Em 10 de novembro de 2021, um avião de carga decolou de Paris com 26 caixotes e pousou em Cotonou, no Benim. Dentro deles iam tronos, portas esculpidas, estátuas de reis com cabeça de tubarão e de leão: o tesouro do palácio de Abomey, capital do reino do Daomé, tomado pelas tropas francesas do general Dodds em novembro de 1892 e exposto por mais de um século num museu da Europa. Cada peça é uma pergunta: como, em pouco mais de uma geração, exércitos europeus chegaram a praticamente todos os reinos de um continente que, em 1870, ainda governava mais de nove décimos do próprio território? A resposta não cabe numa palavra, mas tem um nome que começou a circular justamente nos anos 1890, quando o processo já estava quase concluído: imperialismo.
A mesma pergunta vale para o outro lado do planeta. Em 1842, o maior império da Ásia assinou um tratado que entregava uma ilha, abria cinco portos e pagava uma indenização a um país que ficava a seis meses de navegação. Em 1858, a Índia inteira passou a ser governada diretamente de Londres. Em 1905, uma frota japonesa afundou uma frota russa no estreito de Tsushima e o Japão, que meio século antes ainda proibia a entrada de estrangeiros, ganhou colônias próprias. Em 1898, os Estados Unidos, nascidos de uma guerra contra um império, tomaram Cuba, Porto Rico, Guam e as Filipinas da Espanha. Esta página explica o que ligou esses episódios, por que eles se concentraram entre 1870 e 1914, o que custaram a quem foi dominado, como se resistiu e o que sobrou disso tudo no mapa, nos museus e no noticiário. O que não cabe aqui tem página própria: a fábrica e a Segunda Revolução Industrial estão em Revolução Industrial; a divisão do mundo em centro e periferia e o lugar do Brasil nela, em Capitalismo e industrialização; a guerra de 1914, a descolonização e a Guerra Fria, nas páginas do século XX.
“Imperialismo” é uma palavra que nasceu brigando
Quem usa a palavra hoje raramente percebe que ela foi, por décadas, uma acusação. Na França dos anos 1830, “imperialista” era o partidário de um imperador, Napoleão. Na Inglaterra dos anos 1870, o jornal liberal chamava de “imperialismo” a política do primeiro-ministro Disraeli, que comprou ações do canal de Suez em 1875 e fez da rainha Vitória imperatriz da Índia em 1876: era um insulto, sinônimo de vaidade militar. Só na virada para o século XX o termo passou a nomear um fenômeno, e isso aconteceu porque dois livros o transformaram em teoria. Em 1902, o economista inglês John A. Hobson, que cobrira a Guerra dos Bôeres como jornalista, publicou Imperialism: A Study: para ele, a expansão colonial era o sintoma de uma doença econômica, o subconsumo. Os ricos das sociedades industriais poupavam mais do que o mercado interno podia absorver, e esse capital excedente procurava, fora da Europa, taxas de lucro que a indústria doméstica já não dava; a conquista de territórios servia para proteger esses investimentos, com o Estado e o exército pagando a conta e um punhado de financistas colhendo o resultado. Quinze anos depois, em 1917, Lenin reaproveitou Hobson em O imperialismo, etapa superior do capitalismo e deu à palavra o sentido que ela carrega na tradição marxista: não uma política escolhida, mas uma fase do sistema, marcada por cinco traços, a concentração da produção em monopólios, a fusão do capital bancário com o industrial, a exportação de capitais em vez de mercadorias, a divisão do mundo entre cartéis e a partilha territorial completa do planeta entre as grandes potências. Para Lenin, a guerra que a Europa estava travando naquele momento era a disputa pela repartilha.
Os historiadores que vieram depois não deixaram a teoria em paz. Em 1953, John Gallagher e Ronald Robinson publicaram um artigo curto que mudou o debate, “O imperialismo do livre-comércio”: a Grã-Bretanha, mostraram, dominava a economia da América Latina, da China e do Império Otomano desde os anos 1820 sem precisar de bandeira, por meio de tratados comerciais, empréstimos, ferrovias e canhoneiras. O “império informal” era a regra; a anexação, o recurso de quando o controle indireto falhava (“comércio com controle informal se possível, comércio com domínio direto se necessário”). A partilha da África, nessa leitura, não foi uma mudança de natureza do capitalismo, mas uma mudança de método, forçada pela entrada de concorrentes novos, a Alemanha e a França, e por crises na periferia (a falência do Egito em 1876, a ocupação de 1882) que obrigaram Londres a ocupar para não perder. Eric Hobsbawm, em A era dos impérios (1987), deu ao período 1875–1914 o nome que o ensino médio brasileiro adotou e insistiu num ponto: o novo não era a existência de colônias, antigas como Portugal e Espanha, mas a velocidade e a totalidade da partilha, feita por Estados industriais em competição. E Edward Said, em Orientalismo (1978) e Cultura e imperialismo (1993), olhou para o que a teoria econômica deixava de fora: o imperialismo foi também uma maneira de olhar, um conjunto de saberes, romances, mapas e museus que fabricaram um “Oriente” atrasado e um “Ocidente” com o dever de governá-lo.
Quatro palavras que a prova não deixa confundir
Colonialismo é o domínio político direto de um território por um Estado estrangeiro, com administração, exército e leis próprias da metrópole; existe desde o século XVI (a América espanhola e portuguesa) e não é exclusivo de nenhuma época. Imperialismo é a política, ou a fase, em que Estados industriais estendem seu poder econômico, político e militar sobre outros povos, por anexação ou por controle indireto; no uso escolar, nomeia o período 1870–1914. Neocolonialismo tem dois sentidos que a banca usa sem avisar: nos livros didáticos brasileiros, é o nome da colonização do século XIX (África e Ásia) em oposição ao colonialismo “antigo” das Américas; na ciência política, desde o livro de Kwame Nkrumah de 1965, é o controle econômico de Estados formalmente independentes, pela dívida, pelas empresas e pela moeda. Era dos Impérios é a expressão de Hobsbawm para 1875–1914. E três formas de domínio que apareciam nos mapas da época: a colônia (soberania plena da metrópole, como a Argélia francesa), o protetorado (um governante local mantido sob “proteção” e tutela, como o Egito britânico depois de 1882 ou Marrocos depois de 1912) e a esfera de influência (uma região em que uma potência tem exclusividade econômica sem governar, como o vale do Yangtzé para a Grã-Bretanha na China dos anos 1890).

O quadro acima resume a distinção que mais derruba candidato: o colonialismo moderno (séculos XVI a XVIII) foi obra de monarquias mercantilistas sobre a América, movido por metais, açúcar e tráfico, com o “pacto colonial” como instrumento e a conversão religiosa como justificativa; o imperialismo do século XIX foi obra de Estados industriais e de suas empresas sobre a África e a Ásia, movido por matérias-primas, mercados e capital, com tratados, companhias concessionárias e exércitos de fuzil de repetição como instrumentos e a “missão civilizadora” como justificativa. Colar atributos de um sobre o outro (dizer, por exemplo, que a Conferência de Berlim distribuiu “capitanias”, ou que o pacto colonial vigorava na África de 1890) é anacronismo.
Quarenta anos em uma linha: o que aconteceu, e em que ordem

Leia a linha do tempo por blocos, não por datas soltas. Antes de 1870 há dois episódios que anunciam o método: a Primeira Guerra do Ópio (1839–1842), em que uma esquadra a vapor obrigou a China a abrir os portos, e a Revolta dos Sipaios (1857–1858), que acabou com a Companhia das Índias Orientais e pôs a Índia sob a Coroa britânica. Entre 1869 e 1885 estão as condições e o sinal de largada: o canal de Suez (1869), a crise econômica que começa em 1873, a ocupação britânica do Egito (1882), a conquista francesa da Tunísia (1881) e do Tonkin (1883–1885), a corrida de Leopoldo II e de Portugal pelo Congo e a Conferência de Berlim (novembro de 1884 a fevereiro de 1885), que fixou as regras do jogo. Entre 1885 e 1900, a ocupação de fato: o Estado Livre do Congo, a conquista alemã do Sudoeste e do Leste africanos, a vitória etíope em Adwa (1896), a batalha de Omdurman e o incidente de Fachoda (1898), a Guerra Hispano-Americana (1898) e a Guerra dos Bôeres (1899–1902); na Ásia, a Guerra Sino-Japonesa (1894–1895), a corrida pelas concessões na China (1898) e a Revolta dos Boxers (1899–1901). Entre 1900 e 1914, a consolidação e as primeiras fissuras: o genocídio dos herero e nama (1904–1908), a Guerra Russo-Japonesa (1904–1905), a campanha internacional contra Leopoldo que lhe tirou o Congo (1908), as crises marroquinas (1905 e 1911) em que Alemanha e França quase foram à guerra por uma colônia, e a inauguração do canal do Panamá (1914), no mesmo ano em que o sistema de rivalidades que a partilha alimentara explodiu na Europa.
Por que naquelas quatro décadas: um motor com três engrenagens
Nenhuma explicação com uma causa só sobrevive aos fatos, e a banca sabe disso. O que se pode fazer é separar as engrenagens e mostrar como elas se encaixaram por volta de 1880.
A engrenagem econômica. A segunda onda da industrialização (aço, química, eletricidade, motor a explosão) multiplicou a necessidade de matérias-primas que a Europa não produzia: borracha para pneus, correias e isolantes elétricos (o Congo e a Amazônia); cobre para fios (Katanga e Rodésia); estanho para latas (Malásia e Bolívia); óleo de palma para sabão e lubrificantes (golfo da Guiné); algodão (Índia e Egito), juta, cacau, café, chá; e, descobertos na África do Sul, diamantes (Kimberley, 1867) e ouro (Witwatersrand, 1886). Ao mesmo tempo, entre 1873 e 1896, a economia atlântica atravessou uma longa queda de preços e de lucros que os contemporâneos chamaram de Grande Depressão: fábricas produzindo mais do que vendiam, tarifas protecionistas de volta na Alemanha (1879), na França (1892) e nos Estados Unidos, e bancos com dinheiro parado. Colônias e zonas de influência pareciam resolver as três coisas de uma vez: mercado protegido para o excedente, fonte barata de insumos e destino para o capital, em ferrovias, portos, minas e empréstimos a governos (o Egito e o Império Otomano quebraram em 1875–1876 devendo a credores europeus, e a quebra virou pretexto para o controle das finanças e depois do território). Repare que isso não quer dizer que as colônias deram lucro ao conjunto da nação: Hobson já notava que a Grã-Bretanha investia muito mais nos Estados Unidos e na Argentina do que na África tropical, e que a conta militar da expansão era paga pelo contribuinte, enquanto o ganho ficava com poucos.
A engrenagem política. A Europa de 1871 tinha dois Estados novos e grandes, a Itália e a Alemanha, que chegaram tarde à repartição do mundo e queriam seu “lugar ao sol” (a expressão é do chanceler alemão Bülow, em 1897). A França derrotada em 1870 procurou nas colônias a compensação pela Alsácia-Lorena, o que o primeiro-ministro Jules Ferry defendeu abertamente. A Grã-Bretanha, que até 1870 se contentava com o império informal, passou a ocupar para impedir que os outros ocupassem: o Egito, em 1882, para garantir o canal de Suez e a rota da Índia, e dali o Sudão, Uganda e o Quênia, para proteger as nascentes do Nilo. Prestígio, bases navais para uma marinha a carvão (que precisava de depósitos de combustível a cada poucos milhares de quilômetros), eleitorados recém-ampliados que a imprensa barata aprendeu a entusiasmar com vitórias exóticas: a conquista virou política interna. A rivalidade explica por que a partilha foi tão rápida: cada ocupação provocava a seguinte, e a Conferência de Berlim existiu para que as potências não se matassem por causa da África, não para proteger a África.
A engrenagem técnica e ideológica. A superioridade material que tornou a conquista barata era nova: o vapor que subia rios (a canhoneira), o telégrafo que transmitia ordens de Londres a Calcutá em horas, o quinino profilático que, a partir dos anos 1850, reduziu a mortalidade dos europeus por malária na África tropical, o fuzil de repetição e, de 1884 em diante, a metralhadora Maxim, que disparava 600 tiros por minuto. Em Omdurman, no Sudão, em 2 de setembro de 1898, um exército anglo-egípcio com Maxims e artilharia matou cerca de 10 mil combatentes mahdistas e perdeu 48 homens; o jovem Winston Churchill, que estava lá, escreveu que não fora uma batalha, mas uma execução. E a tudo isso se somou uma justificativa que os próprios conquistadores acreditavam ser científica. A biologia de Darwin (1859) foi transposta para a sociedade por Herbert Spencer, que cunhou “sobrevivência dos mais aptos” (1864) e deu ao darwinismo social a ideia de que povos competem como espécies; a antropologia física media crânios e ordenava “raças” numa escala em que o europeu ocupava o topo (o Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, de Gobineau, é de 1853–1855); e a política traduziu isso em dever. Em 28 de julho de 1885, Jules Ferry disse à Câmara francesa que “as raças superiores têm um direito em relação às raças inferiores”, o dever de civilizá-las; em 1899, Rudyard Kipling chamou esse dever de “fardo do homem branco”, num poema que você vai ler adiante. Missionários, médicos, engenheiros e professores foram para as colônias sinceramente convencidos de que levavam o progresso, e muitos levaram escolas e vacinas; o que a ideologia fazia era tornar invisível a outra metade da conta, o trabalho forçado, o imposto, a terra tomada, a hierarquia racial escrita em lei.

Onde os historiadores discordam: o motor estava na Europa ou na periferia?
A teoria econômica de Hobson e Lenin tem um problema de datas: o grosso do capital exportado pela Grã-Bretanha entre 1870 e 1914 foi para países independentes ou de povoamento branco (Estados Unidos, Argentina, Canadá, Austrália), não para as colônias tropicais recém-conquistadas; e a Alemanha, que tinha o capitalismo mais concentrado da Europa, foi a potência colonial menos interessada em suas colônias. Ronald Robinson e John Gallagher (Africa and the Victorians, 1961) propuseram uma explicação estratégica: a partilha foi um subproduto da ocupação do Egito em 1882, feita para proteger a rota da Índia, e cada passo seguinte foi reação a crises locais, não plano. David Fieldhouse levou a ideia adiante na “teoria periférica”: a decisão de anexar nasceu com frequência de colapsos na periferia (um reino em guerra civil, uma companhia falida, um governante que deixou de pagar) que arrastaram metrópoles relutantes. Hobsbawm (1987) recusou separar economia e política: a corrida colonial só faz sentido num mundo em que meia dúzia de economias industriais competiam por tudo, e a bandeira era uma das moedas da competição. Peter Cain e Antony Hopkins (British Imperialism, 1993) deslocaram o foco da indústria para a City de Londres: um “capitalismo de cavalheiros”, financeiro e rentista, com interesses próprios na expansão. E a historiografia africana, consolidada no volume VII da História Geral da África da UNESCO (organizado por Albert Adu Boahen, 1985), insiste em outro deslocamento: olhar a partilha do lado de quem foi partilhado, com seus Estados, exércitos, diplomacias e escolhas, e não como um jogo entre europeus com a África por tabuleiro. Para a prova, a consequência é simples: uma afirmação que apresente a corrida colonial como resultado de um só fator (só o capital, só o prestígio, só a ideologia) está tomando partido numa disputa aberta, e a banca costuma punir a causa única.
A partilha da África: de um décimo a nove décimos em trinta anos

Em 1880, os europeus controlavam a Argélia (ocupada pela França desde 1830, ao preço de dezessete anos de guerra contra a resistência organizada por Abd el-Kader, rendido em 1847), a colônia do Cabo e Natal, no sul, algumas feitorias portuguesas em Angola e Moçambique, o Senegal francês e pontos da costa da Guiné. O interior era de Estados africanos: o califado de Sokoto, o reino do Daomé, o império de Samori Touré em formação, Buganda, o reino zulu, o Estado mahdista que estava para nascer no Sudão, a Etiópia de Menelik, dezenas de outros. Em 1914, só dois Estados do continente, a Etiópia e a Libéria, ainda tinham governo próprio. O mapa da direita tem sete cores: Grã-Bretanha (do Cairo ao Cabo, com o Egito, o Sudão, Uganda, Quênia, Rodésias, África do Sul, mais Nigéria, Costa do Ouro, Serra Leoa e Gâmbia no oeste), França (o Magrebe, o Saara e a África Ocidental e Equatorial, o maior bloco em área, boa parte dele deserto), Alemanha (Togo, Camarões, Sudoeste Africano e África Oriental), Portugal (Angola, Moçambique, Guiné), Bélgica (o Congo, do tamanho da Europa ocidental), Itália (Líbia, Eritreia, Somália) e Espanha (Marrocos espanhol, Rio de Oro). Como se passou de um mapa ao outro?
O Congo e a conferência. O estopim foi um homem só. Leopoldo II, rei dos belgas, sem colônias e sem apoio do próprio parlamento, financiou de 1879 a 1884 as expedições de Henry Morton Stanley pelo rio Congo, que voltaram com centenas de “tratados” assinados por chefes locais que não sabiam o que assinavam, e fez reconhecer a sua Associação Internacional do Congo como Estado, apresentada ao mundo como obra humanitária e de livre-comércio. Portugal, que reclamava a foz do rio, a França, que avançava pela margem norte com Brazza, e a Grã-Bretanha, que não queria nenhum dos dois, aceitaram o convite do chanceler alemão Bismarck para uma conferência em Berlim, de 15 de novembro de 1884 a 26 de fevereiro de 1885. Catorze Estados, entre eles os Estados Unidos e o Império Otomano; nenhum africano. A Ata Geral não desenhou fronteiras: garantiu a navegação livre no Congo e no Níger, reconheceu o Estado de Leopoldo, proibiu o tráfico de escravizados e fixou duas regras de procedimento, a obrigação de notificar as outras potências ao tomar posse de um trecho da costa e a exigência de ocupação efetiva, uma autoridade real no território, para que a posse valesse. O efeito foi o oposto de um freio: para valer, era preciso ocupar, e todos correram.
Leopoldo e a borracha. O Estado Livre do Congo (1885–1908) foi propriedade pessoal do rei. Quando a demanda por borracha disparou, nos anos 1890, o Estado e as companhias concessionárias impuseram às aldeias cotas de látex silvestre, cobradas pela Força Pública, um exército de 19 mil homens: quem não entregava via a aldeia queimada, as mulheres tomadas como reféns, e os soldados eram obrigados a provar que haviam gasto as balas trazendo mãos cortadas. O cônsul britânico Roger Casement percorreu o alto Congo em 1903 e publicou em 1904 um relatório com depoimentos nome a nome; o jornalista Edmund Morel, que descobrira o esquema ao notar que os navios saíam da Antuérpia para o Congo levando quase só armas e voltavam cheios de borracha, fundou a Associação para a Reforma do Congo; missionários batistas fotografaram as mutilações. Pressionado, Leopoldo vendeu o Congo à Bélgica em 1908, por uma indenização. O número de mortos nunca será exato, porque não houve censo antes: as estimativas de perda demográfica entre 1880 e 1920, por violência, fome, deslocamento e doença de sono, vão de alguns milhões (as contas demográficas mais cautelosas ficam perto de cinco) a dez milhões, o número de Adam Hochschild em O fantasma do rei Leopoldo (1998), o livro que fixou o episódio na memória pública.
Fachoda e os corredores. As potências queriam linhas contínuas. A Grã-Bretanha sonhava com um eixo do Cairo ao Cabo; a França, com uma faixa de Dacar a Djibuti. As duas linhas se cruzavam no alto Nilo, e em setembro de 1898 uma pequena coluna francesa comandada por Marchand, que atravessara a África a pé desde o Congo francês, encontrou em Fachoda, no Sudão, o exército de Kitchener recém-saído de Omdurman. Por semanas a Europa falou em guerra; a França recuou, porque não tinha marinha para enfrentar a britânica, e seis anos depois os dois países fecharam a Entente Cordial (1904), trocando o Egito pelo Marrocos. É o exemplo mais nítido de como a partilha funcionava: a fronteira da África era negociada em Londres e Paris, em função de uma rivalidade europeia.
Os herero, os nama e a palavra genocídio. No Sudoeste Africano alemão (hoje Namíbia), colonos tomaram terra e gado dos herero; em janeiro de 1904 os herero se revoltaram, e em outubro o general Lothar von Trotha emitiu uma ordem de extermínio: todo herero encontrado dentro das fronteiras alemãs, armado ou não, seria fuzilado. Os sobreviventes foram empurrados para o deserto do Omaheke, com os poços guardados, e os que voltaram foram postos em campos de concentração (a expressão já era usada) onde se morria de trabalho e doença. Os nama, que se levantaram em seguida, tiveram o mesmo destino. Estima-se que cerca de 80% dos herero e metade dos nama morreram entre 1904 e 1908. Em maio de 2021, o governo alemão reconheceu oficialmente o episódio como genocídio, o primeiro do século XX.
Adwa: a exceção que explica a regra. A Itália, que ocupara a Eritreia, assinou com o imperador etíope Menelik II o Tratado de Wuchale (1889), cuja versão italiana dizia que a Etiópia era protetorado e cuja versão em amárico não dizia isso. Menelik denunciou o tratado, comprou fuzis modernos (inclusive dos franceses e dos russos, interessados em atrapalhar a Itália), mobilizou um exército de cerca de 100 mil homens e, em 1º de março de 1896, em Adwa, destruiu o corpo expedicionário italiano. A Itália reconheceu a independência etíope. A exceção mostra o que, em regra, faltou aos outros: um Estado centralizado com décadas de unificação, armamento comparável ao do invasor e a divisão entre as potências jogando a favor. A Libéria, fundada em 1822 por sociedades americanas para assentar libertos, sobreviveu como protetorado informal dos Estados Unidos.
Berlim não "dividiu" a África, e o europeu não a "descobriu"
Duas frases que parecem inocentes e custam ponto. A primeira: “na Conferência de Berlim as potências dividiram a África entre si”. A conferência fixou regras (notificação, ocupação efetiva, livre navegação) e reconheceu o Congo de Leopoldo; as fronteiras saíram de dezenas de tratados bilaterais nos trinta anos seguintes (anglo-alemão de 1890, anglo-francês de 1898, anglo-português de 1891) e de guerras de conquista. A segunda: “os europeus penetraram no interior desconhecido de um continente sem Estados”. O Sudão tinha um Estado teocrático com exército; Sokoto, um califado com burocracia e cobrança de impostos; o Daomé, um exército permanente com regimentos femininos; Buganda, um rei, um parlamento e estradas. A partilha foi a destruição ou a submissão de Estados, não o preenchimento de um vazio. O vazio estava nos mapas europeus, não no chão.
Leitura de fonte 1: o artigo 6 da Ata Geral de Berlim (1885)
“Todas as potências que exercem direitos de soberania ou influência nos referidos territórios comprometem-se a zelar pela conservação das populações indígenas e pela melhoria de suas condições morais e materiais de existência, e a concorrer para a supressão da escravidão e sobretudo do tráfico de negros; elas protegerão e favorecerão, sem distinção de nacionalidade nem de culto, todas as instituições e empresas religiosas, científicas ou de caridade criadas e organizadas para esses fins, ou que tendam a instruir os indígenas e a fazê-los compreender e apreciar as vantagens da civilização.” (Ata Geral da Conferência de Berlim, 26 de fevereiro de 1885, artigo 6; tradução livre, com adaptações.)
Observar. O artigo está na primeira parte da Ata, a que trata da bacia do Congo. Três verbos de obrigação (“comprometem-se a zelar”, “concorrer”, “protegerão”) e três beneficiários nomeados: as “populações indígenas”, as instituições religiosas e científicas, a “civilização”. Não há uma palavra sobre quem governa, quem cobra imposto ou quem fica com a terra; o único objeto econômico mencionado é a escravidão, para condená-la.
Hipotetizar. Quem escreve assim quer ser lido como benfeitor. O artigo serve para que as potências possam dizer, umas às outras e aos seus parlamentos, que a ocupação da África é um ato humanitário; e serve a Leopoldo em particular, que vendeu seu Estado ao mundo como cruzada contra o tráfico árabe-suaíli no leste do Congo. A “liberdade de comércio” e a “ocupação efetiva” dos artigos seguintes são o negócio; o artigo 6 é a moldura moral do negócio.
Contextualizar. Fevereiro de 1885: a Grã-Bretanha abolira a escravidão nas suas colônias em 1833, a França em 1848; o abolicionismo era, há meio século, a língua da respeitabilidade internacional, e o Brasil, que ainda tinha escravizados, era cobrado por ela. Ao mesmo tempo, a Sociedade Antiescravista de Londres e os missionários pediam intervenção na África para acabar com o tráfico interno. O artigo traduz essa agenda em cláusula de tratado e, ao fazê-lo, oferece a cada potência a justificativa pronta para a conquista. Repare no detalhe: “fazê-los compreender e apreciar as vantagens da civilização” supõe que os africanos ainda não as apreciam e que é dever de outrem ensiná-los, o núcleo da missão civilizadora.
Corroborar. O que o artigo prometeu e o que aconteceu podem ser confrontados com documentos da mesma geração: o relatório de Casement (1904), as fotografias de Alice Seeley Harris (1904), o próprio código do trabalho do Congo belga, que manteve a prestação obrigatória de serviços depois de 1908; a Ata de Bruxelas de 1890, que repetiu a fórmula antiescravista para legitimar postos militares no interior (é o texto-base de um item do ENEM de 2021). A supressão do tráfico interno foi real em várias regiões; o trabalho forçado, o imposto de capitação e as cotas de borracha e algodão, impostos pelos mesmos Estados que juravam “conservar” as populações, também foram.
E as outras leituras? Um missionário de 1885 leu o artigo como vitória da fé e da filantropia; um diplomata, como fórmula vazia que não obrigava a nada (e a Ata não previa fiscalização); um chefe africano nunca o leu, porque não foi convidado. Um historiador de hoje lê nele a prova de que o imperialismo precisou se justificar em termos humanitários desde o primeiro dia, e de que a distância entre a cláusula e a prática é o próprio objeto de estudo. Para a prova: uma afirmação que apresente a Conferência de Berlim como instrumento de proteção dos africanos, ou que diga que as “regras gerais” foram negociadas com representantes africanos, cai pela letra do documento e pela lista de assinaturas.
A Ásia não foi partilhada: foi aberta, cercada e, num caso, virou potência

Na Ásia, o imperialismo encontrou impérios e Estados mais antigos e mais populosos do que os europeus, e por isso o método variou: domínio direto na Índia, na Indochina e nas Índias Holandesas; “abertura” por tratados na China, no Japão e no Sião; e, no Japão, a única conversão de alvo em potência.
Índia: de uma companhia a uma Coroa. Até 1858 quem governava a Índia era uma empresa, a Companhia das Índias Orientais, que desde a batalha de Plassey (1757) cobrava impostos em Bengala, mantinha um exército de 200 mil soldados indianos, os sipaios, sob oficiais britânicos, e detinha o monopólio do ópio. Em maio de 1857, em Meerut, sipaios se recusaram a usar cartuchos que, dizia-se, eram lubrificados com gordura de vaca e de porco (ofensa a hindus e muçulmanos ao mesmo tempo), mataram seus oficiais e marcharam para Delhi, onde restauraram o velho imperador mogol; a revolta se espalhou pelo norte, com príncipes destituídos, camponeses e cidades inteiras, e levou mais de um ano para ser esmagada, com execuções em massa. A lição que Londres tirou foi administrativa: em 1858, o Parlamento extinguiu a Companhia e pôs a Índia sob a Coroa, com um vice-rei, um exército reorganizado com mais britânicos e uma política de não mexer na religião; em 1876, a rainha Vitória recebeu o título de imperatriz da Índia. É o Raj (1858–1947). O que ele fez com a economia indiana é um dos debates mais antigos sobre o imperialismo, e começou com um indiano: Dadabhai Naoroji, primeiro asiático eleito para a Câmara dos Comuns, calculou em Poverty and Un-British Rule in India (1901) a “drenagem” de riqueza da Índia para a Grã-Bretanha, pelos salários e pensões de funcionários, pelos juros da dívida e pelos chamados home charges. Os números de que se dispõe hoje apontam na mesma direção: a participação da Índia na produção manufatureira mundial, perto de um quarto em 1750, caiu para menos de 3% em 1880, enquanto o tecido de Lancashire, feito com algodão indiano e egípcio, inundava os mercados indianos; e as fomes de 1876–1878 e de 1896–1902, nas quais morreram muitos milhões de pessoas, ocorreram numa colônia que continuava a exportar trigo e arroz e cujas ferrovias (a primeira é de 1853; eram mais de 50 mil quilômetros em 1910) levavam o grão para os portos. A mesma administração fundou universidades (Calcutá, Bombaim e Madras, em 1857), unificou o direito e a língua da elite e, sem querer, criou o terreno do nacionalismo: o Congresso Nacional Indiano nasceu em 1885, de advogados formados em inglês; a partição de Bengala, em 1905, provocou o primeiro boicote em massa a produtos britânicos (o swadeshi). Gandhi, que voltou da África do Sul em 1915, é assunto da página sobre descolonização.
China: aberta à força, sem bandeira estrangeira. A dinastia Qing governava, em 1800, o maior país do mundo e vendia chá, seda e porcelana a europeus que não tinham nada que ela quisesse comprar; a Grã-Bretanha pagava em prata, até descobrir que o ópio cultivado em Bengala sob monopólio da Companhia tinha compradores. Nos anos 1830, dezenas de milhares de caixas por ano entravam de contrabando por Cantão, a prata passou a sair da China e o imperador proibiu a droga. Em 1839, o comissário Lin Zexu confiscou e destruiu cerca de 20 mil caixas em Humen; Londres respondeu com a esquadra. A Primeira Guerra do Ópio (1839–1842) terminou com o Tratado de Nanquim: Hong Kong cedida, cinco portos abertos (Cantão, Amoy, Fuzhou, Ningbo e Xangai), 21 milhões de dólares de prata de indenização e, no ano seguinte, a extraterritorialidade (súditos britânicos julgados por tribunais britânicos). Foi o primeiro dos tratados desiguais, assim chamados porque só um lado assumia obrigações. A Segunda Guerra do Ópio (1856–1860), com a França ao lado, legalizou o comércio da droga, abriu o interior a missionários e mercadores e terminou com o saque e o incêndio do Palácio de Verão, em Pequim, em outubro de 1860. No meio disso, a China viveu a maior guerra civil do século, a rebelião Taiping (1850–1864), que custou cerca de 20 milhões de vidas. Nos anos 1890 o método mudou de abertura para cerco: derrotada pelo Japão (1894–1895), a China viu as potências arrancarem “arrendamentos” de 99 anos e esferas de influência em 1898 (a Alemanha em Jiaozhou, a Rússia em Port Arthur, a França em Guangzhouwan, a Grã-Bretanha em Weihaiwei e nos Novos Territórios de Hong Kong, devolvidos só em 1997), cada uma com ferrovias e minas exclusivas; os Estados Unidos, chegados tarde, propuseram a “porta aberta” (1899), isto é, que ninguém fechasse o mercado chinês aos outros. A reação popular foi a Revolta dos Boxers (1899–1901), sociedades de artes marciais que atacaram missionários, convertidos e ferrovias e cercaram as legações estrangeiras em Pequim no verão de 1900; uma força de oito nações (entre elas o Japão e os Estados Unidos) tomou a capital e impôs o Protocolo de 1901, com indenização de 450 milhões de taéis. A China nunca foi colônia, e esse é o ponto: foi um Estado soberano no papel, retalhado em zonas de exclusividade, governado por uma dinastia que caiu em 1911–1912. A historiografia chinesa chama o período de 1839 a 1949 de “século de humilhação”.
Japão: do alvo ao predador em quarenta anos. Em julho de 1853, quatro navios de guerra americanos comandados pelo comodoro Perry entraram na baía de Edo e exigiram a abertura do país, fechado desde o século XVII; o Japão assinou em 1854 e, em 1858, tratados desiguais do mesmo tipo dos chineses. A diferença foi a resposta. Em 1868, uma coalizão de senhores feudais derrubou o xogunato em nome do jovem imperador Meiji, e o novo Estado copiou deliberadamente o que fazia os europeus fortes: aboliu os domínios feudais (1871), mandou uma missão de dois anos estudar governos e fábricas do Ocidente (1871–1873), criou exército de conscrição (1873), escola obrigatória, bancos, ferrovias, estaleiros e uma constituição de modelo prussiano (1889), tudo com o lema “país rico, exército forte”. Em 1894–1895, esse exército derrotou a China e tomou Taiwan; a Rússia, a França e a Alemanha o obrigaram a devolver a península de Liaodong, humilhação que o Japão não esqueceu. Em 1902 fez aliança com a Grã-Bretanha; em 1904–1905 venceu a Rússia por terra, em Mukden, e por mar, em Tsushima, onde a frota russa que dera a volta ao mundo foi destruída em um dia; pelo Tratado de Portsmouth ficou com Port Arthur e a metade sul de Sacalina, fez da Coreia um protetorado e a anexou em 1910. Pela primeira vez na era moderna um Estado asiático derrotava uma potência europeia, e a notícia correu da Índia ao Vietnã, do Egito à Turquia: a prova de que a técnica não tinha dono. Para a prova, guarde a tese: o imperialismo não foi um fenômeno “europeu” por natureza, mas industrial; o Japão e os Estados Unidos o praticaram tão logo tiveram indústria e marinha.
Sudeste Asiático e Pacífico. A França construiu a Indochina em etapas, da Cochinchina (1862–1867) e do protetorado do Camboja (1863) ao Tonkin e ao Anam (1883–1885), reunidos na União Indochinesa de 1887, e ao Laos (1893). A Grã-Bretanha completou a anexação da Birmânia em 1885–1886 e organizou os Estados malaios em torno do estanho e, depois, da borracha de plantação. Os Países Baixos, presentes em Java desde o século XVII, levaram vinte e um anos para dominar Aceh, em Sumatra (1873–1904), e aplicaram nas Índias Holandesas o “sistema de cultivo” obrigatório, denunciado no romance Max Havelaar (1860). O Sião ficou independente como Estado-tampão entre britânicos e franceses, cedendo territórios aos dois. As Filipinas trocaram de dono: a revolução contra a Espanha, iniciada em 1896, foi atropelada pela guerra hispano-americana de 1898, os Estados Unidos compraram o arquipélago por 20 milhões de dólares no Tratado de Paris e passaram três anos (1899–1902) combatendo os filipinos que haviam proclamado uma república, numa guerra com campos de reconcentração, tortura por água e centenas de milhares de mortos civis por combate, fome e doença. No Pacífico, a Alemanha tomou a Nova Guiné do nordeste (1884) e parte de Samoa (1899); a França, o Taiti (1880) e a Nova Caledônia (1853); os Estados Unidos derrubaram a monarquia do Havaí em 1893 e o anexaram em 1898. Na Austrália, colônia de povoamento desde 1788, e na Nova Zelândia, a expansão sobre terras aborígenes e maori (as guerras maori de 1845–1872) foi a forma local do mesmo processo, com a Federação Australiana (1901) nascendo já com a política de “Austrália branca”.
Leitura de fonte 2: “O fardo do homem branco”, de Kipling (1899)
“Tomai o fardo do Homem Branco, / enviai o melhor de vossa estirpe, / mandai vossos filhos ao exílio / para servir às necessidades de vossos cativos; / para esperar, de arreios pesados, / junto a povos agitados e selvagens, / vossos povos recém-capturados, amuados, / metade demônio e metade criança.” (Rudyard Kipling, The White Man’s Burden: The United States and the Philippine Islands, revista McClure’s, fevereiro de 1899, primeira estrofe; tradução livre.)
Observar. O poema é um apelo em imperativo (“tomai”, “enviai”, “mandai”), repetido no início de cada uma das sete estrofes. O “fardo” é um dever que custa: exílio dos filhos, trabalho sem recompensa, “o ódio dos que guardais”, a ingratidão prevista. Os colonizados aparecem em uma única imagem, “metade demônio e metade criança”: perigosos e imaturos ao mesmo tempo, portanto a serem contidos e educados. O título diz a quem o poema fala e sobre o quê: aos Estados Unidos, sobre as Filipinas.
Hipotetizar. Um inglês escrevendo para americanos, no mês em que o Senado dos Estados Unidos votava a anexação das Filipinas e em que começava a guerra contra a república filipina. Kipling, nascido em Bombaim e criado entre a Índia e a Inglaterra, não está descrevendo a colonização: está recrutando um novo sócio para ela, e o faz apresentando a conquista como sacrifício do conquistador. Repare que o poema não fala em lucro, mercado ou borracha; fala em dever, fome combatida, doença curada, e no desgosto de não ser agradecido.
Contextualizar. Fevereiro de 1899. A Grã-Bretanha acabara de vencer em Omdurman e estava a meses da Guerra dos Bôeres; a França engolia Fachoda; a Alemanha arrendava Jiaozhou. A ideologia que o poema versifica tinha meio século de ciência por trás, da escala das raças de Gobineau ao darwinismo social de Spencer, e uma geração de política: Ferry na França, Chamberlain e Rhodes no império britânico, Leopoldo no Congo. O poema foi um sucesso imediato e virou slogan; mas também foi respondido na hora. O deputado radical inglês Henry Labouchère publicou “O fardo do homem pardo”, parodiando cada estrofe (“tomai o fardo do homem pardo, / e, se os seus povos resistirem, / deixai que os Maxims lhes ensinem”), e Mark Twain, em “À pessoa sentada nas trevas” (1901), escreveu que a “Bênção da Civilização” era uma mercadoria com embalagem bonita e conteúdo de pólvora.
Corroborar. O que o fardo significou nas Filipinas pode ser lido nos relatórios do Senado americano de 1902 sobre a conduta das tropas, nas ordens de “transformar em deserto” a ilha de Samar depois do ataque de Balangiga (1901) e nas estimativas de mortos civis; na Índia, nas estatísticas de fome que a própria administração colonial publicava; no Congo, nas fotografias de 1904. A distância entre o poema e os documentos é a distância entre a ideologia e o mecanismo, e é isso que a prova pede para enxergar: itens do ENEM que apresentam um texto de Said, de Ferry ou de um jurista colonial de 1912 e perguntam que “função ideológica” ele cumpre esperam a resposta “dissimular a exploração mediante a ideia de civilização”.
E as outras leituras? Um leitor de 1899 convencido da superioridade europeia leu o poema como elogio do sacrifício; um anti-imperialista, como confissão involuntária (o “cativo” está no texto); um filipino, como a notícia de que seria governado por quem o julgava “metade criança”. Um historiador lê nele uma fonte sobre a cultura imperial, isto é, sobre como as sociedades industriais explicavam a si mesmas o que faziam com os outros, e também um lembrete de que a ideologia não era unânime: o poema nasceu já contestado, e a oposição ao imperialismo, nas metrópoles, é tão datada quanto ele.
Os Estados Unidos, a América Latina e o Brasil na era dos impérios
Os Estados Unidos não tomaram parte na partilha da África e, por isso, muitos alunos os imaginam fora do imperialismo. É o erro geográfico que a banca já plantou em prova (um item de 2016 dizia que o imperialismo “praticamente não se expandiu à América Latina e à Ásia” por causa da “vigorosa ação norte-americana”; gabarito E). A expansão americana tem a mesma cronologia e as mesmas engrenagens; muda o palco.
De Monroe a Roosevelt. Em 1823, o presidente James Monroe declarou ao Congresso que as Américas não estavam mais abertas à colonização europeia e que os Estados Unidos não tolerariam a transferência de colônias no continente; a frase que resumiu a doutrina, “a América para os americanos”, nasceu como defesa das repúblicas recém-independentes contra a Santa Aliança, e por décadas valeu pouco, porque quem policiava o Atlântico era a marinha britânica. O século XIX americano foi de expansão continental, justificada pelo “destino manifesto” (a expressão é de 1845): a guerra contra o México (1846–1848) tomou metade do território mexicano; o Alasca foi comprado da Rússia em 1867. Em 1898, com a segunda maior indústria do mundo e uma marinha nova, inspirada no livro de Alfred Mahan sobre o poder marítimo (1890), o país saiu do continente. A explosão do encouraçado Maine no porto de Havana (fevereiro de 1898), amplificada por uma imprensa que já se chamava “amarela”, serviu de pretexto para a guerra contra a Espanha: em quatro meses os Estados Unidos ocuparam Cuba, Porto Rico, Guam e as Filipinas. Cuba ficou formalmente independente, mas a Emenda Platt (1901), imposta à constituição cubana, garantia aos Estados Unidos o direito de intervir e a base de Guantánamo, ocupada desde 1903. Em novembro de 1903, navios americanos impediram a Colômbia de reprimir a secessão do Panamá, e o novo país assinou em duas semanas o tratado que entregava a zona do canal, inaugurado em 1914. Em dezembro de 1904, Theodore Roosevelt acrescentou à Doutrina Monroe o seu “corolário”: se os europeus não podiam intervir nas Américas para cobrar dívidas, os Estados Unidos interviriam no lugar deles, como “polícia internacional”. A máxima que ele repetia desde 1901, “fale manso e carregue um grande porrete”, batizou a política; o porrete era a frota, que deu a volta ao mundo pintada de branco entre 1907 e 1909 para que ninguém tivesse dúvida. Vieram a administração alfandegária da República Dominicana (1905), os fuzileiros na Nicarágua (1912), a ocupação do Haiti (1915–1934) e a “diplomacia do dólar” de Taft, que trocava canhoneiras por empréstimos. É imperialismo sem colônias formais, o modelo que Gallagher e Robinson descreveram para a Grã-Bretanha; e é por isso que a prova pergunta, a propósito de um texto sobre o destino manifesto, que articulação o sustentava: expansão territorial e acumulação capitalista, juntas.
A América Latina como periferia disputada. Na América do Sul, o império informal era britânico: ferrovias, bancos, companhias de gás e de bondes, frigoríficos na Argentina, empréstimos aos governos. O Brasil da Primeira República viveu isso de perto. Em 1898, com o Tesouro à beira da moratória, o presidente eleito Campos Sales negociou em Londres com os Rothschild o funding loan, um empréstimo de 10 milhões de libras cuja contrapartida foi uma política de deflação e corte de gastos ditada pelos credores; em 1906, a valorização do café, acertada em Taubaté, foi financiada por banqueiros estrangeiros. O Barão do Rio Branco, à frente do Itamaraty entre 1902 e 1912, respondeu à ascensão americana com a “aliança não escrita”: aproximação com Washington, criada a primeira embaixada brasileira (1905), sem subordinação formal. A posição econômica do país, de fornecedor de café, borracha e cacau e comprador de manufaturas e capitais, é o assunto da página sobre centro e periferia; aqui importa o episódio em que o Brasil entrou diretamente no circuito da matéria-prima imperial.
A borracha, o Acre e o Putumayo. O pneu de bicicleta (1888) e o de automóvel transformaram o látex da Hevea brasiliensis, que só existia silvestre na Amazônia, numa das mercadorias mais valiosas do mundo. Entre 1879 e 1912, a borracha chegou a um quarto do valor das exportações brasileiras, perto de 40% no pico de 1910; Manaus ganhou bondes elétricos, água encanada e o Teatro Amazonas (1896) antes de muitas capitais europeias; dezenas de milhares de nordestinos expulsos pela seca de 1877 subiram os rios como seringueiros, presos ao barracão pelo sistema de aviamento, em que o patrão adiantava mantimentos a preço arbitrário contra a borracha futura. A expansão dos seringais para o alto Acre, então território boliviano, provocou a revolta dos seringueiros brasileiros e, depois da tentativa da Bolívia de arrendar a região a um sindicato anglo-americano, o Tratado de Petrópolis (1903), pelo qual o Brasil comprou o Acre por dois milhões de libras e a promessa de uma ferrovia. Do outro lado da fronteira, no Putumayo, a Companhia Peruana da Amazônia, de Julio César Arana, registrada em Londres, escravizou povos indígenas (huitoto, bora, andoque) para extrair borracha, com o mesmo repertório do Congo, cotas, chicote, mutilações; quem investigou, em 1910, foi o mesmo Roger Casement, agora cônsul-geral britânico no Rio de Janeiro, cujo relatório calculou dezenas de milhares de mortos. E o fim do ciclo também veio do imperialismo: em 1876, o inglês Henry Wickham levara 70 mil sementes de Hevea de Santarém para os jardins de Kew; replantadas na Malásia e no Ceilão, elas deram seringais de plantação que, em 1913, já produziam mais que a Amazônia inteira, a preços que derrubaram a economia amazônica em dois anos. Canudos, a Revolta da Vacina e o resto da Primeira República ficam na página própria; a lição desta é que a inserção do Brasil no mundo de 1880–1914 foi a de um fornecedor que não controlava nem o preço, nem a semente, nem o capital.
Quem resistiu, e por que a resistência não cabe na palavra “derrota”

A lista que a prova espera é longa, e o mapa acima organiza as principais. Abd el-Kader, na Argélia (1832–1847), criou um Estado em movimento, com administração e exército, e manteve a França em guerra por quinze anos. Os sipaios (1857–1858) quase derrubaram o domínio britânico no norte da Índia. Os zulus de Cetshwayo destruíram uma coluna britânica em Isandlwana (janeiro de 1879) antes de serem derrotados em Ulundi, seis meses depois. O Mahdi, Muhammad Ahmad, levantou o Sudão em 1881, tomou Cartum em 1885 (onde morreu o general Gordon) e fundou um Estado que durou treze anos, até Omdurman. Samori Touré combateu os franceses de 1882 a 1898, com um exército de 30 mil homens que fabricava os próprios fuzis, deslocando seu império do Alto Níger para a Costa do Marfim à medida que recuava. Behanzin, rei do Daomé, lutou de 1890 a 1894 com um exército que incluía os regimentos femininos que os franceses chamaram de “amazonas”. Menelik II venceu em Adwa (1896). Os asante se levantaram em 1900, liderados por Yaa Asantewaa, rainha-mãe de Ejisu, quando o governador britânico exigiu sentar-se no Banco Dourado, símbolo do reino. Os boxers cercaram Pequim em 1900. Os herero e os nama (1904–1908) pagaram com dezenas de milhares de mortos (cerca de 65 mil herero, de uma população de 80 mil, e metade dos nama); os povos do sul da Tanganica, na revolta Maji Maji (1905–1907, contra o cultivo forçado de algodão para a administração alemã), com um número que as estimativas situam entre 75 mil e 300 mil, a maior parte pela fome que a repressão provocou ao queimar aldeias e colheitas. Os filipinos sustentaram uma república contra os Estados Unidos de 1899 a 1902. Os bôeres, descendentes de colonos holandeses, travaram contra a Grã-Bretanha (1899–1902) a guerra mais cara do império até então, e foram vencidos com a tática que mais tarde teria outros usos: fazendas queimadas e 26 mil mulheres e crianças bôeres mortas em campos de concentração, além de cerca de 20 mil africanos em campos separados.
Resistir não é só pegar em armas
A historiografia africana e asiática das últimas décadas ensinou a ver resistência onde os relatórios coloniais viam “apatia” ou “colaboração”. Houve a resistência armada primária, dos Estados que defendiam a soberania; houve a diplomacia, como a de Menelik, que jogou as potências umas contra as outras, e a do Sião, que cedeu margens para salvar o centro; houve a fuga, a migração para fora das zonas de recrutamento, a sabotagem das cotas, o cultivo escondido; houve os movimentos religiosos, do mahdismo ao “etiopianismo” das igrejas africanas independentes do sul do continente, que liam na Bíblia a promessa de que “a Etiópia estenderá as mãos a Deus”; e houve, desde cedo, a resistência pela caneta. Naoroji calculou a drenagem da Índia (1901); José Rizal escreveu os romances que a Espanha puniu com o fuzilamento (1896); em julho de 1900, o advogado trinitário Henry Sylvester Williams reuniu em Londres a primeira Conferência Pan-Africana, em que o americano W. E. B. Du Bois disse a frase que o século confirmaria: “o problema do século XX é o problema da linha de cor”. A descolonização de 1947–1975 não nasceu do nada; nasceu dessas três gerações. Para a prova, a lição é dupla: um item que descreva os colonizados como passivos erra pelo fato, e um item que descreva a Conferência de Berlim como “negociada com os Estados africanos” erra pela cronologia, porque a negociação que houve foi na ponta do fuzil, depois.
Leitura de fonte 3: uma fotografia do Congo (Alice Seeley Harris, 1904)
A fotografia que vamos ler não está reproduzida nesta página, por escolha editorial; ela é descrita para que você saiba lê-la quando a encontrar. Em maio de 1904, no posto missionário de Baringa, no alto Congo, a missionária batista inglesa Alice Seeley Harris fotografou um homem chamado Nsala, da aldeia de Wala, sentado na varanda de madeira da missão, olhando para o chão. Diante dele, sobre a varanda, estão uma mão e um pé pequenos, de criança. Eram da filha dele, Boali, de cinco anos, morta pelos sentinelas da companhia concessionária de borracha da região (a ABIR, de capital anglo-belga) porque a aldeia não entregara a cota de látex. A imagem é em preto e branco, de enquadramento simples, sem encenação visível além da escolha de pôr os restos no primeiro plano.
Observar. Um homem adulto, de tanga, sentado, o corpo levemente inclinado; o olhar baixo, fixo nos restos; nenhum europeu na cena; o cenário é a própria missão. A fotografia foi feita com câmera de placa, exposição lenta, o que explica a imobilidade. Não há legenda na imagem; o nome de Nsala e a história de Boali vêm do registro da missão e do testemunho que ele deu.
Hipotetizar. Quem fotografa quer provar alguma coisa a alguém que está longe e não acredita. A composição apresenta o homem como testemunha e vítima ao mesmo tempo, e os restos como evidência material; a escolha de incluir Nsala, e não só os restos, dá à prova um rosto. A missionária não é uma fotógrafa neutra: é parte de uma campanha.
Contextualizar. 1904 é o ano do relatório de Casement e da fundação da Associação para a Reforma do Congo, de Morel. As fotografias de Harris e de outros missionários foram projetadas em “palestras de lanterna mágica” em centenas de igrejas e salões na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, estampadas em panfletos e no Solilóquio do rei Leopoldo, de Mark Twain (1905): foi a primeira campanha humanitária internacional baseada em fotografia. Leopoldo contratou jornalistas e publicou uma comissão de inquérito própria; a pressão venceu em 1908. Dois cuidados de leitura: a campanha enquadrava o Congo de Leopoldo como exceção monstruosa, e com isso poupava o colonialismo “decente” das outras potências, inclusive o britânico; e as fotografias, feitas por europeus, mostravam africanos como vítimas mudas, raramente como quem contava a história, o que Nsala, de fato, fez.
Corroborar. O relatório de Casement recolheu depoimentos com nomes de aldeias, sentinelas e datas; a comissão belga de 1905, nomeada pelo próprio rei, confirmou o sistema de cotas e reféns; os livros de contabilidade da ABIR, estudados depois, mostram o lucro por tonelada e o custo em munição; a demografia posterior registra a queda populacional. A fotografia não prova sozinha o que aconteceu no Congo; prova que aconteceu com Boali, e abre a porta aos documentos que mostram a escala.
E as outras leituras? Para um acionista da ABIR em 1904, a imagem era propaganda inimiga; para um leitor de Londres, a confirmação de que o rei dos belgas era um monstro; para o governo britânico, um instrumento útil contra um rival comercial; para os congoleses de hoje, memória e exigência de reconhecimento (em 2022, a Bélgica devolveu à família de Patrice Lumumba o único resto que guardava do líder assassinado em 1961, um dente). Para a prova, a lição é a do item que a banca já fez sobre a foto de uma favela de Mumbai: uma imagem documenta um momento; a explicação do que a produziu exige o sistema inteiro, cotas, companhia, Estado, mercado mundial de borracha, e não um vilão só.
O que a partilha deixou: fronteiras, economias, raças e uma guerra
Fronteiras. Um geógrafo calculou que 44% das fronteiras africanas seguem meridianos e paralelos, 30% são linhas retas ou arqueadas e apenas 26% acompanham acidentes naturais; a conta aparece em texto-base do ENEM e explica os ângulos retos do mapa. Essas linhas, traçadas em gabinetes europeus entre 1885 e 1914, cortaram povos (os somalis ficaram em cinco jurisdições; os ewe, entre Togo e Costa do Ouro) e juntaram dentro de uma mesma colônia sociedades sem história comum. Na independência, os novos Estados decidiram mantê-las (a Organização da Unidade Africana consagrou o princípio em 1964), porque redesenhá-las custaria guerras ainda piores; e é por isso que tantos conflitos “étnicos” do noticiário correm ao longo de uma fronteira colonial. O historiador Mahmood Mamdani mostrou outro legado menos visível: o próprio Estado colonial, para governar barato, fixou “tribos” e “chefes costumeiros” onde havia identidades fluidas, com direitos diferentes para cada grupo; a fala do personagem de Chimamanda Adichie num texto-base do PAS de 2018 (“eu era ibo antes que o branco aparecesse”; “sou nigeriano porque um branco criou a Nigéria”) resume o problema.
Economias. O historiador ganês Albert Adu Boahen, no volume da UNESCO que organizou, listou o que o colonialismo construiu (portos, ferrovias que iam da mina ao mar, estradas, alguma escola e algum hospital, a moeda e o mercado unificados) e o que destruiu ou impediu: a indústria artesanal, a agricultura de subsistência substituída por um ou dois cultivos de exportação (cacau na Costa do Ouro, amendoim no Senegal, algodão no Sudão), o trabalho forçado e o imposto de capitação, cobrado em dinheiro para obrigar a trabalhar por salário, e a ausência de qualquer indústria de transformação. É o que a página sobre centro e periferia chama de inserção subordinada; na África e na Ásia ela foi imposta por lei. A relação com a fome não é especulação: a Índia das ferrovias e das exportações de grão teve as piores fomes da sua história registrada no último quartel do século XIX, e as regiões de monocultura forçada da África viveram ciclos de desnutrição e epidemia no início da era colonial.
Raças. O racismo científico não nasceu com o imperialismo, mas foi nele que virou lei e administração: códigos do indigenato que negavam aos “nativos” os direitos dos cidadãos (o Code de l’indigénat francês, de 1881; o estatuto do indígena português, até 1961), segregação urbana (a Lei de Terras sul-africana de 1913, raiz do apartheid; os bairros “nativos” de toda cidade colonial), escolas separadas, trabalho remunerado por escala racial. O item de 2018 do PAS que afirma que “o racismo foi uma das principais consequências da exploração colonial da África” tem gabarito C, e a página sobre a diáspora mostra como as mesmas teorias atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil do “embranquecimento”.
Uma guerra. As rivalidades acumuladas pela partilha (Fachoda, as duas crises marroquinas, a corrida naval anglo-alemã, a disputa pelos Bálcãs e pelo espólio otomano) são um dos fatores da guerra de 1914, ao lado do nacionalismo, do militarismo e do sistema de alianças; o item do PAS 3 de 2024 que diz exatamente isso, com “além de” e “fatores como”, tem gabarito C, e o de 2008 que falava em “importante papel” “entre outros efeitos”, também. Como e por que a guerra estourou é assunto da página sobre 1914–1919; aqui basta a direção da seta: o imperialismo compõe a explicação, nunca a esgota, e um item que o apresente como causa única está errado pela mesma régua que puniu, em 2012, a tese de que a pobreza da Índia “originou-se” no século XIX.
Do museu ao Banco Central: por onde o imperialismo continua passando
As 26 peças que voltaram a Cotonou em 2021 são uma fração: o relatório encomendado pelo governo francês a Felwine Sarr e Bénédicte Savoy (2018) estimou que mais de 90% do patrimônio material da África subsaariana está em museus fora do continente; os bronzes do Benim, levados pela expedição britânica de 1897, estão em dezenas de coleções, e a Nigéria os reclama desde os anos 1930. A Alemanha reconheceu o genocídio dos herero e nama em 2021 e negocia reparação com a Namíbia; a Bélgica abriu em 2020 uma comissão parlamentar sobre o Congo. No bolso, o legado é monetário: catorze países da África Ocidental e Central ainda usam o franco CFA, criado em 1945 e garantido pelo Tesouro francês, e o debate sobre substituí-lo é um debate sobre neocolonialismo no sentido de Nkrumah. A palavra reapareceu no século XXI a propósito da China, que se tornou a maior credora e investidora de muitos países africanos: um texto-base do ENEM de 2011 pergunta se a compra de terras e os empréstimos chineses são “neocolonialismo ou mudança na arquitetura global”, e a resposta honesta é que o conceito serve para fazer a pergunta, não para fechá-la. E no mapa escolar continuam as linhas retas, com o Sudão do Sul (2011) como a única fronteira africana nova em meio século.
Anacronismos e erros clássicos: dez frases para desconfiar
Dez frases que custam ponto
- “A Conferência de Berlim dividiu a África entre as potências.” Fixou regras e reconheceu o Congo de Leopoldo; as fronteiras vieram de tratados bilaterais e de guerras nas três décadas seguintes. O que a banca aceitou em 2023 foi “definiram as regras gerais para a ocupação”, e nada mais.
- “Os europeus ocuparam um continente sem Estados.” Sokoto, Daomé, Buganda, o Estado mahdista, a Etiópia, Samori: a partilha submeteu Estados, não preencheu um vazio.
- “O imperialismo concentrou-se na África e não atingiu a Ásia nem a América Latina.” A Índia, a China retalhada em esferas, a Indochina, as Filipinas e o império informal britânico e americano na América Latina desmentem (item de 2016, E).
- “A pobreza da Índia (ou da África) originou-se no século XIX.” O imperialismo compõe a explicação; “originou-se” pendura séculos de história num único fator (item de 2012, E).
- “As guerras do Ópio opuseram a Grã-Bretanha à Índia.” Opuseram a Grã-Bretanha (e, na segunda, a França) à China; o ópio ia da Índia para a China, não para a Europa. Um item do PAS de 2011 com essa formulação recebeu gabarito oficial C; trate-o como o registro histórico manda e não aprenda o erro.
- “Na batalha de Adwa, a Etiópia derrotou os ingleses.” Derrotou a Itália (1896); e a Libéria também permaneceu independente, de modo que “único território independente” é falso duas vezes (item de 2020).
- “A missão civilizadora esteve sempre dissociada do racismo.” O racismo científico era o fundamento da missão, não um desvio dela (item de 2018, opção errada).
- “Os objetos coloniais dos museus europeus resultam de doações.” Abomey (1892), Benim (1897), o Palácio de Verão (1860): saques documentados, com restituições em curso.
- “Os Estados Unidos, por terem sido colônia, não praticaram imperialismo.” 1898, Platt, Panamá, o corolário Roosevelt e o Haiti ocupado por dezenove anos dizem o contrário; e o Japão prova que o imperialismo não era uma exclusividade europeia.
- “O pacto colonial e o mercantilismo regiam a África de 1890.” Quimera de fases: a lógica do século XIX era a do capitalismo industrial e financeiro (mercados, matérias-primas, capital), com companhias concessionárias e tratados, não a do exclusivo metropolitano do século XVII.
Como a prova cobra: três moldes e um julgamento guiado
O molde da lista modalizada (PAS). A banca premia a afirmação que enumera fatores verdadeiros e os apresenta como “alguns dos” ou “um dos”: o item de 2018 que liga a Revolução Industrial, o “desigual aparato bélico”, a formação da Alemanha e da Itália e as disputas entre potências ao “contexto europeu próximo ao período colonial” (gabarito B); o de 2019 que diz que a expansão do capitalismo “foi marcada pelo imperialismo, que teve no neocolonialismo sua face mais ostensiva, geradora de disputas que, não raro, promoveram discórdias e guerras” ©; o de 2020 que atribui às “ações imperialistas europeias, em parte nascidas de uma combinação entre liberalismo, capitalismo e nacionalismo”, genocídios “por fome, trabalhos compulsórios, doenças e violência física” (B). Repare que “em parte”, “não raro”, “alguns dos” não enfraquecem a tese: são o que a torna verdadeira. O item errado desse molde troca a geografia (África “só”) ou absolutiza (“teve pleno êxito”, “impediu as rivalidades”, “crescente superação das assimetrias”, as três opções erradas do tipo C de 2015).
O molde da fonte contra o grão (ENEM). O ENEM quase sempre imprime um trecho de discurso, lei ou poema da época (Said citando a mentalidade imperial, o jurista Mérignhac definindo colonização em 1912, a Ata de Bruxelas de 1890, o almirante francês de 1875 dizendo que a Providência mandou “conhecer e conquistar a terra”) e pede a função ideológica do texto. A resposta certa nomeia a dissimulação (“missão civilizatória”, “dissimular a prática da exploração mediante a ideia de civilização”, “catalogação de dados úteis aos propósitos colonialistas”, “legitimar a submissão de espaços para alterar as relações de produção”); as erradas tomam o discurso ao pé da letra (“cruzada religiosa”, “formação humanitária”, “resgate humanitário”) ou trocam a época (“expansão comercial ultramarina”, que é o século XV). Outro molde do ENEM é o da fronteira: os 44% de meridianos e paralelos, os dois mapas de divisão política e étnica, a “colcha de retalhos” entre 1880 e 1914, sempre com a resposta na partilha feita pelos interesses europeus, nunca na “natureza nômade” dos africanos ou no “resgate humanitário”.
O molde da seta (PAS 3). Imperialismo como um dos fatores de 1914 (2008, C; 2024, C) e como um dos fatores da pobreza colonial, mas nunca como origem única (2012, E): julgue a direção e a força da seta, não a palavra.
Julgamento guiado. Leia o item do PAS 2 de 2010: “A expansão da Europa fez que seus valores — racionalismo científico, ideias, práticas políticas, tendências artísticas, entre outros — fossem assimilados por grande parte do resto do mundo. O contato com culturas diferentes, por sua vez, pouco alterou o estilo de vida no Velho Continente até o final do século XIX.” Primeira cláusula: tese forte (assimetria cultural), mas com “grande parte”, e com exemplos que a história confirma (o currículo inglês na Índia desde 1835, a constituição japonesa de 1889, o positivismo na bandeira brasileira). Segunda cláusula: “pouco alterou” e “até o final do século XIX”, uma dupla modalização que deixa de fora exatamente o momento em que a arte africana e asiática entra na vanguarda europeia (o cubismo de 1907). Nenhum erro de data, de agente ou de geografia; absolutização nenhuma. Gabarito C. Compare com o item de 2016 sobre o imperialismo “concentrado na África”: a mesma banca, o mesmo assunto, e uma única cláusula de geografia errada derruba tudo.
O essencial em meia página
- Palavras. Imperialismo = expansão de Estados industriais sobre outros povos (1870–1914); colonialismo = domínio direto; neocolonialismo = a colonização do século XIX (uso escolar) ou o controle econômico de Estados independentes (Nkrumah, 1965). Colônia, protetorado, esfera de influência são graus. Teóricos: Hobson (1902), Lenin (1917), Gallagher e Robinson (1953), Hobsbawm (1987), Said (1978).
- Por quê. Três engrenagens juntas: economia (Segunda Revolução Industrial, Grande Depressão de 1873–1896, matérias-primas, mercados, capital excedente), política (rivalidade entre potências, Alemanha e Itália novas, Suez e a rota da Índia, prestígio) e ideologia com técnica (missão civilizadora, darwinismo social, racismo científico; vapor, quinino, telégrafo, Maxim). Causa única = E.
- África. De um décimo a nove décimos entre 1880 e 1914. Berlim (1884–1885) fixou regras (notificação, ocupação efetiva), não fronteiras; catorze Estados, nenhum africano. Congo de Leopoldo (1885–1908): borracha, cotas, mutilações, Casement e Morel. Fachoda (1898), Omdurman (1898), herero e nama (1904–1908, genocídio reconhecido em 2021). Exceções: Etiópia (Adwa, 1896, contra a Itália) e Libéria.
- Ásia. Índia: Companhia até a Revolta dos Sipaios (1857), Raj (1858–1947), drenagem, desindustrialização, fomes; Congresso de 1885. China: guerras do Ópio (1839–1842, 1856–1860), Nanquim (1842), tratados desiguais, esferas de 1898, Boxers (1900); nunca colônia. Japão: Perry (1853), Meiji (1868), vitórias sobre a China (1895) e a Rússia (1905), Coreia anexada (1910), o imperialismo não europeu. Indochina, Birmânia, Índias Holandesas, Filipinas americanas (1898–1902).
- Américas. Monroe (1823), destino manifesto, 1898 (Cuba, Porto Rico, Filipinas), Platt (1901), Panamá (1903), corolário Roosevelt (1904), big stick, diplomacia do dólar. Império informal britânico na América Latina; Brasil: funding loan (1898), borracha (pico em 1910, queda em 1912–1913 pelas plantações asiáticas), Acre (1903), Putumayo.
- Resistências. Abd el-Kader, sipaios, zulus, Mahdi, Samori, Behanzin, Menelik, Yaa Asantewaa, boxers, herero, Maji Maji, filipinos, bôeres; e a caneta: Naoroji, Rizal, Pan-Africanismo (1900), Du Bois.
- Legados. Fronteiras artificiais mantidas na independência; economias de exportação e trabalho forçado; racismo em lei; rivalidades que entram na explicação de 1914 (como um fator). Presente: restituições, reconhecimento de genocídios, franco CFA, China na África.
- Na prova. Lista modalizada e verdadeira = C; geografia trocada, causa única, “pleno êxito”, “doações”, “dissociado do racismo”, “Berlim dividiu” = E. No ENEM, o discurso civilizador é sempre lido como dissimulação da exploração.