Temperatura e calor

Guia de estudo · Revisado em 16/09/2026

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Por que o termômetro na axila precisa de um minuto, por que a tampa de inox parece mais fria que a tábua de madeira guardada na mesma gaveta e por que somar 273 a uma variação de temperatura é o erro mais barato do PAS?

O que você vai aprender

  • Definir temperatura como medida do grau de agitação das partículas (média por partícula, grandeza intensiva) e distingui-la da energia interna, que cresce com a quantidade de matéria, resolvendo o paradoxo do oceano frio com mais energia que a xícara quente.
  • Definir calor como energia em trânsito entre corpos a temperaturas diferentes, reconhecer que um corpo não possui calor (possui energia interna) e que trabalho também altera a energia interna, e identificar o vocabulário errado em itens conceituais.
  • Explicar o equilíbrio térmico e a lei zero da termodinâmica, e deduzir delas como e por que um termômetro funciona: mede a própria temperatura, precisa de tempo de resposta e de massa pequena em relação ao objeto.
  • Reconhecer propriedades termométricas (volume, curvatura, pressão, resistência elétrica, tensão termoelétrica, radiação) e os tipos de termômetro correspondentes, com faixas de uso, e ler a calibração linear de um termômetro de resistência a partir de um gráfico.
  • Construir uma escala termométrica a partir de dois pontos fixos, deduzir a proporção geral entre escalas e obter as fórmulas de conversão entre Celsius, Fahrenheit, kelvin e qualquer escala arbitrária.
  • Converter temperaturas entre as três escalas e, separadamente, converter variações de temperatura (ΔT em K = ΔT em °C; ΔT em °F = 1,8 ΔT em °C), reconhecendo que 273 e 32 nunca entram em uma variação e que °C⁻¹ = K⁻¹.
  • Explicar o zero absoluto pela extrapolação da reta V × T (ou p × T) de um gás ideal, situar a escala kelvin e justificar por que razões, produtos e potências de temperatura exigem kelvin, enquanto diferenças podem ficar em Celsius.
  • Situar temperaturas em ordem de grandeza (zero absoluto, nitrogênio líquido, corpo humano, febre, Brasília, ebulição, forno, Sol) e usar esse mapa para checar conversões e julgar itens sem conta.
  • Distinguir sensação térmica de temperatura: a pele mede fluxo de calor (condutividade), e dois corpos em equilíbrio na mesma sala têm a mesma temperatura ainda que pareçam diferentes ao toque.
  • Resolver e julgar itens no estilo do PAS/UnB: item A conceitual de vocabulário, item de limiar com conversão de variação, item B com escala arbitrária ou extrapolação até o zero absoluto e leitura de gráfico linear de calibração (termômetro de resistência).

O termômetro vai para debaixo do braço e a instrução é sempre a mesma: espere um minuto. Depois ele marca 36,8 °C. Nesse minuto aconteceu uma coisa concreta: o vidro, que estava à temperatura do quarto, recebeu energia da pele até ficar tão quente quanto ela; quando as duas temperaturas se igualaram, a troca parou e a coluna estabilizou. O instrumento não mediu “quanto calor a pessoa tem”. O que a coluna indica é a temperatura do próprio termômetro, e ela só coincide com a da axila porque as duas se igualaram. A energia que atravessou o vidro enquanto as temperaturas eram diferentes tem nome, calor, e a igualdade que interrompeu o fluxo também, equilíbrio térmico. Com essas três palavras bem separadas se resolve a tampa de inox que parece gelada na mesma gaveta em que a tábua de madeira parece morna, o item que pede a diferença entre dois tanques em graus Fahrenheit e quer a resposta em kelvin, e a reta de um gás que, prolongada até o volume zero, cruza o eixo das temperaturas em −273 °C.

Esta página é sobre o que a temperatura mede, o que o calor é e como se constroem e se convertem as escalas em que a medida é escrita. Quanto calor custa aquecer um corpo é calorimetria; quanto um corpo cresce ao esquentar é dilatação térmica; o que acontece no patamar de fusão ou de ebulição é mudanças de estado físico; por que caminhos o calor viaja é propagação de calor. Aqui ficam a medida, as escalas e a diferença de vocabulário que decide itens vestidos de qualquer um desses assuntos.

Temperatura mede agitação, não quantidade de “quente”

Todo corpo é uma multidão de partículas em movimento: átomos vibrando em torno de posições fixas num sólido, moléculas deslizando umas sobre as outras num líquido, moléculas voando e se chocando num gás. Temperatura é a medida do grau dessa agitação. Num gás, ela se liga diretamente à energia cinética média de translação das moléculas: a 300 K (27 °C), cada molécula do ar carrega em média cerca de 6×10−216 \times 10^{-21} J de energia de movimento, o que para o nitrogênio dá velocidades típicas em torno de 500 m/s. Em sólidos e líquidos, entram também vibrações e rotações, mas a leitura é a mesma: mais quente é mais agitado.

A palavra que importa é média. A temperatura não depende de quantas partículas há, e sim de quão agitada está cada uma, em média. Um oceano a 15 °C tem partículas menos agitadas que uma xícara de café a 80 °C, e portanto temperatura menor, embora guarde uma quantidade de energia incomparavelmente maior, porque são muitas mais partículas. Dividir uma barra de ferro a 200 °C em dois pedaços não dá dois pedaços a 100 °C: cada metade continua a 200 °C, porque a agitação média de cada átomo não mudou. É por isso que se diz que a temperatura é uma grandeza intensiva, ao contrário da massa, do volume e da energia, que somam quando se juntam dois corpos.

Duas caixas quadradas lado a lado com o mesmo número de partículas desenhadas como círculos. Na caixa da esquerda, rotulada frio a 250 kelvin, cada partícula tem uma seta curta indicando velocidade pequena. Na caixa da direita, rotulada quente a 500 kelvin, as mesmas partículas têm setas longas em direções variadas, indicando velocidades maiores. Abaixo, uma legenda diz que a energia cinética média dobrou porque a temperatura absoluta dobrou, e que o número de partículas é o mesmo.
Mesmo número de partículas, agitação diferente. Temperatura é a medida da energia de movimento **média** por partícula: dobrar a temperatura absoluta (em kelvin) dobra essa média num gás ideal. Não tem nada a ver com o tamanho do corpo. Diagrama autoral.
Temperatura e energia interna

Temperatura (TT) é o número que quantifica quão agitadas estão, em média, as partículas de um corpo; por ser uma média por partícula, não depende do tamanho do corpo. Energia interna (UU) é a soma de todas as energias microscópicas do corpo, cinéticas (agitação) e potenciais (ligações entre partículas), e essa sim cresce com a quantidade de matéria. Dois corpos à mesma temperatura podem ter energias internas muito diferentes; dois corpos de mesma energia interna podem estar a temperaturas muito diferentes. Num gás ideal, a energia cinética média de translação vale 32 k T\tfrac{3}{2}\,k\,T por molécula, com TT em kelvin e k=1,38×10−23k = 1{,}38 \times 10^{-23} J/K (constante de Boltzmann); a fórmula não é cobrada no ensino médio, mas a ideia por trás dela é: temperatura absoluta e agitação média são proporcionais.

A banca já cobrou essa ideia nua. Na 1.ª etapa de 2005, num bloco sobre o modelo atômico de Dalton, com um recipiente de vapor d’água monitorado por um termômetro de mercúrio, um item dizia que “as diferentes temperaturas TAT_A, TBT_B e TCT_C do sistema descrito refletem diferentes graus de agitação das moléculas, devido a movimentos translacionais, vibracionais e(ou) rotacionais”. Certo: é a definição microscópica de temperatura, e a menção aos três tipos de movimento é correta para uma molécula como a da água.

Calor é energia em trânsito: ninguém “tem” calor

Encoste um corpo quente num corpo frio. Enquanto as temperaturas forem diferentes, energia passa do mais quente para o mais frio, espontaneamente. Essa energia, contada enquanto passa, é o calor (QQ). Depois que chegou, ela não é mais calor: virou energia interna do corpo que a recebeu. A distinção parece pedante e decide itens. Um corpo não contém calor, não armazena calor, não possui calor: tem energia interna, e troca calor. É a diferença entre ter dinheiro e fazer um pagamento; ninguém “tem um pagamento”, tem dinheiro, e o pagamento é o que passa de uma conta a outra.

Calor não é o único jeito de mudar a energia interna de um corpo. Comprimir um gás com um êmbolo aquece o gás sem que nenhuma fonte quente tenha sido encostada: o trabalho da compressão virou agitação. Esfregar as mãos, martelar um prego, agitar uma garrafa de água, tudo aumenta a temperatura por trabalho, não por calor. O item vizinho do bloco de 2005 tratava disso: ao pressionar o êmbolo do recipiente, o gás se aquece, e o nível do mercúrio do termômetro sobe, da marca TAT_A para a marca TCT_C (acima dela); o item afirmava o sentido contrário e estava errado.

Calor

Calor (QQ) é o nome da energia enquanto ela está atravessando a fronteira entre dois corpos (ou duas regiões de um corpo) por causa de uma diferença de temperatura; se nada força o contrário, o sentido é sempre do corpo mais quente para o mais frio. Mede-se em joule (SI) ou em caloria (1 cal ≈ 4,2 J). Convenção: Q>0Q > 0 quando o corpo recebe, Q<0Q < 0 quando cede. Calor não é uma substância nem uma propriedade do corpo: é o nome de uma transferência. Quando a transferência acaba, o que ficou é energia interna. “Frio” também não é substância: é temperatura menor, e um corpo frio esquenta porque recebe calor, não porque “perde frio”.

Dois erros numa frase: "o corpo mais quente contém mais calor"

A frase tropeça duas vezes. Primeiro no verbo: “conter” calor não existe, porque calor é o nome de uma passagem de energia, e o que um corpo contém é energia interna. Depois na comparação: ser mais quente significa ter temperatura maior, e isso não garante mais energia interna, como mostram o oceano a 15 °C e a xícara a 80 °C. Toda vez que um item disser de um corpo que ele “possui”, “contém” ou “armazena” calor, só o verbo já condena a afirmação; o correto seria “possui energia interna” ou “recebeu calor”. A mesma vigilância vale para “calor é energia térmica”: energia térmica é o que o corpo tem; calor é o que passa.

Equilíbrio térmico e a lei zero: por que o termômetro funciona

Enquanto dois corpos em contato têm temperaturas diferentes, calor passa do quente para o frio; o quente esfria, o frio esquenta, a diferença diminui e o fluxo enfraquece, até que não reste diferença alguma e nada mais passe de um para o outro. Esse estado final é o equilíbrio térmico, e a igualdade que o define é de temperatura, não de energia, não de massa, não de material. Uma pedra de 1 kg e uma pena, depois de horas na mesma sala, estão à mesma temperatura, com energias internas completamente diferentes.

O termômetro é um corpo pequeno que se deixa levar ao equilíbrio com o corpo que queremos medir. Ele não lê a temperatura do outro: lê a sua própria, depois de igualá-la à do outro. Daí três consequências práticas. Primeira, é preciso esperar o equilíbrio; um termômetro clínico lido em dez segundos marca a temperatura do vidro a meio caminho, não a da axila. Segunda, o termômetro precisa ser pequeno em relação ao que mede, para que o calor que ele rouba ou cede não altere a temperatura do objeto; um termômetro de mercúrio de 20 g mergulhado numa gota de água esquentaria a gota em vez de medi-la. Terceira, o que se compara são temperaturas, e a comparação é transitiva: se o termômetro fica em equilíbrio com o corpo A e, sem mudar de leitura, também fica em equilíbrio com o corpo B, então A e B estão em equilíbrio entre si e têm a mesma temperatura, mesmo que nunca se toquem. Essa transitividade é a lei zero da termodinâmica, batizada assim nos anos 1930 porque foi reconhecida como fundamento depois de a primeira e a segunda leis já terem nome.

Três painéis em sequência mostram um termômetro de coluna encostado num bloco rotulado corpo a 37 graus Celsius. No primeiro painel, no instante zero, o termômetro marca 25 graus e uma seta larga vai do corpo para o termômetro, rotulada calor. No segundo painel, aos trinta segundos, o termômetro marca 33 graus e a seta é fina. No terceiro painel, ao fim de um minuto, o termômetro marca 37 graus, não há seta e o rótulo diz equilíbrio térmico, fluxo zero. À direita, um esquema com três círculos A, T e B: A em equilíbrio com T e B em equilíbrio com T implicam A em equilíbrio com B, com o rótulo lei zero.
O termômetro mede a **própria** temperatura. Enquanto está mais frio que o corpo, recebe calor e sua leitura sobe; quando iguala a temperatura, o fluxo cessa e a leitura para. A lei zero garante que o mesmo termômetro sirva para comparar corpos que nunca se tocaram. Diagrama autoral.
Equilíbrio térmico e lei zero

Dois corpos estão em equilíbrio térmico quando, postos em contato, não trocam calor: têm a mesma temperatura. Lei zero: se A está em equilíbrio térmico com C e B está em equilíbrio térmico com C, então A está em equilíbrio térmico com B. O corpo C é o termômetro. A lei zero é o que dá sentido a “temperatura” como uma propriedade que se pode medir e comparar: sem ela, duas leituras iguais do mesmo termômetro em corpos diferentes não significariam nada.

O minuto do termômetro e o termômetro do carro

O termômetro clínico pede um minuto porque o vidro e o líquido precisam receber calor da pele até igualar a temperatura; quanto menor a massa do sensor, mais rápido (os digitais de ponta fina medem em 30 s, os infravermelhos em 1 s, porque não precisam entrar em equilíbrio: leem a radiação emitida). O termômetro do painel do carro mede a temperatura do sensor na frente do para-choque; parado ao sol, o sensor esquenta mais que o ar e marca 40 °C num dia de 30 °C. Andando, o ar renova o contato e a leitura cai: o sensor entrou em equilíbrio com o ar, não com a lataria.

Propriedades termométricas: o que muda quando a temperatura muda

Não dá para ver agitação molecular. O termômetro mede a temperatura por um atalho: escolhe uma grandeza macroscópica que varia de modo conhecido com a temperatura, a propriedade termométrica, e lê a temperatura através dela. O volume de um líquido, o comprimento de uma barra, a pressão de um gás, a resistência elétrica de um fio, a tensão entre dois metais unidos, a cor e a intensidade da radiação emitida: cada uma delas deu origem a um tipo de termômetro, com sua faixa de uso e seu tempo de resposta.

tipo propriedade termométrica faixa típica onde aparece
líquido em vidro (mercúrio) volume do líquido, lido numa coluna capilar −39 °C (mercúrio congela) a 357 °C (ferve) laboratório, clínico antigo
líquido em vidro (álcool tingido) volume do líquido −110 °C a 78 °C termômetros de parede, frio intenso
bimetálico curvatura de duas lâminas de metais com dilatações diferentes −50 °C a 500 °C termostato do ferro, forno, geladeira (dilatação)
gás a volume constante pressão do gás −270 °C a 1 500 °C padrão de laboratório; define a escala absoluta
resistência elétrica (platina, termistor) resistência do fio ou do semicondutor −200 °C a 850 °C termômetro digital, indústria, PAS 3 2013
termopar tensão elétrica entre dois metais unidos (efeito Seebeck) −200 °C a 1 800 °C fornos, motores, chama
infravermelho / pirômetro radiação emitida pela superfície −50 °C a 3 000 °C clínico de testa, indústria, astronomia (propagação)

Repare no termômetro de gás. A pressão de um gás rarefeito a volume constante cresce em linha reta com a temperatura, e a reta aponta para o mesmo lugar qualquer que seja o gás: a pressão zero cai sempre em −273,15 °C. É por isso que o termômetro de gás foi o instrumento que definiu a escala absoluta, assunto de uma seção adiante.

Cinco painéis em linha, cada um com um desenho esquemático e um rótulo. Primeiro: termômetro de líquido em vidro, um bulbo com coluna, rótulo propriedade volume. Segundo: lâmina bimetálica curvada com dois metais em cores diferentes, rótulo propriedade curvatura por dilatação. Terceiro: recipiente de gás ligado a um manômetro, rótulo propriedade pressão a volume constante. Quarto: fio em espiral ligado a um ohmímetro, rótulo propriedade resistência elétrica; ao lado, dois fios de metais diferentes unidos numa junção ligada a um voltímetro, rótulo termopar, tensão elétrica. Quinto: pistola apontada para uma superfície com ondas saindo dela, rótulo propriedade radiação emitida, sem contato. Abaixo de cada painel, a faixa de temperaturas em que o tipo funciona.
Cinco jeitos de ler a agitação molecular sem vê-la: cada termômetro escolhe uma propriedade que varia com a temperatura e a traduz em graus. Os quatro primeiros precisam entrar em equilíbrio térmico com o objeto; o infravermelho lê a radiação que o objeto emite e por isso mede à distância e em um segundo. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (o termômetro de resistência do PAS 3 2013). Um gráfico da 3.ª etapa de 2013 mostrava a resistência de um termômetro de platina crescendo em linha reta com a temperatura: 1 Ω a 0 °C, 3 Ω a 2 °C, 5 Ω a 4 °C, e assim por diante até 21 Ω a 20 °C. A propriedade termométrica é a resistência; a “régua” é a reta R=1+TR = 1 + T, com RR em ohms e TT em graus Celsius (inclinação 20/20=120/20 = 1 Ω/°C, intercepto 1 Ω). O item tipo B pedia a resistência a 50 °C: R=1+50=51R = 1 + 50 = 51 Ω, marcação 051. Outro item afirmava que a resistência equivalente de dois desses resistores em série “independe da temperatura”: errado, porque Rseˊrie=2R=2+2TR_{\text{série}} = 2R = 2 + 2T depende de TT tanto quanto cada resistor. Conferência: a 20 °C, R=21R = 21 Ω bate com o último ponto do gráfico. Todo termômetro é isto: uma propriedade, uma reta (ou uma curva calibrada) e uma leitura.

Construindo uma escala: dois pontos fixos e uma régua

Um termômetro sem números é um termoscópio: mostra que esquentou ou esfriou, não quanto. Para virar termômetro, precisa de uma escala, e toda escala se constrói do mesmo jeito: escolhem-se dois fenômenos que acontecem sempre à mesma temperatura, os pontos fixos, atribuem-se números a eles e divide-se o intervalo em partes iguais. Os pontos fixos clássicos são o gelo fundindo em água (ponto de gelo) e a água fervendo (ponto de vapor), ambos sob pressão de 1 atm, porque a pressão desloca as duas temperaturas.

  • Celsius (1742): ponto de gelo em 0, ponto de vapor em 100, intervalo dividido em 100 graus. É a escala do cotidiano em quase todo o mundo.
  • Fahrenheit (1724): ponto de gelo em 32, ponto de vapor em 212, intervalo dividido em 180 graus. Fahrenheit partiu de outros pontos fixos (uma mistura de gelo, água e sal como zero; o corpo humano perto de 96) e os números da água ficaram “tortos” quando a escala foi refeita. É usada nos Estados Unidos e em poucos outros países.
  • Kelvin (1848): mesmo tamanho de grau que Celsius, zero deslocado para o zero absoluto. Ponto de gelo em 273,15 K, ponto de vapor em 373,15 K. É a unidade de temperatura do SI; escreve-se “kelvin”, símbolo K, sem o símbolo de grau e sem maiúscula no nome.
Três réguas verticais lado a lado, rotuladas kelvin, Celsius e Fahrenheit. Duas linhas horizontais tracejadas atravessam as três réguas: a de cima, rotulada água fervendo a 1 atm, passa por 373,15 K, 100 graus Celsius e 212 graus Fahrenheit; a de baixo, rotulada gelo fundindo, passa por 273,15 K, 0 grau Celsius e 32 graus Fahrenheit. O intervalo entre as duas linhas está marcado como 100 divisões nas réguas kelvin e Celsius e 180 divisões na régua Fahrenheit. Uma terceira linha, mais abaixo, rotulada zero absoluto, passa por 0 K, menos 273,15 graus Celsius e menos 459,67 graus Fahrenheit. Uma marca intermediária indica o corpo humano em 310 K, 37 graus Celsius e 98,6 graus Fahrenheit.
Três réguas para a mesma agitação. Kelvin e Celsius têm o mesmo degrau e zeros em lugares diferentes; Fahrenheit divide o mesmo intervalo (gelo a vapor) em 180 partes em vez de 100, por isso o degrau é menor. Todas as conversões saem de ler a mesma altura em réguas diferentes. Diagrama autoral.

Como toda escala é uma reta entre dois pontos fixos, a conversão entre duas escalas quaisquer é uma proporção: a fração do intervalo percorrida é a mesma em qualquer régua.

A proporção que gera todas as conversões

Para uma temperatura qualquer, a fração do intervalo entre o ponto de gelo e o ponto de vapor é a mesma em todas as escalas:

TC−0100−0=TF−32212−32=TK−273,15373,15−273,15⟹TC5=TF−329=TK−273,155\frac{T_C - 0}{100 - 0} = \frac{T_F - 32}{212 - 32} = \frac{T_K - 273{,}15}{373{,}15 - 273{,}15} \qquad\Longrightarrow\qquad \frac{T_C}{5} = \frac{T_F - 32}{9} = \frac{T_K - 273{,}15}{5}

Dela saem as fórmulas de uso: TK=TC+273,15T_K = T_C + 273{,}15 (nas provas, 273) e TF=1,8 TC+32T_F = 1{,}8\,T_C + 32. E dela sai também a conversão para qualquer escala inventada: basta saber os dois pontos fixos.

Exemplo resolvido (a escala Z do PAS 2 2011). A 2.ª etapa de 2011 definiu “uma nova escala de temperatura, denominada Z”, com o gelo em 32 °Z e a ebulição da água em 212 °Z, e pediu duas coisas. Primeiro, julgar se “a temperatura na escala Z pode ser obtida a partir da temperatura em graus Celsius por meio de uma função linear cujo coeficiente angular é igual a 9/5”. Monte a proporção: TC100=TZ−32212−32=TZ−32180\dfrac{T_C}{100} = \dfrac{T_Z - 32}{212 - 32} = \dfrac{T_Z - 32}{180}, logo TZ=180100 TC+32=95 TC+32T_Z = \dfrac{180}{100}\,T_C + 32 = \dfrac{9}{5}\,T_C + 32. Coeficiente angular 9/5: certo. (A escala Z é a Fahrenheit com outro nome, e a banca contou com quem reconhecesse isso sem contas.) Segundo, item tipo B, a temperatura em °Z que corresponde a 5 °C: TZ=1,8×5+32=41T_Z = 1{,}8 \times 5 + 32 = 41, marcação 041. Conferência: 5 °C é 5 % do caminho entre o gelo e o vapor; 5 % de 180 são 9; 32+9=4132 + 9 = 41.

A escala de Celsius nasceu de cabeça para baixo, e −40 é onde duas réguas se cruzam

Anders Celsius propôs em 1742 uma escala com 100 no gelo e 0 na água fervendo; a inversão para a forma atual veio nos anos seguintes, por outros cientistas. E há uma temperatura em que Celsius e Fahrenheit marcam o mesmo número: T=1,8 T+32⇒T=−40T = 1{,}8\,T + 32 \Rightarrow T = -40. A −40 °C, o termômetro em Fahrenheit também marca −40. Kelvin e Celsius nunca coincidem (diferem sempre em 273,15); kelvin e Fahrenheit coincidem perto de 575.

Conversões: 273 e 32 são deslocamentos, 1,8 é o tamanho do degrau

Leia as duas fórmulas como geometria. TK=TC+273T_K = T_C + 273 diz que a régua kelvin é a régua Celsius deslocada: mesmo degrau, zero em outro lugar. TF=1,8 TC+32T_F = 1{,}8\,T_C + 32 diz duas coisas: a régua Fahrenheit tem degrau menor (1 °C vale 1,8 °F; 180 degraus onde Celsius tem 100) e zero em outro lugar (o gelo cai em 32). Com essa leitura, as conversões param de ser fórmulas decoradas.

Exemplo resolvido (ida e volta). Uma febre de 38,5 °C: em kelvin, 38,5+273=311,538{,}5 + 273 = 311{,}5 K; em Fahrenheit, 1,8×38,5+32=69,3+32=101,31{,}8 \times 38{,}5 + 32 = 69{,}3 + 32 = 101{,}3 °F. A temperatura normal de 36,5 °C dá 97,797{,}7 °F; 40 °C dá 104104 °F, o número que os filmes americanos usam para “febre alta”. No sentido inverso: o nitrogênio líquido ferve a 77 K, isto é, 77−273=−19677 - 273 = -196 °C; a superfície do Sol, a cerca de 5 800 K, está a 5 5275\,527 °C; uma receita americana que pede o forno a 350 °F quer (350−32)/1,8=176,7(350 - 32)/1{,}8 = 176{,}7 °C, os “180 °C” das receitas brasileiras.

Conferências rápidas que evitam erro de sinal: 0 °C é 32 °F e 273 K; 100 °C é 212 °F e 373 K; temperaturas ambiente (20 a 30 °C) ficam entre 68 e 86 °F e entre 293 e 303 K. Se uma conversão de 25 °C deu 45 °F ou 248 K, o sinal ou a ordem da operação está trocado.

Variação de temperatura: o erro mais barato da prova

Há duas perguntas diferentes que usam a palavra “temperatura”: qual é a temperatura (um ponto na régua) e quanto variou (uma distância na régua). A conversão de um ponto usa a fórmula inteira. A conversão de uma distância usa só o tamanho do degrau, porque o deslocamento do zero se cancela na subtração:

ΔTK=(TC,2+273)−(TC,1+273)=ΔTCΔTF=(1,8 TC,2+32)−(1,8 TC,1+32)=1,8 ΔTC\Delta T_K = (T_{C,2} + 273) - (T_{C,1} + 273) = \Delta T_C \qquad\qquad \Delta T_F = (1{,}8\,T_{C,2} + 32) - (1{,}8\,T_{C,1} + 32) = 1{,}8\,\Delta T_C

Variações nas três escalas

ΔTK=ΔTCΔTF=1,8 ΔTCΔTC=ΔTF1,8\Delta T_K = \Delta T_C \qquad\qquad \Delta T_F = 1{,}8\,\Delta T_C \qquad\qquad \Delta T_C = \frac{\Delta T_F}{1{,}8}

O 273 e o 32 nunca entram numa variação. Consequência prática: toda grandeza “por grau” tem o mesmo valor em °C⁻¹ e em K⁻¹: o coeficiente de dilatação do aço é 1,2×10−51{,}2 \times 10^{-5} °C⁻¹ = 1,2×10−51{,}2 \times 10^{-5} K⁻¹; o calor específico da água é 4 186 J/(kg·°C) = 4 186 J/(kg·K). Uma tabela em kelvin e uma em Celsius são a mesma tabela.

Três réguas horizontais empilhadas, rotuladas Celsius, kelvin e Fahrenheit. Em cada uma, um segmento destacado vai da temperatura inicial à final de um mesmo aquecimento. Na régua Celsius, de 20 a 60 graus, com o rótulo variação de 40. Na régua kelvin, de 293 a 333, com o rótulo variação de 40, igual. Na régua Fahrenheit, de 68 a 140, com o rótulo variação de 72, igual a 1,8 vezes 40. Um aviso riscado mostra a conta errada 40 mais 273 igual a 313 kelvin de variação, com a palavra não.
O mesmo aquecimento de 20 °C para 60 °C visto em três réguas: a distância vale 40 em Celsius, 40 em kelvin e 72 em Fahrenheit. Somar 273 a uma variação é tratar uma distância como se fosse um ponto: é o erro que a banca planta com mais frequência. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (os tanques de sal do PAS 2 2012). A 2.ª etapa de 2012 descreveu uma usina solar em que sal fundido circula entre um tanque frio a 545 °F e um tanque quente a 1 049 °F, e pediu para julgar: “a diferença absoluta entre as temperaturas dos tanques de armazenamento de sal líquido é superior a 273 K”. A diferença em Fahrenheit é 1 049−545=5041\,049 - 545 = 504 °F. É uma variação, então só o degrau importa: 504/1,8=280504/1{,}8 = 280 °C. E uma variação em Celsius vale o mesmo número em kelvin: 280 K, maior que 273. Certo. Os dois caminhos para o erro: somar 273 a 280 (tratar a diferença como ponto) ou esquecer de dividir por 1,8 (e achar que 504 °F de diferença são 504 K). Conferência pela ordem de grandeza: 545 °F são 285 °C e 1 049 °F são 565 °C; a diferença, 280 °C, bate.

Variação não ganha 273

“A temperatura subiu 40 °C, ou seja, 313 K” é a frase errada mais frequente da termologia. Subiu 40 °C é subiu 40 K. Regra de bolso: se a frase tem “variou”, “aumentou”, “diminuiu”, “diferença”, só o fator 1,8 pode aparecer, nunca o 273 nem o 32. Se a frase tem “está a”, “atinge”, “marca”, a fórmula inteira entra. O PAS 2 de 2016 trouxe uma variação de “−10 K” para um fio metálico: são −10 °C, e a dilatação se calcula direto, sem conversão.

Zero absoluto: onde a escala acaba e por que kelvin entra nas fórmulas

Aqueça um gás rarefeito mantendo a pressão constante e registre o volume a cada temperatura: os pontos caem numa reta. Prolongue a reta para baixo, para temperaturas em que o gás já teria virado líquido e o experimento não pode continuar: ela cruza o volume zero sempre no mesmo lugar, −273,15 °C, qualquer que seja o gás, a massa ou a pressão escolhida. O mesmo acontece com a pressão de um gás a volume constante. Uma temperatura em que um gás ideal teria volume ou pressão nulos é uma temperatura em que a agitação seria a mínima possível: é o zero absoluto, e não existe temperatura abaixo dele. William Thomson, o futuro Lord Kelvin, propôs em 1848 pôr o zero da escala ali, mantendo o degrau de Celsius. Nasceu a escala absoluta.

Gráfico com a temperatura em graus Celsius no eixo horizontal, de menos 300 a 100, e o volume de um gás a pressão constante no eixo vertical. Três retas de inclinações diferentes, rotuladas gás A, gás B e gás C, são traçadas com pontos experimentais na região entre 0 e 100 graus e prolongadas em tracejado para a esquerda; as três se encontram no eixo horizontal no mesmo ponto, marcado menos 273,15 graus Celsius e zero kelvin, com o rótulo zero absoluto. Um segundo eixo horizontal, abaixo, mostra a escala kelvin com 0, 273 e 373.
Gases diferentes, retas diferentes, um só ponto de encontro: prolongadas até o volume zero, todas as retas V×TV \times T de um gás a pressão constante cruzam o eixo em −273,15 °C. É a definição operacional do zero absoluto e o motivo de a escala kelvin começar ali. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (a reta do PAS 2 2022). A 2.ª etapa de 2022 mostrou um gráfico da temperatura (°C) de um gás ideal a pressão constante contra o volume (litros), com pontos alinhados: (11 L; 2 °C) e (13,2 L; 57 °C), entre outros. O item tipo B pedia “a intersecção da reta com o eixo das temperaturas, de modo a obter o valor de seu módulo”. Inclinação: (57−2)/(13,2−11)=55/2,2=25(57 - 2)/(13{,}2 - 11) = 55/2{,}2 = 25 °C/L. Reta: T=2+25 (V−11)=25 V−273T = 2 + 25\,(V - 11) = 25\,V - 273. Em V=0V = 0, T=−273T = -273 °C; módulo 273. Não é coincidência: a lei dos gases, pV=nRTpV = nRT, dá VV proporcional à temperatura absoluta, então em graus Celsius a reta é TC=(constante)×V−273T_C = (\text{constante}) \times V - 273 para qualquer gás. Quem conhece o zero absoluto sabe a resposta antes de calcular; a conta serve de conferência.

Zero absoluto e a escala kelvin

Zero absoluto: 00 K =−273,15= -273{,}15 °C =−459,67= -459{,}67 °F, limite inferior das temperaturas, em que a agitação térmica seria a mínima possível. Não pode ser atingido, só aproximado: o recorde de laboratório está na casa dos bilionésimos de kelvin. O kelvin é a unidade de temperatura do SI; desde 2019 é definido fixando o valor da constante de Boltzmann (k=1,380 649×10−23k = 1{,}380\,649 \times 10^{-23} J/K), e não mais pelo ponto triplo da água (273,16 K), que era o ponto fixo até então. Na escala kelvin não há temperaturas negativas, e o degrau é o mesmo de Celsius.

Por que as fórmulas de gases e de termodinâmica exigem kelvin? Porque nelas a temperatura aparece multiplicando ou dividindo, e isso só faz sentido numa escala cujo zero é físico. Diga que um gás a 20 °C foi aquecido até “o dobro da temperatura”. O dobro de 20 °C não é 40 °C: 20 °C são 293 K; o dobro, 586 K, são 313 °C. A pressão de um gás a volume constante dobra quando a temperatura absoluta dobra, o rendimento máximo de uma máquina térmica é 1−Tf/Tq1 - T_f/T_q com as duas em kelvin, a potência irradiada por um corpo cresce com T4T^4 em kelvin. Em todos esses casos, usar Celsius dá um número sem significado (e, em 0 °C, daria pressão zero, rendimento infinito ou radiação nula, o que é absurdo). A regra prática: diferenças podem ficar em Celsius; razões, produtos e potências exigem kelvin.

"Dobrou a temperatura: de 20 °C para 40 °C"

40 °C não é o dobro de 20 °C em nenhum sentido físico: em kelvin, 313 K está 7 % acima de 293 K. “Dobrar a temperatura” só tem significado na escala absoluta. O mesmo vale para “temperatura negativa”: −5 °C não é uma agitação negativa, é 268 K, uma agitação um pouco menor que a de 0 °C. E um item que fale em “temperatura de 0 K atingida no laboratório” está errado: o zero absoluto é limite, não estado alcançável.

Ordem de grandeza: um mapa de temperaturas

Saber onde cada temperatura mora na régua é o que permite julgar um item sem conta e pegar um erro de conversão pelo tamanho do número. Valores arredondados, à pressão de 1 atm salvo indicação (os de Brasília são as normais climatológicas do INMET de 1991–2020: mínima média de julho 13,9 °C, média anual 21,4 °C):

temperatura °C K o que é
zero absoluto −273,15 0 limite inferior; inatingível
radiação cósmica de fundo −270 2,7 a temperatura do universo hoje
nitrogênio líquido fervendo −196 77 criogenia, laboratório
recorde de frio na superfície da Terra −89 184 Vostok, Antártida, 1983
mercúrio congela −39 234 limite inferior do termômetro de mercúrio
gelo fundindo 0 273 ponto fixo
água mais densa 4 277 anomalia da água (dilatação)
madrugada de julho em Brasília ~14 ~287 mínima média do mês mais frio (INMET, 1991–2020: 13,9 °C)
média anual de Brasília ~21 ~294 normal climatológica
“temperatura ambiente” da física 25 298 valor de referência em tabelas
corpo humano 36,5 a 37,5 ~310 98,6 °F; febre acima de ~37,8 °C
água fervendo em Brasília ~96 ~369 pressão menor a 1 100 m de altitude
água fervendo ao nível do mar 100 373 ponto fixo
forno doméstico 180 a 250 450 a 520 “forno médio” das receitas
mercúrio ferve 357 630 limite superior do termômetro de mercúrio
ferro funde 1 538 1 811 siderurgia
chama azul do fogão a gás ~1 900 ~2 200 termopar, não termômetro de vidro
superfície do Sol ~5 500 ~5 800 lida pela radiação (pirometria)
núcleo do Sol ~15 milhões ~15 milhões fusão nuclear

Duas leituras. Primeira: da metade da tabela para cima, a diferença entre °C e K vira detalhe (5 500 contra 5 800), e por isso astrônomos falam direto em kelvin. Segunda: o termômetro de mercúrio cobre só de −39 °C a 357 °C; abaixo, álcool ou termopar; acima, termopar ou infravermelho. Item que ponha um termômetro de mercúrio para medir a chama do fogão ou o nitrogênio líquido está fisicamente errado.

Sensação térmica não é termômetro

Numa manhã fria em Brasília, você abre a gaveta da cozinha: a tampa de inox parece gelada, e a tábua de madeira ao lado dela, não. Os dois objetos ficaram a noite inteira na mesma gaveta fechada, de modo que, pela lei zero, estão à mesma temperatura. A diferença está na mão, não nos objetos. A pele está a uns 33 °C e é ela o “termômetro”, um termômetro que mede fluxo de calor, não temperatura. O metal conduz calor muito bem e drena energia da mão depressa; a madeira, isolante, drena devagar. A mão interpreta drenagem rápida como “frio”. À tarde, com os dois objetos a 60 °C dentro de um carro fechado, a fivela de metal queima e o plástico só incomoda: agora o metal cede calor à mão depressa, e a interpretação é “muito quente”. O mesmo motivo, condutividade térmica, e é assunto de propagação de calor.

A banca levou isso à 2.ª etapa de 2016, num bloco sobre um fio metálico: “a uma mesma temperatura, o metal parece mais frio que o concreto. Isso ocorre porque a capacidade térmica do metal é maior que a do concreto.” A observação é correta; a causa, não. Capacidade térmica é quanto calor um corpo precisa para variar de temperatura (calorimetria); o que decide a sensação é a velocidade com que o calor sai da mão, a condutividade. Item errado por causa trocada.

A "sensação térmica" do noticiário

Quando a previsão diz “temperatura de 12 °C, sensação térmica de 7 °C”, ela não está medindo duas temperaturas: está corrigindo a leitura do termômetro por um índice que leva em conta o vento (e, no calor, a umidade). O vento renova o ar junto à pele e aumenta o fluxo de calor que sai do corpo; a pele “lê” um frio maior. O termômetro, que não tem pele, marca 12 °C com ou sem vento. Sensação térmica é uma estimativa de fluxo; temperatura é um estado.

Como a banca pergunta

Nas três etapas, a diferença entre temperatura e calor raramente é o assunto declarado de um item; ela costuma ser o critério escondido que decide um item de calorimetria, de propagação ou de gases. O que a banca pergunta às claras são as escalas, quase sempre na forma de uma variação a converter, e o zero absoluto, ora como conta, ora como conceito.

  • PAS 1 2005 (itens 131 e 133): recipiente de vapor d’água com termômetro de mercúrio e êmbolo. Temperatura como grau de agitação (certo); sentido em que o mercúrio se move quando o êmbolo comprime o gás (o item invertia o sentido: errado).
  • PAS 2 2011 (itens 100 e 101): escala inventada Z com 32 e 212 nos pontos fixos; coeficiente angular 9/5 (certo) e 5 °C = 41 °Z (tipo B).
  • PAS 2 2012 (item 63): diferença de temperaturas em °F comparada com 273 K (certo, 280 K).
  • PAS 3 2013 (itens 109 e 111): termômetro de resistência com gráfico R×TR \times T linear; resistência a 50 °C (tipo B, 51 Ω) e associação em série que “independe da temperatura” (errado).
  • PAS 2 2016 (item 99): sensação térmica do metal atribuída à capacidade térmica (errado, causa trocada).
  • PAS 2 2022 (item 78): reta T×VT \times V de um gás a pressão constante prolongada até o eixo das temperaturas (tipo B, 273).

Formatos com item real atrás: item A conceitual sobre o que a temperatura mede (2005/133), item A de limiar com conversão de variação (2012/63), item B com escala arbitrária (2011/101) ou extrapolação até o zero absoluto (2022/78), e leitura de gráfico linear de calibração (2013/111). O vocabulário puro (“possui calor”, “temperatura mede calor”, “equilíbrio significa energias iguais”) ainda não veio nu, mas decide itens de calorimetria e de propagação, como o 2016/99. Nenhum exige mais que uma proporção e a leitura certa de “está a” contra “variou”.

Os erros que a prova planta

  1. “Frio” como substância. Nada “entra frio” num corpo; o corpo esfria porque cede calor. A geladeira não põe frio na comida: retira calor dela.
  2. “Temperatura mede calor.” Temperatura mede agitação (estado); calor é energia em trânsito (processo). O termômetro mede temperatura; calor se calcula (Q=mcΔTQ = mc\Delta T, na página de calorimetria).
  3. “Corpo possui/contém/armazena calor.” Possui energia interna. Vocabulário errado é item errado.
  4. Somar 273 a uma variação. ΔT\Delta T vale o mesmo em °C e em K. Só temperaturas (pontos) ganham 273.
  5. Esquecer o 1,8 na variação em Fahrenheit. 504 °F de diferença são 280 °C, não 504 °C nem 472 °C (504 − 32).
  6. “Dobrar a temperatura” em Celsius. Só faz sentido em kelvin: o dobro de 20 °C é 313 °C.
  7. Corpo maior tem temperatura maior. Temperatura é média por partícula; a piscina fria tem mais energia interna que a xícara quente, e temperatura menor.
  8. Equilíbrio térmico = energias iguais. É temperaturas iguais. Massas, materiais e energias podem ser diferentes.
  9. Ler o termômetro antes do equilíbrio. A leitura é a temperatura do termômetro, não a do corpo, até o fluxo cessar.
  10. Sensação = temperatura. A pele mede fluxo de calor; a tampa de inox e a tábua de madeira estão à mesma temperatura.
  11. Kelvin com grau e maiúscula. É “300 K” e “300 kelvins”, não “300 °K” nem “300 Kelvin”.
  12. Termômetro de mercúrio para tudo. Funciona entre −39 °C e 357 °C; fora disso, álcool, termopar ou infravermelho.

O essencial em meia página

  • Temperatura: quantifica a agitação média das partículas; por ser média, não depende do tamanho do corpo. Energia interna: soma de todas as energias microscópicas; cresce com a massa.
  • Calor (QQ): energia enquanto passa de um corpo a outro por diferença de temperatura, do quente para o frio. Ninguém “tem” calor. Trabalho (comprimir, esfregar) também muda a energia interna.
  • Equilíbrio térmico: temperaturas iguais, fluxo zero. Lei zero: A ~ C e B ~ C ⟹ A ~ B; é o que faz o termômetro funcionar. O termômetro mede a própria temperatura, depois de igualá-la à do corpo: espere, e use um sensor pequeno.
  • Propriedade termométrica: volume (líquido), curvatura (bimetálico), pressão (gás), resistência (platina, termistor), tensão (termopar), radiação (infravermelho). Mercúrio: −39 °C a 357 °C.
  • Escalas por pontos fixos (gelo 0 °C = 32 °F = 273,15 K; vapor 100 °C = 212 °F = 373,15 K):

    TC5=TF−329=TK−2735TF=32+1,8 TCTK=TC+273\frac{T_C}{5} = \frac{T_F - 32}{9} = \frac{T_K - 273}{5} \qquad T_F = 32 + 1{,}8\,T_C \qquad T_K = T_C + 273

    Escala inventada: monte a mesma proporção com os pontos fixos dados.
  • Variações: ΔTK=ΔTC\Delta T_K = \Delta T_C; ΔTF=1,8 ΔTC\Delta T_F = 1{,}8\,\Delta T_C. Nunca 273 nem 32 numa variação. °C⁻¹ = K⁻¹; J/(kg·°C) = J/(kg·K).
  • Zero absoluto: 0 K = −273,15 °C; extrapolação da reta V×TV \times T (ou p×Tp \times T) de um gás até zero; limite inatingível. Razões, produtos e potências de temperatura exigem kelvin (pV=nRTpV = nRT, Carnot, T4T^4). Dobro de 20 °C = 586 K = 313 °C.
  • Ordem de grandeza: N₂ líquido 77 K; corpo 37 °C ≈ 310 K; ambiente 25 °C = 298 K; Sol ~5 800 K.
  • Sensação térmica mede fluxo de calor pela pele (condutividade), não temperatura: inox e madeira da mesma gaveta à mesma temperatura; PAS 2016/99 errou a causa.
  • Decisão na prova: “está a / atinge / marca” → fórmula inteira; “variou / diferença / aumentou” → só o 1,8 (ou nada, de °C para K). “Possui calor” → item errado. “Dobrou a temperatura” → só em kelvin.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

AULA #12 - Termologia – TEMPERATURA e CALOR
Foca na Física · 9:19
Introdução. Aula de 9 minutos cuja descrição fixa exatamente a separação desta página: “a temperatura é a medida do grau de agitação ou a energia cinética média das moléculas” e “o calor corresponde à energia térmica em trânsito que se transfere de um corpo com maior temperatura para outro de menor temperatura”, até “o equilíbrio térmico”. É o par de seções “Temperatura mede agitação, não quantidade de ‘quente’” e “Calor é energia em trânsito”, em linguagem de primeira aula. Assista antes de ler, para chegar ao vocabulário dos itens conceituais com as duas palavras já separadas.
Termologia - 1.1 Lei Zero da Termodinâmica
Viciados em Física · 29:36
Aprofundamento. Aula de 30 minutos cujo roteiro, na descrição do autor, é a espinha desta página: “todo corpo é constituído de partículas”, “o que é energia interna?”, “o que é equilíbrio térmico?”, “o que é a lei zero da termodinâmica?”, “o que é temperatura?”. Cobre a seção “Equilíbrio térmico e a lei zero: por que o termômetro funciona” e a distinção temperatura × energia interna da primeira seção, com tempo para o argumento de que a lei zero é o que dá sentido à medida. Veja depois de ler o box de conceito da lei zero.
Dedução - Converter Temperatura Celsius, Fahrenheit e Kelvin
Física e Exercício · 16:22
Aplicação. Aula de 16 minutos que, segundo a descrição, “inicia descrevendo como construir as escalas de temperatura Celsius e Fahrenheit em função dos pontos de fusão e de ebulição da água”, discute “o fato básico ao qual está relacionada a escala de temperatura Kelvin, o zero absoluto” e demonstra “uma relação de variação entre estas escalas” (1 °C = 1,8 °F). É a seção “Construindo uma escala: dois pontos fixos e uma régua” feita passo a passo no quadro, o mesmo caminho que resolve a escala Z do PAS 2011. (A descrição escreve o zero absoluto como “−273,15 K”, um lapso de unidade; na aula o valor é tratado em graus Celsius.)
Conversão entre Escalas Termométricas - Brasil Escola
Brasil Escola Oficial · 19:19
Resolução. Aula de 19 minutos que, além da equação de conversão, promete na descrição discutir “a diferença entre conversão e variação de temperaturas”, que é o núcleo da seção “Variação de temperatura: o erro mais barato da prova” e do item PAS 2012/63 (504 °F de diferença = 280 K). Use como treino de conta depois dos exercícios de conversão desta página: os erros que a banca planta (somar 273 a uma variação, esquecer o 1,8) aparecem resolvidos no quadro.
Rota PAS 2
Termologia: temperatura, calor e calorimetria · PAS 2

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 2 — Termologia: temperatura, calor e calorimetria · Abertura (maçaneta e madeira na mesma sala; temperatura é o que o termômetro marca, calor é o que passa); Antes de começar: dez minutos de aquecimento (ideia 1, temperatura é um número numa escala; quadro O que cai daqui, linha Temperatura, escalas e equilíbrio); Temperatura e calor: o que o termômetro mede e o que passa de um corpo a outro (conceito, tabela de símbolos, exemplo da febre de 39 °C, Na prova com os itens 2012/63 e 2016/99 e a menção ao tipo B de 2022, armadilha O corpo quente tem mais calor, checagem da elevação de 20 °C); Como a banca cobra (histórico: temperatura, equilíbrio e escalas em 2012/63, 2016/99 e 2022/78); Resolvidos (A maçaneta gelada); Síntese (parágrafo Temperatura × calor); Banco de treino (T15 zero absoluto, T18 lei zero, T20 variação em Fahrenheit)

    Recorte por assunto: a definição de temperatura e de calor, o equilíbrio térmico, as três escalas e a regra da variação. A página acrescenta o modelo cinético (energia cinética média, grandeza intensiva, energia interna), a lei zero e o funcionamento do termômetro (tempo de resposta, massa do sensor), as propriedades termométricas e os tipos de termômetro com faixas de uso, a construção de escalas por pontos fixos e a proporção geral (inclusive escalas arbitrárias), a dedução explícita da regra das variações, a extrapolação do gás até o zero absoluto e a definição atual do kelvin, o argumento de por que razões de temperatura exigem kelvin, o mapa de ordens de grandeza e a sensação térmica meteorológica, ausentes do capítulo. Dilatação, calorimetria, mudanças de fase e transmissão de calor do mesmo capítulo ficam nas páginas vizinhas.

  • Cadernos oficiais do PAS/UnB — 1.ª, 2.ª e 3.ª etapas (Cebraspe) · PAS 1 2005 (itens 131 e 133, recipiente de vapor com termômetro de mercúrio e êmbolo), PAS 2 2011 (itens 100 e 101, escala Z), PAS 2 2012 (item 63, tanques de sal da usina de helióstato), PAS 3 2013 (itens 109 e 111, termômetro de resistência), PAS 2 2022 (item 78, reta T × V de um gás a pressão constante)

    Oito itens reais reproduzidos verbatim, com textos-base como impressos e figuras descritas de forma neutra; gabaritos conferidos nos arquivos AAAA-PASn-GAB.txt e as páginas com figura conferidas nas imagens dos PDFs em utils/material/PAS/provas/ (2012 p. 12, 2022 p. 10, 2011 p. 17, 2013 p. 16, 2005 p. 18). O item 2016/99 (sensação térmica) é reusado por GUID da página de calorimetria.

  • Classificação editorial dos itens do PAS (2005–2025) · Itens com tema de temperatura, escalas e equilíbrio: 2011.json (100, 101), 2012.json (63), 2016.json (99), 2022.json (78); em classificacao/2005.json (131, 133) e classificacao-pas3/2013.json (109, 111)

    Usada para localizar os itens e confirmar tipo, gabarito e contexto (figura, texto-base).