Quem sai do Rio de Janeiro pela BR-040 em direção a Belo Horizonte sobe a serra por Petrópolis, cruza o rio Paraibuna em Juiz de Fora e desce para o vale do rio das Velhas sem imaginar que está refazendo, quase metro a metro, o Caminho Novo que Garcia Rodrigues Pais começou a abrir em 1698, transitável por volta de 1704, e que a variante de Bernardo Soares de Proença (1725) fez subir pela serra de Petrópolis, para levar o ouro das Minas ao porto mais perto. Em Ouro Preto, a Casa dos Contos, erguida nos anos 1780 pelo contratador de impostos João Rodrigues de Macedo, ainda tem no porão a senzala com as argolas de ferro a que se prendiam as pessoas escravizadas da casa; em Diamantina, o mercado dos tropeiros virou feira de fim de semana; em Congonhas, doze profetas de pedra olham para a mesma ladeira por onde sobem romeiros desde o século XVIII. Nada disso é cenário: é o que sobrou de uma mudança de rumo que, em três décadas, tirou o centro de gravidade da América portuguesa do litoral do açúcar e o plantou a trezentos quilômetros do mar. Esta página é sobre essa mudança: como o ouro apareceu, como a Coroa foi atrás dele, que sociedade nasceu em volta das lavras e por que uma capela de Minas pode ser lida como documento.
O vocabulário que a prova supõe sabido
Ouro de aluvião é o ouro solto no cascalho dos rios e das encostas, arrastado pela erosão de veios mais antigos; era o que se tirava nas Minas, com bateia e enxada, sem galerias profundas. Faisqueira é o ponto de extração pequeno, trabalhado por uma pessoa ou por poucas; lavra é a exploração maior, com dezenas de trabalhadores escravizados, canais de desvio de rio e desmonte de barrancos. Data é o lote de terra aurífera distribuído pelo guarda-mor segundo o número de escravizados que o requerente tinha: quem levava mais gente recebia mais chão, e por isso a repartição das datas reproduzia a desigualdade antes mesmo de alguém bater a primeira bateia. Quinto é a parte do rei: um quinto, isto é, 20 % de todo o ouro extraído. Casa de Fundição é a repartição em que o ouro em pó era obrigatoriamente fundido em barras, marcado com o selo real e quintado; ouro em pó fora dela era contrabando. Capitação é o imposto cobrado por cabeça (por pessoa escravizada e por loja ou ofício), que substituiu o quinto entre 1735 e 1750. Derrama é a cobrança forçada, lançada sobre todos os moradores, para completar a cota mínima anual de quinto que a Coroa fixou em 1750 (100 arrobas, cerca de 1 470 kg). Intendência é o órgão régio que fiscalizava a mineração e os impostos: o regimento de 1702 criou a superintendência das minas e os guardas-mores (é o aparelho que os manuais e o ENEM chamam de “intendências das minas”), as Casas de Fundição ganharam intendentes do ouro a partir de 1725, e a Intendência dos Diamantes é de 1734. Contrato é a concessão a um particular, por arrematação, do direito de explorar ou cobrar algo em nome da Coroa: contratos de diamantes, de entradas (o pedágio das mercadorias nos registros de entrada), de dízimos. Arraial é o povoado nascido junto a uma lavra; vila é o arraial elevado pelo governador, com câmara, pelourinho e juiz; comarca é a divisão judicial (Vila Rica, Rio das Velhas, Rio das Mortes e, a partir de 1720, Serro Frio). Irmandade é a associação religiosa de leigos que construía igrejas, organizava festas e enterros e, nas Minas, separava a sociedade por cor e por fortuna: as ordens terceiras dos brancos ricos, as do Rosário e das Mercês dos pretos e dos pardos. Forro ou liberto é quem foi escravizado e obteve a alforria; coartação é a alforria comprada a prazo, em parcelas, comum nas Minas. Tropeiro é o condutor das tropas de mulas que abasteciam as lavras. Exclusivo (ou pacto colonial) é a regra de que a colônia só comerciava com a metrópole: o ouro tinha de sair por Lisboa.
Século e década importam neste assunto: “mineração setecentista” quer dizer século XVIII (1701–1800); “a década de 1690” é o fim do século XVII. Quando um item diz “no início do século XVIII”, pense em Emboabas, em arraiais sem igreja de pedra e em vilas que ainda não existiam; quando diz “em meados do século”, pense na capitação, no auge da produção e nas igrejas já em obra.
O ouro não foi achado por acaso
Durante quase dois séculos a Coroa portuguesa procurou metais na sua parte da América e só encontrou boatos. Os espanhóis tinham Potosí desde 1545, e o ouro e a prata que saíam de lá pagavam as guerras da Espanha; os portugueses, com o açúcar, pareciam ter ficado com a metade errada do continente. A busca, porém, nunca parou. Expedições de São Paulo subiram os rios Tietê e Paraíba e cruzaram a Mantiqueira atrás de indígenas para escravizar e de qualquer sinal de metal; foram elas que, no fim dos anos 1680 e no começo dos anos 1690, encontraram ouro nos cascalhos dos afluentes do rio das Velhas e do rio Doce. As datas da descoberta são incertas de propósito: quem achava ouro não corria para avisar o rei. A documentação da Coroa registra os achados a partir de 1693–1695 (região de Sabará e do rio das Velhas), 1696 (o Ribeirão do Carmo, futura Mariana), 1698 (o Tripuí e o Ouro Preto, futura Vila Rica) e 1704 (o rio das Mortes, futura São João del-Rei). Em 1711, quando Antonil publicou em Lisboa o livro que descrevia tudo isso, a Coroa mandou recolher a edição: o texto dizia demais sobre os caminhos e a riqueza.
O que é "corrida do ouro" e por que ela muda tudo tão depressa
Uma corrida do ouro é uma migração súbita, em massa e desorganizada para uma região onde o metal aparece em aluvião, isto é, onde qualquer pessoa com uma bateia pode tirá-lo sem capital inicial. Três consequências vêm juntas. Primeiro, gente demais e comida de menos: os preços dos alimentos nas Minas, nos primeiros anos, dispararam a múltiplos dos do litoral, e a fome do começo do século (1697–1701) matou mais que as brigas. Segundo, a chegada de todo tipo de pessoa (reinóis, paulistas, baianos, pernambucanos, escravizados comprados às pressas) e, com ela, a disputa por quem manda. Terceiro, a pressa da Coroa em montar uma administração onde antes só havia mato. A sequência que esta página acompanha é essa: ouro em aluvião, migração, fome e disputa, Estado.
A primeira disputa foi a dos Emboabas (1707–1709). Os paulistas, que haviam encontrado as lavras, consideravam-se donos delas; os recém-chegados de Portugal e do litoral, que os paulistas chamavam de “emboabas” (palavra tupi que designava os forasteiros, provavelmente aplicada por eles às aves de pernas emplumadas e, por extensão, a quem usava botas), eram cada vez mais numerosos e controlavam o comércio de abastecimento. O conflito teve emboscadas, o episódio do Capão da Traição (a rendição e o massacre de paulistas, em 1709, cujo número de mortos a documentação não permite fixar) e a vitória dos forasteiros, liderados por Manuel Nunes Viana. A Coroa aproveitou a crise para impor a sua presença: em 1709 criou a capitania de São Paulo e Minas do Ouro, em 1711 elevou os três primeiros arraiais a vilas (Ribeirão do Carmo, Vila Rica e Sabará) e em 1720, depois de uma revolta em Vila Rica contra as Casas de Fundição, separou Minas Gerais como capitania própria. Os paulistas, derrotados, seguiram para oeste e acharam mais ouro: Cuiabá (1719) e Goiás (1725). O mapa do Brasil central foi desenhado por quem perdeu a guerra das Minas.
Uma linha do tempo de 1693 a 1789
A cronologia abaixo é a que estrutura o argumento. Não é preciso decorar cada data; é preciso saber a ordem e os blocos: descoberta e disputa (1693–1711), organização e fisco (1711–1735), auge e capitação (1735–1750), queda da produção e aperto fiscal (1750–1789).

- 1693–1698: achados no rio das Velhas, no Ribeirão do Carmo e no Tripuí. 1700–1701: fome nas Minas. 1702: regimento das terras minerais, com o guarda-mor repartindo as datas segundo o número de escravizados; criação das intendências das Minas. 1703: Tratado de Methuen entre Portugal e a Inglaterra (vinhos por tecidos). 1707–1709: Emboabas. 1709: capitania de São Paulo e Minas do Ouro. 1711: as três primeiras vilas; Antonil.
- 1719–1720: a Coroa decreta as Casas de Fundição e a cunhagem em Vila Rica; revolta de Vila Rica (1720), encabeçada por Pascoal da Silva Guimarães e Filipe dos Santos, que termina com o enforcamento e o esquartejamento do segundo; criação da capitania de Minas Gerais (dezembro de 1720). 1725: as Casas de Fundição começam a funcionar de fato (Vila Rica, Sabará, São João del-Rei, Serro). 1729: a Coroa reconhece oficialmente os diamantes do arraial do Tijuco, achados anos antes. 1734: Intendência dos Diamantes; o Distrito Diamantino é fechado.
- 1735–1750: a capitação substitui o quinto: cada escravizado, cada loja, cada ofício paga uma quantia fixa por ano, trabalhe ou não. 1740: primeiro contrato de exploração dos diamantes. 1745: criação do bispado de Mariana (a vila do Carmo vira cidade episcopal). Anos 1740–1750: pico da produção de ouro, perto de 15 toneladas por ano.
- 1750: fim da capitação; volta do quinto com a cota mínima de 100 arrobas por ano e a previsão da derrama quando ela não fosse atingida; Pombal entra no governo. 1763: a capital do Estado do Brasil passa de Salvador para o Rio de Janeiro. 1771: a Coroa assume diretamente os diamantes (Real Extração) e proíbe a entrada no distrito sem licença. Anos 1770–1780: a produção cai pela metade em relação ao auge. 1763 e 1773: as duas derramas efetivamente lançadas, de arrecadação lenta e penosa. 1788–1789: boatos de nova derrama em Vila Rica; conspiração, suspensão da cobrança pelo governador Barbacena em março de 1789 e prisões em maio. O resto dessa história pertence a outra página.
Como se tirava o ouro, e por que ele acabou tão depressa
O ouro das Minas era, quase todo, ouro de aluvião. Chuvas de milhões de anos haviam desmanchado os veios de quartzo da serra do Espinhaço e carregado as palhetas para o leito e as margens dos rios, onde o metal, mais pesado que a areia, se depositava no cascalho. Tirá-lo exigia pouco: uma bateia (prato cônico de madeira ou metal) para lavar o cascalho e deixar o ouro no fundo, uma enxada, uma almocafre e, acima de tudo, braços. Nas faisqueiras, uma pessoa sozinha faiscava o que dava; nas lavras, dezenas de escravizados desviavam o curso de um rio com estacas e canais, desmontavam barrancos com água represada e passavam toneladas de cascalho por canoas e bateias. O que não se fazia nas Minas, salvo exceções tardias, era mineração subterrânea de verdade, com galerias, bombas e pólvora, porque a técnica não estava disponível na colônia e porque, enquanto houve aluvião, ela não compensava.
Isso explica a curva da produção. O aluvião é riqueza que se esgota: cada rio tem um estoque finito de cascalho aurífero, e os melhores pontos são os primeiros a serem lavados. Nos anos 1700–1710 a produção ainda era pequena; subiu com força nas décadas de 1720 e 1730, com a chegada de dezenas de milhares de escravizados e a abertura das lavras grandes; atingiu o auge entre 1740 e 1760, perto de 15 toneladas por ano nos anos melhores; e começou a cair nos anos 1760, quando o cascalho fácil acabou e o que restava exigia mais trabalho por grama. Em 1800 saía das Minas menos de um terço do que saíra em 1750.

"Ciclo do ouro" é rótulo de livro didático, não categoria de análise
A expressão “ciclo do ouro”, como “ciclo do açúcar” e “ciclo do café”, vem de uma leitura antiga da economia brasileira que a historiografia abandonou há décadas: a de produtos que se sucedem como atos de uma peça, cada um subindo, dominando e caindo. Ela esconde três coisas que a prova costuma cobrar. Primeiro, a simultaneidade: enquanto as Minas produziam ouro, Pernambuco e a Bahia seguiam produzindo açúcar, e o tabaco, o couro e o gado nunca pararam. Segundo, a continuidade: a mineração não “acabou” em 1800, ela encolheu; Minas ainda minera hoje, agora minério de ferro. Terceiro, a diversidade interna das Minas: ao lado das lavras havia roças, engenhos de cachaça, currais, tecelagem doméstica e um comércio de abastecimento que, pelos registros das entradas, movimentava somas da mesma ordem que o ouro quintado na segunda metade do século. Use a expressão se precisar, mas saiba que ela descreve um recorte de manual, não a economia real.
O rei quer o seu quinto: a fiscalidade mais pesada da colônia
Ouro em pó é fácil de esconder. Um saco de couro cabe numa bota, numa imagem oca de santo, no fundo falso de uma caixa. A Coroa sabia disso, e a história fiscal das Minas é a história de sucessivas tentativas de fechar as frestas por onde o ouro escapava sem pagar a parte do rei. Cada tentativa gerou resistência; cada resistência, uma nova fórmula.

- O quinto puro (até 1719). Vinte por cento de todo o ouro extraído pertencia ao rei. Nos primeiros anos cobrou-se nas bateias, depois nos registros das estradas; em alguns períodos a Coroa aceitou que as câmaras das vilas lhe entregassem uma quantia fixa em vez de medir cada lavra (as “fintas”). O resultado foi previsível: a arrecadação não acompanhava o que a Coroa calculava sair das Minas, e todo mundo sabia por quê.
- As Casas de Fundição (decretadas em 1719, em funcionamento a partir de 1725). A solução técnica: proibir a circulação do ouro em pó. Todo o ouro tinha de ser levado a uma Casa de Fundição, onde era derretido, quintado e transformado em barras seladas com as armas reais e numeradas; só a barra selada podia sair da capitania. O ouro em pó passou a ser contrabando por definição. A medida provocou a revolta de Vila Rica de 1720, liderada por homens ricos que perdiam com a fiscalização e por Filipe dos Santos, um tropeiro e tribuno; o governador conde de Assumar reprimiu-a com dureza, mandou incendiar o morro em que viviam os revoltosos e executar Filipe dos Santos, e a Coroa adiou a instalação das casas por cinco anos.
- A capitação (1735–1750). Como as Casas de Fundição não impediam o contrabando (o ouro saía antes de chegar a elas), a Coroa trocou a lógica: em vez de taxar o ouro, taxou quem podia tirá-lo. Cada escravizado em idade de trabalho pagava uma quantia anual fixa (4¾ oitavas de ouro, pouco mais de 17 gramas), e lojas, vendas e ofícios pagavam uma taxa proporcional. A arrecadação subiu e a Coroa gostou; os mineradores odiaram, porque pagavam o mesmo pela lavra que rendia e pela que já estava esgotada, e porque o imposto atingia também quem não minerava. As câmaras das vilas passaram anos pedindo a revogação, e Joaquim Romero Magalhães mostrou, nos papéis da Coroa, como essa pressão organizada acabou vencendo.
- O quinto com cota e a derrama (1750 em diante). O rei D. José I revogou a capitação em dezembro de 1750 e voltou às Casas de Fundição, mas com um acréscimo: as Minas deveriam entregar pelo menos 100 arrobas de ouro por ano. Se o quinto normal não chegasse a isso, a diferença seria rateada entre todos os moradores, por cabeça ou por posse: a derrama. Enquanto a produção foi alta a cota se cumpriu; a partir dos anos 1760 ela deixou de ser atingida e a derrama saiu do papel: foi lançada em 1763 e de novo em 1773, cobrada com lentidão e protesto, e a dívida que sobrava foi crescendo (Luciano Figueiredo e Tarcísio Gaspar reconstituíram esses lançamentos nos papéis da Fazenda). Em 1788–1789 a ameaça de uma terceira derrama, sobre uma dívida muito maior, foi o estopim da conspiração de Vila Rica, e o governador visconde de Barbacena suspendeu a cobrança em março de 1789, dias antes das prisões. A derrama é o elo entre esta página e a da Inconfidência; aqui basta entender o mecanismo.
Quinto, capitação e derrama não são sinônimos
Os três nomes designam coisas diferentes e aparecem trocados nos itens. O quinto é a alíquota (20 % do ouro). A capitação é um imposto de outra base: por cabeça, sobre pessoas e estabelecimentos, cobrado de 1735 a 1750 no lugar do quinto. A derrama não é um imposto novo: é a cobrança compulsória da diferença entre o que o quinto rendeu e a cota de 100 arrobas, prevista na lei de 1750. Dizer que “a derrama era o imposto de 20 %” ou que “a capitação era a cobrança forçada dos atrasados” é erro de definição, e a banca gosta de testar justamente definição.
O contrabando foi o outro lado dessa moeda. Parte do ouro saía por caminhos proibidos para a Bahia, para o Rio e até, pelo oeste, para as possessões espanholas; parte era vendida em pó a comerciantes que a levavam para fora sem passar pela fundição; parte era levada pelos próprios navios para a Inglaterra, que não tinha ouro e precisava dele para suas moedas. A Coroa criou registros (postos fiscais) nas estradas, proibiu a abertura de caminhos novos sem licença, mandou destruir picadas e chegou a proibir, em 1720, a emigração de portugueses para o Brasil sem passaporte. Nada disso fechou todas as frestas; mas a soma das medidas fez das Minas a capitania mais vigiada da América portuguesa, e esse peso do Estado, novo na colônia, é uma das rupturas que a mineração trouxe.
A sociedade que nasceu em volta das lavras: urbana, mestiça e vigiada
O engenho produzia uma sociedade rural com um dono; a lavra produziu outra coisa. Como o ouro de aluvião está espalhado em muitos rios, e não concentrado em uma jazida, os mineradores se espalharam com ele, e cada ponto rico virou um arraial: uma rua de casas de pau a pique, uma capela, vendas, um pelourinho quando virava vila. Em poucas décadas as Minas tinham o que a colônia nunca tivera: uma rede de vilas próximas umas das outras, com câmaras que disputavam jurisdição, igrejas em pedra, ofícios (ferreiros, carpinteiros, ourives, barbeiros, músicos), tavernas, boticas e, a partir de 1745, um bispado em Mariana. A população cresceu a um ritmo que nenhuma outra capitania conheceu: o primeiro censo confiável, de 1776, contou cerca de 320 mil pessoas; o de 1786, perto de 363 mil. Nessa última contagem, aproximadamente metade era escravizada, um terço era formado por pessoas livres de cor (pardos e pretos forros ou nascidos livres) e menos de um quinto era branca. Não havia nada parecido no Nordeste do açúcar.

Quem alimentava toda essa gente? A pergunta é a chave do mercado interno. Lavra não planta, e nos primeiros anos a comida chegou tarde e cara. A resposta veio de fora e de dentro. De fora, pelas três estradas que a Coroa autorizou: o Caminho Velho, de Paraty e Taubaté pela serra, com dois meses de viagem; o Caminho Novo, do Rio de Janeiro pelo vale do Paraíba e a serra da Mantiqueira, aberto por Garcia Rodrigues Pais a partir de 1698 e que cortava o tempo a menos da metade; e o caminho da Bahia, pelo vale do São Francisco, por onde subiam gado e escravizados do Nordeste. Por essas estradas vinham as tropas de muares que deram nome ao tropeiro: sal, ferro, pólvora, tecidos, vinho, azeite e, no sentido inverso, o ouro quintado. As mulas vinham do Sul: a criação de muares no Rio Grande e a feira de Sorocaba, em São Paulo, prosperaram porque as Minas precisavam de animais de carga aos milhares. O gado para o açougue descia do São Francisco e, depois, do sul de Minas; o charque viria do Rio Grande mais tarde. De dentro, a própria capitania virou produtora: roças de milho, feijão e mandioca, engenhos de cachaça e rapadura, criação de porcos, tecelagem de algodão nas casas. Quando a produção de ouro caiu, foi essa economia de abastecimento que segurou a população nas Minas, e o fato de Minas Gerais ser até hoje o maior estado agropecuário do Sudeste começa aí.
O Rio de Janeiro foi quem mais ganhou. Como porto de saída do ouro pelo Caminho Novo e porta de entrada dos escravizados e das mercadorias para as Minas, a cidade cresceu mais depressa que Salvador, e em 1763, no governo de Pombal, a Coroa transferiu para lá a sede do Estado do Brasil, levando o vice-rei para perto do ouro e da fronteira do Prata, onde Portugal disputava a Colônia do Sacramento com a Espanha. A capital do Brasil seguiu o dinheiro.
O feijão tropeiro, a congada e a Estrada Real
Três coisas do presente nasceram nessas estradas. O feijão tropeiro (feijão com farinha, toucinho e couve) é a comida de viagem das tropas, que o ENEM cobrou em 2010: alimento que não estragava e podia ser feito num pouso. As congadas e os reinados de Nossa Senhora do Rosário, vivos em dezenas de cidades mineiras, são as festas das irmandades de pretos do século XVIII, que coroavam reis e rainhas do Congo. E a Estrada Real, hoje roteiro turístico sinalizado, é a soma dos caminhos Velho, Novo, da Bahia e dos Diamantes. A lição de método é a mesma: comida, festa e estrada são fontes, e a pergunta é sempre quem fez, para quê e o que ficou.
Escravidão nas Minas: mais gente, mais cidade, outras frestas
A mineração não substituiu o trabalho escravizado pelo livre; fez o contrário. As Minas se tornaram, no século XVIII, a região da América portuguesa que mais comprava africanos: as lavras disputavam cativos com os engenhos, os preços subiram em toda a colônia e o porto do Rio de Janeiro passou a receber mais desembarques que o de Salvador. Os primeiros contingentes vieram sobretudo da Costa da Mina (o golfo do Benim, de onde vinham pessoas que os senhores supunham mais aptas à mineração, porque na África ocidental havia tradição de extrair ouro); depois dominaram os de Angola e do Congo, trazidos pelo Rio. A mortalidade nas lavras era alta (água fria até a cintura, desmoronamentos, doenças), e a reposição constante pelo tráfico é, como no açúcar, indício dessa mortalidade. Isso é a permanência: o ouro rodou sobre a mesma base de trabalho forçado que o açúcar.
A ruptura está na forma. Numa vila mineradora, o escravizado não vivia preso ao eito de um só engenho. Havia o escravizado de ganho, que trabalhava pelas ruas (vendendo, carregando, nos ofícios) e entregava ao senhor uma cota semanal, ficando com o resto; o faiscador, mandado sozinho ao rio com a obrigação de voltar com certa quantidade de ouro; a negra de tabuleiro, vendedora ambulante de comida e cachaça, perseguida pelas câmaras porque abastecia os escravizados das lavras e, segundo as autoridades, comprava ouro contrabandeado. Esse trabalho com margem de autonomia tornou possível juntar algum ouro, e com ele comprar a liberdade: a coartação, a alforria paga em prestações ao longo de anos, foi mais frequente nas Minas que em qualquer outra parte da colônia. O saldo foi uma população forra numerosa, que em 1786 já era um terço dos habitantes, e que trabalhava como artesã, vendeira, tropeira, pequena lavradora. As irmandades de pretos e de pardos, como a do Rosário, a das Mercês e a de Santa Efigênia, eram a forma institucional dessa presença: construíam suas igrejas (a de Santa Efigênia, em Ouro Preto, é a igreja dos pretos do morro de Chico Rei, segundo a tradição oral), enterravam seus mortos, emprestavam dinheiro para alforrias e disputavam com as irmandades brancas o lugar nas procissões.
Fresta não é porta aberta
Dois erros simétricos derrubam itens sobre a escravidão mineira. O primeiro é dizer que a mineração “dispensou” ou “abrandou” o trabalho escravizado: as Minas foram a maior compradora de africanos do século XVIII e a capitação, lembre-se, era cobrada por escravizado, o que diz tudo sobre o que a Coroa supunha ser a base da extração. O segundo é concluir, da existência de forros ricos e de irmandades negras, que a sociedade mineira “superou” a hierarquia de cor: as irmandades eram separadas justamente por cor, as câmaras proibiam que forros ocupassem cargos, e Chica da Silva, a mais famosa das forras, nunca foi recebida nas irmandades brancas do Tijuco. Mobilidade e hierarquia coexistiam; a prova pede que você veja as duas.
Chica da Silva: a história contra o mito. Francisca da Silva de Oliveira nasceu escravizada no arraial do Tijuco por volta de 1732, filha de uma africana e de um português. Em 1753 foi comprada e alforriada por João Fernandes de Oliveira, contratador dos diamantes, o homem mais rico da capitania, com quem viveu até 1770 e teve treze filhos, educados como os filhos da elite (as meninas no recolhimento de Macaúbas, os meninos em Portugal). Dona de casa grande, de escravizados e de terras, membro de várias irmandades, Chica morreu em 1796 e foi enterrada na igreja da ordem terceira de São Francisco, reservada aos brancos. O cinema (o filme de 1976) e a televisão (a novela de 1996) fizeram dela uma figura sensual e caprichosa, “a escrava que virou rainha”. A historiadora Júnia Furtado foi aos arquivos (testamento, registros de batismo, atas de irmandade) e mostrou outra pessoa: uma mulher que usou os instrumentos da sociedade escravista (a união com um homem poderoso, a religiosidade, a posse de escravizados, a educação dos filhos) para conquistar e consolidar uma posição, dentro de limites que nunca deixaram de existir. O caso ensina um método: biografia excepcional documenta frestas; não autoriza generalizar nem para o “paraíso racial” nem para o “nada mudou”.
Leitura de fonte 1: Antonil e a lista de quem foi às Minas (1711)
Em 1711 saiu em Lisboa Cultura e opulência do Brasil, com o subtítulo por suas drogas e minas, de André João Antonil, pseudônimo do jesuíta italiano Giovanni Antonio Andreoni, que vivia na Bahia desde 1681. A quarta parte do livro trata das minas, e um de seus capítulos descreve quem ia para lá. Em ortografia atualizada, Antonil escreve que, todos os anos, vinham nas frotas “quantidade de portugueses e de estrangeiros” para passar às minas; que das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil iam “brancos, pardos e pretos, e muitos índios”; e que “a mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil convento nem casa”.
Observar. O texto lista, e a lista é o dado: origens (Portugal, estrangeiros, todas as regiões da colônia), cores (brancos, pardos, pretos, índios), sexos, idades, condições sociais e, com reprovação visível, clérigos sem convento. É a descrição de uma migração sem filtro. Hipotetizar. Um jesuíta que escreve para administradores e proprietários não está celebrando essa mistura; está avisando que as Minas drenam gente de todo o Brasil e que a desordem é um problema de governo. A frase sobre religiosos “que não têm no Brasil convento” é uma denúncia: frades soltos atrás de ouro. Contextualizar. 1711 é o ano seguinte à guerra dos Emboabas e o ano das primeiras vilas; a Coroa ainda não tinha Casas de Fundição nem capitania separada. O livro foi recolhido por ordem régia logo depois de impresso, porque descrevia os caminhos e as riquezas com precisão perigosa num momento em que Portugal temia invasões (os franceses atacaram o Rio em 1710 e 1711). Corroborar. Os registros de passaportes, a lei de 1720 que restringiu a emigração do Reino e os livros de batismo das Minas, cheios de pais nascidos em Braga, no Porto, na Bahia e em Angola, confirmam a mistura que Antonil descreve. E as outras leituras? O mesmo trecho pode ser lido como evidência de mobilidade social (gente pobre tentando a sorte) ou de desordem (a visão do autor); o historiador registra as duas e decide pelo conjunto das fontes. O que a lista não permite concluir sozinha: quantos foram. Para isso servem os censos tardios e as estimativas de embarque, não o texto.
Diamantes: o Tijuco, o contrato e a Real Extração
O ouro era de todos que tivessem data; o diamante foi do rei. As pedras apareceram no arraial do Tijuco (hoje Diamantina), na comarca do Serro Frio, nos anos 1720, e durante algum tempo foram usadas como fichas de jogo por quem não sabia o que eram. Quando a Coroa confirmou a notícia, em 1729, agiu de modo diferente do que fizera com o ouro: em vez de distribuir datas, fechou a região. A Intendência dos Diamantes (1734) demarcou o Distrito Diamantino, expulsou mineradores, proibiu a entrada sem licença e suspendeu a extração por alguns anos para não derrubar o preço das pedras em Amsterdã e Londres. A partir de 1740 a exploração foi arrematada por contratos a particulares, que pagavam uma quantia fixa e se obrigavam a usar um número limitado de escravizados (a lógica era controlar a oferta); o mais conhecido dos contratadores foi João Fernandes de Oliveira, o companheiro de Chica da Silva. Em 1771, Pombal acabou com os contratos e instituiu a Real Extração: a Coroa passou a explorar diretamente, com um regimento tão duro (o “Livro da Capa Verde”) que a tradição mineira o lembra como sinônimo de arbítrio: busca em casas, expulsão sem processo, proibição de ofícios inteiros. O Distrito Diamantino foi a parte mais vigiada da capitania mais vigiada da colônia; e a Diamantina que a UNESCO tombou em 1999 é, no traçado e nos sobrados, a cidade dos contratadores e da Intendência.
Leitura de fonte 2: um mapa da capitania de Minas Gerais (1778)
Entre 1777 e 1778 o engenheiro militar José Joaquim da Rocha desenhou, por ordem do governador, uma série de mapas da capitania de Minas Gerais e de suas comarcas. O mapa geral (manuscrito colorido, hoje em arquivos do Rio de Janeiro e de Lisboa) mostra o território recortado pelas quatro comarcas (Vila Rica, Rio das Velhas, Rio das Mortes e Serro Frio), as vilas e os arraiais marcados com símbolos de igreja, os rios em azul, as serras em verde-escuro e os caminhos em linhas pontilhadas; nas bordas, cartelas com o título e o nome do autor. O Distrito Diamantino aparece demarcado com uma linha própria, e os “sertões” do oeste e do norte, além do rio São Francisco, estão quase vazios de nomes.

Observar. O que o mapa enche e o que deixa vazio: aglomerados de nomes ao longo dos rios auríferos (das Velhas, das Mortes, Doce, Jequitinhonha), caminhos que convergem para o Rio de Janeiro, e nada onde não havia ouro. Hipotetizar. Um mapa feito por ordem do governador, em 1778, tem um propósito administrativo: saber onde estão as vilas, os registros e os caminhos para cobrar e fiscalizar, no momento exato em que a produção caía e a cota de 100 arrobas deixava de ser cumprida. O vazio do oeste não é ausência de gente (havia povos indígenas e quilombos, como o do Campo Grande, destruído em 1759), é ausência de interesse fiscal. Contextualizar. A cartografia das Minas acompanhou o fisco: os primeiros mapas (1720–1730) serviram para fixar as fronteiras com São Paulo e a Bahia e para localizar os registros; os de Rocha, para o governo de uma capitania já inteira. Corroborar. Os mapas de Rocha batem com os censos de 1776 e 1786 e com as listas de registros das entradas; os vazios batem com a documentação das guerras contra os Botocudos no vale do rio Doce, que a Coroa só ocuparia no começo do século XIX. E as outras leituras? O mesmo mapa serve a um historiador da economia (a geografia do ouro), a um historiador indígena (o que ele silencia) e a um historiador da arte (as igrejas como marcos do povoamento). O que ele não permite concluir: quantas pessoas viviam em cada lugar, nem quem eram.
Congonhas: ler uma escultura como se lê um documento
O santuário de Congonhas, dedicado ao Bom Jesus de Matosinhos, começou como promessa. Feliciano Mendes, português que trabalhara nas lavras e adoecera, prometeu em 1757 erguer uma capela ao Bom Jesus, cuja devoção trouxera de Matosinhos, perto do Porto; recolheu esmolas pelas Minas com uma imagem a tiracolo e, quando morreu, em 1765, a igreja estava em obra e a irmandade do Bom Jesus tomou conta do projeto. Nas décadas seguintes o santuário virou o maior centro de romaria da capitania, e a irmandade, com as esmolas dos romeiros, encomendou o que hoje a UNESCO protege: as seis capelas dos Passos da Paixão, descendo a ladeira, com 64 figuras de cedro em tamanho natural esculpidas pela oficina de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, entre 1796 e 1799, e policromadas por Manuel da Costa Ataíde e sua oficina; e, no adro da igreja, os doze profetas em pedra-sabão, executados entre 1800 e 1805. O conjunto foi tombado pelo IPHAN em 1939 e inscrito como Patrimônio Mundial em 1985.

O que se sabe do autor cabe em poucas linhas documentadas. Antônio Francisco Lisboa nasceu em Vila Rica, por volta de 1738, filho de Manuel Francisco Lisboa, mestre de obras português, e de Isabel, uma mulher africana escravizada do pai; foi alforriado na pia batismal, aprendeu o ofício na oficina paterna e com os entalhadores da vila, e a partir dos anos 1770 recebeu as encomendas mais importantes da capitania (a fachada de São Francisco de Assis em Ouro Preto, o Carmo de Sabará, as igrejas de São João del-Rei). A doença que o deformou a partir de 1777 (a documentação não permite diagnóstico; a tradição fala em lepra, a historiografia recente em outras hipóteses) deu-lhe o apelido e a lenda. Morreu em 1814, pobre, em Vila Rica. Boa parte do que se repete sobre ele vem de uma única fonte: o relato de Rodrigo José Ferreira Bretas, escrito em 1858, quarenta e quatro anos depois da morte, a partir de memórias de quem o conhecera. É uma fonte tardia e laudatória, e o historiador a lê como tal.
Leitura de fonte 3: um profeta do adro, descrito
Tome o profeta Daniel, na escadaria do adro. Pedra-sabão cinza-esverdeada; figura de pé, um pouco maior que o natural, com o peso do corpo numa perna e a outra flexionada; manto que se enrola em dobras largas sobre a túnica; na mão, um pergaminho de pedra com inscrição em latim, tirada do próprio livro bíblico de Daniel; a cabeça coberta por um gorro, o rosto de barba curta, sobrancelhas marcadas, olhos amendoados e queixo partido; aos pés, um leão pequeno, de juba tratada como se fosse crina penteada, olhando para cima como um cão. As outras onze figuras seguem o mesmo esquema (pergaminho, gesto de quem fala, roupa de dobras profundas) e estão dispostas no adro de modo que, vistas de baixo, formam uma assembleia que se dirige a quem sobe.
Observar. O que a escultura mostra sem precisar de legenda: homens que falam, com o corpo inteiro, a quem chega; textos (os pergaminhos) para quem lê; animais (o leão de Daniel, o peixe de Jonas) para quem não lê e reconhece a história pelo atributo. O leão de Daniel não é um leão naturalista: é o leão de quem nunca viu um, feito de descrição e de gravura. Hipotetizar. Uma assembleia de profetas na entrada de um santuário de romaria tem função: anunciar, a quem sobe a ladeira, que a Paixão que acabou de ver nas capelas foi prevista pela Escritura; é catequese pela pedra, para uma população que, na maioria, não lia. Os pergaminhos em latim são para o clero e os letrados; os gestos e os atributos, para todos. Contextualizar. Fim do século XVIII, Minas em queda de produção, uma irmandade que paga com esmolas e não com dinheiro do rei; o padroado régio (a Coroa administrava a Igreja e cobrava o dízimo) e a ausência de corte na colônia explicam por que a arte religiosa mineira foi financiada por irmandades e ordens terceiras, e não por um mecenas. Um escultor pardo, filho de escravizada, no topo do ofício: o próprio autor é documento das frestas que a sociedade mineradora abria, e das que fechava (ele nunca pôde entrar na ordem terceira de São Francisco, cuja fachada esculpiu; pertenceu à irmandade de São José dos Bem-Casados, dos pardos). Corroborar. Os livros de receita e despesa da irmandade do Bom Jesus registram os pagamentos ao “mestre Antônio Francisco” e à oficina de Ataíde; as inscrições dos pergaminhos conferem com a Vulgata; a técnica (pedra-sabão local, cedro da região, pigmentos importados e locais) confere com os inventários de materiais da capitania. E as outras leituras? Um historiador da arte lerá nos profetas o barroco tardio luso-brasileiro e os traços pessoais do autor (o queixo partido, os olhos amendoados, as mãos curtas, que o PAS 2 cobrou em 2019); um estudioso da religiosidade lerá a devoção ao Bom Jesus como importação portuguesa aclimatada; um historiador social lerá a sociedade mestiça e devota das Minas. Nenhuma leitura exclui a outra. O que o conjunto não permite concluir: que a sociedade que o produziu fosse “menos escravista” ou “mais igualitária” do que a do litoral; os mesmos livros da irmandade registram a compra de pessoas escravizadas para o serviço do santuário.
O que a prova entende por "barroco mineiro" e por "função catequética"
“Barroco mineiro” é um rótulo de conveniência para a arte religiosa produzida nas Minas entre cerca de 1720 e 1820: talha dourada e pintura nas primeiras décadas (quando havia ouro para dourar), rococó de linhas mais leves e cores claras depois de 1760 (quando havia menos), com uma escola local de escultores, pintores e músicos formada em oficinas, não em academias. “Função catequética” é a razão de ser dessa arte: ensinar a doutrina com imagens, gestos e emoção visível a quem não lia, num território sem universidade, sem imprensa e com poucos padres. Quando um item diz que a obra “tem função catequética” ou que a policromia “dá veracidade e humanidade às esculturas”, ele está descrevendo esse mecanismo, e a banca o gabaritou como certo em 2025. Quando diz que o artista “esculpiu Judas em posição de gratidão”, inventa uma leitura que as figuras da Santa Ceia não sustentam, e foi errado.
O que o ouro quebrou e o que deixou de pé
A tesoura da ruptura e da permanência corta esta página em dois sentidos, e a prova cobra os dois.
Rupturas. O eixo da colônia saiu do litoral nordestino para o Centro-Sul: população, comércio, capital política (1763). Nasceu uma rede urbana, com câmaras, ofícios, irmandades, uma elite letrada que produziu os poetas da Arcádia mineira e, no fim do século, a conspiração de 1789. Formou-se um mercado interno que ligou o Sul (muares, gado), o Nordeste (gado, couro, escravizados pelo São Francisco) e o Rio de Janeiro às Minas, e que sobreviveu ao ouro. A Coroa montou nas Minas um aparelho fiscal e repressivo que a colônia não conhecia (intendências, Casas de Fundição, registros, Real Extração, tropas pagas). E a moeda circulou: o ouro em barra e em moeda deu às Minas uma economia monetarizada, com crédito, dívidas em cartório e uma população forra que comprava e vendia.
Permanências. O trabalho escravizado seguiu sendo a base de tudo, em proporção maior do que no açúcar. O ouro seguiu o caminho do açúcar: para Lisboa, pelo exclusivo, em frotas vigiadas, e de Lisboa para a Inglaterra. O Tratado de Methuen (1703) explica o desvio: Portugal abriu seu mercado aos tecidos ingleses em troca de tarifas favoráveis ao seu vinho na Inglaterra; como Portugal comprava muito mais tecido do que vendia vinho, a diferença foi paga em ouro brasileiro, e o metal que saía das Minas acabou nos cofres do Banco da Inglaterra e nas oficinas que, décadas depois, fariam a Revolução Industrial. Celso Furtado resumiu o processo dizendo que Portugal foi pouco mais que um entreposto: o ouro passava por Lisboa e se acumulava em Londres. A grande propriedade continuou: as datas e as sesmarias de Minas reproduziram a concentração que o litoral conhecia. E a hierarquia de cor atravessou a mobilidade: forros ricos, sim; irmandades por cor, câmaras fechadas a pardos, também.
Onde os historiadores discordam: o que o ouro deixou?
Celso Furtado (Formação econômica do Brasil, 1959) viu na mineração uma economia de renda mais distribuída que a do açúcar (muitos pequenos mineradores, mercado interno, forros), mas sem capacidade de se transformar: quando o ouro acabou, a região “involuiu” para uma economia de subsistência, e o capital fora para a Inglaterra via Methuen. Charles Boxer (A idade de ouro do Brasil, 1962) contou a história pelo lado do império: o ouro financiou a corte de D. João V, Mafra e a Inglaterra, e deixou nas Minas uma civilização urbana e barroca; é dele a imagem do século XVIII como a “idade de ouro” que o Brasil deu a Portugal. Laura de Mello e Souza (Desclassificados do ouro, 1982) inverteu o foco: olhou não para quem enriqueceu, mas para a massa de pobres livres, vadios, forros e mestiços que a sociedade mineradora produziu e não absorveu, os “desclassificados”, e mostrou que a pobreza foi tão filha do ouro quanto as igrejas. Laird Bergad (1999) e, antes dele, Francisco Vidal Luna usaram listas nominativas e inventários para mostrar que a população escravizada das Minas, depois da queda do ouro, cresceu por reprodução natural e que a economia não “involuiu”: virou agropecuária e artesanal, com escravidão. Júnia Furtado (Chica da Silva e o contratador dos diamantes, 2003) e Carla Almeida (Ricos e pobres em Minas Gerais, 2010) seguiram a mesma trilha com biografias e inventários, e o quadro atual é o de uma sociedade mais complexa e menos decadente do que a de Furtado. A. J. R. Russell-Wood estudou as irmandades e os forros (Escravos e libertos no Brasil colonial) e Caio Boschi (Os leigos e o poder, 1986) mostrou como as irmandades substituíram, nas Minas, as ordens religiosas que a Coroa proibira de se instalar. Para a prova, guarde a disputa e não o veredito: “o ouro não deixou nada” (Furtado) e “o ouro criou uma civilização” (Boxer) são teses, não fatos, e os dados recentes complicam as duas.
Crise, Pombal e o aperto que terminou em 1789
A queda da produção a partir dos anos 1760 coincidiu com o governo de Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal, primeiro-ministro de D. José I entre 1750 e 1777. Pombal reagiu à queda com mais Estado: a Real Extração dos diamantes (1771), o fim dos contratos particulares, a expulsão dos jesuítas (1759) e, no plano econômico, companhias de comércio monopolistas e o incentivo a manufaturas em Portugal para reduzir a dependência inglesa. Nas Minas, o que se sentiu foi o aumento da cobrança sobre uma produção que diminuía: a dívida do quinto em relação à cota de 100 arrobas crescia a cada ano, duas derramas já tinham sido lançadas (1763 e 1773) e uma terceira era ameaçada, e os grandes devedores da Fazenda (contratadores de entradas e dízimos, como João Rodrigues de Macedo, em cuja casa, a Casa dos Contos, se reuniam os conspiradores) tinham motivos materiais para temer o Estado. A conspiração de 1788–1789 em Vila Rica nasceu desse cruzamento entre fisco em alta, produção em baixa e ideias ilustradas que chegavam com os filhos da elite formados em Coimbra. Tarcísio Gaspar mostrou, lendo os boatos de 1788, que a derrama não assustava só os pobres: pelo seu critério de proporcionalidade à riqueza, ela colidia com a elite endividada, e foi a elite que conspirou. Esta página para na suspensão da derrama por Barbacena, em março de 1789; a conspiração, os réus e Tiradentes são assunto da página sobre a independência.
Anacronismos e erros clássicos sobre a mineração
Dez frases que custam um ponto
- “A mineração substituiu o trabalho escravizado pelo livre.” Fez o contrário: as Minas foram a maior compradora de africanos do século XVIII.
- “A derrama era o imposto de 20 % sobre o ouro.” Não: o quinto era a alíquota; a derrama, a cobrança forçada da diferença até 100 arrobas, prevista em 1750.
- “As Casas de Fundição começaram a funcionar em 1720.” Foram decretadas em 1719, provocaram a revolta de 1720 e só funcionaram a partir de 1725.
- “A capitação era cobrada sobre o ouro extraído.” Era cobrada por cabeça (escravizados, lojas, ofícios), entre 1735 e 1750, justamente para não depender do ouro declarado.
- “O ouro ficou em Portugal e financiou a industrialização portuguesa.” Grande parte foi para a Inglaterra pelo déficit comercial que o Tratado de Methuen (1703) ampliou.
- “A interiorização pela mineração ocorreu no Nordeste.” Minas, Goiás e Mato Grosso; o sertão nordestino foi ocupado pela pecuária, a partir do século XVII. O PAS 1 deu E a essa troca em 2012.
- “O Aleijadinho, sozinho, esculpiu os Passos e os Profetas.” Uma oficina com aprendizes e oficiais, sob sua direção, e a policromia por Ataíde e sua equipe.
- “Congonhas foi pago pela corte do Rio de Janeiro.” A corte chegou em 1808; os Passos são de 1796–1799 e os Profetas de 1800–1805, pagos por esmolas e pela irmandade do Bom Jesus.
- “A Inconfidência Mineira começou a independência do Brasil.” Foi uma conspiração de elite, regional, sufocada antes de agir; a independência de 1822 tem outra cronologia e outros agentes.
- “O ouro acabou e Minas despovoou.” A população cresceu depois de 1780; a economia virou agropecuária e artesanal, com escravidão, e a capitania seguiu a mais populosa do Brasil.
Outros três erros de método. Teleologia: ler 1789 como “preparação” de 1822 ou o quinto como “causa” da Inconfidência numa linha reta; entre o imposto e a conspiração há trinta anos, uma elite endividada e ideias que vieram de fora. Voluntarismo: “Pombal decidiu e o ouro voltou a render” ou “Assumar reprimiu e acabou a resistência”; as Casas de Fundição foram adiadas cinco anos pela resistência, a capitação caiu por pressão das câmaras. Presentismo: julgar as irmandades por cor como “racismo institucionalizado” no sentido atual, sem ver que, naquela sociedade, elas eram também a única forma de organização que os escravizados e forros tinham; o historiador descreve o funcionamento antes de julgar, e nomeia a hierarquia sem traduzi-la em categorias de hoje.
Como a prova cobra a mineração
Nenhum item de História do PAS 2 tratou diretamente do ouro nas 19 provas de 2007 a 2025; a obra do Aleijadinho rendeu três itens de Artes em 2025, e a 1.ª etapa cobrou a mineração em 2009, 2011, 2012 e 2015. No ENEM o assunto é frequente e aparece com texto-base de historiador (Paiva, Del Priore e Venâncio, Laurentino Gomes, Jancsó e Pimenta). Os moldes que se repetem:
- Troca geográfica: a interiorização “evidenciada no Nordeste” (PAS 1 2012, E). Antídoto: Minas, Goiás, Mato Grosso.
- Intensidade invertida: escravizados “praticamente inexistentes” nas zonas mineradoras (PAS 1 2015, E). Antídoto: a capitação por escravizado e os desembarques no Rio.
- Encadeamento correto que parece exagero: ouro e diamantes, deslocamento para os sertões, novo eixo, capital no Rio (PAS 1 2015, C). Antídoto: conferir cada elo; todos têm lastro.
- Dinâmica interna sob dependência externa: a economia subordinada ao mercantilismo, mas com comércio interno de abastecimento (PAS 1 2009, C). Antídoto: as duas coisas eram verdadeiras ao mesmo tempo.
- Fiscalização como marca regional: a especificidade das Minas identificada na “fiscalização estatal diante das particularidades econômicas” (ENEM 2013, D) e a “criação das intendências das minas” como medida para garantir a ordem (ENEM 2020, E).
- Demografia: a população que cresce dez vezes em cem anos por causa da mineração “com a ampliação do tráfico africano” (ENEM 2016, C).
- Identidade: “filhos de Minas”, “País de Minas” como sinal da fragmentação territorial sob o controle metropolitano, e não de uma identidade nacional (ENEM 2021, C).
- A obra como fonte: função catequética e policromia (PAS 2 2025, C); Judas “em gratidão” (E); o profeta de Congonhas que “modela uma imagem sacra com feições populares” (ENEM 2012, D).
- Permanência até hoje: a exportação de commodities desde o período colonial, agora minério de ferro (PAS 3 2023, C).
Regra de julgamento: distinga o fato do vínculo, confira as datas (1719, 1720, 1725, 1735, 1750, 1763, 1771, 1789), pergunte quem pagava e quem lucrava, e desconfie de qualquer “substituiu”, “superou”, “inexistente”, “exclusivamente”.
Mariana, Brumadinho e o que a mineração ainda é
Em 5 de novembro de 2015 a barragem de Fundão, da Samarco, rompeu em Mariana e despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no rio Doce, matando 19 pessoas e chegando ao mar do Espírito Santo; em 25 de janeiro de 2019 a barragem da Vale em Brumadinho matou 270. Os dois desastres aconteceram no Quadrilátero Ferrífero, a região que, no século XVIII, era das Minas do ouro (Mariana é a antiga vila do Ribeirão do Carmo). A permanência que o PAS 3 cobrou em 2023 é essa: a exportação de matéria-prima mineral como traço da economia brasileira desde a colônia, com o Brasil entre os maiores exportadores de minério de ferro do mundo. A ruptura é igualmente real: o minério de ferro do século XXI é lavra industrial de empresas de capital aberto, com barragens de rejeito, e não cascalho de rio lavado em bateia. O que não mudou é a pergunta sobre quem fica com o risco e quem fica com o lucro, e ela já estava nas câmaras das Minas em 1740.
O essencial em meia página
- Descoberta e disputa (1693–1711): ouro de aluvião nos rios das Velhas, Doce e das Mortes, achado por expedições paulistas; corrida migratória, fome, guerra dos Emboabas (1707–1709), vitória dos forasteiros; capitania de São Paulo e Minas (1709), primeiras vilas (1711); Antonil recolhido.
- Fisco (1702–1789): quinto (20 %); intendências (1702); Casas de Fundição decretadas em 1719, revolta de Vila Rica (1720, Filipe dos Santos executado), capitania de Minas Gerais (1720), casas funcionando em 1725; capitação por cabeça (1735–1750); volta do quinto com cota de 100 arrobas e derrama prevista (1750); diamantes do rei: Intendência (1734), contratos (1740), Real Extração (1771); derramas lançadas (1763, 1773); boatos de nova derrama e suspensão (1789).
- Produção: sobe nos anos 1720–1730, auge nos anos 1740–1750 (cerca de 15 t/ano), cai depois de 1760 pelo esgotamento do aluvião; perto de 900 t registradas no século, mais o contrabando.
- Sociedade: rede de vilas e comarcas, câmaras, ofícios, bispado de Mariana (1745); 363 mil habitantes em 1786, metade escravizada, um terço de livres de cor; mercado interno (tropeiros, muares do Sul, gado do São Francisco, roças locais); Rio de Janeiro capital em 1763; escravidão urbana e de ganho, coartação, forros, irmandades por cor; Chica da Silva como história contra o mito.
- Barroco como fonte: Congonhas (promessa de 1757, irmandade do Bom Jesus, Passos 1796–1799 por Aleijadinho e Ataíde, Profetas 1800–1805, Patrimônio Mundial 1985): catequese pela imagem, financiamento por esmolas sob o padroado, autor pardo filho de escravizada; leitura por função, financiamento e autor.
- Ruptura × permanência: eixo para o Centro-Sul, urbanização, Estado fiscal, moeda e mercado interno; mas escravidão ampliada, exclusivo, ouro para Lisboa e Londres (Methuen, 1703), grande propriedade e hierarquia de cor.
- Historiografia: Furtado (renda difusa, involução), Boxer (idade de ouro), Mello e Souza (desclassificados), Bergad e Luna (reprodução natural, não involução), Júnia Furtado (Chica), Boschi e Russell-Wood (irmandades e forros).
- Na prova: troca geográfica, intensidade invertida, definição trocada (quinto, capitação, derrama), obra lida como fonte, permanência das commodities.