Um carro a 54 km/h freia em pouco mais de 22 m. Com o dobro da velocidade, ele para em 45 m? E lotado, precisa de mais pista? As duas respostas são não, e a razão está na força que você usa a cada passo.
O que você vai aprender
Explicar a origem microscópica do atrito, identificar seu sentido como oposto ao deslizamento relativo (não ao movimento do corpo) e justificar por que ele independe da área aparente de contato.
Distinguir atrito estático e cinético, aplicar f_e ≤ μ_e N (igualdade só na iminência) e f_c = μ_c N, e ler o gráfico força aplicada × atrito com o pico estático e o patamar cinético.
Calcular a força normal pela segunda lei no eixo perpendicular ao contato em piso horizontal, com força inclinada, na rampa, no elevador e contra a parede, sem supor N = mg.
Aplicar a condição tan θ ≤ μ_e ao repouso na rampa, medir μ_e pelo ângulo crítico, obter a aceleração de descida com atrito e a força mínima para subir, e converter inclinação em porcentagem para tangente.
Reconhecer o atrito estático como a força que faz andar, arrancar e frear (a_máx = μ_e g) e como resultante centrípeta em curva plana (v_máx = √(μ_e g R)).
Calcular distância de frenagem e distância total de parada com tempo de reação, justificar a dependência quadrática da velocidade, a independência da massa e o papel do ABS.
Resolver blocos empilhados e blocos ligados com atrito identificando a normal e o atrito de cada contato, e julgar itens do PAS/UnB evitando os erros clássicos de regime, sinal e normal.
Um carro a 54 km/h, em asfalto seco, ainda anda uns 22 m depois que o motorista pisa fundo no freio. A 108 km/h, com o dobro da velocidade, a intuição aposta no dobro da pista, 45 m; a conta devolve 90 m. E se o mesmo carro estiver lotado, com quatro passageiros e o porta-malas cheio? A pista necessária não muda um centímetro. As duas respostas saem de uma única força, a mesma que segura a cadeira de rodas parada na rampa, que impede o armário de deslizar quando você o empurra de leve e que faz o seu pé avançar a cada passo.
O atrito é a força mais mal compreendida da mecânica escolar, e por um motivo simples: ele não tem um valor fixo. Às vezes vale zero, às vezes vale exatamente o que o equilíbrio pede, às vezes está no teto. Saber em qual desses casos você está é quase toda a resolução de um item de prova.
Contra o quê, exatamente, o atrito aponta?
Duas superfícies que parecem lisas são, vistas de perto, cordilheiras de saliências microscópicas. Quando uma é apoiada sobre a outra, o contato real acontece só nos picos, e ali os átomos das duas ficam próximos o bastante para se atrair. Deslizar uma superfície sobre a outra exige romper e refazer esses contatos milhões de vezes por segundo: é essa resistência que chamamos de força de atrito. Ela é uma força de contato, tangente às superfícies, e tem um parceiro sempre presente: a força normal, a componente perpendicular do mesmo contato.
Duas consequências dessa origem valem para toda a página. Primeira: apertar mais as superfícies uma contra a outra aumenta o número e a área dos contatos reais, então o atrito cresce com a normal. Segunda, e menos intuitiva: a face apoiada pode ser grande ou pequena sem que o atrito máximo mude. Com uma face maior, a mesma normal se reparte entre mais picos, mas cada pico é comprimido com menos força e se achata menos; a soma das áreas de contato real sai igual. Vire um tijolo de lado, apoiado na face estreita, e ele oferece a mesma resistência a deslizar que apoiado na face larga: a área aparente de contato não entra na conta.
O sentido do atrito
O atrito se opõe ao deslizamento relativo entre as superfícies, ou à tendência de deslizamento, quando ele ainda não começou. Não se opõe, necessariamente, ao movimento do corpo. Uma caixa colocada sobre uma esteira que arranca é acelerada para a frente pelo atrito: a esteira tende a escapar por baixo dela, o atrito puxa a caixa no sentido da esteira. Regra prática: pergunte “para onde a superfície de baixo escorregaria em relação ao corpo?” e desenhe o atrito no sentido contrário a isso.
Estático até o teto, cinético depois: os dois regimes
Empurre um armário com uma força pequena e ele não se mexe. Empurre mais e ele continua parado. Em certo ponto, ele cede, começa a deslizar, e você sente que manter o deslizamento custa um pouco menos do que custou arrancar. São dois regimes com nomes próprios.
Atrito estático e atrito cinético
O atrito estático é o que atua enquanto as superfícies não deslizam uma sobre a outra. Ele não tem valor próprio: assume, a cada instante, o valor exato que impede o deslizamento, e por isso pode ser zero, pode ser pequeno, pode ser grande. O que ele tem é um limite superior, proporcional à normal:
fe≤μeN.
O atrito estático só chega a esse limite na iminência do deslizamento, quando qualquer acréscimo de força põe o corpo em movimento. A partir do instante em que o deslizamento começa, o regime muda: o atrito passa a ser cinético (ou dinâmico), com módulo aproximadamente fixo,
fc=μcN,μc≤μe.
Os coeficientes μe e μc são números sem unidade que dependem do par de materiais e do estado das superfícies (seco, molhado, lubrificado). N é a força normal, e não o peso.
O gráfico abaixo é a imagem que resume os dois regimes. Enquanto a força aplicada F cresce e o corpo não desliza, o atrito estático acompanhaF, ponto a ponto, numa reta a 45°. No valor μeN ele atinge o teto; se F passar disso, o corpo desliza, e o atrito cai para o patamar cinético μcN, onde permanece qualquer que seja F.
O atrito lido contra a força aplicada. À esquerda do pico, cada newton a mais de empurrão é respondido com um newton a mais de atrito estático (a reta a 45°); o pico é o teto μeN. Do pico em diante o corpo já desliza, e o atrito se acomoda no patamar cinético μcN. O degrau entre o pico e o patamar é a razão de "arrancar custar mais que manter". Diagrama autoral.
Alguns valores típicos ajudam a calibrar: borracha em asfalto seco, μe≈0,7 a 1,0; asfalto molhado, cerca da metade; aço sobre aço lubrificado, ≈0,1; gelo sobre gelo, ≈0,03. Um coeficiente maior que 1 é possível (pneus de competição chegam perto de 1,5) e apenas significa que o atrito máximo supera a normal.
Exemplo resolvido. Um armário de 60 kg está sobre piso horizontal, com μe=0,5 e μc=0,4 (g=10 m/s²). A normal vale N=mg=600 N, logo o teto estático é μeN=300 N e o atrito cinético seria μcN=240 N.
Força aplicada de 150 N: o armário fica parado, e o atrito vale 150 N, não 300. O equilíbrio horizontal pede fe=F.
Força de 300 N: iminência. O atrito está no teto, 300 N, e o armário ainda não desliza.
Força de 360 N: passou do teto, o armário desliza. Agora o atrito é cinético, 240 N, e a resultante é 360−240=120 N, com aceleração a=120/60=2,0 m/s².
Conferência: com 360 N aplicados e 240 N de atrito, a resultante tem de ser positiva no sentido de F, e é. Se alguém usasse 300 N (o teto estático) como atrito durante o deslizamento, obteria 60 N de resultante e metade da aceleração: erro clássico de regime.
"O atrito estático vale sempre o teto"
Não. μeN é o máximo disponível. Fora da iminência, o atrito estático vale o que a segunda lei exigir para o corpo não deslizar: no piso, a força aplicada; na rampa, a componente do peso ao longo dela; num corpo em repouso sem nada empurrando, zero. Quem substitui fe=μeN automaticamente calcula uma força que não existe. O sinal de alerta é a palavra do enunciado: “em repouso” pede equilíbrio; “na iminência” ou “prestes a deslizar” libera a igualdade.
A normal não é o peso
A fórmula f=μN tem uma armadilha embutida: a tentação de escrever N=mg sem olhar. A normal é o que a superfície precisa exercer, perpendicularmente, para o corpo não afundar nem decolar; ela sai da segunda lei aplicada ao eixo perpendicular ao contato, e só coincide com o peso no caso mais simples: piso horizontal, nenhuma outra força vertical, nenhuma aceleração vertical.
Mesmo bloco, três normais. Puxar por uma corda inclinada para cima alivia o piso (N=P−Fsinθ) e reduz o atrito máximo; empurrar por uma vassoura inclinada para baixo aperta o bloco contra o piso (N=P+Fsinθ) e aumenta o atrito máximo. A normal sai da segunda lei no eixo vertical, nunca de uma fórmula pronta. Diagrama autoral.
Quatro situações em que N=mg:
Força inclinada. Uma corda que puxa a 30° acima da horizontal com 100 N sustenta 100×0,5=50 N do peso; num bloco de 200 N, a normal cai para 150 N. Empurrar com uma vassoura a 30° abaixo da horizontal faz o contrário: N=250 N.
Rampa. O peso se reparte em mgsinθ ao longo da rampa e mgcosθ perpendicular a ela; sem outras forças perpendiculares, N=mgcosθ<mg. Foi o item 91 do PAS 1 de 2015: no convés inclinado do navio, a normal é menor que o peso.
Aceleração vertical. Num elevador que sobe acelerando, N−mg=ma e a normal cresce; num que desce acelerando, ela diminui. Uma caixa no piso do elevador tem mais ou menos atrito disponível conforme o elevador se move.
Parede. Um quadro ou um apagador apertado contra a parede tem normal horizontal, dada pela força que o empurra, e o atrito é vertical, segurando o peso. O item 51 do PAS 1 de 2017 é exatamente isso: um quadro preso por um cabo, com a base apoiada na parede; a normal era a reação horizontal da parede e o atrito completava a sustentação.
Exemplo resolvido. Um caixote de 20 kg é puxado sobre piso horizontal por uma corda a 30° acima da horizontal, com μc=0,4 e g=10 m/s². Que força na corda mantém o caixote deslizando com velocidade constante?
Velocidade constante significa resultante nula nos dois eixos. Vertical: N+Tsin30∘=mg, logo N=200−0,5T. Horizontal: Tcos30∘=μcN=0,4(200−0,5T). Com cos30∘≈0,87: 0,87T=80−0,2T, então 1,07T=80 e T≈75 N. Conferência: a normal fica 200−37,5=162,5 N e o atrito 0,4×162,5=65 N, igual à componente horizontal 75×0,87≈65 N. Quem usasse N=200 N encontraria T=80/0,87≈92 N, 23% a mais.
Rampa: quem decide é a tangente
Coloque um bloco numa rampa de ângulo θ e vá inclinando. Ao longo da rampa, o peso puxa com mgsinθ; perpendicular a ela, comprime com mgcosθ, que é a normal. Para o bloco ficar parado, o atrito estático precisa segurar mgsinθ, e ele consegue enquanto essa exigência não passar do teto μemgcosθ:
mgsinθ≤μemgcosθ⟺tanθ≤μe.
Diagrama de forças do bloco em repouso na rampa. O ângulo entre o peso e a normal é o próprio θ da rampa: por isso N=mgcosθ e a parte que puxa para baixo é mgsinθ. O atrito estático vale exatamente mgsinθ enquanto tanθ≤μe; a massa aparece dos dois lados e cancela. Diagrama autoral.
A massa sumiu. Uma cadeira de rodas ocupada por um adulto de 80 kg e outra ocupada por uma criança de 25 kg começam a escorregar na mesma inclinação. E a condição se converte num método de laboratório: incline devagar a superfície até o corpo escapar, anote esse ângulo, o ângulo críticoθc, e você mediu o coeficiente, porque na iminência tanθc=μe. Um telefone que escorrega da capa do caderno quando ela é inclinada a 20° tem μe=tan20∘≈0,36 com aquele papel.
A norma de acessibilidade é uma tangente
A NBR 9050 exige que rampas de acessibilidade tenham inclinação máxima i=h/c de 10% para desníveis de até 20 cm, 8,33% até 80 cm, 6,25% até 1 m e 5% até 1,50 m. Essa inclinação em porcentagem é a tangente do ângulo: rampa de 10% tem tanθ=0,10, ou seja, θ≈5,7∘, e não 10°. Uma cadeira parada numa rampa de 10% fica segura se μe≥0,10, o que quase qualquer piso oferece; a norma limita a inclinação por causa do esforço de subida e da segurança na descida, não do deslizamento. No PAS 1 de 2023 a tabela da norma foi impressa na prova e rendeu dois itens: um perguntava se μe=0,10 basta para a rampa de 20 cm (basta: iminência, sem deslizar), o outro afirmava que rampas com menos atrito seriam mais seguras (inverteu tudo).
Quando tanθ>μe, o bloco desliza e o atrito vira cinético, apontando para cima da rampa com módulo μcmgcosθ. A segunda lei ao longo da rampa dá a aceleração de descida:
a=g(sinθ−μccosθ).
Sem atrito, a=gsinθ; com μc=tanθ, a aceleração é zero e o bloco desce com velocidade constante. Para subir a rampa, uma força paralela a ela precisa vencer as duas parcelas que agora apontam para baixo: F=mgsinθ+μmgcosθ.
Exemplo resolvido (PAS 1 2019, itens 74 e 75). Um bloco de 2 100 kg é deixado numa rampa de 30° e fica parado, mas no limite: o enunciado o descreve “na iminência do movimento”, e informa que o coeficiente dinâmico é metade do estático. Iminência a 30° dá μe=tan30∘=3/3≈0,58; a metade é μc=3/6≈0,29 (item 74, certo, sem tocar na massa). Para começar a subir, a força mínima é F=mgsin30∘+μemgcos30∘. Substitua μe por sin30∘/cos30∘ na segunda parcela: o cosseno cancela e sobra outro mgsin30∘, de modo que as duas parcelas valem o mesmo e F=2mgsin30∘=mg=2100×9,8≈20600 N, bem acima de 104 N (item 75, certo). Conferência da ordem de grandeza: o peso é cerca de 20 kN; puxar rampa acima na iminência custa o peso inteiro, o que faz sentido, porque a rampa “devolve” metade do peso como componente e o atrito cobra a outra metade.
O atrito é quem te move
Dê um passo. Seu pé apoiado empurra o chão para trás; pela terceira lei, o chão empurra o pé para a frente, e a força que faz isso é o atrito estático, porque o pé não escorrega. Em gelo liso, μe→0, e você não avança: não há como empurrar o chão. O mesmo vale para o pneu de tração, para a roda de um robô de armazém e para o foguete de carrinho de brinquedo que patina no piso encerado.
Um ponto que separa quem entende de quem decora: uma roda que rola sem deslizar tem atrito estático, mesmo com o carro a 100 km/h. O ponto do pneu que toca o asfalto está momentaneamente em repouso em relação a ele; não há deslizamento, então o regime é estático. Só quando a roda trava (ou patina na arrancada) o contato passa a deslizar e o regime vira cinético, com coeficiente menor.
A aceleração máxima que o atrito permite
Se a única força horizontal sobre um corpo é o atrito estático, a segunda lei dá fe=ma, e como fe≤μeN=μemg (piso horizontal), a aceleração fica limitada por
amaˊx=μeg.
Vale para o carro arrancando, para o carro freando e para a caixa solta sobre a carroceria de um caminhão: se o caminhão acelerar mais que μeg, a caixa escorrega para trás em relação a ele. Com μe=0,4, o limite é 4 m/s², qualquer que seja a massa da caixa.
Sem atrito não há partida, freada nem curva
Numa pista de gelo, o carro não arranca (não há força horizontal para acelerá-lo), não freia (nada o desacelera) e não faz curva (segue reto por inércia). Os três movimentos que o motorista comanda com pedais e volante são, na verdade, três pedidos ao atrito pneu-pista. É por isso que a mesma pista molhada, com o coeficiente pela metade, dobra a distância de frenagem e corta a velocidade segura de curva.
Frenagem: o quadrado da velocidade
Numa freada em linha reta, o pedal aciona as pastilhas, mas a força que de fato desacelera o carro é externa a ele: é o atrito que o asfalto faz nos pneus. O melhor que o motorista consegue é levar esse atrito ao teto estático sem deixar as rodas travarem; nessa condição a segunda lei fica μemg=ma, e a massa aparece dos dois lados e desaparece: a=μeg, a mesma desaceleração para o carro cheio ou vazio. Com a desaceleração constante, a equação de Torricelli, v2=v02−2ad, fornece a pista consumida até v=0:
Distância de frenagem
d=2μgv02
A dependência em v0 é quadrática: velocidade dobrada, pista quadruplicada. A dependência em μ é inversa: coeficiente pela metade, pista dobrada. A massa não aparece. Há ainda a parcela que o freio não controla: entre perceber o perigo e pisar no pedal passam uns tr≈1 s de tempo de reação, durante os quais o carro segue em MRU e avança v0tr; a distância total de parada é a soma dessa parcela, proporcional a v0, com a parcela de frenagem, proporcional a v02.
Reação cresce em linha reta; frenagem cresce em parábola. A 54 km/h (15 m/s), pista seca com μ=0,5: 15 m de reação e 22,5 m de frenagem. A 108 km/h, a reação dobra (30 m) e a frenagem quadruplica (90 m): a parada total vai de 37,5 m para 120 m, e não para 75 m. Pista molhada (μ=0,25) dobra só a parcela de frenagem: 45 m a 54 km/h. Diagrama autoral.
Exemplo resolvido. Um carro a 54 km/h (15 m/s) freia em pista seca, μ=0,5, g=10 m/s², após 1 s de reação. Reação: 15×1=15 m. Frenagem: a=μg=5 m/s², d=152/(2×5)=22,5 m. Parada total: 37,5 m. A 108 km/h (30 m/s): reação 30 m, frenagem 900/10=90 m, total 120 m. Na pista molhada, μ=0,25, a 54 km/h: reação 15 m (não muda), frenagem 225/5=45 m, total 60 m. Conferência: dobrar a velocidade multiplicou a frenagem por 4 e a reação por 2; dividir μ por 2 dobrou só a frenagem.
A prova gosta de ler a fórmula ao contrário. Se uma moto a 50 km/h (13,9 m/s) para em 18 m, a desaceleração foi a=v02/(2d)=193/36≈5,4 m/s² (PAS 1 2013, item 89). Se dois carros idênticos a 108 km/h (30 m/s) freiam igual, mas um começa 0,6 s depois do outro, a distância final entre eles é o que o retardatário andou em MRU nesse intervalo: 30×0,6=18 m (PAS 1 2016, item 71). E o tipo B mais reincidente é a rampa sem atrito seguida de um trecho plano com atrito: bloco solto de 36 m de altura chega à base com v2=2gh=720 m²/s²; no plano, com μ=0,8, a=8 m/s² e d=720/16=45 m (PAS 1 2021, item 60). A inclinação da rampa não entra.
Roda travada não freia melhor
Travar as rodas, com o pneu deslizando no asfalto, troca μe por μc, que é menor: o carro percorre mais pista, e ainda perde a direção, porque um pneu que desliza não responde ao volante. O freio ABS (anti-lock braking system) mede a rotação de cada roda e alivia a pressão dezenas de vezes por segundo quando detecta que ela vai travar, mantendo o contato no regime estático, no topo do gráfico da segunda seção. Ele não “cria” atrito; impede que se perca o melhor atrito disponível.
Curva plana: o atrito aponta para o centro
Um carro numa curva com o velocímetro parado em 60 km/h está acelerando: a direção da velocidade muda a cada instante. Para isso, precisa de uma força resultante voltada para o centro da curva, de módulo mv2/R. “Força centrípeta” é o nome do papel, não uma força a mais no diagrama; em pista horizontal, a única força horizontal disponível é o atrito estático lateral entre pneus e asfalto (o pneu não escorrega para o lado enquanto a curva é feita). Ele é quem desempenha o papel.
Curva plana. A velocidade é tangente; o atrito estático lateral aponta para o centro e faz o papel de resultante centrípeta, fe=mv2/R. Como fe≤μemg, a curva só é possível se v2/R≤μeg. A massa cancela: moto e caminhão têm a mesma velocidade máxima na mesma curva. Diagrama autoral.
Velocidade máxima na curva plana
Rmv2≤μemg⟹vmaˊx=μegR,Rmıˊn=μegv2.
Quadruplicar o raio dobra a velocidade máxima; dividir μe pela metade (pista molhada) reduz vmaˊx a cerca de 71% do valor seco.
Exemplo resolvido. Rotatória de raio 40 m, μe=0,5, g=10 m/s²: vmaˊx=0,5×10×40=200≈14,1 m/s, cerca de 51 km/h. A 54 km/h (15 m/s) o carro precisaria de v2/R=225/40≈5,6 m/s² de aceleração centrípeta, mas o atrito só oferece μeg=5 m/s²: por pouco, ele derrapa para fora, seguindo a tangente. Conferência: pela outra fórmula, a 15 m/s o raio mínimo seria 225/5=45 m, maior que os 40 m da rotatória.
O PAS 1 de 2013 fez a mesma pergunta com um motoqueiro: “a força de atrito desempenha o papel de força centrípeta” (item 95, certo) e “o raio pode ser determinado por r=v2/(μg)” (item 96, certo). O texto-base comparava a moto com um Camaro para ver quem cairia na tentação de achar que o carro mais pesado precisa de curva mais larga. Curvas com inclinação lateral e o movimento circular completo ficam para a página de movimento circular uniforme.
Blocos empilhados e blocos ligados
Quando há duas superfícies de contato, há dois atritos, e cada um obedece à própria normal. O caso clássico são dois blocos empilhados sobre um piso.
Bloco A (2 kg) sobre bloco B (6 kg), piso sem atrito, μe=0,3 entre eles. Quem acelera A é o atrito que B faz nele, para a frente; a reação é o atrito de A sobre B, para trás. A tende a ficar para trás quando B é puxado, e o atrito se opõe a esse deslizamento relativo. Diagrama autoral.
Exemplo resolvido. Bloco A de 2 kg sobre bloco B de 6 kg, piso sem atrito, μe=0,3 entre A e B, g=10 m/s². Qual a maior força F, aplicada em B, que leva os dois juntos?
A única força horizontal em A é o atrito de B, para a frente (B tende a escapar por baixo; o atrito puxa A junto). O máximo é μeNA=0,3×20=6 N, logo A aguenta no máximo a=6/2=3 m/s², que é μeg. Para o conjunto de 8 kg ter essa aceleração, F=8×3=24 N. Conferência em B: recebe F=24 N para a frente e o atrito de A, 6 N para trás; resultante 18 N, aceleração 18/6=3 m/s², igual à de A. Se F fosse aplicada em A, a conta muda: agora B só é arrastado pelo atrito que A faz nele, 6 N no máximo, então aB≤1 m/s² e Fmaˊx=8×1=8 N. Puxar por cima permite três vezes menos força que puxar por baixo.
Nos blocos ligados por fio que passa por uma polia (um na mesa, outro pendurado), o atrito da mesa entra na equação do sistema como uma força a mais contra o movimento: m2g−μm1g=(m1+m2)a se o sistema se move no sentido de descida do pendurado. E antes de calcular, verifique se ele se move: com m2g≤μem1g, o atrito estático segura o conjunto parado, e vale m2g, não μem1g.
Atrito, energia e resistência do ar: só a ponte
O atrito cinético sempre aponta contra o deslizamento, então seu trabalho ao longo de um percurso d é W=−fcd: ele retira energia mecânica e a converte em energia térmica nas superfícies (as pastilhas de freio chegam a centenas de graus). É por isso que a energia mecânica de um bloco que desce uma rampa com atrito diminui, e por isso o item que chamou o atrito de “força conservativa” no PAS 1 de 2019 estava errado. A conta da distância de frenagem por energia, 21mv2=μmgd, chega ao mesmo d=v2/(2μg) desta página; o método completo está em trabalho de uma força e energia.
A resistência do ar é um atrito de outro tipo, viscoso: cresce com a velocidade em vez de ser constante. Um paraquedista acelera até que a resistência iguale o peso e a resultante zere; dali em diante cai em velocidade constante, a velocidade terminal. Fica aqui só a menção: o modelo f=μN desta página vale para sólidos secos em contato, não para fluidos.
Os cinco erros que a prova planta
“Atrito é sempre contra o movimento.” É contra o deslizamento relativo. A caixa acelerada pela esteira, o pé que avança, a roda de tração: nos três, o atrito aponta no sentido do movimento do corpo.
Usar μeN fora da iminência. Em repouso sem “prestes a deslizar”, o atrito estático vale o que o equilíbrio pede. Item favorito: “a força de atrito sobre a caixa em repouso na rampa é μeN” (errado: é mgsinθ).
Normal igual a peso na rampa (ou com força inclinada, ou no elevador). Na rampa, N=mgcosθ; a componente que puxa é mgsinθ. Trocar seno por cosseno inverte a condição de deslizamento.
Sinal do atrito na aceleração. Descendo a rampa com atrito, a=g(sinθ−μcosθ); subindo e desacelerando, o atrito também aponta para baixo e a=−g(sinθ+μcosθ). O sinal do atrito segue o sentido do deslizamento, não o do eixo escolhido.
Esquecer que o atrito estático pode ser zero. Um livro parado numa mesa horizontal, sem ninguém empurrando, tem fe=0. O coeficiente diz quanto poderia haver, não quanto há.
O essencial em meia página
Natureza: força de contato tangencial, contra o deslizamento relativo ou sua tendência; nasce das microrrugosidades; independe da área aparente; depende da normal, não do peso.
Estático:0≤fe≤μeN; vale o que o equilíbrio pede; igualdade só na iminência. Cinético:fc=μcN, constante, μc≤μe. Gráfico: reta a 45° até o pico, depois patamar mais baixo.
Normal: sai da 2ª lei no eixo perpendicular. Piso horizontal sem outras forças: N=mg. Puxão inclinado para cima: N=mg−Fsinθ. Rampa: N=mgcosθ. Parede: N horizontal, atrito vertical.
Rampa: repouso se tanθ≤μe (massa cancela; ângulo crítico mede μe); descida com atrito a=g(sinθ−μcosθ); para subir, F=mg(sinθ+μcosθ). Inclinação de 10% é tanθ=0,10.
Atrito que move: andar, pneu rolando (estático), caixa na carroceria: amaˊx=μeg.
Frenagem:a=μg e d=v02/(2μg), sem massa; dobrar v quadruplica d. Distância de parada = v0tr (reação, cresce com v) + d (frenagem, cresce com v2). ABS mantém o regime estático.
Curva plana: atrito estático lateral é a centrípeta; vmaˊx=μegR, Rmıˊn=v2/(μeg).
Empilhados: cada contato tem a própria normal e o próprio atrito; o bloco de cima só é levado pelo atrito, a≤μeg.
Energia:Watrito=−fcd, vira calor; não conservativa. Resistência do ar é viscosa, cresce com v, leva à velocidade terminal.
Exercícios temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.
Flashcards temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar os cartões de revisão.
Entenda a FORÇA DE ATRITO | LEIS DE NEWTON
Chama o Físico · 27:59
Introdução. Apresenta os fundamentos da força de atrito: estático e cinético, coeficientes μe e μc e a relação com a normal. É a seção “Segura até um teto, depois arrasta” em aula, para quem ainda acha que o atrito estático é sempre μeN.
PLANO INCLINADO COM ATRITO
Felipe Sampaio - Física · 10:58
Aprofundamento. Resolve um bloco descendo uma rampa com atrito em três etapas marcadas por capítulos: marcar as forças, encontrar a normal (mgcosθ) e descobrir a aceleração. É a seção “Rampa: quem decide é a tangente”, com a conta a=g(sinθ−μcosθ) passo a passo.
Curva plana com atrito | força resultante centrípeta | Mãozinha em Física 054
FISICATOTAL · 23:40
Aplicação. O professor Ivys Urquiza explica a curva plana em pista com atrito e resolve três questões de vestibular sobre velocidade máxima e raio mínimo. É a seção “Curva plana: o atrito aponta para o centro”, com vmaˊx=μgR aplicada a enunciados diferentes do da página.
Cálculo do Coeficiente de Atrito, PAS Unb 1a Etapa – Q74
Reta Razao | Aulas Online · 6:02
Resolução. Resolve o item 74 do PAS 1 de 2019 (bloco de 2 100 kg na iminência do movimento numa rampa de 30°), reproduzido nesta página: da iminência sai μe=tan30∘ e o coeficiente dinâmico é a metade, 3/6. É o exemplo resolvido da seção “Rampa: quem decide é a tangente” em vídeo.
A marca no asfalto é borracha que deslizou: roda travada troca o atrito estático pelo cinético, menor, e o carro percorre mais pista.O atrito lido contra a força aplicada. À esquerda do pico, cada newton a mais de empurrão é respondido com um newton a mais de atrito estático (a reta a 45°); o pico é o teto μeN. Do pico em diante o corpo já desliza, e o atrito se acomoda no patamar cinético μcN. O degrau entre o pico e o patamar é a razão de “arrancar custar mais que manter”. Diagrama autoral.Mesmo bloco, três normais. Puxar por uma corda inclinada para cima alivia o piso (N=P−Fsinθ) e reduz o atrito máximo; empurrar por uma vassoura inclinada para baixo aperta o bloco contra o piso (N=P+Fsinθ) e aumenta o atrito máximo. A normal sai da segunda lei no eixo vertical, nunca de uma fórmula pronta. Diagrama autoral.Diagrama de forças do bloco em repouso na rampa. O ângulo entre o peso e a normal é o próprio θ da rampa: por isso N=mgcosθ e a parte que puxa para baixo é mgsinθ. O atrito estático vale exatamente mgsinθ enquanto tanθ≤μe; a massa aparece dos dois lados e cancela. Diagrama autoral.Reação cresce em linha reta; frenagem cresce em parábola. A 54 km/h (15 m/s), pista seca com μ=0,5: 15 m de reação e 22,5 m de frenagem. A 108 km/h, a reação dobra (30 m) e a frenagem quadruplica (90 m): a parada total vai de 37,5 m para 120 m, e não para 75 m. Pista molhada (μ=0,25) dobra só a parcela de frenagem: 45 m a 54 km/h. Diagrama autoral.Curva plana. A velocidade é tangente; o atrito estático lateral aponta para o centro e faz o papel de resultante centrípeta, fe=mv2/R. Como fe≤μemg, a curva só é possível se v2/R≤μeg. A massa cancela: moto e caminhão têm a mesma velocidade máxima na mesma curva. Diagrama autoral.Bloco A (2 kg) sobre bloco B (6 kg), piso sem atrito, μe=0,3 entre eles. Quem acelera A é o atrito que B faz nele, para a frente; a reação é o atrito de A sobre B, para trás. A tende a ficar para trás quando B é puxado, e o atrito se opõe a esse deslizamento relativo. Diagrama autoral.Cada contato tem a própria normal e o próprio atrito; se o caminhão acelerar mais que μeg, a caixa de cima fica para trás em relação à de baixo.Em pista plana, a única força horizontal é o atrito estático lateral: é ele quem aponta para o centro, e vmax=μegR não depende da massa (PAS 1 2013).A inclinação da rampa em porcentagem é tanθ; a cadeira fica parada se tanθ≤μe, condição que não depende da massa de quem está nela.Enquanto o armário não cede, o atrito estático vale o que o equilíbrio pede, nem mais nem menos; o teto μeN só é alcançado na iminência de deslizar.A sola empurra o chão para trás; o chão empurra o pé para a frente. Quem faz você andar é o atrito estático, no sentido do seu movimento.Pista molhada corta o coeficiente de atrito pela metade e dobra a distância de frenagem, d=v02/(2μg); a parcela do tempo de reação continua igual.
Rota PAS 1
Grandezas, Leis de Newton e atrito · PAS 1
Fontes desta página
Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.
Rota PAS 1 — Grandezas, Leis de Newton e atrito · Atrito: a força que segura e a força que arrasta (conceito, gráfico força aplicada × atrito, exemplo-guia da rampa de 10%, itens 2019/74-75 e 2017/53, armadilhas, checagem das caixas empilhadas); Frenagem e curva: a mecânica do trânsito (conceito, exemplo-guia 72/144 km/h e rotatória, itens 2013/95-96, 2021/60, 2018/90, armadilha do ABS); Como a banca cobra (itens 2023/91, 2023/94, 2022/94); Banco de treino T5, T8, T9, T13-T23; Síntese
Recorte por assunto: só o atrito. As leis de Newton e a identificação de forças são pré-requisito (página leis-de-newton); a decomposição de vetores está em vetores; o movimento circular completo, em movimento-circular-uniforme; trabalho do atrito e dissipação, em trabalho-de-uma-forca e energia; escada e corpo extenso, em estatica.
Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 1 2005 (itens 119, 120, 122), 2009 (item 45), 2013 (itens 89, 95 e 96, fórmulas restauradas das páginas 14-15 do caderno impresso), 2015 (item 91), 2016 (itens 57, 70 e 71), 2017 (itens 51 e 53, transcritos da página 9 do caderno impresso), 2018 (item 90), 2019 (itens 74 e 75, fração restaurada da página 12 do caderno), 2021 (item 60), 2022 (item 94), 2023 (itens 91 e 94)
Itens reproduzidos verbatim; gabaritos conferidos em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao/AAAA.json. Figuras impressas (escada no castelo, bloco na rampa dos egípcios, motoqueiro em curva, quadro preso por um cabo, rampa da pirâmide) descritas em texto neutro no suporte de cada questão. O item 2011/61 (rebocador) é reusado por GUID da página vetores.