Brasil colonial: do escambo do pau-brasil ao Governo-Geral, capitanias, sesmarias e as rupturas da colônia

Guia de estudo · Revisado em 21/10/2026

BNCC · EM13CHS101BNCC · EM13CHS102BNCC · EM13CHS204BNCC · EM13CHS603
A pergunta desta aula

Por que um reino que já comerciava na Índia demorou trinta anos para ocupar a terra de Cabral e, quando o fez, entregou-a a doze particulares; como a Coroa pôs um governador e as Câmaras por cima dos donatários sem desfazê-los; e por que, cento e vinte anos depois, foram senhores de engenho endividados, e não o rei, que expulsaram os holandeses?

O que você vai aprender

  • Definir com precisão feitoria, escambo, estanco, capitania hereditária, donatário, carta de doação e foral, sesmaria e posse, Governo-Geral e Regimento, Câmara e 'homens bons', padroado, União Ibérica e WIC, e usar ruptura e permanência (longa duração) como categorias de julgamento.
  • Situar em ordem as fases de 1500 a 1654 (feitorias e escambo; Martim Afonso; capitanias; Regimento e Governo-Geral; Duarte da Costa e Mem de Sá; União Ibérica; invasões holandesas, Nassau, Insurreição, Guararapes, Taborda, Haia) e dizer o que cada intervalo explica.
  • Explicar por que a Coroa demorou e por que escolheu o modelo das capitanias, por que a maioria falhou (capital, gente, resistência indígena, conflito, desenho) e por que Pernambuco e São Vicente vingaram (açúcar e aliança), reconhecendo o papel de Brites de Albuquerque e Ana Pimentel.
  • Descrever como a sesmaria, instituto de 1375 contra o abandono, virou filtro social e motor da concentração fundiária, e documentar elo a elo a corrente capitanias → sesmarias → Lei de Terras (1850) → Censo Agropecuário, sem transformá-la em causa única.
  • Ler o foral de 1534, o Regimento de 1548 e o mapa de Marcgraf de 1647 no esquema observar, hipotetizar, contextualizar, corroborar, e dizer o que cada fonte não permite concluir.
  • Explicar o Governo-Geral como sobreposição (não substituição), a administração em camadas (Coroa e Conselho Ultramarino, donatário, governador-geral, Câmara) e o poder das Câmaras e da 'nobreza da terra', com o debate sobre o Antigo Regime nos trópicos.
  • Relacionar a União Ibérica (1580–1640) à suspensão de fato de Tordesilhas, à ocupação do Norte e do interior e à guerra com a Holanda; narrar a invasão holandesa de 1624 a 1654 como negócio da WIC, governo de Nassau e revolta de senhores de engenho, e ligar a expulsão ao açúcar antilhano.
  • Julgar itens no molde do PAS e do ENEM sobre o Brasil colonial, identificando o erro plantado: agente trocado, cronologia invertida, capitanias como feudo ou como fracasso total, Câmara como democracia, passado decretado encerrado ou nada mudado.

Quem atravessa o centro do Recife passa pela Ponte Maurício de Nassau, pela Praça da República (onde ficava o palácio de Vrijburg, com torre de observação astronômica) e por ruas que um engenheiro holandês riscou em 1637 sobre a ilha de Antônio Vaz. Quem viaja para o arquipélago de Fernando de Noronha pronuncia, sem saber, o nome de um mercador cristão-novo de Lisboa que, em 1502, arrendou da Coroa o comércio do pau-brasil e, em 1504, recebeu a ilha como a primeira capitania da América portuguesa. E quem procura o vereador do seu município está batendo à porta de uma instituição que chegou ao Brasil com Tomé de Sousa, em 1549, e que elegia seus membros por sorteio entre os “homens bons” da terra. O Brasil colonial não é um cenário de livro: é uma camada de instituições, nomes e desenhos de propriedade que ainda sustenta o chão onde a gente anda.

Esta página responde a três perguntas encadeadas. Por que um reino que já comerciava na Índia demorou trinta anos para ocupar a terra a que Cabral chegara, e por que, quando se decidiu, entregou-a a doze particulares em vez de governá-la diretamente? Como a Coroa corrigiu o rumo sem desfazer o que tinha feito, criando um governador-geral por cima dos donatários e deixando às Câmaras o poder do dia a dia? E por que, cento e vinte anos depois de 1500, a ruptura mais funda da colônia (a ocupação holandesa do Nordeste) foi desfeita por senhores de engenho endividados, e não pelo rei? No caminho, três fontes de época são lidas de perto (um foral de 1534, o Regimento de 1548 e um mapa de 1647), porque é assim que o PAS e o ENEM cobram o assunto. O engenho e o circuito do açúcar, os povos indígenas diante do colonizador, a escravidão e a mineração têm páginas próprias; aqui aparecem só onde a história da administração e da terra os exige.

Linha do tempo da América portuguesa de 1500 a 1654 em três faixas: a Coroa e a administração, a terra e os colonos, os concorrentes europeus

As palavras antes dos fatos: feitoria, capitania, sesmaria, Câmara

A prova supõe que você domina um vocabulário que os cronistas do século XVI usavam sem explicar. Feitoria é um entreposto comercial fortificado à beira-mar, com um feitor (funcionário da Coroa ou do arrendatário) que recebe mercadoria dos moradores da terra e a embarca; foi o arranjo português na África, na Ásia e, até os anos 1530, na costa do Brasil. Escambo é a troca direta, sem moeda: toras de pau-brasil cortadas e carregadas por trabalhadores tupis em troca de machados, facas, espelhos, tecidos. Estanco ou monopólio régio é o direito exclusivo do rei de comerciar um produto; o pau-brasil foi estanco desde 1502 e permaneceu assim até 1859.

Capitania hereditária é uma faixa de terra que o rei doa a um particular, o donatário (ou capitão-donatário), com o encargo de povoá-la, defendê-la e explorá-la à própria custa, e com o direito de deixá-la aos herdeiros. A doação vinha em dois documentos: a carta de doação, que dizia o que o donatário recebia, e o foral, que fixava o que ele e os moradores deviam pagar à Coroa. Sesmaria é um lote de terra concedido de graça a quem prometesse cultivá-lo em prazo certo; a palavra vem de uma lei portuguesa de 1375 e o instituto durou no Brasil até 1822. Posse é a ocupação de fato, sem título. Governo-Geral é a administração central nomeada pelo rei a partir de 1549, encarregada de coordenar as capitanias sem extingui-las; seu chefe é o governador-geral, que recebe do rei um Regimento (conjunto de instruções). Câmara (ou Senado da Câmara) é o conselho que governa uma vila ou cidade: vereadores, juízes ordinários e um procurador, escolhidos entre os “homens bons” (proprietários, casados, cristãos-velhos, sem ofício manual). Ouvidor é o juiz nomeado pela Coroa ou pelo donatário; provedor, o responsável pela fazenda (receitas e despesas). Padroado é o regime pelo qual o rei administra a Igreja nas conquistas: nomeia bispos, paga o clero, cobra o dízimo. União Ibérica (1580–1640) é o período em que Portugal e Espanha tiveram o mesmo rei. Companhia das Índias Ocidentais (WIC, 1621) é a empresa por ações holandesa que invadiu a Bahia e Pernambuco.

Ruptura e permanência, as categorias que a 2.ª etapa cobra

A matriz do PAS 2 pede que você julgue “rupturas e permanências ao longo do processo de colonização”. Ruptura é a descontinuidade com data: algo que existia deixa de existir ou muda de natureza (a ocupação holandesa de Pernambuco, 1630–1654; a mudança da capital para o Rio, 1763). Permanência é a estrutura que atravessa datas e regimes sem trocar de lógica (a grande propriedade, a produção para fora, o trabalho escravizado). A distinção vem do historiador francês Fernand Braudel, que em 1958 chamou de longa duração o tempo lento das estruturas, por baixo do tempo curto dos acontecimentos. Um enunciado de longa duração carrega duas afirmações separáveis, a existência de algo hoje e a origem que se lhe atribui, e cada uma se julga por si. A banca já deu como certo que os problemas do campo brasileiro “têm origem na criação das capitanias hereditárias” (2014) e como errado que as condições sanitárias coloniais e imperiais estejam “superadas e ausentes” na história contemporânea (2020): a permanência com lastro passa; o passado decretado encerrado, não.

"Colônia de exploração" não é definição, é esquema do século XIX

A oposição entre colônias de povoamento (clima temperado, famílias, mercado interno, liberdade) e colônias de exploração (trópico, latifúndio, escravidão, exportação) foi formulada pelo economista francês Paul Leroy-Beaulieu em 1874 e entrou nos manuais brasileiros pelas mãos de Caio Prado Júnior e Celso Furtado. Ela ajuda a lembrar o essencial e atrapalha em tudo o mais: a América portuguesa foi povoada (Salvador tinha dezenas de milhares de habitantes em 1700, maior que qualquer cidade das Treze Colônias), teve mercado interno (gado, farinha, cachaça, tropas de muares), e as colônias inglesas da Virgínia e das Carolinas tinham tabaco, arroz e escravidão. O item que usa a dicotomia como se fosse lei (“na colônia de exploração não havia povoamento”) erra. Use os termos como etiqueta de tendência, nunca como prova.

Um século e meio em uma linha: de 1500 a 1654

Guarde as datas que sustentam o argumento, não todas. 1500: a frota de Cabral toca a costa do atual sul da Bahia em 22 de abril. 1502–1505: Fernão de Noronha e um consórcio de mercadores de Lisboa arrendam o comércio do pau-brasil; a Coroa transforma a madeira em estanco. 1504: a ilha de São João (Fernando de Noronha) é doada ao arrendatário, primeira capitania do Brasil. 1516–1519 e 1526–1528: expedições guarda-costas de Cristóvão Jacques contra os franceses. 1530–1532: Martim Afonso de Sousa comanda a primeira expedição colonizadora; funda São Vicente em janeiro de 1532 e manda levantar o primeiro engenho de açúcar. 1534–1536: D. João III divide o litoral em capitanias hereditárias (quinze lotes, doze donatários). 1535: Duarte Coelho chega a Pernambuco. 1548: o Regimento de Tomé de Sousa, em dezembro. 1549: Tomé de Sousa funda Salvador em março e instala o Governo-Geral; com ele chegam Manuel da Nóbrega e os primeiros jesuítas. 1551: primeiro bispado, na Bahia. 1553–1558: Duarte da Costa. 1555: a França Antártica de Villegagnon na Guanabara. 1558–1572: Mem de Sá; 1565: Estácio de Sá funda o Rio de Janeiro; 1567: franceses expulsos da baía. 1580: Filipe II de Espanha é aclamado rei de Portugal; 1581: Cortes de Tomar. 1603: Ordenações Filipinas. 1609: Relação da Bahia, primeiro tribunal de segunda instância. 1612–1615: franceses no Maranhão; 1616: fundação de Belém; 1621: criação do Estado do Maranhão, separado do Estado do Brasil, e da WIC. 1624–1625: holandeses tomam e perdem Salvador. 1630: desembarque holandês em Pernambuco. 1637–1644: governo de Nassau. 1640: Restauração portuguesa, D. João IV. 1642: Conselho Ultramarino. 1645: Insurreição Pernambucana. 1648 e 1649: batalhas dos Guararapes. 1654: rendição holandesa na Campina do Taborda. 1661: Paz de Haia, Portugal indeniza a Holanda.

Repare nos intervalos. De 1500 a 1530 são trinta anos sem ocupação; de 1534 a 1549, quinze anos de experiência privada; de 1549 a 1580, trinta anos de montagem do Estado na colônia; de 1580 a 1654, setenta e quatro anos em que a política europeia (a união das coroas, a guerra entre Espanha e Holanda) decidiu o que acontecia no Nordeste. A economia do açúcar, que a página vizinha conta, corre por baixo de tudo isso e explica por que Pernambuco, e não a Bahia, foi o alvo.

1500–1530: por que Portugal demorou, e o que fez enquanto demorava

A resposta curta é que a Índia rendia mais. Em 1500, a Coroa portuguesa acabava de abrir a rota do Cabo; a pimenta comprada em Calicute e vendida em Lisboa e Antuérpia pagava frotas inteiras, e a terra de Cabral não tinha, à primeira vista, nem ouro nem especiaria. O que tinha era uma madeira de tinta vermelha, o ibirapitanga dos tupis, que os tintureiros europeus já conheciam de uma espécie asiática chamada brasil (de brasa). A Coroa fez com ela o que fazia com o ouro da Mina: declarou-a monopólio e arrendou a exploração a quem tivesse capital. O primeiro contrato, de 1502, foi para o consórcio de Fernão de Noronha, mercador cristão-novo ligado aos banqueiros alemães de Lisboa; os arrendatários se obrigavam a mandar navios, descobrir trezentas léguas de costa por ano e erguer uma fortaleza, e pagavam à Coroa uma parcela crescente do que a madeira rendesse (nada no primeiro ano, um sexto no segundo, um quarto no terceiro).

O sistema funcionou como uma feitoria em movimento. Navios ancoravam em pontos da costa (Cabo Frio, Porto Seguro, Pernambuco, a baía de Todos os Santos), feitores ficavam em terra com alguns homens, e o corte e o transporte das toras, pesadas e espinhosas, eram feitos por trabalhadores tupis em troca de ferramentas de ferro, que valiam muito para quem derrubava mata com machado de pedra. Nenhum europeu derrubava pau-brasil: o escambo dependia da aliança com as aldeias e, por isso, dependia da política indígena, com suas guerras e alianças. Historiadores como Alexander Marchant mostraram que essa fase não foi “pré-colonial” no sentido de vazia: foi uma relação comercial com regras, na qual os tupis negociavam de igual para igual o que queriam receber.

O problema era que os franceses faziam a mesma coisa e não reconheciam Tordesilhas. Armadores de Honfleur, Dieppe e Ruão mandavam navios à costa do Brasil desde pelo menos 1504, trocavam com os mesmos povos (muitas vezes com os inimigos dos aliados dos portugueses, o que transformava a concorrência europeia em guerra entre aldeias) e levavam pau-brasil para a Normandia; em 1550, Ruão recebeu Henrique II com uma festa “brasileira”, com cinquenta tupinambás e um cenário de aldeia. A Coroa reagiu primeiro com patrulhas: Cristóvão Jacques comandou expedições guarda-costas em 1516–1519 e 1526–1528, afundou navios franceses e deixou feitorias. Reagiu depois com uma decisão de outra escala. Em dezembro de 1530, Martim Afonso de Sousa saiu de Lisboa com cinco navios e cerca de quatrocentos homens, poderes para doar sesmarias, criar vilas e nomear oficiais; explorou a costa do Maranhão ao Prata, fundou a vila de São Vicente em janeiro de 1532 e deixou levantar ali o primeiro engenho de açúcar, com técnicos vindos da Madeira. Enquanto ele ainda estava na América, D. João III já decidira em Lisboa que o litoral seria repartido.

O escambo deixou um nome no mapa e um erro no senso comum

A ilha onde Fernão de Noronha nunca pôs os pés guarda o nome do arrendatário; a madeira deu nome ao país; e a palavra “escambo” ainda designa troca sem dinheiro. Em 2025, a 3.ª etapa do PAS deu como errado que os indígenas tivessem feito “grandes plantações” de pau-brasil para o comércio: a árvore era extraída da mata nativa, cresce devagar e nunca foi cultivada em escala. O item testava se o candidato confunde extrativismo com agricultura, e se projeta sobre as aldeias tupis um interesse comercial que era dos navios, não delas.

1534–1549: o rei doa o litoral a doze particulares

O que D. João III fez entre 1534 e 1536 tinha modelo: a Madeira, os Açores e São Tomé haviam sido povoados por capitães-donatários desde os anos 1440, com bons resultados para o açúcar. A novidade foi a escala. O rei recortou o litoral conhecido, da foz do Amazonas (então “rio Maranhão”) até Laguna, em quinze faixas que partiam da costa e corriam para o oeste até a linha de Tordesilhas, e doou-as a doze homens: fidalgos da pequena nobreza com serviços na Índia e na África (Duarte Coelho, Vasco Fernandes Coutinho, Francisco Pereira Coutinho), funcionários da Coroa (Antônio Cardoso de Barros, Fernão Álvares de Andrade), o cronista e feitor João de Barros, os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes de Sousa. Nenhum grande nobre quis: a terra era longe e a doação obrigava a gastar.

Mapa esquemático das capitanias hereditárias de 1534 a 1536, com os donatários, as faixas que correm para o oeste até a linha de Tordesilhas e a marcação das que prosperaram

Leia o arranjo pelo que ele custava a cada lado. Para a Coroa, custava nada: o donatário armava navios, levava colonos, construía vila e fortaleza, e em troca ganhava um pedaço do que a terra rendesse. Para o donatário, custava a fortuna, com a promessa de uma renda perpétua e hereditária. Os poderes eram grandes, mas não eram os de um senhor feudal, como o próprio foral deixa claro: ele podia fundar vilas, nomear ouvidor e tabeliães, distribuir sesmarias (não a si mesmo nem à mulher), escravizar indígenas em guerra e mandar alguns deles por ano a Lisboa livres de imposto, exercer justiça com pena de morte para gente comum e degredo para fidalgos; não podia vender nem dividir a capitania, não podia cunhar moeda, e o pau-brasil, o quinto dos metais e a dízima (o imposto da Igreja, cobrado pelo rei) continuavam da Coroa. A relação era de contrato, não de vassalagem: o rei doava jurisdição e rendas, e reservava o que já era seu.

Quase tudo deu errado, e vale a pena distinguir as razões, porque a prova as cobra uma a uma. Faltou capital: João de Barros perdeu dois navios e a fortuna em 1535 e nunca chegou a ocupar o Maranhão. Faltou gente: capitanias como o Ceará e o Rio Grande não receberam colonos. Houve resistência: Francisco Pereira Coutinho foi morto pelos tupinambás da Bahia em 1547, Pero de Góis abandonou São Tomé, o Espírito Santo de Vasco Fernandes Coutinho sobreviveu cercado. Houve conflito dentro da própria vila: em Porto Seguro, os colonos prenderam o donatário Pero do Campo Tourinho e o mandaram a Lisboa, em 1546, acusado de heresia por trabalhar em dia santo. E houve o problema do desenho: faixas paralelas que ninguém media, cujos limites internos, como mostrou Jorge Pimentel Cintra, nunca foram demarcados nem respeitados (São Paulo, Paranaguá e Curitiba nasceram em terra de capitania alheia sem que ninguém se importasse).

Duas vingaram, e o motivo é o mesmo nas duas: o açúcar e a aliança. Em Pernambuco, Duarte Coelho chegou em 1535 com a mulher, Brites de Albuquerque, e o cunhado Jerônimo de Albuquerque, que se casou com uma mulher tabajara (a filha do chefe Arcoverde, batizada Maria do Espírito Santo); a aliança deu braços para o engenho, segurança para a vila e a família que dominaria a capitania por um século. Duarte Coelho pediu ao rei, em cartas de 1546 que se conservam, que não lhe mandasse degredados e que proibisse o comércio de indígenas por outros donatários; fundou Olinda, fez engenhos com capital de mercadores de Lisboa e de Antuérpia e, quando voltou a Portugal em 1554, deixou o governo com a mulher. Em São Vicente, Martim Afonso nunca mais voltou: governou por procuradores e pela mulher, Ana Pimentel, que em 1544 autorizou os colonos a subir a serra para o planalto de Piratininga, de onde sairiam São Paulo e as bandeiras. Duas mulheres administrando capitanias no século XVI é um dado, não uma curiosidade: a lei portuguesa permitia à mulher do donatário governar por ele, e as fontes da época registram ordens e sesmarias assinadas por elas.

"As capitanias fracassaram" não é a resposta inteira

A frase corrente tem três defeitos. Primeiro, duas capitanias prosperaram e outras (Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo) sobreviveram pobres mas vivas. Segundo, o sistema não acabou em 1549: o Governo-Geral foi posto por cima dele, e as capitanias hereditárias continuaram a existir, sendo compradas ou confiscadas pela Coroa uma a uma ao longo dos séculos XVII e XVIII (a Coroa comprou Pernambuco aos herdeiros em 1716 e só terminou o trabalho sob Pombal, nos anos 1750 e início dos 1760). Terceiro, o que o modelo deixou foi mais duradouro do que o modelo: o recorte do litoral em grandes faixas e, dentro delas, a distribuição de sesmarias. Um item que diga “fracasso generalizado” testa se você conhece as exceções; um que diga “extinto em 1549” testa se você sabe que a Coroa somou em vez de substituir.

A sesmaria: como uma lei contra o abandono virou máquina de latifúndio

A lei de sesmarias de 1375, de D. Fernando, foi escrita para um Portugal esvaziado pela Peste Negra: terra abandonada seria entregue a quem a cultivasse, sob pena de perdê-la de novo. O instituto atravessou o Atlântico com a frota de Martim Afonso e, na América, mudou de função sem mudar de nome. Em Portugal, a sesmaria era uma gleba de tamanho de família numa paisagem já ocupada; no Brasil, era um quadrado de léguas numa terra que a Coroa considerava vazia (não era: os povos que a habitavam não contavam como donos) e que ninguém media. A condição de cultivo, que na origem protegia contra o abandono, aqui funcionou como peneira: só recebia sesmaria quem pudesse pôr a produzir um lote enorme, isto é, quem tivesse capital para engenho e gente escravizada para a lavoura. Quem não tinha, ficava posseiro, agregado ou morador nas terras dos outros.

Esquema do sistema de sesmarias: a Coroa concede a jurisdição ao donatário ou ao governador, que doa a sesmaria ao sesmeiro com a condição de cultivo, e abaixo deles a posse de fato de lavradores, agregados e povos indígenas sem título

Os números do que isso produziu são conhecidos. As sesmarias do Recôncavo e da Zona da Mata tinham em geral de meia légua a três léguas de testada (uma légua eram cerca de 6,6 km) por uma, duas ou mais léguas de fundo, o que dá milhares de hectares por concessão; no sertão da pecuária, no século XVII, a casa da Torre dos Garcia d’Ávila acumulou sesmarias ao longo do rio São Francisco numa extensão que a historiografia estima em centenas de léguas. A Coroa tentou limitar: alvarás de 1695 e 1697 fixaram o máximo de quatro léguas por uma (depois três por uma) e exigiram medição e confirmação régia, que raramente aconteciam. Em 1822, às vésperas da Independência, uma resolução suspendeu as concessões; de 1822 a 1850 a terra pública foi ocupada por posse; e a Lei n.º 601, de 1850, fechou o ciclo tornando a compra a única forma legal de obter terra devoluta e mandando registrar as posses existentes. Essa lei é assunto da página do Império, mas o seu lugar na corrente é daqui: capitanias (1534) → sesmarias → Lei de Terras (1850) → a estrutura fundiária atual, cada elo documentado.

O que o Censo diz sobre a sesmaria

O Censo Agropecuário do IBGE de 2017 contou pouco mais de cinco milhões de estabelecimentos rurais. Os estabelecimentos acima de mil hectares somam perto de 1 % e detêm cerca de 47 % de toda a área agropecuária do país; os menores de dez hectares são metade dos estabelecimentos e ocupam pouco mais de 2 % da área. Um item do PAS de 2008 pediu para julgar se “a concentração fundiária tem raízes históricas” nas capitanias, e a resposta foi Certo; um de 2014 fez a ponte seca (“os problemas no campo brasileiro têm origem na criação das capitanias hereditárias”) e também recebeu Certo. O cuidado do historiador é não transformar a raiz em causa única: a Lei de Terras, a expansão do café, a fronteira agrícola do século XX e a modernização conservadora da ditadura puseram tijolos novos no mesmo muro. A prova aceita a ponte longa quando ela tem lastro; o que ela pune é a frase que diz que nada mudou, ou que tudo foi resolvido.

Leitura de fonte 1: o foral de Pernambuco (1534), lido como contrato

O documento. Em março de 1534, D. João III assinou a carta de doação da capitania de Pernambuco (que o donatário chamaria Nova Lusitânia) a Duarte Coelho Pereira, fidalgo que servira na Índia e em Malaca; em setembro, o foral. Os dois textos sobrevivem em cópia na Torre do Tombo e são, salvo diferenças de nomes e distâncias, iguais aos das outras capitanias. A carta diz, em resumo, que o rei doa a Duarte Coelho sessenta léguas de costa “de juro e herdade, para todo o sempre”, com o título de capitão e governador, a jurisdição civil e criminal, o direito de criar vilas e nomear ouvidor, de dar sesmarias “a quaisquer pessoas de qualquer qualidade”, de ter a vintena do pau-brasil e a redízima (um décimo do dízimo) de tudo o que a Coroa recebesse, e de mandar a Lisboa, cada ano, duas dúzias de cativos indígenas isentos de direitos. O foral acrescenta o que os moradores devem: o dízimo de tudo o que colherem, o quinto dos metais e pedras, o monopólio do donatário sobre moendas de água, marinhas de sal e engenhos; e o que o rei reserva: o pau-brasil, as especiarias, o comércio com os navios do reino.

Observar. O gênero é jurídico, não narrativo: cláusulas, verbos no futuro (“dará”, “poderá”, “haverá”), nenhuma descrição da terra. A terra doada é medida em léguas de costa, não em limites de fundo, e os únicos nomes próprios são o do rei e o do donatário. Os habitantes aparecem como “gentio” e como mercadoria (“escravos”, “peças”), nunca como parte. A palavra que mais se repete é “jurisdição”: o que se doa é o poder de julgar, cobrar e nomear.

Hipotetizar. A hipótese mais simples é que a Coroa está transferindo um custo que não quer pagar e comprando ocupação com rendas futuras. Uma segunda hipótese, compatível: o detalhe das reservas (pau-brasil, especiarias, quinto) mostra que o rei não esperava da terra o que esperava da Índia, e sim o que já tirava dela, a madeira, mais o que a Madeira dera, o açúcar (daí o monopólio das moendas e dos engenhos nas mãos do donatário, que precisaria de capital para erguê-los).

Contextualizar. O foral copia o modelo das ilhas atlânticas (as doações da Madeira de 1440 e dos Açores) e as Ordenações Manuelinas (1521). O que o torna diferente é a cláusula dos cativos: nas ilhas não havia povos para escravizar; aqui a Coroa legaliza, por escrito e com quota, a escravização de indígenas “tomados em guerra”, trinta e seis anos antes da primeira lei que a restringiria (1570). A alçada do donatário (pena de morte para “peões, escravos e gentios”, até dez anos de degredo para fidalgos) copia a hierarquia de pessoas das Ordenações: o castigo depende de quem é o réu.

Corroborar. As cartas de Duarte Coelho ao rei (1542–1550) confirmam a leitura e mostram o contrato em funcionamento e em disputa: ele reclama que outros capitães e os navios do reino “resgatam” indígenas na sua costa, pede que não lhe mandem degredados, informa que tem cinco engenhos em obra e pede socorro contra os caetés. Os livros de sesmarias de Pernambuco, Itamaracá e Bahia mostram as doações feitas pelo donatário ou por sua mulher a parentes, aliados e mercadores. E a história posterior corrobora o que o foral previa: a Coroa manteve as rendas reservadas, e os herdeiros de Duarte Coelho conservaram a capitania até ela ser comprada pelo rei em 1716.

E as outras leituras? “O foral criou um regime feudal no Brasil”: a leitura antiga, corrente nos manuais até meados do século XX, confunde jurisdição doada com soberania; o rei continua a legislar, a cobrar o dízimo e a poder confiscar, e nenhuma cláusula fala em vassalos ou homenagem. “A capitania era uma empresa capitalista”: também força a nota; a renda do donatário vinha de tributos e monopólios, não de lucro de empresa, e o título era hereditário e perpétuo. A historiografia atual (Antonio Carlos Jucá de Sampaio, Maria Fernanda Bicalho) prefere ler o foral como peça do Antigo Regime: doação de mercês e jurisdições em troca de serviço, a mesma lógica com que o rei recompensava um fidalgo na Índia. O que a fonte não permite concluir é o que de fato aconteceu em cada capitania; para isso é preciso cruzá-la com as cartas e os livros de sesmaria.

Leitura de fonte 2: o Regimento de Tomé de Sousa (1548), lido como projeto

O documento. Em 17 de dezembro de 1548, em Almeirim, D. João III assinou o Regimento que Tomé de Sousa levaria à Bahia: quarenta e oito capítulos de instruções que a Torre do Tombo guarda e que são, na prática, a certidão de nascimento do Estado português na América. O texto manda construir uma fortaleza e uma cidade na baía de Todos os Santos, na capitania que a Coroa acabara de tomar aos herdeiros de Francisco Pereira Coutinho; manda visitar as outras capitanias e verificar as fortificações; ordena que se castiguem os indígenas que “fizerem guerra” e se favoreçam os aliados; proíbe que se vá “resgatar” cativos ao sertão sem licença; determina que as sesmarias sejam dadas a quem puder erguer engenho em três anos; fixa a cobrança do dízimo e do quinto; e, no capítulo de abertura, afirma que o motivo principal de povoar as terras do Brasil é que a gente delas “se converta” à fé católica.

Observar. Como o foral, é um texto jurídico; ao contrário dele, é dirigido a um funcionário, não a um donatário, e seu vocabulário é de comando: “fareis”, “mandareis”, “defendereis”. A cidade, a fortaleza e os soldados são nomeados antes da conversão, que aparece como motivo e não como instrumento. O rei fala em “povoar”, e não em “governar”: reconhece, de passagem, que a ocupação anterior não povoara.

Hipotetizar. A hipótese central é que o Regimento não desmonta o que existe: não revoga doações, não extingue capitanias, não retira dos donatários a jurisdição; cria, acima deles, uma instância que coordena a defesa, a fazenda e a justiça. Uma segunda hipótese: a frequência dos capítulos sobre indígenas (guerra, resgate, aldeamento, proibição de maus-tratos aos aliados) sugere que, aos olhos de Lisboa, o problema da colônia era a política indígena, não a economia; e a chegada, no mesmo navio, de Manuel da Nóbrega e cinco jesuítas confirma que a conversão era vista como peça da segurança.

Contextualizar. 1548 é o ano em que o balanço das capitanias chega a Lisboa: Pereira Coutinho morto, Tourinho preso, o Maranhão perdido, os franceses de volta à costa. É também o ano em que a Coroa começa a perder a Índia para as despesas da própria Índia, e passa a olhar o açúcar da Madeira e de São Tomé como modelo. O Regimento traz a Bahia para o centro porque a capitania já era da Coroa (comprada aos herdeiros) e ficava a meio caminho entre Pernambuco e São Vicente.

Corroborar. Tomé de Sousa chegou em 29 de março de 1549 com cerca de mil pessoas (soldados, oficiais, artesãos, centenas de degredados e os jesuítas), um ouvidor-geral (Pero Borges), um provedor-mor da fazenda (Antônio Cardoso de Barros) e um capitão-mor da costa (Pero de Góis): a tríade governo, justiça, fazenda que o Regimento previa. As cartas de Nóbrega, do mesmo ano, descrevem a cidade sendo levantada em quatro meses com trabalho indígena pago em ferramentas. E o que o Regimento não dizia aconteceu depois: a primeira Câmara de Salvador, instalada ainda em 1549, começou a disputar com o governador o controle da terra e dos indígenas.

E as outras leituras? “O Governo-Geral centralizou o poder e acabou com a autonomia dos donatários”: meia verdade; os donatários continuaram a nomear ouvidores e a dar sesmarias, e os governadores-gerais passaram décadas negociando com eles. “O motivo religioso era pretexto”: leitura anacrônica; para um rei do século XVI, converter e povoar eram o mesmo projeto, e o padroado tornava a Igreja um ramo da administração. “A capital foi fundada na Bahia por sua posição central”: correto, mas incompleto; o Regimento diz que a Bahia é o lugar porque a capitania voltara à Coroa. O que o Regimento não permite concluir é se o rei esperava que a colônia fosse além do litoral: nenhum capítulo fala do sertão senão como o lugar do resgate proibido.

1549–1580: o Governo-Geral soma, não substitui

A fórmula que resume os trinta anos seguintes é a sobreposição. Salvador ganhou muralha, Sé, Câmara, cadeia, alfândega e colégio dos jesuítas; o governador-geral visitou as capitanias, levou artilharia a quem precisava e tirou poderes a quem abusava, mas as cartas de doação continuaram valendo e os donatários continuaram a nomear os seus oficiais. O rei pôs o seu Estado por cima de um mapa de senhorios e deixou que as duas camadas se acomodassem na prática. Essa acomodação foi feita de três maneiras: pela guerra, pela Igreja e pela terra.

Tomé de Sousa (1549–1553) construiu a cidade, instalou os ofícios e fez a primeira inspeção das capitanias. Duarte da Costa (1553–1558) governou em conflito: com o primeiro bispo, D. Pero Fernandes Sardinha (chegado em 1552), que o acusava de tolerar os costumes dos colonos e dos indígenas e que, ao voltar para Lisboa em 1556, naufragou na costa de Alagoas e foi morto pelos caetés; com os tupinambás do Recôncavo, que ele combateu; e com os franceses, que em 1555 se instalaram na baía de Guanabara sob Nicolas Durand de Villegagnon, com apoio de tupinambás e tamoios, na chamada França Antártica. Mem de Sá (1558–1572), o governador mais longo e mais duro, fez a guerra aos tupinambás da Bahia, destruiu aldeias e reuniu os sobreviventes em aldeamentos jesuíticos, e organizou as campanhas do Rio: o sobrinho Estácio de Sá fundou a cidade de São Sebastião em 1.º de março de 1565, numa guerra que durou até 1567 e custou a vida ao fundador; a expulsão dos franceses desfez a aliança tupinambá-francesa que a página da resistência indígena conta.

Os jesuítas foram a segunda camada. Nóbrega (que chegou com Tomé de Sousa) e Anchieta (chegado em 1553) fundaram colégios na Bahia e em São Vicente, a aldeia de Piratininga (1554) e os aldeamentos onde os indígenas convertidos viviam sob disciplina missionária; e entraram em choque permanente com os colonos, porque os aldeamentos tiravam da lavoura os braços que o engenho queria. A lei de 1570, de D. Sebastião, proibiu escravizar indígenas, exceto os “tomados em guerra justa”; a exceção, decidida pelos próprios colonizadores, engoliu a regra, e a legislação oscilou por dois séculos. O resultado para a administração foi um triângulo: governador, Câmara (os colonos) e Companhia de Jesus disputavam quem mandava nos corpos indígenas e, por isso, na economia.

Um Estado de camadas: Coroa, donatário, governador, Câmara

Leia a administração colonial como quatro camadas que coexistem e se cruzam, não como uma pirâmide. A Coroa (rei, Conselho da Fazenda, depois Conselho da Índia em 1604 e Conselho Ultramarino em 1642) legisla, nomeia, confirma sesmarias e cobra. O donatário (ou, nas capitanias reais, o capitão-mor nomeado) governa a sua faixa, nomeia ouvidor e dá sesmarias. O governador-geral (na Bahia; vice-rei como título regular a partir de 1720; no Rio a partir de 1763) coordena defesa, justiça e fazenda, com o ouvidor-geral e o provedor-mor ao lado, e a Relação da Bahia (1609) como tribunal. As Câmaras governam o cotidiano: posturas, preços, obras, licenças, aldeamentos, arrecadação, e escrevem ao rei por cima do governador. A grande descoberta da historiografia das últimas décadas (Fragoso, Bicalho, Gouvêa, Russell-Wood) é que essas camadas negociavam o tempo todo: a Coroa precisava das elites locais para cobrar, defender e povoar, e pagava com mercês, cargos e isenções. Daí a expressão “Antigo Regime nos trópicos”: não um Estado absoluto que manda e uma colônia que obedece, e sim uma sociedade de privilégios que se reproduziu do lado de cá com senhores de engenho no lugar dos fidalgos.

Organograma da administração da América portuguesa: rei e Conselho Ultramarino no topo; governador-geral, ouvidor-geral e provedor-mor na Bahia; donatários e capitães-mores nas capitanias; Câmaras municipais com vereadores, juízes ordinários e procurador na base, ao lado da Igreja sob o padroado

As Câmaras e os “homens bons”: onde o poder era de fato exercido

A instituição mais importante do Brasil colonial é a que menos aparece nos livros de datas. Cada vila ou cidade tinha a sua Câmara, copiada do modelo das Ordenações: dois juízes ordinários, três vereadores e um procurador do conselho, eleitos por um procedimento chamado pelouros (os nomes dos eleitores eram escritos em bolinhas de cera e sorteados a cada três anos por um juiz de fora ou pelo ouvidor), mais um escrivão e, nas Câmaras maiores, almotacés que fiscalizavam pesos, preços e limpeza. Quem podia ser eleito eram os “homens bons”, termo técnico para proprietários casados, cristãos-velhos, sem defeito mecânico (isto é, que não vivessem de ofício manual), sem sangue judeu, mouro, indígena ou africano. A Câmara de Salvador funcionava desde 1549; a de Olinda, desde os anos 1530; a de São Paulo, desde 1560.

O que a Câmara fazia: fixava o preço do pão, da carne e do açúcar; concedia chãos para casas; cuidava das pontes, fontes e calçadas; recrutava para a defesa; cobrava impostos municipais e, em muitas capitanias, administrava a arrecadação dos tributos régios por contrato; julgava causas pequenas; e, acima de tudo, escrevia ao rei. As cartas das Câmaras de Salvador, Olinda, Rio e São Paulo ao Conselho Ultramarino, conservadas no Arquivo Histórico Ultramarino, pedem isenções, denunciam governadores, reclamam dos jesuítas e exigem o direito de escravizar indígenas; o rei respondia, e muitas vezes cedia. A Câmara de Salvador obteve em 1646 os mesmos privilégios dos cidadãos do Porto; a de São Paulo expulsou os jesuítas da vila em 1640 por disputas sobre o cativeiro indígena, e eles só voltaram em 1653.

Charles Boxer chamou as Câmaras de “pilares da sociedade colonial portuguesa” porque eram o único órgão em que os colonos governavam por si; os historiadores que vieram depois mostraram o outro lado: o pilar era de poucos. Em 1748, como registra o historiador Stuart Schwartz, a eleição de um homem para a Câmara de Cachoeira, na Bahia, foi contestada porque não se sabia a “qualidade do seu sangue”, apesar de ele ter diploma universitário; a mesma exclusão valia para as irmandades, o clero e os ofícios. A Câmara era, portanto, a instituição pela qual a “nobreza da terra” (senhores de engenho e lavradores de cana, que se chamavam de nobres por serem os primeiros ocupantes) se reproduzia e negociava com o rei. Lida assim, ela explica por que a Coroa precisou tão pouco de exército na colônia e por que, em 1645, foram os senhores de engenho de Pernambuco que decidiram, por conta própria, declarar guerra à Holanda.

Câmara não é democracia, Senado da Câmara não é Senado

Dois deslizes frequentes. O primeiro é tomar a eleição por pelouros como voto popular: votavam só os “homens bons”, os eleitos eram os mesmos nomes revezados, e o juiz de fora, nomeado pelo rei, presidia onde existia. O segundo é ler “Senado da Câmara” (título honorífico das Câmaras maiores) como uma segunda casa legislativa: era a mesma Câmara, com nome de pompa. A instituição foi ao mesmo tempo o único espaço de autogoverno da colônia e o filtro que mantinha fora dele pardos, pretos, cristãos-novos e trabalhadores manuais; os dois lados são verdadeiros, e um item que só afirme um deles costuma estar errado pela metade.

1580–1640: dois reinos, um rei, e o que isso fez com o mapa

Em agosto de 1578, D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, sem herdeiro; o tio-avô, o cardeal D. Henrique, reinou dois anos e morreu em 1580; e Filipe II de Espanha, neto de D. Manuel pela mãe, fez valer o direito de sucessão com um exército e com promessas. Nas Cortes de Tomar (1581), jurou manter Portugal como reino separado: leis, moeda, língua, cargos e o comércio das conquistas continuariam portugueses, e o rei governaria Portugal por um conselho de portugueses. A chamada União Ibérica não foi, portanto, a anexação do Brasil pela Espanha: foi uma união de coroas na mesma cabeça, com as administrações separadas. Para a América portuguesa, as consequências vieram de fora dessa letra.

A primeira foi a de fronteira. Com o mesmo rei dos dois lados da linha de Tordesilhas, a linha deixou de ser uma barreira na prática (nunca fora revogada, e voltaria a valer no papel em 1640): expedições saídas de São Paulo entraram pelo sertão atrás de cativos indígenas e de metais, a Coroa ocupou o litoral do Norte para expulsar os franceses do Maranhão (1615) e fundou Belém (1616), e em 1621 criou o Estado do Maranhão, com governo próprio e ligação direta com Lisboa, porque de Belém a Salvador era mais fácil navegar para Portugal do que para a Bahia. Em 1640, quando a Restauração devolveu o trono a um rei português, D. João IV, o território ocupado já era muito maior que o de 1580, e foi essa ocupação de fato que o Tratado de Madri, em 1750, reconheceria ao abandonar Tordesilhas pelo princípio da posse efetiva (uti possidetis).

A segunda consequência foi a guerra. Os Países Baixos estavam em rebelião contra Filipe II desde 1568; os rebeldes holandeses, que eram os principais compradores, refinadores e transportadores do açúcar do Brasil (Antuérpia e depois Amsterdã), passaram a ser inimigos do rei de Portugal. A Espanha embargou os navios holandeses nos portos ibéricos (1598, 1605, 1621), e os holandeses responderam atacando as colônias: na Ásia, a Companhia das Índias Orientais (VOC, 1602) tomou dos portugueses o comércio das especiarias; no Atlântico, quando terminou a Trégua dos Doze Anos, foi criada a Companhia das Índias Ocidentais (WIC, 1621), com privilégio de guerra e comércio na África e na América. O documento que um conselheiro da companhia escreveu para justificar a empresa, lido num item do ENEM, diz a conta sem rodeios: o açúcar enviado diretamente à Holanda custaria menos, porque não pagaria os impostos de Portugal, e os panos holandeses chegariam ao Brasil mais baratos. A invasão era um negócio de contabilidade: eliminar o intermediário ibérico.

O que mudou de mãos sem ninguém assinar

A ocupação do interior durante a união das coroas rendeu um gabarito curioso. Em 2009, o PAS deu como certo que a aclamação de Filipe II trouxe “na prática” o fim de Tordesilhas; e um item do ENEM do mesmo ano, apoiado num mapa de Leslie Bethell, pediu que se reconhecesse que o Tratado de Madri (1750) sancionou “a expansão portuguesa além da linha de Tordesilhas”. As duas afirmações contam a mesma história de dois pontos: a linha não foi revogada em 1580, foi ignorada; e, quando dois reinos de novo separados sentaram para negociar, setenta anos depois, o que estava ocupado valeu mais do que o que estava escrito.

1624–1654: a invasão holandesa, de empresa a guerra de senhores

Bahia, 1624–1625. A WIC escolheu Salvador porque era a capital. Uma frota de 26 navios tomou a cidade em maio de 1624, quase sem luta; a população fugiu para o Recôncavo e organizou, com o bispo D. Marcos Teixeira à frente, uma guerrilha que cercou os invasores. Em abril de 1625, uma armada luso-espanhola de mais de cinquenta navios, a Jornada dos Vassalos, comandada por Fadrique de Toledo, retomou a cidade. O episódio ensinou à companhia duas coisas: que precisava de dinheiro e que a capital era defendida demais. O dinheiro veio em 1628, quando Piet Heyn capturou a frota da prata espanhola na baía de Matanzas, em Cuba; o alvo mudou para Pernambuco, a capitania mais rica e menos fortificada.

Pernambuco, 1630–1637. A frota desembarcou em fevereiro de 1630 e tomou Olinda e o Recife; Olinda foi incendiada em 1631 e o Recife, porto e ilha, virou a base. A resistência portuguesa, comandada por Matias de Albuquerque, fez guerra de emboscadas a partir do Arraial do Bom Jesus, e por cinco anos a companhia ocupou só a costa. A virada veio com um pernambucano, Domingos Fernandes Calabar, que em 1632 passou para o lado holandês com o conhecimento do terreno; com ele, a WIC tomou Igarassu, Itamaracá, Rio Grande, a Paraíba e, em 1635, o Arraial. Calabar foi capturado e executado em Porto Calvo, em 1635, e seu nome virou sinônimo de traição numa memória que a peça de Chico Buarque e Ruy Guerra (Calabar, 1973) tentou revirar.

Nassau, 1637–1644. Para governar a conquista, a companhia contratou um príncipe alemão a serviço da Holanda, João Maurício de Nassau-Siegen, que desembarcou em janeiro de 1637 e governou até maio de 1644. O seu governo é o que a memória pernambucana chama de “tempo dos flamengos”: a cidade nova na ilha de Antônio Vaz (Mauritsstad), com ruas em grade, pontes, canais, jardim botânico e zoológico; o palácio de Vrijburg com torre de observação; a liberdade de culto para católicos, calvinistas e judeus (a sinagoga Kahal Zur Israel, de 1636, no Recife, é a primeira das Américas); a devolução dos engenhos confiscados aos moradores que jurassem fidelidade, com crédito da companhia para reconstruí-los; e a comitiva de cientistas e artistas, Piso, Marcgraf, Frans Post, Albert Eckhout. O mesmo governo mandou tomar São Jorge da Mina (1637) e Luanda (1641) para garantir o fornecimento de africanos escravizados aos engenhos: a tolerância religiosa e a escravidão andaram juntas, e a historiografia (Evaldo Cabral de Mello, José Antônio Gonsalves de Mello) insiste em que o “humanismo” de Nassau foi política de uma companhia que precisava que o açúcar continuasse a sair.

Mapa esquemático do Nordeste durante as invasões holandesas de 1624 a 1654, com a Bahia tomada e retomada em 1624–1625, o litoral ocupado do Sergipe ao Maranhão, o Recife e Olinda, o Arraial do Bom Jesus, Porto Calvo, Guararapes e a Campina do Taborda, e, no canto, a linha de Tordesilhas suspensa durante a União Ibérica

A Insurreição, 1645–1654. Nassau saiu em 1644 porque os diretores da WIC acharam seu governo caro demais; os substitutos cobraram as dívidas dos engenhos, executaram hipotecas, apertaram a fiscalização e deixaram que os pastores calvinistas pressionassem os católicos. Em 1640, além disso, Portugal se separara da Espanha e assinara uma trégua com a Holanda, o que tirou dos moradores a esperança de um socorro oficial: quem quisesse expulsar os holandeses teria de fazê-lo por conta própria, e contra a diplomacia do rei. Foi o que fez a “nobreza da terra” de Pernambuco. Em 13 de junho de 1645, João Fernandes Vieira, senhor de engenho endividado com a companhia e nascido na Madeira, levantou-se com André Vidal de Negreiros (pernambucano, oficial da Coroa) e declarou nulas as dívidas dos rebeldes com os holandeses; as tropas se organizaram em terços: o de Henrique Dias, de homens negros, livres e escravizados; o de Felipe Camarão (Potiguaçu), de potiguares aliados; e os de portugueses e colonos. Venceram no Monte das Tabocas (agosto de 1645), cercaram o Recife e, nas duas batalhas dos Guararapes (19 de abril de 1648 e 19 de fevereiro de 1649), derrotaram em campo aberto exércitos maiores e mais bem armados. O Recife resistiu até 26 de janeiro de 1654, quando os holandeses se renderam na Campina do Taborda. A guerra terminou, de direito, só em 1661, na Paz de Haia: Portugal pagou à Holanda uma indenização de quatro milhões de cruzados em dinheiro, açúcar, tabaco e sal, parcelada em dezesseis anos, para comprar a paz e o reconhecimento da Restauração. Evaldo Cabral de Mello chamou a isso “o negócio do Brasil”: a colônia foi reconquistada pelos moradores e paga pelo reino.

O que ficou. Os holandeses levaram para as Antilhas (Barbados, depois Jamaica e Guadalupe) a técnica, o crédito e os escravizados do açúcar; a partir dos anos 1650 o açúcar antilhano derrubou os preços e o Nordeste perdeu a primazia que a página da economia açucareira explica. Pernambuco ganhou uma memória: Guararapes é tratada pelo Exército como seu lugar de nascimento, Vieira, Vidal, Camarão e Dias viraram “heróis da Restauração”, e a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, no morro, guarda os ossos dos comandantes. E ficou uma lição de método que a prova cobra: o motor da revolta não foi a fé nem a nação, que não existia, e sim o interesse concreto dos senhores de engenho em se livrar de dívidas e de um governo que cobrava; o ENEM deu isso como resposta em 2018, apoiado num texto de Ronaldo Vainfas.

Leitura de fonte 3: o mapa de Marcgraf (1647), lido como inventário

O documento. Brasilia qua parte paret Belgis (“O Brasil na parte que obedece aos belgas”, isto é, aos holandeses) é o grande mapa levantado pelo naturalista e astrônomo Georg Marcgraf entre 1640 e 1643, a serviço de Nassau, e impresso em Amsterdã por Joan Blaeu em 1647, em nove folhas que, montadas, medem mais de um metro de altura. Ele cobre o litoral de Sergipe ao Rio Grande e, ao contrário dos mapas portugueses anteriores, foi medido no terreno: rios com os seus meandros, barras, fortes, vilas, estradas, e, um a um, os engenhos, representados por um pequeno símbolo de moenda com o nome do proprietário ao lado. Nas bordas, vinhetas desenhadas por Frans Post mostram paisagens, um engenho em funcionamento, animais e habitantes.

Observar. O que o mapa escolhe mostrar é o que interessa a uma companhia de comércio: os engenhos (unidades de produção), os rios (vias de escoamento), os fortes (segurança) e as barras (acesso dos navios). As aldeias indígenas e os quilombos (Palmares já existia) não aparecem ou aparecem como marcas genéricas; os nomes dos proprietários dos engenhos aparecem todos. O título diz “a parte que obedece”: o mapa é também uma declaração de posse, dirigida à Europa.

Hipotetizar. A hipótese mais econômica é que se trata de um cadastro: a WIC precisava saber quantos engenhos havia, onde, de quem eram e quanto deviam, porque a sua renda vinha do açúcar e das hipotecas. A hipótese complementar é a propaganda: um mapa impresso por Blaeu, o maior editor do mundo, em formato de luxo, mostra aos acionistas e aos governos europeus uma colônia organizada, produtiva e holandesa.

Contextualizar. 1647 é o ano em que Caspar Barlaeus publicou, também em Amsterdã e com gravuras de Post, a história do governo de Nassau (Rerum per octennium in Brasilia gestarum), encomendada pelo próprio Nassau; mapa e livro são peças da mesma campanha de reputação, feita no momento em que a Insurreição já havia encurralado os holandeses no Recife. O mapa representa, portanto, uma colônia que estava deixando de existir.

Corroborar. Os registros da companhia (as listas de engenhos vendidos em 1637 e as contas das dívidas) confirmam os nomes e o número de engenhos; os cronistas portugueses da guerra (Diogo Lopes Santiago, Frei Manuel Calado) confirmam os lugares das batalhas que o mapa mostra como fortes. O que o mapa deixa de fora os documentos portugueses e as próprias contas da WIC permitem recuperar: a maioria dos engenhos pertencia a luso-brasileiros que continuaram a produzir sob a ocupação, o que explica por que a companhia dependia deles e por que a cobrança das dívidas os levou à revolta.

E as outras leituras? “O mapa prova que os holandeses foram mais científicos que os portugueses”: o mapa é ciência a serviço de uma empresa, e os portugueses tinham cartógrafos (Luís Teixeira, João Teixeira Albernaz) que fizeram mapas do litoral para a Coroa, com outro propósito e menos divulgação; o PAS 2 de 2009 deu como certo o contraste de ritmo, não a ausência. “O mapa mostra um Brasil holandês próspero”: mostra uma colônia açucareira, que já era próspera antes e continuaria depois; o que era holandês eram os fortes, a cidade do Recife e a companhia que cobrava. O que o mapa não permite concluir é quem trabalhava nos engenhos: nenhum símbolo representa as pessoas escravizadas que faziam a moenda girar.

Ruptura ou permanência? A tesoura aplicada à colônia

Com as duas categorias na mão, o período se deixa ler. O que rompeu: a ocupação holandesa, que por vinte e quatro anos pôs o Nordeste sob outra soberania, outra religião, outra cidade (Recife no lugar de Olinda), e que, derrotada, levou embora o monopólio do açúcar; a União Ibérica, que suspendeu a fronteira e mudou o tamanho do território; a passagem do Governo-Geral à vice-realeza e da Bahia ao Rio (1763), que a página da mineração conta; e, na escala mais funda, a queda catastrófica da população indígena nos primeiros cem anos, que a página da resistência indígena explica. O que permaneceu: a terra em poucas mãos (capitanias, sesmarias, Lei de Terras), a produção para fora (pau-brasil, açúcar, depois ouro, café, soja), o trabalho escravizado (indígena, depois africano, até 1888), a hierarquia de sangue e de cor nas instituições (as Câmaras, as irmandades, o clero), o padroado e a Igreja como ramo da administração até a República.

Quadro ruptura × permanência da colonização portuguesa em duas colunas: rupturas datadas (holandeses 1630–1654, União Ibérica 1580–1640, capital no Rio 1763, colapso demográfico) e permanências de longa duração (latifúndio, exportação, escravidão, hierarquia de cor, padroado), com a seta da longa duração atravessando 1822, 1888 e 1889

A tesoura tem duas lâminas e corta dos dois lados. Quem afirma que “nada mudou desde 1500” apaga a Insurreição, a expansão do território, a Independência, a abolição; quem decreta que o passado colonial está “superado e ausente” apaga o Censo Agropecuário, as estatísticas de desigualdade racial e as cartas que as Câmaras de hoje ainda escrevem aos governos. O PAS 2 cobra exatamente esse equilíbrio: em 2020, o item que declarava encerradas as condições sanitárias dos tempos coloniais e imperiais foi Errado; em 2014 e em 2024, as pontes longas com lastro (capitanias → campo de hoje; garimpo colonial → garimpo atual) foram Certo. O teste não é o tamanho da ponte, é a documentação de cada elo.

Que colônia era essa? Onde os historiadores discordam

A pergunta “qual era o sentido da colonização” organizou a historiografia brasileira por meio século. Caio Prado Júnior (Formação do Brasil contemporâneo, 1942) respondeu que a colônia existiu para fornecer ao comércio europeu açúcar, tabaco, ouro e algodão, e que tudo o mais (povoamento, cidades, instituições) se organizou em função disso: o “sentido” era a exportação. Celso Furtado (Formação econômica do Brasil, 1959) e Fernando Novais (Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial, 1979) deram à ideia forma de sistema: o exclusivo metropolitano (a obrigação de comerciar só com a metrópole) transferia o excedente da colônia para a Europa e financiava a acumulação que levaria ao capitalismo industrial; a colônia era uma engrenagem do mercantilismo. Nessa leitura, a administração colonial é um aparelho de extração e a Coroa, o agente.

Duas gerações de pesquisa em arquivo mudaram a pergunta. Luiz Felipe de Alencastro (O trato dos viventes, 2000) mostrou que o Brasil e Angola formavam um só espaço econômico, ligado pelo tráfico, e que boa parte do negócio (navios, mercadores, capital) estava na América, não em Lisboa; a colônia não era só periferia, era centro de um Atlântico Sul próprio. João Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa (O Antigo Regime nos trópicos, 2001) olharam para as Câmaras, as mercês, os cargos e as irmandades e viram uma sociedade de Antigo Regime que se reproduzia do lado de cá, negociando com a Coroa em vez de simplesmente obedecer-lhe: uma “nobreza da terra” que mandava nas vilas, acumulava engenhos e cargos e trocava serviços por privilégios. Stuart Schwartz (Burocracia e sociedade no Brasil colonial, 1973) já mostrara que os desembargadores da Relação da Bahia, enviados para aplicar a lei do rei, casavam com filhas de senhores de engenho e se tornavam parte da elite que deviam fiscalizar. A administração colonial, nessa leitura, é uma rede de interesses, não uma máquina.

Há ainda duas interpretações mais antigas que a prova pode pôr em texto-base. Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, 1936) contrastou o espanhol “ladrilhador”, que planejava cidades em grade, com o português “semeador”, que deixava as vilas crescerem ao acaso na beira do mar, e viu nisso uma colonização sem projeto, feita de improviso e de relações pessoais (o “homem cordial”). Raymundo Faoro (Os donos do poder, 1958) leu o Estado português e o brasileiro como patrimonialistas: um estamento de funcionários que trata o público como propriedade e que se transplantou para a colônia com os governadores, os ouvidores e os contratos. As duas teses são fecundas e discutíveis: Nassau provou que se podia ladrilhar o Recife, e os estudos sobre as Câmaras mostram que o “público” colonial era disputado por muita gente, não só por funcionários.

A disputa de agora: colônia ou império?

Desde os anos 2000 a discussão deslocou-se da “colônia” para o “império”: historiadores como A. J. R. Russell-Wood e Francisco Bethencourt propõem ler a América portuguesa como parte de um império de pontos ligados pelo mar, em que Goa, Luanda, Salvador e Lisboa trocavam gente, cargos e ideias, e em que a “nação portuguesa” era uma rede, não um Estado-nação. Os críticos (Fernando Novais, Laura de Mello e Souza em O sol e a sombra, 2006) respondem que a ênfase na negociação e nas elites locais corre o risco de esquecer o essencial: que o império se sustentava no trabalho de milhões de pessoas escravizadas e que a Coroa, por mais que negociasse, mandava. Para a prova, a lição é dupla: um texto-base que fale em “negociação”, “mercês” e “nobreza da terra” está na chave do Antigo Regime nos trópicos; um que fale em “exclusivo”, “sentido da colonização” e “acumulação” está na chave de Caio Prado e Novais. Nenhuma das duas é “a verdade”; as duas são o que a banca espera que você reconheça.

Quem mais estava lá: mulheres, degredados, cristãos-novos, povos da terra

A história da administração tende a ser uma história de homens com cargo. A documentação mostra outra gente decidindo. Mulheres governaram capitanias (Brites de Albuquerque em Pernambuco, Ana Pimentel em São Vicente), receberam sesmarias em nome próprio, dirigiram engenhos como viúvas e, nas camadas de baixo, sustentaram o abastecimento das vilas: as vendedoras de rua, livres, forras e escravizadas, de Salvador e do Recife aparecem nas posturas das Câmaras, que tentavam regulá-las. Degredados foram a mão de obra e a população involuntária dos primeiros anos: a frota de Tomé de Sousa trouxe centenas deles, condenados em Portugal a cumprir pena no Brasil, e Duarte Coelho pediu ao rei que parasse de mandá-los; muitos dos primeiros intérpretes, como o “bacharel de Cananeia” e Caramuru na Bahia, eram náufragos ou degredados que viveram entre os tupis e serviram de ponte. Cristãos-novos (judeus convertidos à força em 1497 e seus descendentes) estiveram no arrendamento do pau-brasil, no financiamento dos engenhos, no comércio do açúcar e, no Recife holandês, puderam voltar a praticar o judaísmo; a Visitação do Santo Ofício à Bahia e a Pernambuco (1591–1595) os perseguiu, e a página da Reforma e Contrarreforma conta esse lado.

Os povos indígenas e os africanos escravizados não são “contribuições” a essa história: são os seus sujeitos mais numerosos. As alianças com tupiniquins e tabajaras fizeram vingar Pernambuco e São Vicente; a guerra tupinambá-francesa decidiu a fundação do Rio; os terços de Felipe Camarão e Henrique Dias foram decisivos nos Guararapes; as leis de 1570, 1595, 1609 e 1611 sobre a liberdade indígena existem porque a resistência tornou a escravização instável; e Palmares cresceu dentro do território que o mapa de Marcgraf inventariava. As páginas da resistência indígena, da escravidão e dos quilombos contam essas histórias por dentro; aqui, o essencial é que nenhum ato da administração colonial (sesmaria, aldeamento, guerra justa, Câmara) se explica sem eles.

Anacronismos e erros clássicos sobre o Brasil colonial

Doze frases que custam um ponto
  1. “O Brasil nasceu em 1500”: em 1500 houve uma chegada; o que se pode chamar de Brasil (ocupação, instituições, nome) se monta entre 1530 e 1549, e o nome “Estado do Brasil” é de 1549; “Brasil” como unidade política é anterior a qualquer “nação”. 2. “Os portugueses descobriram o Brasil”: a costa era habitada por milhões de pessoas; a palavra narra do lado de quem chegou. 3. “Os indígenas plantavam pau-brasil para vender”: extrativismo, não lavoura (Errado no PAS 3 de 2025). 4. “A colonização começou com Martim Afonso e, por isso, Portugal foi à África buscar escravos”: os portugueses já traficavam na África desde os anos 1440 (Errado no PAS de 2012). 5. “As capitanias foram feudos”: jurisdição doada não é soberania; o rei reservou rendas e podia confiscar. 6. “O Governo-Geral acabou com as capitanias”: sobrepôs-se a elas, que duraram até o século XVIII. 7. “A sesmaria favoreceu a pequena propriedade”: o oposto; a condição de cultivo exigia capital. 8. “A União Ibérica fez do Brasil uma colônia espanhola”: união de coroas com administrações separadas; a colônia seguiu portuguesa. 9. “Tordesilhas foi revogado em 1580”: foi ignorado; a revogação é de 1750. 10. “Os holandeses foram expulsos por Portugal”: foram expulsos pelos moradores, contra a diplomacia do rei, que depois pagou a indenização. 11. “Nassau foi um governante iluminista”: é anacronismo de um século; a tolerância era política de companhia, e a companhia comprava e vendia pessoas. 12. “As Câmaras eram o embrião da democracia brasileira”: eram o autogoverno de uma elite de sangue limpo e propriedade; nada de voto popular.

Dois erros de método são mais sutis. O primeiro é o voluntarismo: “D. João III decidiu colonizar e colonizou”, “Nassau decidiu tolerar e tolerou”; cada decisão dependeu de quem pagava, de quem resistia e de quem estava do outro lado do oceano. O segundo é a teleologia: ler a colônia como “preparação” do Brasil independente, como se Salvador tivesse sido fundada para virar capital de um país. Os habitantes da capitania de Minas se chamavam “filhos de Minas”; os de Pernambuco de 1645 lutaram por Pernambuco e pelo rei de Portugal, não por uma nação que não existia; e o próprio Estado do Maranhão foi, de 1621 a 1774, outra colônia, separada do Estado do Brasil.

Como a prova cobra o Brasil colonial

No PAS, o molde é o item de periodização ou de longa duração, quase sempre com gabarito Certo quando o enunciado é longo e matizado: a concentração fundiária com raízes nas capitanias (2008, Certo), a colonização presa à Mata Atlântica no primeiro século (2012, Certo), a colonização “subordinada aos preceitos absolutistas e mercantilistas” com a escravidão africana por base (2019, Certo), “mais de um século” entre ocupação e exploração centrada no tráfico (2025, Certo), os problemas do campo com origem nas capitanias (PAS 2 2014, Certo), Nassau e a ciência antes das expedições portuguesas (PAS 2 2009, Certo). O item Errado troca a cronologia ou o agente: Portugal só se interessou pela África depois de Martim Afonso (2012), indígenas com “plantações” de pau-brasil (2025), o passado sanitário “superado e ausente” (PAS 2 2020). O tipo C de 2015 pediu o modelo misto: colonização “compartilhada” entre Coroa (Governo-Geral, vice-reinado) e particulares (capitanias, sesmarias, engenhos, mineração), contra distratores que absolutizavam o mercantilismo, transplantavam o feudalismo para a América espanhola ou davam à Conjuração Mineira um apelo popular que ela não teve.

No ENEM, a entrada é sempre um texto: Boris Fausto sobre a estratégia lusa (grande propriedade, monopólio, povoamento, 2011); o conselheiro Walbeeck sobre os lucros de eliminar o intermediário português (2011); a revista da Biblioteca Nacional sobre o desembarque de 1630 e a razão econômica da invasão (2014); Vainfas sobre a Insurreição e as dívidas (2018); João de Barros e Frei Vicente contra a expropriação da terra (2018); Gândavo sobre o pau-brasil e as feitorias (2021); Schwartz sobre a Câmara de Cachoeira e a “qualidade do sangue” (2021); o mapa de Bethell sobre Tordesilhas e Madri (2009). Em todos, o distrator pega uma palavra vistosa do texto e a põe numa relação que o texto não sustenta; a resposta está na frase do texto-base, lida com a cronologia e o vocabulário desta página na cabeça. A tática é a mesma nos dois exames: pergunte quem decidiu, quem pagou e em que ano, e desconfie de qualquer frase que faça a colônia nascer pronta, acabar de repente ou funcionar sem gente.

O nome na placa, a data no feriado, a Câmara na esquina

Em Pernambuco, 19 de abril (primeira batalha dos Guararapes) é data do Exército e o Parque Histórico Nacional dos Guararapes, criado em 1971 e administrado pelo IPHAN, guarda o morro e a igreja; a avenida Duarte Coelho, a ponte Maurício de Nassau e o bairro de Boa Viagem convivem no Recife sem que ninguém ache estranho. Em todo o país, a Câmara Municipal que vota o orçamento da cidade é a descendente direta da Câmara de “homens bons”, com uma diferença decisiva: o voto. E a cada Censo Agropecuário, o IBGE conta a mesma proporção de terra em poucas mãos que as sesmarias desenharam. Ler o Brasil colonial é aprender a ver, nas coisas comuns, a data de fabricação.

O essencial em meia página

Palavras. Feitoria, escambo, estanco; capitania, donatário, carta de doação e foral; sesmaria e posse; Governo-Geral e Regimento; Câmara, “homens bons”, ouvidor, provedor; padroado; União Ibérica; WIC. Ruptura (descontinuidade datada) e permanência (estrutura de longa duração, Braudel).

Fases. 1500–1530: feitorias, escambo do pau-brasil, Fernão de Noronha, franceses, guarda-costas. 1530–1532: Martim Afonso, São Vicente, primeiro engenho. 1534–1536: quinze lotes, doze donatários; vingam Pernambuco (Duarte Coelho, Brites de Albuquerque) e São Vicente (Ana Pimentel); falham por capital, gente, resistência, conflito e desenho. 1548–1549: Regimento, Tomé de Sousa, Salvador, Nóbrega; o Governo-Geral soma, não substitui. 1553–1572: Duarte da Costa, Mem de Sá, Rio (1565–1567). 1580–1640: um rei para dois reinos, Tordesilhas ignorado, Belém e o Estado do Maranhão (1621). 1624–1654: Bahia tomada e retomada; Pernambuco, Calabar, Nassau (1637–1644), Insurreição (1645), Guararapes (1648–1649), Taborda (1654), Haia (1661).

Mecanismos. A capitania transfere o custo da colonização ao particular em troca de jurisdição e rendas; a sesmaria, com a condição de cultivo, filtra quem tem capital e planta o latifúndio (elos: 1534 → sesmarias → 1850 → Censo); o Governo-Geral coordena defesa, justiça e fazenda por cima dos donatários; a Câmara governa o cotidiano e negocia com o rei; a Coroa precisa das elites e paga com mercês (Antigo Regime nos trópicos). A invasão holandesa é uma conta de contabilidade (eliminar o intermediário ibérico) e a sua expulsão, uma revolta de senhores endividados.

Historiografia. Caio Prado, Furtado, Novais (sentido da colonização, exclusivo); Alencastro (Atlântico Sul); Fragoso, Bicalho, Gouvêa, Schwartz, Russell-Wood (negociação, nobreza da terra); Sérgio Buarque (semeador), Faoro (patrimonialismo); Evaldo Cabral de Mello e Gonsalves de Mello (Brasil holandês); Marchant (escambo). “Colônia de exploração × povoamento” é esquema de 1874, não lei.

Decisão na prova. Item longo e matizado de periodização ou de longa duração tende a ser Certo quando cada elo tem data e documento; item Errado troca o agente (Coroa por donatário, Portugal por moradores), a cronologia (África depois de 1530, Tordesilhas revogado em 1580) ou decreta estrutura morta (“superadas e ausentes”). Com texto-base, a resposta está na frase do texto lida com a cronologia desta página.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Os portugueses na América: feitorias e capitanias hereditárias (Aula 3, parte 1)
Canal USP · 17:43
Introdução. Primeira parte da aula do professor João Paulo Garrido Pimenta (FFLCH-USP), gravada pela UnivespTV para o curso História do Brasil Colonial I: a passagem das feitorias do pau-brasil ao sistema de capitanias, no nível e com a bibliografia de uma graduação em História. É a porta de entrada das seções ‘1500–1530: por que Portugal demorou’ e ‘1534–1549: o rei doa o litoral’.
História do Brasil Colonial I - Pgm 25 - Os holandeses na América e a competição mundial do século XVII - Parte 1
UNIVESP · 19:37
Aprofundamento. Aula do mesmo curso (professor João Paulo Pimenta, USP) sobre a presença holandesa sob Nassau dentro da formação do império colonial holandês, com texto-base declarado de Evaldo Cabral de Mello (Olinda restaurada, capítulos I e II): acompanha a seção ‘1624–1654: a invasão holandesa, de empresa a guerra de senhores’ e a leitura do mapa de Marcgraf.
União Ibérica e Invasões Holandesas | História do Brasil Colônia
Diacrônico · 32:49
Revisão. Aula de revisão do professor de História Munís Pedro Alves, com slides, que encadeia a união das coroas (1580–1640) e as invasões (Bahia 1624–1625, Pernambuco 1630–1654) com seus efeitos econômicos, políticos e culturais: fixa em sequência as seções ‘1580–1640: dois reinos, um rei’ e ‘1624–1654’ antes de resolver os itens reusados do PAS 2 de 2009 e do ENEM de 2011, 2014 e 2018.
O QUE FORAM AS CAPITANIAS HEREDITÁRIAS?
Parabólica · 19:39
Aplicação para o vestibular. Aula do Parabólica (Pedro Rennó) com material de apoio, voltada ao ENEM e aos vestibulares, sobre o que foram as capitanias, por que falharam e o que deixaram: o formato em que a prova cobra as seções sobre as capitanias e a sesmaria, e o melhor preparo para os itens do PAS de 2008, 2012, 2014 e 2015 reusados nesta página.
Rota PAS 1
O Atlântico em movimento: invasão da América e Brasil colonial · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — O Atlântico em movimento: invasão da América e Brasil colonial · América portuguesa: do escambo do pau-brasil ao Governo-Geral (l.247–297); bloco Leia como na prova (item 2025/13); box Como a banca cobra (América portuguesa: 2006/24, 2008/91, 2012/97, 2019/62, 2025/13); Resolvido 'Período pré-colonial'; Banco de treino T9–T12

    Recorte por assunto: só a seção da América portuguesa. O espaço Atlântico, a conquista espanhola, o olhar do colonizador, a resistência indígena e a economia do açúcar ficam nas páginas próprias (mapa em drafts/historia-p3-pas1-mapa-itens.md).

  • Rota PAS 1 — Resoluções dos exercícios (Parte III) · Item 3 (colonização efetiva não começa em 1500) e item 17 (tipo C: capitanias, Governo-Geral, União Ibérica)
  • Rota PAS 1 — Resoluções do Banco de treino (Parte III) · T9 (custos da colonização), T10 (PAS 1 2006/24), T12 (jesuítas e colonos)
  • Rota PAS 1 — Gabaritos do Banco de treino (Parte III) · T9–T12
  • Rota PAS 2 — Colonização da América Portuguesa: rupturas e permanências · Ruptura e permanência: as duas lâminas de uma tesoura (l.140–170); A terra: capitanias, sesmarias e o desenho da propriedade (l.171–202); Rupturas dentro da colônia: os holandeses e o ouro (l.316–344, só a parte holandesa); box Como a banca cobra (2014/62 e 64, 2020/86, 2009/66); Resolvido 'Os dois andares'; Banco de treino T1–T2, T17–T18, T20

    Primeiro escritor a abrir o capítulo: mapa de itens em drafts/historia-p1-pas2-mapa-itens.md. O engenho e o tráfico, a doença e a violência contra os povos originários, o ouro e Congonhas ficam nas páginas próprias.

  • Rota PAS 2 — Gabaritos (Parte I) · Itens 13–17 (ruptura e permanência; holandeses)
  • Rota PAS 2 — Gabaritos do Banco de treino (Parte I) · T1–T2, T17–T18, T20–T21
  • História Viva (UE) — História 1, capítulo 11: Oceanos costurados: expansão marítima e conquista · E no Brasil? Guerras de conquista — e presença indígena hoje (feitorias de pau-brasil, escambo, Confederação dos Tamoios, França Antártica)

    Fonte de fatos para a transição do escambo à colonização e para a guerra da Guanabara; exemplos, fontes lidas, imagens e ordem são desta página.

  • Extrator de provas — PAS/UnB, ENEM e vestibulares (itens reusados por GUID, conferidos na imagem do caderno e no gabarito oficial) · PAS 1 2008/63, 2008/91, 2012/66, 2012/97, 2015/20, 2019/62, 2025/13; PAS 2 2009/66, 2014/62, 2020/86; PAS 3 2025/73; ENEM 2009/84, 2011 PPL/12 e 16, 2012 PPL/24, 2014 PPL/19 e 27, 2018/54 e 59, 2021 PPL/69 e 79; data-vest FATEC 2019, Unimontes 2019

    Correções registradas em drafts/extrator-correcoes-historia.md: PAS 2 2014/64 gabarito E → C (GAB oficial), resoluções escritas para 2012/97, 2015/20, 2025/13 e 2009/66 (classificação 63 → 1007).