Numa fieira antiga de luzes de Natal, as vinte lâmpadas formam um único caminho: a corrente que sai da tomada atravessa a primeira, depois a segunda, depois a terceira, e uma só queimada apaga todas. Nas tomadas da sua casa acontece o contrário: o chuveiro, a geladeira e a televisão estão cada um no seu caminho, todos ligados diretamente aos mesmos dois fios da rede. A geladeira não sabe se o chuveiro está ligado, e nenhum aparelho apaga o outro. São as mesmas peças (fonte, fios, resistores) ligadas de dois jeitos, e os dois jeitos dão comportamentos opostos.
Esta página é sobre esses dois jeitos e sobre tudo o que sai deles: por que ligar um resistor a mais em paralelo diminui a resistência total, por que a lâmpada de maior resistência brilha mais numa montagem e menos na outra, como reduzir um circuito enrolado a um único resistor sem errar quem está ligado a quem, o que um curto-circuito faz com o resto do circuito e como a banca transforma cada uma dessas ideias em item. Corrente, tensão e a lei de Ohm (U=Ri) são pré-requisitos e têm páginas próprias; aqui a fonte é sempre ideal, e o assunto é a geometria das ligações.
Duas perguntas decidem qualquer associação: quem compartilha a corrente, quem compartilha a tensão
Um circuito é um desenho com poucos símbolos: a fonte (dois traços paralelos, o mais longo é o polo positivo), o resistor (um retângulo ou um zigue-zague), o fio (uma linha, sem resistência), a chave, e às vezes um medidor (círculo com A ou V). Mas o que interessa não é o desenho, e sim a topologia: quais pontos estão ligados a quais. Três palavras organizam essa leitura.
Nó, ramo e a fonte ideal
Nó é um ponto do circuito onde três ou mais fios se encontram. Dois pontos ligados por um fio sem resistência são, para todos os efeitos, o mesmo nó: têm o mesmo potencial.
Ramo é um trecho entre dois nós, percorrido por uma única corrente. Tudo o que está num mesmo ramo, sem nó no meio, está em série.
Fonte ideal é a que impõe uma tensão fixa U entre seus terminais, aconteça o que acontecer no resto do circuito. Toda a página usa fontes ideais; a resistência interna de uma bateria real é assunto da página de geradores.
Com isso, toda associação, por mais enrolada que pareça, se decide respondendo a duas perguntas. Quem compartilha a corrente? Resistores atravessados pela mesma corrente, um depois do outro, sem desvio entre eles, estão em série. Quem compartilha a tensão? Resistores ligados entre os mesmos dois nós estão em paralelo, e a tensão sobre cada um é a mesma. As duas seções seguintes deduzem, de cada resposta, a resistência equivalente, isto é, o valor do único resistor que, posto no lugar do grupo, deixaria a fonte fornecer a mesma corrente.
Série: um caminho só, a mesma corrente e as tensões que se somam
Ligue R1, R2 e R3 um depois do outro e feche o circuito com uma fonte. A carga que sai da fonte não tem para onde se desviar: a corrente i que atravessa R1 é a mesma que atravessa R2 e R3. Em cada resistor a lei de Ohm dá uma tensão, U1=R1i, U2=R2i, U3=R3i, e a tensão da fonte é a soma dessas três, porque o potencial, ao dar a volta completa, tem de descer exatamente o que subiu na fonte:
U=U1+U2+U3=(R1+R2+R3)i.
Comparando com U=Reqi, a resistência equivalente da série é a soma.
Associação em série
Mesma corrente em todos; tensões que se somam; resistência equivalente igual à soma:
Req=R1+R2+⋯+Rn.
A equivalente é maior que qualquer resistor do grupo: acrescentar um resistor no caminho sempre dificulta a passagem. Para n resistores iguais a R, Req=nR.
A consequência mais cobrada da série é o divisor de tensão. Como a corrente é única, a tensão em cada resistor é proporcional à sua resistência:
Uk=Rki=UReqRk.
Quem tem mais resistência fica com a fatia maior da tensão. Num par de 2 kΩ e 4 kΩ ligado a 12 V, a corrente é 12/6000=2 mA, e as tensões são 2000×0,002=4 V e 4000×0,002=8 V: o resistor de 4 kΩ recebe o dobro porque tem o dobro da resistência. Lida como função, Uk=i⋅Rk é uma função linear de Rk cujo coeficiente é a corrente do circuito; se a página de função afim está fresca na memória, o divisor de tensão é o exemplo físico mais limpo dela.
O pisca-pisca antigo e a lâmpada que apaga todas
As fieiras antigas de Natal ligavam vinte lâmpadas de 6 V em série numa tomada de 120 V: cada uma recebia 120/20=6 V, exatamente a sua tensão de trabalho, sem transformador. O preço era o defeito famoso: uma lâmpada queimada abre o único caminho, a corrente cai a zero e as vinte apagam. Quem já passou uma tarde testando lâmpada por lâmpada conhece a série melhor do que imagina. E se a lâmpada queimada for retirada e o soquete fechado com um fio, as dezenove restantes recebem 120/19≈6,3 V cada, brilham um pouco mais e duram um pouco menos.
"A lâmpada mais perto da pilha brilha mais"
Em série, a corrente é a mesma em todos os componentes, do primeiro ao último, no instante em que o circuito fecha. Não há “corrente que se gasta” ao longo do caminho: a carga que entra num resistor sai dele por segundo na mesma quantidade. Duas lâmpadas iguais em série brilham igual, esteja a segunda a um centímetro ou a um quilômetro da primeira. Se forem diferentes, a que brilha mais é a de maior resistência, pela razão da seção sobre potência, e não a que está mais perto da fonte.
Paralelo: vários caminhos entre os mesmos dois pontos
Agora ligue R1, R2 e R3 entre os mesmos dois nós, A e B, e ligue a fonte entre A e B. Cada resistor enxerga a tensão inteira da fonte, U, porque está ligado diretamente aos dois polos. A corrente em cada ramo é a que a lei de Ohm dá para aquele resistor sozinho: i1=U/R1, i2=U/R2, i3=U/R3. No nó A, a corrente que chega da fonte se reparte entre os ramos; no nó B, as três se juntam de novo. A carga se conserva, logo
i=i1+i2+i3=U(R11+R21+R31).
Comparando com i=U/Req, o que se soma no paralelo são os inversos das resistências.
Associação em paralelo
Mesma tensão em todos; correntes que se somam; inversos das resistências que se somam:
Req1=R11+R21+⋯+Rn1.
A equivalente é menor que a menor resistência do grupo: abrir um caminho a mais nunca dificulta a passagem. Dois casos rápidos: para dois resistores, Req=R1+R2R1R2 (produto sobre a soma, e só para dois); para n resistores iguais a R, Req=R/n.
Alguns números para fixar o “menor que a menor”. Um resistor de 6 Ω em paralelo com um de 3 Ω: 6+36×3=2 Ω, menor que 3. Três resistores de 10 Ω, 20 Ω e 20 Ω: 101+201+201=202+1+1=204, logo Req=5 Ω, metade do menor. Cinco resistores de 60 Ω: 60/5=12 Ω. Um resistor de 1 Ω em paralelo com um de 1 000 Ω: 10011000≈0,999 Ω, praticamente o menor. Esse último exemplo tem uma leitura importante: em paralelo, o resistor pequeno manda. Quase toda a corrente passa por ele, e o grande quase não faz diferença. É o começo da ideia de curto-circuito, tratada adiante.
A consequência espelhada do divisor de tensão é o divisor de corrente. Como a tensão é única, a corrente em cada ramo é inversamente proporcional à sua resistência: ik=U/Rk. Para dois ramos, a fração da corrente total que vai para R1 é
i1=iR1+R2R2,
com o outro resistor no numerador. Se 6 A chegam a um nó de onde saem ramos de 2 Ω e 4 Ω, o ramo de 2 Ω leva 6×64=4 A e o de 4 Ω leva 2 A: o caminho mais fácil leva mais corrente, na proporção inversa das resistências (2 Ω para 4 Ω é 1 para 2; as correntes ficam 2 para 1).
A instalação da casa é um grande paralelo
Todo aparelho da sua casa está ligado entre os mesmos dois fios da rede: fase e neutro (127 V) ou fase e fase (220 V). É um paralelo com dezenas de ramos, e é por isso que cada aparelho recebe a tensão nominal inteira, funciona independentemente dos outros e pode ser ligado ou desligado sem apagar ninguém. Cada aparelho que se liga abre mais um ramo: a resistência equivalente da casa cai e a corrente total no medidor sobe, somando as correntes de todos (i=∑Pk/U). O disjuntor do quadro fica em série com o circuito que protege, porque só assim a corrente total passa por ele, e abre quando a soma ultrapassa o limite. Ligar aparelhos demais numa mesma extensão é exatamente isto: somar correntes de ramos em paralelo até passar do que o fio e o fusível suportam.
Somar inversos e esquecer de inverter; achar que paralelo aumenta a resistência
O erro de conta mais comum do assunto: calcular 61+31=21 e responder “Req=0,5 Ω”. O que se obteve foi 1/Req; a resistência é o inverso, 2 Ω. Antídoto de dez segundos: a equivalente do paralelo tem de dar menos que a menor do grupo e mais que a menor dividida pelo número de resistores. Para 6 Ω e 3 Ω, a resposta tem de estar entre 1,5 Ω e 3 Ω; 0,5 Ω está fora, 2 Ω está dentro.
O erro conceitual irmão é achar que “mais resistores” significa “mais resistência” em qualquer arranjo. Em paralelo é o contrário: cada resistor acrescentado é um caminho a mais, e a equivalente cai. Item que diz “ao ligar um segundo resistor em paralelo, a resistência equivalente aumenta” morre na definição.
Série e paralelo lado a lado: o mesmo par, dois comportamentos
Vale pôr as duas associações na mesma mesa, com os mesmos resistores e a mesma fonte, e ver tudo mudar.
Exemplo resolvido 1. Uma bateria ideal de 12 V alimenta um resistor de 6 Ω e um de 3 Ω, primeiro em série e depois em paralelo. Corrente, tensão e potência em cada resistor nos dois casos.
Em série. Req=6+3=9 Ω. Corrente única: i=12/9=1,33 A. Tensões: 6×1,33=8 V no de 6 Ω e 3×1,33=4 V no de 3 Ω; somam 12 V, como devem. Potências (P=Ri2): 6×1,332=10,7 W e 3×1,332=5,3 W; total 16 W, que é Ui=12×1,33. O resistor maior recebe mais tensão e mais potência.
Em paralelo. Req=96×3=2 Ω (menor que 3). Tensão única: 12 V nos dois. Correntes: 12/6=2 A e 12/3=4 A; somam 6 A, e de fato 12/2=6 A. Potências (P=U2/R): 144/6=24 W e 144/3=48 W; total 72 W. O resistor menor recebe mais corrente e mais potência.
Conferência. A mesma dupla dissipa 72 W em paralelo e 16 W em série: 4,5 vezes mais. Faz sentido: sob a mesma tensão, P=U2/Req, e a razão entre as equivalentes é 9/2=4,5. Menos resistência, sob a mesma tensão, é mais potência.

Quando os resistores são iguais, a comparação vira uma fórmula. n resistores iguais a R dão nR em série e R/n em paralelo; a razão entre as duas equivalentes é
RparRser=R/nnR=n2.
E como, sob a mesma tensão, a potência total é U2/Req, a potência em paralelo é n2 vezes a potência em série. Duas lâmpadas iguais: razão 4. Três: 9. Quatro: 16. O caso n=2 é o item do farol de carro da 3.ª etapa de 2012, resolvido na seção sobre a banca.
Circuito misto: reduza, redesenhe, repita
Um circuito misto é um que tem trechos em série e trechos em paralelo ao mesmo tempo. Não há fórmula única; há um procedimento, e ele funciona sempre que o circuito puder ser reduzido a um único resistor (os que não podem, como a ponte desequilibrada, ficam para as leis de Kirchhoff).
O roteiro da redução
- Marque os nós (três ou mais fios se encontrando). Pontos ligados por fio sem resistência são o mesmo nó.
- Série dentro do ramo: resistores num mesmo ramo, sem nó entre eles, viram um só, pela soma.
- Paralelo entre os mesmos nós: resistores que ligam os mesmos dois nós viram um só, pelos inversos.
- Redesenhe o circuito com o resistor novo no lugar do grupo e volte ao passo 1, até sobrar um resistor ligado à fonte.
- Volte do equivalente para o circuito original: corrente total, depois a tensão em cada bloco, depois a corrente em cada ramo.
- Confira: a potência da fonte, Ui, tem de ser igual à soma das potências Rkik2 de todos os resistores.
Exemplo resolvido 2. Uma fonte ideal de 18 V alimenta o circuito: R1=2 Ω em série com um bloco; no bloco, R2=6 Ω está em paralelo com um ramo formado por R3=4 Ω e R4=8 Ω em série. Corrente em cada resistor.
Passo 1, nós. Há dois nós no bloco: chame de P o ponto onde R1 termina e o bloco começa, e de Q o ponto onde o bloco termina e volta para a fonte. R2 liga P a Q; o ramo R3–R4 também liga P a Q.
Passo 2, série dentro do ramo. R3 e R4 estão num mesmo ramo, sem nó entre eles: 4+8=12 Ω.
Passo 3, paralelo entre P e Q. 6 Ω e 12 Ω ligam os mesmos dois nós: 186×12=4 Ω. Confere: menor que 6, maior que 3.
Passo 4, redesenhe. Sobrou R1=2 Ω em série com 4 Ω: Req=6 Ω.
Passo 5, volte. Corrente total: i=18/6=3 A; é a corrente em R1. Tensão em R1: 2×3=6 V. Tensão no bloco (entre P e Q): 18−6=12 V, ou 4×3=12 V. Corrente em R2: 12/6=2 A. Corrente no ramo R3–R4: 12/12=1 A, a mesma em R3 e em R4. As correntes dos ramos somam 2+1=3 A, a corrente total.
Passo 6, confira. Fonte: 18×3=54 W. Resistores: 2×32=18, 6×22=24, 4×12=4, 8×12=8; soma 18+24+4+8=54 W. Fecha.

O que separa quem acerta de quem erra o misto raramente é a conta. É o passo 1: identificar corretamente o que está em série e o que está em paralelo, e refazer o desenho depois de cada redução em vez de tentar enxergar tudo de uma vez. A seção seguinte é sobre esse passo.
Redesenhe antes de calcular: nós, ramos e a topologia
Dois circuitos com o mesmo desenho podem ser eletricamente diferentes, e dois desenhos diferentes podem ser o mesmo circuito. O que decide é a topologia: quais nós existem e quem liga quem. Os itens com figura costumam esconder um paralelo numa forma que parece série, ou vice-versa.
O teste é sempre o mesmo: nomeie os nós. Percorra cada fio a partir de um terminal da fonte; todo ponto que você alcança sem atravessar componente algum pertence ao mesmo nó, e recebe a mesma letra. Depois olhe cada resistor e anote entre quais duas letras ele está. Dois resistores entre as mesmas duas letras estão em paralelo, não importa se um está desenhado em cima e o outro do outro lado da página. Um resistor que está sozinho entre duas letras que mais nenhum resistor compartilha está em série com o que vem antes e depois dele naquele ramo.

Uma técnica que ajuda muito nos circuitos enrolados é a regra do varal (ou linha de potenciais): desenhe cada nó como uma linha horizontal, uma abaixo da outra na ordem em que os potenciais caem, e pendure cada resistor entre as duas linhas que ele liga. Resistores pendurados entre as mesmas duas linhas estão em paralelo; uma sequência de linhas com um resistor entre cada par é uma série. O circuito de cinco resistores da 3.ª etapa de 2014 (item 117), resolvido na seção da banca, é o exercício ideal para essa técnica: no desenho original, um resistor de 4 Ω parece estar em paralelo com um de 6 Ω; nomeando os nós, ele está em série com o par 3 Ω ∥ 6 Ω, e o de 6 Ω de baixo é que está em paralelo com esse ramo inteiro.
Duas armadilhas de contagem. Fio não é nó: um ponto onde só dois fios se encontram é uma esquina do desenho, não um nó; contar esquinas como nós fabrica paralelos que não existem. Fio sem resistência une nós: se dois pontos estão ligados por um fio puro, eles são um só nó, e um resistor ligado entre eles tem tensão zero, isto é, está em curto-circuito, a próxima seção.
Curto-circuito não é circuito aberto
Os dois defeitos clássicos de um circuito são opostos, e os itens costumam trocá-los.
Curto-circuito e circuito aberto
Curto-circuito sobre um componente: um fio de resistência praticamente nula ligado em paralelo com ele. Os dois terminais do componente ficam no mesmo potencial, a tensão sobre ele vai a zero e a corrente dele também: toda a corrente passa pelo fio. Para o resto do circuito, é como se o componente não existisse (tivesse sido substituído por um fio). A resistência equivalente do conjunto diminui e a corrente total fornecida pela fonte aumenta.
Circuito aberto num ramo: o ramo é interrompido (lâmpada queimada, chave aberta, fio partido). A corrente nesse ramo vai a zero. Em série, o único caminho se interrompe e tudo para. Em paralelo, só aquele ramo deixa de conduzir; os outros continuam recebendo a mesma tensão e as mesmas correntes, e a corrente total diminui do valor que passava pelo ramo perdido.
Um exemplo com números. Três resistores de 4 Ω em série numa fonte de 12 V: Req=12 Ω e i=1 A. Ponha um fio em paralelo com o resistor do meio: ele sai do circuito, Req=8 Ω e i=1,5 A. A corrente subiu, e os dois resistores que sobraram passaram a receber 6 V cada, em vez de 4 V: dissipam mais, esquentam mais. Agora, em vez do fio, queime o resistor do meio (circuito aberto): i=0, os três apagam. Mesmo lugar, efeitos opostos.

O curto sobre a fonte inteira é o caso extremo e perigoso: um fio ligando os dois polos de uma tomada é um paralelo de resistência quase nula com toda a casa, a corrente dispara e o disjuntor tem de abrir antes que o fio derreta. É por isso que o fusível e o disjuntor ficam em série com o que protegem: a corrente do circuito passa por eles. Um fusível ligado em paralelo com um componente não protege nada, porque a corrente do componente não o atravessa; é o erro plantado no item do bonde de 2017, na seção da banca.
Um caso mais sutil, e bem cobrado, é o curto dentro de um paralelo. Nas dezesseis lâmpadas de 2023 (quatro ramos de quatro lâmpadas de 4 Ω em série, sob 24 V), trocar uma lâmpada por um fio baixa a resistência do ramo dela de 16 Ω para 12 Ω. A corrente daquele ramo sobe de 1,5 A para 2 A; os outros três ramos não mudam, porque continuam sob 24 V; e a corrente total da bateria sobe de 6 A para 6,5 A. A pergunta “aumenta a corrente total fornecida pela bateria?” tem resposta sim, e a conta mostra por quanto.
Quem brilha mais? A potência em cada resistor
Potência elétrica, consumo e kWh têm página própria. Aqui, a potência entra só como leitura de uma associação: dada a montagem, qual resistor dissipa mais, isto é, qual lâmpada brilha mais. A resposta depende da montagem, e é o contrário de um caso para o outro.
Em série, a corrente i é a mesma em todos, então a forma útil é P=Ri2: com i fixa, a potência é proporcional a R. Brilha mais quem tem mais resistência. Em paralelo, a tensão U é a mesma em todos, então a forma útil é P=U2/R: com U fixa, a potência é inversamente proporcional a R. Brilha mais quem tem menos resistência.
Uma lâmpada de 100 Ω e uma de 200 Ω, em série numa fonte: a de 200 Ω dissipa o dobro. As mesmas duas em paralelo: a de 100 Ω dissipa o dobro. A mesma lâmpada é a mais brilhante numa montagem e a mais fraca na outra, e nenhuma das duas posições tem a ver com a distância até a fonte.

"Mesma tensão, mesma potência"
Em paralelo, as lâmpadas recebem a mesma tensão, e é tentador concluir que brilham igual. Só brilham igual se tiverem a mesma resistência. Com U igual, P=U2/R varia com R: a de menor resistência puxa mais corrente e dissipa mais. Do mesmo modo, em série “mesma corrente” não significa “mesma potência”: P=Ri2 varia com R.
Duas lâmpadas iguais dão a comparação mais limpa, e é a que a banca usou no farol de 2012. Em paralelo, cada uma recebe U e o conjunto dissipa 2U2/R. Em série, cada uma recebe U/2 e o conjunto dissipa U2/(2R). A razão é 4, o n2 da seção anterior; e as lâmpadas em paralelo, além de brilharem quatro vezes mais no total, têm a vantagem decisiva de que uma queimada não apaga a outra.
Divisores: a tensão em série e a corrente em paralelo, com um cabo no caminho
O divisor de tensão da série aparece disfarçado num problema muito real: o cabo de alimentação. Todo fio tem resistência, e um cabo comprido ou fino, ligado em série com o aparelho, fica com uma parte da tensão da rede. Quanto mais corrente passa, maior a queda no cabo e menor a tensão que sobra para o aparelho.
Exemplo resolvido 3. Uma casa é ligada à rede de 120 V por um cabo cuja resistência total (ida e volta) é 2 Ω. Dentro da casa, três lâmpadas de 60 Ω estão em paralelo. Qual é a tensão nas lâmpadas? E se uma quarta lâmpada igual for ligada?
Três lâmpadas. O paralelo das três: 60/3=20 Ω. Em série com o cabo: Req=22 Ω. Corrente total: i=120/22=5,45 A. Tensão nas lâmpadas, pelo divisor: UL=120×2220=109,1 V. O cabo ficou com 120−109,1=10,9 V, isto é, 2×5,45.
Quatro lâmpadas. Paralelo: 60/4=15 Ω. Req=17 Ω, i=7,06 A, UL=120×1715=105,9 V. A quarta lâmpada aumentou a corrente total e a queda no cabo (agora 14,1 V), e a tensão que sobra para todas caiu. As quatro brilham menos do que as três brilhavam.
Conferência. Sem cabo (R=0), UL seria 120 V para qualquer número de lâmpadas: o divisor só existe porque há uma resistência em série. E a tensão nas lâmpadas cai quando a resistência do paralelo cai, exatamente como o divisor prevê: UL=URpar+RcaboRpar é uma fração que diminui quando o numerador diminui.

Esse é o mecanismo do item do ENEM 2019 sobre o cabo mal dimensionado de 10 Ω, ligado a uma casa com lâmpadas de 200 Ω e uma televisão de 50 Ω que só funciona acima de 90 V (é uma das questões da aba de exercícios). A pergunta “quantas lâmpadas podem ser ligadas sem a TV desligar” é o divisor de tensão lido ao contrário: a cada lâmpada ligada em paralelo, a resistência da casa cai, a corrente no cabo sobe, a queda no cabo cresce e a tensão na TV diminui, até cruzar o limite. E é também o motivo pelo qual a luz da casa pisca quando o chuveiro liga: o chuveiro é um ramo de baixa resistência que aumenta a corrente no cabo de entrada e rouba alguns volts de todos os outros ramos.
Ponte de Wheatstone: quando o ramo do meio não conduz
Há um arranjo de quatro resistores que aparece em todo laboratório de eletricidade e, de vez em quando, em prova: a ponte de Wheatstone. Dois ramos em paralelo, cada um com dois resistores em série (R1 e R2 num ramo, R3 e R4 no outro), e um quinto elemento, em geral um galvanômetro, ligando os pontos do meio dos dois ramos.
Cada ramo é um divisor de tensão. O ponto do meio do primeiro ramo está a uma fração R1+R2R2 da tensão total acima do polo negativo; o do segundo, a R3+R4R4. Se as duas frações forem iguais, os dois pontos do meio estão no mesmo potencial, e nenhuma corrente passa pelo galvanômetro: a ponte está equilibrada. A igualdade das frações se rearranja em
R1R4=R2R3,
produtos cruzados iguais. Nesse caso, o ramo do meio pode ser retirado (ou substituído por um fio, tanto faz) sem que nada mude no resto, e o circuito volta a ser um paralelo simples de duas séries.

A utilidade histórica é a medida de resistência: com R1, R2 conhecidos e R3 ajustável, gira-se R3 até o galvanômetro zerar, e R4 desconhecido sai de R4=R2R3/R1. Sensores de deformação, balanças eletrônicas e termômetros de resistência usam pontes até hoje, porque a ponte transforma uma pequena variação de resistência numa tensão fácil de medir. Para a prova, o que importa é o critério: produtos cruzados iguais, corrente zero no meio. Se os produtos forem diferentes, a ponte está desequilibrada, o ramo do meio conduz e o circuito não se reduz por série e paralelo; é território das leis de Kirchhoff.
Medidores dentro da associação
Amperímetro e voltímetro têm sua página em corrente elétrica; aqui só o essencial de como eles entram numa associação, porque os itens perguntam o que cada um lê.
O amperímetro mede a corrente que o atravessa, então entra em série com o ramo cuja corrente se quer, e o ideal tem resistência zero, para não mudar a corrente que veio medir. Colocado no fio que sai da fonte, lê a corrente total; colocado num ramo do paralelo, lê só a corrente daquele ramo. O voltímetro mede a tensão entre seus dois terminais, então entra em paralelo com o trecho cuja tensão se quer, e o ideal tem resistência infinita, para não desviar corrente. Ligado entre os dois nós de um paralelo, lê a tensão comum a todos os ramos; ligado sobre um resistor da série, lê a fatia daquele resistor no divisor de tensão.
Trocar os dois é o erro de laboratório clássico: voltímetro em série abre o circuito (resistência infinita no caminho, corrente zero, e ele lê a tensão da fonte inteira); amperímetro em paralelo com um componente é um curto-circuito sobre o componente (resistência zero, corrente enorme pelo medidor, fusível do aparelho queimado).
Como a banca pergunta
O assunto é o mais espalhado da eletrodinâmica na 3.ª etapa: apareceu em mais da metade das dezoito provas de 2008 a 2025, quase sempre num bloco com figura, e frequenta todos os formatos, inclusive os raros, como o item de resposta numérica e o de múltipla escolha. Os itens abaixo estão na aba de exercícios, verbatim; aqui vai a leitura de cada um.
Os quatro aparelhos (2009, itens 109 e 110). Chuveiro, televisor, geladeira e lâmpada ligados à rede de uma residência. “A resistência equivalente dos quatro é a soma direta das resistências”: aparelhos na rede estão em paralelo, somam-se os inversos, não as resistências. Errado. O item 110 põe a mesma fórmula com outro nome: a média harmônica de quatro números é α=4/(R11+⋯+R41), e a equivalente do paralelo é Re=1/(R11+⋯+R41); logo Re=α/4=0,25α. Certo. Quem conhece a definição de média harmônica julga sem calcular resistência nenhuma.
O farol do carro (2012, itens 117 e 118). Duas figuras com bateria e duas lâmpadas idênticas: na figura I, em paralelo; na figura II, em série. “Apenas o circuito II garante que uma lâmpada continue acesa se a outra for danificada”: é o paralelo (figura I) que garante isso; em série, uma queimada abre o caminho das duas. Errado. O item 118 pede a razão entre as intensidades luminosas totais (I dividido por II): 2U2/R sobre U2/(2R), razão 4, o n2 com n=2.
Os cinco resistores (2014, item 117). Figura com R1=9 Ω num fio que sai do terminal A; depois um bloco entre dois nós: um ramo com R3=4 Ω em série com o par R5=3 Ω e R4=6 Ω em paralelo, e outro ramo só com R2=6 Ω; e o fio até o terminal B. Redução: 3∥6=2; 4+2=6; 6∥6=3; 9+3= 12 Ω. Cada linha é um passo do roteiro, e o único perigo é ler a figura errado no primeiro.
Barragens e lâmpadas (2015, itens 101 e 102). Circuito III: uma lâmpada de 100 Ω em 24 V. Circuito IV: duas lâmpadas em paralelo, 50 Ω. Circuito V: duas em série, 200 Ω. Item 101: “a corrente em V é o dobro da corrente na bateria de IV”: em V, 24/200=0,12 A; em IV, 24/50=0,48 A; V tem um quarto de IV, não o dobro. Errado. Item 102: soma das equivalentes de III, IV e V: 100+50+200= 350.
O fusível do bonde (2017, item 89). “O circuito continuaria protegido se o fusível fosse conectado em paralelo com o reostato.” Fusível protege porque a corrente do circuito passa por ele, em série; em paralelo com o reostato ele viraria um segundo caminho, e a corrente do motor deixaria de atravessá-lo. Errado.
A urna eletrônica (2019, item 89). Fonte de 12 V, três ramos em paralelo, cada um com uma chave e um resistor (2 Ω, 4 Ω, 6 Ω). “Se somente S2 for fechada, o sistema dissipará 48 W”: só o ramo de 4 Ω conduz, P=U2/R=144/4=36 W, não 48. Errado. (O item 90 do mesmo bloco, sobre a corrente no nó com S1 e S3 fechadas, é a lei dos nós e está na página de Kirchhoff.)
As dezesseis lâmpadas (2023, itens 100 a 103). Bateria ideal de 24 V em paralelo com quatro ramos, cada um com quatro lâmpadas de 4 Ω em série. Cada ramo: 16 Ω, corrente 24/16=1,5 A; quatro ramos: 6 A na bateria. Item 100, “uma lâmpada queimada apaga todas”: abre só o ramo dela; as outras doze continuam. Errado. Item 101, “uma lâmpada trocada por um curto aumenta a corrente total”: o ramo cai para 12 Ω e 2 A, a total vai a 6,5 A. Certo. Item 102, “potência por lâmpada superior a 10 W”: P=Ri2=4×1,52=9 W. Errado. Item 103, potência total da bateria: 24×6= 144 W.
O circuito 2 (2025, itens 90 e 91). A prova editou um circuito de três malhas retirando um resistor e uma fonte; o que sobrou foram dois ramos em paralelo entre A e D, cada um com 1+2=3 Ω, sob uma fonte de 7 V. Req=1,5 Ω, corrente total 14/3 A, corrente em cada ramo (pontos B e C) 7/3 A: item 90, opção B. Potência dissipada pela equivalente: U2/Req=49/1,5=98/3 W: item 91, opção C. O distrator 14/3 do item 90 é a corrente total, para quem confunde a corrente do ramo com a da fonte. Um circuito de aparência assustadora virou série-e-paralelo assim que a topologia foi lida; o item 88 do mesmo bloco, sobre as resistências de 1 Ω e 2 Ω do circuito 2, foi anulado e por isso não entra na aba de exercícios.
O padrão dos oito blocos é claro. O erro proposto está na definição (trocar o que é comum a série e a paralelo; somar resistências em paralelo; achar que série protege), na leitura da figura (quem liga em quem) e no efeito de um defeito (curto contra aberto, ramo contra circuito inteiro). A conta em si costuma ser de uma linha.
Os erros que mais custam item
Oito confusões e a correção de cada uma
- “Em série, todos têm a mesma tensão” / “em paralelo, a mesma corrente.” É o contrário: série compartilha corrente, paralelo compartilha tensão. Repita como mantra antes de ler qualquer item.
- Somar resistências em paralelo. Em paralelo somam-se os inversos; a equivalente tem de dar menos que a menor do grupo.
- Somar os inversos e esquecer de inverter. 61+31=21 dá 1/Req; a resposta é 2 Ω, não 0,5 Ω.
- “Mais resistores, mais resistência.” Só em série. Em paralelo, cada resistor a mais é um caminho a mais, e a equivalente cai.
- “A lâmpada mais perto da pilha brilha mais.” Em série a corrente é a mesma em todas; brilha mais a de maior resistência, onde quer que esteja.
- Confundir curto-circuito com circuito aberto. Curto: o componente some, a equivalente cai, a corrente total sobe. Aberto: o ramo para; em série tudo para, em paralelo só aquele ramo.
- Contar nós errado. Esquina de dois fios não é nó; pontos ligados por fio puro são o mesmo nó. Nomeie os nós antes de decidir o que é série e o que é paralelo.
- Usar a fórmula do produto sobre a soma para três resistores. R1+R2R1R2 só vale para dois. Para três ou mais, volte aos inversos (ou aplique a fórmula de dois duas vezes).
O essencial em meia página
- Série: um caminho; mesma corrente; tensões se somam; Req=R1+R2+⋯ (maior que qualquer um). n iguais: nR.
- Divisor de tensão: Uk=UReqRk; o maior resistor recebe a maior tensão. Cabo em série com a carga rouba tensão: Ucarga=URcarga+RcaboRcarga.
- Paralelo: vários caminhos entre os mesmos dois nós; mesma tensão; correntes se somam; Req1=R11+R21+⋯ (menor que a menor). Dois: R1+R2R1R2. n iguais: R/n.
- Divisor de corrente (dois ramos): i1=iR1+R2R2; o menor resistor recebe a maior corrente.
- Série × paralelo de n iguais: razão n2 entre as equivalentes e entre as potências totais sob a mesma tensão (2 lâmpadas: 4).
- Misto: marque os nós; série dentro do ramo (soma); paralelo entre os mesmos nós (inversos); redesenhe; repita; volte para as correntes; confira Ui=∑Rkik2.
- Curto-circuito: fio em paralelo anula o componente; Req cai, corrente total sobe. Circuito aberto: ramo para; série apaga tudo, paralelo só o ramo. Fusível e disjuntor: em série.
- Quem brilha mais: série, P=Ri2, o de maior R; paralelo, P=U2/R, o de menor R.
- Casa: aparelhos em paralelo (tensão nominal inteira, independência); mais aparelhos, menos Req, mais corrente no medidor.
- Ponte de Wheatstone: equilibrada se R1R4=R2R3; então corrente zero no ramo do meio.
- Medidores: amperímetro em série (R→0); voltímetro em paralelo (R→∞).
- Fonte ideal: impõe U entre os terminais, sempre; resistência interna é assunto de geradores; malhas com duas fontes que não reduzem, de Kirchhoff.