Motores e transformadores

Guia de estudo · Revisado em 03/10/2026

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O carregador do celular pesa 50 g, a caixa cinza do poste pesa 300 kg e o transformador de Itaipu pesa 200 toneladas, mas os três são a mesma máquina: duas bobinas num núcleo de ferro, sem nenhum fio ligando uma à outra. O liquidificador, o ventilador de teto, o elevador e o carro elétrico também são uma só máquina, o motor, que é o gerador da usina funcionando ao contrário. Como um alternador produz os 60 ciclos por segundo da rede, por que o transformador só funciona com corrente alternada, por que a energia viaja a 500 000 volts se a tomada entrega 220, como um motor gira sem travar a cada meia-volta, para onde vai a energia que ele não converte em movimento, e como a banca cobra tudo isso?

O que você vai aprender

  • Descrever o alternador como máquina: rotor e estator, campo produzido por ímãs ou por bobinas de excitação, anéis coletores e escovas, e a relação entre a frequência da fem, o número de pares de polos e a rotação (f = p·n/60), explicando por que o gerador de Itaipu gira a 90 rpm e produz 60 Hz.
  • Distinguir o alternador (anéis, corrente alternada) do dínamo (comutador, corrente contínua pulsante) e explicar por que o comutador inverte a ligação a cada meia-volta.
  • Explicar o transformador pela indução mútua: fluxo comum no núcleo de ferro, fem por espira igual nas duas bobinas, V₁/V₂ = N₁/N₂, elevador e abaixador, e a conservação de potência V₁i₁ = V₂i₂ no transformador ideal.
  • Justificar por que o transformador só funciona com corrente alternada e por que não altera a frequência, e julgar afirmações sobre corrente contínua, frequência e 'elevação de potência'.
  • Identificar as perdas do transformador real (Joule no cobre, histerese e correntes de Foucault no ferro), a função do núcleo laminado e a ordem de grandeza do rendimento (acima de 95 % nos grandes, abaixo nos pequenos).
  • Calcular a perda P = R i² de uma linha de transmissão para a mesma potência em duas tensões e mostrar que elevar a tensão k vezes reduz a perda k² vezes; refazer a conta exemplar da linha de 0,40 Ω do PAS/UnB.
  • Descrever a rede elétrica da usina à tomada: geração em quilovolts, elevação em subestação, transmissão em centenas de quilovolts, subestações abaixadoras, distribuição em 13,8 kV e os 127 V ou 220 V da residência, a 60 Hz no Brasil; situar a transmissão em corrente contínua (HVDC) de Itaipu e de Belo Monte como caso em que a CC vence a CA.
  • Explicar o motor de corrente contínua como máquina: espira, comutador, escovas, torque proporcional a N·B·i·A, e a necessidade de inverter a corrente a cada meia-volta; explicar qualitativamente o motor de indução de corrente alternada pelo campo girante e pela lei de Lenz (o rotor 'corre atrás' do campo).
  • Tratar o motor como receptor: potência elétrica consumida = potência mecânica entregue + perdas; calcular o rendimento, a potência mecânica e a corrente de um motor travado, e explicar por que o motor travado queima.
  • Reconhecer a reversibilidade motor ↔ gerador (frenagem regenerativa do carro elétrico, dínamo de bicicleta, 'motor-gerador' das usinas reversíveis) e a força contraeletromotriz como a assinatura do motor girando.
  • Ler placas de equipamentos (V, A, W, Hz, rpm, cos φ) e figuras de máquinas (corte de alternador, transformador com N₁ e N₂, motor com comutador, rede com tensões) e extrair delas os dados que um item pede.
  • Julgar itens do PAS/UnB sobre máquinas: a fem do gerador comercial de 2010, as modificações possíveis no gerador, a razão de espiras do transformador do consumidor de 2009, o transformador 'de corrente contínua' de 2011, as perdas de linha de 2009 e 2013, a equivalência das usinas de 2025 e o torque da espira do motor de bonde de 2017.

O carregador do celular pesa 50 gramas e cabe na palma da mão. A caixa cinza pendurada no poste da esquina pesa 300 quilos e precisa de um caminhão com guindaste. Cada transformador elevador de Itaipu pesa cerca de 200 toneladas (189 t nas unidades de 60 Hz, 217 t nas de 50 Hz, pela ficha técnica da usina) e viaja de balsa. Os três são a mesma máquina: duas bobinas de fio enroladas num núcleo de ferro, sem nenhum fio ligando uma à outra, e a corrente que entra por uma sai pela outra com outra tensão. O liquidificador da cozinha, o ventilador de teto, o elevador do prédio, a bomba que enche a caixa d’água e o motor de um carro elétrico também são uma só máquina, o motor, que é o gerador da usina funcionando ao contrário: lá, movimento vira corrente; aqui, corrente vira movimento. E a usina, o transformador e o motor estão ligados em série pelo fio que passa na sua rua, numa cadeia que começa a 18 000 volts num eixo que gira uma vez e meia por segundo, sobe a 500 000 volts para atravessar o país e desce a 220 volts na sua tomada, sessenta vezes por segundo trocando de sentido.

Esta é a página das três máquinas do eletromagnetismo: o alternador, o transformador e o motor, e da rede que as liga. Ela abre o alternador e mostra rotor, estator, polos, anéis e escovas, e por que a frequência da rede é o número de polos vezes a rotação; explica o dínamo e o comutador que transforma a corrente alternada em contínua; constrói o transformador a partir da indução mútua, com a razão de espiras V1/V2=N1/N2V_1/V_2 = N_1/N_2, a conservação de potência e a restrição de fábrica (só corrente alternada), e abre o transformador real para ver onde ele perde energia e por que o núcleo é laminado; refaz a conta que justifica os 500 000 volts das linhas de transmissão e percorre a rede brasileira da usina à tomada, com a transmissão em corrente contínua de Itaipu e de Belo Monte como caso especial; monta o motor de corrente contínua com comutador e escovas, explica o motor de indução pelo campo girante, trata o motor como receptor (para onde vai a energia que ele não converte em movimento, e por que um motor travado queima) e fecha com a reversibilidade motor–gerador que o carro elétrico usa para frear, a leitura de placas e figuras de máquinas e os itens da banca. No PAS/UnB o assunto é da 3.ª etapa, nomeado por extenso na matriz (“Geradores, Transformadores e Motores”), e rendeu itens em 2009, 2010, 2011, 2013, 2017 e 2025: um dos dois assuntos do bloco de magnetismo com item na única prova sob a matriz vigente. A física de que as máquinas são feitas já tem página: a indução eletromagnética (fluxo, Faraday, Lenz e a fem senoidal da espira que gira) e a força magnética sobre um fio e o torque sobre uma espira, na página de força magnética. As usinas, a matriz elétrica e a potência de uma queda d’água estão em geração de energia elétrica; o gerador como elemento de circuito, com fem e resistência interna, em geradores e receptores; e as fórmulas de potência e efeito Joule, em potência elétrica.

Antes das máquinas: cinco coisas que a página supõe prontas

Variação de fluxo gera fem (Faraday). O fluxo magnético através de uma bobina de NN espiras é Φ=BAcos⁡θ\Phi = BA\cos\theta, e toda variação dele induz uma força eletromotriz ε=N ΔΦ/Δt\varepsilon = N\,\Delta\Phi/\Delta t. Campo constante sobre bobina parada não induz nada, por mais intenso que seja. O sentido vem da lei de Lenz: o campo da corrente induzida trabalha contra a variação de fluxo que lhe deu origem. É a página de indução eletromagnética.

Uma espira que gira num campo produz fem senoidal. Com a espira girando a ω=2πf\omega = 2\pi f, o fluxo vale BAcos⁡ωtBA\cos\omega t e a fem, ε=NBAω sen⁡ωt\varepsilon = NBA\omega\,\operatorname{sen}\omega t: alternada, com amplitude NBAωNBA\omega e frequência igual à da rotação. A página de indução deduziu isso; aqui a espira vira máquina.

Um fio com corrente num campo sofre força, e uma espira sofre torque. F=BiLsen⁡θF = BiL\operatorname{sen}\theta sobre o fio; sobre uma espira retangular de área AA com corrente ii, o torque vale τ=NBiAsen⁡α\tau = N B i A\operatorname{sen}\alpha: atinge o valor máximo com as linhas de campo deitadas no plano da espira e se anula com as linhas atravessando esse plano em ângulo reto. A força resultante sobre a espira num campo uniforme é zero; o que sobra é o giro. A página de força magnética construiu isso, e o motor usa.

Potência é tensão vezes corrente, e perda no fio é resistência vezes corrente ao quadrado. P=UiP = Ui e PJoule=Ri2P_{\text{Joule}} = Ri^2, da página de potência elétrica. A segunda fórmula é a razão de ser das linhas de alta tensão.

O receptor consome fem. Um elemento que converte energia elétrica em outra forma (que não só calor) tem uma força contraeletromotriz ε′\varepsilon' e uma resistência interna r′r', e obedece a U=ε′+r′iU = \varepsilon' + r'i: da tensão aplicada, a parte ε′i\varepsilon' i vira energia útil e a parte r′i2r' i^2 vira calor. A página de geradores e receptores deduziu a equação; o motor é o receptor por excelência.

O alternador: a espira que gira vira máquina

Um gerador de verdade não é uma espira solta num campo. É um rotor (a parte que gira) dentro de um estator (a parte fixa), e a primeira decisão de projeto é quem gira: o campo ou as bobinas em que a fem é induzida (o induzido). Nos geradores de bancada e nos alternadores pequenos, o induzido gira dentro de um campo fixo, feito por ímãs permanentes ou por eletroímãs; a corrente sai do rotor por dois anéis coletores, discos de cobre presos ao eixo, sobre os quais deslizam escovas de grafite ligadas ao circuito externo. Nos geradores das usinas a escolha é a inversa: o campo é que gira. O rotor é um eletroímã (uma roda de polos norte e sul alternados, alimentados por uma corrente contínua pequena, a excitação, que entra pelos anéis), e o induzido fica parado no estator, com suas bobinas enroladas em ranhuras na parede interna. A razão é prática: a corrente do induzido de uma máquina de 700 MW é de dezenas de milhares de ampères, e tirar isso de uma peça girante por escovas seria um desastre de faíscas e aquecimento; a corrente de excitação, de centenas de ampères, passa pelos anéis sem dificuldade. A física é a mesma nos dois arranjos: o que importa é que o fluxo através das bobinas do induzido oscile, e tanto faz se é a bobina que gira no campo ou o campo que gira na bobina. Em 2010 a banca julgou exatamente essa indiferença: entre as “modificações possíveis” num gerador de bobina girante, a opção correta era “manter a bobina fixa e variar o campo magnético externo”, com base na lei de Faraday.

Dois painéis. À esquerda, um alternador pequeno em corte: um ímã em forma de U fixo (estator) com os polos norte e sul voltados um para o outro, uma espira retangular girando entre eles em torno de um eixo horizontal, dois anéis coletores presos ao eixo, cada um ligado a uma ponta da espira, e duas escovas fixas encostadas nos anéis, ligadas a uma lâmpada; uma seta curva indica a rotação. À direita, um gerador de usina em corte transversal: um estator em anel com bobinas em ranhuras na parede interna e um rotor em roda com oito polos alternados norte e sul; uma seta curva indica a rotação do rotor e as legendas anotam que o campo gira e o induzido fica parado, com a excitação em corrente contínua entrando pelos anéis.
Dois jeitos de construir o mesmo gerador. À esquerda, o induzido gira num campo fixo e a corrente sai por anéis e escovas: é o alternador de bancada e o da figura do item de 2010. À direita, o campo gira (roda de polos excitada por corrente contínua) e o induzido fica parado no estator: é o gerador das usinas, que entrega dezenas de milhares de ampères sem passar por nenhuma escova. Nos dois, a fem nasce da variação do fluxo pelas bobinas do induzido. Diagrama autoral.

A segunda decisão é o número de polos, e ela amarra a frequência da rede à velocidade da turbina. Numa máquina com um só par de polos (um norte e um sul), cada volta do rotor faz o fluxo em cada bobina do estator completar um ciclo: uma volta, um ciclo de fem. Com pp pares de polos, cada bobina vê passar pp nortes e pp suls por volta, e são pp ciclos por volta. Se o rotor gira a nn rotações por minuto, a frequência da fem é

f=p n60f = \frac{p\,n}{60}

símbolo leitura exemplo
ff frequência da fem, em hertz 60 Hz
pp número de pares de polos do rotor 39 pares (78 polos)
nn rotação do rotor, em rotações por minuto 92,3 rpm
O alternador em uma frase

Um alternador é um induzido e um campo em movimento relativo; a fem é alternada, com amplitude proporcional ao número de espiras, ao campo, à área das bobinas e à velocidade de rotação, e com frequência f=pn/60f = pn/60, o número de pares de polos vezes as rotações por segundo. No Brasil a rede é de 60 Hz, e cada usina escolhe o par (polos, rotação) que fecha nesse número.

Os números das usinas saem dessa fórmula. Uma turbina a vapor, de termelétrica ou de usina nuclear, gira depressa, 3 600 rpm; para dar 60 Hz basta um par de polos: f=1×3 600/60=60f = 1 \times 3\,600/60 = 60 Hz. É o turbogerador, um cilindro longo e fino, feito para girar rápido. Uma turbina hidráulica gira devagar, porque a água empurra pás grandes a baixa velocidade: as unidades de 60 Hz de Itaipu giram a 92,3 rpm, e para dar 60 Hz o rotor precisa de 39 pares de polos, 78 polos ao todo: f=39×92,3/60≈60,0f = 39 \times 92{,}3/60 \approx 60{,}0 Hz. (As unidades que abastecem o Paraguai, em 50 Hz, giram a 90,9 rpm com 66 polos: 33×90,9/60≈50,033 \times 90{,}9/60 \approx 50{,}0 Hz.) O gerador hidráulico é, por isso, uma roda enorme e achatada, com os polos em volta como dentes. Esta é a resposta à pergunta que o item de 2025 deixou implícita ao dizer que a geração a vapor “é equivalente” à hidrelétrica: o princípio é o mesmo, Faraday nos dois, mas a máquina muda de forma para que turbinas de velocidades tão diferentes produzam a mesma frequência.

Exemplo resolvido 1: o gerador da bicicleta e o da usina. (a) O “dínamo” de uma bicicleta tem um ímã de 4 polos que gira a 3 000 rpm quando a roda anda. Qual a frequência da fem? (b) Que rotação daria 60 Hz num gerador de 12 polos?

(a) Quatro polos são p=2p = 2 pares: f=2×3 000/60=100f = 2 \times 3\,000/60 = 100 Hz. O farol pisca cem vezes por segundo, rápido demais para o olho. (b) Doze polos, p=6p = 6: n=60f/p=60×60/6=600n = 60f/p = 60 \times 60/6 = 600 rpm. Conferência: 6×600/60=606 \times 600/60 = 60 Hz. Repare na regra inversa: mais polos, rotação menor para a mesma frequência; é por isso que a turbina lenta precisa de dezenas de polos e a rápida, de um par.

A fem do gerador comercial que a banca escreveu em 2010, “fem =220sen⁡(120πt)= 220\operatorname{sen}(120\pi t) V”, junta os dois dados do enunciado: 60 Hz dá ω=2π×60=120π\omega = 2\pi \times 60 = 120\pi rad/s, e a amplitude de 220 V multiplica o seno. Vale uma ressalva que o item não exigia: os “220 V” da rede real são o valor eficaz, uma média que mede o efeito térmico da corrente; a amplitude da senoide da tomada é 2202≈311220\sqrt{2} \approx 311 V. O item tomou 220 V como amplitude, e a expressão está certa na forma: seno, 120π120\pi no argumento, tensão multiplicando. Na prova, leia a frequência no argumento e o pico na frente; se o enunciado disser “valor eficaz”, o pico é 2\sqrt{2} vezes maior.

O que limita o rendimento de um alternador é o que limita toda máquina elétrica: a corrente do induzido aquece o cobre (Ri2Ri^2), o fluxo oscilante aquece o ferro do estator (as perdas que a seção do transformador real detalha), o rotor gasta energia em atrito nos mancais e na ventilação, e a excitação consome uma parcela. Nos grandes geradores de usina tudo isso soma menos de 2 % da potência: rendimento acima de 98 %, o maior entre as máquinas que o ser humano constrói. Há ainda uma perda minúscula que a banca lembrou em 2025: a corrente alternada é não estacionária, muda de valor e de sentido o tempo todo, e cargas aceleradas irradiam; um gerador de corrente alternada perde uma fração ínfima da energia como ondas eletromagnéticas. O item julgava a existência dessa perda, não o seu tamanho, e estava certo.

O alternador do carro

Todo carro a combustão tem um alternador preso ao motor por uma correia. Ele gera corrente alternada trifásica, que uma ponte de diodos converte em contínua para carregar a bateria de 12 V e alimentar faróis, injeção e som. A luz vermelha de bateria no painel, com o motor ligado, quase nunca é a bateria: é o alternador que parou de gerar, por correia partida ou escovas gastas. Com ele parado, o carro roda até a bateria esvaziar, e para.

O dínamo: o comutador que faz a corrente sair sempre do mesmo lado

A espira que gira produz fem alternada; se você quer corrente contínua (para carregar uma bateria, por exemplo), precisa inverter a ligação da espira ao circuito externo a cada meia-volta, exatamente no instante em que a fem troca de sinal. É o que faz o comutador: em vez de dois anéis inteiros, um só anel cortado em duas metades isoladas, cada metade ligada a uma ponta da espira. As duas escovas fixas encostam nas duas metades; quando a espira dá meia-volta, as metades trocam de escova, e a ponta que estava ligada ao terminal positivo passa a estar ligada ao negativo, no mesmo instante em que a fem da espira inverte. O resultado é que o terminal positivo recebe sempre a meia-onda positiva: a fem externa é o “módulo” da senoide, uma sequência de corcovas sempre do mesmo lado, pulsante mas contínua. Com várias espiras defasadas no mesmo rotor, cada uma com seu par de segmentos no comutador, as corcovas se somam e a saída fica quase lisa. Essa máquina é o dínamo, o gerador de corrente contínua dos primeiros sistemas elétricos e, até hoje, de alguns carros antigos e aparelhos de medida.

Dois painéis lado a lado, cada um com um desenho da ligação ao eixo e um gráfico de fem contra tempo ao longo de duas voltas. À esquerda, dois anéis coletores inteiros com duas escovas e, abaixo, uma senoide completa que alterna entre valores positivos e negativos, rotulada alternador. À direita, um anel cortado em duas metades isoladas, com as escovas tocando as metades e uma seta indicando que elas trocam de lado a cada meia-volta; abaixo, o gráfico mostra as meias-ondas negativas rebatidas para cima, formando corcovas sempre positivas, rotulado dínamo; uma linha tracejada mostra a saída mais lisa quando várias bobinas defasadas se somam.
Anéis inteiros entregam a senoide como ela é: corrente alternada (alternador). O comutador, um anel cortado ao meio, troca as ligações a cada meia-volta e rebate as meias-ondas negativas para cima: corrente contínua pulsante (dínamo). Com várias bobinas defasadas, as corcovas se somam numa saída quase constante. A física da fem é a mesma; muda só o contato com o mundo exterior. Diagrama autoral.
O "dínamo" da bicicleta é um alternador

O cilindro que se encosta no pneu para acender o farol tem, dentro, um ímã permanente de vários polos que gira diante de uma bobina fixa, sem comutador: a saída é alternada, e a lâmpada (ou o LED, com um diodo) não se importa com o sentido. O nome “dínamo” ficou da época em que todo gerador pequeno era de corrente contínua. Nas bicicletas modernas, o gerador fica dentro do cubo da roda dianteira, pelo mesmo princípio.

O transformador: duas bobinas que conversam pelo ferro

Enrole duas bobinas em lados opostos de um anel de ferro fechado: N1N_1 espiras na primária, N2N_2 na secundária. Ligue a primária a uma tensão alternada. A corrente alternada da primária cria no ferro um fluxo magnético que oscila sessenta vezes por segundo, e o ferro, que concentra as linhas de campo, leva praticamente todo esse fluxo até a secundária, que o vê atravessar suas espiras. Fluxo variando numa bobina: fem induzida, Faraday. A secundária, sem nenhum fio ligando-a à primária, passa a ter entre seus terminais uma tensão alternada de mesma frequência. É a montagem do anel com que Faraday descobriu a indução em 1831, industrializada; o efeito de uma bobina sobre a outra chama-se indução mútua. Em 2009 a banca julgou a frase em sua forma mais simples: “o funcionamento de um transformador pode ser adequadamente explicado com base na lei de Faraday”, certo.

A razão de tensões sai de uma observação: o fluxo que atravessa cada espira da primária é o mesmo que atravessa cada espira da secundária (o ferro garante isso), logo a fem induzida por espira é a mesma nas duas bobinas, ΔΦ/Δt\Delta\Phi/\Delta t. A primária, com N1N_1 espiras, tem V1=N1 ΔΦ/ΔtV_1 = N_1\,\Delta\Phi/\Delta t; a secundária, V2=N2 ΔΦ/ΔtV_2 = N_2\,\Delta\Phi/\Delta t. Dividindo uma pela outra:

V1V2=N1N2ouV2V1=N2N1\frac{V_1}{V_2} = \frac{N_1}{N_2} \qquad\text{ou}\qquad \frac{V_2}{V_1} = \frac{N_2}{N_1}

símbolo leitura exemplo
V1V_1, N1N_1 tensão e número de espiras da primária (entrada) 220 V, 400 espiras
V2V_2, N2N_2 tensão e número de espiras da secundária (saída) 11 V, 20 espiras
i1i_1, i2i_2 correntes na primária e na secundária 0,05 A, 1 A

Mais espiras na secundária que na primária: tensão de saída maior, transformador elevador (o da saída da usina). Menos espiras: tensão menor, abaixador (o do poste, o do carregador). A razão de espiras é uma razão de tensões, e esse é o lugar em que a banca planta a inversão: em 2009, o transformador do consumidor recebia 22 000 V e entregava 220 V, razão 1/100, e o item dizia que ele “precisará ter 100 vezes mais espiras na bobina secundária que na primária”: errado, são 100 vezes menos. Faça a conferência de sanidade sempre: abaixador, secundária com menos espiras; elevador, com mais.

O transformador ideal

Duas bobinas acopladas por um núcleo de ferro, sem contato elétrico. Tensões na razão das espiras, V2/V1=N2/N1V_2/V_1 = N_2/N_1. No transformador ideal nada se perde, e a potência que entra é a que sai: V1i1=V2i2V_1 i_1 = V_2 i_2, ou seja, as correntes ficam na razão inversa das espiras, i2/i1=N1/N2i_2/i_1 = N_1/N_2. Elevar a tensão kk vezes é reduzir a corrente kk vezes. Ele só funciona com corrente alternada (fluxo variável) e não altera a frequência: 60 Hz entram, 60 Hz saem.

A conservação de potência é o que o nome “transformador” esconde: ele transforma tensão, não energia. Ninguém cria watts enrolando fio. Se a secundária entrega i2i_2 a V2V_2, a primária puxa da rede uma corrente i1=V2i2/V1i_1 = V_2 i_2 / V_1: um transformador que eleva a tensão cem vezes entrega um centésimo da corrente. A afirmação “o transformador eleva a potência” é errada por princípio, em qualquer variante em que apareça; a resposta certa é sempre “eleva a tensão e reduz a corrente na mesma proporção”. Um corolário útil: a secundária só puxa corrente da primária quando há carga ligada a ela; um transformador ligado à rede com a secundária em aberto consome quase nada (só as perdas do ferro, que a próxima seção explica).

Exemplo resolvido 2: o carregador e a caixa do poste. (a) O transformador de um carregador tem 400 espiras na primária, ligada aos 220 V da rede, e 20 na secundária. Tensão na saída? Se o aparelho puxa 1 A da secundária, que corrente a primária tira da rede? (b) O transformador do poste recebe 13 800 V e entrega 220 V a uma rua inteira, que numa noite de verão puxa 300 A. Qual é a razão entre as espiras das duas bobinas, e que corrente circula no lado de alta tensão?

(a) V2=V1 N2/N1=220×20/400=220/20=11V_2 = V_1\,N_2/N_1 = 220 \times 20/400 = 220/20 = 11 V. É um abaixador, e 11 V num carregador é plausível; se a conta desse 4 400 V, a proporção estaria invertida. Potência na secundária: 11×1=1111 \times 1 = 11 W; na primária, a mesma: i1=11/220=0,05i_1 = 11/220 = 0{,}05 A, vinte vezes menos corrente, porque a tensão é vinte vezes maior. Conferência pela razão inversa: i1/i2=N2/N1=20/400=1/20i_1/i_2 = N_2/N_1 = 20/400 = 1/20, e 1/20=0,051/20 = 0{,}05 A. (b) N1/N2=13 800/220≈62,7N_1/N_2 = 13\,800/220 \approx 62{,}7: para cada volta de fio na secundária, a primária dá quase 63. A rua consome 220×300=66 000220 \times 300 = 66\,000 W, e essa potência atravessa o transformador: no lado de 13 800 V bastam 66 000/13 800≈4,866\,000/13\,800 \approx 4{,}8 A, a mesma razão de 62,7 aplicada ao contrário (300/62,7≈4,8300/62{,}7 \approx 4{,}8).

Um núcleo de ferro retangular fechado, em corte, com a bobina primária enrolada na perna esquerda e a secundária na perna direita; a primária tem visivelmente mais voltas e está ligada a uma fonte de tensão alternada marcada V1, 220 volts; a secundária, com menos voltas, está ligada a uma lâmpada marcada V2, 11 volts. Uma linha tracejada com seta percorre o anel de ferro por dentro, rotulada fluxo variável, o mesmo em toda espira. Abaixo, as duas relações: V1 sobre V2 igual a N1 sobre N2, e V1 vezes i1 igual a V2 vezes i2; um rótulo indica N1 igual a 400 e N2 igual a 20.
O transformador abaixador do exemplo: 400 espiras na primária, 20 na secundária, 220 V entram, 11 V saem. O fluxo oscilante é o mesmo em todas as espiras das duas bobinas, por isso a tensão é proporcional ao número de espiras. A potência é a mesma dos dois lados: a corrente da primária é vinte vezes menor que a da secundária. Diagrama autoral.

A restrição de fábrica merece uma frase à parte. Ligue a primária a uma pilha: no instante em que a corrente se estabelece, o fluxo cresce e a secundária dá um pulso; depois a corrente fica constante, o fluxo fica constante, e a secundária entrega zero, para sempre, enquanto a pilha durar. Desligue a pilha e vem outro pulso, de sinal contrário. Transformador com corrente contínua constante é um pedaço de ferro com fio em volta. É por isso que a rede elétrica é de corrente alternada: sem transformadores não haveria como elevar a tensão para transmitir e abaixá-la para usar, e a página de história da eletricidade conta a disputa dos anos 1880 entre a corrente contínua de Edison e a alternada de Westinghouse e Tesla, decidida por esse argumento. A frase “transformador é uma máquina de corrente contínua que transforma corrente de alta frequência em corrente de baixa frequência”, do item de 2011, erra duas vezes: é máquina de corrente alternada, e muda tensão, não frequência.

Espiras, tensão, corrente, potência, frequência: o que muda e o que não muda

O número de espiras de cada bobina é proporcional à sua tensão e inversamente proporcional à sua corrente. A potência não muda no ideal, e cai um pouco no real. A frequência nunca muda. E o transformador não funciona com corrente contínua constante. Item que eleva a potência, muda a frequência, funciona com pilha ou põe mais espiras no abaixador está errado.

O transformador real: onde a energia escapa e por que o núcleo é laminado

Um transformador de poste chega a 98 % de rendimento, e os grandes transformadores de subestação passam de 99 %; nenhum chega a 100 %, e os pequenos de parede ficam bem abaixo. A energia que falta sai como calor, por três caminhos, e cada um tem nome e remédio.

Perdas no cobre. As bobinas têm resistência, e a corrente as aquece: R1i12R_1 i_1^2 na primária, R2i22R_2 i_2^2 na secundária. Crescem com o quadrado da corrente, isto é, com a carga: um transformador em vazio quase não tem perda no cobre. O remédio é fio grosso, caro e pesado, e é por isso que o transformador de 200 toneladas de Itaipu é quase todo cobre e ferro.

Perdas por histerese. O ferro do núcleo é magnetizado e desmagnetizado 120 vezes por segundo (duas vezes por ciclo de 60 Hz, uma em cada sentido). Reorientar os domínios magnéticos do ferro custa energia a cada ciclo, dissipada como calor; a perda por ciclo é proporcional à área do laço de histerese do material, e a perda por segundo cresce com a frequência. O remédio é um material “macio”, que magnetiza e desmagnetiza com pouco esforço: ligas de ferro com silício, usadas em todo transformador de rede.

Perdas por correntes de Foucault. O núcleo é um condutor atravessado por um fluxo variável; pela lei de Faraday, surgem nele correntes induzidas, girando em planos perpendiculares ao fluxo, que o aquecem por efeito Joule. Essas correntes seriam enormes num bloco maciço de ferro. O remédio é cortar o caminho delas: o núcleo é feito de lâminas finas de aço-silício, de meio milímetro ou menos, isoladas entre si por verniz e empilhadas com as lâminas paralelas ao fluxo. O fluxo passa normalmente de lâmina em lâmina (o verniz é fino e o ferro continua ferro), mas as correntes de Foucault, que precisariam circular atravessando as lâminas, encontram o verniz e ficam confinadas a laços minúsculos dentro de cada lâmina, com perda muito menor. Olhe de perto o núcleo de qualquer transformador, de carregador ou de poste: ele é um sanduíche de chapas, nunca um bloco.

As três perdas e os três remédios

Cobre: Ri2Ri^2 nas bobinas, cresce com a carga; remédio, fio grosso. Histerese: reorientar os domínios do ferro a cada ciclo; remédio, aço-silício de laço estreito. Foucault: correntes induzidas no próprio núcleo; remédio, núcleo laminado com lâminas isoladas paralelas ao fluxo. As perdas no ferro existem mesmo em vazio; as no cobre, só com carga. Rendimento: η=P2/P1\eta = P_2/P_1, de 95 % a 99 % nos transformadores de rede.

Dois sinais de que tudo isso acontece. O zumbido do transformador de poste, aquele “hum” grave, é o ferro vibrando: as lâminas se contraem e se dilatam um pouco a cada magnetização (magnetostrição), 120 vezes por segundo, e o som sai em 120 Hz com harmônicos. E o calor: os transformadores grandes ficam mergulhados em óleo, que esfria as bobinas e o núcleo e circula por radiadores externos, as aletas de ferro que se veem nas subestações; um transformador que “estoura” num temporal é quase sempre um transformador que sobreaqueceu ou cujo óleo perdeu a isolação.

Por que o carregador moderno é tão pequeno

O carregador de celular de vinte anos atrás era um tijolo pesado: transformador de 60 Hz, com núcleo de ferro grande, porque em frequência baixa é preciso muito ferro e muitas espiras para o fluxo não saturar. O carregador atual pesa 50 gramas porque não transforma os 60 Hz da rede: ele primeiro retifica a tensão da rede, depois a “pica” eletronicamente em pulsos de dezenas ou centenas de quilohertz, e só então passa por um transformador minúsculo, de núcleo de ferrite, que em frequência alta faz o mesmo serviço com uma fração do tamanho. É a fonte chaveada; a física do transformador é a mesma, a frequência é que mudou.

Exemplo resolvido 3: o rendimento do transformador de poste. Um transformador de distribuição de 75 kVA alimenta, numa hora de pico, cargas que somam 60 kW a 220 V. Suas perdas no ferro são de 300 W (constantes) e as no cobre, nessa carga, de 900 W. (a) Rendimento. (b) Corrente na secundária e na primária de 13 800 V. © O que acontece com cada perda às três da manhã, com a carga em 6 kW?

(a) Potência que entra: 60 000+300+900=61 20060\,000 + 300 + 900 = 61\,200 W; η=60 000/61 200≈0,98\eta = 60\,000/61\,200 \approx 0{,}98, 98 %. (b) Secundária: i2=60 000/220≈273i_2 = 60\,000/220 \approx 273 A. Primária: a potência de entrada é 61 200 W a 13 800 V, i1=61 200/13 800≈4,4i_1 = 61\,200/13\,800 \approx 4{,}4 A; pela razão ideal daria 273×220/13 800≈4,35273 \times 220/13\,800 \approx 4{,}35 A, e a diferença é a corrente que paga as perdas. © A perda no ferro continua 300 W (ela depende da tensão e da frequência, que não mudaram). A no cobre cai com o quadrado da corrente: a carga caiu dez vezes, a corrente dez vezes, a perda cem vezes: 9 W. Rendimento de madrugada: 6 000/(6 000+309)≈0,956\,000/(6\,000 + 309) \approx 0{,}95. Um transformador em carga leve rende menos, porque a perda fixa do ferro pesa mais na conta.

Por que 500 000 volts: a conta da linha

A energia sai do gerador de Itaipu a 18 kV e, antes de percorrer um metro de linha, é elevada a 500 kV. Em volta de São Paulo, desce a 138 kV, depois a 13,8 kV, e a caixa do poste entrega 220 V ou 127 V. Toda essa ginástica tem um único motivo, e ele não é “a energia ir mais rápido” (o sinal elétrico viaja à mesma velocidade em qualquer tensão). O motivo é a perda no fio.

A linha tem resistência RR, e a corrente que passa por ela aquece o cabo: Pperdida=R i2P_{\text{perdida}} = R\,i^2. A potência que a linha transporta é P=U iP = U\,i; para transportar a mesma potência, elevar a tensão reduz a corrente na mesma proporção, i=P/Ui = P/U, e a perda cai com o quadrado:

Pperdida=R i2=R(PU)2=R P2U2P_{\text{perdida}} = R\,i^2 = R\left(\frac{P}{U}\right)^2 = \frac{R\,P^2}{U^2}

símbolo leitura exemplo
PP potência transmitida (a que o consumidor recebe mais a perda), em watt 220 kW
UU tensão de transmissão, em volt 22 000 V
i=P/Ui = P/U corrente na linha, em ampère 10 A
RR resistência total dos cabos da linha, em ohm 0,40 Ω
Ri2R i^2 potência perdida por efeito Joule nos cabos, em watt 40 W
A regra do quadrado

Para a mesma potência e a mesma linha, multiplicar a tensão por kk divide a corrente por kk e a perda por k2k^2. Dez vezes a tensão, cem vezes menos perda; cem vezes a tensão, dez mil vezes menos. A fração perdida, Pperdida/P=RP/U2P_{\text{perdida}}/P = RP/U^2, só depende do inverso do quadrado da tensão para uma potência e uma linha dadas. É a única razão de existirem torres de 500 kV.

Exemplo resolvido 4: a linha de 0,40 Ω. Uma usina envia 220 kW a uma cidade por uma linha de 10 km cuja resistência total é 0,40 Ω. Compare a perda transmitindo a 22 000 V e a 220 V.

A 22 000 V: i=220 000/22 000=10i = 220\,000/22\,000 = 10 A; perda =0,40×102=40= 0{,}40 \times 10^2 = 40 W, isto é, 40/220 000≈0,02 %40/220\,000 \approx 0{,}02\,\% do que foi enviado. A 220 V: i=220 000/220=1 000i = 220\,000/220 = 1\,000 A; perda =0,40×1 0002=400 000= 0{,}40 \times 1\,000^2 = 400\,000 W, maior que os 220 kW enviados: a linha não entregaria nada, e o cabo derreteria antes. A razão entre as perdas é (1 000/10)2=10 000(1\,000/10)^2 = 10\,000, o quadrado da razão de tensões. Conferência: RP2/U2=0,40×(2,2×105)2/(2,2×104)2=0,40×100=40RP^2/U^2 = 0{,}40 \times (2{,}2 \times 10^5)^2/(2{,}2 \times 10^4)^2 = 0{,}40 \times 100 = 40 W. A banca usou exatamente esta linha duas vezes: em 2009, o item que dizia que a transmissão “será mais eficiente” a 220 V que a 220 000 V “pois a perda de potência na linha será 1 000 vezes menor no primeiro caso” errava duas vezes (a perda é menor em alta tensão, e a razão entre as perdas é 1 0002=1061\,000^2 = 10^6); em 2013, o item que afirmava que a linha de 22 000 V perde, em porcentagem, mais que uma de 200 V estava errado, e o tipo C do mesmo bloco pedia as correntes na linha de alta e na rede da casa para os mesmos 220 kW: 10 A e 1 000 A.

"Em alta tensão a corrente corre mais" e outras versões do mesmo erro

A tensão alta não acelera nada; ela reduz a corrente necessária para a mesma potência, e a perda depende do quadrado da corrente. Outras formas do erro: “alta tensão reduz a resistência da linha” (a resistência é do cabo, não da tensão), “a perda cai na proporção da tensão” (cai com o quadrado), “o transformador elevador aumenta a potência disponível” (conserva), “em alta tensão a energia chega mais depressa” (a velocidade do sinal não depende da tensão). E a conta tem dois lugares para errar: usar a tensão da casa na corrente da linha, e esquecer o quadrado.

Há um limite para a tensão, e ele não é a física das perdas: é o ar. Acima de algumas centenas de quilovolts, o campo elétrico em volta do cabo ioniza o ar em volta (o efeito corona, o chiado e o brilho azulado das linhas em noite úmida), e isso também perde energia; os isoladores precisam ser compridos (as “colunas” de discos de vidro nas torres, um disco a mais para cada dezena de quilovolts), e a distância entre os cabos cresce. Por isso as linhas param em 500 a 800 kV, e usam feixes de dois, três ou quatro cabos por fase para reduzir o campo na superfície.

Da usina à tomada: a rede brasileira

O caminho inteiro, com os números do Brasil, é uma cadeia de transformadores:

  1. Geração. O alternador produz entre 6 kV e 25 kV (Itaipu: 18 kV), em corrente alternada trifásica de 60 Hz.
  2. Elevação. Na subestação ao lado da usina, transformadores elevadores levam a tensão a 230 kV, 345 kV, 500 kV ou 765 kV, conforme a distância e a potência. As três linhas de 765 kV que ligam Itaipu a São Paulo, com cerca de 900 km, são as de maior tensão em corrente alternada do país.
  3. Transmissão. Torres de aço, cabos de alumínio com alma de aço (leves, baratos e com resistência baixa) e isoladores de vidro ou porcelana. Esta é a malha do Sistema Interligado Nacional, que permite a uma hidrelétrica do Norte abastecer o Sudeste e vice-versa.
  4. Subestações abaixadoras. À entrada das cidades, a tensão desce a 138 kV ou 69 kV (subtransmissão) e, nas subestações de distribuição, a 13,8 kV, a tensão dos fios do alto dos postes.
  5. Distribuição. O transformador do poste abaixa os 13,8 kV à baixa tensão da rua. No Brasil ela varia por região: 127 V entre fase e neutro (220 V entre fases) em São Paulo, no Rio e em boa parte do Sul e do Sudeste; 220 V entre fase e neutro (380 V entre fases) em Brasília, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste e do Norte. É por isso que o chuveiro comprado em Goiânia pode não servir em Campinas.
  6. A casa. Medidor, disjuntor, tomadas. O ciclo de 60 Hz que entra é o mesmo que saiu do gerador a centenas de quilômetros: nenhum transformador o alterou.
Uma faixa horizontal com seis blocos ligados por linhas, da esquerda para a direita: gerador com o rótulo 18 kV e 60 Hz; transformador elevador com o rótulo 500 kV; torre de transmissão com um cabo longo e o rótulo centenas de quilômetros; subestação abaixadora com os rótulos 138 kV e 13,8 kV; poste com transformador e o rótulo 127 ou 220 V; casa com uma tomada. Abaixo de cada bloco, a tensão e uma barra cuja altura indica a corrente, baixa no gerador de 18 kV, mínima na linha de 500 kV e alta na rede da casa; uma legenda anota que a potência é a mesma ao longo da cadeia e que a frequência de 60 Hz não muda.
A cadeia da usina à tomada no Brasil: geração em quilovolts, elevação a centenas de quilovolts para a viagem, degraus de descida nas subestações e no poste, 60 Hz do começo ao fim. A potência é (quase) a mesma em cada elo; a corrente é mínima onde a tensão é máxima, e a perda Ri2Ri^2 é paga onde a corrente é alta. Diagrama autoral.

E a corrente contínua? O transformador decidiu a disputa dos anos 1880 a favor da corrente alternada, mas a corrente contínua voltou pela porta das linhas muito longas. Uma linha de corrente alternada muito comprida tem perdas que a contínua não tem (a corrente alternada “carrega e descarrega” a capacitância da linha sessenta vezes por segundo e se concentra na periferia do cabo), precisa de três cabos por circuito em vez de dois e não pode ligar redes de frequências diferentes. A transmissão em corrente contínua em alta tensão (HVDC, da sigla em inglês) resolve isso: a corrente alternada do gerador é elevada por transformadores, convertida em contínua por uma estação conversora de válvulas eletrônicas, viaja em dois cabos, e é convertida de volta em alternada na chegada. As estações conversoras são caras, e a conta só fecha para linhas de muitas centenas de quilômetros ou para ligar sistemas de frequências diferentes. O Brasil tem os dois casos. A metade paraguaia de Itaipu gera em 50 Hz; para trazer essa energia ao sistema brasileiro de 60 Hz, duas linhas de ±600 kV em corrente contínua ligam Foz do Iguaçu a Ibiúna, em São Paulo, por cerca de 810 km, desde os anos 1980. E a usina de Belo Monte, no Pará, envia energia ao Sudeste por dois bipolos de ±800 kV, um até Estreito, em Minas Gerais (2 076 km), outro até o Rio de Janeiro (cerca de 2 540 km), as linhas mais longas e de maior tensão do país. Repare na lógica: a corrente contínua não dispensa o transformador; ela o usa nas duas pontas, antes e depois da conversão, porque só ele eleva e abaixa a tensão.

Para que serve o "transformador" da loja de eletrodomésticos

A caixinha de 110/220 V vendida para ligar um aparelho de 127 V numa tomada de 220 V é um transformador pequeno, em geral um autotransformador (uma só bobina com uma derivação no meio, que serve de primária e de secundária ao mesmo tempo). A etiqueta diz a potência máxima em VA; ligar um chuveiro de 5 000 W num transformador de 500 VA queima a bobina, porque a corrente da secundária passa dez vezes do projetado e a perda Ri2Ri^2 cresce cem vezes.

O motor de corrente contínua: a espira, o comutador e as escovas

Volte à espira do motor do item de 2017: um retângulo de fio de 0,3 m por 0,2 m, com corrente de 1 A, preso a um eixo, num campo de 0,1 T apontando para cima. Os dois lados de 0,3 m são perpendiculares ao campo e carregam correntes em sentidos opostos: cada um sofre F=BiL=0,1×1×0,3=0,03F = BiL = 0{,}1 \times 1 \times 0{,}3 = 0{,}03 N, mas em sentidos contrários: um lado é empurrado para fora da página, o outro é puxado para dentro dela. As forças não se somam (a resultante é zero); elas formam um par, e o par gira a espira em torno do eixo. O torque é força vezes braço, 0,03×0,2=6×10−30{,}03 \times 0{,}2 = 6 \times 10^{-3} N·m, e, escrito em geral, vale

τ=N B i A sen⁡α\tau = N\,B\,i\,A\,\operatorname{sen}\alpha

com AA a área da espira e α\alpha o ângulo entre o campo e a normal ao plano dela: máximo com o plano paralelo ao campo, zero com o plano perpendicular. O item 98 daquele bloco dizia que “o módulo do torque resultante no eixo de giro da espira condutora é proporcional à área do retângulo que representa a espira”, e estava certo: dobrar o comprimento dobra a força, dobrar a largura dobra o braço, e os dois juntos aparecem como a área. A página de força magnética deduz a força e o torque; aqui o problema é outro: como fazer a espira continuar girando.

Deixe a espira girar a partir da posição horizontal. O torque a leva à posição vertical, em que α=0\alpha = 0 e o torque se anula; a inércia a faz passar dessa posição, e aí o torque muda de sinal e a freia, trazendo-a de volta. Com corrente fixa, a espira oscila em torno da vertical e para: não é um motor, é um pêndulo. Para que ela dê a volta inteira, a corrente precisa inverter de sentido no instante em que o plano passa pela vertical, de modo que o torque continue no mesmo sentido de giro. É o mesmo comutador do dínamo, agora usado ao contrário: o anel cortado em duas metades, cada uma ligada a uma ponta da espira, girando com ela; as escovas fixas, ligadas à fonte, tocam uma metade durante meia-volta e a outra na meia-volta seguinte, e a corrente na espira troca de sentido a cada passagem pela vertical. A figura do motor de bonde de 2017 mostrava exatamente as “escovas” ligando a espira aos terminais da fonte, com os elétrons circulando pela espira num sentido que o próprio item 94 pedia para converter em corrente convencional.

Três painéis de um motor de corrente contínua visto de frente, com os polos norte à esquerda e sul à direita e o campo apontando da esquerda para a direita. No primeiro, a espira está horizontal: o lado da frente, com corrente saindo do papel, marcado por um ponto, sofre força para cima; o lado de trás, com corrente entrando, marcado por uma cruz, sofre força para baixo; uma seta curva indica o giro anti-horário e o comutador abaixo mostra a escova positiva tocando a metade ligada ao lado da frente. No segundo, a espira está vertical, as forças são colineares com o eixo e o torque é zero; o comutador mostra as escovas sobre a fenda entre as metades, e um rótulo diz que a inércia leva a espira adiante. No terceiro, a espira passou da vertical e as metades do comutador trocaram de escova, invertendo a corrente na espira; o lado que agora está em cima tem corrente entrando e força para baixo, e o giro continua anti-horário.
Por que o motor não trava a cada meia-volta. Na horizontal, o par de forças gira a espira; na vertical, o torque é zero e só a inércia a leva adiante; logo depois da vertical, o comutador já trocou as ligações e inverteu a corrente na espira, de modo que a força em cada lado inverte junto e o torque continua no mesmo sentido. Diagrama autoral.

Um motor de verdade tem muitas espiras, enroladas em ranhuras de um cilindro de ferro (o induzido ou armadura) e defasadas entre si, cada uma com seu par de segmentos no comutador: enquanto uma passa pela vertical e perde torque, outra está na horizontal com torque máximo, e o giro sai suave. O campo vem de ímãs permanentes (nos motores pequenos de brinquedo, de vidro elétrico de carro, de furadeira sem fio) ou de bobinas de campo no estator. As escovas são blocos de grafite pressionados por molas contra o comutador; gastam-se com o uso e são a peça que se troca num motor velho, e a faísca azulada que se vê pela fresta de uma furadeira ou de um liquidificador é a corrente saltando no instante da comutação.

O motor universal do liquidificador

Liquidificador, furadeira, aspirador de pó e batedeira usam um motor de comutador cujas bobinas de campo estão em série com o induzido: o motor universal. Como a corrente do campo e a do induzido invertem juntas quando a rede inverte, o torque não muda de sentido, e o motor funciona tanto em corrente contínua quanto em alternada, por isso o nome. Ele gira muito rápido (10 000 a 20 000 rpm) e faz barulho justamente pelas escovas; o ventilador de teto, silencioso e lento, é outro tipo de motor, o da próxima seção.

O motor de indução: o campo que gira e o rotor que corre atrás

A maioria dos motores que você não ouve, o do ventilador de teto, da bomba d’água, da máquina de lavar, da geladeira, do elevador e de quase toda fábrica, não tem comutador, nem escovas, nem contato elétrico com a parte que gira. É o motor de indução, inventado por Tesla nos anos 1880, e ele funciona por lei de Lenz.

O estator tem bobinas distribuídas em volta, alimentadas por correntes alternadas defasadas entre si (no motor trifásico, três bobinas a 120° alimentadas pelas três fases da rede; no monofásico, um capacitor fabrica a segunda fase). O resultado é um campo magnético cuja direção gira no espaço, a 60 voltas por segundo num motor de um par de polos: o campo girante. Imagine um ímã de ferradura girando em torno do motor; é isso que as bobinas fixas produzem, sem nada se mover. Dentro do estator fica o rotor: um cilindro de ferro laminado com barras de alumínio ou cobre fundidas nas ranhuras e curto-circuitadas por dois anéis nas pontas, uma “gaiola de esquilo”. O campo girante varre as barras do rotor; para uma barra, isso é um fluxo variável; Faraday induz corrente nas barras; e, pela lei de Lenz, a corrente induzida se opõe ao movimento relativo entre o campo e o rotor. A única maneira de o rotor “diminuir” esse movimento relativo é girar no mesmo sentido do campo, correndo atrás dele. O rotor acelera até quase alcançar o campo.

Quase: se o rotor girasse exatamente à velocidade do campo, não haveria movimento relativo, não haveria fluxo variável nas barras, não haveria corrente nem torque. O rotor gira sempre um pouco mais devagar que o campo, e a diferença, o escorregamento, é o que mantém a indução; com mais carga no eixo, o rotor atrasa um pouco mais, a corrente induzida cresce e o torque cresce junto. A velocidade do campo girante, a velocidade síncrona, é a mesma fórmula do alternador lida ao contrário: ns=60f/pn_s = 60f/p. Em 60 Hz, um motor de um par de polos tem campo a 3 600 rpm e gira a uns 3 500; um de dois pares (quatro polos), campo a 1 800 rpm e eixo a cerca de 1 750 rpm, o número mais comum nas placas de motores de bomba e de máquinas. Mudar a velocidade de um motor de indução é mudar a frequência que o alimenta, e é isso que o inversor de frequência do ar-condicionado “inverter” e dos elevadores modernos faz.

Três painéis mostrando o mesmo estator circular com três pares de bobinas a 120 graus, marcadas pelas fases 1, 2 e 3, em três instantes sucessivos. Em cada painel, a bobina com corrente máxima está destacada e uma seta grossa no centro mostra a direção do campo resultante, que gira de um painel para o outro em 120 graus, no sentido anti-horário. Um quarto painel, à direita, mostra o rotor em gaiola dentro do estator, com uma seta curva do campo girante e uma seta curva menor do rotor no mesmo sentido, e a legenda anota que o rotor gira um pouco mais devagar que o campo, com escorregamento.
O campo girante do motor de indução trifásico: três bobinas a 120°, alimentadas por correntes defasadas de 120°, produzem um campo resultante cuja direção gira a 60 voltas por segundo. O rotor em gaiola, sem ligação elétrica nenhuma, é arrastado pela lei de Lenz e corre atrás do campo, sempre um pouco mais devagar. Diagrama autoral.
Dois motores, dois princípios, uma física

Motor de corrente contínua: torque de F=BiLF = BiL sobre as espiras do induzido, com um comutador invertendo a corrente a cada meia-volta; controla-se a velocidade pela tensão. Motor de indução: campo girante no estator (ns=60f/pn_s = 60f/p), corrente induzida no rotor por Faraday, torque por Lenz; o rotor gira um pouco abaixo do síncrono e não tem escovas; controla-se a velocidade pela frequência. Nos dois, energia elétrica vira mecânica pela força sobre correntes num campo magnético.

Há uma terceira família, cada vez mais presente: os motores sem escovas (brushless) dos ventiladores de computador, dos drones, das bicicletas e dos carros elétricos, em que o rotor é um ímã permanente e a eletrônica faz o papel do comutador, chaveando as bobinas do estator na hora certa. A física continua a da espira num campo; o que a eletrônica removeu foi o contato que se gasta.

Para onde vai a energia: o motor como receptor

Ligado à rede, o motor é um receptor: consome potência elétrica Pel=UiP_{\text{el}} = Ui e entrega potência mecânica no eixo, PmecP_{\text{mec}}, sempre menor. A diferença é perda: calor nas bobinas (r′i2r'i^2), perdas no ferro (histerese e Foucault, as mesmas do transformador), atrito nos mancais e ventilação. O balanço é

Pel=Pmec+Pperdas,η=PmecPelP_{\text{el}} = P_{\text{mec}} + P_{\text{perdas}}, \qquad \eta = \frac{P_{\text{mec}}}{P_{\text{el}}}

Para um motor de corrente contínua, a equação do receptor organiza as contas: U=ε′+r′iU = \varepsilon' + r'i, em que ε′\varepsilon' é a força contraeletromotriz, a fem que o próprio motor gera ao girar (ele é também um gerador, e sua espira girando no campo induz uma fem que se opõe à corrente que a rede empurra), e r′r' é a resistência das bobinas. Multiplicando tudo pela corrente: Ui=ε′i+r′i2Ui = \varepsilon' i + r' i^2, isto é, potência elétrica consumida = potência convertida em mecânica + calor no cobre. A força contraeletromotriz é a assinatura do motor girando: ela cresce com a velocidade, e é ela que limita a corrente.

Um diagrama de fluxo de energia da esquerda para a direita. Uma faixa larga à esquerda, rotulada potência elétrica, U vezes i, 440 watts, entra num bloco rotulado motor. À direita, a faixa se divide: a maior parte, rotulada potência mecânica no eixo, 400 watts, segue reta; faixas menores se desviam para baixo, rotuladas calor no cobre, r linha vezes i ao quadrado, 20 watts, perdas no ferro, 12 watts, e atrito e ventilação, 8 watts. Abaixo, um segundo diagrama menor, rotulado motor travado: a faixa de entrada é muito mais larga, rotulada 9 680 watts, e a faixa de saída mecânica desaparece; toda a energia vai para o calor no cobre, com um símbolo de alerta.
O balanço de potência de um motor (valores ilustrativos): do que entra pela tomada, a maior parte sai pelo eixo e o resto vira calor no cobre, no ferro e no atrito. Com o eixo travado não há força contraeletromotriz, a corrente dispara e toda a potência, muito maior que a nominal, vira calor nas bobinas. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido 5: o motor em funcionamento e o motor travado. Um motor de corrente contínua ligado a 220 V puxa 2 A em regime, e a resistência das suas bobinas é 5 Ω. (a) Força contraeletromotriz, potência elétrica, potência mecânica e rendimento (desprezando atrito e ferro). (b) O eixo trava com o motor ligado. Corrente e potência dissipada.

(a) ε′=U−r′i=220−5×2=210\varepsilon' = U - r'i = 220 - 5 \times 2 = 210 V. Pel=Ui=440P_{\text{el}} = Ui = 440 W. Pmec=ε′i=210×2=420P_{\text{mec}} = \varepsilon' i = 210 \times 2 = 420 W. Calor: r′i2=5×4=20r'i^2 = 5 \times 4 = 20 W; conferência: 420+20=440420 + 20 = 440 W. Rendimento η=420/440≈0,95\eta = 420/440 \approx 0{,}95. (b) Travado, o motor não gira, não induz nada: ε′=0\varepsilon' = 0, e a corrente só é limitada pela resistência das bobinas: i=U/r′=220/5=44i = U/r' = 220/5 = 44 A, vinte e duas vezes a corrente de regime. Potência: Ui=220×44=9 680Ui = 220 \times 44 = 9\,680 W, toda ela dissipada em r′i2=5×442=9 680r'i^2 = 5 \times 44^2 = 9\,680 W nas bobinas. Um motor projetado para dissipar 20 W de calor recebendo quase 10 kW queima em segundos, a menos que o disjuntor ou o fusível corte antes. O item do ENEM de 2021 sobre o brinquedo com o eixo travado julgava exatamente isto: a força contraeletromotriz se reduz a zero e toda a energia da pilha passa a ser dissipada na resistência interna do motor.

É também a razão de a partida de um motor ser o momento mais crítico: no instante em que ele é ligado, ainda parado, não há força contraeletromotriz, e a corrente de partida é várias vezes a de regime (cinco a oito vezes num motor de indução, dezenas num motor de corrente contínua grande), caindo à medida que o eixo acelera. As luzes que piscam quando a geladeira ou o ar-condicionado liga são a queda de tensão provocada por esse pico na fiação da casa; os motores grandes de fábrica têm dispositivos de partida suave justamente para não derrubar a rede.

Motor não é resistor, e "100 % de eficiência" não existe

Um motor consome UiUi, mas não dissipa UiUi em calor (isso é o resistor): a maior parte vira trabalho mecânico, e só r′i2r'i^2 vira calor. Pela mesma razão, a corrente de um motor não é U/r′U/r' (isso é o motor travado, a situação de falha). E nenhum motor converte 100 % da energia elétrica: item que iguale potência elétrica a potência mecânica, ou que faça o motor “criar” energia, está errado. Rendimentos típicos: 70 a 80 % num motor pequeno de eletrodoméstico, acima de 90 % nos motores industriais e nos de tração dos carros elétricos.

Motor e gerador são a mesma máquina: a frenagem regenerativa

Gire o eixo de um motor de corrente contínua com a mão e meça a tensão nos terminais: ele gera. Ligue uma pilha a um dínamo e ele gira. A espira num campo é a mesma peça nos dois casos; o que muda é quem empurra: se a rede empurra corrente, a força BiLBiL faz torque e a máquina é motor; se o eixo é girado por fora, a variação de fluxo faz fem e a máquina é gerador. A força contraeletromotriz do motor é precisamente o gerador escondido dentro dele. E, no motor de indução, a mesma coisa acontece sem comutador: se o eixo for forçado a girar acima da velocidade síncrona, o escorregamento troca de sinal, a máquina passa a devolver energia à rede e vira gerador. É assim que funcionam os aerogeradores de muitas turbinas eólicas e as usinas reversíveis, que de dia geram com a água descendo e de madrugada, com energia sobrando na rede, usam a mesma máquina como motor para bombear a água de volta ao reservatório de cima.

A aplicação que está na rua é a frenagem regenerativa do carro elétrico, do ônibus elétrico e do metrô. Para frear um carro a combustão, as pastilhas de freio convertem a energia cinética em calor, que se perde. No carro elétrico, tirar o pé do acelerador faz a eletrônica religar o motor como gerador: as rodas, pela inércia do carro, giram o rotor, a variação de fluxo induz corrente, a lei de Lenz faz essa corrente se opor ao movimento (é o freio), e a corrente vai para a bateria. Parte da energia cinética que seria perdida nas pastilhas volta como carga; em trânsito urbano, com muitas paradas, a fração recuperada fica entre um décimo e um quarto da energia gasta, o que explica por que o carro elétrico rende mais quilômetros por quilowatt-hora na cidade que na estrada, ao contrário do carro a combustão. O motorista sente isso como o “freio motor” forte que permite dirigir quase sem tocar no pedal de freio. Nem toda a energia volta: o motor funcionando como gerador tem as mesmas perdas de cobre e ferro, e a bateria tem as suas. Lenz não dá nada de graça: o carro só freia porque a corrente induzida resiste ao giro, e é essa resistência que a bateria recolhe.

Reversibilidade

Toda máquina elétrica girante é, ao mesmo tempo, motor e gerador: rede empurrando corrente, torque no eixo (motor); eixo girado por fora, fem nos terminais (gerador). A força contraeletromotriz do motor é a fem do gerador que ele contém. Frenagem regenerativa: o motor do veículo vira gerador, a corrente induzida freia (Lenz) e carrega a bateria. Usina reversível: o gerador vira motor para bombear água.

Ler placas e figuras: o que a etiqueta de uma máquina diz

Toda máquina elétrica carrega uma placa, e a banca gosta de dar os dados dela num texto-base. O que cada número quer dizer:

na placa leitura o que fazer com ele
220 V tensão nominal (eficaz, na rede CA) é o UU de P=UiP = Ui
60 Hz frequência da rede para a qual foi feito no motor de indução, dá a velocidade síncrona 60f/p60f/p
6,5 A corrente nominal em regime a corrente de partida é várias vezes maior
1,5 cv ou 1,1 kW potência mecânica útil no eixo (1 cv = 735,5 W; 1 hp = 746 W) é a PmecP_{\text{mec}}, não a consumida
1 750 rpm rotação nominal do eixo abaixo da síncrona de 1 800 rpm: quatro polos com escorregamento
rendimento 85 % Pmec/PelP_{\text{mec}}/P_{\text{el}} permite achar a potência elétrica: 1 100/0,85≈1 3001\,100/0{,}85 \approx 1\,300 W
75 kVA, 13,8 kV / 220–127 V potência aparente e tensões de um transformador a razão de tensões é a razão de espiras; kVA é o teto de ViV i

Um detalhe que a placa dos motores de corrente alternada traz e a física escolar costuma omitir: o fator de potência (cos⁡φ\cos\varphi, 0,8 por exemplo). Nas máquinas com bobinas, corrente e tensão não oscilam exatamente juntas, e a potência real consumida é P=Uicos⁡φP = Ui\cos\varphi, um pouco menor que o produto UiUi (chamado de potência aparente e medido em volt-ampère, VA). É por isso que a placa do transformador diz “kVA” e não “kW”: ele não sabe que carga vai alimentar. Nos itens de prova, salvo menção explícita, P=UiP = Ui basta.

Nas figuras, procure sempre três coisas. No alternador ou no motor: o que gira e o que é fixo, onde estão os anéis (dois inteiros, alternado) ou o comutador (um cortado, contínuo) e o sentido do campo. No transformador: qual bobina tem mais voltas (se a figura mostra, ela decide elevador ou abaixador), de que lado está a fonte, e se o núcleo é fechado. Na rede: a ordem das tensões ao longo do caminho (sobe uma vez, desce em degraus) e a resistência da linha, que é o dado da conta Ri2Ri^2. A figura do motor de bonde de 2017 pedia, além disso, a conversão do sentido dos elétrons desenhados em corrente convencional (contrário), o lado em que o campo faz força e o eixo em torno do qual a espira gira.

Como a banca pergunta

Os moldes dos itens de máquinas, com os anos em que apareceram:

A fem do gerador comercial. Dados 60 Hz e 220 V, julgar a expressão fem =220sen⁡(120πt)= 220\operatorname{sen}(120\pi t) V (2010, certo). Leia o argumento (2πf=120π2\pi f = 120\pi) e a amplitude. Variante possível: 50 Hz dá 100π100\pi; “cos” no lugar de “sen” muda só a fase inicial e continua alternada.

As alavancas do gerador. Entre modificações no projeto, a correta é a que preserva a variação de fluxo: manter a bobina fixa e variar o campo (2010, opção D). As erradas reduzem o campo (fem cai), aumentam a corrente para “reduzir perdas” (Ri2Ri^2 cresce) ou substituem o ímã por um campo elétrico, que não produz fluxo magnético nenhum e, portanto, não induz nada.

A razão de espiras com inversão. 22 000 V para 220 V exige 100 vezes menos espiras na secundária (2009, o item dizia “mais”, errado). Variantes certas no estilo da banca: “100 vezes menos”, “razão N2/N1=1/100N_2/N_1 = 1/100”.

A definição pelo nome da lei. “O funcionamento de um transformador pode ser explicado pela lei de Faraday” (2009, certo); “transformador é máquina de corrente contínua que muda frequência” (2011, errado nas duas metades).

A perda de linha, com e sem conta. “Transmissão mais eficiente em 220 V que em 220 000 V, perda 1 000 vezes menor” (2009, errado: a perda é menor em alta tensão e a razão é 10610^6); “a linha de 22 000 V perde, em porcentagem, mais que a de 200 V” (2013, errado); correntes de 10 A e 1 000 A para 220 kW (2013, tipo C). Molde de tipo B provável: “calcule a perda em watts e multiplique por 10”.

A equivalência das usinas. Nuclear, térmica e hidrelétrica geram pelo mesmo mecanismo, espiras girando em campo e lei de Faraday (2025, certo); a corrente alternada é não estacionária e irradia (2025, certo); a energia elétrica da usina nuclear “sem envolvimento do eletromagnetismo” (2025, errado).

O torque da espira do motor. Proporcional à área (2017, certo); a força em cada lado, BiLBiL com o lado perpendicular ao campo (2017); o sentido da corrente convencional a partir dos elétrons desenhados (2017).

O motor como receptor (ENEM). Eixo travado: força contraeletromotriz zero, toda a energia dissipada na resistência interna (2021, opção D); o dínamo da bicicleta funciona por variação do campo através da bobina (2010).

Os erros que mais custam item

Doze confusões e a correção de cada uma
  1. Abaixador com mais espiras na secundária. A razão de espiras é a razão de tensões: abaixador tem menos (2009/101).
  2. “O transformador eleva a potência.” Conserva (no ideal) ou perde um pouco (no real); eleva a tensão e reduz a corrente.
  3. Transformador com pilha. Corrente contínua constante dá fluxo constante e fem zero na secundária (2011/59).
  4. Transformador que muda frequência. Nunca: 60 Hz entram, 60 Hz saem (2011/59).
  5. “Em alta tensão a perda é maior” ou “a corrente corre mais”. A perda Ri2Ri^2 cai com o quadrado da tensão para a mesma potência (2009/100, 2013/105).
  6. Perda na proporção da tensão, não do quadrado. Cem vezes a tensão, dez mil vezes menos perda, não cem.
  7. Corrente da linha calculada com a tensão da casa. i=P/Ui = P/U com o UU do trecho em questão (2013/106).
  8. Gerador que “cria” energia ao girar mais depressa. Quem gira paga: a fem cresce com a rotação, e a turbina faz mais trabalho.
  9. Motor como resistor. A corrente do motor é (U−ε′)/r′(U - \varepsilon')/r', e a potência mecânica é ε′i\varepsilon' i; U/r′U/r' é o motor travado (ENEM 2021).
  10. Frequência da rede independente dos polos. f=pn/60f = pn/60: a turbina lenta precisa de muitos polos para dar 60 Hz.
  11. Rotor do motor de indução “sincronizado” com o campo. Sem escorregamento não há indução nem torque.
  12. Frenagem regenerativa que “recupera tudo”. Recupera uma fração; Lenz freia porque a corrente induzida resiste ao movimento, e a bateria recolhe parte.

O essencial em meia página

  • Alternador: induzido e campo em movimento relativo (nas usinas, o campo gira e o induzido fica no estator); fem alternada de amplitude ∝NBAω\propto NBA\omega e frequência f=pn/60f = pn/60. Brasil: 60 Hz. Turbogerador: 2 polos, 3 600 rpm; Itaipu: 78 polos, 92,3 rpm. Rendimento acima de 98 %. Corrente alternada é não estacionária e irradia um pouco.
  • Dínamo: a mesma espira com comutador (anel cortado) no lugar dos anéis: corrente contínua pulsante.
  • Transformador: indução mútua pelo núcleo de ferro; fem por espira igual nas duas bobinas; V2/V1=N2/N1V_2/V_1 = N_2/N_1; ideal: V1i1=V2i2V_1 i_1 = V_2 i_2 (correntes na razão inversa); só CA; não muda frequência; elevador (mais espiras na secundária) e abaixador (menos).
  • Transformador real: perdas no cobre (Ri2Ri^2, com carga) e no ferro (histerese + Foucault, mesmo em vazio); núcleo laminado contra Foucault; rendimento de 95 a 99 %.
  • Transmissão: Pperdida=Ri2=RP2/U2P_{\text{perdida}} = Ri^2 = RP^2/U^2; tensão ×k\times k, perda ÷k2\div k^2. Linha de 0,40 Ω com 220 kW: 40 W a 22 kV, 400 kW a 220 V.
  • Rede brasileira: gerador (18 kV) → elevação (230–765 kV) → transmissão → subestações (138 / 13,8 kV) → poste → 127 ou 220 V, 60 Hz do início ao fim. HVDC: Itaipu ±600 kV (50 Hz do Paraguai → 60 Hz), Belo Monte ±800 kV, mais de 2 000 km.
  • Motor CC: torque τ=NBiAsen⁡α\tau = NBiA\operatorname{sen}\alpha (proporcional à área); comutador inverte a corrente a cada meia-volta para o giro continuar; escovas de grafite.
  • Motor de indução: campo girante (ns=60f/pn_s = 60f/p), corrente induzida na gaiola, torque por Lenz; gira abaixo do síncrono (escorregamento); sem escovas; velocidade pela frequência (inversor).
  • Motor como receptor: U=ε′+r′iU = \varepsilon' + r'i; Pel=Ui=ε′i+r′i2P_{\text{el}} = Ui = \varepsilon' i + r'i^2; η=Pmec/Pel\eta = P_{\text{mec}}/P_{\text{el}}. Travado: ε′=0\varepsilon' = 0, i=U/r′i = U/r', queima. Partida: corrente várias vezes a nominal.
  • Reversibilidade: motor e gerador são a mesma máquina; força contraeletromotriz = gerador interno; frenagem regenerativa carrega a bateria pela corrente induzida que freia (Lenz).
  • Placa: V (eficaz), Hz, A (regime), cv ou kW (mecânica útil; 1 cv = 735,5 W), rpm (abaixo da síncrona), kVA (transformador).

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Como a Energia Elétrica é Gerada: Hidrelétrica, Gerador Elétrico monofásico e trifásico
Elétrica do Zero · 5:42
Introdução. Cinco minutos e meio cujos capítulos, segundo a descrição do canal, vão de “o princípio da indução eletromagnética de Faraday” aos “tipos de geradores: monofásico e trifásico”, à “hidrelétrica no sistema de geração” e à “transmissão e utilização da energia”. É o percurso das seções “O alternador: a espira que gira vira máquina” e “Da usina à tomada” em versão curta, com o gerador visto como máquina e não só como princípio. Assista antes de ler a página.
Transformadores - Eletromagnetismo - Aula 14 - Prof. Marcelo Boaro
Professor Boaro · 21:24
Aprofundamento no transformador. Vinte e um minutos em que, nas palavras da descrição do autor, ele discute “o fluxo magnético em espiras, a consequência da variação desse fluxo para a produção de corrente elétrica” e “em detalhes a Lei de Faraday para entendermos o funcionamento de um transformador de corrente alternada”. Cobre a seção “O transformador: duas bobinas que conversam pelo ferro”: a fem por espira, a razão de espiras, a conservação de potência e por que só funciona com corrente alternada, que é o item de 2011.
Como funciona um Motor de Indução Trifásico? O que é escorregamento? #14a
Campo Girante · 18:18
Aprofundamento no motor de indução. Dezoito minutos de um engenheiro brasileiro que, segundo a descrição, explica “o aspecto técnico, utilizando de equacionamento básico” do motor, com “corrente trifásica equilibrada, campo magnético girante, corrente elétrica induzida, velocidade síncrona, velocidade do rotor e escorregamento”. É a seção “O motor de indução: o campo que gira e o rotor que corre atrás” em nível um degrau acima da página; pule as deduções se quiser e fique com o campo girante e o escorregamento.
Veja um MOTOR FUNCIONAR DESMONTADO!
Manual do Mundo · 11:55
Demonstração. Doze minutos em que, pela descrição do canal, a equipe começa “explicando o que é um eletroímã”, constrói “um motor simples usando apenas uma pilha” e depois abre “um motor real” e o faz “funcionar desmontado”. É a seção “O motor de corrente contínua: a espira, o comutador e as escovas” com as peças na mão: dá para ver o comutador, as escovas e o induzido de que a figura do motor de bonde de 2017 é o esquema.
PAS3 2013 Física 105 e 106 — Linhas de Transmissão e Corrente Elétrica
Fazendo Física · 6:15
Resolução. Seis minutos com os itens 105 e 106 do PAS 3 de 2013, cujo texto-base a descrição do vídeo reproduz: “a usina hidrelétrica envia 220 kW de potência elétrica para uma pequena cidade a 10 km dela. A resistência elétrica total da linha de transmissão é 0,40 Ω”. É o exemplo resolvido da seção “Por que 500 000 volts: a conta da linha” feito por outra mão, com o item A da perda percentual e o tipo C das correntes de 10 A e 1 000 A. Use depois de refazer a conta sozinho.
Rota PAS 3
Magnetismo e eletromagnetismo: do ímã à ressonância magnética · PAS 3

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 3 — Magnetismo e eletromagnetismo: do ímã à ressonância magnética · Geradores, transformadores e motores: as três máquinas (conceito: gerador, corrente alternada a 60 Hz, transformador U_s/U_p = N_s/N_p, potência conservada, perda R i², só CA, motor como caminho inverso; exemplo-guia do poste de 13 800 V → 220 V e da perda com 0,32 A contra 20 A; itens 2010/63 e 64, 2009/101 e 102, 2011/59; armadilha 'siga a energia e a espira'; checagem da potência que 'se eleva'); A força sobre um fio com corrente (bloco do motor de bonde de 2017: itens 94 a 99, o conceito do torque proporcional à área e o comutador); Leia como na prova (item 2025/94 e 2025/92); Como a banca cobra (histórico 'Geradores, transformadores e a emissão de ondas'); Resolvidos (o transformador do carregador, tipo B, 400/20 espiras → 110); Banco de treino (T15 a T18, T20); exercícios 10 a 12 (da usina à tomada)

    Recorte por assunto: desta seção a página toma as três máquinas como máquinas (alternador, transformador, motor) e a rede de transmissão. O princípio de Faraday/Lenz e a fem senoidal da espira girante ficam em inducao-eletromagnetica; a força sobre o fio e o torque sobre a espira, em forca-magnetica; usinas e matriz elétrica, em geracao-de-energia-eletrica; o gerador como elemento de circuito (fem, resistência interna, rendimento), em geradores-e-receptores-eletricos. A página acrescenta, ausentes do capítulo, a anatomia do alternador (rotor, estator, polos, f = p·n/60), o dínamo com comutador, a indução mútua e a fem por espira, as perdas e o núcleo laminado do transformador real, a rede brasileira com tensões e o HVDC, o motor de indução e o campo girante, o motor como receptor (força contraeletromotriz, rendimento, motor travado), a frenagem regenerativa e a leitura de placas.

  • Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 3 2017 (item 98, caderno Liberdade, p. 16 do PDF, impressa 15, cifrado no texto, transcrito da imagem renderizada da página; texto-base do bloco do motor de bonde, itens 94 a 99, verbatim do arquivo já existente do item 94); 2010 (itens 63 e 64), 2009 (itens 100 a 102), 2011 (item 59), 2013 (itens 105 e 106) e 2025 (itens 92 e 94) reusados por GUID das questões já conferidas na página de geração de energia elétrica

    Item 2017/98 conferido na imagem do PDF em utils/material/PAS/provas/2017-PAS3-Prova.pdf rasterizado a 110 dpi; gabarito C conferido em provas-txt/2017-PAS3-GAB.txt (linha dos itens 81 a 100) e coincidente com o livro. As questões reusadas não foram copiadas: a página aponta para os GUIDs existentes.