Máquinas térmicas e segunda lei da termodinâmica

Guia de estudo · Revisado em 16/09/2026

BNCC · EM13CNT102

De cada 100 J que a gasolina libera, só uns 30 chegam às rodas; a termelétrica solta colunas de vapor pelas torres; a geladeira esquenta a cozinha. Por que nenhuma máquina consegue converter todo o calor em trabalho, e o que fixa o máximo que ela pode aproveitar?

O que você vai aprender

  • Modelar qualquer máquina térmica pelas três transferências por ciclo (calor Qq da fonte quente, trabalho W, calor Qf à fonte fria), fechar o inventário Qq = W + Qf e calcular rendimento (η = W/Qq = 1 − Qf/Qq) e potência (trabalho por ciclo vezes ciclos por segundo), nos dois sentidos da conta.
  • Enunciar a segunda lei nas formas de Kelvin–Planck (nenhum ciclo converte todo o calor em trabalho) e de Clausius (calor não passa do frio ao quente sem trabalho), reconhecer a equivalência dos dois enunciados e distinguir violação da primeira lei (energia que some) de violação da segunda (rendimento acima do teto).
  • Descrever o ciclo de Carnot (duas isotérmicas e duas adiabáticas, reversível) e aplicar o teto η_max = 1 − Tf/Tq com temperaturas em kelvin, incluindo os casos-limite (Tf = 0, Tf = Tq), a leitura 'x % do rendimento de Carnot' e a comparação com o rendimento real das máquinas.
  • Explicar por que toda máquina real fica abaixo do teto (atrito, trocas de calor por diferença finita de temperatura, processos rápidos) e por que 'tecnologia melhor' aproxima do teto sem ultrapassá-lo.
  • Inverter as três setas para o refrigerador e a bomba de calor, calcular a eficiência e = Qf/W e o COP de aquecimento Qq/W = e + 1 (ambos podem ser maiores que 1), aplicar e_max = Tf/(Tq − Tf) e explicar por que a geladeira de porta aberta aquece a cozinha e por que não viola Clausius.
  • Usar ΔS = Q/T (kelvin, J/K) em trocas a temperatura constante, reconhecer a entropia como função de estado (ΔS = 0 do fluido num ciclo) e a segunda lei como ΔS_universo ≥ 0, decidindo 'de quem é a entropia' e interpretando desordem como número de arranjos, não como sujeira.
  • Ler o ciclo de Carnot no plano T × S como um retângulo (isotérmicas horizontais, adiabáticas verticais, área = calor, área interna = trabalho), deduzir Qf/Qq = Tf/Tq e traduzir cada lado para o plano p × V (pressões, sinais do trabalho, energia interna), como nos blocos do PAS 2 de 2009, 2010 e 2018.
  • Situar as máquinas reais do Brasil: ciclo de Otto (2 adiabáticas + 2 isocóricas; calor entra na combustão e sai no escape), Diesel, termelétrica a vapor (química ou nuclear → térmica → mecânica → elétrica) e ciclo combinado, com rendimentos de 25 a 60 %, o destino do calor rejeitado (radiador, escapamento, condensador, torres, rio) e a fronteira do conceito (hidrelétrica e eólica não são máquinas térmicas; CO₂ vem da combustão).
  • Ler os dois diagramas dos itens (esquema de setas e ciclo p × V) com as regras mínimas: horário é motor, anti-horário é refrigerador, área interna é trabalho, e em cada trecho perguntar o que fica constante.
  • Evitar os erros que a banca planta: Celsius na fórmula de Carnot, η = Tf/Tq, ΔT/Tf, rendimento como diferença, 100 % com tecnologia melhor, geladeira que 'cria frio' ou refresca a cozinha, refrigerador que 'viola Clausius', calor rejeitado como calor destruído, entropia do fluido que 'aumenta a cada ciclo'.

Encoste a mão no capô de um carro depois de meia hora de estrada: está quente demais para uma máquina cuja função é andar. Do que a gasolina libera ao queimar, só uma fração, perto de um terço, vira movimento nas rodas; o restante é despejado no ar pelos gases do escapamento e pela água do radiador, um sistema inteiro cuja razão de existir é eliminar calor. Isso não é defeito de projeto. Uma termelétrica faz o mesmo em escala de cidade, com as colunas de vapor que sobem das torres de resfriamento; a geladeira da cozinha faz o mesmo em miniatura, gelando por dentro e aquecendo pela grade de trás. Qualquer dispositivo que converta calor em trabalho opera em ciclos entre uma região quente e uma região fria, e a cada volta é obrigado a entregar uma parte do calor à região fria para poder repetir a volta seguinte. A segunda lei da termodinâmica é o enunciado exato dessa obrigação, e ela vai além: fixa, a partir das duas temperaturas, a maior fração do calor que máquina alguma consegue converter.

Esta página é o mapa dessa lei e das máquinas que ela governa. Primeiro o modelo de três setas (fonte quente, trabalho, fonte fria) e a conta do rendimento, que resolvem metade dos itens; depois os dois enunciados da segunda lei e por que um rendimento de 100 % é impossível; depois o ciclo de Carnot, que fixa o teto 1−Tf/Tq1 - T_f/T_q e exige kelvin; a geladeira, que é a máquina ao contrário; a entropia, que o fluido zera a cada ciclo e o universo só acumula; e, por fim, as máquinas reais do Brasil, do motor a etanol à termelétrica, com seus 25 a 40 %. A contabilidade de calor, trabalho e energia interna trecho a trecho (ΔU=Q−W\Delta U = Q - W) e a área sob a curva no plano p×Vp \times V pertencem à página vizinha primeira lei da termodinâmica; as isotérmicas, isobáricas e adiabáticas em si estão em transformações gasosas; quem fez o quê e quando está em história da termodinâmica. Aqui essas ideias entram só pelo nome.

Três setas e uma conta: o que é uma máquina térmica

Olhe o motor de um carro com os olhos de um físico e ele se reduz a três fluxos de energia. A combustão no interior dos cilindros faz o papel de fonte quente; o trabalho sai pelo virabrequim e chega às rodas; os gases de escape e a água do radiador descarregam o que sobrou no ar ambiente, que é a fonte fria. Uma usina termelétrica tem a mesma anatomia em tamanho industrial, com uma caldeira a gás, carvão, bagaço de cana ou urânio no lugar da combustão e uma turbina no lugar do pistão. Para a termodinâmica, carro e usina são o mesmo objeto: um ciclo com três transferências de energia por volta.

Máquina térmica, rendimento e o balanço por ciclo

Chama-se máquina térmica todo dispositivo que opera em ciclos e, a cada ciclo, recebe uma quantidade de calor QqQ_q de uma fonte quente, entrega uma quantidade de trabalho WW ao exterior e descarta uma quantidade de calor QfQ_f numa fonte fria. Ao fim de cada volta o fluido de trabalho retorna ao estado de partida, de modo que sua energia interna não varia (ΔU=0\Delta U = 0) e a primeira lei impõe o balanço

Qq=W+Qf(moˊdulos, por ciclo).Q_q = W + Q_f \qquad\text{(módulos, por ciclo).}

O rendimento compara o que saiu útil com o que entrou:

η=WQq,e, como W=Qq−Qf,η=1−QfQq.\eta = \frac{W}{Q_q}, \qquad \text{e, como } W = Q_q - Q_f, \qquad \eta = 1 - \frac{Q_f}{Q_q}.

É um número entre 0 e 1, quase sempre expresso em porcentagem: um motor com η=0,25\eta = 0{,}25 transforma em trabalho um quarto do calor recebido e descarta os outros três quartos.

símbolo significado na máquina da figura abaixo
QqQ_q calor recebido da fonte quente em cada ciclo 1 200 J
QfQ_f calor descartado na fonte fria em cada ciclo 900 J
WW trabalho entregue por ciclo, Qq−QfQ_q - Q_f 300 J
η\eta rendimento, W/QqW/Q_q 300/1 200=0,25300/1\,200 = 0{,}25, ou 25 %
TqT_q, TfT_f temperaturas das duas fontes, sempre em kelvin 600 K e 300 K
PP potência útil: WW multiplicado pelo número de ciclos por segundo 300×20=6 000300 \times 20 = 6\,000 W
Esquema com um retângulo rotulado fonte quente, T q igual a 600 kelvin ou 327 graus Celsius, no alto; um círculo rotulado M, ciclo, no centro; e um retângulo rotulado fonte fria, T f igual a 300 kelvin ou 27 graus Celsius, embaixo. Uma seta grossa desce da fonte quente até M com o rótulo Q q igual a 1200 joules; uma seta sai de M para a direita com o rótulo W igual a 300 joules; uma seta mais fina desce de M até a fonte fria com o rótulo Q f igual a 900 joules. À direita, o balanço: Q q igual a W mais Q f, 1200 igual a 300 mais 900; rendimento real 300 sobre 1200 igual a 25 por cento; teto de Carnot 1 menos 300 sobre 600 igual a 50 por cento; a nota de que em Celsius sairia 92 por cento, errado; e, embaixo, a 20 ciclos por segundo a potência é 6000 watts.
Os três fluxos de energia de uma máquina térmica: entra calor da fonte quente, sai trabalho, e uma parcela do calor segue obrigatoriamente para a fonte fria. Vale reproduzir o esquema no rascunho sempre que um item falar de rendimento: com os três números preenchidos, não falta informação nenhuma. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (as três setas com números). O motor da figura recebe 1 200 J por ciclo e rejeita 900 J, a 20 ciclos por segundo. Trabalho: W=1 200−900=300W = 1\,200 - 900 = 300 J. Rendimento: η=300/1 200=0,25\eta = 300/1\,200 = 0{,}25, ou 25 %. Potência: 300 J por ciclo vezes 20 ciclos por segundo, P=6 000P = 6\,000 W, ou 6 kW. Conferência: 300+900=1 200300 + 900 = 1\,200; e 1−900/1 200=1−0,75=0,251 - 900/1\,200 = 1 - 0{,}75 = 0{,}25, o mesmo rendimento pelo outro caminho. Repare que trabalho por ciclo (joule) e potência (watt) não são a mesma grandeza: a frequência é o fator que converte um no outro, e a banca gosta de pedir a potência quando deu o trabalho, ou o contrário.

O caminho inverso. Se um item dá o trabalho e o rendimento, o calor recebido sai por Qq=W/ηQ_q = W/\eta. Na 2.ª etapa de 2011, o item 97 afirmava que um veículo a diesel “apresente rendimento de 50%, realizando, em cada ciclo, um trabalho de 1.500 J. Nesse caso, a quantidade de calor que ele rejeita para a fonte fria é superior a 2.500 J”. Com 50 %, Qq=1 500/0,5=3 000Q_q = 1\,500/0{,}5 = 3\,000 J e Qf=3 000−1 500=1 500Q_f = 3\,000 - 1\,500 = 1\,500 J: não supera 2 500. Gabarito E. Em 2013, o item 76 fez a conta direta: “É inferior a 50% a eficiência de uma máquina térmica que absorva 350 J de calor de um reservatório quente, realize trabalho e ceda 180 J de calor a um reservatório frio”. W=170W = 170 J, η=170/350≈49 %\eta = 170/350 \approx 49\,\%, inferior a 50 %: C. Atalho: 50 % exigiria rejeitar exatamente a metade, 175 J; como rejeita 180, mais que a metade, fica abaixo.

Rendimento é fração, não diferença

“Rendimento de 30 %” não é “perdeu 30 %”; é “aproveitou 30 %, perdeu 70 %”. A fração rejeitada é Qf/Qq=1−ηQ_f/Q_q = 1 - \eta, e a banca adora oferecê-la como se fosse o rendimento (opção “70 %” ao lado do “30 %” correto). Outra troca comum: dividir o trabalho pelo calor rejeitado (W/QfW/Q_f), que não é rendimento de nada. A definição tem o calor recebido no denominador, sempre.

Antes de dividir, converta: a escala kelvin

O limite de rendimento que vem a seguir é calculado com um quociente de duas temperaturas, e quocientes de temperatura só têm significado físico quando a escala começa no zero absoluto, isto é, no estado em que a agitação térmica das partículas seria a menor possível. Essa é a escala Kelvin: nela não há valores negativos, e a passagem a partir do Celsius é uma soma, T(K)=θ(°C)+273T(\text{K}) = \theta(\text{°C}) + 273.

Kelvin: a diferença não muda, o quociente muda

Como as duas escalas têm o mesmo tamanho de grau, subtrair temperaturas dá o mesmo resultado nas duas: um intervalo de 100 °C é um intervalo de 100 K. Dividir não: o quociente depende de onde está o zero. Fontes a 427 °C e 127 °C correspondem a 700 K e 400 K, e o quociente Tf/TqT_f/T_q vale 400/700≈0,57400/700 \approx 0{,}57; quem dividisse os valores em Celsius obteria 127/427≈0,30127/427 \approx 0{,}30, um número sem significado. Vale ter na ponta da língua as conversões que a prova mais usa: 27→30027 \to 300, 127→400127 \to 400, 227→500227 \to 500, 327→600327 \to 600, 427→700427 \to 700.

Três contas de cabeça para fixar: 177 °C em kelvin dá 450 K; uma fonte a 500 K está 200 °C acima de outra a 300 K; e um motor que recebe 1 200 J com rendimento de 40 % entrega 480 J de trabalho e descarta 720 J. Quem faz essas três sem hesitar atravessa a próxima seção sem tropeço.

O que a segunda lei proíbe

A primeira lei só faz a soma da energia. Por ela, um motor que convertesse todo o calor da queima em trabalho (Qf=0Q_f = 0, η=1\eta = 1) seria perfeitamente legal: nada se cria, nada se destrói. A segunda lei é o que proíbe esse motor. Ela foi enunciada de duas maneiras, no século XIX, e as duas dizem a mesma coisa por ângulos diferentes.

Os dois enunciados da segunda lei

Kelvin–Planck (o motor): é impossível uma máquina cíclica cujo único efeito seja retirar calor de uma única fonte e convertê-lo integralmente em trabalho. Alguma rejeição a uma fonte fria é obrigatória: Qf>0Q_f > 0, logo η<1\eta < 1, sempre.

Clausius (a geladeira): é impossível um processo cujo único efeito seja transferir calor de um corpo frio para um corpo quente. O calor não sobe sozinho; para fazê-lo subir é preciso pagar com trabalho.

Os dois enunciados são equivalentes: se existisse o motor perfeito de Kelvin–Planck, bastaria usar seu trabalho para acionar uma geladeira comum, e o conjunto passaria calor do frio para o quente sem nenhum outro efeito, violando Clausius; e vice-versa. A palavra que sustenta os dois é único: rejeitar calor ou consumir trabalho é o “outro efeito” que a natureza cobra.

Não é falha de engenharia. Eliminar o atrito, vedar as perdas, escolher o melhor material: tudo isso aproxima a máquina do seu limite, nunca a leva além dele. O limite existe porque o fluido precisa voltar ao estado inicial para o ciclo recomeçar, e voltar exige esfriar, e esfriar exige entregar calor a algo mais frio. Uma máquina que só recebesse calor esquentaria a cada volta e pararia.

Primeira lei × segunda lei. A prova gosta de misturar as duas para ver quem sabe qual é qual. Uma máquina pode respeitar a primeira e violar a segunda (a conta fecha, mas o rendimento passa do teto); e pode respeitar a segunda e violar a primeira (o rendimento é modesto, mas a energia não fecha). O tipo C da 2.ª etapa de 2017 (item 93) apresentou três máquinas: “I. máquina de Carnot que opera entre dois reservatórios: um quente, a 327 °C, e um frio, a 127 °C; II. máquina de Carnot que opera entre dois reservatórios: um quente, a 327 K, e um frio, a 127 K; III. máquina que extrai 30 × 10⁶ cal de uma fonte quente, à temperatura de 300 K, e rejeita 10 × 10⁶ cal para uma fonte fria, a 150 K, entregando um trabalho de 60 × 10⁶ J”. A máquina I rende 1−400/600=33 %1 - 400/600 = 33\,\%. A II, com as fontes já em kelvin, rende 1−127/327≈61 %1 - 127/327 \approx 61\,\%: um valor alto, mas legítimo, porque nada impede uma fonte fria a 127 K (temperaturas desse nível existem em laboratório). A III é o problema. Com Qq−Qf=20×106Q_q - Q_f = 20 \times 10^6 cal ≈84×106\approx 84 \times 10^6 J disponíveis para virar trabalho, ela “entrega” apenas 60×10660 \times 10^6 J; cerca de 24 MJ desaparecem por ciclo, e energia que desaparece é violação da primeira lei. A segunda, por sua vez, ela respeita: entre 300 K e 150 K o limite de Carnot é 50 %, e o rendimento declarado, 60/125,6≈48 %60/125{,}6 \approx 48\,\%, fica abaixo dele. Gabarito D, “III viola uma das leis da termodinâmica”. Duas perguntas resolvem qualquer item assim: a conta fecha? o rendimento cabe no teto?

O radiador não é defeito

Um carro tem radiador, ventoinha, bomba d’água e um circuito inteiro de arrefecimento cuja única função é jogar calor no ar. Parece desperdício projetado, e é: sem ele o motor não completaria o ciclo. Os 70 J de cada 100 saem em duas parcelas, o escapamento (gases a centenas de graus) e o radiador (água a uns 90 °C), e as duas juntas são o QfQ_f da fonte fria. Quando o radiador falha e o carro “ferve”, o que falhou foi a fonte fria: a máquina não consegue mais rejeitar calor e para.

Carnot: o teto que depende só das temperaturas

Se nenhuma máquina aproveita tudo, quanto ela pode aproveitar? Sadi Carnot respondeu em 1824, antes de a primeira lei existir: entre duas fontes dadas, a máquina de maior rendimento possível é a que opera num ciclo reversível feito de duas isotérmicas e duas adiabáticas, e esse rendimento máximo não depende do fluido, do tamanho nem da engenharia, só das duas temperaturas.

O ciclo de Carnot e o teto de rendimento

O ciclo de Carnot tem quatro etapas: uma expansão isotérmica à temperatura TqT_q, em que o gás recebe QqQ_q da fonte quente; uma expansão adiabática, em que esfria de TqT_q a TfT_f sem trocar calor; uma compressão isotérmica a TfT_f, em que rejeita QfQ_f; e uma compressão adiabática, que o aquece de volta a TqT_q. Só as isotérmicas trocam calor. Para esse ciclo,

QfQq=TfTq⟹ηmax⁡=1−TfTq,\frac{Q_f}{Q_q} = \frac{T_f}{T_q} \qquad\Longrightarrow\qquad \eta_{\max} = 1 - \frac{T_f}{T_q},

com TqT_q e TfT_f medidas em kelvin. Toda máquina real entre as mesmas fontes rende menos que isso. O teto sobe quando a fonte quente esquenta ou a fonte fria esfria; só chega a 100 % se Tf=0T_f = 0 K, o que não existe; e cai a zero se Tf=TqT_f = T_q: sem diferença de temperatura não há máquina térmica.

Gráfico do rendimento máximo, de zero a cem por cento, contra a razão T f sobre T q em kelvin, de zero a um. Uma reta desce do canto superior esquerdo, cem por cento em razão zero, até o canto inferior direito, zero em razão um, com o rótulo eta máximo igual a 1 menos T f sobre T q. A região acima da reta está sombreada em vermelho claro e rotulada região proibida pela segunda lei. Pontos azuis sobre a reta: 900 kelvin sobre 300 kelvin, teto 67 por cento; 600 sobre 300, teto 50 por cento; 447 sobre 298, do PAS 2024, um terço; T f igual a zero kelvin, único caso com cem por cento, do PAS 2015 item 93; T f igual a T q, rendimento zero. Pontos vermelhos abaixo da reta: motor de carro real, 30 por cento, na razão um terço; termelétrica do exemplo, 30 por cento, 60 por cento do teto, na razão um meio. Embaixo, a nota: quanto menor a razão fria sobre quente, maior o teto; a razão só faz sentido em kelvin.
O teto de Carnot é uma reta: ηmax⁡=1−Tf/Tq\eta_{\max} = 1 - T_f/T_q. Acima dela, nada existe; abaixo dela ficam todas as máquinas reais. Os pontos azuis são tetos para pares de temperaturas que a prova já usou; os vermelhos, rendimentos reais típicos. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (a usina no limiar). Uma termelétrica opera entre a caldeira, a 327 °C, e o condensador, a 27 °C, com rendimento real igual a 60 % do máximo de Carnot, e entrega 90 MW. Kelvin: 600 K e 300 K. Teto: 1−300/600=50 %1 - 300/600 = 50\,\%. Rendimento real: “60 % do máximo” é fração do teto, não rendimento: 0,60×0,50=0,300{,}60 \times 0{,}50 = 0{,}30, ou 30 %. Potência térmica da caldeira: o rendimento vale para potências tanto quanto para energias, Pq=90/0,30=300P_q = 90/0{,}30 = 300 MW. Rejeitada ao condensador: 300−90=210300 - 90 = 210 MW, mais do que sai pela tomada. Conferência: 90+210=30090 + 210 = 300; 30 % < 50 %. Em Celsius o teto daria 1−27/327≈92 %1 - 27/327 \approx 92\,\%, um rendimento real de 55 % e uma caldeira de 164 MW: tudo falso.

Na prova. Nenhum outro pedido deste assunto se repetiu tanto: o limite de Carnot apareceu em catorze itens de dez edições, e o caminho de resolução nunca mudou (escrever as três transferências, converter para kelvin, calcular o limite, comparar). Em 2008 (item 106) a fração veio pronta: uma fábrica com “eficiência dessa máquina seja 40% do rendimento da máquina de Carnot (R_C), dado por R_C = 1 – T_frio/T_quente”, entre 800 K e 4 000 K, com 400 MJ disponíveis, e a afirmação de que “mais de 270 MJ serão eliminados como calor”. RC=1−800/4 000=0,8R_C = 1 - 800/4\,000 = 0{,}8; rendimento efetivo 0,4×0,8=0,320{,}4 \times 0{,}8 = 0{,}32; o trabalho é 0,32×400=1280{,}32 \times 400 = 128 MJ e o calor descartado, 400−128=272400 - 128 = 272 MJ. C, com apenas 2 MJ de margem: quem arredonda cedo erra. Em 2019 (item 94), um motor de helicóptero no ciclo de Brayton “entre uma fonte fria de 300 K e uma fonte quente de 1.000 K”: “A eficiência do motor é superior a 70%”. O limite entre essas fontes é exatamente 70 %, e um ciclo de Brayton, por não ser de Carnot, fica aquém dele: E, sem precisar de mais conta. O extremo Tf=0T_f = 0 foi 2015 (item 93): “Se, em uma máquina de Carnot ideal, o reservatório frio estiver à temperatura 0 K, então a eficiência dessa máquina será sempre a mesma, independentemente da temperatura da fonte quente”. Com Tf=0T_f = 0 a fração Tf/TqT_f/T_q se anula para qualquer TqT_q e o limite é 100 %: C. É a única situação, irrealizável, em que uma máquina de Carnot converteria todo o calor. E o tipo C de 2024 sobre as usinas nucleares (item 55) percorre o roteiro inteiro numa só conta: água “esquentada de 25 ºC até 174 ºC”, ciclo de Carnot, 14 053 GWh gerados em 2020; Tq=447T_q = 447 K, Tf=298T_f = 298 K, η=149/447=1/3\eta = 149/447 = 1/3, energia de fissão Qq=W/η=3×14 053≈42 159Q_q = W/\eta = 3 \times 14\,053 \approx 42\,159 GWh, “entre 40.000 e 45.000 GWh”: C.

Cada temperatura no seu posto, e em kelvin

Há três maneiras de estragar ηmax⁡=1−Tf/Tq\eta_{\max} = 1 - T_f/T_q, e os distratores da prova exploram cada uma. Escala errada: entre 327 °C e 27 °C, dividir em Celsius dá 1−27/327≈92 %1 - 27/327 \approx 92\,\%; em kelvin, 1−300/600=50 %1 - 300/600 = 50\,\%. Fração errada: Tf/TqT_f/T_q é a parcela que vai para a fonte fria, não a que vira trabalho; entre 400 K e 300 K, três quartos do calor são descartados e o rendimento é um quarto. Denominador errado: em 2012 (item 104), um Stirling ideal entre 250 °C e 25 °C teria, segundo o item, “rendimento de 75%”. Em kelvin as fontes são 523 K e 298 K, o limite é 1−298/523≈43 %1 - 298/523 \approx 43\,\% e o item é E. De onde saíram os 75 %? De 225/298225/298, a diferença de temperaturas dividida pela fonte fria; o certo é dividir pela fonte quente, 225/523225/523, que é outra forma de escrever 1−Tf/Tq1 - T_f/T_q. Resumo do procedimento: converta as duas temperaturas, ponha a fria em cima e a quente embaixo, e desconfie de qualquer limite igual ou superior a 100 %, porque Tf/TqT_f/T_q é um número positivo menor que 1.

Por que a máquina real fica abaixo do teto

O ciclo de Carnot é reversível: pode ser desfeito devolvendo o gás e as fontes exatamente ao estado inicial, sem deixar marca no universo. Isso exige duas coisas que nenhuma máquina real tem. Primeiro, nenhuma dissipação: sem atrito no pistão, sem viscosidade no fluido, sem turbulência. Segundo, trocas de calor sem diferença de temperatura: o gás recebe calor da fonte quente estando à mesma temperatura que ela, o que só acontece no limite de um processo infinitamente lento. Um motor de verdade gira a 3 000 rotações por minuto, a chama está a 2 000 K enquanto o gás está a 900 K, e o atrito esquenta tudo. Cada um desses desvios é uma irreversibilidade, e cada irreversibilidade come um pedaço do rendimento.

É por isso que os números reais ficam onde ficam: motor de carro a 25–30 % com um teto de uns 67 % (900 K contra 300 K); termelétrica a vapor a 30–40 % com um teto de uns 60 %. E é por isso que “tecnologia melhor” nunca é resposta para um rendimento acima do teto: a engenharia encurta a distância até a reta da figura anterior, mas a reta não se move. O que a move é mudar as temperaturas, e a fonte quente esbarra nos materiais (a turbina derrete) e a fonte fria, no ambiente (o rio, o ar, a torre estão a uns 300 K).

A geladeira ao contrário: refrigeradores e bombas de calor

Leia o enunciado de Clausius pelo outro lado: o calor não sobe sozinho do frio para o quente, mas sobe se alguém pagar. A geladeira é exatamente isso, uma máquina térmica com as três setas invertidas. O compressor gasta trabalho WW, o fluido retira calor QfQ_f do interior (a fonte fria) e despeja Qq=Qf+WQ_q = Q_f + W na cozinha (a fonte quente), pela grade traseira, que por isso está sempre morna.

Eficiência do refrigerador e da bomba de calor

Um refrigerador é avaliado pela quantidade de calor que consegue extrair do compartimento frio para cada unidade de trabalho consumida pelo compressor:

e=QfW(eficieˆncia, ou coeficiente de desempenho do refrigerador).e = \frac{Q_f}{W} \qquad (\text{eficiência, ou coeficiente de desempenho do refrigerador}).

Uma bomba de calor é a mesma máquina usada para aquecer o lado quente (um aquecedor de ambiente ou de piscina, o ar-condicionado no modo inverno); o efeito útil passa a ser QqQ_q:

COPaq=QqW=Qf+WW=e+1.\text{COP}_{\text{aq}} = \frac{Q_q}{W} = \frac{Q_f + W}{W} = e + 1.

Os dois podem ser maiores que 1 sem violar nada: o trabalho não é a única energia que chega ao lado quente; a maior parte foi bombeada da fonte fria. Para a máquina reversível entre duas fontes, o máximo é

emax⁡=TfTq−Tf,e_{\max} = \frac{T_f}{T_q - T_f},

e as máquinas reais ficam abaixo. Quanto menor a diferença de temperaturas, maior a eficiência possível: por isso um congelador a −18 °C gasta mais que uma geladeira a 4 °C para retirar o mesmo calor.

Dois esquemas lado a lado. À esquerda, motor: fonte quente, queima, no alto; máquina M no centro; fonte fria, ar, embaixo; seta grossa desce da fonte quente até M com Q q igual a 1000 joules; seta desce de M até a fonte fria com Q f igual a 700 joules; seta sai de M para a direita com W igual a 300 joules sai; legenda: calor desce do quente ao frio e sobra trabalho, rendimento 30 por cento. À direita, refrigerador ou bomba de calor: fonte quente, cozinha, no alto; máquina R no centro; fonte fria, interior da geladeira, embaixo; seta sobe da fonte fria até R com Q f igual a 600 joules; seta sobe de R até a fonte quente com Q q igual a 800 joules; seta entra em R vinda da direita com W igual a 200 joules entra; legenda: calor sobe do frio ao quente porque alguém paga trabalho; e igual a Q f sobre W igual a 3; COP de aquecimento igual a Q q sobre W igual a 4; Q q igual a Q f mais W.
O motor e o refrigerador são a mesma máquina com as setas invertidas. No motor o calor desce e sobra trabalho; no refrigerador o trabalho entra e o calor sobe. Nos dois, Qq=Qf+WQ_q = Q_f + W. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (a geladeira aberta). O refrigerador da figura retira 600 J do interior por ciclo com e=3e = 3. Trabalho: W=600/3=200W = 600/3 = 200 J. Calor na cozinha: Qq=600+200=800Q_q = 600 + 200 = 800 J. Porta aberta numa cozinha fechada: o ar frio que sai pela frente é o mesmo ar que a máquina esfriou retirando 600 J, e ela despejou 800 J por trás, no mesmo cômodo. Saldo para a cozinha: +200+200 J por ciclo, todo o trabalho elétrico virando calor. A cozinha esquenta. Só um ar-condicionado, com a unidade externa na rua, resfria um ambiente, porque manda o QqQ_q para fora. Máximo ideal entre 270 K e 300 K: emax⁡=270/30=9e_{\max} = 270/30 = 9; o aparelho real (3) fica bem abaixo.

Na prova. O item 77 de 2013 cobrou o refrigerador com números: para congelar 1 000 g de água inicialmente a 15 °C é preciso retirar 15 kcal (resfriar até 0 °C) mais 80 kcal (solidificar), 95 kcal ao todo; “um refrigerador com eficiência igual a 5 deverá realizar um trabalho igual a 19 kcal”, e de fato 95/5=1995/5 = 19: C. O cálculo do calor a retirar é assunto de calorimetria; a divisão por ee é o que esta página acrescenta. Em 2024 (item 50) o que estava em jogo era a definição: “A geração de energia elétrica a partir das fontes renováveis hidráulica e eólica é análoga à observada na operação de uma máquina térmica, pelo fato de haver perda de energia na forma de calor no processo”. E. O que caracteriza uma máquina térmica é usar calor como matéria-prima do trabalho, operando entre uma fonte quente e uma fria; a turbina de uma hidrelétrica recebe energia mecânica da água e a transforma em elétrica sem que calor entre na cadeia. Que uma parte se perca em atrito e aquecimento é verdade para qualquer máquina, térmica ou não, e portanto não serve de critério. O teste é: o calor está na origem do trabalho, ou aparece só como perda?

"A geladeira cria frio"

Não existe “frio” como coisa que se produz; existe calor que se transporta. A geladeira bombeia calor de dentro para fora gastando trabalho, e o resultado líquido para a casa é aquecimento: tudo o que ela retira do interior mais toda a energia elétrica que consome acabam no ar da cozinha. Dois enganos derivam daí: achar que a porta aberta refresca a cozinha (esquenta) e achar que o refrigerador viola Clausius por passar calor do frio ao quente (não viola: consumir trabalho é o “outro efeito” que o enunciado exige).

Entropia: o que o fluido devolve a cada ciclo e o universo nunca devolve

Uma panela de sopa esquecida no fogão apagado vai perdendo calor para a cozinha até ficar na temperatura do ambiente; a cozinha, imensa em comparação, aquece de modo imperceptível. Ninguém jamais viu o processo inverso, a sopa fria voltando a ferver às custas do ar da sala, embora a soma das energias fosse a mesma antes e depois. Uma gota de tinta num copo d’água se dispersa até colorir tudo e nunca se recolhe de volta à gota. Os processos espontâneos têm um sentido, e a conservação da energia não diz qual é. A grandeza inventada para dizer isso é a entropia: ela quantifica o grau de dispersão da energia, e os processos naturais só acontecem no sentido em que a dispersão total aumenta.

Entropia: definição de uso e as duas propriedades que resolvem os itens

Se um sistema que está à temperatura absoluta TT troca uma quantidade de calor QQ por um processo reversível, a variação de sua entropia é

ΔS=QT,\Delta S = \frac{Q}{T},

medida em joule por kelvin e com o sinal de QQ: positiva quando o sistema recebe calor, negativa quando cede, nula quando não há troca. Por isso um processo adiabático reversível também se chama isentrópico: a entropia do sistema permanece a mesma. Quando a temperatura varia ao longo da troca, a conta exige somar as contribuições Q/TQ/T trecho a trecho (e aparece um logaritmo, que fica fora desta página); nos itens da prova, porém, a troca ocorre a temperatura fixa.

  1. A entropia é uma função de estado, como a energia interna e a temperatura: seu valor é determinado pelo estado em que o sistema se encontra, independentemente do percurso seguido para chegar lá. Por isso, ao completar um ciclo e retornar ao estado inicial, o fluido de trabalho recupera exatamente a entropia que tinha: ΔSfluido=0\Delta S_{\text{fluido}} = 0 por ciclo.
  2. A entropia total (sistema mais vizinhança) nunca diminui. Em qualquer processo real a soma ΔSfluido+ΔSfontes\Delta S_{\text{fluido}} + \Delta S_{\text{fontes}} é positiva; ela só é nula no limite ideal do processo reversível. Esse enunciado é equivalente aos de Kelvin–Planck e de Clausius: é a segunda lei formulada com uma grandeza mensurável.

Boltzmann deu à entropia um significado microscópico: ela mede quantos arranjos distintos das partículas são compatíveis com o estado macroscópico observado. Como os arranjos em que a energia está dispersa superam em número, por fatores astronômicos, os arranjos em que ela está concentrada, o sistema evolui para a dispersão com probabilidade esmagadora. “Desordem” é um apelido aproximado para isso: não se trata de bagunça visível, mas de contagem de configurações.

Exemplo resolvido (de quem é a entropia). Uma máquina real recebe 1 000 J de uma fonte a 600 K e rejeita 600 J a 300 K por ciclo. O fluido: deu a volta completa, ΔS=0\Delta S = 0. A fonte quente: perdeu 1 000 J a 600 K, ΔSq=−1 000/600≈−1,67\Delta S_q = -1\,000/600 \approx -1{,}67 J/K. A fonte fria: recebeu 600 J a 300 K, ΔSf=+600/300=+2\Delta S_f = +600/300 = +2 J/K. Universo: −1,67+2=+0,33-1{,}67 + 2 = +0{,}33 J/K, positivo, como manda a segunda lei para um processo real. Conferência: uma máquina de Carnot entre as mesmas fontes teria η=50 %\eta = 50\,\% e rejeitaria só 500 J: −1 000/600+500/300=0-1\,000/600 + 500/300 = 0. A máquina real (40 %) rejeita mais do que a reversível, e é esse excesso de calor na fonte fria que faz a entropia do universo crescer. Rendimento abaixo do teto e entropia do universo crescendo são o mesmo fato visto de dois lados.

O café e os dois blocos. Passe 1 000 J por condução de um bloco a 500 K para outro a 250 K, sem que as temperaturas variem muito: −1 000/500+1 000/250=−2+4=+2-1\,000/500 + 1\,000/250 = -2 + 4 = +2 J/K. O sentido inverso daria −2-2 J/K, e é por isso que ele nunca acontece. Calor passando por uma diferença finita de temperatura é sempre irreversível, e o tamanho da diferença é o tamanho da irreversibilidade.

Na prova. Os itens de entropia se dividem em dois grupos. No primeiro, a decisão depende de identificar qual entropia está em jogo, a do fluido ou a do conjunto. Em 2024 (item 52): “Depois de um ciclo completo de funcionamento, não se verifica aumento da entropia do fluido de trabalho das máquinas térmicas”, C. Em 2010 (item 115), dentro do bloco de uma usina a vapor: “Em um ciclo termodinâmico completo, como representado na figura, a variação da energia interna de uma massa de água é nula, mas, devido à segunda lei da termodinâmica, sua entropia varia positivamente”, E. Os dois itens, separados por catorze anos, se resolvem com a mesma observação: a água que circula no ciclo é o fluido de trabalho, volta ao estado de partida e, por ser a entropia uma função de estado, volta também ao mesmo valor de SS; o crescimento de que fala a segunda lei pertence ao conjunto fluido mais fontes. Em 2025 (item 68) a propriedade foi cobrada trecho a trecho no ciclo de Otto do motor a etanol: “A variação de entropia entre os estados B e C do ciclo termodinâmico representado na figura II é igual ao valor negativo da variação de entropia entre os estados D e A”, C: nas duas adiabáticas SS não varia, e as variações nas duas isocóricas precisam se cancelar para que o total do ciclo seja zero. O segundo grupo usa a definição ΔS=Q/T\Delta S = Q/T fora de um ciclo: em 2012 (item 62), numa usina solar com sal fundido, “Durante a transição de fase, entre o estado sólido e o líquido, a uma temperatura constante, há aumento na entropia do sal”, C, porque a fusão absorve calor a temperatura fixa, Q>0Q > 0 e ΔS>0\Delta S > 0. Para ter uma ordem de grandeza: dois quilos de gelo que derretem a 273 K absorvem 160 000 cal e ganham 160 000/273≈586160\,000/273 \approx 586 cal/K.

O ciclo de Carnot no plano temperatura × entropia

Assim como a área sob a curva no plano p×Vp \times V é trabalho, a área sob a curva no plano T×ST \times S é calor: num trecho a temperatura constante, Q=T ΔSQ = T\,\Delta S é a área de um retângulo de altura TT e base ΔS\Delta S. Nesse plano, um processo isotérmico aparece como um traço horizontal e um processo adiabático reversível, por manter SS fixo, como um traço vertical; o ciclo de Carnot, feito só desses dois tipos de trecho, é portanto um retângulo. A prova desenhou esse retângulo em 2009, 2010 e 2018 e pediu para interpretá-lo.

Gráfico com a temperatura em kelvin no eixo vertical e a entropia em joules por kelvin no horizontal. Um retângulo tem os vértices A e B na linha T q igual a 600 kelvin e D e C na linha T f igual a 300 kelvin; A e D na entropia S 1, B e C na entropia S 2, com delta S igual a 2 joules por kelvin marcado na base. Setas percorrem A para B, B para C, C para D, D para A. Rótulos: A para B, isotérmica quente, recebe Q q igual a T q vezes delta S igual a 1200 joules; B para C, adiabática, S constante, esfria; C para D, isotérmica fria, rejeita Q f igual a T f vezes delta S igual a 600 joules; D para A, adiabática, S constante, aquece. A área interna, em azul, está rotulada W igual a T q menos T f vezes delta S igual a 600 joules; a área abaixo, até o eixo, em verde, Q f igual a 600 joules. Painel à direita: horizontal é isotérmica, vertical é adiabática, área até o eixo é calor trocado, área interna é trabalho por ciclo, horário é motor; rendimento igual a 600 sobre 1200 igual a 1 menos T f sobre T q igual a 50 por cento; fontes: menos 1200 sobre 600 mais 600 sobre 300 igual a zero, ciclo reversível.
Ciclo de Carnot no plano T×ST \times S: os lados horizontais são as isotérmicas, os verticais as adiabáticas. Em azul, o trabalho por ciclo; em verde, o calor entregue à fonte fria; as duas áreas juntas somam o calor recebido. O quociente entre a área azul e a soma, (Tq−Tf)/Tq=1−Tf/Tq(T_q - T_f)/T_q = 1 - T_f/T_q, é a expressão do limite de Carnot lida diretamente na figura. Diagrama autoral.

De onde vem o teto. O retângulo demonstra a fórmula de Carnot em duas linhas. No ciclo reversível a entropia do universo não muda: a fonte quente perde Qq/TqQ_q/T_q e a fria ganha Qf/TfQ_f/T_f, com o fluido zerado, logo −Qq/Tq+Qf/Tf=0-Q_q/T_q + Q_f/T_f = 0, ou seja, Qf/Qq=Tf/TqQ_f/Q_q = T_f/T_q, e η=1−Qf/Qq=1−Tf/Tq\eta = 1 - Q_f/Q_q = 1 - T_f/T_q. Numa máquina irreversível a soma é positiva, Qf/Qq>Tf/TqQ_f/Q_q > T_f/T_q, e o rendimento fica abaixo do teto. Não é preciso saber nada sobre o fluido: por isso o teto vale para gás, vapor, qualquer coisa.

Na prova. Em 2009 (itens 119 e 120), o texto-base explicava o diagrama, dava ΔS=ΔQ/T\Delta S = \Delta Q/T e desenhava o retângulo de vértices a, b, c e f com um losango dentro, “uma máquina mais realista”. “A transformação b-c, a despeito de não ser isotérmica, é adiabática”: b-c é o lado vertical, entropia constante, C. “Na transformação a-b, absorve-se calor da fonte quente e esse calor absorvido é dado por T_q ΔS”: o lado de cima, C. Em 2010 (itens 107 a 110), o retângulo veio com A e B na temperatura alta, C e D na baixa, sentido A→B→C→D, e um gás monoatômico ideal; a banca perguntou pelas pressões, pelos sinais do trabalho, pelo rendimento e pela energia interna. Traduza cada lado para o plano p×Vp \times V: A→B, isotérmica em que SS cresce, recebe calor e expande, pressão cai, WAB>0W_{AB} > 0; B→C, adiabática que esfria, expande, pressão cai mais, WBC>0W_{BC} > 0; C→D, isotérmica que comprime, WCD<0W_{CD} < 0; D→A, adiabática que aquece, comprime, WDA<0W_{DA} < 0. Daí pA>pB>pCp_A > p_B > p_C e pC<pD<pAp_C < p_D < p_A (107, C); todos os sinais do item 108 estavam invertidos (E); no 109, pV=nRTpV = nRT com pAVA=5 pCVCp_A V_A = 5\,p_C V_C dá TA=5 TCT_A = 5\,T_C e η=1−1/5=80 %\eta = 1 - 1/5 = 80\,\%, não “menos que 0,7 J” por joule (E); no 110, A e B estão à mesma temperatura, mesma energia interna (E). Em 2018 (item 79), a banca desenhou o retângulo pronto entre 630 K e 320 K, sentido horário, e perguntou se “ilustra de forma correta o ciclo do motor do avião na região II”: C. O vizinho, item 80, dizia que “na transformação adiabática que ocorre no motor, não haverá variação térmica”: E, adiabática é sem calor, não sem mudar de temperatura; é justamente nela que o gás esfria de 630 K até a fonte fria.

De quem é a entropia?

Ao fim de um ciclo, a entropia do fluido de trabalho está de volta ao valor inicial, por ser função de estado; foi isso que decidiu o item de 2024 (C) e o de 2010 (E, porque afirmava o contrário). O que cresce a cada ciclo real é a entropia do conjunto, fluido mais fontes. Antes de julgar, localize de qual entropia o item fala. Três outros disfarces: “isentrópico” quer dizer adiabático reversível, e um traço vertical no plano T×ST \times S é uma adiabática, não uma isocórica; a entropia de um sistema pode diminuir (a água que congela perde entropia), contanto que a vizinhança ganhe mais do que isso; e entropia não é sujeira: fundir um cristal limpo aumenta a entropia, e uma sala arrumada não tem entropia menor do que a mesma sala bagunçada.

As máquinas do Brasil: Otto, Diesel, termelétrica, etanol

O motor a etanol de um carro é uma máquina térmica de combustão interna: em vez de uma caldeira separada, a fonte quente é a própria mistura de ar e combustível queimando dentro do cilindro. Em 2025 a banca escolheu seu funcionamento em quatro tempos (admissão, compressão, combustão com expansão, escape) como texto de apoio para quinze itens, o bloco mais extenso daquela prova. O modelo termodinâmico é o ciclo de Otto: uma compressão adiabática (o pistão sobe, a mistura esquenta sem receber calor), um aquecimento isocórico (a faísca queima tudo antes que o pistão se mova, a pressão dispara), uma expansão adiabática (o gás quente empurra o pistão, esfriando) e um resfriamento isocórico (a válvula de escape abre e a pressão cai). Todo o calor entra na combustão e todo o calor sai no escape; as adiabáticas só trocam trabalho.

Cadeia de conversões e rendimentos reais

Numa termelétrica a energia passa por quatro formas sucessivas:

quıˊmica (ou nuclear)  →  teˊrmica  →  mecaˆnica  →  eleˊtrica.\text{química (ou nuclear)} \;\to\; \text{térmica} \;\to\; \text{mecânica} \;\to\; \text{elétrica}.

Do calor liberado na caldeira, 30 a 40 % chegam à rede como eletricidade; o restante é o QfQ_f do ciclo, descartado no condensador e levado pelo rio ou pelas torres de resfriamento. O motor de combustão interna percorre a mesma sequência sem passar pelo vapor: o ciclo Otto (gasolina e etanol, ignição por faísca) fica em 25–30 %, o Diesel (ignição pela compressão, taxa de compressão mais alta) em 35–40 %. A termelétrica a gás de ciclo combinado reaproveita o escape da turbina a gás para produzir vapor e alcança 55–60 %. Hidrelétricas e parques eólicos ficam fora dessa classificação: a água em queda e o vento entregam energia mecânica diretamente à turbina, nenhuma fonte quente participa, e os rendimentos de 85–90 % não estão sujeitos a limite de Carnot. Para qualquer conversor, Puˊtil=η PrecebidaP_{\text{útil}} = \eta\,P_{\text{recebida}}. Uma última distinção: o CO₂ de uma termelétrica a carvão ou a gás nasce na reação de combustão, que é química; a segunda lei só diz quanto do calor liberado pode virar trabalho e não tem relação com o que sai pela chaminé.

Gráfico de barras horizontais com o rendimento de zero a cem por cento. Cada máquina tem uma barra vermelha curta, o rendimento real típico, e um contorno azul tracejado até o teto de Carnot para as temperaturas típicas. Motor Otto, gasolina e etanol: 25 a 30 por cento, teto cerca de 67 por cento, 900 kelvin contra 300 kelvin. Motor Diesel: 35 a 40 por cento, teto cerca de 70 por cento. Termelétrica a vapor, carvão, biomassa e nuclear: 30 a 40 por cento, teto cerca de 63 por cento a cerca de 820 kelvin. Termelétrica a gás de ciclo combinado: 55 a 60 por cento, teto cerca de 82 por cento. Máquina a vapor de Watt, 1780: cerca de 3 a 5 por cento. Hidrelétrica, turbina e gerador: barra verde em 85 a 90 por cento, com a nota de que não é máquina térmica e não tem teto de Carnot.
Rendimentos reais típicos (barras) contra o teto de Carnot das temperaturas típicas de cada máquina (contornos). Nenhuma barra chega ao contorno; a distância é a soma das irreversibilidades. A hidrelétrica está fora do jogo: não converte calor. Valores arredondados da engenharia; os tetos usam fonte fria a 300 K. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (o motor a etanol e a usina). O item 74 da prova de 2025 descrevia um motor a etanol de 120 CV e eficiência de 30 %, com 1 CV = 740 W. Potência útil: 120×740=88 800120 \times 740 = 88\,800 W, cerca de 89 kW. Como Puˊtil=η PqP_{\text{útil}} = \eta\,P_q, a potência térmica liberada pela combustão é Pq=88,8/0,30=296P_q = 88{,}8/0{,}30 = 296 kW, e a diferença, 296−88,8≈207296 - 88{,}8 \approx 207 kW, é o que o motor despeja no ambiente: 207 kJ para o ar a cada segundo, contra 89 kJ para as rodas. Agora uma usina: uma termelétrica que entrega 600 MW elétricos com rendimento de 40 % precisa de 600/0,40=1 500600/0{,}40 = 1\,500 MW térmicos da caldeira e manda 1 500−600=9001\,500 - 600 = 900 MW para o condensador, mais do que produz de eletricidade. Uma hidrelétrica de 600 MW não tem nenhum fluxo equivalente, porque em sua cadeia não há calor a descartar. De volta ao item de 2025, um tipo C que perguntava o calor dissipado por segundo e oferecia 250, 276, 296 e 340 kJ: o valor correto, 207 kJ, não estava entre as opções, e os 296 kJ da opção C correspondem ao calor recebido, não ao dissipado. A banca anulou o item. Fica a lição em duas partes: o procedimento (potência útil, depois potência recebida, depois a diferença) é o certo, e quem o seguiu e não encontrou a resposta agiu bem ao não escolher uma opção à força.

Na prova. Quando quer cobrar a segunda lei como fato concreto, e não como fórmula, a banca recorre às máquinas de verdade. Em 2024 (item 51): “Na geração de energia em uma usina termelétrica, a queima de combustível fóssil produz gases de efeito estufa devido à impossibilidade de conversão completa de calor em trabalho em uma máquina térmica”, E: mesmo que existisse uma termelétrica de rendimento 100 %, a quantidade de CO₂ por tonelada de carvão queimada seria a mesma, porque o gás é produto da combustão e não da perda de calor. Em 2016 (item 92), sobre Angra I: “ocorre conversão de energia química em energia térmica, que, posteriormente, é convertida em energia elétrica”, E, porque a fissão libera energia nuclear, não química. Em 2015 (item 86), o esquema da termelétrica a carvão: “na fase de condensação, o vapor, em temperatura e pressão menores, deixa a turbina e passa através de um condensador, onde retorna à forma líquida”, C: é a fonte fria em pessoa, o lugar onde QfQ_f sai. E o bloco de 2025 (itens 65 a 68) cobrou o ciclo de Otto sem nenhum número: o rendimento, dizia o item 65, “depende apenas da razão entre as diferenças de temperatura T_D − T_A e T_C – T_B” (C, porque nas isocóricas Q=ncVΔTQ = n c_V \Delta T e o ncVn c_V cancela na razão Qf/QqQ_f/Q_q); TC>TDT_C > T_D na expansão adiabática (C); e a armadilha do item 67: “Uma vez que … a temperatura do estado termodinâmico A é menor que a do estado termodinâmico B, conclui-se que existe um fluxo de calor que entra no motor”, E, porque A→B é a compressão adiabática: a temperatura sobe pelo trabalho, sem calor nenhum. Uma premissa verdadeira sustentando a causa errada. A mesma compressão já derrubara um item em 2017 (item 89), que dizia que ela reduz a temperatura do gás; em 2025 a banca aceitou o aquecimento e errou a causa.

O rio como fonte fria

Toda termelétrica precisa de um lugar frio para despejar QfQ_f, e o lugar mais barato é um rio, um lago ou o mar. Em 2010 (itens 111 e 112), a banca propôs uma usina nuclear de 60 MW com eficiência de 30 % instalada num rio de 10 m³/s: ela rejeita 140 MW ao rio, e uma norma fixava em 10 °C o aquecimento máximo da água de resfriamento. A conta de quanto o rio esquenta (calor rejeitado dividido por vazão e calor específico) é o assunto de geração de energia elétrica, mas a origem dos 140 MW é esta página: 60 MW úteis a 30 % exigem 200 MW térmicos, e 140 MW têm de ir para algum lugar. É por isso que as torres de resfriamento existem onde não há rio suficiente: evaporam água para levar o calor embora.

Como ler o diagrama: setas e o ciclo p × V, só o essencial

Dois desenhos aparecem nos itens deste assunto. O primeiro é o esquema de setas da primeira figura: fonte quente em cima, máquina no meio, fonte fria embaixo, três setas. Leia os números, escreva Qq=W+QfQ_q = W + Q_f, calcule o que falta, divida para o rendimento. Se aparecem temperaturas, converta para kelvin e calcule o teto para comparar. O segundo é o ciclo no plano p×Vp \times V, cuja leitura detalhada (trabalho como área, trecho a trecho pela primeira lei) é a página da primeira lei. O que esta página precisa dele cabe numa figura.

Diagrama com a pressão em quilopascal no eixo vertical e o volume em litros no horizontal. Um retângulo tem os vértices A, em 1 litro e 300 quilopascal; B, em 3 litros e 300 quilopascal; C, em 3 litros e 100 quilopascal; D, em 1 litro e 100 quilopascal, percorrido no sentido horário A, B, C, D. Rótulos: A para B expande a 300 quilopascal, trabalho mais 600 joules, recebe calor; B para C isocórica, trabalho zero, rejeita calor; C para D comprimido a 100 quilopascal, trabalho menos 200 joules, rejeita calor; D para A isocórica, trabalho zero, recebe calor. A área interna, azul, está rotulada área interna igual a trabalho líquido, 200 quilopascal vezes 2 litros igual a 400 joules por volta; a área cinza abaixo é o trabalho devolvido na compressão. Painel à direita: trabalho é área sob a curva; para a direita o gás realiza; para a esquerda o gás recebe; ciclo horário é motor; ciclo anti-horário é refrigerador; na volta completa a variação de energia interna é zero, logo o trabalho líquido é o calor recebido menos o rejeitado; a 20 voltas por segundo, 8000 watts.
Um ciclo esquemático no plano p×Vp \times V. A área interna é o trabalho líquido por volta (200 kPa×2 L=400200 \text{ kPa} \times 2 \text{ L} = 400 J); sentido horário é motor, anti-horário é refrigerador; e, como ΔU=0\Delta U = 0 na volta completa, esse trabalho é exatamente o calor que entrou menos o que saiu. Diagrama autoral.

Três regras bastam aqui. Horário é motor, anti-horário é refrigerador: no sentido horário a expansão acontece pelo caminho de cima (área maior) e a compressão pelo de baixo, sobra trabalho positivo; invertido, a vizinhança trabalha sobre o gás, que então tira calor da fonte fria e o despeja na quente, o ciclo de Carnot ao contrário. Área interna é o trabalho por volta, e, como o gás volta ao estado inicial, esse trabalho é Qrecebido−QrejeitadoQ_{\text{recebido}} - Q_{\text{rejeitado}}. Em cada trecho, pergunte o que fica constante: isotérmica troca calor (Q=WQ = W), isocórica não trabalha (Q=ΔUQ = \Delta U), adiabática não troca calor (a temperatura muda pelo trabalho). Foi com essas três regras que o bloco de 2025 se resolveu, e é com elas que se reconhece o Otto (duas adiabáticas e duas isocóricas), o Diesel (troca a isocórica quente por uma isobárica), o Brayton (duas adiabáticas e duas isobáricas, o motor de avião de 2019), o Stirling (duas isotérmicas e duas isocóricas, 2012 e 2015) e o Carnot (duas isotérmicas e duas adiabáticas, 2013). Em 2015 (item 91), a banca disse que na expansão isotérmica do Stirling havia “saída de calor do motor”: E, isotérmica que expande recebe calor, senão esfriaria.

Como a banca pergunta

Nas provas da 2.ª etapa de 2007 a 2025, a segunda lei e as máquinas rederam itens em dezesseis edições, com um bloco inteiro em 2025 (motor a etanol) e outro em 2024 (Resenha Energética). O padrão é estável:

  • Três setas com números (2013/76, 2011/97): W=Qq−QfW = Q_q - Q_f, η=W/Qq\eta = W/Q_q, ou o inverso Qq=W/ηQ_q = W/\eta. Limiar rente ao resultado.
  • Teto de Carnot com temperaturas (2008/106, 2012/104, 2019/94, 2024/55, 2015/93): kelvin, 1−Tf/Tq1 - T_f/T_q, compare com o afirmado. Distratores em Celsius e com a fração invertida. Rendimento acima do teto = E imediato.
  • Fração do teto (2008/106, e o exemplo da usina): “eficiência igual a 40 % do rendimento de Carnot” é multiplicar, não somar nem substituir.
  • Refrigerador (2013/77): calor a retirar (calorimetria) dividido pela eficiência e=Qf/We = Q_f/W; o que sai atrás é Qf+WQ_f + W.
  • De quem é a entropia (2024/52, 2010/115, 2025/68): fluido volta a zero no ciclo; universo cresce. Fusão a temperatura constante aumenta a entropia (2012/62).
  • Leitura do retângulo T×ST \times S (2009/119–120, 2010/107–110, 2018/79): horizontal é isotérmica, vertical é adiabática, área é calor, sentido horário é motor.
  • Fronteira do conceito e cadeia de conversões (2024/50, 2024/51, 2016/92, 2015/86): hidrelétrica não é máquina térmica; CO₂ vem da combustão; nuclear não é química; o condensador é a fonte fria.
  • Primeira × segunda lei (2017/93): a conta fecha? o rendimento cabe no teto?
  • Ciclo de Otto trecho a trecho (2025/65–68, 2017/89): adiabática muda temperatura sem calor; calor entra e sai nas isocóricas.
  • Vizinhos disfarçados: trabalho como área e ΔU\Delta U trecho a trecho (2024/61–63, 2019/97, 2017/92, 2025/77) são primeira lei; quanto o rio esquenta (2010/111–112, 2010/116) é geração de energia elétrica e calorimetria; quem foi Carnot (2024/99–101) é história da termodinâmica.

Os erros que a prova planta

Nove tropeços, um por linha
  1. Celsius na fórmula de Carnot. 1−27/327≈92 %1 - 27/327 \approx 92\,\% é o distrator; some 273 antes de dividir: 50 %.
  2. η=Tf/Tq\eta = T_f/T_q. Essa é a fração rejeitada. O rendimento é o que falta para 1.
  3. ΔT/Tf\Delta T/T_f em vez de ΔT/Tq\Delta T/T_q. O 75 % do Stirling de 2012; a diferença de temperaturas divide-se pela fonte quente.
  4. “Com tecnologia melhor chega a 100 %.” Não: chega ao teto, que é menor que 100 % para qualquer fonte fria acima de 0 K.
  5. Rendimento como diferença (“perdeu 30 %”) ou com o calor rejeitado no denominador.
  6. A geladeira “cria frio” ou “resfria a cozinha” de porta aberta. Bombeia calor e aquece a cozinha em WW por ciclo.
  7. Refrigerador “viola Clausius”. Não: consome trabalho, e o enunciado proíbe só o processo cujo único efeito é passar calor do frio ao quente.
  8. Confundir as duas leis. Energia que some é a primeira; rendimento acima do teto é a segunda. “Calor rejeitado” não é “calor destruído”.
  9. Entropia do fluido “aumenta a cada ciclo” ou entropia como sujeira. Fluido volta a zero; o universo cresce; a fusão de um cristal aumenta a entropia.

O essencial em meia página

  • Máquina térmica: dispositivo cíclico entre fonte quente e fonte fria; Qq=W+QfQ_q = W + Q_f (módulos, por ciclo); potência =W×= W \times ciclos por segundo.
  • Rendimento: η=W/Qq=1−Qf/Qq\eta = W/Q_q = 1 - Q_f/Q_q, fração aproveitada. Motor de carro ∼30 %\sim 30\,\%; termelétrica 30–40 %.
  • Segunda lei: Kelvin–Planck (nenhum ciclo converte todo o calor em trabalho; Qf>0Q_f > 0, η<1\eta < 1) e Clausius (calor não sobe do frio ao quente sem trabalho). Equivalentes; a palavra-chave é único efeito.
  • Carnot: duas isotérmicas + duas adiabáticas, reversível; ηmax⁡=1−Tf/Tq\eta_{\max} = 1 - T_f/T_q, kelvin sempre (T=θ+273T = \theta + 273; 27→30027 \to 300, 127→400127 \to 400, 227→500227 \to 500, 327→600327 \to 600). Máquina real fica abaixo; rendimento acima do teto é E imediato; 100 % só com Tf=0T_f = 0.
  • Reversível × irreversível: sem atrito e sem diferença de temperatura nas trocas é o ideal; atrito, condução por diferença finita, expansão livre e mistura são irreversíveis e comem rendimento.
  • Refrigerador: setas invertidas, WW entra, QfQ_f sobe, Qq=Qf+WQ_q = Q_f + W sai; e=Qf/We = Q_f/W (pode ser > 1), emax⁡=Tf/(Tq−Tf)e_{\max} = T_f/(T_q - T_f); bomba de calor COP=Qq/W=e+1\text{COP} = Q_q/W = e + 1. Geladeira aberta aquece a cozinha.
  • Entropia: ΔS=Q/T\Delta S = Q/T (kelvin, J/K), função de estado. No ciclo, ΔSfluido=0\Delta S_{\text{fluido}} = 0; nos processos reais, ΔSuniverso>0\Delta S_{\text{universo}} > 0 (zero só no reversível). Fusão a TT constante: ΔS=mL/T>0\Delta S = mL/T > 0. Seta do tempo; “desordem” = número de arranjos, não sujeira.
  • Plano T×ST \times S: Carnot é um retângulo; horizontal = isotérmica, vertical = adiabática; área até o eixo = calor; área interna = trabalho; Qf/Qq=Tf/TqQ_f/Q_q = T_f/T_q sai daí.
  • Máquinas do Brasil: Otto (2 adiabáticas + 2 isocóricas) 25–30 %, Diesel 35–40 %, termelétrica a vapor 30–40 % (química ou nuclear → térmica → mecânica → elétrica), ciclo combinado até 60 %. Hidrelétrica e eólica não são máquinas térmicas. CO₂ vem da combustão, não da segunda lei. Calor rejeitado vai ao condensador, ao rio, às torres.
  • Leitura de diagramas: três setas no rascunho; no p×Vp \times V, horário = motor, anti-horário = refrigerador, área interna = WW; em cada trecho, pergunte o que fica constante.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Máquinas Térmicas e o Ciclo de Carnot - Brasil Escola
Brasil Escola Oficial · 16:46
Introdução. Dezessete minutos com o que é uma máquina térmica (qualquer dispositivo que queima combustível para realizar trabalho), as fontes quente e fria, o rendimento e o ciclo de Carnot como limite, no vocabulário do ensino médio. Cobre as seções “Três setas e uma conta” e “Carnot: o teto que depende só das temperaturas” desta página; bom para assistir antes de ler.
Física II - Aula 27 - Segunda lei da termodinâmica e entropia
UNIVESP · 23:28
Aprofundamento. Aula de 23 minutos do curso de Física II da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (prof. Valdir Bindilatti), sobre a segunda lei formulada com entropia: a definição por calor reversível, a entropia como função de estado e o crescimento da entropia do universo nos processos irreversíveis. É a seção “Entropia: o que o fluido devolve a cada ciclo e o universo nunca devolve” num nível um passo acima do da prova, para quem quer ver de onde vêm as duas propriedades que resolvem os itens 2024/52 e 2010/115.
REFRIGERADORES: como funciona a geladeira | Física Enem | Flaverson Batista
Curso Enem Gratuito · 9:14
Aplicação. Nove minutos sobre a geladeira como máquina térmica que opera no sentido inverso: como o calor é retirado do interior, as etapas do ciclo (compressor, condensador na grade traseira, evaporador) e por que a traseira esquenta. É a seção “A geladeira ao contrário: refrigeradores e bombas de calor” vista no aparelho de verdade, com o enunciado de Clausius em ação.
PAS2 2017 Física 93 - Ciclo de Carnot, Rendimento e Leis da Termodinâmica
Fazendo Física · 10:07
Resolução. Dez minutos com o item 93 da 2.ª etapa de 2017 (as três máquinas: Carnot entre 327 °C e 127 °C, Carnot entre 327 K e 127 K, e a máquina que extrai 30 × 10⁶ cal e entrega 60 × 10⁶ J), resolvido passo a passo: conversão para kelvin, teto de Carnot para I e II, e a conta que mostra que a máquina III viola a primeira lei, não a segunda. É a seção “O que a segunda lei proíbe” e o roteiro “a conta fecha? o rendimento cabe no teto?” no formato tipo C da banca.
Rota PAS 2
Leis da termodinâmica e máquinas térmicas · PAS 2

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 2 — Leis da termodinâmica e máquinas térmicas · A segunda lei: por que nenhuma máquina aproveita tudo (máquina térmica, rendimento, teto de Carnot, refrigerador, itens 2011/97, 2013/76, 2013/93, 2012/104, 2019/94, 2008/106, 2015/93, 2017/93, 2013/77); Entropia: a grandeza que volta ao início no fluido e só cresce no universo (ΔS = Q/T, função de estado, plano T × S, itens 2024/52, 2010/115, 2025/68, 2012/62, 2009/119–120, 2010/107–110, 2018/79); Do motor a etanol à termelétrica: as máquinas térmicas do Brasil (cadeia de conversões, rendimentos, exemplo de 120 CV e 500 MW, itens 2024/51, 2016/92, 2025/74 anulado); Antes de começar: dez minutos de aquecimento (kelvin, rendimento como fração); Leia como na prova: um bloco de quinze itens (2025/65–68); Resolvidos (termelétrica no limiar, potência do motor); O diagrama p × V (só o essencial: área, sentido, catálogo de ciclos); Como a banca cobra (2024/50, 2024/55, 2025/67)

    Recorte por assunto: máquina térmica como conversor cíclico, rendimento, enunciados da segunda lei, Carnot, refrigeradores e bombas de calor, entropia e irreversibilidade, máquinas reais. A página acrescenta a equivalência dos enunciados, a razão de a máquina real ficar abaixo do teto, o COP de aquecimento e o refrigerador máximo, o exemplo dos dois blocos (ΔS = +2 J/K), a dedução do teto pelo retângulo T × S e a tabela de rendimentos reais. A primeira lei trecho a trecho e a área no p × V ficam em primeira-lei-da-termodinamica; isotérmicas/adiabáticas em transformacoes-gasosas; Carnot, Kelvin, Clausius e Boltzmann como história em historia-da-termodinamica; o aquecimento do rio (2010/111–112, 116) em geracao-de-energia-eletrica e calorimetria. O item 2013/92 (rendimento 'igual a 25%' com conta de 23 %) ficou fora por gabarito em avaliação; 2018/81 e 2025/74 são anulados.

  • Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 2 2008 (item 106, fábrica da figura II), 2009 (itens 119 e 120, ciclo de Carnot em T × S), 2010 (itens 107 a 110, retângulo T × S com gás monoatômico; item 115, ciclo a vapor), 2011 (item 97), 2012 (itens 62 e 104), 2013 (itens 76, 77 e 93), 2015 (itens 86, 91 e 93), 2016 (item 92), 2017 (item 93, tipo C, transcrito da imagem do caderno Madeira), 2018 (itens 79 e 80, avião), 2019 (item 94, Brayton), 2024 (itens 50, 51, 52 e 55, Resenha Energética), 2025 (itens 65 a 68, motor a etanol)

    Itens reproduzidos verbatim dos cadernos em texto; gabaritos conferidos nos arquivos GAB e em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao-pas2/AAAA.json. As figuras impressas (retângulos T × S de 2009, 2010 e 2018, ciclo de Otto de 2025, pistões de Carnot de 2013, ciclo de Brayton de 2019, ciclo de Stirling de 2015, fábrica de 2008) foram vistas no PDF e descritas em texto neutro no suporte das questões. Reutilizados por GUID: 2011/97 e 2024/50 (potencia-e-rendimento); 2012/104, 2013/93, 2015/93 e 2024/52 (historia-da-termodinamica); 2013/77 (calorimetria); 2012/62 (mudancas-de-estado-fisico); 2015/86, 2016/92, 2024/51 e 2024/55 (geracao-de-energia-eletrica).