Impulso e quantidade de movimento

Guia de estudo · Revisado em 16/09/2026

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Um ônibus a 72 km/h para em meio segundo; para um passageiro de 80 kg parar junto, algo precisa segurá-lo com 3 200 N, quatro vezes o seu peso. Com airbag e zona de deformação a parada leva dois segundos e a força cai para 800 N. O que o passageiro tinha de perder não mudou um grama: o que mudou foi o tempo. Por quê?

O que você vai aprender

  • Definir quantidade de movimento por p = m·v, expressá-la em kg·m/s, reconhecer seu caráter vetorial (sinal em linha reta, soma vetorial num sistema) e distingui-la de força e de energia cinética.
  • Calcular o impulso de uma força constante por I = F·Δt e o de uma força variável pela área com sinal do gráfico F × t, obtendo a força média como a força constante de mesma área, e distinguir impulso (N·s) de trabalho (J).
  • Enunciar o teorema do impulso, I_res = Δp, deduzi-lo da segunda lei e reconhecer F_res = Δp/Δt como a forma original de Newton, válida inclusive com massa variável; aplicar a exigência de que o impulso é o da força resultante.
  • Calcular Δp e a força média em inversões de velocidade (bola na parede, raquete, taco), escrevendo velocidades com sinal e somando módulos na inversão.
  • Explicar por que airbag, cinto, zona de deformação, capacete, colchão e joelho flexionado reduzem a força média ao aumentar o tempo da parada, sem alterar a variação da quantidade de movimento, e resolver o item tipo B do PAS 1 de 2022 sobre a frenagem do ônibus.
  • Ler gráficos F × t (área = impulso, pico ≠ média, trecho negativo) e v × t (inclinação = aceleração, m·Δv = Δp), reconhecendo que velocidade constante implica impulso resultante nulo.
  • Enunciar a conservação da quantidade de movimento de um sistema isolado como consequência do teorema do impulso e aplicá-la ao recuo e à explosão a partir do repouso (m₁v₁ = −m₂v₂), identificando o sistema correto e distinguindo conservação de p de conservação de energia cinética.
  • Usar Ec = p²/2m para comparar corpos de mesma quantidade de movimento e massas diferentes e relacionar impulso (tempo) e trabalho (distância) como dois caminhos para a mesma força média.

Um ônibus a 72 km/h freia e para em meio segundo. Um passageiro de 80 kg, sem cinto, continua a 72 km/h por inércia até encontrar o banco da frente, o vidro ou o chão. Para que ele pare junto com o ônibus, algo tem de segurá-lo com uma força de 3 200 N, quatro vezes o seu peso, durante esse meio segundo. Foi exatamente isso que a prova do PAS 1 de 2022 pediu para calcular, sem escrever a palavra “impulso” em lugar nenhum. Agora troque o cenário: o mesmo passageiro, a mesma velocidade, mas a parada se espalha por dois segundos porque um airbag e uma zona de deformação amortecem o baque. A força cai para 800 N. O que o passageiro tinha de perder não mudou um grama; mudou o tempo em que ele perde.

Essa é a ideia inteira desta página. Todo corpo em movimento carrega uma “quantidade de movimento”, que é massa vezes velocidade; para mudá-la, é preciso força agindo por um tempo, e o produto força vezes tempo se chama impulso. O que se deve pagar (a variação da quantidade de movimento) é fixado pela situação; como se paga (força grande por pouco tempo ou força pequena por muito tempo) é escolha de engenharia. Airbag, cinto, capacete, colchão do salto em altura, o joelho que dobra quando você pula de um muro e a luva do goleiro são a mesma equação em roupas diferentes. E, quando nenhuma força externa age, essa quantidade simplesmente não muda: é a ponte para as colisões, que têm página própria.

Quanto movimento há para deter

Um caminhão de 12 toneladas manobrando a 2,5 m/s e um carro de 1 500 kg a 18 m/s: qual dos dois é mais difícil de parar? A velocidade diz que é o carro; a massa diz que é o caminhão. A física combina os dois numa só grandeza.

Quantidade de movimento (momento linear)

A quantidade de movimento de um corpo de massa mm e velocidade v⃗\vec v é

p⃗=m v⃗.\vec p = m\,\vec v.

É uma grandeza vetorial: aponta para onde a velocidade aponta (a massa é sempre positiva) e, num movimento retilíneo, herda o sinal que se atribui à velocidade. A unidade no SI é o quilograma-metro por segundo, kg⋅m/s\text{kg}\cdot\text{m/s}, sem nome próprio.

símbolo leitura no caminhão no carro
mm massa, em kg 12 000 kg 1 500 kg
vv velocidade, em m/s 2,5 m/s 18 m/s
p=mvp = mv quantidade de movimento, em kg·m/s 30 000 27 000

O caminhão lento carrega mais quantidade de movimento que o carro rápido, e é por isso que ele é mais difícil de parar. Repare no que a grandeza não é: não é energia (a energia cinética do carro, 12×1 500×182=243 000\tfrac12 \times 1\,500 \times 18^2 = 243\,000 J, é bem maior que a do caminhão, 37 500 J; a última seção desta página mostra por quê), não é força (um corpo em movimento uniforme tem quantidade de movimento e força resultante nula) e não é “velocidade com outro nome” (a massa pesa tanto quanto a velocidade).

Três painéis. No primeiro, um caminhão de 12 000 kg a 2,5 m/s e um carro de 1 500 kg a 18 m/s, cada um com uma seta de quantidade de movimento proporcional ao produto massa vezes velocidade: 30 000 e 27 000 kg·m/s, a seta do caminhão maior. No segundo, dois carrinhos de 2 kg a 3 m/s em sentidos opostos, com setas p = +6 e p = −6 kg·m/s. No terceiro, dois corpos com quantidades de movimento perpendiculares, 3 e 4 kg·m/s, e a soma vetorial de módulo 5 kg·m/s fechando o triângulo.
Quantidade de movimento é um vetor com o sentido da velocidade. Massa e velocidade pesam igual no produto (o caminhão lento vence o carro rápido); mesma rapidez em sentidos opostos dá quantidades de movimento opostas, e não iguais; e a soma de um sistema é uma soma **vetorial**: 3 e 4 perpendiculares dão 5, não 7. Diagrama autoral.

O caráter vetorial tem duas consequências que a prova cobra. A primeira é o sinal: dois carrinhos de 2 kg vindo um contra o outro a 3 m/s têm a mesma rapidez, mas quantidades de movimento opostas, +6+6 e −6 kg⋅m/s-6\ \text{kg}\cdot\text{m/s}, e a soma dos dois é zero, não 12. Antes de qualquer conta em linha reta, escolha um sentido como positivo e escreva com sinal negativo o que anda ao contrário. A segunda é a soma de um sistema: a quantidade de movimento total de vários corpos é a soma vetorial das quantidades de cada um. Se dois corpos se movem em direções perpendiculares com p1=3p_1 = 3 e p2=4 kg⋅m/sp_2 = 4\ \text{kg}\cdot\text{m/s}, o total tem módulo 32+42=5\sqrt{3^2 + 4^2} = 5, não 7; se um vem para o norte e outro para o sul com o mesmo módulo, o total é zero. Somar módulos só vale quando todos os vetores apontam para o mesmo lado. A regra de composição é a mesma dos vetores de força e velocidade.

Exemplo resolvido. Um carro de 1 500 kg a 72 km/h. Primeiro converta: 72/3,6=2072/3{,}6 = 20 m/s. Depois multiplique: p=1 500×20=30 000 kg⋅m/sp = 1\,500 \times 20 = 30\,000\ \text{kg}\cdot\text{m/s}. Se o carro andasse no sentido contrário ao escolhido como positivo, p=−30 000p = -30\,000. É esse o montante de movimento que freios, barreira ou airbag terão de zerar, e ele fica decidido antes de se saber como a parada vai acontecer. Conferência de unidade: kg vezes m/s dá kg·m/s; quem esquece a conversão e usa 72 obtém 108 000, com uma unidade híbrida que não existe.

Impulso: força vezes tempo

Para mudar a quantidade de movimento de um corpo é preciso aplicar força. Mas força sozinha não basta: uma força de 10 N aplicada por um centésimo de segundo quase não muda nada; a mesma força por dez segundos muda muito. A grandeza que mede “força acumulada ao longo do tempo” é o impulso.

Impulso de uma força

Se uma força constante F⃗\vec F age sobre um corpo durante um intervalo de tempo Δt\Delta t, seu impulso é

I⃗=F⃗ Δt.\vec I = \vec F\,\Delta t.

É um vetor com a direção e o sentido da força. A unidade é o newton-segundo, N⋅s\text{N}\cdot\text{s}, que é exatamente a unidade da quantidade de movimento: como 1 N=1 kg⋅m/s21\ \text{N} = 1\ \text{kg}\cdot\text{m/s}^2, então 1 N⋅s=1 kg⋅m/s1\ \text{N}\cdot\text{s} = 1\ \text{kg}\cdot\text{m/s}. As duas grandezas se medem na mesma unidade porque, como a próxima seção mostra, uma é a variação da outra.

Se a força varia durante o intervalo, o impulso é a área entre o gráfico da força em função do tempo e o eixo dos tempos, com sinal: trechos em que a força aponta no sentido positivo contam positivo; trechos em que aponta contra, negativo. A força média FmF_m do intervalo é a força constante que produziria a mesma área: I=Fm ΔtI = F_m\,\Delta t.

Dois gráficos de força em função do tempo. À esquerda, força constante de 20 N entre 0 e 0,2 s: a área é um retângulo de 4 N·s. À direita, um pulso triangular que sobe de zero até 40 N em 0,1 s e volta a zero em 0,2 s: a área do triângulo também vale 4 N·s, e uma linha tracejada em 20 N marca a força média, que tem a mesma área no mesmo intervalo. O pico de 40 N é o dobro da média.
Impulso é área no gráfico F×tF \times t. Força constante: retângulo, F ΔtF\,\Delta t. Força que sobe e desce num pulso: área do triângulo, metade de base vezes altura. Os dois pulsos têm o mesmo impulso, 4 N·s; a força **média** do pulso triangular é 20 N, metade do pico de 40 N. Numa colisão real a força de pico é sempre maior que a média que as fórmulas fornecem. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido. Numa colisão, a força que uma parede aplica a uma bola cresce de zero até 40 N em 0,1 s e cai de volta a zero nos 0,1 s seguintes. O impulso é a área do triângulo: 12×0,2×40=4 N⋅s\tfrac12 \times 0{,}2 \times 40 = 4\ \text{N}\cdot\text{s}. A força média nesses 0,2 s é Fm=I/Δt=4/0,2=20F_m = I/\Delta t = 4/0{,}2 = 20 N, metade do pico. Quem usa o pico como se fosse a força do intervalo inteiro obtém 40×0,2=8 N⋅s40 \times 0{,}2 = 8\ \text{N}\cdot\text{s}, o dobro do correto. E se, numa segunda fase, a bola recebesse uma força de −10-10 N (contra o sentido positivo) durante 0,1 s, esse trecho valeria −1 N⋅s-1\ \text{N}\cdot\text{s} e o impulso total seria 4−1=3 N⋅s4 - 1 = 3\ \text{N}\cdot\text{s}.

Impulso não é trabalho

As duas grandezas nascem da mesma força e se confundem por isso. Trabalho é força vezes distância percorrida (área no gráfico F×xF \times x), mede-se em joules e muda a energia cinética. Impulso é força vezes tempo de atuação (área no gráfico F×tF \times t), mede-se em newton-segundo e muda a quantidade de movimento. Um bloco empurrado por 5 m com 10 N recebe 50 J de trabalho; se esses 5 m levaram 2 s, o impulso foi 20 N·s. Os números são diferentes, as unidades são diferentes e o que cada um altera é diferente. Quando o enunciado dá tempo, pense em impulso; quando dá distância, pense em trabalho.

O teorema do impulso: a segunda lei como Newton a escreveu

Você aprendeu a segunda lei como Fres=m aF_{\text{res}} = m\,a. Substitua a aceleração pela sua definição, a=Δv/Δta = \Delta v/\Delta t, e multiplique os dois lados pelo tempo:

Fres Δt=m Δv=m vf−m vi=Δp.F_{\text{res}}\,\Delta t = m\,\Delta v = m\,v_f - m\,v_i = \Delta p.

Do lado esquerdo está o impulso da força resultante; do lado direito, a variação da quantidade de movimento. A igualdade é o teorema do impulso, e ela é a segunda lei de Newton com o tempo passado para o outro lado.

Teorema do impulso

Num intervalo de tempo qualquer, a quantidade de movimento de um corpo varia exatamente do impulso que a força resultante aplicou sobre ele nesse intervalo:

I⃗res=F⃗res Δt=Δp⃗=p⃗f−p⃗i.\vec I_{\text{res}} = \vec F_{\text{res}}\,\Delta t = \Delta\vec p = \vec p_f - \vec p_i.

Para força variável, usa-se a força média: F⃗m Δt=Δp⃗\vec F_m\,\Delta t = \Delta\vec p. Lida ao contrário, a mesma equação é a segunda lei na forma em que Newton a escreveu nos Principia, em 1687: a força resultante é a taxa de variação da quantidade de movimento,

F⃗res=Δp⃗Δt.\vec F_{\text{res}} = \frac{\Delta\vec p}{\Delta t}.

Essa forma é mais geral que F=maF = ma: continua válida quando a massa muda, como num foguete que queima combustível.

Duas palavras da definição decidem os itens de prova. A primeira é resultante: o teorema vale para a soma de todas as forças, não para uma força isolada. Se uma caixa em queda é freada por um paraquedas, o impulso que muda sua quantidade de movimento é o da resultante (arrasto menos peso), não o do arrasto sozinho. Só quando uma força domina largamente as outras, como a da parede numa bola que quica em milésimos de segundo, é aceitável identificar o impulso dela com Δp\Delta p. A segunda palavra é variação: Δp\Delta p é a quantidade final menos a inicial, como vetores, e não a diferença entre as rapidezes. A seção seguinte trata dela.

Exemplo resolvido (a bola do goleiro). Uma bola de 0,45 kg chega a 20 m/s: p=0,45×20=9 kg⋅m/sp = 0{,}45 \times 20 = 9\ \text{kg}\cdot\text{m/s}. Seja qual for a técnica da defesa, as mãos terão de produzir um Δp\Delta p de módulo 9. Goleiro de mãos travadas: a bola para em 0,1 s e Fm=9/0,1=90F_m = 9/0{,}1 = 90 N. Goleiro que acompanha a bola, cedendo os braços para trás: a parada se estende por 0,3 s e Fm=9/0,3=30F_m = 9/0{,}3 = 30 N. O tempo triplicou e a força caiu a um terço; o impulso não mudou, 9 N⋅s9\ \text{N}\cdot\text{s} nas duas defesas. Conferência: 90×0,1=30×0,3=990 \times 0{,}1 = 30 \times 0{,}3 = 9. É a mesma conta que o resto da página vai repetir com outros nomes.

Voltar é pagar dobrado: o sinal na inversão

A bola do goleiro parou. Mas e a bola que bate na parede e volta? Aqui a natureza vetorial de pp deixa de ser detalhe e vira o coração da conta. Uma bola de 0,2 kg chega a uma parede a 10 m/s e retorna a 6 m/s. Escolha o sentido de chegada como positivo: vi=+10v_i = +10, vf=−6v_f = -6 m/s. Então

Δp=m(vf−vi)=0,2×(−6−10)=0,2×(−16)=−3,2 kg⋅m/s.\Delta p = m(v_f - v_i) = 0{,}2 \times (-6 - 10) = 0{,}2 \times (-16) = -3{,}2\ \text{kg}\cdot\text{m/s}.

O sinal negativo diz que o impulso da parede aponta para longe dela, o que faz sentido: a parede empurra a bola de volta. O módulo, 3,2, é maior que a quantidade de movimento inicial da bola (2,0): para inverter um movimento é preciso primeiro apagá-lo e depois criá-lo no sentido contrário. Se o contato durou 0,04 s, a força média é Fm=3,2/0,04=80F_m = 3{,}2/0{,}04 = 80 N.

Uma bola de 0,2 kg chega a uma parede com velocidade de 10 m/s para a direita e volta com 6 m/s para a esquerda. Abaixo, três setas em escala sobre um eixo: a quantidade de movimento inicial, +2 kg·m/s, para a direita; a final, −1,2 kg·m/s, para a esquerda; e a variação, −3,2 kg·m/s, para a esquerda, mais longa que a inicial. Uma anotação compara com o erro de subtrair módulos, 2 − 1,2 = 0,8.
Na inversão, Δp\Delta p é a soma dos módulos, não a diferença. A bola chega com +2+2, sai com −1,2-1{,}2; a variação é −1,2−2=−3,2 kg⋅m/s-1{,}2 - 2 = -3{,}2\ \text{kg}\cdot\text{m/s}, apontando para fora da parede, e o impulso da parede tem esse valor. Quem faz 2−1,2=0,82 - 1{,}2 = 0{,}8 obtém um quarto da resposta. Diagrama autoral.
Subtrair módulos é o erro mais caro da página

Δp\Delta p é pf−pip_f - p_i com sinais. Na bola que volta, −1,2−(+2,0)=−3,2-1{,}2 - (+2{,}0) = -3{,}2, e não 2,0−1,2=0,82{,}0 - 1{,}2 = 0{,}8. A diferença é um fator quatro na força. O mesmo vale para a velocidade: a variação de velocidade de um corpo que chega a 6 m/s e volta a 4 m/s tem módulo 10 m/s, não 2. Regra prática: se o corpo inverteu o sentido, os módulos se somam; se manteve o sentido (acelerou ou freou sem voltar), os módulos se subtraem.

Exemplo resolvido (o taco e a bola). Uma bola de beisebol de 0,145 kg chega ao taco a 40 m/s e sai no sentido oposto a 50 m/s, após um contato de cerca de 1 milissegundo. Sentido de saída como positivo: vi=−40v_i = -40, vf=+50v_f = +50. Δp=0,145×(50−(−40))=0,145×90≈13 kg⋅m/s\Delta p = 0{,}145 \times (50 - (-40)) = 0{,}145 \times 90 \approx 13\ \text{kg}\cdot\text{m/s}. Força média: Fm=13/0,001=13 000F_m = 13/0{,}001 = 13\,000 N, cerca de 1,3 tonelada-força concentrada num ponto do taco, o que explica por que ele vibra na mão e às vezes quebra. Conferência de ordem de grandeza: o peso da bola é 1,45 N; durante o milissegundo do contato, a força do taco é quase dez mil vezes o peso, e por isso ignorar a gravidade nessa conta é legítimo.

Mesmo Δp, outro Δt: a engenharia da parada

Volte ao ônibus da abertura. A variação da quantidade de movimento do passageiro é fixa: Δp=80×20=1 600 kg⋅m/s\Delta p = 80 \times 20 = 1\,600\ \text{kg}\cdot\text{m/s}, decidida pela massa dele e pela velocidade do ônibus antes da freada. O que resta escolher é o tempo em que essa variação acontece, e a força vem de Fm=Δp/ΔtF_m = \Delta p/\Delta t:

como o passageiro para Δt\Delta t Fm=1 600/ΔtF_m = 1\,600/\Delta t em pesos do passageiro
contra o painel rígido 0,05 s 32 000 N 40
contra o banco da frente 0,2 s 8 000 N 10
freada do ônibus, com cinto (PAS 2022) 0,5 s 3 200 N 4
cinto + airbag + zona de deformação 2 s 800 N 1

Toda a segurança passiva de um veículo consiste em descer nessa tabela. O cinto distribui a força pelo tronco e faz o passageiro parar junto com o carro, e não depois, contra o painel; o airbag é uma bolsa que se interpõe entre o corpo e o volante e se esvazia enquanto o corpo afunda nela, esticando a parada por dezenas de milissegundos a mais; a zona de deformação da carroceria amassa progressivamente para que o próprio carro leve mais tempo para parar. Nenhum dos três reduz o que deve ser detido. Todos aumentam o tempo.

Gráfico de força em função do tempo com duas curvas de mesma área. A primeira, estreita e alta, representa a parada contra uma superfície rígida em 0,1 s com força média de 16 000 N. A segunda, larga e baixa, representa a parada com airbag em 0,4 s com força média de 4 000 N. As duas áreas valem 1 600 N·s, a variação da quantidade de movimento do passageiro de 80 kg a 20 m/s.
Mesma área, formatos diferentes. A variação da quantidade de movimento (1 600 N·s) é a área sob a curva, e ela é a mesma nas duas paradas. O airbag não encolhe a área: ele a espalha por um tempo quatro vezes maior, e a altura da curva, que é a força, cai a um quarto. Diagrama autoral.
O airbag não reduz a variação da quantidade de movimento

Afirmação típica de item de treino: “o airbag protege o ocupante porque diminui a variação de quantidade de movimento que o corpo dele sofre na colisão”. Errada. A variação é m Δvm\,\Delta v, decidida pela massa do ocupante e pela velocidade do veículo antes do choque; com ou sem airbag, o ocupante sai da velocidade do carro e chega a zero. O que o airbag encolhe é a força média, e consegue isso esticando o tempo da parada. Uma versão correta do item diria que, fixado o Δp\Delta p, força média e duração da interação são inversamente proporcionais: dobrou o tempo, a força caiu à metade.

Exemplo resolvido (PAS 1 2022, item 94, tipo B). “Os freios de um ônibus que viajava a 72 km/h foram acionados pelo motorista por 0,5 s, o que causou desaceleração constante e fez o ônibus parar completamente nesse intervalo de tempo. Supondo que um dos passageiros do ônibus tivesse 80 kg de massa, calcule a força necessária, em N, para que a frenagem do ônibus não o lançasse para frente. Divida o valor encontrado por 10.” Para o passageiro parar junto com o ônibus, sua quantidade de movimento precisa ir de 80×20=1 60080 \times 20 = 1\,600 a zero em 0,5 s: Fm=1 600/0,5=3 200F_m = 1\,600/0{,}5 = 3\,200 N; dividido por 10, marca-se 320. Conferência pela segunda lei na forma usual: a=20/0,5=40a = 20/0{,}5 = 40 m/s², F=80×40=3 200F = 80 \times 40 = 3\,200 N. Os dois caminhos são o mesmo teorema. Quem esquece a conversão de 72 km/h obtém 11 520, um número com quatro dígitos para um caderno de respostas que só aceita três: o tamanho da resposta já avisa que a conta saiu errada.

Exemplo resolvido (ensaio de colisão). Um boneco instrumentado de 65 kg viaja a 90 km/h quando o carro de teste colide com a barreira, e o conjunto cinto–airbag leva seu tronco ao repouso em 0,25 s. A força média passa de 6 000 N? Conversão: 90/3,6=2590/3{,}6 = 25 m/s. Δp=65×25=1 625 kg⋅m/s\Delta p = 65 \times 25 = 1\,625\ \text{kg}\cdot\text{m/s}. Fm=1 625/0,25=6 500F_m = 1\,625/0{,}25 = 6\,500 N: sim, passa de 6 000 N, e equivale a dez vezes o peso do boneco. Sem o airbag, com a parada em 0,05 s contra o volante, a força seria 32 500 N, cinquenta vezes o peso.

O joelho dobrado, o capacete e o colchão

Pule de um muro de 1,25 m: você chega ao chão a v=2gh=2×10×1,25=5v = \sqrt{2gh} = \sqrt{2 \times 10 \times 1{,}25} = 5 m/s. Com 60 kg, sua quantidade de movimento é 300 kg·m/s, e ela tem de ir a zero. Aterrissando de pernas rígidas, a parada leva uns 0,05 s: força média de 6 000 N, dez vezes o seu peso, nos tornozelos e na coluna. Dobrando os joelhos e deixando o corpo descer uns 75 cm, a parada se espalha por cerca de 0,3 s: 1 000 N, menos do dobro do peso. O capacete de ciclista faz o mesmo com a cabeça: a espuma de poliestireno esmaga alguns centímetros e converte um impacto de milissegundos numa parada de dezenas de milissegundos; por isso um capacete que já amassou uma vez deve ser trocado, porque a espuma não volta. O colchão do salto em altura, o piso emborrachado do parquinho, a rede do trapézio e a luva de goleiro seguem a mesma regra: mais tempo, menos força.

Dois gráficos, uma grandeza

A prova gosta de apresentar a informação em gráficos, e há dois que dizem coisas diferentes sobre a mesma grandeza. No gráfico de força em função do tempo, o impulso é a área; no gráfico de velocidade em função do tempo, a variação da quantidade de movimento é a massa vezes a variação de altura da curva, e a força resultante sai da inclinação. Quem confunde os dois lê área onde deveria ler inclinação.

Gráfico da velocidade do ônibus em função do tempo: uma reta descendente de 20 m/s em t igual a zero até zero em t igual a 0,5 s. A inclinação está marcada como menos 40 m/s², e a variação de velocidade, menos 20 m/s. Ao lado, o gráfico da força resultante sobre o passageiro de 80 kg: um retângulo negativo de 3 200 N entre 0 e 0,5 s, com a área marcada como menos 1 600 N·s, igual a m vezes delta v.
Os dois gráficos da frenagem do ônibus. No v×tv \times t, a queda de 20 m/s em 0,5 s dá a aceleração pela inclinação (−40-40 m/s²) e a variação da quantidade de movimento pela altura (80×(−20)=−1 600 kg⋅m/s80 \times (-20) = -1\,600\ \text{kg}\cdot\text{m/s}). No F×tF \times t, a mesma variação aparece como área do retângulo: −3 200×0,5=−1 600 N⋅s-3\,200 \times 0{,}5 = -1\,600\ \text{N}\cdot\text{s}. Diagrama autoral.

Leitura do gráfico v×tv \times t. A frenagem do ônibus é uma reta de 20 m/s até zero em 0,5 s. A inclinação da reta é a aceleração, −40-40 m/s², e a força resultante sobre o passageiro de 80 kg é 80×(−40)=−3 20080 \times (-40) = -3\,200 N. A variação da quantidade de movimento não precisa da aceleração: é mm vezes a variação de velocidade lida diretamente no eixo vertical, 80×(0−20)=−1 600 kg⋅m/s80 \times (0 - 20) = -1\,600\ \text{kg}\cdot\text{m/s}. Se a curva fosse torta em vez de reta, a força instantânea mudaria a cada instante, mas Δp\Delta p continuaria sendo m Δvm\,\Delta v entre o começo e o fim: o teorema do impulso não exige força constante.

Leitura do gráfico F×tF \times t. A área é o impulso, com sinal. Um trecho abaixo do eixo (força contra o sentido positivo) reduz a quantidade de movimento; um trecho acima aumenta. Se a força de um motor sobre um carrinho de 2 kg vale 6 N nos primeiros 2 s e depois −3-3 N por 2 s, o impulso total é 12−6=6 N⋅s12 - 6 = 6\ \text{N}\cdot\text{s}; partindo do repouso, o carrinho termina com p=6p = 6, ou seja, v=3v = 3 m/s, e no instante t=2t = 2 s ele estava a 6 m/s. Um caso especial merece atenção: se a força resultante é nula durante um intervalo, a área é zero e pp não muda, ainda que forças individuais estejam agindo.

Exemplo resolvido (PAS 1 2020, item 69). Uma roda gira com velocidade angular constante ω\omega e traciona, por um cabo ideal e uma polia, uma massa de peso PP; a roda tem raio RR. O item afirmava: “se a massa de peso PP for puxada por uma distância igual a 2R2R, então, durante esse movimento, o impulso sofrido por ela será igual a P⋅ω/2P\cdot\omega/2”. Duas leituras derrubam a afirmação. A física: se ω\omega é constante, o cabo sobe com velocidade constante v=ωRv = \omega R, a quantidade de movimento da massa não varia e o impulso da força resultante sobre ela é zero durante todo o trajeto (a tração e o peso se cancelam). A unidade: P ωP\,\omega é newton vezes radiano por segundo, isto é, N/s, e impulso se mede em N·s. Gabarito: errado. Antes de calcular qualquer impulso, pergunte se a velocidade mudou.

Quando o impulso externo é zero: a ponte para as colisões

Até aqui, o corpo era um só e a força vinha de fora. Agora considere um sistema de dois ou mais corpos que interagem entre si: duas bolas que colidem, um canhão e seu projétil, uma estrela que explode. Tudo o que um corpo do sistema faz sobre outro é força interna, e a terceira lei de Newton garante que ela vem acompanhada da sua reação: mesmo módulo, sentido contrário, mesma duração. Os impulsos de cada par, portanto, se anulam na soma. O que um corpo ganha de quantidade de movimento, o outro perde, e o total não se mexe.

Conservação da quantidade de movimento

Quando nenhuma força externa resultante age sobre o sistema, ou quando o impulso dela é desprezível no intervalo considerado (uma colisão de milésimos de segundo, por exemplo), a quantidade de movimento total do sistema se conserva:

p⃗total, antes=p⃗total, depois.\vec p_{\text{total, antes}} = \vec p_{\text{total, depois}}.

A conservação é do total, como vetor: as parcelas de cada corpo mudam, e podem mudar muito; a soma delas, não. É consequência direta do teorema do impulso aplicado ao sistema inteiro: impulso externo zero, variação zero.

O caso mais limpo é o recuo. Um sistema parado tem ptotal=0p_{\text{total}} = 0; se ele se separa em duas partes, as duas saem com quantidades de movimento opostas que continuam somando zero: m1v1+m2v2=0m_1 v_1 + m_2 v_2 = 0, logo m1v1=−m2v2m_1 v_1 = -m_2 v_2. A parte mais leve sai mais rápido, na proporção inversa das massas. É o canhão que recua ao disparar, o foguete que sobe expelindo gás para baixo, a eolípila de Heron que gira ao soltar vapor pelos tubos, o patinador que empurra o amigo e desliza para trás. O PAS 1 de 2016 (item 96) afirmou que, “se uma estrela em repouso explodir, fragmentando-se em duas partes com massas diferentes, o fragmento de menor massa será ejetado com velocidade maior”: certo, e a razão é exatamente m1v1=m2v2m_1 v_1 = m_2 v_2 em módulo. O de 2006 (item 100) disse que a eolípila e o foguete se movem “pelo mesmo princípio, ou seja, da conservação do momento linear na ejeção do vapor d’água”: certo também.

Dois painéis. No primeiro, um canhão de 1 000 kg sobre rodas e um projétil de 10 kg: antes do disparo, ambos parados, quantidade de movimento total zero; depois, o projétil sai a 300 m/s para a direita com p = +3 000 kg·m/s e o canhão recua a 3 m/s para a esquerda com p = −3 000 kg·m/s, setas de mesmo comprimento em sentidos opostos e soma zero. No segundo, um corpo em repouso se parte em dois fragmentos, um com o triplo da massa do outro; o fragmento leve sai com velocidade três vezes maior, e as duas setas de quantidade de movimento têm o mesmo comprimento.
Recuo e explosão: o total continua zero. As quantidades de movimento das partes são iguais em módulo e opostas em sentido; o mais leve sai mais rápido, na proporção inversa das massas. A energia cinética, ao contrário, foi criada do nada aparente (veio da pólvora, do vapor, da estrela): a conservação de pp não diz nada sobre energia. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido (o canhão). Um canhão de 1 000 kg, livre para rolar, dispara horizontalmente um projétil de 10 kg a 300 m/s. Antes: tudo parado, ptotal=0p_{\text{total}} = 0. Depois: 10×300+1 000×vc=010 \times 300 + 1\,000 \times v_c = 0, logo vc=−3v_c = -3 m/s. O canhão recua a 3 m/s, cem vezes mais devagar que o projétil, porque é cem vezes mais pesado. Conferência: 10×300=3 00010 \times 300 = 3\,000 e 1 000×3=3 0001\,000 \times 3 = 3\,000, iguais em módulo. Agora veja o que não se conservou: a energia cinética antes era zero e depois é 12×10×3002+12×1 000×32=450 000+4 500=454 500\tfrac12 \times 10 \times 300^2 + \tfrac12 \times 1\,000 \times 3^2 = 450\,000 + 4\,500 = 454\,500 J, vindos da pólvora. Repare que o projétil leva 99% da energia e só 50% do módulo da quantidade de movimento: a energia se concentra no corpo mais leve, porque Ec=p2/2mE_c = p^2/2m.

A conservação exige que o sistema seja isolado, e a escolha do sistema decide o veredicto. Em 2012 (item 21), a banca descreveu uma bola chutada rasteira que bate na trave e volta, e afirmou que “não haverá conservação do momento linear do sistema bola–terra–trave”. Errado: para a bola sozinha, pp muda (a trave a empurra); mas para o sistema que inclui a trave e a Terra à qual ela está fixa, a força da trave é interna, e o total se conserva. A Terra recebe um impulso igual e oposto ao da bola, e sua mudança de velocidade é imperceptível porque sua massa é 6×10246 \times 10^{24} kg. Em 2016 (item 99, tipo C), a supernova: desprezadas as forças externas, “a quantidade de movimento total do sistema se conserva, sem conservar sua energia cinética total”. As quatro opções eram as quatro combinações possíveis das duas leis; só essa respeita a física, porque a energia cinética de uma explosão aumenta, vinda da energia liberada pela estrela.

Conservação não é "nada se move"

“A quantidade de movimento total se conserva” não significa que cada corpo mantém a sua, nem que o sistema fica parado. Numa explosão, cada fragmento sai de p=0p = 0 para um pp enorme; a soma é que continua zero. E “houve dissipação de energia, logo o momento não se conservou” é falso: a conservação de pp depende só da ausência de forças externas, e não do destino da energia. O que acontece com a energia cinética em cada tipo de colisão, o coeficiente de restituição e o método completo estão na página de colisões; aqui basta saber que a soma vetorial de pp fecha sempre que ninguém de fora empurra.

Mesmo p, energias diferentes

Volte ao caminhão de 12 toneladas a 2,5 m/s e ponha ao lado dele o carro do exemplo resolvido da primeira seção, 1 500 kg a 72 km/h (20 m/s): os dois têm exatamente a mesma quantidade de movimento, 30 000 kg·m/s. Têm a mesma energia? Não. Escreva v=p/mv = p/m na energia cinética:

Ec=12mv2=12m(pm)2=p22m.E_c = \tfrac12 m v^2 = \tfrac12 m \left(\frac{p}{m}\right)^2 = \frac{p^2}{2m}.

Energia cinética em função da quantidade de movimento

Ec=p22m.E_c = \frac{p^2}{2m}.

Para a mesma quantidade de movimento, o corpo mais leve tem mais energia cinética, na proporção inversa das massas. Para a mesma energia cinética, o corpo mais pesado tem mais quantidade de movimento (p=2mEcp = \sqrt{2mE_c}). As duas grandezas medem coisas diferentes do mesmo movimento: pp é o que uma força precisa de tempo para mudar; EcE_c é o que uma força precisa de distância para mudar.

corpo mm vv p=mvp = mv Ec=p2/2mE_c = p^2/2m
caminhão 12 000 kg 2,5 m/s 30 000 kg·m/s 37 500 J
carro 1 500 kg 20 m/s 30 000 kg·m/s 300 000 J
bala de fuzil 0,01 kg 900 m/s 9 kg·m/s 4 050 J
bola do goleiro 0,45 kg 20 m/s 9 kg·m/s 90 J

O carro tem oito vezes a energia do caminhão com a mesma quantidade de movimento; a bala tem quarenta e cinco vezes a energia da bola com a mesma quantidade de movimento. Parar a bala e parar a bola exigem o mesmo impulso (9 N·s), mas a bala, com a mesma força média, precisa de quarenta e cinco vezes mais distância para parar, e por isso perfura. Impulso e trabalho medem o custo da parada em moedas diferentes: tempo e distância.

Exemplo resolvido (PAS 1 2005, itens 129 e 130). “O aríete, peça cilíndrica de madeira maciça e pesada, era usado como arma de guerra no período medieval. Os soldados, correndo, imprimiam ao aríete uma certa velocidade e o faziam colidir com os portões das fortificações.” O item 129 afirmou que “os portões são danificados na colisão devido à variação da quantidade de movimento do aríete”: certo, porque a força que o aríete aplica ao portão é, pela terceira lei, igual à que o portão aplica ao aríete, e essa é Δp/Δt\Delta p/\Delta t do aríete. O item 130 deu números: 1 tonelada a 7,2 km/h (2 m/s), o portão cede 20 cm, e pediu a força média dividida por 100. Pelo trabalho: Ec=12×1 000×22=2 000E_c = \tfrac12 \times 1\,000 \times 2^2 = 2\,000 J, retirados ao longo de 0,20 m, F=2 000/0,20=10 000F = 2\,000/0{,}20 = 10\,000 N, marcação 100. Pelo impulso: Δp=1 000×2=2 000 kg⋅m/s\Delta p = 1\,000 \times 2 = 2\,000\ \text{kg}\cdot\text{m/s}; com desaceleração uniforme, a velocidade média durante a parada é 1 m/s e os 0,20 m levam 0,20/1=0,20{,}20/1 = 0{,}2 s, logo F=2 000/0,2=10 000F = 2\,000/0{,}2 = 10\,000 N. Os dois teoremas dão o mesmo número, como devem: são a mesma segunda lei olhada pela distância e pelo tempo.

Newton nunca escreveu F = ma

Nos Principia (1687), a segunda lei diz que “a mudança de movimento é proporcional à força motriz impressa e se dá na direção da linha reta em que essa força é impressa”. “Movimento”, para Newton, era o produto da massa pela velocidade, o que hoje chamamos de quantidade de movimento; “mudança de movimento” é o nosso Δp\Delta p. A forma F=maF = ma só apareceu no século seguinte, com Euler. A lei original é a do impulso, e ela sobrevive intacta onde F=maF = ma tropeça: no foguete que perde massa e na relatividade, em que pp deixa de ser simplesmente mvmv, mas F=Δp/ΔtF = \Delta p/\Delta t continua valendo.

Como a banca pergunta, ano após ano

Nas provas do PAS 1, o impulso e a quantidade de movimento rendem poucos itens por edição, mas voltam com regularidade, quase sempre em uma de quatro formas:

  1. O conceito dito com palavras, num item certo/errado que testa se você sabe o que muda a quantidade de movimento: o aríete que danifica o portão “devido à variação da quantidade de movimento” (2005/129, certo); o impulso sobre uma massa puxada a velocidade constante, que a banca escreveu como P ω/2P\,\omega/2 e é zero (2020/69, errado).
  2. O tipo B disfarçado: um texto sobre frenagem, um tempo, uma massa, e a pergunta “calcule a força”, sem a palavra impulso (2022/94, resposta 320). O roteiro é sempre o mesmo: converter km/h, montar Δp=m Δv\Delta p = m\,\Delta v, dividir pelo tempo.
  3. A conservação como afirmação: recuo e explosão (o fragmento mais leve é mais rápido, 2016/96, certo; a eolípila e o foguete, 2006/100, certo), a escolha do sistema (bola–terra–trave, 2012/21, errado) e o item tipo C que cruza as duas leis (supernova, 2016/99: conserva pp, não conserva EcE_c).
  4. A razão entre duas situações com a mesma pessoa em veículos de massas diferentes (2013/93, tipo B, resposta 11), que já é uma conta de colisão e fica para a página vizinha.

O erro plantado costuma ser um de três: trocar a grandeza que o dispositivo reduz (“o airbag reduz a variação da quantidade de movimento”); esquecer que a conservação é do sistema e depende de quem está dentro dele; ou dar um valor com unidade errada, como P ω/2P\,\omega/2 para um impulso. Quando o item tiver um “porque” ou um “devido a”, julgue a conclusão e a justificativa separadamente.

Os sete erros que a prova planta

  1. Confundir quantidade de movimento com força. p=mvp = mv existe mesmo sem força nenhuma (movimento uniforme). A força é o que muda pp, e precisa de tempo para isso.
  2. Confundir impulso com trabalho. Impulso é força vezes tempo (N·s) e muda pp; trabalho é força vezes distância (J) e muda EcE_c. Dado o tempo, use impulso; dada a distância, use trabalho.
  3. Subtrair módulos numa inversão. Bola que chega a 10 e volta a 6 tem ∣Δv∣=16|\Delta v| = 16, não 4. Escolha o sentido positivo e escreva sinais antes de subtrair.
  4. Esquecer a conversão de km/h. Toda conta desta página é em kg, m e s. Divida por 3,6 antes de multiplicar pela massa; em tipo B, a escala do gabarito costuma denunciar o esquecimento.
  5. Dizer que o airbag reduz Δp\Delta p. Ele reduz a força média porque aumenta Δt\Delta t; a variação da quantidade de movimento é decidida pela velocidade do veículo.
  6. Usar o pico do gráfico como força média. O impulso é a área; num pulso triangular, a média é metade do pico.
  7. Achar que “conservação” significa “cada corpo mantém o seu pp” ou que “explodiu, logo nada se conserva”. Conserva-se a soma, se não houver força externa; a energia cinética não tem essa garantia.

O essencial em meia página

  • Quantidade de movimento: p⃗=mv⃗\vec p = m\vec v, vetor no sentido da velocidade, em kg·m/s. Massa pesa tanto quanto velocidade. Em linha reta, sinal; em um sistema, soma vetorial (3 e 4 perpendiculares dão 5).
  • Impulso: I⃗=F⃗ Δt\vec I = \vec F\,\Delta t para força constante; área com sinal no gráfico F×tF \times t para força variável; Fm=I/ΔtF_m = I/\Delta t. Unidade: N·s == kg·m/s.
  • Teorema do impulso: F⃗res Δt=Δp⃗=m(v⃗f−v⃗i)\vec F_{\text{res}}\,\Delta t = \Delta\vec p = m(\vec v_f - \vec v_i), isto é, F⃗res=Δp⃗/Δt\vec F_{\text{res}} = \Delta\vec p/\Delta t (a segunda lei de Newton na forma original). Vale para a resultante, e Δp\Delta p é vetorial.
  • Inversão de sentido: os módulos se somam. Bola a +10+10 que volta a −6-6: Δv=−16\Delta v = -16 m/s.
  • Segurança passiva: Δp\Delta p é fixo; airbag, cinto, zona de deformação, capacete, colchão e joelho dobrado aumentam Δt\Delta t para reduzir FmF_m. Ônibus a 72 km/h parando em 0,5 s: 3 200 N num passageiro de 80 kg (PAS 2022/94, marcação 320).
  • Gráficos: F×tF \times t, área = impulso (pico ≠\neq média); v×tv \times t, inclinação = aceleração e m Δv=Δpm\,\Delta v = \Delta p. Velocidade constante ⇒\Rightarrow impulso da resultante nulo (PAS 2020/69, errado).
  • Sistema isolado: forças internas se cancelam aos pares; sem força externa, p⃗total\vec p_{\text{total}} se conserva. Recuo/explosão a partir do repouso: m1v1=−m2v2m_1 v_1 = -m_2 v_2, o mais leve sai mais rápido (PAS 2016/96, certo). A escolha do sistema decide (bola–terra–trave conserva; PAS 2012/21, errado). Energia cinética não tem a mesma proteção (supernova, PAS 2016/99). Colisões e coeficiente de restituição: página própria.
  • Energia: Ec=p2/2mE_c = p^2/2m. Mesmo pp, o mais leve tem mais energia; parar exige o mesmo impulso, mas distâncias diferentes. Aríete: trabalho e impulso dão os mesmos 10 000 N.
  • Vizinhos: segunda lei em leis de Newton; soma e decomposição em vetores; força vezes distância em trabalho de uma força; energia cinética em energia; unidades e conversões em grandezas físicas e unidades.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

IMPULSO E QUANTIDADE DE MOVIMENTO - Teoria e Exercícios
Felipe Sampaio - Física · 19:51
Introdução. Em capítulos marcados na descrição, apresenta o impulso de uma força constante, o impulso de força variável pela área do gráfico F×tF \times t, o impulso da força resultante, a quantidade de movimento e o teorema do impulso, e fecha com um exercício. São as seções “Quanto movimento há para deter”, “Impulso: força vezes tempo” e “O teorema do impulso” em aula, na mesma ordem da página.
Teorema do Impulso e Quantidade de Movimento
FisicaInterativa.Com · 9:36
Aprofundamento. Vídeo curto dedicado a uma só coisa: a dedução do teorema do impulso a partir da segunda lei de Newton, mostrando que o impulso da força é igual à variação da quantidade de movimento. É a passagem F=ma⇒F Δt=ΔpF = ma \Rightarrow F\,\Delta t = \Delta p da seção “O teorema do impulso: a segunda lei como Newton a escreveu”, feita no quadro com calma.
IMPULSO | COLISÕES | QUANTIDADE DE MOVIMENTO | RESOLUÇÃO DA PROVA DE FÍSICA | ENEM 2022
Física Master · 9:39
Aplicação. Resolve a questão do ENEM 2022 da barreira de pneus no autódromo: uma barreira que torna a colisão mais demorada reduz a força média sobre o carro, e a barreira da qual o carro volta exige impulso maior que a que o retém. É a seção “O que o airbag faz com o tempo” e a de “Voltar é pagar dobrado” numa questão oficial, com a comparação entre força média e energia dissipada.
Exercícios sobre Impulso e quantidade de movimento
Física com Prof. Júnior · 16:37
Resolução. Exercícios com índice na descrição: uma força de 14 N que altera a quantidade de movimento em 7 kg·m/s (tempo de atuação) e o boxeador que recua para amortecer um soco de 1 500 N em 0,08 s, impulso de 120 N·s, com a relação entre força e tempo para o mesmo impulso. São os cálculos do teorema do impulso e da troca tempo–força das seções centrais da página, em enunciados diferentes dos daqui.
Rota PAS 1
Colisões, giros e equilíbrio: momentum, movimento circular e fluidos · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Colisões, giros e equilíbrio: momentum, movimento circular e fluidos · Antes de começar: dez minutos de aquecimento (massa e peso, km/h em m/s, grandeza com sentido tem sinal, exemplo-guia do carro de 1 000 kg a 72 km/h); Quantidade de movimento e impulso: o que o airbag faz com o tempo (conceito, tabela de símbolos, exemplo-guia da bola do goleiro, caminhão x carro, item 2022/94, checagem do airbag); Colisões e explosões (conceito de conservação e recuo/explosão, só como ponte); Como a banca cobra (histórico de impulso 2013/93, 2016/99, 2020/69; item 2016/99 supernova); Resolvidos (airbag no ensaio de colisão, 70 kg a 54 km/h em 0,3 s); Banco de treino T1 a T3 e itens 1, 3 e 7 a 9 (cinto 5 000 N por 0,2 s, airbag e Δp, zonas de deformação)

    Recorte por assunto: quantidade de movimento, impulso, teorema do impulso, segurança passiva, leitura de gráficos e conservação como ponte. Tipos de colisão, coeficiente de restituição e o item 2013/93 (razão de velocidades da pessoa na moto e no Camaro) ficam na página colisoes. O livro registra que o assunto rende poucos itens por edição; a página amplia com autorais graduados e com a relação Ec = p²/2m, ausente do capítulo.

  • Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 1 2005 (itens 129 e 130, aríete), 2006 (item 100, eolípila), 2012 (item 21, bola–terra–trave), 2016 (itens 96 e 99, supernova), 2020 (item 69, roda com polia; fórmula P·ω/2 lida na página 7 do PDF da Parte 2, ilegível no txt), 2022 (item 94, frenagem do ônibus)

    Itens reproduzidos verbatim; gabaritos conferidos em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao/AAAA.json. Figuras impressas (roda com polia A e massa de peso P; eolípila) descritas em texto neutro no suporte das questões. Os itens 2022/94 (página atrito) e 2005/130 (página trabalho-de-uma-forca) são reusados por GUID; a questão autoral de Δv da bola na parede (página vetores) também.