Capitalismo, centro e periferia: como o mundo se dividiu e por que o Brasil industrializou tarde

Guia de estudo · Revisado em 22/10/2026

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A pergunta desta aula

Se o café fez do Brasil, entre 1850 e 1930, o maior exportador agrícola do mundo e pagou ferrovias, bancos e portos, por que a fábrica só se firmou aqui um século depois da inglesa, quem decidiu que o país fornecesse em vez de fabricar, e o que essa posição de periferia explica até hoje?

O que você vai aprender

  • Definir com precisão capital, capitalismo, fase comercial, industrial e financeira ou monopolista, divisão internacional do trabalho, centro, periferia e semiperiferia, vantagens comparativas, termos de troca, dependência, padrão-ouro, livre-comércio, protecionismo, tratado desigual, substituição de importações e industrialização tardia, situando cada termo no autor e na data em que nasceu.
  • Ordenar a cronologia estrutural (Smith 1776; abertura dos portos 1808 e alvará da indústria; tratados de 1810; Ricardo 1817; padrão-ouro inglês 1821; Lei de Terras e fim do tráfico 1850; Mauá 1846–1878; Lei dos Entraves 1860; tarifa Alves Branco 1844 e as tarifas da República; crise de 1873; Encilhamento 1889–1891; censos industriais de 1907 e 1920; greve geral de 1917; 1929 e 1930) e explicar por que cada elo empurra o seguinte.
  • Explicar o mecanismo da divisão internacional do trabalho do século XIX (manufaturas, capitais e técnica de um lado; matérias-primas, alimentos e juros do outro) e por que a posição periférica é integração subordinada ao mercado mundial, nunca isolamento.
  • Ler David Ricardo (1817) contra o grão: entender a demonstração das vantagens comparativas e a crítica de Prebisch e da CEPAL (1949), de Furtado (1959) e de Cardoso e Faletto (1969) sobre a deterioração dos termos de troca e a dependência.
  • Descrever o encaixe do Brasil na periferia entre 1808 e 1850 (tarifa de 15% de 1810, alvará de 1808, Alves Branco 1844) e o que Mauá conseguiu e não conseguiu fazer entre 1846 e 1878.
  • Relacionar café, ferrovias, imigração, bancos, câmbio e indústria como um circuito (o complexo cafeeiro) e explicar, com Warren Dean e Wilson Cano, por que a fábrica paulista nasceu de importadores, imigrantes e fazendeiros, com os números dos censos de 1907 e 1920.
  • Caracterizar o primeiro operariado urbano (mulheres, crianças, imigrantes, jornadas de 10 a 14 horas) e a greve geral de 1917 como resposta organizada, sem idealizar nem apagar a agência dos trabalhadores.
  • Ler fontes no esquema observar, hipotetizar, contextualizar, corroborar: Ricardo (1817), o Tratado de 1810 e a tarifa de 1844, a série do café nas exportações e a 'socialização das perdas' de Furtado.
  • Situar as teses em disputa (Caio Prado Jr., Celso Furtado, Warren Dean, Wilson Suzigan, Wilson Cano, Raúl Prebisch, Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi, Alexander Gerschenkron) e saber onde elas discordam sobre o que é 'industrialização tardia'.
  • Julgar itens no molde do PAS e do ENEM sobre fases do capitalismo e sobre a industrialização brasileira, identificando a troca plantada: característica de uma fase colada em outra, indústria 'precoce' ou 'de base' no Império, 'transição' para a indústria em 1889, periferia como isolamento, exportar alimento como garantia de comer.

Em 1900, o Brasil exportou perto de nove milhões de sacas de café, mais da metade de tudo o que o mundo bebia, a maior parte pelo porto de Santos, e recebeu, nos mesmos navios que voltavam de Liverpool, Hamburgo e Nova York, o que a riqueza do café comprava: tecido de algodão de Lancashire, trilhos e locomotivas inglesas, querosene e farinha de trigo norte-americanos, cimento, vidro, máquinas de beneficiar café fabricadas na Alemanha. Nenhuma pessoa decidiu essa troca; ela era o resultado de um século de decisões, umas tomadas em Londres, outras no Rio de Janeiro, outras nas fazendas do oeste paulista. Quem lê a pauta de importações de 1900 vê que o país mais rico da América do Sul, dono do produto tropical mais lucrativo do planeta, comprava fora quase tudo o que usava e vendia fora quase tudo o que produzia. E, no entanto, na mesma cidade de São Paulo, um imigrante calabrês chamado Francesco Matarazzo acabava de abrir um moinho de trigo com capital emprestado em Londres e já pensava numa fiação. A pergunta desta página é essa tensão: como o capitalismo industrial, nascido na Inglaterra, dividiu o mundo entre quem fabrica e quem fornece; por que o Brasil entrou pelo lado de quem fornece e lá ficou por um século; e como, apesar disso, dentro do próprio café, nasceu a fábrica. Para responder é preciso passar por Adam Smith e David Ricardo, pelos tratados de 1810, pela tarifa de 1844, por Mauá, pelo Encilhamento, pelos censos industriais de 1907 e 1920, pela greve de 1917 e pela crise de 1929, e ouvir os historiadores e economistas que discordam sobre o que tudo isso significa: Caio Prado Jr., Celso Furtado, Raúl Prebisch, Warren Dean, Wilson Suzigan, Wilson Cano.

O vocabulário que a prova supõe sabido

  • Capital: riqueza empregada para produzir mais riqueza (dinheiro, máquinas, prédios, estoques, títulos). Capitalista é quem o possui e o aplica; capitalismo é o sistema em que a produção se organiza em torno desse investimento, com trabalho assalariado e mercado. A palavra entrou no vocabulário corrente por volta de 1860.
  • Fases do capitalismo: a periodização escolar distingue uma fase comercial ou mercantil (séculos XVI a XVIII: comércio ultramarino, tráfico, pacto colonial, Estado dirigindo a economia), uma fase industrial (fins do XVIII ao XIX: fábrica, trabalho assalariado, liberalismo econômico) e uma fase financeira ou monopolista (fins do XIX em diante: grandes empresas, trustes e cartéis, bancos sócios da indústria, exportação de capitais, imperialismo). Cada fase tem uma doutrina que a defende e um lugar do mundo que a comanda.
  • Divisão internacional do trabalho (DIT): a repartição das funções econômicas entre países. Na versão do século XIX, uns produzem manufaturas, capitais e técnica; outros fornecem matérias-primas e alimentos e compram o que os primeiros fabricam.
  • Centro e periferia: os dois polos dessa divisão. Os termos foram fixados pelo economista argentino Raúl Prebisch, em 1949, num relatório para a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), e viraram a chave de leitura da economia latino-americana. O sociólogo Immanuel Wallerstein propôs em 1974 um terceiro termo, semiperiferia, para os países em que indústria própria e exportação primária coexistem, e em que o capital entra e sai.
  • Vantagens comparativas: a demonstração de David Ricardo (1817) de que dois países ganham ao se especializar no que cada um faz relativamente melhor e trocar o resto, mesmo que um deles faça tudo melhor em termos absolutos. É a base teórica do livre-comércio.
  • Termos de troca: a relação entre o preço do que um país exporta e o preço do que importa. Se o café cai e a máquina sobe, os termos de troca pioram: é preciso vender mais sacas para comprar a mesma máquina. A tese da deterioração dos termos de troca (Prebisch e Hans Singer, 1949–1950) diz que, no longo prazo, os preços dos produtos primários caem em relação aos industriais.
  • Dependência: a tese, elaborada nos anos 1960 (Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, André Gunder Frank, Theotonio dos Santos, Ruy Mauro Marini), de que o subdesenvolvimento da periferia não é “atraso” numa escada que todos sobem, mas uma forma específica de inserção no capitalismo mundial, produzida pela mesma expansão que fez o centro.
  • Livre-comércio e protecionismo: a doutrina de que fronteiras abertas beneficiam todos (Smith, Ricardo, a Inglaterra depois de 1846) e a doutrina de que uma indústria nascente precisa de tarifas para crescer (Alexander Hamilton nos Estados Unidos, 1791; Friedrich List na Alemanha, 1841). O instrumento do protecionismo é a tarifa alfandegária (imposto de importação).
  • Padrão-ouro: o sistema em que a moeda de um país é conversível em ouro a uma taxa fixa, o que fixa também o câmbio entre países. A Inglaterra o adotou em 1821; o Brasil tentou várias vezes (1846, 1906, 1927) e nunca o sustentou por muito tempo.
  • Tratado desigual: acordo comercial imposto por uma potência a um país mais fraco, com tarifas baixas para os produtos da potência e privilégios jurídicos para seus cidadãos. Os tratados de 1810 entre Portugal e a Grã-Bretanha, aplicados ao Brasil, e o Tratado de Nanquim de 1842, imposto à China, são os exemplos clássicos.
  • Economia primário-exportadora ou agroexportadora: economia cujo eixo dinâmico é a venda de um ou poucos produtos primários (açúcar, café, borracha) ao mercado externo.
  • Substituição de importações: a industrialização que cresce fabricando dentro do país o que antes se comprava fora, em geral quando uma crise (guerra, depressão) corta a importação. O conceito foi formulado pela CEPAL para descrever o Brasil e a América Latina depois de 1930.
  • Industrialização tardia: a dos países que industrializaram depois da Inglaterra e sem repetir seu caminho, com papel maior do Estado e dos bancos (Alexander Gerschenkron, 1962). No Brasil, o termo descreve uma indústria que nasce no fim do século XIX como apêndice do café e só se torna o centro da economia depois de 1930.

Uma linha do tempo de 1776 a 1930

Linha do tempo de 1776 a 1930: o mundo em cima, o Brasil embaixo

A linha tem duas faixas, e os itens de prova se decidem muitas vezes só por saber em qual delas, e em que década, cada fato cai. No mundo: A riqueza das nações, de Adam Smith (1776); os Princípios de economia política e tributação, de Ricardo (1817); o padrão-ouro inglês (1821); o relatório de Hamilton sobre as manufaturas (1791) e o Sistema nacional de economia política, de List (1841); a abolição das Corn Laws, que abriu o mercado inglês de grãos (1846); o Tratado de Nanquim (1842); a Grande Exposição de Londres (1851); a crise de 1873 e a longa depressão de preços que durou até meados dos anos 1890; a corrida imperialista (1870–1914); a Primeira Guerra (1914–1918); a quebra da bolsa de Nova York (1929). No Brasil: a abertura dos portos e o alvará que liberou as manufaturas (1808); os tratados com a Grã-Bretanha (1810); a tarifa Alves Branco (1844); a primeira fábrica de tecidos de algodão de porte, em Valença, na Bahia (1844–1847); o fim do tráfico e a Lei de Terras (1850); o estaleiro de Ponta da Areia (1846), a Estrada de Ferro Mauá (1854) e a quebra do Banco Mauá (1875–1878); a Lei dos Entraves (1860); as primeiras tarifas protecionistas da República (anos 1890) e o Encilhamento (1889–1891); o censo industrial de 1907; a greve geral de São Paulo (1917); o censo de 1920; a crise de 1929 e o governo que começa em 1930.

Capitalismo é um sistema com história: três fases e vários nomes

Esquema das fases do capitalismo: comercial, industrial, financeira ou monopolista

A palavra “capitalismo” é mais nova do que a coisa. Comerciantes de Gênova e Veneza emprestavam a juros e financiavam viagens no século XIV; banqueiros de Augsburgo financiavam reis no XVI; companhias de comércio holandesas e inglesas vendiam ações no XVII. O que o século XIX acrescentou foi a fábrica, e com ela um modo de organizar toda a sociedade em torno do investimento que busca lucro, do trabalho vendido por salário e do mercado como regulador. Desde então, historiadores e economistas tentam dividir essa história em fases, e as divisões não coincidem.

Três fases, e o que cada uma quer dizer

A periodização que a escola e a prova usam distingue três fases pelo tipo de atividade que comanda a acumulação. Na fase comercial (séculos XVI–XVIII), o lucro vem do comércio de longa distância, do tráfico de pessoas escravizadas e do monopólio colonial; o Estado dirige a economia (mercantilismo), e a colônia só comercia com a metrópole (pacto colonial). Na fase industrial (fins do XVIII–XIX), o lucro vem da produção fabril com trabalho assalariado; a doutrina é o liberalismo econômico, que prega mercado livre e Estado mínimo, embora na prática a Inglaterra tenha protegido suas fábricas até ter certeza de que ninguém as alcançaria. Na fase financeira ou monopolista (de fins do XIX em diante), o lucro vem cada vez mais da grande empresa, dos bancos que se tornam sócios da indústria, da exportação de capitais e dos cartéis; a doutrina ainda é liberal, mas a prática é a concentração, e a expansão vira conquista (imperialismo). O erro mais comum em prova é colar a característica de uma fase no nome de outra: pacto colonial na era do liberalismo, trustes no século XVIII, livre-comércio no mercantilismo.

Os nomes variam conforme o autor, e vale conhecer os principais. Para Eric Hobsbawm, cujos três livros sobre o século XIX são a periodização mais usada nas escolas, o “longo século XIX” vai de 1789 a 1914 e tem uma era das revoluções (1789–1848), uma era do capital (1848–1875), em que o capitalismo industrial triunfa e se espalha, e uma era dos impérios (1875–1914), em que a concorrência entre potências industriais se transforma em partilha do mundo. Para Fernand Braudel, o capitalismo não é o mercado: é a camada de cima, a dos grandes mercadores e financistas que escapam das regras do mercado e vivem de monopólios e de informação; por isso ele existe desde a Itália medieval e muda de sede (Veneza, Antuérpia, Gênova, Amsterdã, Londres, Nova York). Immanuel Wallerstein transformou essa ideia num modelo: desde o século XVI existe uma economia-mundo capitalista, com um centro que acumula, uma periferia que fornece trabalho barato e matéria-prima e uma semiperiferia que faz as duas coisas; os países não “se desenvolvem” um a um, trocam de posição dentro de um sistema que já é mundial. Giovanni Arrighi, em O longo século XX (1994), leu a mesma história como uma sucessão de ciclos de acumulação, cada um comandado por uma potência (Gênova, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos) e cada um terminando numa fase financeira, em que o capital abandona a produção e vai para a especulação. Para o aluno, o que importa é perceber que essas leituras concordam num ponto: o capitalismo não é um sistema que cada país adota ou deixa de adotar; é um sistema que distribui posições, e a posição de um país se explica pela história do conjunto.

Duas fronteiras de trás merecem cuidado. O fim da Idade Média, com suas feiras, seus moinhos e suas cidades comerciais, não é ainda capitalismo: a produção era artesanal e camponesa, e a riqueza mercantil convivia com a servidão. E as monarquias absolutas não saíram fortalecidas da concentração de capital do século XIX: o absolutismo era a forma política do Antigo Regime, e as revoluções que o desmontaram (Inglaterra no século XVII, Estados Unidos e França no XVIII) foram feitas, em parte, pela burguesia que o capital industrial enriquecia. Quem quiser as duas transições tem páginas próprias: cidades-medievais-e-crise-do-feudalismo e revolucao-francesa.

Quem fabrica e quem fornece: a divisão internacional do trabalho

Mapa-esquema do mundo por volta de 1900: centro industrial, periferia fornecedora e os três fluxos

Olhe o mapa por volta de 1900. O centro é pequeno: Grã-Bretanha, Alemanha, França, Bélgica, o nordeste dos Estados Unidos e, já então, o Japão. Dele saem três fluxos. O primeiro é de mercadorias industriais: tecidos, ferro, máquinas, trilhos, locomotivas, querosene, produtos químicos. O segundo é de capital: empréstimos a governos, ações de ferrovias, companhias de gás, de porto, de bondes, bancos. O terceiro é de técnica e gente: engenheiros, patentes, imigrantes. Da periferia (América Latina, Índia, Egito, Austrália, Canadá, a África depois de 1885) voltam os produtos primários (café, algodão, lã, trigo, carne, borracha, cobre, guano, açúcar) e os juros e lucros dos capitais aplicados. A Grã-Bretanha era, ao mesmo tempo, a maior fábrica, o maior banco, a maior frota e o maior comprador de matérias-primas do mundo; por isso se chamou a si mesma de “oficina do mundo”.

O circuito e por que ele se reproduz

A divisão internacional do trabalho não é um estado, é um circuito, e cada volta reforça a posição de cada polo. Quem vende manufaturas acumula capital, técnica, engenheiros e bancos, e com isso faz a próxima máquina mais barata. Quem vende café ganha em anos de preço alto e perde em anos de preço baixo, mas, nos dois casos, o que ganha vai para mais café (terra, braços, trilhos para escoar) e para comprar o que não fabrica. A periferia não está fora do mercado mundial: está dentro dele, na posição de quem fornece, e quanto mais vende, mais se especializa. É por isso que a palavra certa é integração subordinada, nunca isolamento. Qualquer item que descreva a periferia do século XIX como “desligada” do mercado mundial inverte o mecanismo.

Três observações evitam caricaturas. Primeiro, a periferia não era só colônia: o Brasil, a Argentina, o Chile e o México eram independentes, e sua posição foi construída por tratados, tarifas, empréstimos e decisões de suas próprias elites, não apenas por imposição externa. Segundo, dentro da periferia havia diferenças enormes: a Argentina de 1900 tinha renda por habitante comparável à da França; a Índia, submetida ao domínio britânico direto, viu sua produção têxtil artesanal arruinada pelo tecido de Manchester e foi reorientada para fornecer algodão, juta e ópio, este vendido à China. Terceiro, o centro também mudou de composição: em 1850 a Inglaterra era praticamente sozinha; em 1900, a Alemanha e os Estados Unidos a tinham alcançado em aço e ultrapassado em química e eletricidade, e a disputa entre eles é o pano de fundo do imperialismo e da Primeira Guerra. A Segunda Revolução Industrial, que produziu essas duas potências, tem página própria (revolucao-industrial); aqui ela entra como a razão pela qual a fase financeira começa: a empresa gigante e o banco industrial são seus filhos.

Leitura de fonte 1: Ricardo e o vinho português, lidos contra o grão

David Ricardo, corretor da bolsa de Londres (e deputado a partir de 1819), publicou em 1817 os Princípios de economia política e tributação. No capítulo 7, “Sobre o comércio exterior”, ele imagina dois países, a Inglaterra e Portugal, e dois produtos, tecido e vinho. Portugal produz os dois com menos trabalho do que a Inglaterra: digamos, 80 homens por ano para o vinho e 90 para o tecido, contra 120 e 100 na Inglaterra. Mesmo assim, diz Ricardo, convém a Portugal fazer só vinho e comprar tecido inglês, porque, trocando vinho por tecido, obtém o pano com o trabalho de 80 homens em vez de 90; e convém à Inglaterra fazer só tecido, porque obtém o vinho com 100 em vez de 120. Os dois ganham. É a demonstração mais famosa da economia, e ela está correta como aritmética.

Observar. O exemplo não é neutro. Ricardo escolheu precisamente os dois países ligados, desde 1703 (Tratado de Methuen), por um acordo em que Portugal abria seu mercado ao tecido inglês e a Inglaterra reduzia a tarifa do vinho português. E escolheu para Portugal o produto que não gera nada além de si mesmo (o vinho não ensina a fazer máquinas) e para a Inglaterra o produto que, em 1817, estava sendo transformado pela fábrica. Hipotetizar. Se o exemplo é um retrato do mundo que Ricardo vê da bolsa de Londres, então a teoria descreve, e ao mesmo tempo legitima, a divisão em que a Inglaterra já estava ganhando. Contextualizar. Em 1817, a Inglaterra era a única economia industrial do mundo, protegia seus grãos com as Corn Laws (contra as quais o próprio Ricardo lutava) e seus tecidos com o veto à saída de máquinas; Portugal perdera o Brasil como mercado exclusivo em 1808 e vivia sob tutela militar britânica (o marechal Beresford comandava o exército português) desde a guerra contra Napoleão. A “vantagem comparativa” de Portugal no vinho era, em boa parte, resultado de um século de tratado desigual. Corroborar. A crítica veio de dentro da própria teoria: Friedrich List escreveu em 1841 que o livre-comércio é a doutrina de quem já subiu e “chuta a escada” para que os outros não subam; e Raúl Prebisch mostrou em 1949, com séries de preços de 1876 a 1938, que os termos de troca dos países primários haviam piorado, isto é, que o vinho comprava cada vez menos tecido. A aritmética de Ricardo vale para um instante; a história corre no tempo, e no tempo o tecido aprendeu a fazer locomotivas e o vinho continuou vinho.

E as outras leituras? Economistas liberais respondem que a especialização de fato enriqueceu países periféricos de clima temperado (Austrália, Argentina, Canadá) que depois industrializaram, e que o problema do Brasil não foi exportar café, mas o que fez com a renda do café (escravidão até 1888, concentração de terra, pouca escola). A posição mais aceita hoje em história econômica fica no meio: a especialização primária gerou renda real, mas a forma como essa renda foi distribuída e investida, e as regras do comércio (tarifas, câmbio, dívida), decidiram quem converteu renda em indústria e quem não converteu. Ler Ricardo contra o grão não é dizer que ele errou a conta; é perguntar quem escolheu os produtos do exemplo.

Livre-comércio para quem? A oficina do mundo, o padrão-ouro e os tratados desiguais

A Inglaterra só virou livre-cambista depois de ter o que vender. Entre 1700 e 1840, protegeu seus tecidos com tarifas, vetou a saída de máquinas e de mestres de ofício, reservou o comércio colonial à sua marinha mercante (Atos de Navegação) e protegeu seus grãos com as Corn Laws. Quando a fábrica já não tinha rival, a doutrina mudou: as Corn Laws caíram em 1846, os Atos de Navegação em 1849, e a Exposição de Londres de 1851, sob o vidro do Palácio de Cristal, mostrou ao mundo a “oficina do mundo” e o programa que ela oferecia aos outros: comprem nossas manufaturas, vendam-nos matérias-primas, deixem o mercado decidir. Para fazer o resto do mundo aceitar o programa, usou três instrumentos.

O primeiro foi o tratado comercial, oferecido a quem precisava de proteção política (Portugal em 1810, a Turquia em 1838) ou imposto pela força a quem resistia (a China em 1842, depois da Guerra do Ópio, pelo Tratado de Nanquim, que abriu cinco portos, cedeu Hong Kong e fixou tarifas baixas). O segundo foi o capital: empréstimos aos governos recém-independentes da América Latina já nos anos 1820, depois ações de ferrovias, companhias de gás e bancos, que davam à praça de Londres um interesse direto em que o café, o guano e o trigo continuassem saindo. O terceiro foi o padrão-ouro, adotado pela Inglaterra em 1821 e, a partir dos anos 1870, pela Alemanha, pela França e pelos Estados Unidos: quem queria crédito em Londres precisava manter sua moeda conversível, o que obrigava a equilibrar as contas externas vendendo mais primários, e não a proteger a indústria.

Nem todos aceitaram. Alexander Hamilton, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, escreveu em 1791 que uma nação sem manufaturas é uma nação dependente, e o Congresso ergueu tarifas que durariam o século inteiro; Friedrich List, exilado alemão que viveu nos Estados Unidos, sistematizou em 1841 a tese da indústria nascente: enquanto for criança, a fábrica precisa de proteção, e o livre-comércio é a doutrina correta só para quem já cresceu. A Alemanha unificada seguiu List a partir de 1879, e os dois países que alcançaram a Inglaterra no fim do século foram justamente os dois que não seguiram Ricardo. A periferia latino-americana, em geral, seguiu: tinha elites que viviam de exportar, dívidas em Londres e nenhuma indústria para proteger. O Brasil é o caso que esta página acompanha.

Liberalismo na doutrina, proteção na prática

A prova gosta de testar se o aluno confunde o que os países diziam com o que faziam. A Inglaterra protegeu suas fábricas enquanto cresciam e pregou o livre-comércio depois; os Estados Unidos e a Alemanha industrializaram com tarifas altas; o Brasil imperial oscilou entre a tarifa de 15% imposta em 1810 e a tarifa protecionista de 1844, e a República dos cafeicultores foi, na prática, mais protecionista do que o Império. Um item que atribua ao livre-cambismo a industrialização alemã ou norte-americana, ou que descreva a Inglaterra de 1800 como livre-cambista, está trocando a doutrina pela prática.

Leitura de fonte 2: o artigo 15 do Tratado de 1810 e a tarifa de 1844

Dois textos legais, lidos em sequência, contam a entrada do Brasil na divisão do mundo. O primeiro é o Tratado de Comércio e Navegação assinado no Rio de Janeiro em 19 de fevereiro de 1810 entre o príncipe regente D. João e o rei da Grã-Bretanha. Seu artigo 15 fixa que as mercadorias britânicas importadas pelos portos do Brasil pagarão direitos de 15% sobre o valor, enquanto as de outras nações pagavam 24% (a tarifa geral fixada na abertura dos portos de 1808) e as portuguesas, 16%. O artigo 10 cria um juiz conservador da nação britânica, isto é, um tribunal próprio para julgar os ingleses no Brasil. O segundo texto é o decreto n.º 376, de 12 de agosto de 1844, assinado pelo ministro da Fazenda Manuel Alves Branco, que, expirado o tratado, fixou uma tarifa geral de 30% para a maioria das mercadorias importadas e alíquotas que chegavam a 60% para artigos que tivessem similar produzido no país.

Observar. O tratado de 1810 não é um acordo entre iguais: a tarifa do aliado é menor do que a da própria metrópole, e o súdito britânico tem juiz próprio. Nada no texto fala em indústria brasileira, porque não havia nenhuma a proteger (o alvará de 1.º de abril de 1808, que revogara a proibição de manufaturas de 1785, tinha dois anos). A tarifa de 1844 fala, pela primeira vez, em “similar nacional”: o Estado passa a enxergar a existência de uma produção interna a defender. Hipotetizar. Entre 1810 e 1844 o Brasil importou tecido inglês com a menor tarifa do mundo, e nenhuma fiação de porte sobreviveu; depois de 1844 as primeiras fábricas têxteis de algodão (Valença, na Bahia, 1844–1847; depois Minas, Rio e São Paulo) aparecem e se multiplicam. A hipótese é que a tarifa importa. Contextualizar. D. João assinou o tratado porque devia à marinha britânica a própria chegada ao Brasil e a defesa de Portugal; Alves Branco assinou a tarifa num governo liberal, em plena pressão inglesa pelo fim do tráfico (a Lei Aberdeen é de 1845) e, sobretudo, porque o Tesouro precisava da renda da alfândega, que era a maior receita do Império: a tarifa de 1844 foi antes fiscal do que industrialista, e o próprio Alves Branco a defendeu nos dois registros. Corroborar. Os números dão razão à hipótese só em parte: as fábricas de tecido nascem depois de 1844, mas eram nove em 1866 e 48 em 1885, um parque mínimo para um país de dez milhões de habitantes; a tarifa foi reduzida em 1857 e 1860, voltou a subir em 1874 e 1879, e o que decidiu a sorte da indústria não foi só ela, mas o câmbio, o preço do café e a oferta de braços. Uma tarifa abre a porta; não constrói a fábrica.

E as outras leituras? Uma tradição nacionalista (Roberto Simonsen nos anos 1930, Caio Prado Jr. e boa parte dos manuais) lê 1810 como a hipoteca que atrasou a indústria brasileira em meio século, e 1844 como a primeira tentativa de resgatá-la. Historiadores econômicos recentes (Marcelo de Paiva Abreu, Luiz Aranha Corrêa do Lago) relativizam: mesmo com tarifa zero, o Brasil de 1820, escravista, sem carvão, sem mercado interno e sem crédito, não teria industrializado; e a tarifa de 1844 foi, nas palavras do ministro, uma medida de receita. As duas leituras concordam que o Tratado de 1810 selou a posição periférica; discordam sobre se outra posição era possível.

O Brasil entra pela porta da periferia: 1808–1850

Em 1808, a chegada da Corte abriu os portos “às nações amigas”, isto é, à Inglaterra, única nação amiga com navios no Atlântico naquele ano. Em 1810, o tratado fixou a tarifa. Em 1822, a Independência manteve tudo: a dívida portuguesa foi assumida pelo Brasil, o tratado foi renovado em 1827 por mais quinze anos, e o reconhecimento inglês da Independência custou o compromisso de acabar com o tráfico (lei de 1831, que não se cumpriu até 1850). Nas três décadas seguintes, o país vendeu açúcar, algodão, couro, fumo e, cada vez mais, café, e comprou de Londres o resto: entre 1821 e 1850 a Grã-Bretanha forneceu perto de metade de tudo o que o Brasil importou, e os tecidos de algodão eram o item mais pesado da pauta.

A década de 1840 fechou o desenho. A tarifa de 1844 deu ao Tesouro a renda e à indústria uma porta entreaberta. A Lei Eusébio de Queirós (4 de setembro de 1850) acabou com o tráfico e liberou, de repente, o capital que todo ano comprava gente: uma parcela expressiva do que o país gastava com importações no fim dos anos 1840 ia para a compra de africanos escravizados; depois de 1850 esse dinheiro procurou outros destinos (bancos, ferrovias, companhias, especulação), e é a esse momento que a historiografia liga a “era Mauá”. A Lei de Terras (18 de setembro de 1850), ao tornar a compra a única forma de acesso à terra devoluta, decidiu que o trabalhador livre que viesse não seria pequeno proprietário, mas assalariado ou colono; quem quiser essa lei por dentro encontra a página brasil-imperio. E o Código Comercial, do mesmo ano, deu às sociedades anônimas e às letras de câmbio um regime legal. Em 1850, portanto, o Brasil tinha os ingredientes jurídicos de uma economia capitalista, e a posição de fornecedor na economia mundial. O que não tinha era carvão, mercado interno (três quartos da população eram pobres, escravizados ou livres sem renda monetária) e crédito barato.

Mauá: o que um banqueiro-industrial podia e não podia fazer

Irineu Evangelista de Sousa nasceu em 1813 no Rio Grande do Sul, ficou órfão de pai, trabalhou como caixeiro no Rio de Janeiro e tornou-se sócio da casa comercial do escocês Richard Carruthers, que o levou à Inglaterra em 1840. Voltou convencido de que o Brasil precisava de fábricas, e em 1846 comprou uma fundição falida em Niterói e a transformou no estabelecimento de Ponta da Areia: estaleiro, fundição e oficina mecânica que chegou a mil operários e fabricou navios, canos de ferro para o abastecimento de água do Rio, caldeiras e peças de engenho. Em 1851 contratou a iluminação a gás do Rio de Janeiro (inaugurada em 1854); no mesmo 1854 abriu a primeira ferrovia do país, da baía de Guanabara à raiz da serra de Petrópolis (14,5 km), e o Banco Mauá, MacGregor & Cia., com filiais em Londres, Buenos Aires e Montevidéu; organizou a navegação a vapor do Amazonas e financiou o cabo submarino entre o Brasil e a Europa (1874). Foi o maior empresário do Império e, por duas décadas, o homem mais rico do país.

Caiu. Ponta da Areia foi incendiada em 1857 e nunca recuperou a escala; as tarifas de 1857 (Souza Franco) e de 1860 (Silva Ferraz) reduziram a proteção que a de 1844 dera; a Lei n.º 1.083, de 22 de agosto de 1860, que os contemporâneos chamaram de Lei dos Entraves, submeteu bancos e sociedades anônimas a controles que restringiam a emissão e o crédito; as ferrovias que ele ajudara a financiar foram passando a companhias inglesas com garantia de juros pelo Tesouro; os negócios no Uruguai se perderam nas guerras do Prata. Em 1875 pediu moratória e em 1878 a falência foi decretada; pagou os credores vendendo tudo e morreu em outubro de 1889, menos de um mês antes da República. A lição que a prova espera não é a do gênio traído, e sim a do limite estrutural: num país sem carvão, sem mercado interno, com o crédito controlado por um Estado que vivia da alfândega e com a elite investindo em café e escravizados, um empresário industrial dependia do Estado para tudo (tarifa, garantia de juros, autorização para emitir) e o Estado respondia aos interesses do café. Mauá não é o começo da industrialização brasileira; é a prova de que ela não podia começar em 1850 só com a vontade de um homem.

O Encilhamento (1889–1891): uma febre de papel que não virou fábrica

A República nasceu com um problema de dinheiro: a abolição de 1888 havia convertido os salários dos ex-escravizados em demanda por moeda, os cafeicultores pediam crédito para pagar colonos, e o Tesouro queria apoio. Rui Barbosa, ministro da Fazenda do governo provisório, respondeu com o decreto de 17 de janeiro de 1890: bancos regionais autorizados a emitir papel-moeda com lastro em títulos da dívida pública, e não em ouro. Em poucos meses, a emissão dobrou, o crédito ficou barato e a bolsa do Rio virou um hipódromo: centenas de companhias foram registradas, muitas só no papel, e suas ações subiam antes de qualquer fábrica existir. O nome vem daí: “encilhar” é arrear o cavalo antes da corrida, e os cronistas chamaram de Encilhamento a correria dos especuladores. Em 1891 a bolha estourou, o câmbio desabou, a inflação disparou e Rui já havia deixado o ministério. Alguns empreendimentos sobreviveram (fábricas têxteis, companhias de seguro, bancos), mas o saldo foi uma década de inflação, dívida e desconfiança, e o presidente Campos Sales (1898–1902) só a fechou com um acordo de refinanciamento com os banqueiros ingleses (o funding loan de 1898) e um ajuste recessivo.

Para esta página, o Encilhamento ensina o que distingue crédito de indústria. Emitir moeda e registrar companhias não cria fábricas; cria preços. O que a República dos cafeicultores fez de duradouro pela indústria veio de outra fonte, menos visível: as tarifas aduaneiras elevadas dos anos 1890 e 1900 e, sobretudo, a desvalorização do mil-réis, que encarecia o tecido importado e barateava, em moeda nacional, o salário do operário. O câmbio foi, até 1930, o protecionismo que o Brasil praticou sem confessar, e o próximo passo da história é ver de onde vinha o capital que aproveitou essa proteção: do café.

Café, capital, fábrica: o complexo cafeeiro de São Paulo

Esquema do complexo cafeeiro: do grão à fábrica, com os elos e os agentes

O café chegou ao oeste paulista nos anos 1860 e 1870 e encontrou ali a terra roxa, a ferrovia (Santos–Jundiaí em 1867, Paulista em 1872, Mogiana em 1875) e, depois de 1887, o imigrante com passagem paga pela província. O resultado foi uma economia que o economista Wilson Cano chamou de complexo cafeeiro: não uma lavoura, mas um conjunto de atividades ligadas entre si e todas pagas pelo grão. A fazenda precisava de máquinas de beneficiar, sacaria de juta, ferramentas, carroças; o café precisava de trilhos, armazéns, porto, casas comissárias que adiantavam dinheiro ao fazendeiro e vendiam a safra, bancos, companhias de seguro e exportadoras; o colono precisava de tecido barato, chapéu, sapato, farinha, cerveja, fósforo, sabão; a cidade de São Paulo, que passou de 65 mil habitantes em 1890 para 240 mil em 1900 e 580 mil em 1920, precisava de bondes, luz, água, cimento, tijolo. Cada uma dessas necessidades era um mercado, e um mercado pago em moeda, porque o colono recebia salário e o fazendeiro recebia em libras. Foi nesse circuito que a fábrica paulista nasceu.

Quem fundou as fábricas, segundo Warren Dean

Em A industrialização de São Paulo (1880–1945), publicado em 1969, o historiador norte-americano Warren Dean fez a pergunta mais simples e a mais útil: quem eram os donos das primeiras fábricas? A resposta tem três grupos. Primeiro, os importadores: casas comerciais que vendiam tecido, ferragens e máquinas estrangeiras e, conhecendo o mercado e tendo crédito em Londres, começaram a fabricar aqui o que antes importavam, quando o câmbio desvalorizado e a tarifa tornaram isso lucrativo. Segundo, os imigrantes que haviam feito fortuna no comércio: Francesco Matarazzo (moinho de trigo em 1900, fiação, óleo, banha, metalurgia, uma dezena de fábricas reunidas em 1911 nas Indústrias Reunidas F. Matarazzo), Rodolfo Crespi (tecidos, 1897), os Jafet (tecidos, 1906), os Klabin (papel). Terceiro, os próprios fazendeiros de café, em menor número do que a lenda diz: a família Prado fundou a Vidraria Santa Marina (1896) e sociedades de tecido, mas a maioria dos cafeicultores preferiu investir em mais café, em ferrovias e em bancos. A tese de Dean é que a fábrica não nasceu contra o café nem apesar dele, mas dele: do mercado que o café criou, do capital que o comércio do café acumulou e da mão de obra que a imigração para o café trouxe.

Os censos dão a medida. O primeiro levantamento industrial, de 1907, contou no país 3.258 estabelecimentos e cerca de 150 mil operários; o Distrito Federal (Rio de Janeiro) respondia por um terço do valor da produção, e São Paulo por 16%. O censo de 1920 contou 13.336 estabelecimentos e 275 mil operários, e São Paulo já respondia por 31% da produção, à frente do Rio. O que se fabricava era o que o mercado do café consumia: tecidos de algodão (a maior indústria, com cerca de 240 fábricas em 1915), alimentos e bebidas, chapéus, calçados, sabão, velas, fósforos, cerveja, móveis, e um pouco de metalurgia leve. Não havia siderurgia de porte (a primeira usina integrada a coque, Volta Redonda, é de 1946), nem indústria de máquinas, nem química de base: o país fabricava bens de consumo e importava os bens de produção. É essa composição que distingue uma “indústria de bens de consumo leves” de uma industrialização completa, e que explica por que, em 1920, com 13 mil fábricas, o Brasil continuava comprando fora quase toda máquina que usava.

Leitura de fonte 3: a série do café e os censos, lidos juntos

Gráfico: participação do café no valor das exportações brasileiras por década, 1821–1930, e os censos industriais de 1907 e 1920

A série que o gráfico mostra vem das estatísticas históricas do IBGE e diz, década a década, quanto do valor exportado pelo Brasil era café: menos de um quinto nos anos 1820, pouco mais de dois quintos nos anos 1830 e 1840, perto da metade nos anos 1850 e 1860, cerca de três quintos nos anos 1880 e 1890, metade nas duas primeiras décadas do século XX (quando a borracha e o algodão subiram) e sete décimos nos anos 1920. Sobre a mesma linha do tempo estão marcados os dois censos industriais: 3.258 estabelecimentos em 1907 e 13.336 em 1920.

Observar. As duas curvas sobem juntas. A década em que a indústria quadruplica o número de fábricas (1907–1920) é também a década em que o café volta a ser 70% da pauta. Hipotetizar. Se as duas coisas crescem ao mesmo tempo, a tese de que a indústria nasce contra o café (ou só quando o café entra em crise) está errada, ou pelo menos incompleta; a hipótese alternativa é que a indústria cresce com o café, financiada por ele e vendendo para o mercado que ele cria. Contextualizar. É exatamente a tese de Wilson Suzigan em Indústria brasileira: origem e desenvolvimento (1986): o investimento industrial brasileiro, medido pela importação de máquinas, acompanhou os anos de bonança do café e caiu nos anos de crise, porque era nos anos bons que havia capital e demanda. Celso Furtado, em 1959, tinha proposto a sequência oposta para o pós-1929: a crise do café é que teria deslocado o capital para a indústria. As duas teses não se excluem, e a data decide: antes de 1930, indústria e café crescem juntos; depois de 1930, a indústria cresce apesar do café. Corroborar. Confronte com a composição da pauta de importações: em 1920 o Brasil importava menos tecido do que em 1900 (a fábrica nacional substituiu o pano inglês comum) e muito mais máquina, ferro, cimento e combustível. A indústria de bens de consumo substituiu importações; a de bens de produção, não. É a diferença entre uma indústria que cresce e uma economia que se industrializa.

E as outras leituras? Uma leitura cepalina clássica insiste que a série do café prova a dependência: setenta por cento da renda externa de um país preso a um único preço, fixado em Nova York e Le Havre, é fragilidade estrutural, e a crise de 1929 mostrou isso em um ano. Uma leitura liberal responde que a mesma série prova que a especialização funcionou: o café pagou a maior rede ferroviária da América do Sul, a imigração, a urbanização e, por fim, a própria indústria. O historiador deve segurar as duas: a série mostra uma economia que enriqueceu exportando e, por isso mesmo, demorou a diversificar.

Os primeiros operários: mulheres, crianças, imigrantes, e a greve de 1917

A fábrica paulista foi feita de gente que o café tinha trazido. Em 1901, um levantamento sobre a indústria do estado de São Paulo registrou que mulheres eram metade do operariado têxtil, e crianças, quase um quarto: três em cada quatro trabalhadores das fiações eram mulheres e menores. A maioria era imigrante ou filha de imigrante, italiana sobretudo, vinda das fazendas de café que os contratos de colonato não seguravam. A jornada ia de dez a quatorze horas; o salário era por peça, e caía quando a fábrica queria; a multa por atraso e o castigo físico de menores eram práticas correntes; não havia férias, descanso remunerado, indenização por acidente nem aposentadoria. Em volta das fábricas do Brás, da Mooca e do Bom Retiro cresceram os cortiços e as vilas operárias, e as epidemias (varíola, tifo, gripe) faziam o resto. Nada disso era específico do Brasil: era o quadro das primeiras décadas de qualquer fábrica, da Inglaterra de 1830 à Suíça de 1870, com uma diferença, a de que aqui não havia, até 1930, lei nenhuma que o limitasse. A lei paulista de 1917 sobre trabalho de menores e as leis federais de 1919 (acidentes) e 1923 (caixas de aposentadoria dos ferroviários) foram os primeiros gestos; a jornada de oito horas, a proibição do trabalho infantil, a carteira e as férias são da década de 1930 e da CLT de 1943.

Os operários responderam como os ingleses de um século antes: jornais em italiano e português, sociedades de socorro mútuo, ligas por ofício, sindicatos, e a doutrina que fez mais sentido para gente sem voto e sem lei, o anarquismo (e, em menor escala, o socialismo), que pregava a ação direta e a greve geral. Em junho de 1917, com o custo de vida inflado pela guerra, as tecelãs e tecelões do Cotonifício Crespi, na Mooca, pararam; a greve se espalhou pelo bairro, pela cidade e, em julho, depois que a polícia matou o sapateiro José Martinez, virou greve geral: entre cinquenta e setenta mil trabalhadores parados, a cidade sem bondes nem pão, um Comitê de Defesa Proletária negociando com os patrões por intermédio de jornalistas, e a vitória parcial (aumento de 20%, promessa de respeitar a jornada e de não demitir grevistas). A greve de 1917 é o ponto em que a classe operária brasileira entra na história como sujeito, e a prova a usa para testar duas coisas: se o aluno sabe que havia movimento operário no Brasil antes da Revolução Russa chegar aqui, e se ele reconhece o protagonismo das mulheres, que eram a maioria nas fiações e nas ruas.

Nem harmonia, nem apocalipse sem agência

Dois erros simétricos derrubam itens sobre o operariado. O primeiro idealiza: “a industrialização garantiu aos trabalhadores renda e bem-estar”; o quadro de 1901 desmente. O segundo apaga o sujeito: “os reflexos da Revolução Russa demoraram a chegar, o que explica a ausência de greves no Brasil”; 1917 em São Paulo desmente, e 1917 é também o ano da Revolução Russa, não uma consequência dela. O item certo sobre o tema costuma registrar, ao mesmo tempo, a exploração documentada e a resposta organizada dos trabalhadores.

Primeira Guerra e 1929: dois choques, uma tese e a virada de 1930

A Primeira Guerra (1914–1918) cortou a importação de manufaturas e deu às fábricas existentes quatro anos de mercado cativo: a produção industrial cresceu, as fábricas de tecido trabalharam em três turnos, e a lenda escolar diz que a guerra “industrializou o Brasil”. Warren Dean e Albert Fishlow mostraram o limite: a guerra fez crescer a produção nas fábricas que já existiam, mas quase não houve investimento novo, porque as máquinas vinham justamente dos países em guerra; o grande surto de importação de máquinas foi antes (1907–1913) e depois (1919–1929). A guerra confirmou o que a tarifa e o câmbio já faziam: proteger quem já fabricava.

A crise de 1929 foi diferente, porque atingiu o café. O preço caiu a um terço entre 1929 e 1931; os estoques acumulados pela política de valorização não tinham comprador; o crédito externo sumiu; o câmbio desabou. O governo que se instalou em outubro de 1930 comprou e queimou café (cerca de 78 milhões de sacas entre 1931 e 1944) para sustentar o preço, e com isso sustentou a renda dos fazendeiros e dos colonos; e o mil-réis desvalorizado tornou qualquer importação proibitiva. A indústria que já existia cresceu para ocupar o espaço: é a industrialização por substituição de importações, nome que a CEPAL deu, nos anos 1950, ao que o Brasil, a Argentina e o México fizeram a partir dos anos 1930. O economista Celso Furtado chamou o processo de deslocamento do centro dinâmico: pela primeira vez, o eixo da economia mudou para o mercado interno, e não para o preço do café em Nova York. A era Vargas e seu desdobramento têm páginas próprias no PAS 3; aqui 1930 é o fecho de um século, o momento em que a posição periférica começa a mudar de forma sem desaparecer.

Leitura de fonte 4: Furtado e a “socialização das perdas”

Em Formação econômica do Brasil (1959), Celso Furtado descreve um mecanismo que ele chama de socialização das perdas. Em anos de queda do preço do café, o governo deixava o mil-réis desvalorizar; o fazendeiro, que vendia em libras ou dólares, recebia em moeda nacional quase o mesmo de antes, porque cada libra agora valia mais mil-réis; mas toda a população, que comprava tecido, querosene, trigo e remédio importados, pagava mais caro por eles. A perda do café era, assim, repartida com quem não plantava café. Na crise de 1929, diz Furtado, o mesmo mecanismo, somado à compra de estoques pelo governo, manteve a renda interna e, sem querer, criou o mercado que a indústria aproveitaria.

Observar. O texto é de um economista, escrito em 1959, no auge do desenvolvimentismo, por um autor que viera da CEPAL (onde trabalhou de 1949 a 1957) e que, no mesmo ano, assumiria a Sudene. O mecanismo descrito é técnico (câmbio, preço, renda), mas o nome que ele recebe, “socialização das perdas”, é uma acusação. Hipotetizar. A hipótese de Furtado é que a política econômica do Brasil, do Império à República, foi feita pelo café e para o café, e que a indústria foi um efeito colateral. Contextualizar. Furtado escrevia para justificar outra política: um Estado que planejasse a industrialização em vez de deixá-la ao acaso dos preços; e escrevia contra a tese de que a especialização primária beneficiara o país. Corroborar. Historiadores econômicos posteriores confirmaram o mecanismo cambial, mas discutiram seu alcance: Suzigan mostrou que o investimento industrial crescia nos anos bons do café, não nos ruins, o que enfraquece a ideia de que a crise industrializa; e a Caixa de Conversão de 1906, que fixou o câmbio a pedido dos próprios cafeicultores, mostra que eles nem sempre queriam a desvalorização. A fonte continua indispensável, mas como tese, não como veredicto.

E as outras leituras? Para a historiografia liberal (Gustavo Franco, por exemplo, sobre a década de 1890), a desvalorização não foi um plano, foi o resultado de déficits e de emissão; para a historiografia marxista (Francisco de Oliveira, Crítica à razão dualista, 1972), a oposição entre “setor atrasado” (café) e “setor moderno” (indústria) é falsa, porque o atraso de um financiava o avanço do outro, dentro da mesma acumulação. As três leituras disputam a mesma década de 1930; o que nenhuma nega é que, antes dela, o centro dinâmico estava fora.

Onde os historiadores discordam: vantagens comparativas × dependência, e o que é “tardio”

Esquema comparando os dois modelos: vantagens comparativas e dependência

As teses em disputa

Caio Prado Jr. (Formação do Brasil contemporâneo, 1942; História econômica do Brasil, 1945) formulou o “sentido da colonização”: o Brasil nasceu como empresa para fornecer gêneros tropicais ao comércio europeu, e esse sentido atravessou a Independência e o Império, organizando a economia de fora para dentro; a indústria só rompe o sentido quando se volta para o mercado interno. Celso Furtado (Formação econômica do Brasil, 1959) pôs a tese em termos de mecanismos: cada ciclo exportador (açúcar, ouro, café) gera renda que não se converte em capital produtivo diversificado, porque vaza para a importação e para a compra de terra e gente; a mudança vem de fora, com a crise de 1929, e é o Estado que a completa. Raúl Prebisch e a CEPAL (1949) generalizaram para a América Latina: a deterioração dos termos de troca condena a periferia a correr para ficar no lugar, e a única saída é industrializar com proteção e planejamento. Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (Dependência e desenvolvimento na América Latina, 1969) recusaram a ideia de que a periferia não se desenvolve: ela se desenvolve de forma dependente, com indústria própria, mas controlada por capital, técnica e decisões externas, e com elites internas associadas a esse arranjo (a “dependência associada”); André Gunder Frank, Theotonio dos Santos e Ruy Mauro Marini foram mais longe e sustentaram que o próprio desenvolvimento do centro produz o subdesenvolvimento da periferia. Warren Dean (1969) e Wilson Suzigan (1986) deslocaram a pergunta da estrutura para os agentes e os números: a indústria paulista nasceu dentro do café, de importadores e imigrantes, e cresceu nos anos bons do café, não nos ruins; Wilson Cano (Raízes da concentração industrial em São Paulo, 1977) explicou por que foi São Paulo, e não o Rio ou o Nordeste, com o conceito de complexo cafeeiro. Fora do Brasil, Alexander Gerschenkron (1962) mostrou que os países que industrializaram depois da Inglaterra (Alemanha, Rússia) o fizeram com Estado e bancos no lugar do empresário individual, e que “atraso” é também vantagem (copia-se a técnica mais recente); Immanuel Wallerstein (1974) e Giovanni Arrighi (1994) leram tudo isso como posições dentro de uma economia-mundo que redistribui lugares a cada ciclo.

Onde elas discordam de verdade: (1) sobre a causa: posição externa (Prado Jr., Furtado, CEPAL, dependentistas) ou escolhas e estruturas internas (escravidão, concentração de terra, falta de escola, que a leitura liberal e parte da historiografia recente sublinham); (2) sobre a data: a indústria nasce em 1880–1914 com o café (Dean, Suzigan, Cano) ou em 1930 contra o café (Furtado); (3) sobre o sentido da palavra “tardia”: atraso numa escada comum (a leitura evolutiva que Gerschenkron relativiza) ou forma específica de inserção que não se mede pela distância da Inglaterra (dependência, sistemas-mundo). O aluno não precisa escolher; precisa saber que “o Brasil industrializou tarde” é uma frase que cada autor completa de um jeito.

Industrialização tardia e semiperiferia: o que o conceito diz e o que não diz

“Tardia” não quer dizer apenas “depois”. Quer dizer que a industrialização aconteceu num mundo em que já havia um centro industrial, e por isso não pôde repetir o caminho inglês (acumulação lenta, técnica própria, mercado externo aberto). Precisou de tarifa e câmbio para ter mercado, de bancos e Estado para ter capital, de técnica importada para ter máquina, e nasceu nos ramos leves porque eram os que o mercado interno comprava. A indústria tardia convive com a exportação primária em vez de substituí-la, e é isso que faz do Brasil do século XX uma semiperiferia: um parque industrial entre os maiores fora do centro e, ao mesmo tempo, uma pauta de exportação em que os primários dominam. O conceito explica por que a posição periférica não some com a fábrica; ela muda de forma, e cada ciclo (café, substituição de importações, montadoras, commodities) a reorganiza.

Centro e periferia hoje: a mesma pergunta, outros produtos

Em 1900, o Brasil exportava café e importava tecido; em 2020, exporta soja, minério de ferro e petróleo bruto e importa chips, remédios e fertilizantes. A participação da indústria de transformação no PIB, que chegou a cerca de um quarto nos anos 1980, caiu a pouco mais de um décimo nos anos 2010, e economistas como Wilson Cano (2012) chamam o processo de desindustrialização precoce: o país perdeu peso industrial antes de ter ficado rico, ao contrário do que ocorreu na Europa. Não é a mesma situação de 1900 (há indústria, há mercado interno, há Estado), mas a pergunta de Prebisch continua válida: quem vende primário e compra técnica acumula menos do que quem faz o contrário. Ler o presente com os conceitos desta página é legítimo; projetar sobre 1900 a palavra “desindustrialização”, não, porque em 1900 ainda não havia o que perder.

A expansão do capitalismo maduro sobre a África e a Ásia a partir de 1870, com partilha territorial, missão civilizadora e disputas que levaram à guerra de 1914, é o imperialismo, assunto de página própria (imperialismo). Aqui basta saber que ele foi lido, já em 1902, por John Hobson como a exportação de capitais excedentes do centro, e, em 1917, por Lenin como a “fase superior” do capitalismo monopolista; e que a América Latina, independente, viveu o imperialismo sob a forma econômica (empréstimos, ferrovias, companhias de serviços, pressão diplomática), não sob a forma colonial.

Anacronismos e erros clássicos

Doze frases que custam um ponto
  1. “O Brasil transitou da economia agroexportadora para a industrial no fim do século XIX.” Não transitou; em 1900 o café era 60% da pauta e a indústria, um conjunto de fábricas de tecido e alimentos.
  2. “A industrialização brasileira foi precoce e explica as leis trabalhistas do século XIX.” Não houve leis trabalhistas gerais antes de 1930, e “precoce” é o adjetivo errado.
  3. “A indústria brasileira começou pela indústria de base (siderurgia), como a inglesa.” A inglesa começou pelo algodão, e a brasileira também; Volta Redonda é de 1946.
  4. “A periferia ficou isolada do mercado mundial.” Ficou integrada a ele, como fornecedora.
  5. “O imperialismo financiou o início da Revolução Industrial.” A ordem está trocada: a partilha de 1870–1914 veio depois da fábrica e por causa dela, não antes.
  6. “O pacto colonial é característica da fase liberal do capitalismo.” É da fase mercantil; o liberalismo o combateu.
  7. “A concentração de capital no século XIX fortaleceu o absolutismo.” O absolutismo já caíra; a burguesia industrial governava com parlamentos.
  8. “Exportar alimentos garante que a população se alimente.” A produção segue o mercado externo; agroexportação e fome estrutural convivem.
  9. “O Encilhamento industrializou o Brasil.” Gerou inflação e especulação; as fábricas vieram do câmbio e do café.
  10. “A Primeira Guerra fundou a indústria brasileira.” Aumentou a produção das fábricas existentes; o investimento veio antes e depois.
  11. “JK industrializou o Brasil com capital exclusivamente nacional.” O Plano de Metas chamou as montadoras estrangeiras; “autárquico” é o adjetivo plantado.
  12. “Não havia movimento operário no Brasil antes da Revolução Russa chegar.” A greve geral de 1917 é do mesmo ano, com anarquistas na frente.

Dois anacronismos de vocabulário completam a lista. “Capitalismo” no fim da Idade Média: havia mercadores e juros, não havia produção capitalista; a palavra só entrou em circulação por volta de 1860. E “globalização” no século XIX: o conceito é dos anos 1980, embora a interdependência que ele nomeia já tivesse sido descrita em 1848, no Manifesto Comunista, como a burguesia “explorando o mercado mundial” e dando “caráter cosmopolita à produção e ao consumo”; a prova aceita que se leia o século XIX como a etapa inicial do processo, não como o processo pronto.

Como a prova cobra centro, periferia e a indústria brasileira

Os itens reais sobre este assunto seguem quatro moldes, e cada um tem um teste. O primeiro é a correspondência fase × característica: o item descreve uma fase pelo nome e lhe atribui um traço de outra (“fornecimento de matérias-primas para as metrópoles na era do liberalismo”). O teste é cobrir o nome da fase e perguntar a que fase os atributos pertencem. O segundo é o relógio da industrialização: o item adianta a indústria brasileira (“transitou”, “precoce”, “de base”, “alterou o perfil das cidades no século XIX”) ou a atrasa (“não havia fábricas antes de 1930”). O teste é a década: café e imigração no XIX, Encilhamento em 1890, surtos de 1907–1913 e 1919–1929, substituição de importações depois de 1930, JK com capital estrangeiro em 1956–1961. O terceiro é a integração subordinada: o item descreve a periferia como isolada, ou atribui à Revolução Industrial a destruição de indústrias que a América Latina não tinha. O teste é lembrar que a periferia é parte do sistema, na posição de fornecedora. O quarto é o dado verdadeiro com conclusão falsa: a primeira metade do item é correta (o café deslocou o eixo da economia; a globalização fez da periferia grande exportadora agrícola) e a segunda deduz dela o que não segue (logo o país industrializou; logo acabou a fome). O teste é julgar a conclusão separadamente da premissa. Nos itens de múltipla escolha do ENEM, o texto-base costuma ser um historiador ou economista (Paul Singer, Celso Furtado, Eduardo Galeano, Edgar Carone) e a resposta está na tese do autor, não na opinião do aluno sobre ela.

O essencial em meia página

  • Capitalismo é um sistema com fases (comercial, industrial, financeira/monopolista) e com uma geografia (centro e periferia); a fase se reconhece pelo que comanda a acumulação, e o erro clássico é colar a característica de uma no nome da outra.
  • A divisão internacional do trabalho do século XIX é um circuito: manufaturas, capitais e técnica para a periferia; primários, juros e lucros para o centro. Periferia é integração subordinada, nunca isolamento.
  • Ricardo (1817) demonstrou as vantagens comparativas com Inglaterra e Portugal; Prebisch (1949) mostrou que os termos de troca da periferia pioram; a teoria da dependência (anos 1960) disse que centro e periferia são produzidos pelo mesmo processo.
  • O Brasil entrou pela periferia com a abertura dos portos (1808), o Tratado de 1810 (tarifa de 15% para a Inglaterra) e a pauta café/tecido; a tarifa Alves Branco (1844) abriu uma porta, Mauá (1846–1878) mostrou o limite, a Lei dos Entraves (1860) fechou o crédito, o Encilhamento (1889–1891) fez inflação sem fábrica.
  • A fábrica paulista nasceu dentro do complexo cafeeiro (Cano), de importadores, imigrantes e alguns fazendeiros (Dean), nos ramos leves, e cresceu nos anos bons do café (Suzigan): 3.258 estabelecimentos em 1907, 13.336 em 1920, São Paulo à frente do Rio.
  • O primeiro operariado era de mulheres, crianças e imigrantes, sem lei até 1930; respondeu com sindicatos, anarquismo e a greve geral de 1917.
  • A Primeira Guerra aumentou a produção, não o investimento; 1929 derrubou o café e 1930 iniciou a substituição de importações, o “deslocamento do centro dinâmico” (Furtado).
  • Industrialização tardia = industrializar num mundo que já tem centro, com Estado, tarifa, câmbio e técnica importada; o resultado é a semiperiferia, indústria e commodities ao mesmo tempo.
  • Na prova: date a fase, rode o relógio da indústria, siga os dois fluxos da troca e julgue a conclusão separada da premissa.

Exercícios temporariamente indisponíveis

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Flashcards temporariamente indisponíveis

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Na Íntegra - Flávio Saes - Capitalismo
UNIVESP · 48:05
Introdução. Entrevista de Flávio Saes, professor de história econômica da FEA-USP, sobre a história do capitalismo do século XVIII ao começo do XX: as Revoluções Industriais, a consolidação do sistema na Europa e nos Estados Unidos, as fases do capitalismo industrial no Brasil e as teorias da CEPAL e de Celso Furtado. Cobre, em quarenta e oito minutos, as seções ‘Capitalismo é um sistema com história’ e ‘Onde os historiadores discordam’.
História: Capitalismo na Primeira República - Alexandre Saes FEA/USP
UNIVESP · 30:32
Aprofundamento. Programa da UNIVESP TV com Alexandre Saes, professor do Departamento de Economia da FEA-USP e do Programa de Pós-Graduação em História Econômica da FFLCH-USP, sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil entre 1890 e 1930, a partir dos condicionantes externos, na expansão do capital financeiro dos países centrais para a periferia. Sustenta as seções sobre o Encilhamento, o complexo cafeeiro e a Primeira Guerra.
História - A Expansão Cafeeira e a Urbanização em São Paulo - Parte 1 - Flávio Saes
UNIVESP · 28:42
Aplicação a São Paulo. Flávio Saes, professor titular da FEA-USP, explica a relação entre a expansão cafeeira e a urbanização de São Paulo: ferrovias, imigração, comércio, bancos e a cidade que cresceu com o grão. É o conteúdo da seção ‘Café, capital, fábrica: o complexo cafeeiro de São Paulo’ e da ‘Leitura de fonte 3’.
Theotonio dos Santos - Origem e desenvolvimento da Teoria da Dependência
Iela ufsc · 59:25
Historiografia em debate. Conferência de Theotonio dos Santos, um dos formuladores da teoria da dependência nos anos 1960, nas Jornadas Bolivarianas do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC: como a crítica à CEPAL e a Prebisch gerou a tese de que centro e periferia são produzidos pelo mesmo processo. Acompanha a ‘Leitura de fonte 1’ (Ricardo contra o grão) e o container ‘As teses em disputa’.
Rota PAS 2
Capitalismo e modo de produção industrial: centro e periferia · PAS 2

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 2 — Capitalismo e modo de produção industrial: centro e periferia · § Centro e periferia: como o capitalismo dividiu o mundo (l.322–388, só fases e divisão internacional do trabalho) e § O Brasil no mapa: periferia agrária e indústria tardia (l.389–456); box Como a banca cobra (2025/58); Resolvido 2 (fases); Banco de treino T15–T17, T19, T21–T23

    Recorte por assunto: a fábrica inglesa, o relógio da fábrica e a Segunda Revolução ficam em revolucao-industrial; a partilha da África e da Ásia fica em imperialismo (página planejada). Mapa de itens em drafts/historia-p4-pas2-mapa-itens.md §2.

  • Rota PAS 2 — Gabaritos (Parte IV) · Exercícios 5, 11–13, 15–16 (centro e periferia, Brasil)
  • Rota PAS 2 — Gabaritos do Banco de treino (Parte IV) · T15 (variante de 2015/48), T16, T17 (2009/28), T19 (2014/63), T21 (2009/20), T22, T23 (variante de 2025/58)
  • Extrator de provas — PAS/UnB e ENEM (itens reusados por GUID, conferidos na imagem do caderno e no gabarito oficial) · PAS 2 2009/19, 2009/26, 2009/28, 2009/29, 2010/44, 2012/88, 2012/89, 2013/80, 2014/58, 2014/63, 2015/48, 2015/54, 2016/40, 2018/14, 2024/24, 2025/58; PAS 3 2008/24, 2008/39, 2011/60, 2011/73, 2015/66; ENEM 2007/17, 2011 PPL/18, 2014/6, 2017 PPL/54, 2020/61, 2021/62, 2022 PPL/89, 2023 PPL/54; vestibulares UniCEUB 2019 e FUVEST 2021

    Correções registradas em drafts/extrator-correcoes-historia.md (resoluções vazias escritas, resoluções curtas ampliadas, subject_id refinados).