Duas pessoas puxam uma caixa com 30 N e 40 N. Quanto vale a força que a caixa sente? Setenta, dez ou cinquenta newtons: os mesmos números dão três respostas. O que falta no número para decidir?
O que você vai aprender
Distinguir grandezas escalares e vetoriais pelo teste da soma e identificar, numa seta, módulo, direção e sentido, sem confundir direção com sentido.
Somar e subtrair vetores pela regra do polígono e do paralelogramo, calcular o módulo da resultante pela lei dos cossenos e reconhecer os casos-limite (mesmo sentido, opostos, perpendiculares) e o intervalo |a − b| ≤ R ≤ a + b.
Decompor um vetor em componentes ortogonais com seno e cosseno (ângulos de 30°, 45° e 60°), atribuir o sinal certo a cada componente e somar vetores pelas componentes, inclusive com vetores unitários e multiplicação por escalar.
Separar deslocamento de distância percorrida e velocidade vetorial média de velocidade escalar média, e reconhecer que um vetor só é nulo quando todas as componentes são nulas.
Compor velocidades relativas (barco no rio, avião com vento) para obter tempo de travessia, deriva e a condição para chegar em frente.
Aplicar a resultante e a condição de equilíbrio de forças concorrentes (polígono fechado, ΣFx = 0 e ΣFy = 0) a cabos inclinados, rampas e ao quadro pendurado, e ler diagramas vetoriais como os da banca do PAS.
Duas pessoas puxam uma caixa: uma com 30 N, outra com 40 N. Quanto vale a força que a caixa sente? A pergunta não tem resposta, e essa é a lição inteira desta página. Se as duas puxam para o mesmo lado, a caixa recebe 70 N; se puxam em lados contrários, 10 N; se as cordas fazem ângulo reto, 50 N, numa direção que nenhuma das duas escolheu. Mesmos números, três resultados. Em dezembro de 2017, a prova do PAS 1 pendurou um quadro numa parede de museu com dois cabos e perguntou se, para analisar o equilíbrio, era “necessário considerar a natureza vetorial das grandezas envolvidas”. Era. Onze anos antes, a mesma banca tocou O Trenzinho do Caipira e perguntou se a música permitia conhecer “os aspectos vetoriais do movimento do trem”. Não permitia.
Vetor é o nome do objeto matemático que carrega o que o número sozinho não carrega: para onde. Esta página é sobre isso: que grandezas precisam de seta e quais não precisam, o que cada parte da seta informa, como somar setas pelo desenho e pelas componentes, como quebrar uma força em partes que apontam ao longo dos eixos, e onde tudo isso aparece na Física do ensino médio, do barco atravessando o rio ao quadro pendurado. As leis de Newton, o atrito e o movimento circular, que usam vetores o tempo todo, têm páginas próprias; aqui entram como exemplos.
Nem toda grandeza aponta para algum lugar
Uma medida é um número e uma unidade: 2 kg, 30 s, 25 °C. Para massa, tempo e temperatura, isso encerra o assunto. Ninguém pergunta “2 kg para onde?”. Já “o vento está a 10 m/s” deixa uma pergunta no ar: de que lado ele vem? E “uma força de 30 N” sobre a caixa não diz se ela vai para a frente ou para trás.
Grandeza escalar e grandeza vetorial
Uma grandeza escalar fica completamente definida por um número e uma unidade: massa, tempo, temperatura, energia, distância percorrida, rapidez (o número do velocímetro). Uma grandeza vetorial exige, além disso, uma orientação no espaço: deslocamento, velocidade, aceleração, força, campo elétrico. Escreve-se com uma seta sobre a letra (v, F) ou em negrito; o módulo se escreve sem seta (v, F) ou entre barras (∣v∣).
O teste prático é o da soma. Escalares somam como números: 2 kg mais 3 kg dão 5 kg, sempre. Vetores não: 3 N mais 4 N podem dar qualquer valor entre 1 N e 7 N, dependendo do ângulo entre as forças. Se a soma de duas medidas depende de “para onde” cada uma aponta, a grandeza é vetorial.
Rapidez não é velocidade
O velocímetro marca 72 km/h e não se mexe enquanto o carro contorna a rotatória. A rapidez (velocidade escalar) ficou constante; a velocidade (vetor) mudou a cada instante, porque a direção mudou. Por isso um carro em curva com velocímetro parado está acelerando: aceleração é variação do vetor velocidade. O item do PAS 1 de 2006 sobre O Trenzinho do Caipira usava exatamente essa distinção: o que a música reproduz, acelerando na partida e desacelerando na chegada, é a rapidez do trem; nenhuma nota informa direção ou sentido. “Aspectos vetoriais” pela música: errado.
O que uma seta informa: módulo, direção e sentido
Um vetor é desenhado como uma seta, e cada parte da seta responde a uma pergunta.
As três informações de um vetor. O comprimento é o módulo (numa escala declarada), a reta suporte é a direção, a ponta é o sentido. As duas setas de baixo têm a mesma direção e sentidos opostos: sua soma tem módulo 60 − 40 = 20 N e aponta para a esquerda. Diagrama autoral.
Os três atributos de um vetor
Módulo: o tamanho, sempre positivo, com unidade (80 N, 5 m/s). No desenho, é o comprimento da seta numa escala escolhida.
Direção: a reta que contém a seta (horizontal, vertical, “a 30° com a horizontal”, “norte-sul”).
Sentido: para que lado da reta a seta aponta (direita ou esquerda, para cima ou para baixo, norte ou sul).
Dois vetores são iguais quando coincidem nos três atributos; podem estar desenhados em lugares diferentes da página. O vetor oposto de a, escrito −a, tem o mesmo módulo, a mesma direção e o sentido contrário.
Na linguagem comum, “direção” e “sentido” se confundem (“ele foi na direção da praia”). Na Física, não: duas forças horizontais, uma para a direita e outra para a esquerda, têm a mesma direção e sentidos opostos. Um item que diga “as duas forças têm direções opostas” está usando a palavra errada, e a banca sabe disso.
Ao estudar o movimento de translação de um corpo (o corpo inteiro se desloca igual), vetores podem ser transportados paralelamente à vontade para serem somados: só módulo, direção e sentido importam. Quando o assunto é rotação de um corpo extenso, o ponto de aplicação da força também conta, porque decide o torque; isso pertence à página de estática.
Somar pelo desenho: polígono, paralelogramo e a lei dos cossenos
Somar vetores é encadear deslocamentos. Se você anda 3 m para o leste e depois 4 m para o norte, onde está? A 5 m do ponto de partida, na diagonal. A regra é geral.
Duas construções, a mesma resultante. Polígono: cada vetor começa onde o anterior terminou; a soma fecha a figura, da origem do primeiro à ponta do último, e vale para quantos vetores forem. Paralelogramo: dois vetores saindo do mesmo ponto; a soma é a diagonal que sai desse ponto. Diagrama autoral.
Regra do polígono e regra do paralelogramo
Polígono (ponta com origem): desenhe a; desenhe b começando na ponta de a; a soma a+b vai da origem de a à ponta de b. Para três ou mais vetores, siga encadeando; se o polígono fechar (a ponta do último cair na origem do primeiro), a soma é o vetor nulo.
Paralelogramo: desenhe a e b com a mesma origem e complete o paralelogramo; a soma é a diagonal que parte da origem comum.
Subtração: a−b=a+(−b). Inverta o sentido de b e some. Com os dois vetores na mesma origem, a−b é a seta que vai da ponta de b à ponta de a.
O desenho dá a direção e o sentido; o módulo sai da geometria do triângulo formado. Se a e b têm módulos a e b e formam ângulo θ quando desenhados com a mesma origem, o módulo da soma é dado pela lei dos cossenos:
R2=a2+b2+2abcosθ.
O sinal de mais (e não de menos, como na lei dos cossenos “de triângulo”) aparece porque θ é o ângulo entre os vetores na origem comum, e o ângulo interno do triângulo do polígono é 180∘−θ. Três casos valem decorar, porque a fórmula geral se reduz a eles:
Vetores de módulos 4 e 3. Mesmo sentido (θ = 0°, cos θ = 1): R = 7. Sentidos opostos (θ = 180°, cos θ = −1): R = 1. Perpendiculares (θ = 90°, cos θ = 0): R = 5, por Pitágoras. Qualquer outro ângulo cai entre 1 e 7. Diagrama autoral.
Casos-limite e o intervalo da resultante
Mesma direção e mesmo sentido: R=a+b (o máximo possível).
Mesma direção e sentidos opostos: R=∣a−b∣ (o mínimo possível).
Perpendiculares: R=a2+b2.
Para qualquer ângulo, ∣a−b∣≤R≤a+b. Um item que afirme que duas forças de 3 N e 4 N “produzem necessariamente uma resultante de 7 N” está errado: 7 N é um dos infinitos valores possíveis, o que só acontece quando as forças têm o mesmo sentido.
Exemplo resolvido 1: duas forças a 60°. Forças de 5 N e 8 N puxam um anel, formando 60° entre si. Qual é o módulo da resultante? Pela lei dos cossenos, R2=52+82+2⋅5⋅8⋅cos60∘=25+64+80⋅0,5=129, logo R=129≈11,4 N. Conferência: o valor está entre 8−5=3 e 8+5=13, e está mais perto do máximo porque 60° é um ângulo “fechado” (forças quase alinhadas). Se o ângulo fosse 120°, cos120∘=−0,5 e R2=89−40=49, R=7 N: o mesmo par de forças, quase no meio do intervalo.
Quebrar um vetor em duas partes: as componentes
O caminho inverso da soma é o mais usado na Física: dado um vetor, encontrar dois vetores perpendiculares, um em cada eixo, cuja soma seja ele. São as componentes. A vantagem é que, nos eixos, tudo vira número com sinal, e números com sinal se somam com aritmética.
Decomposição de F (F = 100 N, θ = 30° com o eixo x): Fx = F·cos θ ≈ 87 N e Fy = F·sen θ = 50 N. A tabela reúne os valores que a prova espera que você saiba ou que ela fornece. Conferência: 87² + 50² ≈ 100². Diagrama autoral.
Componentes ortogonais
Se F tem módulo F e forma ângulo θ com o eixo x, suas componentes são
Fx=Fcosθ,Fy=Fsinθ,
e o vetor se recompõe por F=Fx2+Fy2 e tanθ=Fy/Fx.
A regra de bolso: cosseno acompanha o cateto adjacente ao ângulo (o eixo a partir do qual θ foi medido) e seno acompanha o cateto oposto. Se o ângulo for dado em relação ao eixo y (ou à vertical), as funções trocam de lugar: Fy=Fcosθ e Fx=Fsinθ.
Ângulos notáveis: sin30∘=cos60∘=1/2; sin60∘=cos30∘=3/2≈0,87; sin45∘=cos45∘=2/2≈0,71. A prova do PAS costuma fornecer os valores que usa (em 2022 deu “seno e cosseno de 45° iguais a 0,7”; em 2018, cos30∘≈0,87).
As componentes têm sinal: uma componente negativa aponta para o lado negativo do eixo. Um vetor apontando para baixo e para a direita tem Fx>0 e Fy<0. Sinal negativo não é módulo negativo (módulo é sempre positivo); é orientação. Declarar os eixos e os sentidos positivos antes de escrever qualquer componente é o hábito que evita metade dos erros.
A rampa reparte o peso
Numa rampa de inclinação θ, o peso P é vertical, mas os eixos convenientes são “ao longo da rampa” e “perpendicular à rampa”. O ângulo entre o peso e a perpendicular à rampa é o próprio θ, logo a parte do peso que puxa o corpo rampa abaixo é Psinθ e a parte que o comprime contra a rampa é Pcosθ. Com θ=30∘, a componente ao longo da rampa é exatamente metade do peso (sin30∘=0,5); e a força de apoio (normal), que equilibra a componente perpendicular, vale Pcos30∘≈0,87P, menor que o peso. Foi com isso que o PAS 1 de 2018 montou dois blocos ligados por um fio numa rampa sem atrito: o sistema fica parado ou em velocidade constante quando M2g=M1gsinα, isto é, M2/M1=sinα.
Exemplo resolvido 2: puxando uma caixa por uma corda inclinada. Uma pessoa puxa uma caixa de 10 kg com uma corda que faz 30° com o piso horizontal, com força de 100 N. Adote g=10 m/s². Componentes da tração: Fx=100cos30∘≈87 N (para a frente) e Fy=100sin30∘=50 N (para cima). A componente vertical não empurra a caixa para a frente; ela alivia o apoio: na vertical, N+50=100, logo a normal cai de 100 N para 50 N. Quem puxa uma mala pela alça inclinada sente isso: a mala fica “mais leve” para o piso. A parte que de fato acelera a caixa é 87 N, não 100 N. Conferência: 872+502=7569+2500≈10000=1002.
Somar pelas componentes: quando o desenho não basta
Com três, quatro ou mais vetores em ângulos variados, o polígono vira um emaranhado e a lei dos cossenos exige aplicação repetida. O método das componentes reduz tudo a duas somas de números.
F1 = (3, 4) e F2 = (5, −4), em newtons. Por eixo: Rx = 8, Ry = 0; a resultante é horizontal, com 8 N. Somar os módulos (5 + √41 ≈ 11,4) daria um número que não corresponde a seta nenhuma. Diagrama autoral.
Soma pelas componentes, módulo e multiplicação por escalar
Para somar F1,F2,…: decomponha cada um nos mesmos eixos, some as componentes de x entre si e as de y entre si,
Rx=∑Fix,Ry=∑Fiy,R=Rx2+Ry2,
e leia a direção pela razão tanθ=Ry/Rx e pelos sinais de Rx e Ry.
Multiplicar por um escalark: ka tem módulo ∣k∣a, a mesma direção e o mesmo sentido se k>0, sentido oposto se k<0. É por isso que F=ma diz que força e aceleração têm a mesma direção e o mesmo sentido (a massa é um escalar positivo), e p=mv aponta como a velocidade.
Vetores unitários: ^ e ^ são vetores de módulo 1 ao longo de x e y. Escrever v=3^+4^ é o mesmo que dizer vx=3 e vy=4: módulo 5, ângulo com x tal que tanθ=4/3 (θ≈53∘).
Exemplo resolvido 3: três forças no mesmo ponto. Sobre um anel agem F1, de 10 N, apontando para o leste; F2, de 10 N, apontando para o norte; e F3, de 20 N, apontando para o sudoeste (45° abaixo do oeste). Qual é a resultante? Eixos: x para o leste, y para o norte. F1=(10,0); F2=(0,10); F3=(−20cos45∘,−20sin45∘)≈(−14,1,−14,1). Somando: Rx≈−4,1 N e Ry≈−4,1 N. Módulo R≈2⋅4,12≈5,8 N, apontando para o sudoeste (as duas componentes negativas). Conferência pelo desenho: F1+F2 tem módulo 102≈14,1 N para o nordeste; F3 tem 20 N para o sudoeste, exatamente na direção oposta; sobra 20−14,1=5,9 N para o sudoeste. Os dois caminhos concordam.
Deslocamento não é distância percorrida
A primeira grandeza vetorial da cinemática é o deslocamento: a seta que vai da posição inicial à posição final, sem se importar com o caminho. A distância percorrida é o comprimento do caminho, escalar. Quem anda 300 m para o leste e depois 400 m para o norte percorreu 700 m, mas se deslocou 500 m (a hipotenusa do triângulo 3-4-5), numa direção entre o leste e o norte, a cerca de 53° do leste.
Velocidade vetorial média e velocidade escalar média
vm=ΔtΔr(deslocamento sobre tempo),vesc=Δtd(distaˆncia percorrida sobre tempo).
Num percurso fechado (a chegada coincide com a partida), o deslocamento é nulo, logo a velocidade vetorial média é nula, por mais rápido que se tenha andado. A velocidade escalar média continua positiva. O PAS 1 de 2012 afirmou que a velocidade vetorial média de um atleta que completa a Corrida de São Silvestre, cujo ponto de chegada coincide com o de partida, é nula: certo.
A variação de velocidade também é vetorial: Δv=vf−vi, uma subtração de vetores. Uma bola que chega à parede a 5 m/s e volta a 5 m/s teve ∣Δv∣=10 m/s (adotando o eixo para a direita, −5−5=−10), embora a rapidez não tenha mudado. E no ponto mais alto de um lançamento oblíquo a componente vertical da velocidade é zero, mas a horizontal continua a mesma do lançamento: o vetor velocidade não é nulo. O PAS 1 de 2022 afirmou que ele seria nulo, e o gabarito é errado. Um vetor só é nulo quando todas as componentes são nulas.
Velocidade relativa: o barco no rio e o avião no vento
Um barco em um rio tem duas velocidades ao mesmo tempo: a que o motor produz em relação à água e a que a água tem em relação à margem. Quem está na margem vê a soma vetorial das duas.
Barco apontado perpendicularmente à correnteza: vbarco/margem = vbarco/água + vágua/margem, módulo √(4² + 3²) = 5 m/s. A travessia leva 120/4 = 30 s (só a componente perpendicular atravessa) e o barco chega 90 m rio abaixo. Diagrama autoral.
Composição de velocidades
vA/C=vA/B+vB/C
A velocidade de A em relação a C é a de A em relação a B mais a de B em relação a C: barco em relação à margem = barco em relação à água + água em relação à margem; avião em relação ao solo = avião em relação ao ar + ar (vento) em relação ao solo. Os índices “encadeiam” como no polígono. Duas perguntas típicas: (1) barco apontado perpendicularmente à margem: travessia no menor tempo, t=L/vbarco/aˊgua, com deriva vaˊgua⋅t rio abaixo; (2) barco que quer chegar exatamente em frente: precisa apontar contra a corrente, de modo que a componente de vbarco/aˊgua ao longo do rio cancele a correnteza, e a velocidade útil fica vbarco/aˊgua2−vaˊgua2, menor.
Exemplo resolvido 4: atravessar em frente. O mesmo barco (4 m/s em relação à água) quer chegar ao ponto exatamente em frente, no rio de 120 m com correnteza de 3 m/s. Para que a velocidade em relação à margem seja perpendicular, a componente da velocidade do barco ao longo do rio deve valer 3 m/s contra a corrente; sobra, na direção da travessia, 42−32=7≈2,65 m/s. Tempo: 120/2,65≈45 s, contra 30 s da travessia “reta em relação à água”. Atravessar sem deriva custa tempo. Conferência: o ângulo de proa é dado por sinα=3/4, α≈49∘ a montante; se a correnteza fosse igual ou maior que 4 m/s, a raiz ficaria nula ou impossível, e o barco não conseguiria chegar em frente, o que faz sentido.
No caso do rio, quem observa da margem vê o barco a 5 m/s, mas o motor “só fez” 4 m/s. Em 2006, o PAS 1 descreveu a barquinha, instrumento do século XV que media a velocidade do navio contando nós de uma corda presa a uma boia largada na água, e afirmou que a velocidade assim medida, em relação a um ponto fixo na Terra, independia das correntes marítimas. Errado: a boia flutua com a água; a barquinha mede a velocidade do navio em relação à água (vnavio/aˊgua), e a corrente entra na soma para quem quer a velocidade em relação ao fundo, exatamente como o barco do rio.
Forças concorrentes: resultante e equilíbrio
Na dinâmica, a soma de vetores tem nome próprio: força resultante, FR=∑Fi. É ela, e não cada força isolada, que entra na segunda lei de Newton. Se FR=0, o corpo está em equilíbrio de translação: fica em repouso ou em movimento retilíneo uniforme. Para forças concorrentes (todas passando pelo mesmo ponto), essa é a única condição; para corpos extensos entra também o torque, assunto da página de estática.
O quadro do PAS 1 de 2017: dois cabos a 120° entre si (60° com a vertical cada um) e o peso. Em equilíbrio, o polígono das forças fecha. Na vertical, 2T·cos 60° = P, logo cada cabo tem tração T = P; as componentes horizontais, T·sen 60° para cada lado, se cancelam. Diagrama autoral.
Equilíbrio de forças concorrentes
FR=0 equivale a duas equações escalares: ∑Fx=0 e ∑Fy=0. Graficamente, o polígono das forças fecha. Para três forças, cada uma é o oposto da soma das outras duas. Com dois cabos simétricos sustentando um peso P, cada um a um ângulo α com a vertical:
2Tcosα=P⇒T=2cosαP.
A componente vertical de cada cabo é sempre P/2, qualquer que seja o ângulo; o que muda com o ângulo é a tração total: quanto mais abertos os cabos (maior α), menor o cosseno e maior T. Com α=60∘, T=P; com α→90∘ (cabos quase horizontais), T cresce sem limite: é por isso que uma corda de varal esticada “reta” arrebenta com pouco peso.
O item 55 do PAS 1 de 2017 afirmou que “o módulo da componente vertical da tensão independe do ângulo formado entre os cabos”, e o gabarito é certo: a soma das duas componentes verticais tem de valer P, e por simetria cada uma vale P/2, com 120°, 90° ou 30° entre os cabos. O que depende do ângulo é o módulo da tração, não a sua parte vertical.
Exemplo resolvido 5: o rebocador do PAS 1 de 2011. A cena do caderno: um navio rebocado em velocidade constante, com um dinamômetro intercalado entre os dois cabos de reboque; a mola do dinamômetro está distendida 0,5 m e os cabos formam 30° com a horizontal. O item afirmava que a razão entre a força de atrito da água no navio e a constante elástica k da mola é maior que 0,5 m. Raciocínio: velocidade constante significa resultante nula no navio; a força que a água faz para trás é igual à componente horizontal da tração do cabo, Tcos30∘. A tração é T=k⋅0,5 (lei de Hooke, F=kx). Logo f=0,5k⋅cos30∘≈0,5k⋅0,87=0,43k, e f/k≈0,43 m, menor que 0,5: gabarito E. Sem o ângulo, a razão sairia exatamente 0,5: quem esquece a decomposição erra a física, ainda que marque a letra certa; quem decompõe acerta pelos motivos certos. Conferência: a componente vertical da tração, Tsin30∘=0,25k, é equilibrada pelo empuxo extra da água, e não aparece na conta horizontal.
Ler um diagrama vetorial como a banca desenha
Boa parte dos itens de vetores não pede conta: pede leitura. A figura do PAS 1 de 2024 mostrava o telescópio James Webb num ponto P com três setas: F1 (força do Sol), F2 (força da Terra) e F, a resultante, apontando para o centro de massa do sistema Sol-Terra. Os dois primeiros itens eram terceira lei e segunda lei (página de leis de Newton); o item 96, tipo C, pedia o módulo da resultante nos pontos L4 e L5, vértices de triângulos equiláteros com a base Sol-Terra. Nesses pontos o telescópio está à mesma distância r do Sol e da Terra, logo as duas forças gravitacionais têm módulos proporcionais às massas, FTerra/FSol=m/M=x, e formam 60° entre si (ângulo interno do triângulo equilátero). Lei dos cossenos:
isto é, F=FSol1+x+x2, a opção B. Não havia nenhum número na questão; havia uma figura para ler e a lei dos cossenos para aplicar.
Roteiro de leitura de qualquer diagrama de forças: (1) identifique em que corpo cada seta atua (só as forças sobre o mesmo corpo se somam); (2) veja se a figura está em escala (a prova costuma avisar “figura fora de escala”: aí o comprimento das setas não vale como dado); (3) escolha eixos que zerem o maior número de componentes (ao longo da rampa, ao longo do cabo); (4) escreva as duas somas, ∑Fx e ∑Fy, com sinais; (5) só então compare com o que o item afirma.
O nó, a barquinha e a unidade que sobreviveu
A “barquinha” do PAS 1 de 2006 era uma boia triangular (o batel) presa a uma corda com nós a cada 14,46 m; contava-se quantos nós saíam do carretel em 30 s de ampulheta, e o número era a velocidade em milhas náuticas por hora, daí a unidade nó que navios e aviões usam até hoje. A boia ficava parada em relação à água, não em relação ao fundo; o instrumento media, sem que ninguém dissesse assim, a velocidade relativa à água. Quinhentos anos depois a banca transformou essa limitação num item.
Os erros que a prova espera
Somar módulos como se fossem escalares. “3 N e 4 N dão 7 N”: só se tiverem o mesmo sentido. A resultante de dois vetores fica entre ∣a−b∣ e a+b; a prova adora o “necessariamente” que transforma um caso particular em regra.
Trocar direção por sentido. Duas forças na mesma reta apontando para lados opostos têm a mesma direção. Item que fala em “direções opostas” para forças colineares está usando o vocabulário comum, não o da Física.
Errar o sinal de uma componente. A componente é negativa quando aponta para o lado negativo do eixo que você escolheu. Escreva os eixos e os sentidos positivos antes da primeira conta; releia a figura para cada componente.
Trocar seno por cosseno. Cosseno vai com o eixo a partir do qual o ângulo foi medido. Ângulo com a horizontal: Fx=Fcosθ. Ângulo com a vertical: Fy=Fcosθ. Na rampa, o ângulo entre o peso e a normal é θ, logo Pcosθ é a componente perpendicular e Psinθ, a paralela.
Confiar na escala do desenho. Se a figura diz “fora de escala”, os comprimentos das setas não são dados. Se a figura está em escala (uma seta de 2 cm representa 10 N), meça e converta, e confira que a resultante desenhada obedece ao polígono.
Concluir “vetor nulo” a partir de uma componente nula. No alto de um lançamento oblíquo, vy=0 e vx=0: a velocidade não é nula. Um vetor só é nulo quando todas as componentes são nulas.
Achar que módulo constante é velocidade constante. Em curva, a direção do vetor velocidade muda: a velocidade muda e há aceleração, mesmo com o velocímetro parado.
O essencial em meia página
Escalar: número e unidade (massa, tempo, energia, distância, rapidez). Vetorial: número, unidade e orientação (deslocamento, velocidade, aceleração, força). Teste: se a soma depende do ângulo, é vetor.
Seta: comprimento = módulo (numa escala); reta suporte = direção; ponta = sentido. Vetor oposto: mesmo módulo e direção, sentido contrário. Forças colineares em lados opostos: mesma direção, sentidos opostos.
Soma gráfica: polígono (ponta com origem; fecha = soma nula) ou paralelogramo (diagonal da origem comum). Subtrair é somar o oposto.
Módulo da soma: R2=a2+b2+2abcosθ. Casos: mesmo sentido a+b; opostos ∣a−b∣; perpendiculares a2+b2. Sempre ∣a−b∣≤R≤a+b.
Componentes: Fx=Fcosθ, Fy=Fsinθ (ângulo com x); trocam se o ângulo for com y. Rampa: Psinθ ao longo, Pcosθ perpendicular. Notáveis: 30∘ (1/2, 3/2), 45∘ (2/2), 60∘ (3/2, 1/2).
Soma por componentes: some x com x, y com y; R=Rx2+Ry2. ka: módulo ∣k∣a, sentido invertido se k<0. v=vx^+vy^.
Cinemática: deslocamento é a seta início-fim; distância é o caminho. Percurso fechado: velocidade vetorial média nula. Δv é subtração vetorial. Curva com rapidez constante tem aceleração.
Velocidade relativa: vA/C=vA/B+vB/C. Barco perpendicular à água: tempo L/vb/a, deriva rio abaixo. Chegar em frente: apontar a montante, velocidade útil vb/a2−vaˊgua2.
Forças concorrentes: FR=∑F; equilíbrio ⇔∑Fx=0 e ∑Fy=0 (polígono fecha). Dois cabos simétricos a α da vertical: T=P/(2cosα); a componente vertical de cada um é P/2 para qualquer ângulo.
Antes de julgar um item: em que corpo atua cada força? A figura está em escala? Quais eixos zeram mais componentes? Escreva as duas somas com sinal e só então compare.
Exercícios temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.
Flashcards temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar os cartões de revisão.
Vetores - Aula 01
Davi Oliveira - Física 2.0 · 16:46
Introdução. Apresenta o vetor como seta e nomeia módulo (intensidade), direção e sentido com exemplos do cotidiano: é a seção “O que uma seta informa” em aula, para quem ainda confunde direção com sentido.
DECOMPOSIÇÃO DE VETORES - Explicação com Exemplos
Felipe Sampaio - Física · 21:09
Aprofundamento. Deduz as componentes Fcosθ e Fsinθ a partir do triângulo retângulo e resolve dois exercícios, um deles com o ângulo medido em relação ao outro eixo: é a seção “Quebrar um vetor em duas partes”, com o cuidado de saber qual função vai com qual eixo.
Composição de Movimentos - Barco atravessando um rio
Assim é fácil física com Prof. Geovane Pessoa · 5:45
Aplicação. Barco a 20 km/h em relação à água num rio de 5 km com correnteza de 15 km/h: menor tempo de travessia (e por que ele não depende da correnteza) e distância percorrida em relação às margens. É o exemplo do diagrama do barco da seção “Velocidade relativa”, com números diferentes.
PAS1 2012 Física 87, 88 e 89 - Velocidade média e vetorial e Lei da conservação de energia
Fazendo Física · 6:31
Resolução. Resolve os itens 87 a 89 do PAS 1 de 2012 (bloco da Corrida de São Silvestre), inclusive o item 88, reproduzido nesta página: velocidade vetorial média nula num percurso fechado, da seção “Deslocamento não é distância percorrida”.
O cabo puxa inclinado, mas só a componente horizontal da tração vence a resistência da água: foi o item do PAS 1 de 2011.As três informações de um vetor: o comprimento é o módulo (numa escala declarada), a reta suporte é a direção, a ponta é o sentido. As duas setas de baixo têm a mesma direção e sentidos opostos; a soma tem módulo 60−40=20 N e aponta para a esquerda. Diagrama autoral.Duas construções, a mesma resultante. Polígono: cada vetor começa onde o anterior terminou e a soma fecha a figura. Paralelogramo: dois vetores na mesma origem e a soma é a diagonal que parte dela. Diagrama autoral.Vetores de módulos 4 e 3: mesmo sentido, R=7; sentidos opostos, R=1; perpendiculares, R=5. Para qualquer ângulo, ∣a−b∣≤R≤a+b: 3 N e 4 N nunca dão 8 N nem 0,5 N. Diagrama autoral.Decomposição de F (F=100 N, θ=30∘ com o eixo x): Fx=Fcosθ≈87 N e Fy=Fsinθ=50 N. Cosseno acompanha o eixo a partir do qual o ângulo foi medido. Conferência: 872+502≈1002. Diagrama autoral.F1=(3,4) e F2=(5,−4), em newtons: Rx=8, Ry=0, resultante horizontal de 8 N. Somar os módulos (5+41≈11,4) daria um número sem seta correspondente. Diagrama autoral.Barco apontado perpendicularmente à correnteza: velocidade em relação à margem =42+32=5 m/s. A travessia leva 120/4=30 s (só a componente perpendicular atravessa) e a deriva é 3×30=90 m rio abaixo. Diagrama autoral.O quadro do PAS 1 de 2017: dois cabos a 120° entre si e o peso. Em equilíbrio, o polígono das forças fecha; na vertical 2Tcos60∘=P, logo T=P, e a componente vertical de cada cabo é P/2 para qualquer ângulo. Diagrama autoral.A proa aponta para a outra margem, mas a esteira é diagonal: quem está na margem vê a soma da velocidade do motor com a da água.A proa aponta contra o vento para que a velocidade em relação ao solo fique alinhada com a pista: a mesma conta do barco que quer chegar em frente.Quanto mais abertos os cabos, maior a tração em cada um; a parte vertical de cada cabo, porém, é sempre metade do peso. Foi o bloco do PAS 1 de 2017.Se a chegada coincide com a partida, o deslocamento é zero e a velocidade vetorial média também, por mais quilômetros que se corra. PAS 1 de 2012.Mesmos 30 N e 40 N, três resultados: 70 N, 10 N e 50 N. O número sozinho não decide para onde a caixa vai.Na rampa, o peso se reparte: uma parte puxa ao longo da rampa (P sen θ) e outra comprime contra ela (P cos θ). A normal é menor que o peso.
Rota PAS 1
Grandezas, Leis de Newton e atrito · PAS 1
Fontes desta página
Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.
Rota PAS 1 — Grandezas, Leis de Newton e atrito · Aquecimento (ideias 3 e 5: seta como força; a rampa reparte o peso); Grandezas físicas: medir, converter e apontar a direção (conceito escalar × vetorial, exemplo-guia da rotatória, itens 2006/111 e 2017/54, checagem da velocidade vetorial em curva); Primeira lei (item 2011/61, componente horizontal da tração); Segunda lei (rampa, item 2018/88); Atrito (decomposição do peso na rampa, mg senθ e mg cosθ); Leia como na prova (bloco de 2024, figura da soma pelo paralelogramo); Banco de treino T3 (3 N + 4 N), T4 (2012/88) e T13 (2022/85)
Recorte por assunto: só os vetores. As leis de Newton, o atrito, a frenagem e a curva do mesmo capítulo pertencem às páginas leis-de-newton, atrito e movimento-circular-uniforme; a estática de corpo extenso (torque) fica em estatica.
Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 1 2006 (itens 12 e 111), 2008 (item 105), 2011 (item 61), 2012 (item 88), 2017 (itens 54 e 55, transcritos da página 9 do caderno impresso), 2018 (itens 80 e 88, fórmulas restauradas da página 13 do caderno), 2022 (item 85), 2024 (item 96, opções transcritas da página 13 do caderno)
Itens reproduzidos verbatim; gabaritos conferidos em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao/AAAA.json. Figuras impressas (rebocador, quadro, haste do Partenon, pontos de Lagrange) descritas em texto neutro no suporte de cada questão.