Funções

Guia de estudo · Revisado em 15/09/2026

BNCC · EM13MAT101BNCC · EM13MAT401

A prova do PAS resumiu 22 anos de desmatamento do Cerrado numa fórmula, f(x) = x + 9,2, e não pediu conta nenhuma: pediu o domínio, a imagem e o que significa crescer. O que uma função sabe, e o que ela não sabe, sobre o fenômeno que descreve?

O que você vai aprender

  • Reconhecer quando uma correspondência é função, pelos dois quantificadores da definição e pelo teste da reta vertical.
  • Traduzir uma função entre tabela, diagrama de flechas, gráfico e fórmula, conferindo com um ponto.
  • Determinar domínio, contradomínio e imagem, incluindo restrições de raiz e denominador e restrições do contexto.
  • Ler zeros, sinal, intervalos de crescimento e extremos em um gráfico, sem confundir zero com valor inicial nem crescente com positiva.
  • Interpretar uma função como modelo: o que entra, o que sai, onde vale e o que a saída mede.
  • Compor duas funções na ordem correta e decidir se uma função tem inversa.

Em dezembro de 2023, a prova do PAS 1 apresentou uma fórmula curta, f(x)=x+9,2f(x) = x + 9{,}2, e disse que ela fornecia o percentual do desmatamento brasileiro ocorrido no Cerrado no ano 2000+x2000 + x, para xx inteiro entre 1 e 22. O item não pediu conta nenhuma: queria saber se o candidato reconhecia, naquele contexto, o domínio, a imagem e o sentido da palavra “crescente”. Três das quatro alternativas tropeçavam exatamente aí, e quem só sabia “substituir o xx” não tinha como decidir.

É esse o assunto desta página: não uma fórmula específica, mas a ideia que está por trás de todas elas. Uma função é um acordo sem exceções: cada entrada recebe uma saída, e só uma. O cardápio da lanchonete, o gráfico da temperatura ao longo do dia, o custo de uma corrida por aplicativo e o IDH de cada estado são funções. Saber o que a regra sabe, para quais entradas ela vale e o que a saída significa é o que a prova cobra, muito mais do que a conta. Função afim, quadrática e exponencial têm páginas próprias; aqui elas aparecem só como exemplos.

A definição: cada entrada, uma única saída

O cardápio de uma lanchonete é uma função do item para o preço: cada lanche tem um preço, e só um. A agenda de contatos de um celular, lida do nome para o número, deixa de ser função no momento em que um mesmo contato guarda dois números. Note o que a definição tolera: dois lanches distintos podem custar o mesmo. Saída repetida não compromete nada; o que compromete é uma entrada com duas saídas, ou uma entrada sem saída.

Função de A em B

Uma função f:A→Bf: A \to B é uma regra que, a cada elemento xx do conjunto AA (o domínio), faz corresponder um único elemento do conjunto BB (o contradomínio). A saída correspondente à entrada xx escreve-se f(x)f(x) e lê-se “ff de xx”. Nem todo elemento de BB precisa ser atingido: o subconjunto formado pelas saídas que realmente ocorrem, {f(x):x∈A}\{f(x) : x \in A\}, chama-se imagem, e com frequência é bem menor que o contradomínio.

Repare nas duas palavras que carregam a definição. Cada garante que nenhuma entrada fica sem resposta: existência. Um único proíbe que uma entrada tenha duas respostas: unicidade. O símbolo f(x)f(x) não é um produto de ff por xx; é o nome da saída. Para calcular f(3)f(3) em f(x)=2x−1f(x) = 2x - 1, troca-se a variável por 3: f(3)=5f(3) = 5. Quando a regra vem com nome de grandeza, escreva a unidade junto: em C(q)=4q+10C(q) = 4q + 10, qq pode ser a quantidade comprada e CC o custo em reais, e é isso que dá sentido à conta.

Três diagramas de flechas entre os conjuntos A e B: no primeiro, cada elemento de A envia uma flecha e dois deles chegam ao mesmo elemento de B, o que é função; no segundo, um elemento de A envia duas flechas, o que não é função; no terceiro, um elemento de A não envia flecha, o que também não é função.
O diagrama de flechas torna a definição visível: função é uma flecha saindo de cada elemento do domínio, nunca duas, nunca nenhuma. Flechas chegando ao mesmo destino são permitidas. Diagrama autoral.

Um exemplo sem fórmula: a classificação do campeonato brasileiro ao fim do primeiro turno, com os 20 clubes e a pontuação de cada um. Domínio: os 20 clubes. Contradomínio: os inteiros de 0 a 57 (19 jogos, 3 pontos por vitória). Imagem: as pontuações que de fato aparecem na tabela, no máximo 20. É uma função porque nenhum clube tem duas pontuações ao mesmo tempo. Dois clubes empatados em pontos não mudam essa conclusão.

"Saídas repetidas estragam a função"

É o contrário. A definição pede uma só saída por entrada; nada diz sobre entradas diferentes terem de produzir saídas diferentes. f(x)=x2f(x) = x^2 envia 22 e −2-2 ao mesmo 44 e continua sendo função. A tabela de IDH por município continua sendo função com dois municípios empatados. É a confusão que um item de julgamento explora com uma frase só; a resposta está nos dois quantificadores da definição.

Quatro jeitos de dizer a mesma coisa

A mesma função pode aparecer como tabela, como diagrama de flechas, como gráfico ou como fórmula. Nenhuma das quatro é “a verdadeira”: são idiomas, e a prova cobra a tradução entre eles.

Representação O que mostra bem O que esconde
Tabela Valores exatos de algumas entradas O que acontece entre as linhas
Diagrama de flechas Se a correspondência é função (uma flecha por entrada) Só serve para poucos elementos
Gráfico Tendência, crescimento, zeros, máximos Valores exatos fora dos pontos marcados
Fórmula Qualquer entrada, com precisão O domínio real do fenômeno
A função N(t) = 7t + 12, com t de 0 a 3, mostrada como tabela, diagrama de flechas, gráfico de quatro pontos alinhados e fórmula.
A mesma função em quatro idiomas. A conferência entre eles é um ponto: N(3)=33N(3) = 33 na tabela, na flecha, no gráfico e na fórmula. Diagrama autoral.

O gráfico é o conjunto dos pontos (x,f(x))(x, f(x)) no plano cartesiano: primeiro a entrada, na horizontal; depois a saída, na vertical. Um ponto (a,b)(a, b) pertence ao gráfico quando f(a)=bf(a) = b, e essa é a ferramenta para conferir uma leitura.

Exemplo resolvido 1: da tabela à fórmula. Um viveiro registra o número NN de mudas plantadas ao final de cada semana tt: 12 mudas em t=0t = 0, 19 em t=1t = 1, 26 em t=2t = 2 e 33 em t=3t = 3. Qual regra descreve NN em função de tt, se o padrão se mantiver?

Estratégia: olhar as diferenças entre saídas consecutivas. De 12 para 19, 7; de 19 para 26, 7; de 26 para 33, 7. Acréscimo constante indica uma regra do tipo N(t)=at+bN(t) = at + b, com aa igual ao acréscimo por semana e bb igual ao valor em t=0t = 0.

Resolução: a=7a = 7 e b=12b = 12, logo N(t)=7t+12N(t) = 7t + 12.

Conferência: N(3)=21+12=33N(3) = 21 + 12 = 33, que bate com a tabela. Um cuidado que a tabela não mostra: tt é o número da semana, então o domínio é {0,1,2,3,…}\{0, 1, 2, 3, \ldots\}. Perguntar “quantas mudas em t=2,5t = 2{,}5” não tem resposta no modelo, ainda que a fórmula aceite o número.

Esse cuidado vale para todo gráfico feito a partir de medições. Se a temperatura foi medida cinco vezes num dia, o que se conhece são cinco pontos. Ligar os pontos com uma linha é uma hipótese sobre o que aconteceu entre as medições, e uma hipótese pode estar errada.

Para quais entradas a regra vale? Domínio, contradomínio e imagem

Diante de uma função que alguém afirma descrever um fenômeno, três perguntas distinguem compreensão de decoreba: em que entradas a regra faz sentido, que saídas ela de fato gera e em que direção ela anda. As duas primeiras são domínio e imagem.

Domínio, contradomínio e imagem

Domínio: as entradas admitidas pela regra, a parte da realidade a que o modelo se aplica. Contradomínio: o conjunto em que as saídas são procuradas (quase sempre R\mathbb{R}). Imagem: as saídas que de fato ocorrem; está sempre dentro do contradomínio. Domínio discreto (inteiros, datas, estados) produz uma imagem feita de valores isolados, nunca um intervalo.

Considere f(x)=x2f(x) = x^2 com domínio {−2,−1,0,1,2}\{-2, -1, 0, 1, 2\} e contradomínio R\mathbb{R}.

Entrada −2-2 −1-1 00 11 22
Saída 44 11 00 11 44

A imagem é {0,1,4}\{0, 1, 4\}: três valores, não cinco, porque duas entradas repetem a saída. Mudar o domínio muda a imagem sem tocar na fórmula. Com domínio [1,3][1, 3], a imagem de x2x^2 é o intervalo [1,9][1, 9]; com domínio {1,2,3}\{1, 2, 3\}, é {1,4,9}\{1, 4, 9\}, e o número 5, embora fique entre 4 e 9, não é saída de entrada nenhuma.

Gráfico de uma função definida no intervalo de menos dois a três, com o domínio marcado como uma faixa no eixo horizontal e a imagem, de menos um a quatro, marcada como uma faixa no eixo vertical, ligadas por linhas tracejadas às extremidades da curva.
Domínio é a sombra do gráfico no eixo horizontal; imagem é a sombra no eixo vertical. Aqui a função vale só em [−2,3][-2, 3] e produz saídas só em [−1,4][-1, 4]. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido 2: imagem de domínio discreto. A função do PAS 2023, f(x)=x+9,2f(x) = x + 9{,}2 para xx inteiro com 1≤x≤221 \le x \le 22, tem 20,7 no conjunto imagem?

Estratégia: uma saída pertence à imagem se alguma entrada do domínio a produz. Resolver f(x)=20,7f(x) = 20{,}7 e conferir se a solução está no domínio.

Resolução: x+9,2=20,7x + 9{,}2 = 20{,}7 dá x=11,5x = 11{,}5. Mas 11,5 não é inteiro: não pertence ao domínio. Logo 20,7 não está na imagem.

Conferência: a imagem é exatamente {10,2; 11,2; …; 31,2}\{10{,}2;\ 11{,}2;\ \ldots;\ 31{,}2\}, 22 valores separados de 1 em 1. Entre 20,2 e 21,2 não há saída nenhuma. Por isso a alternativa que dizia “qualquer real em [0,200][0, 200] pode pertencer à imagem” estava errada: confundia imagem com contradomínio.

O domínio manda: restrições da fórmula e do contexto

Quando a fórmula vem sem domínio declarado, o domínio é o maior conjunto de reais em que a conta faz sentido. Duas operações impõem restrição no ensino médio: divisão, cujo denominador não pode ser zero; e raiz de índice par, cujo radicando não pode ser negativo.

Exemplo resolvido 3: domínio de uma fórmula. Determine o domínio de g(x)=x−3x−5g(x) = \dfrac{\sqrt{x - 3}}{x - 5}.

Estratégia: listar cada operação proibida e traduzir em condição sobre xx; o domínio é a interseção das condições.

Resolução: raiz exige x−3≥0x - 3 \ge 0, isto é, x≥3x \ge 3. Denominador exige x−5≠0x - 5 \ne 0, isto é, x≠5x \ne 5. Domínio: {x∈R:x≥3 e x≠5}\{x \in \mathbb{R} : x \ge 3 \text{ e } x \ne 5\}, ou [3,5)∪(5,+∞)[3, 5) \cup (5, +\infty).

Conferência: g(3)=0/(−2)=0g(3) = 0/(-2) = 0, existe. g(5)g(5) daria 2/0\sqrt{2}/0, não existe. g(2)g(2) daria −1\sqrt{-1}, não é real. As três fronteiras batem.

A segunda fonte de restrição é o contexto, e a prova gosta mais dela do que da raiz. Na venda de ingressos, a quantidade é um inteiro não negativo: a fórmula da receita aceita 2,7 ingressos, o modelo não. Um tanque com 40 litros que perde 5 litros por minuto tem volume V(t)=40−5tV(t) = 40 - 5t enquanto esvazia, ou seja, para 0≤t≤80 \le t \le 8. Em t=10t = 10 a fórmula devolve −10-10, e água negativa não existe: a regra saiu do intervalo em que foi construída.

O tempo dos 100 metros que chegaria a zero

Em 2012, a prova ajustou uma reta aos tempos dos vencedores olímpicos dos 100 metros rasos, com f(1900)=10,8f(1900) = 10{,}8 s e f(1960)=10,2f(1960) = 10{,}2 s, e estendeu o domínio até 2980. A reta perde 0,01 s por ano e zera exatamente em 1900+10,8/0,01=29801900 + 10{,}8/0{,}01 = 2980. Um item pedia um texto explicando por que a função não serve para prever um futuro distante: tempo de corrida não chega a zero nem fica negativo, e a melhora real desacelera. Modelo vale dentro do domínio em que foi calibrado.

Isso é gráfico de função? O teste da reta vertical

A definição tem uma tradução geométrica direta. Se uma reta vertical corta o desenho em dois pontos, a entrada correspondente a essa reta tem duas saídas, e o desenho não é gráfico de função. Se toda reta vertical, dentro do domínio, corta o desenho em exatamente um ponto, é.

Dois painéis: à esquerda, uma curva em forma de S que toda reta vertical tracejada corta uma única vez, marcada como função; à direita, uma circunferência que uma reta vertical corta em dois pontos, marcada como não função.
Teste da reta vertical: à esquerda, uma entrada, uma saída, em qualquer xx do domínio. À direita, a circunferência x2+y2=4x^2 + y^2 = 4 dá duas saídas para x=1x = 1, então não é gráfico de função em yy; a metade superior sozinha, y=4−x2y = \sqrt{4 - x^2}, é. Diagrama autoral.

O teste exige olhar o desenho inteiro, não um pedaço conveniente. E ele só fala de yy como função de xx: a mesma circunferência também não é gráfico de xx como função de yy, mas uma parábola deitada, x=y2x = y^2, é função de yy para xx e não é função de xx para yy.

O que um gráfico conta: zeros, sinal, crescimento, máximo e mínimo

Um gráfico bem lido responde a perguntas que a fórmula esconde. Onde a função vale zero. Onde é positiva. Onde sobe. Qual é o maior valor que atinge.

Leitura de um gráfico

Zero (ou raiz): entrada xx com f(x)=0f(x) = 0; no gráfico, ponto onde a curva cruza o eixo horizontal. Valor inicial: f(0)f(0), ponto onde a curva cruza o eixo vertical, quando 0 está no domínio. Sinal: ff é positiva onde o gráfico está acima do eixo horizontal, negativa onde está abaixo. Crescente num intervalo: ao avançar na entrada, a saída também avança, x1<x2⇒f(x1)<f(x2)x_1 < x_2 \Rightarrow f(x_1) < f(x_2); decrescente: a saída recua quando a entrada avança. Máximo e mínimo: a maior e a menor saída, com a entrada em que ocorrem.

Zero é uma entrada; valor inicial é uma saída. Confundir os dois é trocar eixo. E ser crescente não é ser positiva: f(x)=x−10f(x) = x - 10 cresce em toda a reta, inclusive onde vale −7-7.

Gráfico de uma função definida de zero a doze horas, com trechos retos: começa em menos dois, sobe até quatro em t igual a quatro, desce até menos um em t igual a oito e volta a zero em t igual a doze. Os zeros em t igual a um, seis e doze, o máximo em t igual a quatro e as faixas positiva e negativa estão marcados.
Uma função lida por inteiro: zeros em t=1t = 1, t=6t = 6 e t=12t = 12; positiva em (1,6)(1, 6), negativa em [0,1)[0, 1) e (6,12)(6, 12); crescente em [0,4][0, 4] e [8,12][8, 12], decrescente em [4,8][4, 8]; máximo 4 em t=4t = 4, mínimo −2-2 em t=0t = 0. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido 4: leitura completa. A figura acima mostra a variação h(t)h(t) do nível de um reservatório em relação à cota de referência, em metros, ao longo de 12 horas. Determine os zeros, os intervalos de sinal, os intervalos de crescimento e os extremos.

Estratégia: varrer o gráfico da esquerda para a direita, anotando cada cruzamento com o eixo horizontal, cada mudança de subida para descida e os pontos mais alto e mais baixo.

Resolução: a curva cruza o eixo em t=1t = 1, t=6t = 6 e t=12t = 12: zeros. Acima do eixo entre 1 e 6: h>0h > 0 em (1,6)(1, 6). Abaixo antes de 1 e entre 6 e 12: h<0h < 0 em [0,1)[0, 1) e em (6,12)(6, 12). Sobe de t=0t = 0 a t=4t = 4 e de t=8t = 8 a t=12t = 12; desce de t=4t = 4 a t=8t = 8. Máximo h(4)=4h(4) = 4; mínimo h(0)=−2h(0) = -2.

Conferência: em cada zero a função troca de sinal, e isso confere com as faixas anotadas. O mínimo −2-2 está na borda do domínio, não num “vale” da curva: extremos podem estar nas extremidades, e quem só procura vales perde esse.

Saber dizer se uma função sobe ou desce resolve itens construídos sobre fórmulas que o aluno nunca viu. Em 2025, a prova apresentou um modelo de população, P(t)=8 0001+15e−0,15tP(t) = \dfrac{8\,000}{1 + 15e^{-0{,}15t}}, e afirmou que a população “para de crescer” ao atingir 4 000 indivíduos. Quando tt aumenta, e−0,15te^{-0{,}15t} diminui, o denominador diminui e PP aumenta, sempre. A população não para em 4 000; continua crescendo, cada vez mais devagar, rumo a 8 000. Item errado, decidido só com leitura de crescimento.

Crescente na função não é crescente no fenômeno

Suponha que f(x)f(x) seja a participação do Cerrado, em porcentagem, no desmatamento do país. Quando ff sobe, o que sobe é a parcela do Cerrado dentro do total; o total pode, no mesmo período, estar encolhendo. Uma participação de 20% em 100 hectares são 20 hectares; de 30% em 50 hectares, 15. A função só informa sobre a grandeza que devolve. E o sinal do crescimento vem da fórmula, não da notícia: f(x)=x+9,2f(x) = x + 9{,}2 cresce aconteça o que acontecer com o Cerrado real.

Função vestida de fenômeno: quando a fórmula é um modelo

A matriz do PAS pede a definição de função aplicada a “fenômenos naturais e socioeconômicos” e dá, como exemplos, IDH e inflação. A banca cumpre a promessa: a função chega disfarçada de índice, de projeção, de taxa, e o que está em jogo é se você a opera como uma máquina de entradas e saídas: alterar um dado de entrada e refazer a conta, comparar o resultado com um limiar, trocar a fórmula e verificar quem sai favorecido.

Quatro perguntas organizam qualquer item desse tipo:

  1. O que entra e o que sai, em que unidade. Em f(t)=mt+hf(t) = mt + h para os 100 metros, entra o ano e sai o tempo em segundos.
  2. Onde a regra vale. O domínio do estudo, o triênio do orçamento, os anos medidos. Fora dele, a fórmula ainda calcula, mas o número não significa nada.
  3. O que a saída mede. Percentual ou total, saldo ou acréscimo, posição ou velocidade.
  4. Um ponto para conferir. A prova quase sempre fornece um valor conhecido; use-o para testar a leitura antes de julgar.

Exemplo resolvido 5: pertinência de um ponto. Com f(1900)=10,8f(1900) = 10{,}8 e f(1960)=10,2f(1960) = 10{,}2 na reta dos 100 metros, o ponto (1920; 10,5)(1920;\ 10{,}5) pertence ao gráfico de ff?

Estratégia: pertencer ao gráfico é ter f(1920)=10,5f(1920) = 10{,}5. Calcular a variação por ano e avançar 20 anos a partir de 1900.

Resolução: em 60 anos o tempo caiu 0,6 s, isto é, 0,01 s por ano. De 1900 a 1920 são 20 anos: queda de 0,2 s. f(1920)=10,8−0,2=10,6f(1920) = 10{,}8 - 0{,}2 = 10{,}6, não 10,5. O ponto não pertence ao gráfico.

Conferência: de 1900 a 1960 são 60 anos; 1920 fica a 20 deles, um terço do intervalo, e um terço da queda total de 0,6 s é 0,2 s. Fecha em 10,6. O distrator 10,5 foi feito para quem supõe que 1920 está na metade do intervalo.

A escolha da variável de entrada também é decisão de modelagem. Chamar de xx o ano-calendário produz coeficientes enormes e sem significado; chamar de xx os anos decorridos desde o início do estudo produz um valor inicial legível. As duas descrevem a mesma função; a prova cobra na forma em que ela escreveu.

Encadear e desfazer: composição e inversa

Muitas regras do mundo são duas regras em sequência. Uma loja dá 10% de desconto e depois cobra R$ 5 de entrega. Com f(x)=0,9xf(x) = 0{,}9x para o desconto e g(x)=x+5g(x) = x + 5 para a entrega, o preço final é g(f(x))=0,9x+5g(f(x)) = 0{,}9x + 5: primeiro ff, depois gg.

Função composta

A composta g∘fg \circ f é definida por (g∘f)(x)=g(f(x))(g \circ f)(x) = g(f(x)): aplica-se ff e, ao resultado, aplica-se gg. Só faz sentido quando a saída de ff está no domínio de gg. A ordem importa: em geral g(f(x))≠f(g(x))g(f(x)) \ne f(g(x)).

Se a loja cobrasse a entrega antes e desse o desconto sobre o total, o preço seria f(g(x))=0,9(x+5)=0,9x+4,5f(g(x)) = 0{,}9(x + 5) = 0{,}9x + 4{,}5. Para uma compra de R$ 100, R$ 95 numa ordem e R$ 94,50 na outra. Meio real de diferença, e a lição inteira sobre ordem.

À esquerda, duas máquinas em sequência: 100 passa por f, desconto de 10%, e vira 90, depois por g, mais 5 de entrega, e vira 95; com a ordem trocada, 94,50. À direita, os gráficos de f(x) = 2x + 1 e da inversa (x − 1)/2, simétricos em relação à reta y = x.
Compor é encadear máquinas, e a ordem muda o resultado. Inverter é refletir o gráfico na reta y=xy = x: o ponto (1,3)(1, 3) de ff vira (3,1)(3, 1) de f−1f^{-1}. Diagrama autoral.

Desfazer uma função é a outra operação. A conversão de Celsius para Fahrenheit é F(C)=1,8C+32F(C) = 1{,}8C + 32; a regra que devolve o Celsius a partir do Fahrenheit é C(F)=(F−32)/1,8C(F) = (F - 32)/1{,}8. Uma desfaz a outra: C(F(20))=C(68)=20C(F(20)) = C(68) = 20.

Função inversa

A inversa f−1f^{-1} de ff troca entrada por saída: f−1(y)=xf^{-1}(y) = x exatamente quando f(x)=yf(x) = y. Ela só existe quando cada saída vem de uma única entrada, o que no gráfico é o teste da reta horizontal: nenhuma reta horizontal corta o gráfico mais de uma vez. O gráfico de f−1f^{-1} é o reflexo do gráfico de ff na reta y=xy = x; o domínio de uma é a imagem da outra.

f(x)=x2f(x) = x^2 em R\mathbb{R} não tem inversa: a reta horizontal y=4y = 4 corta o gráfico em x=2x = 2 e x=−2x = -2, e “desfazer o 4” não teria resposta única. Restringindo o domínio a [0,+∞)[0, +\infty), cada saída vem de uma só entrada e a inversa é x\sqrt{x}. É o mesmo raciocínio que decide se uma tabela pode ser lida “de trás para a frente”: a classificação do campeonato só pode ser invertida (da pontuação para o clube) se não houver empates.

A notação tem 300 anos

A palavra “função” aparece com Leibniz em 1673, para grandezas ligadas a uma curva. A notação f(x)f(x), com o nome da regra antes da entrada entre parênteses, é de Euler, em 1734. A definição por conjuntos que usamos hoje, “cada entrada, exatamente uma saída”, só se firmou no século XIX, com Dirichlet, quando ficou claro que uma função não precisa ter fórmula: basta a correspondência.

O essencial em meia página

  • Função f:A→Bf: A \to B: cada entrada de AA tem exatamente uma saída em BB. Saídas repetidas são permitidas; entrada sem saída ou com duas saídas, não. f(x)f(x) é o nome da saída, não um produto.
  • Quatro representações (tabela, diagrama, gráfico, fórmula) contam a mesma história. Um ponto (a,b)(a, b) está no gráfico quando f(a)=bf(a) = b; use isso para conferir leituras.
  • Domínio: onde a regra vale. Imagem: as saídas produzidas, contida no contradomínio. Domínio discreto gera imagem discreta, não intervalo.
  • Restrições da fórmula: denominador diferente de zero, radicando de raiz par maior ou igual a zero. Restrições do contexto: quantidades inteiras, tempo não negativo, tanque que não fica negativo. O contexto manda.
  • Teste da reta vertical: gráfico de função é cortado uma vez só por qualquer vertical do domínio. Circunferência não passa; semicircunferência passa.
  • Leitura de gráfico: zero é entrada com saída 0 (cruza o eixo horizontal); f(0)f(0) é saída (cruza o vertical); sinal é estar acima ou abaixo do eixo; crescente é subir da esquerda para a direita; extremos podem estar nas bordas do domínio.
  • Crescente não é positiva, e crescer na função não é crescer no fenômeno: percentual pode subir com o total caindo. O sinal do crescimento vem da fórmula.
  • Modelo vale onde foi calibrado: extrapolar produz absurdos (tempo de corrida zero). Segmento, não reta sem fim.
  • Composta g(f(x))g(f(x)): primeiro ff, depois gg; a ordem muda o resultado. Inversa desfaz a função e existe só quando cada saída vem de uma única entrada (teste da reta horizontal).

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Funções: Noções Básicas (Aula 1 de 15)
Professor Ferretto | ENEM e Vestibulares · 27:42
Introdução. Constrói a definição de função a partir de correspondências entre conjuntos, com diagrama de flechas e a notação f(x)f(x): é a seção “Uma regra que não deixa dúvida” em aula, para quem parte do zero.
DOMÍNIO, CONTRADOMÍNIO e IMAGEM DA FUNÇÃO \Prof. Gis/ - AULA 8
Gis com Giz · 19:20
Aprofundamento. Separa domínio, contradomínio e imagem com diagramas e resolve exercícios de identificação dos três conjuntos, o conteúdo da seção “Para quais entradas a regra vale?” e a base do exemplo resolvido 2 (imagem de domínio discreto).
Funções: Analisando o Gráfico de Funções (Aula 8 de 15)
Professor Ferretto | ENEM e Vestibulares · 18:49
Aplicação. Leitura de gráficos: onde a função cresce e decresce, onde é positiva e negativa, zeros e extremos. Cobre a seção “O que um gráfico conta” e prepara o exemplo resolvido 4.
FUNÇÕES - Exercício 5 - Domínio, Contradomínio e Imagem
300 segundos de Matemática · 2:55
Resolução. Em três minutos, lê um diagrama de flechas e obtém domínio, contradomínio e imagem, o xx tal que f(x)=4f(x) = 4 e o valor de f(5)f(5): o mesmo movimento do exemplo resolvido 1 e dos exercícios de nível 1 desta página, feito em ritmo de prova.
Rota PAS 1
Conjuntos, funções e a reta: função afim e PA · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Conjuntos, funções e a reta: função afim e PA · O que é uma função; Do gráfico à fórmula e de volta; Domínio, imagem e crescimento: três perguntas para qualquer função; box Como a banca cobra (PAS 1 2023, item 19; 2025, itens 86 e 91)

    Recorte por assunto: só o conceito de função. A função afim, a PA e os juros do mesmo capítulo pertencem às páginas funcao-afim, progressao-aritmetica e juros-simples-e-compostos.

  • Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 1 2006 (itens 46 e 47), 2012 (itens 72, 73 e 75), 2021 (item 37), 2023 (item 19), 2025 (itens 86 e 91)

    Itens reproduzidos verbatim; gabaritos conferidos em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao/AAAA.json.