2U_2 = \varepsilon - r i_2, a diferença dá r=(U1U2)/(i2i1)r = (U_1 - U_2)/(i_2 - i_1) e depois ε=U1+ri1\varepsilon = U_1 + r i_1.

Gráfico da tensão nos terminais em função da corrente para um gerador de fem 12 volts e resistência interna 1 ohm: reta decrescente que parte de 12 volts no eixo vertical e chega a zero em 12 ampères no eixo horizontal; o ponto de operação com resistor de 5 ohms está marcado em 2 ampères e 10 volts, com a queda interna de 2 volts indicada entre a reta e a linha tracejada da fem; uma segunda reta, mais inclinada, representa a mesma pilha gasta, com resistência interna de 3 ohms e corrente de curto de 4 ampères.
A curva característica do gerador é a reta U=εriU = \varepsilon - ri. O intercepto vertical é a fem (12 V), a inclinação é r-r e o intercepto horizontal é a corrente de curto, ε/r\varepsilon/r. A pilha gasta tem a mesma fem e reta mais inclinada: cai mais depressa com a corrente. Diagrama autoral.
Ler a reta ao contrário

No gráfico U×iU \times i, o eixo vertical é tensão e o horizontal é corrente. Quem inverte lê a inclinação como 1/r-1/r e troca fem por corrente de curto. Confira sempre pelas unidades: o intercepto em volts é a fem; o intercepto em ampères é icci_{\text{cc}}. E lembre que a reta do gerador desce: uma reta que sobe com a corrente é a curva característica de um receptor, assunto de uma seção adiante.

A pilha gasta tem uma curva reveladora. Sua fem quase não muda com o uso, porque ela depende da química dos eletrodos; o que cresce é rr. A reta parte do mesmo intercepto e fica cada vez mais inclinada: a mesma tensão em aberto e uma tensão muito menor sob carga. Por isso medir a tensão de uma pilha solta com o voltímetro não diz se ela está boa: uma pilha que marca 1,45 V em aberto pode marcar 0,9 V dentro do brinquedo. Os testadores de pilha decentes fazem a medição com uma carga ligada, isto é, medem um ponto da reta longe do intercepto.

Potência e rendimento do gerador: quem fica com quanto

A equação U=εriU = \varepsilon - ri vira um balanço de potência quando se multiplica tudo pela corrente:

εi=Ui+ri2.\varepsilon\, i = U\, i + r\, i^{2}.

O lado esquerdo é a potência gerada (ou total), a taxa em que o gerador converte energia química ou mecânica em elétrica. O primeiro termo da direita é a potência útil, entregue ao circuito externo pelos terminais. O segundo é a potência dissipada na resistência interna, o calor que esquenta a pilha em uso. A energia se conserva: o que é gerado ou sai pelos terminais ou vira calor dentro.

Balanço de potência e rendimento do gerador

Pgerada=εiPuˊtil=UiPdissipada=ri2P_{\text{gerada}} = \varepsilon\, i \qquad P_{\text{útil}} = U\, i \qquad P_{\text{dissipada}} = r\, i^{2}

Pgerada=Puˊtil+PdissipadaP_{\text{gerada}} = P_{\text{útil}} + P_{\text{dissipada}}

O rendimento é a fração da potência gerada que chega ao circuito:

η=PuˊtilPgerada=Uiεi=Uε=RR+r.\eta = \frac{P_{\text{útil}}}{P_{\text{gerada}}} = \frac{U\,i}{\varepsilon\,i} = \frac{U}{\varepsilon} = \frac{R}{R + r}.

A última forma vale para um resistor RR ligado ao gerador: o rendimento é a fração da resistência total que está fora do gerador. Rendimento alto pede RrR \gg r, isto é, corrente pequena diante da corrente de curto.

Um exemplo completo. Uma bateria de ε=12\varepsilon = 12 V e r=1r = 1 Ω alimenta um resistor de 5 Ω. A corrente é i=12/(5+1)=2i = 12/(5 + 1) = 2 A. A tensão nos terminais é U=121×2=10U = 12 - 1 \times 2 = 10 V, e também U=5×2=10U = 5 \times 2 = 10 V pelo resistor: a malha fecha. Potência gerada: 12×2=2412 \times 2 = 24 W. Potência útil: 10×2=2010 \times 2 = 20 W, ou 5×22=205 \times 2^{2} = 20 W. Potência dissipada dentro: 1×22=41 \times 2^{2} = 4 W. Soma: 20+4=2420 + 4 = 24 W. Rendimento: 10/12=5/683%10/12 = 5/6 \approx 83\,\%, ou 5/(5+1)5/(5+1), o mesmo número. Dos 24 J que a bateria converte por segundo, 20 J chegam ao resistor e 4 J esquentam a própria bateria.

A prova cobrou o balanço com um gerador de 12 V e r=2r = 2 Ω ligado a um termômetro de resistência, no item 110 da 3.ª etapa de 2013. O gráfico do caderno mostrava a resistência do termômetro crescendo linearmente com a temperatura, de 1 Ω a 0 °C até 21 Ω a 20 °C, um ohm por grau; a 19 °C, então, R=20R = 20 Ω. A corrente é i=12/(20+2)=6/110,545i = 12/(20 + 2) = 6/11 \approx 0{,}545 A, e a potência total fornecida pelo gerador é εi=12×6/11=72/116,55\varepsilon i = 12 \times 6/11 = 72/11 \approx 6{,}55 W, entre 6 W e 7 W, gabarito B. Quem esqueceu a resistência interna calculou i=0,6i = 0{,}6 A e P=7,2P = 7{,}2 W, caiu na opção C; quem usou UiUi com U=20×6/11U = 20 \times 6/11 achou a potência útil, 5,955{,}95 W, e caiu na A. O item testa se o candidato sabe que “potência total do gerador” é εi\varepsilon i e que rr entra na corrente.

A pilha que esquenta

Uma pilha em uso pesado fica morna, e um celular carregando rápido fica quente: é a potência ri2ri^{2} na resistência interna. Uma célula de lítio com r=0,05r = 0{,}05 Ω descarregando a 3 A dissipa 0,05×9=0,450{,}05 \times 9 = 0{,}45 W dentro dela; a 6 A, quatro vezes mais, 1,8 W. Por isso descargas rápidas aquecem mais que proporcionalmente, e por isso baterias de carro elétrico têm refrigeração: a perda interna cresce com o quadrado da corrente, como a perda numa linha de transmissão.

A potência máxima é entregue quando R = r, e isso não é o melhor rendimento

Volte à bateria de 12 V e 1 Ω e varie o resistor. Com R=5R = 5 Ω, a potência útil foi 20 W. Com R=1R = 1 Ω, igual a rr: i=12/2=6i = 12/2 = 6 A e P=1×36=36P = 1 \times 36 = 36 W, mais. Com R=0,5R = 0{,}5 Ω: i=12/1,5=8i = 12/1{,}5 = 8 A e P=0,5×64=32P = 0{,}5 \times 64 = 32 W, já caiu. Com R=0R = 0, curto-circuito: 12 A de corrente e potência útil zero, porque U=0U = 0; todos os 144 W gerados viram calor dentro da bateria. Com RR \to \infty, circuito aberto, corrente zero e potência zero. Entre os dois zeros há um máximo, e ele fica em R=rR = r.

A demonstração é curta. A potência útil em função de RR é

Puˊtil=Ri2=ε2R(R+r)2.P_{\text{útil}} = R\,i^{2} = \frac{\varepsilon^{2} R}{(R + r)^{2}}.

Escreva o denominador como (R+r)2=(Rr)2+4Rr(R + r)^{2} = (R - r)^{2} + 4Rr. Então

Puˊtil=ε2R(Rr)2+4Rr=ε24r4Rr(Rr)2+4Rr,P_{\text{útil}} = \frac{\varepsilon^{2} R}{(R - r)^{2} + 4Rr} = \frac{\varepsilon^{2}}{4r} \cdot \frac{4Rr}{(R - r)^{2} + 4Rr},

e a fração da direita é no máximo 1, quando (Rr)2=0(R - r)^{2} = 0, ou seja, R=rR = r. Logo

Pmaˊx=ε24r,em R=r,i=ε2r=icc2,U=ε2.P_{\text{máx}} = \frac{\varepsilon^{2}}{4r}, \qquad \text{em } R = r, \quad i = \frac{\varepsilon}{2r} = \frac{i_{\text{cc}}}{2}, \quad U = \frac{\varepsilon}{2}.

Para a bateria de 12 V e 1 Ω: Pmaˊx=144/4=36P_{\text{máx}} = 144/4 = 36 W, com 6 A e 6 V nos terminais, os números encontrados acima. Em função da corrente, Puˊtil=Ui=(εri)i=εiri2P_{\text{útil}} = Ui = (\varepsilon - ri)\,i = \varepsilon i - r i^{2} é uma parábola com concavidade para baixo, zero em i=0i = 0 e em i=icci = i_{\text{cc}}, e vértice no meio, i=icc/2i = i_{\text{cc}}/2.

Potência máxima transferida

A potência entregue por um gerador de fem ε\varepsilon e resistência interna rr a um resistor RR é máxima quando R=rR = r, e vale

Pmaˊx=ε24r.P_{\text{máx}} = \frac{\varepsilon^{2}}{4r}.

Nesse ponto a corrente é metade da de curto-circuito, a tensão nos terminais é metade da fem e o rendimento é 50 %: metade da potência gerada vira calor dentro do gerador. Para os dois lados de R=rR = r a potência útil diminui.

Dois gráficos lado a lado para um gerador de 12 volts e 1 ohm. À esquerda, a potência útil em função da corrente: parábola com concavidade para baixo que parte de zero em zero ampère, atinge o máximo de 36 watts em 6 ampères e volta a zero em 12 ampères, a corrente de curto; a reta da potência gerada, 12 vezes i, sobe até 144 watts em 12 ampères, e a área entre as duas é a potência dissipada. À direita, o rendimento em função da corrente: reta que desce de 100 por cento em zero ampère a zero em 12 ampères, marcando 50 por cento em 6 ampères.
Potência útil e rendimento do mesmo gerador em função da corrente. A potência útil é máxima no meio do caminho (i=icc/2i = i_{\text{cc}}/2, R=rR = r), justamente onde o rendimento já caiu a 50 %. Rendimento alto pede corrente pequena; potência alta pede corrente média; as duas coisas não acontecem juntas. Diagrama autoral.
Potência máxima não é rendimento máximo

São dois pontos diferentes da curva. O rendimento η=R/(R+r)\eta = R/(R + r) cresce sem parar com RR e se aproxima de 100 % quando RrR \gg r, mas aí a potência útil é pequena, porque a corrente é pequena. A potência útil é máxima em R=rR = r, onde η=50%\eta = 50\,\%. O item 65 da 3.ª etapa de 2011 afirmava que a potência fornecida pela fonte a uma resistência “é máxima quando o valor da resistência é o dobro do valor da resistência interna”: errado, é quando os dois são iguais. Na prática de engenharia, a escolha depende do objetivo: um amplificador que alimenta um alto-falante quer potência máxima e casa as impedâncias; uma rede elétrica quer rendimento e opera com RrR \gg r, muito longe do ponto de potência máxima.

Uma leitura que vale guardar: no ponto de potência máxima o gerador está trabalhando a meia tensão e meia corrente de curto, e dissipando dentro de si tanto quanto entrega. Nenhuma pilha comercial é projetada para operar aí; os aparelhos são feitos para puxar correntes bem menores que icci_{\text{cc}}, na região de rendimento alto. A condição R=rR = r aparece em telecomunicações e áudio, onde o que importa é extrair o máximo sinal de uma fonte fraca, e a energia perdida não custa nada.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Rota PAS 3
Circuitos elétricos: da tomada às leis de Kirchhoff · PAS 3

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 3 — Circuitos elétricos: da tomada às leis de Kirchhoff · Geradores reais, medidores e o capacitor no circuito (pilha fraca e bateria velha do carro; conceito U = ε − ri, circuito aberto, curto-circuito, i = ε/(r + R), potência máxima em R = r, pilhas em série e em paralelo, amperímetro e voltímetro; tabela ε, r, U, i_cc; exemplo-guia da bateria de 12 V e 1 Ω com 5 Ω, 1 Ω e 0,5 Ω; itens 2011/56 e 65, 2017/91, 2020/111, 2023/95 e 2008/70; armadilha 'a fem não é a tensão da bateria em uso'; checagem do amperímetro em série); Leia como na prova: o bloco dos circuitos da UFPR (fonte ideal impõe a fem entre os terminais, item 2025/89); Como a banca cobra (histórico 'Gerador real, pilhas, medidores e capacitor', item 2020/112 resolvido, 2013/110 e 2021/85–87 no inventário); Resolvidos no formato da prova (malha com duas fontes em oposição, item tipo B); Banco de treino (T13, T14, T19)

    Recorte por assunto: esta página cobre o gerador real (fem, resistência interna, equação, curva característica, curto-circuito), o balanço de potência e o rendimento do gerador, a potência máxima transferida, o receptor (força contraeletromotriz, equação, potência e rendimento, motor travado, bateria em carga), o circuito de uma malha pela lei de Pouillet, a associação de geradores, os medidores reais e as aplicações (bateria de carro, banco de baterias, carregador, pilha fraca, painel solar). O capacitor no circuito fica em capacitores; malhas com duas ou mais fontes e sistemas lineares ficam em leis de Kirchhoff; Galvani e Volta ficam em história da eletricidade; série e paralelo de resistores entram só como ferramenta. A página acrescenta, ausentes do capítulo, a definição de fem como energia por carga, a dedução de U = ε − ri por balanço de energia, a curva característica com intercepto e inclinação, a demonstração de P_max em R = r com η = 50 %, o receptor com U = ε′ + r′i e seu rendimento, a lei de Pouillet, a medição de ε e r com dois pontos, o erro do medidor real, a bateria do carro na partida e a curva do painel solar.

  • Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 3 2011 (itens 56 e 63, caderno Metropolitan p. 14, texto-base do museu virtual de máquinas eletromagnéticas e figura do diodo retificador; item 65, p. 15, bloco dos circuitos magnéticos); 2013 (item 110, caderno Próton p. 15, gráfico R × T do termômetro de resistência); 2017 (item 91, caderno Liberdade p. 14, figuras I a III do bonde; texto extraído cifrado, item transcrito da imagem); 2020 (itens 111 e 112, Parte 2 p. 11, figura da bateria de lítio de 20 V e 1 Ω com R1, R2 e R); 2021 (itens 85 a 87, Parte 2 p. 10, figura dos circuitos I e II do rádio a pilha); 2023 (item 95, p. 12, texto-base das baterias de íons de lítio de Yoshino)

    Itens reproduzidos verbatim dos cadernos em texto e conferidos na imagem dos PDFs em utils/material/PAS/provas/ rasterizados a 130 dpi, figuras a 300 dpi; gabaritos conferidos nos arquivos GAB (2011: 56 C, 63 A, 65 E; 2013: 110 B; 2017: 91 C; 2020: 111 E, 112 = 009; 2021: 85 C, 86 E, 87 D; 2023: 95 E) e em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao-pas3/AAAA.json. O caderno de 2013 grafa 'força eletromatriz' (mantido, com sic na resolução). As figuras impressas foram descritas em texto neutro nos enunciados, nomeando todos os rótulos e a topologia. O item 2008/70 (amperímetro de resistência infinita) já existe no banco do Hub pela página de corrente elétrica e é reutilizado pelo GUID.