Toda foto do céu é uma carta atrasada: a luz de Andrômeda que chega hoje partiu há dois milhões e meio de anos, e um telescópio apontado para mais longe registra galáxias como eram há bilhões de anos, com a luz esticada para o vermelho tanto mais quanto mais distantes. Como uma medida de comprimento de onda vira a velocidade de uma galáxia, a velocidade vira distância e a distância vira a idade do universo? O que o Big Bang afirma de fato, que previsões ele fez antes de serem observadas, e como um modelo sobre algo que não se repete em laboratório pode ser ciência?
O que você vai aprender
Distinguir astronomia (os objetos do céu: planetas, estrelas, galáxias) de cosmologia (o universo como um todo: origem, composição, expansão, destino) e situar a cosmologia como física aplicada à maior escala possível.
Usar as escalas de distância da astronomia (unidade astronômica, ano-luz, parsec e megaparsec, com 1 ano-luz ≈ 9,5 × 10¹⁵ m e 1 Mpc ≈ 3,1 × 10¹⁹ km) em notação científica, e explicar por que olhar longe é olhar para o passado.
Enunciar a lei de Hubble–Lemaître, v = H₀d, calcular velocidade ou distância a partir de H₀ ≈ 70 km/s/Mpc e ler o gráfico velocidade × distância (reta pela origem, inclinação H₀), inclusive o gráfico original de Hubble (1929).
Relacionar o desvio para o vermelho ao efeito Doppler da luz, calcular z = Δλ/λ ≈ v/c para v muito menor que c, e entender que, na expansão cósmica, é o próprio espaço que estica a onda enquanto ela viaja.
Explicar a expansão do espaço com a analogia do balão ou do pão com passas: toda galáxia vê as demais se afastarem, não há centro nem borda, e a lei de Hubble é a assinatura de uma expansão uniforme.
Estimar a idade do universo pelo tempo de Hubble 1/H₀, convertendo km/s/Mpc em s⁻¹ e segundos em anos (cerca de 14 bilhões de anos), e saber por que o valor dos modelos completos é 13,8 bilhões de anos.
Descrever o Big Bang como a história de um universo que já foi muito mais denso e quente e vem se expandindo e esfriando, e não como uma explosão num ponto de um espaço vazio.
Listar e explicar as três evidências clássicas do modelo: a expansão (Hubble, 1929), a radiação cósmica de fundo a 2,7 K (prevista nos anos 1940, encontrada por Penzias e Wilson em 1965; pico em cerca de 1 mm pela lei de Wien) e a abundância primordial de hidrogênio e hélio (cerca de 3/4 e 1/4 em massa).
Ordenar a cronologia do universo em escala logarítmica: nucleossíntese nos primeiros minutos, recombinação e emissão da radiação de fundo aos 380 mil anos, primeiras estrelas e galáxias nas primeiras centenas de milhões de anos, Sistema Solar há 4,6 bilhões de anos.
Explicar, em nível qualitativo, por que curvas de rotação planas das galáxias (Vera Rubin, anos 1970) exigem matéria escura e por que o brilho de supernovas distantes (1998, Nobel de 2011) exige energia escura, e ler o inventário atual: cerca de 5 % de matéria comum, 27 % de matéria escura e 68 % de energia escura.
Discutir o destino do universo em termos qualitativos (expansão para sempre, acelerada, com o céu cada vez mais vazio) e distinguir o que o modelo afirma com segurança do que ainda não se sabe.
Argumentar por que a cosmologia é ciência: um modelo que faz previsões testáveis (radiação de fundo, abundância de hélio, espectro de corpo negro) é testado por observação, não por reprodução em laboratório, como o item do PAS 1 de 2023 sobre o estatuto do Big Bang exige.
Situar a cosmologia na cultura: mitos de origem e ciência como registros de estatutos diferentes, o padre Georges Lemaître, os telescópios Hubble e James Webb, e o Brasil na astronomia (Observatório Nacional, LNA e o Pico dos Dias, participação no SOAR e no Gemini, Mário Schenberg e o processo Urca).
Toda foto do céu é uma carta que chegou atrasada. Uma imagem da galáxia de Andrômeda, o borrão pálido que o olho desarmado distingue em noites muito escuras, registra luz que partiu de lá dois milhões e meio de anos atrás, numa época em que os primeiros humanos ainda não tinham surgido na África; o que a foto mostra é a galáxia daquela época, não a de hoje. O atraso encolhe para objetos mais próximos, mas nunca é zero: a Próxima Centauri que aparece ao telescópio é a de quatro anos e três meses atrás; o Sol que ilumina a tarde é o de oito minutos e vinte segundos atrás; até a Lua chega com 1,3 segundo de atraso. Por isso um telescópio maior não amplia apenas o tamanho do que se vê: amplia o recuo no tempo. Com alcance suficiente, ele registra galáxias como eram há bilhões de anos, e em todas elas a luz chega esticada para o vermelho, tanto mais quanto mais distante a galáxia.
Essa última frase é a descoberta que fundou a cosmologia moderna. Ela diz que o universo não é um cenário parado onde as coisas acontecem: ele próprio tem uma história, com um passado mais denso e mais quente, uma idade que se mede e um futuro que se discute. Esta página percorre essa história na ordem em que ela pode ser medida: primeiro as escalas e o fato de que ver longe é ver o passado; depois a lei de Hubble–Lemaître e o desvio para o vermelho, com as contas que um estudante do ensino médio faz com lápis; em seguida o que a palavra Big Bang afirma de verdade e as três evidências que a sustentam; a linha do tempo, da nucleossíntese ao Sistema Solar; o que falta no inventário (matéria escura e energia escura) e o que isso diz sobre o destino do universo; e, no fim, por que tudo isso é ciência, e como a cosmologia conversa com a cultura e com a astronomia feita no Brasil. A relatividade geral, que é a base matemática do universo em expansão, e a física quântica, que governa os primeiros instantes, têm páginas próprias; a gravitação de Newton, as leis de Kepler e a história dos modelos do céu já estão em gravitação universal, leis de Kepler e órbitas e história da astronomia, e aqui aparecem só como apoio.
Antes de começar: o que é cosmologia e o que não é
Astronomia estuda os objetos do céu: planetas, estrelas, nebulosas, galáxias, o que são, de que são feitos, como nascem e morrem. Cosmologia estuda o universo como um todo: sua origem, sua composição global, sua expansão, sua idade, sua geometria e seu destino. A astronomia pergunta como uma estrela funciona; a cosmologia pergunta de onde veio o hidrogênio de que a estrela é feita. As duas usam os mesmos telescópios, e a cosmologia só se tornou ciência de medida quando a astronomia conseguiu medir distâncias e velocidades de galáxias, a partir dos anos 1910 e 1920. Antes disso, cosmologia era um capítulo da filosofia e da religião; depois, virou um capítulo da física, com equações, previsões e observações que podem dar errado.
Quatro coisas que a página supõe conhecidas. A luz tem velocidade finita, c=3,0×108 m/s, e por isso demora para chegar: a página das ondas eletromagnéticas montou o espectro e a relação c=λf. O efeito Doppler muda a frequência percebida quando fonte e observador se aproximam ou se afastam: a página de acústica o deduziu para o som da ambulância; aqui ele aparece para a luz das galáxias. Todo corpo quente irradia com um pico de emissão que depende da temperatura, a lei de Wien da página de propagação de calor; aqui ela mede a temperatura do universo. E a gravidade atrai toda massa, a lei de Newton que diz como galáxias giram e por que a expansão deveria frear.
As escalas de distância da astronomia
Dentro do Sistema Solar usa-se a unidade astronômica (UA), a distância média Terra–Sol: 1UA=1,5×1011 m, que a luz percorre em 500 s (8 min 20 s). Entre estrelas usa-se o ano-luz, a distância que a luz percorre no vácuo em um ano:
1ano-luz=c×1ano=3,0×108m/s×3,16×107s≈9,5×1015m.
É unidade de distância, não de tempo, apesar do nome. Os astrônomos profissionais preferem o parsec (pc), definido pela paralaxe estelar: 1pc≈3,26 anos-luz ≈3,1×1016 m; entre galáxias a unidade é o megaparsec, 1Mpc=106pc≈3,1×1022 m =3,1×1019 km. Nenhuma dessas conversões precisa ser decorada para a prova, que fornece o que usar; o que precisa estar automático é a notação científica.
objeto
distância
em metros
a luz leva
Lua
3,8 × 10⁵ km
3,8 × 10⁸
1,3 s
Sol
1 UA
1,5 × 10¹¹
8 min 20 s
Próxima Centauri
4,2 anos-luz
4,0 × 10¹⁶
4,2 anos
centro da Via Láctea
26 mil anos-luz (8 kpc)
2,5 × 10²⁰
26 mil anos
galáxia de Andrômeda
2,5 milhões de anos-luz (0,78 Mpc)
2,4 × 10²²
2,5 milhões de anos
aglomerado de Coma
100 Mpc (320 milhões de anos-luz)
3,1 × 10²⁴
320 milhões de anos
galáxias mais distantes já vistas
mais de 13 bilhões de anos-luz de tempo de viagem
—
mais de 13 bilhões de anos
A última coluna é a ideia que organiza a página: a distância de um objeto é também a idade da imagem que vemos dele. Não existe “agora” lá fora acessível aos telescópios; existe uma coleção de passados, um para cada distância.
Cada marca é um objeto e uma data: quanto mais longe, mais antiga é a imagem que chega. O eixo é logarítmico porque as distâncias crescem por fatores de mil entre a Lua e o Sol, de cem mil entre o Sol e a estrela mais próxima, e de dez bilhões entre o Sol e as galáxias mais distantes. Diagrama autoral.
(a) d=2,5×106×9,5×1015≈2,4×1022 m. Um número de 23 algarismos para a galáxia vizinha: é por isso que a astronomia inventou unidades próprias.
(b) Vemos a luz que saiu de lá há 2,5 milhões de anos: Andrômeda como era quando, na África, viviam os primeiros representantes do gênero Homo. Nada do que vemos é o estado atual da galáxia.
A reta de Hubble: a velocidade de afastamento cresce com a distância
Entre 1912 e 1917, no Observatório Lowell, no Arizona, Vesto Slipher fotografou os espectros de dezenas de “nebulosas espirais”, que ninguém sabia ainda serem galáxias como a nossa, e encontrou um fato estranho: quase todas tinham as linhas espectrais deslocadas para o vermelho, sinal de que se afastavam, algumas a mais de 1 000 km/s, velocidades enormes para a época. Em 1927, o físico e padre belga Georges Lemaître publicou, num periódico de pouca circulação, a dedução de que um universo em expansão descrito pela relatividade geral deveria mostrar galáxias se afastando com velocidade proporcional à distância, e estimou a constante com os poucos dados disponíveis. Em 1929, Edwin Hubble, com o telescópio de 2,5 m do Monte Wilson, na Califórnia, mediu distâncias de 24 galáxias (pelo brilho de estrelas variáveis e das estrelas mais brilhantes de cada uma), combinou-as com as velocidades de Slipher e de Milton Humason e mostrou a relação num gráfico que virou um dos mais reproduzidos da ciência: a velocidade de afastamento cresce em linha reta com a distância.
A lei de Hubble–Lemaître
Quanto mais distante uma galáxia, mais depressa ela se afasta de nós, e a relação entre as duas grandezas é uma proporção direta. A velocidade de afastamento, chamada velocidade de recessão, obedece a
v=H0d,
em que H0 é a constante de Hubble, medida em km/s por megaparsec. O valor usado nas contas desta página é H0≈70 km/s/Mpc: uma galáxia a 1 Mpc afasta-se a 70 km/s; a 100 Mpc, a 7 000 km/s; a 200 Mpc, a 14 000 km/s. A cada vez que a distância dobra, a velocidade dobra junto. No gráfico v×d, a lei é uma reta pela origem cuja inclinação é H0. Desde 2018, por resolução da União Astronômica Internacional, a lei leva também o nome de Lemaître, que a deduziu dois anos antes da medida de Hubble.
O gráfico de Hubble (1929), redesenhado com as 24 galáxias da tabela 1 do artigo. A tendência é inequívoca, mas a inclinação, cerca de 500 km/s/Mpc, era sete vezes maior que a atual: Hubble subestimou as distâncias por calibrar mal as estrelas variáveis que usava como padrão. As galáxias com velocidade negativa (Andrômeda entre elas) estão perto demais para a expansão vencer o movimento próprio delas. Diagrama autoral a partir de Hubble, PNAS 15, 168 (1929).
A primeira coisa a ler no gráfico original é que a física estava certa e o número estava errado. A reta existe, e é isso que importa; mas as distâncias de Hubble eram cerca de sete vezes menores que as reais, porque as estrelas que ele usava como “velas-padrão” eram de dois tipos diferentes com brilhos diferentes, o que só se descobriu nos anos 1950. A segunda coisa é que, perto de nós, a reta não funciona: várias galáxias do gráfico se aproximam, com velocidade negativa. É que a lei de Hubble descreve o movimento médio de grande escala; cada galáxia tem também uma velocidade própria, de algumas centenas de km/s, devida à gravidade das vizinhas. Para Andrômeda, a 0,78 Mpc, a expansão daria v=70×0,78≈55 km/s de afastamento; a atração mútua entre ela e a Via Láctea produz uma aproximação de cerca de 110 km/s, que vence. Além de algumas dezenas de megaparsecs, a velocidade de expansão passa dos milhares de km/s e os movimentos próprios viram ruído pequeno em cima da reta.
(a) Inclinação =v/d=1000/2=500 km/s/Mpc. (Hubble publicou dois ajustes no artigo de 1929, 465 ± 50 e 513 ± 60 km/s/Mpc; o valor redondo de 500 é o que a história guardou.)
(b) Com d sete vezes maior e a mesma v, a inclinação cai sete vezes: 500/7≈71 km/s/Mpc.
Duas famílias de medidas modernas discordam. A radiação cósmica de fundo, lida pelo satélite Planck, dá H0=67,4±0,5 km/s/Mpc; a escada de distâncias (estrelas variáveis mais supernovas), medida pelo telescópio Hubble, dá 73,0±1,0 km/s/Mpc. A diferença é pequena no número e grande para a física, porque as duas incertezas não se tocam: é a tensão de Hubble, um dos problemas abertos da cosmologia. Para contas de prova, H0≈70 km/s/Mpc serve; um item que apresente 67 ou 73 não está errado, está citando uma das duas medidas.
O desvio para o vermelho: a velocidade vem do espectro
Ninguém mede a velocidade de uma galáxia com um radar. O que se mede é o espectro da sua luz, no qual aparecem linhas de emissão ou absorção em comprimentos de onda conhecidos de laboratório: a linha vermelha do hidrogênio em 656,3 nm, as linhas do cálcio em 393 e 397 nm, as do sódio em 589 nm. Na luz de uma galáxia distante, o padrão inteiro de linhas aparece deslocado para comprimentos de onda maiores, mantendo as proporções: é o desvio para o vermelho (redshift), medido pelo número adimensional
z=λemitidoλobservado−λemitido=λΔλ.
Por que o deslocamento mede velocidade? Pela mesma razão que a sirene da ambulância fica mais grave quando o carro se afasta: fonte que recua emite cada crista um pouco mais longe que a anterior, as cristas chegam mais espaçadas, o comprimento de onda recebido é maior. Para velocidades muito menores que c, a fração de esticamento é igual à fração da velocidade da luz:
Desvio para o vermelho e velocidade (v ≪ c)
z=λΔλ≈cv,logov≈cz.
Um desvio de 1 % (z=0,01) corresponde a v≈0,01×300000=3000 km/s. A fórmula vale bem até z da ordem de 0,1 (v≈30000 km/s); para desvios maiores entram a relatividade e a expansão do espaço, e a relação deixa de ser uma simples proporção. Desvio para o azul (z<0) indica aproximação: é o caso de Andrômeda.
As linhas do hidrogênio num espectro de laboratório e no espectro de uma galáxia que se afasta a 15 000 km/s: cada comprimento de onda aumentou 5 %. É o padrão, não uma linha isolada, que identifica o elemento e mede o desvio. Diagrama autoral.
O espaço que se estica: expansão sem centro e sem borda
Até aqui a linguagem foi a do Doppler: galáxias “fugindo” de nós através do espaço. Para desvios pequenos a conta é a mesma, mas a imagem está errada, e a imagem errada fabrica a maioria dos erros de prova. A relatividade geral, que a página de história da física moderna situa e que terá página própria, descreve a gravidade como geometria do espaço-tempo, e permite que o espaço entre as galáxias cresça. Nesse quadro, as galáxias não correm pelo espaço: é a distância entre elas que aumenta porque há mais espaço entre elas a cada instante. A onda de luz que atravessa esse espaço em crescimento é esticada junto; o desvio para o vermelho mede quanto o universo se expandiu enquanto a luz viajava, e é por isso que a luz mais antiga é a mais avermelhada.
A expansão do espaço, com o balão e o pão com passas
Cole moedas na superfície de um balão e infle-o. Cada moeda vê todas as outras se afastarem, e as mais distantes se afastam mais depressa, porque há mais borracha esticando entre elas: uma moeda a 2 cm de distância, quando a borracha dobra de tamanho, passa a 4 cm (afastou-se 2 cm); uma a 10 cm passa a 20 cm (afastou-se 10 cm) no mesmo tempo, cinco vezes mais depressa. É a lei de Hubble brotando de uma expansão uniforme: quando cada pedaço do espaço cresce na mesma proporção que todos os outros, a velocidade com que dois pontos se separam sai proporcional à distância entre eles. E nenhuma moeda ocupa o centro da superfície: cada uma vê as demais recuarem com a mesma regra. O mesmo vale para as passas de um pão que cresce no forno. As moedas (e as passas, e as galáxias) não incham: a gravidade que as mantém coesas vence a expansão; o que cresce é a distância entre elas.
O balão antes e depois de dobrar de tamanho: a moeda a 5 unidades afastou-se 5, a moeda a 2 afastou-se 2, no mesmo tempo. Velocidade proporcional à distância é o que uma expansão uniforme produz, vista de qualquer moeda. Diagrama autoral.
Três consequências que decidem itens. Não há centro. Qualquer observador, em qualquer galáxia, vê as outras se afastarem com a mesma lei; a Terra não está num lugar privilegiado, está num lugar típico. Não há borda nem “fora”. A expansão não é o universo invadindo um vazio preexistente; é a geometria do próprio espaço mudando, em toda parte ao mesmo tempo. Perguntar para onde o universo se expande é como perguntar o que há ao norte do polo Norte. Nada local se expande. Átomos, planetas, o Sistema Solar, a Via Láctea, o Grupo Local de galáxias: tudo que está ligado por forças elétricas ou pela gravidade mantém o tamanho; a expansão só se manifesta entre estruturas que não estão ligadas, a dezenas de megaparsecs ou mais.
Exemplo resolvido 4: a taxa de expansão em porcentagem.H0=70 km/s/Mpc tem unidade de velocidade dividida por distância, isto é, inverso de tempo. (a) Converta H0 para s⁻¹. (b) Quanto o espaço se expande, em porcentagem, a cada bilhão de anos?
(a) 1Mpc=3,1×1019 km, logo
H0=3,1×1019km70km/s≈2,3×10−18s−1.
A unidade “km/s por Mpc” esconde que a constante de Hubble é uma taxa: fração de crescimento por segundo.
(b) Um bilhão de anos tem 109×3,16×107=3,16×1016 s. A fração de crescimento nesse intervalo é H0×t=2,3×10−18×3,16×1016≈0,07: cerca de 7 % por bilhão de anos. Conferência: uma galáxia a 100 Mpc, a 7 000 km/s, percorre em um bilhão de anos 7000×3,16×1016=2,2×1020 km =7 Mpc, isto é, 7 % de 100 Mpc. Fecha. Num ano, a expansão mudaria a distância até Andrômeda em cerca de 7×10−9 %, sete bilionésimos de um por cento: ninguém a percebe no cotidiano, e a gravidade a cancela por completo dentro das galáxias.
Rebobinando: a idade do universo cabe numa divisão
Se tudo se afasta de tudo, houve um tempo em que tudo esteve junto. A conta mais simples supõe velocidade constante: uma galáxia a distância d com velocidade v=H0d levou, para chegar lá, um tempo t=d/v=d/(H0d)=1/H0, o mesmo para qualquer galáxia. Esse é o tempo de Hubble.
O tempo de Hubble é uma estimativa, não a idade. A velocidade de expansão não foi constante: a gravidade da matéria a freou durante os primeiros bilhões de anos e a energia escura a vem acelerando nos últimos (mais adiante). Por uma coincidência dos valores atuais, os dois efeitos quase se cancelam e a idade calculada pelo modelo completo, 13,8 bilhões de anos (Planck, 2018: 13,79±0,02), fica muito perto do tempo de Hubble. Uma confirmação independente: as estrelas mais velhas conhecidas, nos aglomerados globulares da Via Láctea, têm cerca de 12 a 13 bilhões de anos. Nenhuma é mais velha que o universo, o que seria um desastre para o modelo e nunca aconteceu.
O que o Big Bang afirma, e o que ele não afirma
O nome foi dado por um adversário. Em 1949, numa transmissão de rádio da BBC, o astrônomo britânico Fred Hoyle, defensor de um universo eterno em “estado estacionário”, chamou de big bang a ideia rival, com desprezo; o nome pegou, e carrega até hoje a imagem errada que Hoyle queria ridicularizar. Lemaître, em 1931, falara de “átomo primitivo”; a expressão técnica atual é modelo cosmológico padrão ou modelo ΛCDM.
O modelo do Big Bang
O modelo afirma que o universo observável tem uma história com direção definida: 13,8 bilhões de anos atrás, toda a matéria e a radiação que hoje vemos estavam comprimidas num estado de densidade e temperatura altíssimas, e desde então o espaço cresce e o conteúdo esfria. O crescimento é do próprio espaço, simultâneo em toda parte; o modelo não descreve uma explosão num ponto de um espaço vazio preexistente, não tem centro, não tem “lado de fora” e não fala do que havia “antes”, porque o tempo, no modelo, começa com a expansão. Três consequências verificáveis saem dele: (1) a lei de Hubble; (2) uma radiação de fundo, resto térmico do universo jovem, com espectro de corpo negro e temperatura de poucos kelvins; (3) a receita química da matéria anterior às estrelas, com três quartos da massa em hidrogênio e um quarto em hélio. A observação confirmou as três.
O que o modelo não afirma também decide item. Não afirma que o universo é finito nem que tem borda; o que tem limite é o universo observável, a região de onde a luz teve tempo de chegar em 13,8 bilhões de anos (que, por causa da expansão durante a viagem, tem hoje raio de cerca de 46 bilhões de anos-luz, maior que c vezes a idade, uma sutileza que a prova não cobra). Não afirma que a Terra ou a Via Láctea estão no centro: a recessão geral é o que qualquer observador vê. Não afirma que as galáxias “voam” mais rápido que a luz: as mais distantes se afastam, pela expansão do espaço, a taxas maiores que c, mas nenhuma delas se move através do espaço mais depressa que a luz; o limite da relatividade restrita é para movimento no espaço, não para o crescimento do espaço. E não é uma teoria da origem de tudo a partir do nada: é a história do universo a partir de um instante muito próximo do início, cerca de 10−43 s, antes do qual a física conhecida não funciona.
Três evidências que o modelo previu antes de serem vistas
Primeira: a expansão. Já está acima. Um universo estático, que era o que Einstein esperava em 1917 (a ponto de inserir nas suas equações uma constante cosmológica para segurá-lo parado), não produz desvio para o vermelho proporcional à distância. As soluções em expansão foram encontradas por Alexander Friedmann em 1922 e por Lemaître em 1927; a observação de Hubble em 1929 escolheu entre elas e o universo estático. Einstein aceitou, e, segundo George Gamow relatou décadas depois, chamou a constante de seu “maior erro”; a história lhe daria meia razão, como a seção da energia escura mostra.
Segunda: a radiação cósmica de fundo. Se o universo foi denso e quente, foi também opaco: a matéria era um plasma de prótons, elétrons e núcleos de hélio, e a luz não andava um palmo sem ser espalhada por um elétron livre, como dentro do Sol ou dentro de uma nuvem. Ao se expandir, o universo esfriou; quando a temperatura caiu a cerca de 3 000 K, aos 380 mil anos de idade, os elétrons se combinaram com os prótons formando átomos de hidrogênio neutros, e um gás neutro é transparente. A luz que estava presa escapou nesse instante e viaja desde então, em todas as direções, preenchendo o universo inteiro. A expansão a esticou: o que era luz visível e infravermelha de um gás a 3 000 K chega hoje esticada cerca de 1 100 vezes, como micro-ondas de um corpo a 2,725 K. George Gamow, Ralph Alpher e Robert Herman previram essa radiação em 1948, estimando uma temperatura de poucos kelvins. Em 1965, Arno Penzias e Robert Wilson, nos Laboratórios Bell, em Nova Jersey, testavam uma antena de comunicação por satélite e não conseguiam eliminar um ruído de micro-ondas que vinha de todas as direções do céu, dia e noite, em qualquer estação, equivalente a um corpo a cerca de 3,5 K; limparam até os excrementos de pombos da antena, e o ruído continuou. Um grupo de Princeton (Robert Dicke, James Peebles e colegas), que estava construindo um detector para procurar exatamente aquela radiação, explicou a eles o que tinham achado. Penzias e Wilson receberam o Nobel de Física de 1978.
A temperatura do universo pela lei de Wien
A radiação cósmica de fundo tem o espectro de um corpo negro a T=2,725 K, o mais perfeito já medido na natureza. Pela lei de Wien, λmaxT=2,9×10−3 m·K, o pico de emissão está em
λmax=2,7252,9×10−3≈1,06×10−3m≈1mm,
na faixa das micro-ondas. A mesma lei, para o Sol a 5 800 K, dá 500 nm (luz visível): a temperatura do universo é 2 100 vezes menor que a da superfície do Sol, e o pico da sua radiação tem comprimento de onda 2 100 vezes maior. Há cerca de 411 fótons dessa radiação em cada centímetro cúbico do universo, inclusive na sala em que você está, cerca de um bilhão de fótons para cada próton do universo.
O espectro da radiação cósmica de fundo medido pelo satélite COBE (1990) é um corpo negro de 2,725 K com desvios menores que a espessura da linha; o pico, em cerca de 1 mm, é a lei de Wien aplicada ao universo inteiro. Diagrama autoral com a curva de Planck calculada para 2,725 K.
(b) λmax=2,9×10−3/3000≈9,7×10−7 m, quase 1 µm: infravermelho próximo, com a cauda do espectro no visível; o universo brilhava alaranjado, como o filamento de uma lâmpada. A razão entre os dois picos, 1,06×10−3/9,7×10−7≈1100, é o fator pelo qual o espaço se expandiu desde então: todo comprimento de onda cresceu 1 100 vezes, e a temperatura caiu na mesma proporção.
Em 1992, o satélite COBE mediu, além do espectro perfeito, pequeníssimas variações de temperatura entre direções, de uma parte em cem mil: as sementes das galáxias, regiões um pouco mais densas que atraíram matéria e cresceram. John Mather e George Smoot receberam por isso o Nobel de 2006. Os satélites WMAP (2001) e Planck (2009) mapearam essas manchas com precisão crescente, e é desse mapa que saem o valor de 13,8 bilhões de anos e o inventário da seção seguinte.
Terceira: o hélio primordial. Nas estrelas, hidrogênio vira hélio devagar: o Sol, em 10 bilhões de anos, converte em hélio só cerca de um décimo do seu hidrogênio, e todas as estrelas da Via Láctea juntas, em toda a sua história, não teriam elevado a fração de hélio do gás em mais que uns poucos por cento. No entanto, a matéria mais velha e menos processada do universo, gás que nunca passou por estrela, tem cerca de 25 % de hélio em massa, em qualquer direção que se olhe. O modelo explica: entre o primeiro segundo e os primeiros três minutos, com temperaturas de bilhões de kelvins, o universo inteiro funcionou como o núcleo de uma estrela, e prótons e nêutrons se combinaram em núcleos leves. Quando a expansão esfriou demais para continuar, cerca de 20 minutos depois, a receita estava fixada: hidrogênio, hélio-4, traços de deutério, hélio-3 e lítio, e nada mais pesado. Carbono, oxigênio, ferro, tudo de que o corpo humano é feito, foi fabricado depois, dentro de estrelas, e espalhado por suas explosões.
Exemplo resolvido 7: por que 25 %? No fim do primeiro segundo, havia cerca de 7 prótons para cada nêutron (os nêutrons, um pouco mais pesados, são mais raros em equilíbrio, e começaram a decair). Quase todos os nêutrons acabaram em núcleos de hélio-4 (2 prótons e 2 nêutrons). Estime a fração de hélio em massa.
Tome 14 prótons e 2 nêutrons (proporção 7:1). Os 2 nêutrons capturam 2 prótons e formam um núcleo de hélio-4, de massa 4 unidades. Sobram 14−2=12 prótons, que ficam como hidrogênio, massa 12 unidades. Fração de hélio: 4/(4+12)=4/16=25%. Em número de átomos, é um hélio para doze hidrogênios, cerca de 8 %. Conferência: o valor medido no gás primordial é Y≈0,245 a 0,25; a diferença fina vem dos nêutrons que decaíram antes de serem capturados. O argumento mostra também por que não há elementos pesados primordiais: não existe núcleo estável com 5 ou 8 partículas, e a expansão não deu tempo de pular esse degrau; as estrelas, com bilhões de anos e densidades enormes, pulam.
A linha do tempo: do primeiro segundo ao Sistema Solar
Os números abaixo não cabem numa régua comum: o primeiro acontecimento dura um segundo e o último, bilhões de anos. Por isso a linha do tempo da cosmologia é logarítmica: cada divisão multiplica o tempo por dez (ou mais).
Cada marca da linha está dez ou mais vezes à direita da anterior; a temperatura cai enquanto o universo cresce. O que acontece antes do primeiro segundo é assunto da física quântica e de partículas; o que acontece depois do primeiro bilhão de anos é astronomia. Diagrama autoral.
quando (idade do universo)
temperatura
o que acontece
10−43 s a 10−32 s
acima de 1027 K
limite da física conhecida; época da inflação (hipótese bem apoiada, não confirmada diretamente)
1 s
1010 K
prótons e nêutrons já existem; a proporção 7:1 se fixa
3 min a 20 min
109 K
nucleossíntese primordial: H, He-4, traços de D, He-3, Li
380 mil anos
3 000 K
recombinação: átomos neutros; universo transparente; emissão da radiação de fundo
100 a 200 milhões de anos
primeiras estrelas: fim da “idade escura”; primeiras galáxias logo depois
300 milhões a 1 bilhão de anos
galáxias jovens observadas pelo James Webb; primeiros elementos pesados espalhados
9,2 bilhões de anos (há 4,6 bilhões)
Sol e Sistema Solar se formam de uma nuvem já enriquecida por gerações anteriores de estrelas
13,8 bilhões de anos
2,7 K
hoje
Dois marcos merecem uma frase cada. A “idade escura”: entre a recombinação e as primeiras estrelas, não havia fonte de luz nenhuma, só hidrogênio e hélio frios se juntando lentamente sob a gravidade (sobretudo a da matéria escura) nos lugares que o mapa da radiação de fundo mostra um pouco mais densos. O Sol é uma estrela de terceira geração, pelo menos: a nuvem que o formou já continha carbono, oxigênio, silício e ferro produzidos e ejetados por estrelas anteriores, e é por isso que existem planetas rochosos e gente. A ordem Big Bang → estrelas → Sistema Solar é obrigatória; um item que ponha o Sol tão velho quanto o universo, ou os elementos pesados no Big Bang, erra por anacronismo.
O que falta no inventário: matéria escura e energia escura
O problema das galáxias que giram depressa demais. A lei da gravitação diz como um corpo em órbita deve se mover: para um planeta em volta do Sol, v=GM/r, e a velocidade cai com a distância (v∝1/r), que é a terceira lei de Kepler em outra roupa. Numa galáxia espiral, quase toda a luz, e portanto, supunha-se, quase toda a massa, está concentrada no centro; as estrelas e nuvens de gás das bordas deveriam orbitar cada vez mais devagar, como os planetas externos. Nos anos 1970, Vera Rubin e Kent Ford, no Carnegie Institution, mediram pelo efeito Doppler as velocidades de rotação em dezenas de galáxias, começando por Andrômeda, e encontraram curvas planas: a velocidade para de cair e fica constante, em torno de 200 a 250 km/s, até onde há gás para medir, muito além da parte luminosa. Para manter em órbita gás tão distante a essa velocidade é preciso muito mais massa do que a que brilha, distribuída num halo enorme em torno da galáxia. (Fritz Zwicky já notara, em 1933, que as galáxias do aglomerado de Coma se moviam depressa demais para a massa visível e falara em “matéria escura”, mas o resultado ficou sem eco por quatro décadas.)
A curva de rotação de uma galáxia espiral típica: a gravidade da matéria visível prevê velocidades caindo com a distância, como os planetas; a medida mostra velocidades constantes até muito além do disco luminoso. A diferença é a matéria escura. Diagrama autoral, qualitativo.
Matéria escura
Componente que gravita (aparece nas curvas de rotação, no movimento de galáxias em aglomerados, na curvatura da luz por aglomerados e no mapa da radiação de fundo) mas não emite, não absorve e não reflete luz em nenhum comprimento de onda. Representa cerca de 27 % do conteúdo do universo e cerca de 85 % de toda a matéria. Não é feita de prótons e nêutrons (a nucleossíntese e a radiação de fundo limitam a matéria comum a cerca de 5 %); o que a compõe é desconhecido: a hipótese dominante é uma partícula nova, ainda não detectada em laboratório. “Escura” significa “não vista”, não “preta”: é transparente.
O problema das supernovas fracas demais. Um universo cheio de matéria deveria estar freando a expansão: a gravidade puxa tudo de volta. Em 1998, duas equipes que mediam o brilho de supernovas de um tipo que explode sempre com quase a mesma luminosidade (velas-padrão visíveis a bilhões de anos-luz) encontraram o oposto: as supernovas distantes estavam mais fracas do que deveriam, isto é, mais longe do que uma expansão em desaceleração as teria levado. A expansão está acelerando desde cerca de 5 a 6 bilhões de anos atrás. Saul Perlmutter, Brian Schmidt e Adam Riess receberam o Nobel de 2011. A causa recebeu um nome que é uma confissão: energia escura. A descrição mais simples que funciona é a constante cosmológica que Einstein inventara em 1917 para outro fim e descartara, por isso o Λ (lambda) no nome ΛCDM do modelo padrão.
Energia escura
É o rótulo que a cosmologia dá à componente a que se atribui a aceleração da expansão; responde por cerca de 68 % do conteúdo do universo. Comporta-se como uma energia do próprio espaço, de densidade constante: enquanto a matéria se dilui com a expansão, ela não, e por isso passou a dominar à medida que o universo cresceu. Sua natureza é desconhecida; a constante cosmológica é a descrição mais simples compatível com os dados, e saber se ela é mesmo constante é um dos objetivos dos grandes levantamentos atuais.
componente
fração do conteúdo
como se sabe
o que é
matéria comum (átomos)
≈ 5 %
nucleossíntese, radiação de fundo, censo de estrelas e gás
prótons, nêutrons, elétrons; só 10 % dela está em estrelas
matéria escura
≈ 27 %
curvas de rotação, aglomerados, lentes gravitacionais, radiação de fundo
desconhecido; gravita, não emite luz
energia escura
≈ 68 %
supernovas (1998), radiação de fundo, distribuição de galáxias
desconhecido; acelera a expansão
(Os números divulgados pela missão Planck em 2013 foram 4,9 %, 26,8 % e 68,3 %; a análise final, de 2018, move-os em poucos décimos, para cerca de 4,9 %, 26,5 % e 68,5 %.) Leia a tabela com honestidade: 95 % do conteúdo do universo é de natureza desconhecida, e os 5 % que conhecemos bem incluem tudo o que já foi visto por qualquer telescópio. Isso não é fracasso do modelo; é o modelo dizendo com precisão o que falta explicar, e é essa precisão que torna as duas incógnitas alvos de experimentos reais, de detectores subterrâneos de partículas a telescópios dedicados. A hipótese alternativa, de que a lei da gravidade muda em grandes escalas, continua sendo testada e, até agora, explica menos observações do que a matéria escura.
O destino do universo, em termos qualitativos
Com energia escura de densidade constante, a resposta atual é: expansão para sempre, acelerada. As galáxias que não estão ligadas gravitacionalmente ao nosso Grupo Local se afastarão cada vez mais depressa; em dezenas de bilhões de anos, a luz das mais distantes deixará de nos alcançar e o céu observável irá se esvaziando. O Grupo Local (Via Láctea, Andrômeda e suas dezenas de galáxias-satélites) continuará ligado: Andrômeda e a Via Láctea devem se fundir em cerca de 4 a 5 bilhões de anos, segundo as estimativas mais citadas, mais ou menos quando o Sol chegar ao fim da fase estável. As estrelas continuarão nascendo cada vez mais devagar, à medida que o gás se esgotar, e o universo ficará mais frio e mais escuro, com a radiação de fundo esticada para rádio. Dois cenários alternativos aparecem em textos de divulgação: o Big Crunch (a gravidade vence e tudo recolapsa), descartado pelos dados atuais, e o Big Rip (energia escura crescente que rasga até galáxias e átomos), que depende de uma propriedade da energia escura que as medidas, até agora, não indicam. O que se pode afirmar com segurança é o cenário do primeiro parágrafo; o resto depende de saber o que a energia escura é, e ninguém sabe.
Cosmologia é ciência? Testar não é só reproduzir
A objeção é antiga e volta todo ano em sala de aula: ninguém pode repetir o Big Bang num laboratório, logo o modelo não seria científico. O argumento confunde reproduzir com testar. Uma teoria é científica quando faz previsões que podem ser confrontadas com a observação e que poderiam dar errado. O Big Bang fez três previsões que não se seguiam de nada mais: uma radiação de fundo com espectro de corpo negro a poucos kelvins, anunciada em 1948 e encontrada em 1965; uma abundância de hélio de 25 % em massa onde quer que se olhe, medida; uma relação velocidade–distância linear, confirmada a cada novo catálogo. Cada uma poderia ter falhado: um céu sem fundo de micro-ondas, ou com fundo de espectro que não fosse de corpo negro, ou um universo com 5 % de hélio, teriam derrubado o modelo. Geologia, evolução e astronomia inteira trabalham do mesmo jeito, com registros de processos que não se repetem; a física de partículas repete colisões em aceleradores, mas também ela só vê os produtos, não “o evento” em si.
Esse é o nível em que a prova tratou o assunto na única vez em que tocou nele. Em 2023, a 1.ª etapa do PAS pendurou num texto sobre terraplanistas um item de Filosofia que dizia: “A despeito do que sugerem os terraplanistas, a impossibilidade de reproduzir o Big Bang não deslegitima as teorias científicas acerca da origem do universo.” Gabarito C. O item irmão, do mesmo texto, afirmava que a teoria de Newton fora “completamente descartada” quando Einstein reformulou o espaço-tempo, e era E: teorias são delimitadas, não descartadas, e a mecânica de Newton continua sendo a ferramenta com que se calculam órbitas de satélites e sondas. Quem lê os dois juntos aprende o critério: não reproduzível não é não científico; superado em algum domínio não é descartado.
"É só uma teoria"
Em ciência, teoria é o grau mais alto, não o mais baixo: um corpo de explicações testado e articulado, como a teoria da gravitação, a teoria atômica, a teoria da evolução. O que ainda não foi testado chama-se hipótese. No modelo do Big Bang, expansão, radiação de fundo e nucleossíntese são teoria no sentido forte; a inflação dos primeiros instantes e a natureza da matéria e da energia escuras são hipóteses em teste. Um item que use “é apenas uma teoria” para rebaixar o modelo está usando a palavra em sentido coloquial.
Por que a noite é escura
Num universo infinito, eterno e estático, cheio de estrelas, qualquer linha de visada acabaria na superfície de uma estrela, e o céu noturno inteiro seria tão brilhante quanto o Sol; é o paradoxo de Olbers, formulado em 1823. A noite é escura porque o universo tem idade finita (a luz de estrelas a mais de 13,8 bilhões de anos-luz de tempo de viagem não chegou) e porque a expansão avermelha e enfraquece a luz das mais distantes. Uma pergunta de criança, respondida pela cosmologia.
Cosmologia e cultura: mitos de origem, um padre, dois telescópios e o Brasil
Mitos de origem e modelo científico. Toda cultura tem uma narrativa da origem: o Gênesis, o ovo cósmico dos hindus, Nhanderuvuçu criando o mundo das trevas na tradição guarani, Olorum e Obatalá na tradição iorubá que chegou ao Brasil com os africanos escravizados. Essas cosmogonias e a cosmologia científica são registros de estatutos diferentes: as primeiras respondem a perguntas de sentido e pertencimento, com a autoridade da tradição; a segunda responde a perguntas de mecanismo e data, com a autoridade da medida, e muda quando a medida muda. Comparar não é hierarquizar: a matriz do PAS 1 pede exatamente essa comparação, entre cosmogonias ocidentais, indígenas e afrodiaspóricas e o modelo do Big Bang, sem confundir os planos. O erro de prova típico é tratar o mito como teoria errada ou a teoria como mito moderno.
O padre que deduziu a expansão. Georges Lemaître (1894–1966), belga, foi ordenado padre católico em 1923 e doutorou-se em física no MIT; publicou em 1927 a dedução do universo em expansão e, em 1931, a hipótese do “átomo primitivo”, um começo denso para o universo. Quando o papa Pio XII, em 1951, sugeriu que o Big Bang confirmava a criação descrita no Gênesis, foi Lemaître quem o aconselhou a não misturar os planos: a física descreve como o universo evolui; a questão do sentido é outra. Em 2018, a União Astronômica Internacional recomendou chamar a lei de Hubble de lei de Hubble–Lemaître.
Dois telescópios e uma máquina do tempo. O Telescópio Espacial Hubble, lançado em 1990 com espelho de 2,4 m, mediu a constante que leva o mesmo nome com precisão de poucos por cento e fotografou galáxias de quando o universo tinha menos de um bilhão de anos. O Telescópio Espacial James Webb, lançado em 25 de dezembro de 2021, com espelho de 6,5 m em 18 segmentos, estacionado no ponto de Lagrange L2 (que a página de gravitação explica), observa no infravermelho justamente porque a luz das primeiras galáxias chega esticada pela expansão: o ultravioleta e o visível que elas emitiram virou infravermelho no caminho. Em 2024 ele confirmou uma galáxia cuja luz saiu quando o universo tinha cerca de 290 milhões de anos, 2 % da idade atual. A página de espelhos trata da óptica desses instrumentos.
O Brasil no céu. O Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, fundado em 1827, é uma das instituições científicas mais antigas do país e hoje faz pesquisa em cosmologia e astrofísica, além de manter a hora legal brasileira. O Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), em Itajubá, Minas Gerais, opera o Observatório do Pico dos Dias, a 1 864 m entre Brazópolis e Piranguçu, com o maior telescópio em solo brasileiro, de 1,6 m (primeira luz em 1980, entregue à comunidade em 1981), e é a secretaria nacional da participação brasileira em telescópios no exterior: o Gemini, dois telescópios de 8,1 m no Havaí e no Chile (adesão em 1993), e o SOAR, de 4,1 m, nos Andes chilenos (desde 1996). Grupos brasileiros participam dos grandes levantamentos de energia escura, como o Dark Energy Survey, por meio do LIneA, laboratório interinstitucional sediado no Rio. E há um nome brasileiro na física dos primórdios e das estrelas: Mário Schenberg (1914–1990), paulista, que em 1941, com George Gamow, descreveu o processo de resfriamento de estrelas por emissão de neutrinos e o batizou de processo Urca, em homenagem ao cassino da Urca, no Rio, onde, dizia Gamow, o dinheiro desaparecia tão depressa quanto a energia das estrelas. Em 1942, com Chandrasekhar, estabeleceu o limite que leva seus nomes para a massa do núcleo de hélio de uma estrela.
Como a banca pergunta
A cosmologia está na matriz da 3.ª etapa desde dezembro de 2022, nomeada por extenso dentro do eixo de física moderna, e nenhuma das dezoito provas de 2008 a 2025 trouxe um item do recorte: é uma estreia esperando edição. A matriz da 1.ª etapa nomeia o Big Bang entre as noções de física moderna, e a única vez em que a banca o tocou, em 2023, foi pelo estatuto do modelo, num item de Filosofia preso a um texto sobre terraplanistas (acima). Em 2010, um bloco de Matemática da 3.ª etapa usou o telescópio Hubble como texto-base e mencionou a data do Big Bang só como contexto. Quando a banca estreia um tema, costuma começar pelo conceito e pela leitura de texto; o repertório provável, pelo que a página cobre, é:
Tipo A conceitual sobre as imagens mentais erradas: Big Bang como explosão num ponto; Terra no centro porque tudo se afasta dela; radiação de fundo como luz de estrelas atuais; ano-luz como unidade de tempo.
Tipo A ou B com a lei de Hubble: dobro da distância, dobro da velocidade; velocidade ou distância dada a constante (a prova fornece H0 e a conversão de Mpc, como fez o ENEM em 2019); idade pela razão 1/H0.
Leitura de gráficov×d: reta pela origem, inclinação igual a H0; ou gráfico de espectro com linhas deslocadas.
Cronologia e atribuição: Hubble (1929) antes de Penzias e Wilson (1965); Lemaître antes de Hubble; elementos pesados depois do Big Bang, em estrelas; o Sol com 4,6 bilhões de anos num universo de 13,8.
Tipo C sobre o que conta como evidência (expansão, radiação de fundo, hélio primordial) ou sobre a causa da aceleração (energia escura, não matéria escura).
Estatuto da ciência, no molde de 2023: testar por previsão e observação, não só por reprodução; teoria delimitada não é teoria descartada.
Em exames nacionais o assunto já é rotina: o ENEM (2019, prova reaplicada) deu H0=72 km/s/Mpc, o valor do parsec e uma velocidade de 1 440 km/s e pediu a distância em quilômetros, uma conta de regra de três com potências de dez; vestibulares pedem o sentido do desvio para o vermelho (aumento do comprimento de onda, diminuição da frequência e da energia do fóton, velocidade da luz inalterada) e a origem dos átomos pesados (estrelas anteriores ao Sol, não o Big Bang).
Os erros que mais custam item
Big Bang como explosão num ponto do espaço. O que o modelo descreve é o crescimento do espaço inteiro, que continua hoje; não existe um lugar “onde” aconteceu.
“Se tudo se afasta de nós, estamos no centro.” Toda galáxia vê o mesmo; a lei de Hubble é a assinatura de uma expansão uniforme, sem centro.
Ano-luz como tempo. É distância: 9,5×1015 m. “A estrela está a 100 anos-luz” diz que a luz levou 100 anos; não diz a idade da estrela.
Radiação de fundo como luz das estrelas de hoje. É o clarão fóssil do gás do universo aos 380 mil anos, esticado 1 100 vezes até 2,7 K.
Trocar as datas. Hubble, 1929 (expansão); Penzias e Wilson, 1965 (fundo); 1998 (aceleração). Lemaître (1927) antes de Hubble; Einstein não “descobriu o Big Bang”.
Elementos pesados no Big Bang. Só H, He e traços de Li saíram dos primeiros minutos; carbono, oxigênio e ferro vêm de estrelas, e o Sol é posterior a elas.
Inverter desvio para o vermelho. Afastamento alonga a onda: comprimento de onda maior, frequência e energia do fóton menores, velocidade da luz igual.
Aplicar a lei de Hubble a Andrômeda ou à Lua. Vale para o fluxo de grande escala; perto, os movimentos próprios e a gravidade mandam (Andrômeda se aproxima); dentro de sistemas ligados, nada se expande.
Confundir as duas “escuras”. Matéria escura gravita e agrupa (curvas de rotação, 27 %); energia escura acelera a expansão (supernovas, 68 %). Nenhuma das duas é buraco negro.
Tempo de Hubble como idade exata.1/H0≈14 bilhões de anos é estimativa; a idade do modelo completo é 13,8, e a coincidência é dos valores atuais.
“Galáxias mais rápidas que a luz violam a relatividade.” O limite c é para movimento através do espaço; a recessão por expansão do espaço não é movimento desse tipo.
“Não reproduzível, logo não científico.” Prever e observar também testam; a radiação de fundo foi prevista 17 anos antes de ser encontrada.
“É só uma teoria.” Teoria é o grau mais alto de corroboração em ciência; hipótese é o que ainda não foi testado.
Errar a potência de dez na conversão de Mpc.1Mpc=3,1×1019 km =3,1×1022 m; 1/H0 sai em segundos e só depois vira anos dividindo por 3,16×107.
O essencial em meia página
Cosmologia estuda o universo como um todo (origem, composição, expansão, destino); astronomia, os objetos nele. Olhar longe é olhar o passado: Sol 8 min, Próxima Centauri 4,2 anos, Andrômeda 2,5 milhões de anos.
Escalas: 1 UA =1,5×1011 m; 1 ano-luz =9,5×1015 m (distância!); 1 pc =3,26 anos-luz; 1 Mpc =3,1×1019 km.
Lei de Hubble–Lemaître: v=H0d, H0≈70 km/s/Mpc (Planck 67,4; escada de distâncias 73,0: tensão de Hubble). Reta pela origem no gráfico v×d; Hubble (1929) achou ≈ 500 por errar as distâncias 7×. Vale para o fluxo de grande escala, não para Andrômeda (que se aproxima a 110 km/s).
Desvio para o vermelho: z=Δλ/λ≈v/c (para v≪c); afastamento = λ maior, f e E menores, c igual. Cadeia: espectro → z → v → d. 656 nm → 663 nm: z=0,011, 3 200 km/s, 46 Mpc.
Expansão do espaço (balão, pão com passas): sem centro, sem borda, sem “fora”; sistemas ligados não se expandem; taxa ≈ 7 % por bilhão de anos (H0=2,3×10−18 s⁻¹).
Idade: 1/H0=3,1×1019/70=4,4×1017 s ≈ 14 bilhões de anos; modelo completo: 13,8 bilhões (Planck 2018). Estrelas mais velhas: 12 a 13 bilhões.
Big Bang = universo denso e quente há 13,8 bilhões de anos, expandindo e esfriando; não é explosão num ponto. Nome de Hoyle (1949), por zombaria; Lemaître, “átomo primitivo” (1931); Friedmann (1922).
Três evidências: expansão (Hubble 1929); radiação cósmica de fundo a 2,725 K, corpo negro, pico ≈ 1 mm por Wien (2,9×10−3/2,7), emitida aos 380 mil anos a 3 000 K e esticada 1 100×, prevista em 1948, achada por Penzias e Wilson em 1965 (Nobel 1978), espectro e manchas pelo COBE (Nobel 2006); hélio primordial ≈ 25 % em massa (7 prótons por nêutron → 4/16), formado nos 3 primeiros minutos.
Cronologia: 1 s (p e n) → 3 min (H, He) → 380 mil anos (átomos, fundo) → 100–200 milhões de anos (primeiras estrelas) → há 4,6 bilhões (Sol) → 13,8 bilhões (hoje). Elementos pesados: estrelas, depois.
Inventário: ≈ 5 % matéria comum, ≈ 27 % matéria escura (curvas de rotação planas, Rubin anos 1970; gravita, não emite), ≈ 68 % energia escura (supernovas 1998, aceleração, Nobel 2011; constante cosmológica Λ). 95 % de natureza desconhecida, medidos com precisão.
Destino: expansão acelerada para sempre; céu que se esvazia; Via Láctea e Andrômeda se fundem em 4 a 5 bilhões de anos. Big Crunch descartado; Big Rip sem apoio nos dados.
Ciência: testar = prever e observar, não só reproduzir (PAS 1 2023/66, C). Teoria delimitada ≠ descartada. Teoria > hipótese. Noite escura = paradoxo de Olbers resolvido pela idade finita e pela expansão.
Cultura e Brasil: cosmogonias e cosmologia são registros de estatutos diferentes; Lemaître, padre; Hubble (1990) e James Webb (2021, L2, infravermelho, galáxia de 290 milhões de anos); Observatório Nacional (1827), LNA/Pico dos Dias (1,6 m, 1980–81), Gemini (1993) e SOAR (1996), LIneA no Dark Energy Survey, Schenberg e o processo Urca (1941).
Exercícios temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.
Flashcards temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar os cartões de revisão.
Teoria do BIG BANG: o Universo em expansão
Toda Matéria · 3:50
Introdução. Menos de quatro minutos que, segundo a descrição do canal, respondem “como surgiu o Universo?” apresentando “a teoria do Big Bang” e “como ela explica o surgimento de tudo”; o vídeo tem legendas em português revisadas pelo autor. É a porta de entrada das seções “O que o Big Bang afirma” e “A linha do tempo”: o aluno chega à página com a sequência geral (estado denso e quente, expansão, esfriamento, formação de átomos e estrelas) e encontra aqui as contas e as evidências que o vídeo não faz.
Conversas sobre Cosmologia #3 | Evidências do Big Bang
Caio Dallaqua · 10:40
Evidências. Dez minutos em que, segundo a descrição do canal, “o Igor Zenker, que é professor de Física e Matemática, vai falar sobre algumas das principais evidências que fazem a comunidade científica acreditar que a origem do Universo se deu, de fato, pelo Big Bang”. É a seção “Três evidências que o modelo previu antes de serem vistas” na voz de um professor: expansão, radiação de fundo e abundância dos elementos leves, no nível em que a prova tende a cobrar o que conta como evidência.
O QUE É RADIAÇÃO CÓSMICA DE FUNDO
Método Exatas • Denis Wiener · 10:33
Aprofundamento. Dez minutos e meio de um professor de física sobre a radiação de fundo, que a descrição do autor resume assim: “é uma radiação do início do Universo. Ela foi descoberta experimentalmente por dois físicos americanos que trabalhavam em uma antena de telecomunicação. Essa radiação é uma evidência experimental da Teoria do Big Bang” e “é uma radiação proveniente do processo de desacoplamento onde matéria e energia se separaram”. Cobre a segunda evidência da página (Penzias e Wilson, recombinação, esfriamento pela expansão) e prepara a conta da lei de Wien do exemplo resolvido 6.
O que é a MATÉRIA ESCURA?
Ciência Todo Dia · 11:49
Fronteira. Doze minutos do canal de divulgação de Pedro Loos sobre “uma das perguntas mais difíceis de todos os tempos para a física”, que, segundo a descrição, apresenta os “diversos candidatos” a matéria escura e por que “em um universo repleto de matéria invisível, encontrar a verdadeira resposta pode ser um pouco mais difícil do que esperamos”. É o complemento da seção “O que falta no inventário”: a página mostra a evidência (curvas de rotação, Rubin) e o inventário 5/27/68; o vídeo discute o que a matéria escura pode ser e como se procura por ela.
ENEM 2019 (2ª Aplicação) - Lei de Hubble
DaLuz Aulas · 4:13
Resolução. Quatro minutos resolvendo o item do ENEM 2019 (reaplicação) que a página vincula nos exercícios: a descrição do vídeo reproduz o enunciado inteiro (“a constante de proporcionalidade é a constante de Hubble (H0) e seu valor mais aceito é de 72 km/s/Mpc”, “a velocidade de afastamento de uma determinada galáxia é de 1 440 km/s”, “a distância até essa galáxia, medida em km, é igual a”) e as cinco alternativas. É a seção “A reta de Hubble” e o exemplo resolvido 3 aplicados numa prova real, com a conversão Mpc → km que o item exige.
Cada ponto desse céu é um passado diferente: a luz das estrelas mais próximas saiu há anos; a das nebulosas da Via Láctea, há milhares de anos; a das galáxias que um telescópio veria por trás delas, há bilhões. É o assunto desta página.Cada marca é um objeto e uma data: quanto mais longe, mais antiga é a imagem que chega. O eixo é logarítmico porque as distâncias crescem por fatores de mil entre a Lua e o Sol, de cem mil entre o Sol e a estrela mais próxima, e de dez bilhões entre o Sol e as galáxias mais distantes. Diagrama autoral.O gráfico de Hubble (1929), redesenhado com as 24 galáxias da tabela 1 do artigo. A tendência é inequívoca, mas a inclinação, cerca de 500 km/s/Mpc, era sete vezes maior que a atual: Hubble subestimou as distâncias por calibrar mal as estrelas variáveis que usava como padrão. As galáxias com velocidade negativa (Andrômeda entre elas) estão perto demais para a expansão vencer o movimento próprio delas. Diagrama autoral a partir de Hubble, PNAS 15, 168 (1929).As linhas do hidrogênio num espectro de laboratório e no espectro de uma galáxia que se afasta a 15 000 km/s: cada comprimento de onda aumentou 5 %. É o padrão, não uma linha isolada, que identifica o elemento e mede o desvio. Diagrama autoral.O balão antes e depois de dobrar de tamanho: a moeda a 5 unidades afastou-se 5, a moeda a 2 afastou-se 2, no mesmo tempo. Velocidade proporcional à distância é o que uma expansão uniforme produz, vista de qualquer moeda. Diagrama autoral.O espectro da radiação cósmica de fundo medido pelo satélite COBE (1990) é um corpo negro de 2,725 K com desvios menores que a espessura da linha; o pico, em cerca de 1 mm, é a lei de Wien aplicada ao universo inteiro. Diagrama autoral com a curva de Planck calculada para 2,725 K.Cada marca da linha está dez ou mais vezes à direita da anterior; a temperatura cai enquanto o universo cresce. O que acontece antes do primeiro segundo é assunto da física quântica e de partículas; o que acontece depois do primeiro bilhão de anos é astronomia. Diagrama autoral.A curva de rotação de uma galáxia espiral típica: a gravidade da matéria visível prevê velocidades caindo com a distância, como os planetas; a medida mostra velocidades constantes até muito além do disco luminoso. A diferença é a matéria escura. Diagrama autoral, qualitativo.O James Webb observa no infravermelho porque a luz das primeiras galáxias chega esticada pela expansão: o ultravioleta e o visível que elas emitiram viraram infravermelho no caminho. Fica no ponto de Lagrange L2, a 1,5 milhão de quilômetros da Terra.O disco que brilha é uma fração pequena da galáxia: a rotação do gás nas bordas, medida por Vera Rubin, exige um halo de matéria escura várias vezes maior e mais pesado que tudo o que se vê. O halo da imagem é uma sugestão artística; na realidade ele não emite luz nenhuma.A antena com que Penzias e Wilson, em 1965, tentavam eliminar um ruído de micro-ondas que vinha de todas as direções e não ia embora nem depois de limpar os excrementos de pombos: era o clarão do universo aos 380 mil anos, esfriado a 2,7 K. Nobel de 1978.O Pico dos Dias, a 1 864 m, entre Brazópolis e Piranguçu (MG): abriga o maior telescópio em solo brasileiro, de 1,6 m, com primeira luz em 1980, e é operado pelo Laboratório Nacional de Astrofísica, que também gerencia a participação brasileira no Gemini e no SOAR.O balão da seção sobre a expansão: as moedas não incham, mas a distância entre elas cresce, e cresce mais depressa para as moedas mais afastadas. Nenhuma moeda é o centro da superfície.Assim se mediam velocidades de galáxias antes de qualquer computador: fotografando o espectro numa placa de vidro e medindo com régua o deslocamento das linhas escuras em relação às do laboratório. Slipher, Humason e Hubble fizeram isso para dezenas de galáxias.Georges Lemaître, padre e físico, deduziu em 1927 que um universo descrito pela relatividade geral deveria estar em expansão, com galáxias se afastando com velocidade proporcional à distância, dois anos antes de Hubble medir. Desde 2018 a lei leva os dois nomes.
Rota PAS 3
Física moderna e sua história: relatividade, cosmologia e o quantum · PAS 3
Fontes desta página
Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.
Rota PAS 3 — Física moderna e sua história: relatividade, cosmologia e o quantum · Cosmologia: o universo tem história (abertura do telescópio como máquina do tempo; conceito com a lei de Hubble v = H₀d, o desvio para o vermelho como espaço que se estica, a expansão sem centro nem borda, o Big Bang há 13,8 bilhões de anos, as duas previsões confirmadas — radiação de fundo a 2,7 K e composição primordial 3/4 H e 1/4 He — e o inventário 5 % / 27 % / 68 %; exemplo-guia com H₀ ≈ 70 km/s/Mpc, 1 Mpc = 3,1 × 10¹⁹ km, 100 Mpc → 7 000 km/s, raia de 656 nm chegando em 671 nm, idade 1/H₀ ≈ 4,4 × 10¹⁷ s, Wien a 2,7 K → pico perto de 1 mm; figura da reta v × d; 'Na prova': estreia interna, nenhum item em 18 provas, molde PAS 1 2023/66; armadilha das quatro imagens mentais erradas; checagem do desvio para o vermelho); Relatividade geral e o eclipse de Sobral (só o que a cosmologia usa: gravidade como curvatura do espaço-tempo, base do universo em expansão); Antes de começar (ano-luz como unidade de distância, c = 3 × 10⁸ m/s, potências de dez); Exercícios 9–12 e Banco de treino T16–T19 (texto-base 'o universo em expansão', moldes dos itens autorais)
Recorte por assunto: esta página é a canônica de cosmologia. Dela a página toma a estrutura (olhar = passado; lei de Hubble; expansão do espaço; Big Bang e evidências; inventário escuro) e o molde do item provável. A página acrescenta, ausentes do capítulo: a distinção astronomia × cosmologia; as escalas em tabela; a dedução z = Δλ/λ ≈ v/c e a diferença entre Doppler e desvio cosmológico; o gráfico original de Hubble (1929) e a tensão entre os valores atuais de H₀ (67 e 73 km/s/Mpc); a conversão explícita km/s/Mpc → s⁻¹; a cronologia em escala logarítmica; a nucleossíntese primordial com a conta das abundâncias; as curvas de rotação (Rubin) e as supernovas de 1998 com os Nobéis de 2006, 2011 e 2019; o destino do universo; a seção sobre o estatuto científico e a seção de cultura e Brasil. Relatividade, física quântica, gravitação newtoniana, Kepler e história da astronomia antiga ficam nas páginas próprias, remetidas em related.
Rota PAS 1 — Gravitação, satélites e o céu: do geocentrismo ao GPS · Espaço-tempo, incerteza e Big Bang: o século da física (conceito com o Big Bang e suas duas evidências — expansão, Hubble 1929, e radiação cósmica de fundo, 1965; o estatuto das teorias: delimitada não é descartada, e o Big Bang como ciência de observação e teste, como a geologia e a evolução; objetivo CN12, cosmogonias ocidentais, indígenas e afrodiaspóricas comparadas sem hierarquia; item PAS 1 2023/66 e seu comentário); Do geocentrismo a Newton (ponte: a paralaxe e as estrelas fixas; a cronologia dos modelos, que a página de história da astronomia detalha)
Do capítulo da 1.ª etapa a página toma o argumento epistemológico (reproduzir não é a única forma de testar; prever e observar também são) e a comparação entre cosmogonias e cosmologia científica, que o CN12 do PAS 1 pede. A matriz do PAS 1 nomeia o Big Bang como noção de física moderna; o único item real do recorte nas três etapas é o 66 de 2023 (Filosofia), reusado por GUID.
Mapa de itens do bloco de física moderna (PAS 3 p4-fis + PAS 1 p4-fis) · §4 cosmologia: nenhum item de cosmologia em 18 provas do PAS 3; PAS 3 2010 bloco do telescópio Hubble (itens 123–126) é Matemática e só menciona o Big Bang no texto-base; único item real do recorte: PAS 1 2023/66 (Filosofia), criado pela página historia-da-fisica-moderna e reusado aqui por GUID; §5 itens do capítulo que pertencem a páginas existentes
Grep adicional nas classificações de PAS 1, 2 e 3 e nos cadernos por 'Hubble', 'Big Bang', 'expansão do universo', 'radiação cósmica', 'matéria escura', 'energia escura': nenhum outro item de cosmologia nas três etapas. Base de questões autoral, com reusos por GUID de itens do ENEM (2019 PPL, lei de Hubble) e de vestibulares (UFJF 2024, URCA 2019, UNICAMP 2021, UECE 2021) já no banco.