Em novembro de 1539, oficiais do rei da Inglaterra chegaram ao mosteiro de Fountains, no norte de Yorkshire, com uma lista: inventariar a prata do altar, medir as terras, contar as ovelhas, pagar uma pensão ao abade que concordasse em sair e demolir o telhado de chumbo para que ninguém voltasse. Fountains era uma das casas mais ricas da ordem de Cister; entre 1536 e 1540, perto de oitocentas comunidades religiosas inglesas tiveram o mesmo destino, e as terras passaram para a Coroa, que as vendeu a quem pagasse. Cinco anos antes, o Parlamento declarara que Henrique VIII era, por direito, “chefe supremo da Igreja da Inglaterra”. Guarde a cena, porque ela mostra o que esta página precisa explicar: uma disputa que começou com um monge alemão preocupado com a salvação da própria alma terminou, em outro país, como a maior transferência de propriedade da história inglesa até então, decidida por um rei que nunca se interessou pela teologia de Lutero.
A Reforma foi as duas coisas ao mesmo tempo, e a prova sabe disso. Foi uma crise religiosa autêntica, em que gente comum discutia na rua se a alma se salva pela fé ou pelas obras e morria queimada por responder errado; e foi um capítulo da história do poder, em que príncipes, reis e cidades descobriram que romper com Roma significava ficar com o dízimo, com os conventos e com a nomeação dos bispos. Quem lê só a primeira camada acha que a Reforma foi uma revolução da consciência; quem lê só a segunda acha que foi um golpe fiscal com desculpa de fé. Os itens do PAS e do ENEM sobre o assunto exploram justamente a junção das duas camadas, e um terceiro ponto que esta página trata com cuidado: a resposta de Roma, que foi repressão e renovação ao mesmo tempo, e que chegou ao Brasil nas naus dos jesuítas e nas malas dos visitadores do Santo Ofício.

As palavras antes dos fatos: Reforma, protestante, igreja nacional, Contrarreforma
A maioria dos itens errados sobre este assunto troca um agente por outro ou usa uma palavra fora da data. Vale fixar o vocabulário antes da narrativa.
Reforma era, no século XV, uma palavra de todo mundo: concílios, ordens religiosas e pregadores falavam em reformatio in capite et in membris, reforma da Igreja “na cabeça e nos membros”, sem imaginar ruptura. O sentido que a palavra ganhou depois, o de um movimento que criou igrejas fora da obediência ao papa, é retrospectivo. Lutero, em 1517, não quis “fazer a Reforma”: quis corrigir um abuso. O nome Reforma Protestante reúne, por comodidade, quatro movimentos que discordavam entre si em pontos graves (a ceia, o batismo, a relação com o Estado): o luterano, o reformado (Zwinglio e Calvino), o anglicano e o chamado radical (anabatistas e outros).
Protestante tem data de nascimento: 1529. Na Dieta de Espira, a maioria católica tentou revogar a tolerância concedida três anos antes aos territórios que seguiam Lutero; seis príncipes e catorze cidades livres assinaram um protesto formal. O apelido pegou e se estendeu a todos os que recusavam a autoridade do papa. Usá-lo para 1517 é um anacronismo pequeno, mas revela quem não sabe que a palavra nasceu num ato político, e não numa doutrina.
Igreja nacional é a igreja cujo chefe é o governante do país, que nomeia os bispos e fica com as rendas que antes iam a Roma. O caso-modelo é a Inglaterra do Ato de Supremacia (1534), mas a lógica vale, com outros nomes, para a Suécia, a Dinamarca e os principados luteranos do Sacro Império, onde o príncipe virou “bispo de emergência” (Notbischof) e, na prática, dono da igreja do seu território. A expressão é a ponte entre este assunto e a formação dos Estados: a última peça que faltava ao rei para controlar tudo dentro das suas fronteiras era a Igreja.
Contrarreforma e Reforma católica são dois rótulos para a mesma resposta de Roma, e cada um é uma tese. O primeiro, cunhado em 1776 pelo jurista protestante Johann Stephan Pütter e difundido pelos historiadores alemães do século XIX, sublinha a reação: Inquisição, Index, guerra. O segundo, preferido pela historiografia católica do século XX, sublinha a reforma por dentro, cujas raízes são mais antigas que 1517 (as reformas das ordens, o humanismo cristão de Erasmo, os concílios). A maioria dos historiadores hoje usa os dois, conforme o aspecto, e alguns propõem um terceiro, confessionalização, para dizer que católicos, luteranos e calvinistas fizeram, entre 1550 e 1650, a mesma coisa: disciplinar fiéis, formar clero, catequizar crianças e colar religião ao Estado.
Indulgência, justificação e as três "solas"
Indulgência não é perdão de pecado: é a remissão da pena temporal que o pecado já perdoado ainda deixa por pagar, neste mundo ou no purgatório. A Igreja a concedia por obras piedosas (peregrinação, jejum, esmola) e, desde as cruzadas, por contribuições em dinheiro para obras pias. No começo do século XVI, pregadores autorizados vendiam cartas de indulgência de feira em feira para financiar a basílica de São Pedro e a dívida de um arcebispo, e prometiam, no sermão, mais do que a doutrina permitia. Justificação é o modo como o pecador se torna justo diante de Deus. Para Lutero, só pela fé (sola fide), que é dom gratuito (sola gratia); as obras são consequência, não causa, da salvação. A autoridade que decide isso é só a Escritura (sola scriptura), lida por cada cristão, e não a tradição nem o papa. O Concílio de Trento respondeu em 1547: a justificação começa pela graça, mas o fiel coopera, e as obras feitas na graça têm mérito; e, em 1563, condenou os abusos das indulgências sem aboli-las. A diferença parece sutil e decidiu a divisão da Europa.
"Calvino liderou a Contrarreforma" e outras trocas de agente
A banca sabe que o aluno decora nomes e não lados. Calvino foi reformador, não contrarreformador (o distrator A do tipo C do PAS de 2022). Quem reformou veio de fora da hierarquia; o que a hierarquia tomou como iniciativa foi a resposta, a Contrarreforma (PAS 2022, item 43, Errado). A Igreja não “concordava” com as teses de Lutero: excomungou-o (item 46, Errado). A região em que a Reforma se consolidou mais depressa foi o Sacro Império, a Escandinávia e a Suíça, não o Leste ortodoxo, que nem estava sob Roma (distrator C). Antes de julgar qualquer item deste assunto, faça duas perguntas: esse nome está do lado certo? Esse lugar estava sob o papa?
Dois séculos e meio em uma linha: de Constança a Vestfália
A linha do tempo acima não é para decorar; é para enxergar quatro blocos, cada um com uma relação de poder diferente.
A crise antes da crise (1414–1516). O Concílio de Constança (1414–1418) encerra o Grande Cisma, que durante quarenta anos pusera dois e depois três papas a se excomungarem, e queima Jan Hus (1415) apesar do salvo-conduto do imperador. É a prova de que a cristandade sabia reformar e sabia reprimir, mas não sabia fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Gutenberg imprime a Bíblia em Mogúncia por volta de 1455. Em 1516, Erasmo publica o Novo Testamento em grego com uma tradução latina nova, e o humanismo cristão coloca nas mãos dos letrados o instrumento que Lutero vai usar: a comparação do texto original com a prática da Igreja.
A ruptura (1517–1555). Teses em 1517; disputa de Leipzig em 1519; os três grandes tratados e a bula de excomunhão em 1520; a Dieta de Worms em 1521; o Novo Testamento em alemão em 1522; a Guerra dos Camponeses em 1524–1525; Zwinglio em Zurique, os anabatistas em Münster (1534–1535), Calvino em Genebra (desde 1536 e, em definitivo, 1541); o Ato de Supremacia inglês em 1534; a Paz de Augsburgo em 1555, que legaliza o luteranismo nos territórios cujos príncipes o adotarem. Em quarenta anos, a ruptura virou mapa.
A resposta e o endurecimento (1540–1598). Companhia de Jesus aprovada em 1540; Inquisição romana reorganizada em 1542; Concílio de Trento em três períodos entre 1545 e 1563; o Index dos livros proibidos em 1559; guerras de religião na França de 1562 a 1598, com o massacre de São Bartolomeu (1572) no meio e o Édito de Nantes (1598) no fim; a primeira visitação do Santo Ofício ao Brasil em 1591. É o bloco em que cada confissão fabrica sua disciplina, seus catecismos e seus mártires.
A guerra e a paz dos Estados (1618–1648). A Guerra dos Trinta Anos começa em Praga como conflito religioso e termina como guerra entre dinastias, com a França católica do cardeal Richelieu pagando exércitos protestantes contra o imperador católico. A Paz de Vestfália (1648) fecha o ciclo: o governante de cada território escolhe a confissão dos súditos, agora com os calvinistas admitidos, e a soberania territorial passa na frente da unidade da fé. A última revogação importante, a do Édito de Nantes por Luís XIV em 1685, mostra que a tolerância, onde existia, era concessão do rei, não direito do súdito.
A Igreja em crise antes de Lutero: Avinhão, cisma, Hus, Erasmo
Nenhum item sério trata a Reforma como surpresa, e você também não deve. Três feridas abertas no século XIV e XV explicam por que a crítica de um professor provinciano encontrou terreno pronto.
A primeira é a perda de autoridade do papado. De 1309 a 1377, os papas moraram em Avinhão, à sombra do rei da França, e a corte pontifícia virou a mais sofisticada máquina fiscal da Europa: taxas sobre nomeações, sobre dispensas, sobre tudo. Quando o papa voltou a Roma, a eleição contestada de 1378 produziu dois papas, um em Roma e outro em Avinhão, e cada reino escolheu o seu; o Concílio de Pisa (1409), tentando resolver, elegeu um terceiro. Por quarenta anos, cristãos sinceros não sabiam quem era o vigário de Cristo. O conciliarismo, a ideia de que o concílio geral está acima do papa, nasceu dessa emergência e foi derrotado no século XV, mas deixou uma memória: a de que a cabeça da Igreja podia ser julgada.
A segunda ferida são os abusos conhecidos de todos: simonia (compra de cargos eclesiásticos), nepotismo, acúmulo de dioceses por um só bispo que não morava em nenhuma, clero rural sem formação, conventos ricos. A literatura do século XV está cheia de clérigos ridículos, de Boccaccio ao Elogio da Loucura de Erasmo (1511); a crítica não era heresia, era lugar-comum. O que faltava a essa crítica era uma teologia alternativa e um meio de difusão.
A terceira são as heresias que a Igreja venceu, mas não apagou. Na Inglaterra, John Wycliffe (morto em 1384) negara a transubstanciação, atacara a riqueza do clero e patrocinara uma Bíblia em inglês; seus seguidores, os lolardos, foram perseguidos por um século. Na Boêmia, Jan Hus, reitor da Universidade de Praga, pregara em tcheco contra as indulgências e pela comunhão com o cálice para os leigos; queimado em Constança em 1415, virou mártir nacional, e os hussitas derrotaram cinco cruzadas. Quando Lutero, na disputa de Leipzig de 1519, admitiu que Hus tinha razão em vários pontos, o teólogo Johann Eck obteve o que queria: provar que Lutero era um herege já condenado. Lutero aceitou a comparação. A diferença entre o destino dos dois não está na doutrina, e sim no que mudou entre 1415 e 1517: a imprensa e os príncipes.
A quarta via, mais branda, é o humanismo cristão. Erasmo de Roterdã queria uma Igreja reformada pela educação e pelo retorno às fontes: o texto grego do Novo Testamento, os Padres da Igreja, uma piedade interior sem superstição. Seu Novo Testamento de 1516 mostrou que a Vulgata latina continha erros de tradução; Lutero o usou. Um dito da época resumia a relação entre os dois: Erasmo pôs o ovo, Lutero o chocou. Erasmo recusou a paternidade: em 1524 escreveu contra Lutero em defesa do livre-arbítrio, e Lutero respondeu em 1525 com Do servo arbítrio, o livro que ele próprio considerava o mais importante que escrevera. O humanismo abriu a porta e ficou na soleira.
A prensa antes da fé: por que 1517 não terminou como 1415
Hus pregava em tcheco para multidões e foi queimado; Lutero escrevia em latim para professores e morreu na cama, aos 62 anos. A primeira explicação é técnica, e tem números.
Johannes Gutenberg não inventou a impressão: o papel vinha da China, os blocos de madeira eram usados havia séculos na Ásia, os tipos metálicos móveis já existiam na Coreia (o Jikji, de 1377, é o livro mais antigo conservado impresso com eles). O que ele montou em Mogúncia, por volta de 1450, foi um sistema: tipos fundidos em série numa liga de chumbo, uma prensa de parafuso adaptada das prensas de vinho, tinta à base de óleo que aderia ao metal e, decisivo, um alfabeto de poucas dezenas de sinais, fácil de compor, onde a escrita chinesa exigia milhares. Sua Bíblia de 42 linhas (por volta de 1455) saiu numa tiragem estimada em 180 exemplares. Um copista levava um ano para produzir um.
A difusão foi rápida de um modo que a Europa nunca tinha visto. Pelos cálculos dos historiadores do livro Lucien Febvre e Henri-Jean Martin, havia oficinas tipográficas em cerca de 250 cidades europeias por volta de 1500, e as cerca de 27 mil edições produzidas até então somavam algo como 20 milhões de exemplares, para um continente de menos de 100 milhões de habitantes, quase todos analfabetos. No século XVI, a produção passa de 150 milhões. Isso muda a escala da heresia. Um sermão de Hus chegava a quem estivesse na praça; um panfleto de Lutero chegava, em semanas, a todas as cidades com prensa, e de lá a quem ouvisse alguém ler em voz alta na taverna.

Os números do caso Lutero, calculados pelo historiador Mark U. Edwards, são os que a prova pode pedir. Entre 1518 e 1525, foram impressas na Alemanha mais edições de obras de Lutero do que de todos os outros autores somados; os escritos dele equivaleram a perto de 20 por cento da produção impressa em língua alemã no período 1500–1530. O Sermão sobre as indulgências e a graça, de 1518, escrito em alemão e em linguagem de povo, teve mais de vinte edições em dois anos. O Novo Testamento traduzido no castelo de Wartburg, em onze semanas, saiu em setembro de 1522 numa tiragem de 3 mil exemplares, caros, e esgotou em três meses; a Bíblia completa de 1534 fixou o alemão escrito moderno. Contra isso, o édito de Worms que mandava queimar os livros de Lutero era, como escreveu um historiador, uma ordem para desimprimir.
A segunda explicação é política e fica para a seção dos príncipes. Aqui importa registrar uma coisa que a historiografia discute: a imprensa foi condição necessária ou causa suficiente? A historiadora Elizabeth Eisenstein, no seu livro de 1979 sobre a prensa como agente de mudança, defendeu que a tipografia abriu um espaço público novo, com textos padronizados, conserváveis e multiplicáveis, e que sem ela Lutero teria sido mais um Hus. Os críticos lembram que a maioria não lia, que os panfletos convenciam porque havia um anticlericalismo antigo e pregadores itinerantes que faziam a leitura em voz alta para os demais, e que a mesma prensa serviu à Contrarreforma: o Index é uma lista de impressos, e o catecismo de Pedro Canísio, jesuíta, teve centenas de edições. A posição mais aceita hoje é que a imprensa foi aceleradora: necessária para a velocidade e a escala, insuficiente sem a teologia, a política e o descontentamento. Decore o método, não só a conclusão: desconfie de “a tecnologia X causou o evento Y”.
O panfleto e o feed
A Reforma foi a primeira guerra de propaganda de massa, e os historiadores a estudam com as perguntas que você faz ao seu feed. Quem produziu a imagem? Para quem? Com que interesse? Os folhetos de 1521 caricaturavam o papa como Anticristo e Lutero como monstro de sete cabeças, e as oficinas lucravam com os dois lados. Muda a técnica; a pergunta sobre quem confere continua a mesma. O método do historiador, observar, hipotetizar, contextualizar, corroborar, é o mesmo que separa notícia de boato hoje, e é por isso que a prova o cobra em texto-base.
Leitura de fonte 1: as teses 27 e 86, lidas como o que são
O documento. Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, monge agostiniano e professor de teologia na jovem Universidade de Wittenberg, enviou ao arcebispo Alberto de Mogúncia uma carta com 95 proposições em latim, sob o título Disputa para esclarecer o poder das indulgências. Duas delas, em tradução livre:
-
É invenção de homens afirmar que a alma escapa do purgatório no instante em que a moeda soa no fundo do cofre.
-
Por que o papa, cuja fortuna é hoje maior que a do mais rico dos Crassos, não ergue ao menos essa basílica de São Pedro com recursos seus, e não com o que se tira dos fiéis pobres?
Observar. O gênero é acadêmico: teses numeradas para uma disputa universitária, em latim, destinadas a teólogos. O tom é de quem corrige por dentro: a tese 27 ataca os pregadores que exageram, não a doutrina das indulgências nem o papa; várias outras teses defendem o papa, dizendo que, se ele soubesse dos abusos, preferiria ver São Pedro em cinzas. A tese 86 muda de registro: é uma pergunta retórica sobre dinheiro, com uma comparação clássica (Crasso, o romano riquíssimo) que qualquer humanista reconheceria.
Hipotetizar. A hipótese mais econômica é que o autor, em 1517, não quer fundar outra igreja; quer um debate sobre um abuso pastoral. Mas a tese 86 mostra por onde o debate vai escapar do controle dele: a crítica teológica (ninguém compra a salvação) vem colada a uma queixa fiscal e nacional (o ouro da Alemanha pagando obras em Roma). Os leitores que não eram teólogos entraram pela queixa, não pela teologia.
Contextualizar. A campanha de indulgências de 1517 no norte da Alemanha era uma operação casada: Alberto de Brandemburgo, já arcebispo de Magdeburgo, comprara também o arcebispado de Mogúncia com um empréstimo dos banqueiros Fugger; o papa Leão X autorizou a pregação da indulgência de São Pedro nos territórios dele, metade da receita para Roma, metade para pagar os Fugger. O pregador Johann Tetzel, dominicano, fazia o circuito das feiras. Lutero não sabia da parte do empréstimo; sabia que fiéis de Wittenberg atravessavam a fronteira para comprar cartas e voltavam dizendo que já não precisavam se confessar. O arcebispo mandou as teses a Roma como denúncia. A prensa fez o resto: traduzidas e impressas sem autorização do autor, correram o Império em semanas.
Corroborar. A imagem de Lutero martelando as teses no portal da igreja do castelo de Wittenberg não tem testemunha contemporânea; o relato é de Filipe Melanchthon, colega de Lutero, escrito depois da morte dele, e, desde que o historiador Erwin Iserloh levantou o problema, em 1961, a historiografia a classifica como tradição plausível, sem estatuto de fato. O que é documentado é a carta ao arcebispo, com data. A outra corroboração é a sequência: em 1518 Lutero reescreveu o argumento em alemão para o povo; em 1519 admitiu em Leipzig que Hus tinha razão; em 1520 queimou a bula papal. O documento de 1517 é o começo de um processo que o seu autor não controlava.
E as outras leituras? “As teses foram um manifesto revolucionário”: cai pelo gênero, pela língua e pelas teses que defendem o papa. “As teses foram só uma questão de dinheiro”: cai pela tese 27 e pelas dezenas de teses sobre arrependimento, que são teologia pura. “Lutero já queria fundar uma igreja”: cai pela cronologia; a excomunhão veio de Roma em 1521, não de Wittenberg. O que a fonte não permite concluir, sozinha, é por que ela teve efeito; para isso são precisos os números da imprensa e a decisão dos príncipes, que vêm a seguir.
De Wittenberg a Worms: como um debate acadêmico virou cisma (1517–1521)
O que se passou nos quatro anos seguintes foi uma escalada em que cada lado forçou o outro a ir mais longe do que pretendia.
Em 1518, Roma convocou Lutero; o eleitor da Saxônia, Frederico, conseguiu que o interrogatório fosse em Augsburgo, em solo alemão, diante do cardeal Caetano, que exigiu retratação e não a obteve. Em 1519, na disputa pública de Leipzig, Johann Eck empurrou Lutero a negar a infalibilidade dos concílios e a reconhecer Hus: a partir daí, a questão não era mais indulgência, era autoridade. Em 1520, Lutero publicou os três tratados que são o programa da Reforma: À nobreza cristã da nação alemã (chama os príncipes a reformar a Igreja, já que o clero não o faz: aqui está a porta política escancarada), Do cativeiro babilônico da Igreja (reduz os sacramentos a dois, batismo e ceia, e nega a missa como sacrifício) e Da liberdade do cristão (a fé liberta de toda obra; o cristão é senhor de tudo e servo de todos). Em junho, a bula Exsurge Domine condenou 41 proposições e deu sessenta dias para a retratação; em dezembro, Lutero queimou a bula em praça pública, com os livros de direito canônico. Em janeiro de 1521, a excomunhão.
Faltava o braço secular. Carlos V, imperador desde 1519, aos vinte anos, senhor da Espanha, dos Países Baixos, de Nápoles e das Américas, convocou Lutero à Dieta de Worms em abril de 1521, com salvo-conduto. Diante do imperador e dos príncipes, pediram-lhe que renegasse os livros empilhados sobre uma mesa. Ele pediu um dia; no seguinte, respondeu que só se retrataria se convencido pela Escritura ou pela razão evidente, porque agir contra a consciência não é seguro nem honesto. A frase “aqui estou, não posso fazer outra coisa” foi acrescentada pelas primeiras edições impressas do discurso; o que as atas registram é a recusa. O Édito de Worms (maio) o pôs fora da lei do Império e mandou queimar seus livros. No caminho de volta, cavaleiros de Frederico “sequestraram” Lutero e o esconderam no castelo de Wartburg, onde ele traduziu o Novo Testamento. Carlos V não o perseguiu: estava em guerra com a França e precisava dos príncipes alemães. A Reforma sobreviveu no intervalo entre o que o imperador queria e o que podia.

O que Lutero pregava e o que isso tirava de Roma
Cada ponto de doutrina tem uma consequência institucional, e é a consequência que a prova cobra. Justificação pela fé: se a salvação é dom, as obras pagas (indulgências, missas por encomenda, peregrinações) perdem o sentido, e com elas uma fonte de renda da Igreja. Só a Escritura: se cada cristão lê a Bíblia, é preciso traduzi-la, e a autoridade de interpretar deixa de ser monopólio do clero; daí a Bíblia em vernáculo e a escola para que se possa lê-la. Sacerdócio universal dos fiéis: não há diferença de natureza entre padre e leigo; o clero pode casar (Lutero casou-se em 1525 com Katharina von Bora, ex-freira), os conventos se esvaziam e a hierarquia perde a razão de ser. Dois sacramentos em vez de sete: a confissão auricular obrigatória, a extrema-unção e o sacramento da ordem desaparecem. O príncipe como protetor da igreja: sem papa, alguém precisa nomear pastores, pagar escolas e administrar o patrimônio confiscado; Lutero entregou essa função ao governante do território, o que fez de cada principado luterano uma igreja de Estado. Repare que nenhum desses pontos é “liberdade religiosa” no sentido atual: Lutero queria uma igreja verdadeira, não várias igrejas livres.
Os príncipes, os camponeses e o preço da proteção (1521–1555)
A segunda explicação para a sobrevivência de Lutero é a que a prova mais cobra: os príncipes. Frederico da Saxônia protegeu seu professor por convicção, por orgulho da universidade que fundara e por cálculo. Romper com Roma significava três coisas concretas para um príncipe alemão: parar de remeter dinheiro ao papa (anatas, dispensas, indulgências), confiscar terras e conventos da Igreja no território e nomear ele mesmo os bispos ou pastores. Um item que diga que a adesão dos príncipes foi “estritamente teológica” e sem “implicação patrimonial ou fiscal” está errado nos dois adjetivos; um item que diga que foi “só interesse” também erra, porque houve príncipes que arriscaram tudo por fé, como Filipe de Hesse, e cidades inteiras que votaram a Reforma em assembleia. A resposta certa é a que junta as camadas.
Quem apoiou a Reforma de baixo foram as cidades e o campo, e aqui está o episódio que separa o Lutero da lenda do Lutero da história. Entre 1524 e 1525, camponeses do sul e do centro do Império, esmagados por tributos senhoriais e pela servidão, leram a “liberdade do cristão” como programa social. Os Doze Artigos de Memmingen (março de 1525), o manifesto mais impresso da revolta, pediam, Bíblia na mão, o direito de escolher o pastor, a redução do dízimo e o fim da servidão, “pois Cristo nos redimiu a todos com seu sangue, do pastor ao mais alto”. O pregador Thomas Müntzer deu ao movimento uma teologia apocalíptica: o reino de Deus se fazia agora, pela espada dos eleitos. Lutero, que dependia dos príncipes e via na revolta a desordem que o Evangelho não autorizava, publicou em maio de 1525 um panfleto de título brutal, que chamava os rebeldes de bandos de ladrões e assassinos e pedia aos senhores que os esmagassem “como a um cão raivoso”. A repressão, em Frankenhausen e em dezenas de outros lugares, matou perto de 100 mil pessoas, pela estimativa do historiador Peter Blickle; Müntzer foi torturado e decapitado. O PAS de 2022 deu como Errado o item que dizia que “os camponeses não apoiaram a Reforma, que foi um movimento tipicamente urbano”: apoiaram, radicalizaram-na e foram abandonados por ela. O tipo C de 2015 plantou o espelho: a opção que pintava Lutero como combatente ao lado dos camponeses contra os príncipes é o inverso do que aconteceu.
Lutero não é um herói da liberdade moderna fora do lugar
A tentação é ler a Reforma como primeiro capítulo da liberdade de consciência, da democracia ou dos direitos humanos. Lutero era um teólogo do século XVI que ensinava obediência às autoridades constituídas (Romanos 13), aprovou a execução dos rebeldes de 1525, aceitou que o príncipe decidisse a religião do território e, em 1543, escreveu Sobre os judeus e suas mentiras, um dos textos mais violentos do antijudaísmo cristão, que os nazistas reeditaram. Nada disso apaga a coragem de Worms nem a Bíblia em alemão; tudo isso impede o anacronismo. O critério: pergunte o que a palavra “liberdade” significava para ele (liberdade da consciência diante das obras, não liberdade de escolher religião) antes de usá-la.
Depois de 1525, a Reforma luterana se institucionalizou por cima. Os príncipes e as cidades que a adotaram organizaram igrejas territoriais, com visitas pastorais, catecismos (o Catecismo Menor de Lutero, 1529, é o manual de doutrina para pais e mestres) e escolas. Em 1530, na Dieta de Augsburgo, Melanchthon apresentou ao imperador a Confissão de Augsburgo, documento de fé luterano, redigido em tom conciliador; Carlos V a rejeitou, e em 1531 os príncipes protestantes formaram a Liga de Esmalcalda, uma aliança militar. Quinze anos depois, livre das guerras com a França e com os otomanos, o imperador os derrotou em Mühlberg (1547), mas não conseguiu impor a volta ao catolicismo: a Reforma já tinha duas gerações de pastores, escolas e fiéis. A Paz de Augsburgo (1555) reconheceu o fato: o governante de cada território escolhe a confissão oficial, e ao súdito que discorda resta emigrar. A fórmula latina cuius regio, eius religio (de quem é a região, dele é a religião) é de um jurista posterior, mas resume o princípio. Repare em quem ficou de fora: a paz valia só para católicos e luteranos. Calvinistas e anabatistas continuavam ilegais no Império, e essa lacuna seria uma das causas da Guerra dos Trinta Anos.
Zurique, Genebra e Münster: as outras reformas
Chamar tudo de “protestantismo” esconde que, já nos anos 1520, havia reformas rivais, e que elas discordavam entre si com a mesma violência com que discordavam de Roma.
Zurique. Ulrico Zwinglio, pároco da catedral de Zurique desde 1519, humanista formado em Erasmo, chegou por conta própria a conclusões parecidas com as de Lutero e as aplicou com mais radicalidade: retirou as imagens das igrejas, aboliu a missa, submeteu a igreja ao conselho da cidade. Em 1529, no Colóquio de Marburgo, Lutero e Zwinglio concordaram em catorze pontos e romperam no décimo quinto: para Lutero, Cristo está realmente presente no pão e no vinho da ceia; para Zwinglio, a ceia é memorial e sinal. A ruptura sobre a ceia impediu uma frente protestante única. Zwinglio morreu em 1531 na batalha de Kappel, contra os cantões católicos, de capacete e espada.
Genebra. João Calvino, francês de Noyon, jurista e humanista, publicou em 1536, aos 26 anos, a primeira versão das Institutas da religião cristã, o tratado mais sistemático da Reforma. No mesmo ano, de passagem por Genebra, cidade que acabara de expulsar o bispo e adotar a Reforma, foi convencido a ficar; expulso em 1538, voltou em 1541 com as Ordenanças eclesiásticas, que organizaram a igreja em quatro ministérios (pastores, doutores, presbíteros, diáconos) e criaram o consistório, tribunal de pastores e leigos que vigiava a conduta dos fiéis: faltas ao culto, blasfêmias, danças, adultérios, nomes de batismo não bíblicos. A doutrina que marcou o calvinismo é a predestinação dupla: Deus, antes da criação, decidiu quem se salva e quem se perde, e nada que a pessoa faça altera esse decreto. Parece uma doutrina que levaria à passividade; produziu o contrário, como a seção seguinte discute. Genebra virou a “escola de Cristo” para refugiados da França, da Escócia, da Inglaterra e dos Países Baixos, que voltaram a seus países como pastores: huguenotes, presbiterianos (John Knox, Escócia, 1560), puritanos, reformados holandeses. E Genebra queimou: em 1553, o médico espanhol Miguel Servet, que negava a Trindade, foi executado com a aprovação de Calvino. Reformados também perseguiam; “tolerante e aberto ao diálogo” não descreve Genebra, e a banca usou exatamente essa expressão como distrator em 2015.
Münster e os anabatistas. A chamada Reforma radical levou o “só a Escritura” até o fim: se a Bíblia não fala em batismo de crianças, só se batizam adultos que professam a fé (daí “anabatistas”, rebatizadores). Perseguidos por católicos, luteranos e reformados, que viam no rebatismo uma ameaça à ordem (sem batismo infantil não há paróquia nem registro de súditos), os anabatistas de Zurique foram afogados; os de Münster, na Vestfália, tomaram a cidade em 1534 sob a liderança de João de Leiden, proclamaram o reino de Sião, instituíram a comunidade de bens e a poligamia e foram massacrados em 1535 pelo bispo e pelos príncipes, católicos e luteranos juntos. As gaiolas em que os corpos dos líderes foram pendurados ainda estão na torre da igreja de São Lamberto. Dos sobreviventes pacifistas, reorganizados por Menno Simons, descendem os menonitas; dos batistas ingleses do século XVII, as igrejas batistas de hoje.

Leitura de fonte 2: a tese de Weber, lida como tese
Um dos itens mais frequentes sobre calvinismo, no ENEM e nos vestibulares, é a relação entre a ética protestante e o capitalismo. Trata-se de uma tese, com autor, data e adversários, e a prova espera que você a leia assim.
O documento. Max Weber, sociólogo alemão, publicou A ética protestante e o espírito do capitalismo em duas partes, em 1904 e 1905. O ponto de partida é uma estatística: nos países de religião mista, os protestantes estavam sobrerrepresentados entre empresários e trabalhadores qualificados. A pergunta é por quê.
Observar. Weber não diz que o protestantismo criou o capitalismo (que existia em Florença e Veneza católicas muito antes), nem que Calvino pregou o lucro. Diz algo mais fino: a doutrina da predestinação produziu uma angústia (como saber se sou eleito?) que a pastoral calvinista respondeu com a ideia de vocação (Beruf): trabalhar com método no ofício que Deus deu, sem ócio e sem luxo, e ver na prosperidade um possível sinal de bênção. Essa “ascese intramundana”, a disciplina do monge aplicada à oficina e ao balcão, teria uma afinidade eletiva com o “espírito do capitalismo”, a conduta de quem acumula para reinvestir, não para gozar. Com o tempo, a motivação religiosa evaporou e ficou a disciplina: a “jaula de ferro” da economia moderna.
Hipotetizar. A hipótese de Weber é causal, mas parcial: ele próprio avisa que seria tolo substituir uma explicação materialista unilateral por outra espiritualista igualmente unilateral. O item do ENEM de 2020 sobre a “ressignificação do trabalho” cobra exatamente essa camada: a Reforma deu valor religioso ao trabalho cotidiano, no mundo, e não mais à fuga do mundo do monge.
Contextualizar. Weber escrevia na Alemanha de 1904, em debate com o marxismo (que explicava a religião pela economia) e com uma burguesia protestante que se via como motor do progresso. A tese responde a uma pergunta do seu tempo.
Corroborar, e as outras leituras. A crítica começou cedo. O historiador inglês R. H. Tawney (A religião e a ascensão do capitalismo, 1926) inverteu a seta: foi o capitalismo mercantil já existente que moldou o puritanismo, não o contrário. Hugh Trevor-Roper (1963) mostrou que os grandes empresários do século XVII eram, em grande parte, emigrantes de ambos os lados, calvinistas e católicos erasmianos expulsos de cidades confessionalizadas, e que a tolerância do lugar de chegada (Amsterdã, Hamburgo) explicava mais que a doutrina. Fernand Braudel lembrou que o capitalismo nasceu nas cidades católicas da Itália. A tese sobrevive hoje como hipótese sobre mentalidades, não como lei. Para a prova, o erro clássico é transformá-la em causa única (“o calvinismo criou o capitalismo”) ou em caricatura (“Calvino pregava o lucro”); o acerto é “afinidade entre uma ética religiosa do trabalho e a conduta econômica moderna, segundo Weber”. E a caricatura inversa, a de que a Reforma “pregava a pobreza como forma de agradar a Deus”, foi distrator do PAS de 2022.
Inglaterra: um rei que se fez chefe da Igreja (1534)
A Reforma inglesa é o caso em que a camada política aparece sem disfarce, e por isso a banca gosta dele: dois dos sete itens do bloco do PAS de 2022 e a opção correta do tipo C de 2015 tratam dela.
Henrique VIII não era luterano. Em 1521 escrevera contra Lutero um tratado em defesa dos sete sacramentos que lhe valeu do papa o título de “Defensor da Fé”, que os reis ingleses usam até hoje. O que ele queria, no fim dos anos 1520, era a anulação do casamento com Catarina de Aragão, que não lhe dera um herdeiro homem, para casar com Ana Bolena. O papa Clemente VII não podia conceder: Catarina era tia de Carlos V, cujas tropas tinham saqueado Roma em 1527. A saída foi declarar que a questão se resolvia em casa. Entre 1532 e 1534, o Parlamento, conduzido por Thomas Cromwell, cortou um a um os laços com Roma: proibiu apelações ao papa, transferiu ao arcebispo de Canterbury (Thomas Cranmer, que anulou o casamento) a última palavra em causas eclesiásticas, e em novembro de 1534 o Ato de Supremacia declarou o rei “único chefe supremo na terra da Igreja da Inglaterra”. Recusar o juramento era traição: Thomas More, ex-chanceler e autor da Utopia, e o bispo John Fisher foram decapitados em 1535.
Veio então o dinheiro. Entre 1536 e 1540, a dissolução dos mosteiros fechou perto de oitocentas casas religiosas, confiscou suas terras (algo entre um quarto e um terço das terras cultivadas do reino, pelas estimativas correntes) e as vendeu ou doou à nobreza e à pequena fidalguia, que assim ganhou interesse permanente em que a ruptura não fosse desfeita. A revolta do norte, a Peregrinação da Graça (1536), que pedia a volta dos mosteiros, foi esmagada. Note que a doutrina pouco mudou sob Henrique: missa em latim, celibato do clero, sete sacramentos, perseguição a luteranos. A Igreja da Inglaterra nasceu católica sem papa; só sob Eduardo VI (1547–1553), com o Livro de Oração Comum de Cranmer, ganhou liturgia em inglês e doutrina reformada. Maria I (1553–1558) tentou o caminho inverso e queimou perto de trezentos protestantes; Isabel I (1558–1603) fixou o meio-termo anglicano: rei (ou rainha) como “governador supremo”, liturgia inglesa, bispos mantidos, 39 artigos de doutrina de inspiração reformada. Os puritanos achavam pouco; os católicos, demais; a tensão explodiria no século XVII.
A igreja nacional como peça do Estado
O que a prova chama de “sentido político da Reforma” cabe numa frase: quem chefia a igreja do seu reino acumula autoridade e renda que antes escoavam para Roma. O PAS de 2010 deu como Certo um item que apresentava a Reforma como movimento religioso e político cuja vertente inglesa negou a primazia da Igreja sobre o poder secular, com Henrique VIII à frente da Igreja Anglicana como prova; o de 2015 premiou a opção que lia o anglicanismo como um corte na influência de Roma, política e financeira, na Inglaterra; o de 2022 deu como Certos “o rei era o chefe supremo da Igreja Anglicana” e “o rei rompeu com o papa e fundou a Igreja Anglicana”. Três provas, uma tese. O mesmo processo, com nomes diferentes, aconteceu na Suécia de Gustavo Vasa (1527) e na Dinamarca (1536), onde a Reforma foi decretada pelo rei e os bens da Igreja financiaram o Estado. E, repare, aconteceu também em países que ficaram católicos: Espanha e Portugal obtiveram do papa o padroado, o direito de nomear os bispos e de administrar a Igreja no ultramar; a França, pela Concordata de Bolonha (1516), o direito do rei de nomear bispos e abades. Reforma ou não, os reis do século XVI ficaram com a Igreja.
França: huguenotes, São Bartolomeu, Nantes e a revogação
A França não rompeu com Roma e nem por isso escapou: foi o país das guerras de religião mais longas. O calvinismo entrou pelas cidades e pela nobreza a partir dos anos 1550; em 1562 havia talvez dois milhões de “huguenotes” (o apelido é de origem incerta), um décimo da população, organizados em mais de mil igrejas e com chefes militares entre os grandes do reino. Oito guerras entre 1562 e 1598 misturaram fé, clientela nobiliárquica e disputa pela coroa fraca dos últimos Valois.
O episódio-símbolo é o massacre de São Bartolomeu. Em agosto de 1572, a nobreza huguenote estava em Paris para o casamento de Henrique de Navarra, protestante, com a irmã do rei, pensado como gesto de paz. Na madrugada de 24 de agosto, depois de um atentado fracassado contra o almirante Coligny, chefe huguenote, o rei Carlos IX e a rainha-mãe Catarina de Médici autorizaram a eliminação dos chefes protestantes; a milícia e a população católica de Paris transformaram a ordem em massacre geral, que se espalhou por outras cidades durante semanas. As estimativas vão de dois a três mil mortos em Paris e de cinco a dez mil no reino; o papa Gregório XIII mandou cantar um Te Deum e cunhar uma medalha. O massacre não acabou com os huguenotes; radicalizou-os, e produziu a literatura política dos “monarcômacos”, que defendia o direito de resistência ao rei tirano.
A saída veio quando Henrique de Navarra, herdeiro do trono, se converteu ao catolicismo (1593) para poder reinar como Henrique IV e, em 1598, assinou o Édito de Nantes: liberdade de consciência em todo o reino, liberdade de culto nos lugares em que já existia, acesso dos protestantes aos cargos, tribunais mistos e cerca de 150 praças fortes de segurança. Era tolerância como pacificação, concedida pelo rei e revogável por ele; não era direito. Luís XIV o provou: depois de décadas de restrições e das “dragonadas” (alojamento forçado de soldados em casas protestantes para forçar conversões), revogou o édito em 1685 (Édito de Fontainebleau). Perto de 200 mil huguenotes emigraram para os Países Baixos, a Inglaterra, a Prússia e as colônias, levando ofícios e capitais; é um dos exemplos que Trevor-Roper usa contra Weber.
Roma responde: Trento, jesuítas, Inquisição, Index e barroco
A resposta católica veio tarde (o concílio que Lutero pedira em 1518 só abriu em 1545) e veio em duas frentes que convém manter separadas, porque a prova as embaralha de propósito.
A frente da renovação: Trento. O Concílio de Trento reuniu-se em três períodos (1545–1547, 1551–1552, 1562–1563), em cidade imperial de língua italiana, à margem das guerras. Em doutrina, ele recusou cada tese protestante com uma definição precisa: a Escritura e a Tradição como fontes da fé, a Vulgata latina como texto autêntico, a justificação pela graça com cooperação do fiel e mérito das obras, os sete sacramentos, a transubstanciação, a missa como sacrifício, o celibato, o purgatório, o culto dos santos, as relíquias e as indulgências (condenados os abusos). Em disciplina, atacou o que alimentara a Reforma: obrigou os bispos a residir na diocese e a visitá-la, proibiu o acúmulo de benefícios, criou os seminários para formar um clero instruído, regulou os casamentos (presença do pároco e de testemunhas, registro em livro) e, no decreto de dezembro de 1563 sobre as imagens, afirmou que pinturas e esculturas sagradas instruem e confirmam o povo na fé, desde que vigiadas pelos bispos. A Profissão de Fé Tridentina (1564) e o Catecismo Romano (1566) fixaram o resultado. O catolicismo que chegou ao Brasil colonial, com padre residente, livro de batismos, confissão anual e santos nas paredes, é o de Trento.
A frente da ofensiva: a Companhia de Jesus. Inácio de Loyola, fidalgo basco ferido numa batalha em 1521, convertido na convalescença, reuniu em Paris um grupo de companheiros que fez votos em 1534; o papa Paulo III aprovou a Companhia em 1540. Os jesuítas acrescentaram aos votos comuns um quarto, de obediência ao papa “em matéria de missões”, e se organizaram para o mundo e não para o claustro: sem hábito próprio nem coro obrigatório, com formação longa e os Exercícios Espirituais como método. Em três frentes mudaram a Europa e as Américas: os colégios (centenas até 1600, gratuitos para os alunos, formando as elites católicas, e também muitos dos futuros críticos da Igreja), as missões (na Ásia com Francisco Xavier; na América portuguesa desde 1549, quando Manuel da Nóbrega desembarcou na Bahia com o primeiro governador-geral) e a controvérsia: Pedro Canísio escreveu o catecismo católico mais impresso do século, e os jesuítas reconquistaram a Polônia e parte do sul da Alemanha. O distrator D do tipo C de 2015 dizia que a reação jesuíta se centrou “na ação militar, e não doutrinária”; é o avesso. A metáfora militar da Companhia (Inácio era soldado, a bula de aprovação fala em “milícia”) é de disciplina interna, não de exército.
A frente da repressão: Inquisição e Index. Em 1542, Paulo III reorganizou a Inquisição romana (a Congregação do Santo Ofício), tribunal central para julgar heresia na Itália, independente dos bispos. Em 1559, Paulo IV publicou o primeiro Index dos livros proibidos da Igreja universal, tão severo que incluía toda a obra de Erasmo e Bíblias em vernáculo; Trento o reviu em 1564. Observe o objeto proibido: ao listar impressos, Roma admitia que o campo de batalha era a tipografia. O Index durou até 1966. A Inquisição romana queimou Giordano Bruno (1600) e condenou Galileu (1633), e é essa a Inquisição que a maioria dos itens sobre ciência menciona. Não a confunda com as Inquisições ibéricas, mais antigas e mais ligadas aos reis, que tratamos na seção seguinte.
A frente das imagens: o barroco. O decreto de 1563 autorizou uma arte que ensina e comove: igrejas como teatros, santos em êxtase, altares dourados, música que arrebata. O barroco é a pedagogia visual de Trento para um povo que não lia, e o ENEM de 2021 cobrou exatamente isso: o barroco como resposta às contestações ao “domínio espiritual e terreno” do papado. Ele atravessou o Atlântico com a colonização e está em Ouro Preto, em Salvador, em Pirenópolis.

Leitura de fonte 3: dois decretos de Trento, lidos contra o grão
O documento. Da sessão XXV, dezembro de 1563, em tradução livre: sobre as imagens, “pelas histórias dos mistérios de nossa redenção, expressas em pinturas e outras representações, o povo é instruído e confirmado nos artigos da fé”; e sobre as indulgências, “o sagrado Concílio deseja que se corrijam com moderação os abusos que nelas se introduziram, por ocasião dos quais o nome insigne das indulgências é blasfemado pelos hereges; e decreta que se abolham inteiramente os ganhos desonestos obtidos para alcançá-las”.
Observar. Dois decretos, dois gestos. O primeiro afirma uma prática (as imagens) e lhe dá uma função pedagógica. O segundo mantém uma doutrina (as indulgências) e condena o modo de obtê-las. Em nenhum dos dois o concílio dá razão a Lutero; em ambos ele responde a Lutero.
Hipotetizar. O texto é normativo e defensivo: diz como a Igreja deve agir dali em diante e, de passagem, reconhece que havia abusos (“os ganhos desonestos”). A hipótese é que o concílio aceitou a crítica dos fatos e recusou a crítica da doutrina: o mesmo que Lutero fizera em 1517, só que quarenta e seis anos depois e do outro lado.
Contextualizar. Dezembro de 1563 é o fim do terceiro período do concílio, sob pressão de encerrar antes da morte do papa Pio IV. Os cantões reformados e a Inglaterra já tinham retirado as imagens das igrejas; a Paz de Augsburgo tinha oito anos; a França entrava na segunda guerra de religião. Os decretos não são pensados para convencer protestantes, e sim para disciplinar católicos: bispos que deviam vigiar as imagens “indecentes”, pregadores que deviam parar de vender.
Corroborar. Em 1567, Pio V aboliu de vez as indulgências que envolvessem pagamento, o que confirma que o abuso era real. O decreto das imagens produziu, nas décadas seguintes, o barroco e os tratados de arte sacra que diziam ao pintor o que podia mostrar; produziu também o julgamento de Veronese pela Inquisição de Veneza (1573), por pintar bufões e alemães numa Última Ceia.
E as outras leituras? “Trento foi só reação”: cai, porque os seminários, a residência dos bispos e o registro paroquial são reformas internas que mudaram a vida de cada paróquia. “Trento deu razão a Lutero nos abusos”: meia verdade, porque o concílio admitiu os abusos sem citar Lutero e manteve a doutrina que ele negava. “A Igreja proibiu as indulgências”: cai pelo texto; o que acabou foi a venda. O que a fonte não diz é o que os fiéis sentiram diante das imagens novas; para isso servem os processos, as confrarias e os ex-votos.
A Inquisição ibérica chega ao Brasil: visitações e cristãos-novos
A Inquisição que o Brasil conheceu não é a romana de 1542: é a portuguesa, criada em 1536 a pedido de D. João III, à imagem da espanhola (1478), e desde o começo um tribunal do rei tanto quanto da Igreja. O alvo original não eram protestantes, que quase não havia, e sim os cristãos-novos: descendentes dos judeus que, em 1497, D. Manuel batizara à força em vez de expulsar, e que a sociedade continuava a tratar como suspeitos de “judaizar” em segredo. Muitos deles emigraram para a colônia, onde o Santo Ofício demorou a chegar.
Nunca houve tribunal da Inquisição no Brasil, ao contrário da América espanhola (Lima e México, 1570–1571; Cartagena, 1610). A colônia dependia do tribunal de Lisboa, que agia por visitações: um inquisidor desembarcava, publicava o edital da fé (que obrigava a denunciar e a se autodenunciar em trinta dias) e recolhia confissões e denúncias, remetendo os presos a Lisboa. A primeira, de Heitor Furtado de Mendonça, percorreu Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba entre 1591 e 1595; a segunda, de Marcos Teixeira, a Bahia em 1618–1620; a última, de Geraldo José de Abranches, o Grão-Pará entre 1763 e 1769. Entre uma e outra, a vigilância ficava com os familiares (leigos auxiliares) e os comissários (padres delegados), além da rede de vizinhos. O historiador Luiz Mott contou 235 moradores da Bahia processados entre 1546 e 1821: 96 por judaísmo, 34 por bigamia, 33 por blasfêmia, 18 por sodomia, 12 por gentilismo (práticas indígenas), 10 por luteranismo, 10 por feitiçaria. Os números ensinam duas coisas: o alvo principal continuou sendo o cristão-novo, e a Inquisição colonial foi menos uma máquina contra hereges doutrinários do que um tribunal de costumes, que investigava o casamento, o sexo e as práticas mágicas da colônia. O item do ENEM de 2009 sobre Antônia Nóbrega, denunciada na Bahia por dar ao marido “pós de osso de finado” no vinho para ser bem-casada, é um desses processos; e o auto de fé de Lima no ENEM de 2022, com a procissão regulada ao pormenor, mostra a Inquisição como rito que ensina condutas.
As vítimas têm nome. Branca Dias, cristã-nova de Pernambuco, acusada de manter uma “esnoga” (sinagoga doméstica) e uma escola para meninas no engenho de Camaragibe, morreu antes de ser presa, mas suas filhas e netas foram processadas; o historiador Angelo Assis mostrou como as mulheres cristãs-novas, excluídas da sinagoga pública que não existia, viraram guardiãs da religião proibida em casa. Bento Teixeira, autor do primeiro poema impresso sobre o Brasil (Prosopopeia, 1601), foi preso em Pernambuco durante a primeira visitação (1595) e saiu num auto de fé em Lisboa. Em 1636, no Recife holandês e calvinista, abriu-se a sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira das Américas; quando os portugueses retomaram a cidade em 1654, os judeus partiram, e parte deles fundou a comunidade de Nova Amsterdã, a futura Nova York. A Inquisição portuguesa foi extinta em 1821, e o Brasil independente, embora católico por constituição (1824), tolerou os cultos protestantes em casa; a separação entre Igreja e Estado só veio com a República, em 1890.
Reforma e poder dos reis: de Augsburgo a Vestfália
Volte à cena de abertura: oficiais do rei inventariando um mosteiro. A pergunta que organiza esta seção é a do título da página: o que a Reforma fez com o poder dos reis?
Fez três coisas. Deu-lhes a Igreja. Onde o príncipe aderiu, ele virou chefe da igreja territorial, com o patrimônio, a nomeação e a escola; onde não aderiu, usou a ameaça da Reforma para arrancar de Roma o que queria (padroado, concordatas, Inquisição controlada pela Coroa). Deu-lhes uma arma contra o imperador e contra os súditos. No Sacro Império, a Reforma foi também o modo de os príncipes resistirem a Carlos V, que sonhava com uma monarquia universal; e, dentro de cada território, a confissão única, com catecismo e visita pastoral, foi um instrumento de disciplina social que Estado e igreja operavam juntos. É isso que os historiadores alemães Wolfgang Reinhard e Heinz Schilling chamaram de confessionalização: entre 1550 e 1650, católicos, luteranos e calvinistas construíram, cada um à sua maneira, o mesmo tipo de Estado confessional, e esse processo foi uma das forças da modernização política. E lhes deu a guerra. Augsburgo (1555) tinha deixado os calvinistas de fora e congelado o mapa; nas décadas seguintes o calvinismo avançou (Palatinado, Países Baixos, Boêmia) e os jesuítas recatolicizaram (Baviera, Áustria). Em 23 de maio de 1618, nobres protestantes da Boêmia atiraram dois governadores do imperador pela janela do castelo de Praga; a Defenestração abriu a Guerra dos Trinta Anos.
A guerra começou confessional e terminou dinástica. A fase boêmia e a dinamarquesa (1618–1629) foram vencidas pelo imperador católico Fernando II, que em 1629 mandou devolver todos os bens eclesiásticos secularizados desde 1552, o Édito de Restituição. A fase sueca (1630–1635) trouxe o rei luterano Gustavo Adolfo, pago em parte pela França, até a Baviera; Magdeburgo foi saqueada e incendiada em 1631, com dezenas de milhares de mortos. A fase francesa (1635–1648) explicitou o que já estava claro: o cardeal Richelieu, ministro do rei católico da França, entrou na guerra ao lado dos protestantes para impedir que os Habsburgo cercassem o reino. A razão de Estado passara na frente da fé. Nas regiões mais atingidas do Império, a população caiu em um terço ou mais; para o conjunto, as estimativas correntes vão de 15 a 20 por cento, sobretudo por fome e peste.
A Paz de Vestfália (tratados de Münster e Osnabrück, 1648) fechou o ciclo aberto em 1517 em três cláusulas que a prova gosta. O princípio de Augsburgo foi confirmado e estendido aos calvinistas, com 1624 como “ano normal” para decidir a religião de cada território. Os príncipes do Império ganharam o direito de fazer alianças externas, o que esvaziou de vez o poder do imperador: o Sacro Império virou uma confederação de trezentos Estados soberanos. E as Províncias Unidas (Holanda) e a Confederação Suíça foram reconhecidas como independentes. O papa Inocêncio X protestou contra a paz numa bula; ninguém lhe deu atenção. A partir dali, as relações entre Estados se fariam entre soberanos, sem árbitro religioso. Não confunda esse resultado com tolerância: dentro de cada território, a confissão oficial continuou obrigatória por mais um século, e a França revogou Nantes em 1685.

Quem mais estava lá: mulheres, judeus, indígenas diante da catequese
A narrativa de reformadores e reis deixa de fora a maioria das pessoas que viveram a Reforma. Três grupos aparecem nas fontes, e a prova tem recorrido a eles.
As mulheres. A Reforma fechou os conventos, que eram para muitas mulheres o único espaço de estudo e de autoridade fora do casamento, e exaltou o lar do pastor como modelo: Katharina von Bora, que fugiu do convento num carroção de arenques e casou com Lutero em 1525, administrou a casa, a cervejaria e as terras da família e foi chamada por ele de “senhor Käthe”. Algumas escreveram: Argula von Grumbach, nobre bávara, publicou em 1523 uma carta aberta em defesa de um estudante luterano, que teve catorze edições em dois meses, e foi silenciada pelo marido e pela corte. Do lado católico, Teresa de Ávila, neta de um cristão-novo, reformou a ordem do Carmelo (1562), fundou dezessete conventos, escreveu sua autobiografia por ordem dos confessores e foi investigada pela Inquisição; em 1970 tornou-se a primeira mulher doutora da Igreja. E a caça às bruxas, que atingiu o auge entre 1560 e 1630, em territórios católicos e protestantes, com cerca de 45 mil execuções na Europa e três quartos de mulheres entre as vítimas (Brian Levack), foi um fenômeno da era das confissões, não da Idade Média: tribunais locais e seculares condenaram muito mais que as Inquisições, e a imprensa espalhou o manual dos perseguidores.
Os judeus. Nenhuma confissão do século XVI ofereceu aos judeus o que hoje chamamos de tolerância. Lutero começou esperando convertê-los e terminou (1543) pedindo que se queimassem as sinagogas; os cantões reformados os excluíam; os papas da Contrarreforma os fecharam em guetos (Roma, 1555) e queimaram o Talmude (1553). Na Península Ibérica, a conversão forçada criou o cristão-novo, suspeito permanente, e a Inquisição viveu dele por dois séculos. Onde judeus e cristãos-novos encontraram abrigo foi nos interstícios: Amsterdã calvinista, o Recife holandês, Livorno dos Médici.
Os indígenas diante da catequese. A Contrarreforma chegou à América como missão, e a missão foi, ao mesmo tempo, proteção e destruição. Os jesuítas de Nóbrega e Anchieta reuniram os tupi em aldeamentos, aprenderam e gramaticalizaram a língua (a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, de Anchieta, é de 1595), escreveram autos e cantos em tupi, defenderam os índios aldeados contra a escravização pelos colonos e, ao mesmo tempo, proibiram a antropofagia, a poligamia e os pajés, separaram crianças dos pais e usaram o açoite. Os indígenas não foram só objeto: aceitaram, negociaram, fugiram, misturaram. A “santidade de Jaguaripe” (anos 1580), movimento liderado pelo índio Antônio, que se dizia papa e misturava o culto de Tupã com cruzes e rosários, foi perseguida pela primeira visitação do Santo Ofício como heresia: a Inquisição e a missão, que o texto-base do ENEM de 2023 diz que “nunca foram muito amigas”, encontraram-se ali. Esse fio continua nas páginas sobre o Brasil colonial; aqui importa registrar que a catequese é a Contrarreforma vista do outro lado do oceano, e que ela tem sujeitos dos dois lados.
Onde os historiadores discordam
Quatro debates estão vivos. A imprensa fez a Reforma? Eisenstein (1979) diz que sim, como condição estrutural; os críticos (entre eles Andrew Pettegree, que estudou os panfletos um a um) respondem que a prensa amplificou um movimento que já tinha pregadores, príncipes e descontentes, e que serviu igualmente à Contrarreforma. A ética protestante criou o capitalismo? Weber (1904–1905) propôs uma afinidade; Tawney (1926) inverteu a seta; Trevor-Roper (1963) explicou os empresários pela emigração e pela tolerância; Braudel situou o capitalismo nas cidades católicas da Itália. Contrarreforma ou Reforma católica? Hubert Jedin, em 1946, propôs usar os dois termos; Jean Delumeau (O catolicismo entre Lutero e Voltaire, 1971) foi além: a cristianização real das massas rurais europeias, católicas ou protestantes, é obra dos séculos XVI e XVII, e não da Idade Média; Reinhard e Schilling (anos 1980) propuseram “confessionalização” para tratar as três confissões como variantes de um mesmo processo de disciplina e Estado. Uma Reforma ou várias? Diarmaid MacCulloch (A Reforma, 2003) fala em reformas no plural e inclui a católica entre elas; Peter Blickle insistiu na “Reforma comunal” das cidades e aldeias, de baixo para cima, antes que os príncipes a tomassem. Nenhum item de prova pede que você escolha um lado; todos esperam que saiba que há lados.
Anacronismos e erros clássicos sobre a Reforma
Doze frases que custam um ponto
- “As reformas religiosas do século XVI partiram da Igreja Católica.” A iniciativa de dentro da hierarquia foi a Contrarreforma; a Reforma partiu de fora e foi excomungada (PAS 2022, Errado).
- “A Igreja concordava com as teses de Lutero.” Bula de condenação em 1520, excomunhão em 1521 (PAS 2022, Errado).
- “Calvino liderou a Contrarreforma.” Calvino foi reformador; a Contrarreforma é de Loyola, Trento e Paulo IV (PAS 2022, distrator).
- “A Reforma pregava a pobreza para agradar a Deus.” Lutero negou que obras, inclusive a pobreza, salvem; Calvino viu na prosperidade um possível sinal de eleição (PAS 2022, distrator).
- “A Reforma se consolidou primeiro no Leste Europeu, na Rússia.” O Leste ortodoxo não estava sob Roma; a Reforma é do Império, da Escandinávia, da Suíça, da Inglaterra (PAS 2022, distrator).
- “Os camponeses não apoiaram a Reforma, movimento urbano.” Apoiaram e a radicalizaram em 1524–1525 (PAS 2022, Errado).
- “Lutero lutou ao lado dos camponeses contra os príncipes.” Escreveu contra os camponeses e ficou com os príncipes (PAS 2015, distrator).
- “A Reforma começou na Suíça com Calvino, líder tolerante.” Começou no Império com Lutero; Genebra queimou Servet (PAS 2015, distrator).
- “A Companhia de Jesus reagiu pela ação militar, não doutrinária.” Colégios, catecismos, missões (PAS 2015, distrator).
- “A Inquisição é instituição medieval que a Idade Moderna superou.” As Inquisições espanhola (1478), portuguesa (1536) e romana (1542) são modernas, e a caça às bruxas é dos séculos XVI–XVII.
- “A Reforma instaurou a liberdade religiosa.” Instaurou igrejas de Estado; a tolerância de Nantes foi concessão revogável, e a liberdade de culto é bandeira do fim do século XVIII.
- “Sem imprensa, Renascimento e Reforma tiveram pouco impacto.” A imprensa existia desde c. 1450 e foi o motor da difusão (UnB 2024, Errado).
Repare no padrão: oito das doze trocam o agente ou o lado (quem reformou, quem reagiu, quem apoiou); as outras quatro erram a data ou o lugar. Duas perguntas resolvem quase tudo: esse nome está do lado certo? Esse conceito (tolerância, liberdade, Idade Média) cabe nessa data?
Como a prova cobra a Reforma
O PAS tem um histórico curto e concentrado. Em 2010, um item longo e Certo apresentou a Reforma como fenômeno ao mesmo tempo religioso e político, cuja vertente inglesa negou a primazia da Igreja sobre o poder secular, com Henrique VIII como prova; o molde é o do item professoral correto, em que cada cláusula confere. Em 2015, um tipo C com quatro teses completas: três distratores por troca de lugar e agente (Calvino na Suíça como início; Lutero com os camponeses; jesuítas militares) e uma opção certa que lia o anglicanismo como perda de poder e de renda para Roma. Em 2022, o bloco inteiro de História (itens 43 a 49) foi dedicado ao assunto, pendurado num texto-base de duas frases: seis itens curtos de julgamento, em que os Certos eram óbvios (Lutero expoente; rei chefe da Igreja Anglicana; rei rompeu com o papa) e os Errados trocavam o agente (iniciativa da Igreja) ou invertiam a relação (Igreja concordava; camponeses não apoiaram), mais um tipo C em que a opção certa era a definição de Contrarreforma. A lição tática desse bloco é que item curto e “óbvio” com gabarito Certo existe; não invente sutileza onde a banca não pôs.
O ENEM prefere a fonte e a camada social. Ginzburg e o moleiro Menocchio (2020): imprensa e Reforma como condições para um camponês ler e pensar por conta própria, e a Inquisição como quem o cala. Antunes e a ética positiva do trabalho (2020): a Reforma na origem da valorização do trabalho no mundo. O barroco como propaganda da Contrarreforma (2021). O auto de fé de Lima como rito que fixa condutas (2022). Vieira, os jesuítas e a Inquisição como instituições em desacordo sobre a pureza da fé (2023). A feitiçaria amorosa denunciada na Bahia (2009). Em todos, o comando pede o que o texto permite concluir; o distrator pega uma palavra vistosa do texto e a põe numa relação que o texto não afirma. Nos dois exames, as perguntas decisivas são as mesmas: quem é o agente, de que lado está, em que data, e o que o texto-base de fato diz.
Liberdade religiosa e Estado laico: o que a Constituição de 1988 fez com este assunto
A Constituição brasileira garante, no artigo 5.º, inciso VI, que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos”; e, no artigo 19, inciso I, proíbe a União, os Estados e os municípios de “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”. As duas regras são o contrário exato do mundo de Augsburgo e de Vestfália, em que a religião era decidida pelo governante e o dissidente emigrava ou se calava. O caminho até aqui passou pela separação de 1890, pela Constituição de 1891 e pela experiência de um país em que católicos, evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos e sem religião convivem. Quando um item disser que o Estado laico “nasceu com a Reforma”, lembre que ela criou igrejas de Estado; o que nasceu com ela foi a pergunta, e a resposta levou mais de dois séculos.
O essencial em meia página
Antes. Igreja desgastada por Avinhão, cisma e simonia; heresias de Wycliffe e Hus vencidas, não apagadas; Erasmo e o retorno ao texto. Gutenberg (c. 1450): 250 cidades com prensa e 20 milhões de exemplares até 1500; Lutero, um quinto do impresso em alemão (1500–1530).
Lutero. 1517, 95 teses contra o abuso das indulgências, em latim, para debate; 1520, três tratados e bula; 1521, Worms, fora da lei, Wartburg, Bíblia em alemão. Doutrina: só a fé, só a graça, só a Escritura, sacerdócio universal, dois sacramentos, príncipe protetor da igreja. 1525: contra os camponeses, com os príncipes. 1529: “protestantes”. 1555: Augsburgo, o governante escolhe a confissão do território.
As outras reformas. Zwinglio (Zurique; a ceia como memorial; Marburgo 1529). Calvino (Genebra, 1541; predestinação; consistório; Servet 1553; huguenotes, puritanos, presbiterianos). Anabatistas (batismo adulto; Münster 1534–1535; menonitas). Henrique VIII (Ato de Supremacia 1534; mosteiros 1536–1540; igreja nacional sem mudar a doutrina; Isabel I fixa o anglicanismo).
Weber. Tese (1904–1905), não lei: afinidade entre a ascese intramundana calvinista e o espírito do capitalismo; contestada por Tawney, Trevor-Roper, Braudel.
Roma responde. Trento (1545–1563): doutrina reafirmada, seminários, residência, registros, imagens. Jesuítas (1540): colégios, missões, controvérsia; Nóbrega no Brasil em 1549. Inquisição romana (1542) e Index (1559). Barroco como catequese visual. Dois rótulos, Contrarreforma e Reforma católica; um terceiro, confessionalização.
No Brasil. Inquisição portuguesa (1536) sem tribunal na colônia: visitações (1591–1595, 1618–1620, 1763–1769), familiares e comissários; alvo principal, os cristãos-novos; tribunal de costumes (bigamia, blasfêmia, feitiçaria, gentilismo). Branca Dias; sinagoga do Recife (1636).
Os reis. Igreja nacional = patrimônio, nomeação e disciplina para o rei; padroado e concordatas onde não houve ruptura. Guerras de religião na França (1562–1598), São Bartolomeu (1572), Nantes (1598), revogação (1685). Trinta Anos (1618–1648) e Vestfália: calvinistas incluídos, soberania dos príncipes, razão de Estado acima da fé. Tolerância era concessão; liberdade religiosa e Estado laico são de outra época (CF/88, art. 5.º, VI, e art. 19, I).
A decisão. Confira o lado (quem reformou, quem reagiu); confira o lugar (sob Roma ou não); confira a data (tolerância, Inquisição moderna, “protestante” em 1529); julgue o que vem depois do “porém”; e leia o texto-base pelo que ele afirma, não pela palavra vistosa.