Produzir uma tonelada de alumina consome 15,0 MWh. Quantos MJ por quilograma são? Nenhuma lei física entra na conta, e mesmo assim o item do PAS 3 derrubou quem trocou um prefixo. O que uma unidade carrega que o número sozinho não carrega?
O que você vai aprender
Reconhecer que uma medida é a comparação com um padrão e escrevê-la como valor vezes unidade, com a incerteza que o instrumento permite.
Identificar as sete unidades de base do SI (m, kg, s, A, K, mol, cd) e montar as derivadas mais usadas (N, J, W, Pa, Hz, C, V) a partir das fórmulas que as definem, sem confundir quilograma com newton nem kW com kWh.
Usar prefixos de pico a giga e notação científica com mantissa em [1, 10), operando produtos, quocientes, somas e potências de dez.
Converter unidades pelo fator unitário: km/h para m/s e de volta, área e volume com o fator elevado ao quadrado e ao cubo, litro e metro cúbico, g/cm³ e kg/m³, MWh e MJ.
Aplicar a homogeneidade dimensional para deduzir a unidade de uma constante, conferir uma fórmula lembrada pela metade e reconhecer o que a análise dimensional não decide.
Estimar ordens de grandeza, contar algarismos significativos, arredondar no fim da conta e ler unidades em instrumentos, tabelas e eixos de gráficos, reconhecendo que inclinação e área herdam as unidades dos eixos.
Em dezembro de 2023, a prova do PAS 3 deu ao candidato um dado de engenharia: produzir uma tonelada de alumina consome 15,0 MWh de energia elétrica. E pediu o mesmo número em MJ/kg. Não havia física nova no item, nenhuma lei, nenhuma fórmula: só uma quantidade escrita em duas roupas diferentes. Quem sabia que “mega” é um milhão, que uma hora são 3 600 segundos e que uma tonelada são mil quilogramas chegou a 54; quem trocou um prefixo ou esqueceu de dividir pela massa escreveu outro número na folha de respostas. Um ano depois, o PAS 3 descreveu um raio: 30 mil ampères, 100 milhões de volts, 1 quilômetro de nuvem a solo. Um item afirmava que o campo elétrico valia “cerca de 100 V/m”. Bastava dividir 10⁸ por 10³ para ver que faltavam três zeros.
Esta página é sobre a parte da Física que todo item quantitativo usa antes de qualquer outra: o que é uma medida, quais unidades o mundo combinou usar, como passar de uma para outra sem errar por mil, como as unidades denunciam uma fórmula errada, como estimar quando o dado exato não existe e quantos algarismos uma resposta merece. Vetores, cinemática, leis de Newton e hidrostática têm páginas próprias; aparecem aqui só quando uma unidade delas ensina alguma coisa.
Medir é comparar com um padrão
Uma pista de atletismo tem 400 metros. A frase esconde uma comparação: alguém tomou o comprimento da pista e verificou quantas vezes o comprimento chamado metro cabe nela. Toda medida é isso: uma grandeza (a propriedade que se mede: comprimento, massa, tempo), um valor numérico (quantas vezes) e uma unidade (o padrão de comparação). Tire qualquer um dos três e a informação desaparece: “a pista tem 400” não diz nada, e “a pista tem metros” também não.
Grandeza, valor e unidade
Uma medida se escreve como valor vezes unidade: L=400m. O valor depende da unidade escolhida (a mesma pista tem 0,4 km e 40 000 cm), mas a grandeza não muda. Por isso a unidade acompanha o número em toda conta, como se fosse um fator algébrico: 400m é “400 vezes m”, e é isso que permite converter multiplicando e dividindo.
Uma medida real nunca é exata. A régua escolar tem traços a cada milímetro; entre dois traços, o olho estima. Uma balança digital de cozinha arredonda para o grama mais próximo. Toda medida carrega uma incerteza, e a forma honesta de escrevê-la é com o número de algarismos que o instrumento sustenta, assunto de uma seção adiante. Por enquanto, guarde a ideia: medir é comparar, e a comparação tem um limite de precisão que vem do instrumento, não do cuidado de quem mede.
Sete unidades bastam para descrever o mundo
Cada país já teve suas próprias unidades (pé, jarda, légua, arroba), e a confusão custava caro no comércio e na ciência. O Sistema Internacional de Unidades (SI), herdeiro do sistema métrico da Revolução Francesa e mantido hoje pelo Bureau Internacional de Pesos e Medidas, resolve o problema com uma escolha enxuta: sete grandezas de base, cada uma com uma unidade, e todas as outras derivadas delas por multiplicação e divisão.
As sete unidades de base do SI e as derivadas que mais aparecem na prova. Cada unidade derivada é um produto ou quociente das de base: 1N=1kg⋅m/s2, 1J=1N⋅m, 1W=1J/s, 1Pa=1N/m2. Diagrama autoral.
As sete unidades de base do SI
Grandeza
Unidade
Símbolo
comprimento
metro
m
massa
quilograma
kg
tempo
segundo
s
corrente elétrica
ampere
A
temperatura termodinâmica
kelvin
K
quantidade de matéria
mol
mol
intensidade luminosa
candela
cd
Desde 2019, todas são definidas a partir de constantes da natureza (a velocidade da luz, a constante de Planck, a carga do elétron, entre outras), e não mais por objetos guardados num cofre: o metro é a distância que a luz percorre no vácuo em 1/299792458 de segundo. Os símbolos são fixos: kg (não “Kg”), s (não “seg”), m (não “mt”). Os nomes escrevem-se em minúsculas mesmo quando homenageiam uma pessoa (newton, joule, kelvin); só o símbolo leva maiúscula (N, J, K).
Na mecânica do ensino médio, três bastam: metro, quilograma e segundo. Todo o resto se monta a partir delas.
Duas unidades fora do SI convivem com ele e caem em prova. O litro (L) é uma unidade de volume: 1L=1dm3=10−3m3, e 1mL=1cm3. A tonelada (t) vale 1 000 kg. Em Física atômica, o elétron-volt (eV) mede energia: é o trabalho para mover um elétron através de 1 volt, cerca de 1,6×10−19 J. Em 2008, o PAS 3 afirmou que o elétron-volt é uma unidade frequente na física atômica e que, no SI, a unidade correspondente é o joule; o item estava certo. E na medição de energia elétrica das contas de luz aparece o quilowatt-hora (kWh): potência vezes tempo, portanto energia, 1kWh=1000W×3600s=3,6×106J=3,6MJ.
Quilograma não é newton
“Peso 70 kg” é frase de balança, não de Física. A balança mede a força com que a Terra puxa o corpo (o peso, em newtons) e mostra a massa correspondente (em quilogramas), porque na Terra as duas são proporcionais: P=mg, com g≈10m/s2 nas provas do PAS. Uma pessoa de 70 kg pesa 700 N. Massa é quantidade de matéria e é a mesma na Lua; peso é força e lá vale um sexto. Item que escreve “peso de 70 kg” ou “força de 5 kg” está misturando as duas grandezas, e a banca sabe.
Prefixos e notação científica: como escrever o muito grande e o muito pequeno
Um fio de cabelo tem cerca de 0,00007 m de espessura; a distância da Terra ao Sol é de uns 150 000 000 000 m. Escrever assim convida ao erro de contagem de zeros. O SI oferece dois remédios que se combinam: os prefixos e a notação científica.
A escada dos prefixos. De mili a quilo a escada anda de três em três zeros; centi e deci são os degraus intermediários que só o metro usa com frequência. Para passar de um prefixo a outro, conte os degraus: de km para mm são seis casas (106). Diagrama autoral.
Prefixos do SI que a prova usa
Prefixo
Símbolo
Fator
Exemplo
giga
G
109
2 GB, 1 GW
mega
M
106
100 MV, 15 MWh
quilo
k
103
90 kW, 1 km
hecto
h
102
1 hPa (pressão atmosférica ≈ 1 013 hPa)
deci
d
10−1
1 dm³ = 1 L
centi
c
10−2
1 cm
mili
m
10−3
5 ms, 30 mA
micro
µ
10−6
3 µC
nano
n
10−9
500 nm (luz visível)
pico
p
10−12
1 pF
Maiúsculas e minúsculas distinguem prefixos: m é mili (10−3), M é mega (106); k de quilo é minúsculo. Quando o prefixo se junta a uma unidade elevada a uma potência, o expoente vale para o conjunto: 1km2=(103m)2=106m2, não 103m2.
A notação científica escreve qualquer número como uma mantissa entre 1 e 10 (incluindo o 1, excluindo o 10) multiplicada por uma potência de dez: 0,00007=7×10−5; 150000000000=1,5×1011. O expoente diz quantas casas a vírgula andou: para a esquerda, expoente positivo; para a direita, negativo. Duas regras operacionais resolvem quase tudo:
Multiplicar: multiplicam-se as mantissas e somam-se os expoentes. (3×104)(2×10−7)=6×10−3.
Dividir: dividem-se as mantissas e subtraem-se os expoentes. 103108=105; foi essa a conta do raio de 2024.
Somar ou subtrair: primeiro iguale os expoentes. 3×105+2×104=30×104+2×104=32×104=3,2×105.
Elevar a uma potência: eleva-se a mantissa e multiplica-se o expoente. (6×103)2=36×106=3,6×107.
53,34 × 10¹¹ não está em notação científica
A prova escreve números com mantissa fora do intervalo [1,10) de propósito: “energia igual a 53,34×1011 J”, no PAS 1 de 2016. Antes de comparar com outra potência de dez, normalize: 53,34×1011=5,334×1012. Quem compara expoentes sem normalizar (1011 contra 1012) erra a ordem de grandeza por dez. O mesmo cuidado vale para o resultado de uma multiplicação: 36×106 é 3,6×107.
Converter é multiplicar por um
A técnica que serve para toda conversão, da mais simples à mais enrolada, chama-se fator unitário: multiplicar a medida por uma fração que vale exatamente 1 porque numerador e denominador são a mesma quantidade escrita em unidades diferentes. Como 1km=1000m, a fração 1km1000m vale 1, e multiplicar por ela não muda a grandeza, só a roupa. As unidades se cancelam como fatores algébricos.
O fator unitário em ação: cada fração vale 1, e as unidades se cancelam como letras em uma expressão algébrica. O resultado 1000/3600=1/3,6 é a origem do atalho "divida por 3,6". A régua de baixo é a tabela que vale decorar. Diagrama autoral.
Fator unitário
Para converter uma medida, multiplique-a por frações iguais a 1, montadas com as igualdades entre unidades, orientadas de modo que a unidade velha fique no denominador e se cancele.
72hkm×1km1000m×3600s1h=360072×1000sm=20m/s
O método vale para qualquer unidade composta: basta um fator por unidade a trocar.
De km/h para m/s e de volta.1km/h=3600s1000m=3,61m/s. Logo, km/h → m/s: divida por 3,6; m/s → km/h: multiplique por 3,6. Conferência de sentido: o mesmo movimento tem número maior em km/h (72) que em m/s (20), porque a hora é uma unidade de tempo muito maior que o segundo. Se a sua conversão deu número maior em m/s, o fator está invertido. A tabela de valores redondos economiza tempo de prova: 36 → 10, 54 → 15, 72 → 20, 90 → 25, 108 → 30, 144 → 40.
Área e volume: o fator vai ao quadrado e ao cubo. Aqui mora o erro mais frequente de toda a conversão. Se 1m=100cm, então 1m2=(100cm)2=10000cm2 e 1m3=(100cm)3=1000000cm3. A conversão de comprimento é a mesma, mas ela aparece duas vezes na área e três no volume.
O mesmo fator 100, contado uma, duas e três vezes. 1m2=104cm2; 1m3=106cm3=1000L, porque o litro é o decímetro cúbico e cabem 10×10×10 deles no metro cúbico. Diagrama autoral.
Dividir área por 100
Uma chapa de 200 cm² tem 200/10000=0,02m2, não 2 m². Uma caixa de 5 000 cm³ tem 5000/106=0,005m3, ou 5 litros. Sempre que a unidade tiver expoente, eleve o fator de conversão ao mesmo expoente. O jeito seguro é escrever o fator unitário elevado: (100cm1m)2=104cm21m2.
Litro e metro cúbico.1L=1dm3; como 1m=10dm, 1m3=103dm3=1000L. E 1mL=1cm3. Uma caixa-d’água de 1 m³ guarda mil litros; uma piscina de 25m×12m×2m=600m3 guarda 600 mil litros.
Densidade: g/cm³ e kg/m³. A água tem densidade 1 g/cm³. Em unidades do SI:
1cm3g×1000g1kg×1m3106cm3=1000m3kg
O fator é 1 000 porque a massa cai por mil e o volume sobe por um milhão. Regra prática: g/cm³ → kg/m³, multiplique por 1 000. Ferro, 7,6 g/cm³ (o dado do PAS 1 de 2016), é 7 600 kg/m³; e como 1 L = 1 000 cm³, 1 g/cm³ também é 1 kg/L, o que torna “1 litro de água tem 1 kg” imediato.
Energia e potência: kWh, MWh, MJ. Potência é energia por tempo, então energia é potência vezes tempo, e as unidades seguem: W·s = J; kW·h = 3,6 MJ; MW·h = 3 600 MJ. O item do PAS 3 de 2023 pedia 15,0 MWh por tonelada em MJ/kg:
Em 2007, o PAS 1 descreveu os motores de 90 kW de um zepelim e perguntou se cada um transformava mais de 5 MJ por minuto: 90000J/s×60s=5400000J=5,4MJ. Certo.
A milha náutica nasceu de uma medida de tempo
Em 2006, o PAS 1 contou como se media a velocidade de uma caravela: um cabo com nós a cada 14,46 m era solto na água durante os 30 segundos de uma ampulheta, e o número de nós que saíam dava a velocidade em milhas náuticas por hora. Daí o nome da unidade de velocidade dos navios, o nó. O item pedia o comprimento da milha náutica: se em 30 s saem n nós, ou seja, 14,46n metros, em uma hora (120 intervalos de 30 s) saem 14,46×120n=1735,2n metros. Um nó é uma milha náutica por hora, logo 1 milha náutica =1735,2 m pelos dados do texto (o valor oficial atual é 1 852 m; a prova pedia a conta com os números fornecidos).
As unidades denunciam a fórmula errada
Toda equação física iguala grandezas da mesma natureza: metros com metros, joules com joules. Essa exigência, chamada homogeneidade dimensional, é uma ferramenta de conferência que não precisa de nenhum dado numérico. Se o lado esquerdo é uma velocidade e o direito sai em m/s², a fórmula está errada antes de qualquer conta.
Substitua cada grandeza por sua unidade e simplifique. m/s2(m/s)2=m: a fórmula pode ser uma distância. m/s2m/s=s: essa é um tempo, não uma distância. A análise dimensional reprova a segunda sem que se saiba nada de frenagem. Diagrama autoral.
Dimensões e homogeneidade
Na mecânica, toda grandeza se escreve como produto de potências de três dimensões: massa [M], comprimento [L] e tempo [T]. Velocidade: [L][T]−1. Aceleração: [L][T]−2. Força: [M][L][T]−2. Energia e trabalho: [M][L]2[T]−2. Potência: [M][L]2[T]−3. Pressão: [M][L]−1[T]−2. Uma equação é dimensionalmente homogênea quando os dois lados têm as mesmas dimensões e só se somam termos de mesma dimensão. Toda equação correta é homogênea; a recíproca não vale.
Três usos aparecem em prova.
Deduzir a unidade de uma constante. Na lei de Hooke, F=kx, a constante elástica tem unidade de força por comprimento: N/m, que em unidades de base é kg/s². Na gravitação, F=Gd2Mm, logo G=MmFd2 tem unidade kg2N⋅m2, ou m3kg−1s−2. Na fórmula P=ρgh da pressão em um líquido, com ρ em kg/m³, g em m/s² e h em m, o produto dá m3kg⋅s2m⋅m=m⋅s2kg, que é N/m², o pascal. As unidades fecham: a fórmula pode estar certa.
Checar uma fórmula lembrada pela metade. O período de um pêndulo é T=2πL/g ou 2πg/L? Teste: m/s2m=s2=s. A primeira dá tempo; a segunda daria 1/s. É a primeira. Na energia cinética, 21mv2 dá kg⋅m2/s2=J; 21mv daria kg·m/s, que é unidade de quantidade de movimento, não de energia.
Ler o expoente de uma proporção. Quando uma grandeza varia com o quadrado de outra, duplicar a segunda multiplica a primeira por quatro, não por dois. A distância de frenagem d=v2/(2a) carrega v ao quadrado: o carro que freia a 144 km/h consome o quádruplo da pista exigida a 72 km/h. Antes de julgar um “dobro” em um item, pergunte que expoente a fórmula carrega.
O que a análise dimensional não faz
Ela não enxerga números puros. mv2 e 21mv2 têm a mesma dimensão de energia, e só a Física diz que a energia cinética é a segunda. Também não distingue grandezas diferentes com a mesma unidade: torque e trabalho medem-se ambos em N·m, e são coisas distintas. A análise dimensional reprova fórmulas erradas; não aprova fórmulas certas. Use-a como filtro, não como prova.
Ordem de grandeza: acertar o expoente antes da vírgula
Muitos itens não pedem o valor: pedem se uma quantidade é “superior a”, “da ordem de”, “cerca de”. Aí o que interessa é a potência de dez do resultado, e um erro de fator 2 não muda a resposta, mas um erro de fator 1 000 muda.
Régua logarítmica de comprimentos: cada passo é um fator 10. O átomo e a distância Terra–Sol estão separados por 21 passos. Saber em que casa um resultado deve cair é a primeira conferência de qualquer conta. Diagrama autoral.
Ordem de grandeza
A ordem de grandeza de um número é a potência de dez mais próxima dele. Escreva o número em notação científica, N=m×10n com 1≤m<10: se m<10≈3,16, a ordem é 10n; se m≥3,16, é 10n+1. A altura de uma pessoa (1,7×100 m) é da ordem de 100 m; o número de segundos em um dia (8,64×104) é da ordem de 105. Há quem arredonde só pelo expoente, e a banca sabe da divergência: em 2012, o PAS 3 pediu, num item tipo B, a ordem de grandeza da razão entre as forças elétrica e gravitacional entre dois elétrons, cerca de 4×1042, e o gabarito oficial aceitou 42 e 43. Adote o critério da raiz, que é o dos livros, e não se assuste se a mantissa cair perto de 3.
Estimativa de Fermi. Quando falta o dado, estime cada fator com um número redondo e multiplique. Quantos segundos tem um ano? 365×24×3600≈3,15×107 s (um ano tem, com boa aproximação, π×107 segundos). Quantas vezes o coração bate em uma vida de 80 anos? 70batidas/min×60×24×365×80≈2,9×109: da ordem de 109, bilhões, não milhões nem trilhões.
O PAS 1 de 2006 fez uma dessas com o descobrimento: a frota de Cabral levou 44 dias para percorrer 7 mil quilômetros, e o item afirmava que a velocidade média foi inferior a 1 metro por segundo. 7×106m divididos por 44×86400≈3,8×106s dão cerca de 1,8 m/s. Errado, e sem precisar de calculadora: 7 milhões sobre 3,8 milhões é quase 2.
Em 2016, um bloco sobre a escala Richter forneceu uma tabela (magnitude 4,0 equivale a 6 t de TNT, uma “bomba atômica de baixa potência”; 6,0 equivale a 1 270 t) e a energia de 1 kg de TNT, 4,2×106 J. Um item perguntava se um meteorito de 1,4×103 kg a 6 km/s transmitiria mais energia que duas bombas de baixa potência. Energia cinética: 21×1400×(6000)2=700×3,6×107=2,52×1010 J. Duas bombas: 12000kg×4,2×106=5,04×1010 J. Metade: errado. Repare no que decidiu o item: converter 6 km/s em 6 000 m/s antes de elevar ao quadrado. Quem esquece o prefixo erra por um milhão.
Trinta mil ampères e cem milhões de volts
O PAS 3 de 2024 descreveu um raio típico: corrente de 30 mil ampères, tensão de 100 milhões de volts, 1 km entre nuvem e solo, 0,1 milissegundo de duração. Escritos em notação científica, 3×104 A e 1×108 V: a potência é P=Ui=3×1012 W, três trilhões de watts, como dizia um item certo. O campo elétrico, supondo-o uniforme, é E=U/d=108/103=105 V/m, e o item que afirmava “cerca de 100 V/m” estava errado por um fator mil. Nenhuma lei nova foi necessária: só prefixos e potências de dez.
Quantos algarismos uma resposta merece
Uma régua milimetrada diz que um lápis tem “entre 14,3 e 14,4 cm”; quem mede estima o próximo algarismo, digamos 14,35 cm. Esses quatro algarismos são significativos: os três primeiros são certos, o último é duvidoso (estimado). Escrever 14,3500 cm seria mentir sobre a precisão da régua; escrever 14 cm seria jogar informação fora.
Algarismos significativos e arredondamento
Contar: são significativos todos os algarismos a partir do primeiro não nulo à esquerda, incluindo zeros no meio e à direita depois da vírgula. 0,00450 tem três (4, 5, 0); 2,05 tem três; 300 é ambíguo (um ou três), o que a notação científica resolve: 3×102 (um) ou 3,00×102 (três).
Multiplicar e dividir: o resultado fica com tantos algarismos significativos quanto o fator que tiver menos. 2,5×3,14159=7,85…→7,9 (dois algarismos, como o 2,5).
Somar e subtrair: o resultado fica com tantas casas decimais quanto o termo que tiver menos. 12,3+0,456=12,756→12,8.
Arredondar: algarismo seguinte menor que 5, mantém; 5 ou maior, aumenta 1. Arredonde só no fim da conta, não a cada passo.
Na prova de Física do PAS, o item tipo B pede um inteiro de 000 a 999 e manda desprezar a parte fracionária, então a regra prática é: carregue algarismos de sobra durante a conta e trunque só na resposta final. O item de 2023 dá exatamente 54,0; se desse 54,9, a resposta marcada seria 54.
Ler unidades em instrumentos, tabelas e gráficos
Todo instrumento tem uma menor divisão: 1 mm na régua, 1 g na balança de cozinha, 1 km/h no velocímetro. A leitura confiável vai até essa divisão e um algarismo estimado além dela; o instrumento também tem um alcance, e ler fora dele não é medir. Em tabelas, a unidade aparece no cabeçalho da coluna (“velocidade (km/h)”) e vale para todos os números da coluna: a tabela de 2016 dizia “energia liberada (em massa de TNT)” e misturava gramas, quilogramas e toneladas nas linhas; quem não leu as unidades linha a linha comparou 170 g com 1 270 t como se fossem o mesmo tipo de número.
Em gráficos, os eixos carregam unidades, e as operações geométricas herdam essas unidades. A inclinação de um gráfico de posição (m) contra tempo (s) é uma velocidade em m/s. A área sob um gráfico de velocidade (m/s) contra tempo (s) é um deslocamento em m, porque sm×s=m. A área sob força (N) contra deslocamento (m) é trabalho em J. A área sob potência (W) contra tempo (s) é energia em J. Se o gráfico usa km/h e horas, a área sai em km; se usa km/h e segundos, converta antes ou o número não terá unidade que faça sentido. Ler os eixos antes da curva é o primeiro gesto diante de qualquer gráfico; a página de movimento uniforme desenvolve as leituras de s×t e v×t.
Número e unidade bastam? A ponte para os vetores
Uma massa de 2 kg, um intervalo de 30 s, uma temperatura de 25 °C: número e unidade encerram a informação. Já “uma velocidade de 10 m/s” deixa uma pergunta: para onde? Grandezas que só ficam definidas com uma orientação no espaço (deslocamento, velocidade, aceleração, força) são vetoriais; as outras (massa, tempo, temperatura, energia, distância percorrida) são escalares. O teste rápido é o da soma: escalares somam como números (2 kg + 3 kg = 5 kg, sempre); vetores não (3 N + 4 N dão qualquer valor entre 1 N e 7 N, conforme o ângulo). O PAS 1 já perguntou, num bloco sobre O Trenzinho do Caipira, se a música permitia conhecer “os aspectos vetoriais do movimento do trem”: o andamento imita a rapidez, que é escalar; direção e sentido não estão em nota nenhuma. Tudo o que um vetor exige além do número e da unidade está na página de vetores.
Os erros que a prova espera
Converter área ou volume com o fator linear. 200 cm² não são 2 m²; são 0,02 m². Eleve o fator ao quadrado (área) ou ao cubo (volume).
Trocar kg por N. Massa em kg, força e peso em N; na Terra, P=mg com g=10m/s2. “Força de 5 kg” não existe.
Errar o prefixo. m é mili, M é mega; 5 ms são 0,005 s; 3 µC são 3×10−6 C; 100 MV são 108 V. Prefixo em unidade elevada eleva junto: 1km2=106m2.
Comparar potências de dez com mantissa fora de [1, 10).53,34×1011 é 5,334×1012. Normalize antes de comparar expoentes.
Esquecer de converter antes de elevar ao quadrado. 6 km/s são 6 000 m/s; ao quadrado, a diferença entre lembrar e esquecer é um fator 106.
Inverter o 3,6. De km/h para m/s o número diminui (divide-se por 3,6); de m/s para km/h aumenta. Se 20 m/s “virou” 5,6 km/h, o fator foi ao contrário.
Cancelar unidade errada no fator unitário. A unidade que se quer eliminar deve aparecer uma vez em cima e uma em baixo. Se sobrou km·s/h no fim, algum fator foi montado invertido.
Confundir kWh com kW. kW é potência (taxa); kWh é energia (potência vezes tempo). A conta de luz cobra energia.
Achar que a análise dimensional aprova a fórmula. Ela só reprova. mv2 tem dimensão de energia e não é a energia cinética.
O essencial em meia página
Medida = valor × unidade; a unidade acompanha o número em toda conta como fator algébrico. Toda medida tem incerteza: o instrumento decide quantos algarismos ela sustenta.
SI, 7 bases: m, kg, s, A, K, mol, cd. Derivadas: N = kg·m/s²; J = N·m; W = J/s; Pa = N/m²; Hz = 1/s; C = A·s; V = J/C. Fora do SI, aceitas: L = dm³ = 10−3 m³; t = 1 000 kg; kWh = 3,6 MJ; eV ≈ 1,6×10−19 J.
Prefixos: G 109, M 106, k 103, h 102, d 10−1, c 10−2, m 10−3, µ 10−6, n 10−9, p 10−12. Prefixo em unidade elevada eleva junto.
Notação científica: mantissa em [1,10) × potência de 10. Multiplica: soma expoentes; divide: subtrai; soma: iguala expoentes antes; potência: multiplica o expoente.
Fator unitário: multiplique por frações iguais a 1 até cancelar as unidades velhas. km/h → m/s: ÷ 3,6 (36 → 10, 72 → 20, 108 → 30). Área: fator²; volume: fator³ (1m2=104cm2, 1m3=106cm3=1000 L). g/cm³ → kg/m³: × 1 000. MWh → MJ: × 3 600.
Análise dimensional: [v]=LT−1, [a]=LT−2, [F]=MLT−2, [E]=ML2T−2, [P]=ML2T−3, [p]=ML−1T−2. Serve para deduzir unidade de constante (k em N/m, G em N·m²/kg²) e reprovar fórmulas; não fixa fatores numéricos.
Ordem de grandeza: potência de dez mais próxima (mantissa ≥ 3,16 sobe). Estimar: números redondos, multiplicar, conferir o expoente. 1 ano ≈ 3×107 s.
Algarismos significativos: contam a partir do primeiro não nulo; × e ÷ herdam o menor número de algarismos; + e − herdam o menor número de casas decimais; arredonde no fim.
Gráficos: inclinação e área herdam as unidades dos eixos (v×t: área em m; F×d: área em J). Leia os eixos antes da curva.
Escalar × vetorial: se a soma depende do ângulo, é vetor (velocidade, força); massa, tempo, energia são escalares.
Antes de responder: a unidade é a pedida? A ordem de grandeza é plausível? O prefixo foi convertido antes de elevar ao quadrado?
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AULA 01 - UNIDADES DE MEDIDA DO SISTEMA INTERNACIONAL
Física com Barba Negra · 9:12
Introdução. Apresenta as sete grandezas de base do SI e suas unidades (metro, segundo, ampere, kelvin, quilograma, candela, mol) e por que um sistema único de unidades existe: é a seção “Sete unidades bastam para descrever o mundo” em aula.
TABELA DE CONVERSÃO DE UNIDADES | Introdução à Física 04 | Minuto Exatas
Vida de Estudante · 4:40
Aprofundamento. Explica os prefixos (quilo, centi, mega, giga, tera, mili, micro) a partir do que se lê na balança, na régua e no dial do rádio, e ensina a usar a tabela de prefixos para converter: é a seção “Prefixos e notação científica”, com a escada de prefixos em movimento.
Aula 1: Unidades de medida e algarismos significativos
FisicaInterativa.Com · 26:18
Aplicação. O que é medir, o sistema métrico decimal, múltiplos e submúltiplos e algarismos significativos, com questões resolvidas passo a passo: cobre as seções “Medir é comparar com um padrão” e “Quantos algarismos uma resposta merece”.
Resolução. Resolve itens de vestibular de análise dimensional, entre eles a gota de chuva da Fuvest 2016, em que se deduz a unidade de uma constante a partir da fórmula: é a seção “As unidades denunciam a fórmula errada” aplicada a provas reais.
Cada instrumento compara a grandeza com um padrão e tem um limite de precisão: medir é isso, e a unidade vai junto com o número.As sete unidades de base do SI e as derivadas que mais aparecem na prova. Cada derivada é produto ou quociente das de base: 1N=1kg⋅m/s2, 1J=1N⋅m, 1W=1J/s, 1Pa=1N/m2. Diagrama autoral.A escada dos prefixos. De mili a quilo a escada anda de três em três zeros; centi e deci são degraus intermediários. De km para mm são seis casas (106); m é mili e M é mega. Diagrama autoral.O fator unitário: cada fração vale 1 e as unidades se cancelam como letras. 1000/3600=1/3,6 é a origem do atalho “divida por 3,6”; a régua de baixo é a tabela que vale decorar. Diagrama autoral.O mesmo fator 100, contado uma, duas e três vezes: 1m2=104cm2 e 1m3=106cm3=1000 L, porque o litro é o decímetro cúbico. Diagrama autoral.Substitua cada grandeza pela unidade e simplifique: m/s2(m/s)2=m passa; m/s2m/s=s é um tempo, não uma distância. A análise dimensional reprova sem nenhum dado. Diagrama autoral.Régua logarítmica de comprimentos: cada passo é um fator 10. Do átomo (10−10 m) à distância Terra–Sol (1,5×1011 m) são 21 passos. Saber em que casa o resultado deve cair é a primeira conferência de qualquer conta. Diagrama autoral.A régua garante os milímetros; o algarismo seguinte é estimado, o duvidoso. Escrever mais casas do que isso não aumenta a precisão, só a finge.Um metro cúbico são mil litros, porque cabem 10 × 10 × 10 decímetros cúbicos nele. A conversão de volume leva o fator ao cubo, não ao linear.Trinta mil ampères, cem milhões de volts, um quilômetro: em notação científica a potência é 3 × 10¹² W e o campo é 10⁵ V/m, não 100 V/m. Foi o bloco do PAS 3 de 2024.Nós a cada 14,46 m contados em 30 s de ampulheta: a milha náutica do texto do PAS 1 de 2006 saía de uma conversão de unidades, 14,46 × 120 = 1 735,2 m.15,0 MWh por tonelada são 54 MJ por quilograma: só prefixos, a hora em segundos e a tonelada em quilogramas. Item tipo B do PAS 3 de 2023.A mesma velocidade tem dois números, conforme a unidade: 72 km/h são 20 m/s. Dividir por 3,6 é a conta que abre quase todo item quantitativo.
Rota PAS 1
Grandezas, Leis de Newton e atrito · PAS 1
Fontes desta página
Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.
Rota PAS 1 — Grandezas, Leis de Newton e atrito · Aquecimento (ideias 1, 4 e 6: medir é número e unidade, tabela km/h × m/s, massa não é peso, relação linear × quadrática); Grandezas físicas: medir, converter e apontar a direção (conceito, tabela de símbolos m/s, m/s², N; item 2006/111 como ponte para vetores)
Recorte por assunto: só o que é medida, unidade e conversão. Vetores, leis de Newton, atrito, frenagem e curva pertencem às páginas vetores, leis-de-newton, atrito e movimento-circular-uniforme.
Rota PAS 1 — Estática e hidrostática · Aquecimento, ideia 5: volume, litro e densidade (1 m³ = 1 000 L; água 1 000 kg/m³)
Usados só os exemplos de unidades de volume e densidade; empuxo e pressão ficam em hidrostatica.
Rota PAS 1 — Química: substâncias e misturas · Aquecimento, ideia 1, e tabela de densidades (g/mL = g/cm³; densidade como grandeza derivada)
Usada só a tabela de densidades como exemplo de conversão g/cm³ ↔ kg/m³; separação de misturas fica na página de Química.
Cadernos e gabaritos oficiais do PAS/UnB (Cebraspe) · PAS 1 2006 (itens 9 e 13), 2007 (item 63), 2016 (itens 72, 73 e 74); PAS 3 2008 (item 76), 2023 (item 59), 2024 (itens 39 e 40)
Itens reproduzidos verbatim; gabaritos conferidos em utils/material/PAS/pesquisa/classificacao[-pas3]/AAAA.json e nos GAB.txt. Figuras impressas (raias espectrais de 2008, círculos das ondas sísmicas de 2016) descritas em texto neutro no suporte.