A mão sai da panela quente antes de doer, o coração dispara no susto sem que você mande e a perna chuta quando batem abaixo do joelho. Que sinal viaja pelo corpo em milissegundos, por que ele não é uma simples corrente elétrica, como atravessa de uma célula a outra e quem decide a resposta: a medula, o encéfalo ou um ramo que trabalha sem pedir licença?
O que você vai aprender
Descrever a organização do sistema nervoso em central (encéfalo e medula) e periférico (nervos e gânglios), sensitivo e motor, somático e autônomo (simpático e parassimpático), e classificar um neurônio como sensitivo, interneurônio ou motor pelo papel no circuito.
Explicar o potencial de repouso (cerca de −70 mV) pelos gradientes de sódio e potássio, pela bomba de sódio e potássio (3 Na⁺ para fora, 2 K⁺ para dentro, 1 ATP) e pelos canais de vazamento de potássio, e justificar por que o repouso custa energia.
Descrever as fases do potencial de ação (limiar de cerca de −55 mV, despolarização por entrada de Na⁺ até cerca de +30 mV, repolarização por saída de K⁺, hiperpolarização) e os períodos refratários, e aplicar a regra do tudo ou nada e a codificação da intensidade por frequência na leitura de gráficos de mV por ms.
Argumentar por que o impulso nervoso é um fenômeno eletroquímico, e não puramente elétrico, julgando frases como a do item 95 do PAS 3 de 2025.
Comparar a condução contínua e a saltatória, relacionar velocidade a diâmetro e mielina e calcular tempos de condução com t = d/v.
Descrever os seis passos da sinapse química (chegada do potencial, entrada de Ca²⁺, exocitose, difusão, receptor, remoção), distinguir sinapse excitatória de inibitória, somação temporal de espacial e sinapse química de elétrica, e explicar o sentido único da transmissão.
Associar acetilcolina, noradrenalina, dopamina, serotonina, GABA, glutamato e endorfinas a funções, doenças e drogas, com a cautela devida à hipótese da serotonina na depressão.
Montar o arco reflexo (receptor, neurônio sensitivo pela raiz dorsal, centro medular, neurônio motor pela raiz ventral, efetor), distinguir reflexo monossináptico e polissináptico e reflexo de ato voluntário, e estimar o tempo de um reflexo somando trechos de condução e sinapses.
Atribuir a cada região do encéfalo o seu verbo (córtex e lobos, corpo caloso, tálamo, hipotálamo, cerebelo, mesencéfalo, ponte, bulbo, sistema límbico), descrever meninges, líquor e barreira hematoencefálica, e julgar itens que confundem estação e centro, como os itens 107 de 2011 e 55 de 2024 do PAS 3.
Comparar simpático e parassimpático por origem, gânglios, neurotransmissores e efeitos em pupila, coração, brônquios, vasos, fígado, tubo digestório, bexiga e suprarrenal, e explicar por que a mesma molécula pode ser neurotransmissor e hormônio.
Encadear os passos da contração do músculo esquelético (placa motora, potencial na fibra, liberação de Ca²⁺ pelo retículo, deslizamento de actina e miosina, papel do ATP no relaxamento) e explicar rigor mortis, tetania, cãibra e fadiga, como no item 59 do PAS 3 de 2021.
Classificar receptores sensoriais pelo estímulo, explicar transdução, limiar e adaptação, distinguir nocicepção de dor e julgar os itens do PAS 3 sobre a dor na pele e sobre a via visual (2013/37 e 39; 2015/87 e 88; 2024/54, 55 e 56).
Relacionar AVC, epilepsia, Parkinson, Alzheimer, esclerose múltipla, depressão, meningite, tétano, botulismo, raiva, poliomielite e doença de Chagas ao mecanismo nervoso afetado, com os dados da OMS e do Ministério da Saúde citados na página.
Classificar drogas e toxinas (anestésicos locais, tetrodotoxina, toxinas botulínica e tetânica, curare, organofosforados, nicotina, cafeína, álcool, cocaína, anfetaminas, opioides, benzodiazepínicos) pelo alvo na sinapse ou no canal e prever o efeito.
Você encosta o dedo numa panela quente e a mão já recuou antes de doer. Um carro freia bruscamente ao seu lado na faixa de pedestres e, antes de qualquer pensamento, o coração dispara, as pupilas se abrem e as mãos suam. Alguém bate de leve abaixo do seu joelho e a perna chuta sozinha. Nos três casos, alguma coisa mudou fora ou dentro do corpo, um sensor percebeu, um sinal viajou por células compridas, foi traduzido em química em cada conexão e chegou a um músculo ou a uma glândula no ponto certo e no tempo certo, em milissegundos. A mão sai antes da dor porque a ordem de recuar nasce na medula espinhal, a meio caminho, e a notícia só depois sobe ao encéfalo e vira “ai”. O coração acelera sem ordem consciente porque um ramo inteiro do sistema nervoso trabalha fora do alcance da vontade. E a perna chuta porque um circuito de dois neurônios fecha dentro da medula sem consultar ninguém.
Esta página é sobre esse sistema de comunicação: como ele se organiza, que célula o compõe, como um sinal nasce numa membrana carregada e corre por um axônio, como atravessa a sinapse, como vira reflexo, percepção, movimento e emoção, o que o acelera e o que o adoece. O trajeto é o do próprio sinal. Começa pela organização em dois andares, o central e o periférico; passa pelo neurônio como célula de mão única; desmonta o potencial de repouso e o potencial de ação, com os números que a prova usa; mostra por que a mielina acelera; entra na sinapse e nos neurotransmissores; monta o arco reflexo com tempos; percorre a medula e o encéfalo região por região; compara o simpático e o parassimpático numa tabela; segue o sinal até a contração do músculo; classifica os receptores sensoriais e explica a dor; e fecha com saúde (AVC, epilepsia, Parkinson, Alzheimer, esclerose múltipla, drogas e toxinas), sono, um minuto de evolução, a história das descobertas, a leitura de gráficos e os erros que os itens plantam. Treze itens reais do PAS 3, de 2008 a 2025, aparecem comentados onde ensinam.
O que fica em páginas vizinhas: a estrutura do neurônio, a glia e os três tipos de músculo como tecidos estão em tecidos humanos; a bomba de sódio e potássio e os transportes pela membrana, em membrana plasmática e transportes; os hormônios, o eixo hipotálamo-hipófise e a adrenalina como hormônio, em sistema endócrino; o nó sinusal e o controle do coração, em sistema cardiovascular; o centro respiratório do bulbo e os quimiorreceptores, em sistema respiratório; o lactato do músculo em esforço, em fermentação; as doenças infecciosas que atingem o sistema nervoso (meningite, tétano, botulismo, raiva, poliomielite, doença de Chagas), em bactérias, vírus, vacinas e soros e protozoários e protozooses. Os órgãos dos sentidos em detalhe (olho, ouvido, nariz, língua) terão página própria; aqui os receptores entram pelo que têm em comum, e a via visual e a auditiva só até onde os itens reais chegaram.
O corpo tem dois correios, e o nervoso é o rápido
O corpo coordena suas partes por duas vias. O sistema endócrino manda hormônios pelo sangue: a mensagem leva segundos a minutos para chegar, vai a todo lugar e só é lida pelas células que têm receptor para ela, e o efeito dura minutos a horas. O sistema nervoso manda sinais por fios: a mensagem leva milissegundos, vai a um destinatário exato e acaba assim que o sinal para. Os dois têm o mesmo chefe, o hipotálamo, e um comanda o outro: no susto, o nervo simpático acelera o coração em milissegundos e, logo depois, manda a glândula suprarrenal despejar adrenalina no sangue, que prolonga por minutos o que o nervo começou. A divisão de trabalho é esta: o nervoso faz o rápido, o localizado e o breve; o endócrino, o lento, o difuso e o duradouro. Esta página é o correio rápido.
As três funções e os três tipos de neurônio
Todo sistema nervoso faz três coisas, nesta ordem. Recebe informação do ambiente e do próprio corpo por receptores sensoriais (função sensitiva). Integra: compara, decide, guarda (função integradora). Responde mandando ordens a músculos e glândulas, os efetores (função motora). A cada função corresponde um tipo de neurônio. O neurônio sensitivo (aferente) leva o sinal do receptor para o sistema nervoso central; o interneurônio (de associação) fica inteiro dentro do central e liga um neurônio a outro, e é nele que a integração acontece; o neurônio motor (eferente) leva a ordem do central ao efetor. Aferente é tudo o que chega ao centro; eferente, tudo o que sai dele. Um reflexo simples usa um de cada; o encéfalo humano tem bilhões de interneurônios para cada neurônio sensitivo ou motor.
A anatomia divide o sistema em dois andares. O sistema nervoso central (SNC) é o encéfalo, dentro do crânio, e a medula espinhal, dentro da coluna vertebral: é onde a informação é processada e as decisões são tomadas. O sistema nervoso periférico (SNP) é tudo o que está fora deles: os nervos, feixes de axônios envoltos em tecido conjuntivo que levam e trazem sinais, e os gânglios, aglomerados de corpos celulares de neurônios fora do SNC. Do encéfalo saem 12 pares de nervos cranianos; da medula, 31 pares de nervos espinhais. Um nervo não é um neurônio comprido: é um cabo com milhares de axônios, sensitivos e motores lado a lado, cada um pertencendo a uma célula cujo corpo está na medula, no encéfalo ou num gânglio.
Funcionalmente, o periférico se divide outra vez. A parte sensitiva (aferente) traz informação de receptores da pele, dos músculos, das articulações e das vísceras. A parte motora (eferente) leva ordens, e ela tem dois ramos que a prova cobra. O sistema nervoso somático comanda o músculo esquelético: é o ramo do movimento voluntário e dos reflexos que usam esse músculo, e vai do SNC ao efetor com um único neurônio motor. O sistema nervoso autônomo comanda o que você não decide: músculo liso das vísceras e dos vasos, músculo cardíaco e glândulas. Vai do SNC ao efetor em dois neurônios em série, com uma sinapse num gânglio no meio do caminho, e se divide em simpático (emergência) e parassimpático (repouso e digestão), que têm, na maioria dos órgãos, efeitos opostos. Dentro da parede do tubo digestório há ainda uma rede própria, o sistema nervoso entérico, com milhões de neurônios, que coordena o peristaltismo e as secreções e é ajustado pelos dois ramos do autônomo. A seção sobre o autônomo detalha tudo isso; por ora, guarde a árvore.
A árvore do sistema nervoso. A divisão anatômica (central e periférico) e a funcional (sensitivo e motor; somático e autônomo; simpático e parassimpático) são dois cortes do mesmo sistema: um nervo espinhal carrega, lado a lado, axônios sensitivos, somáticos e autônomos. Diagrama autoral.
O neurônio é uma célula de mão única
A unidade do sistema é o neurônio, uma célula desenhada para receber sinal numa ponta, integrá-lo no meio e transmiti-lo pela outra. Os dendritos são prolongamentos curtos e ramificados que recebem sinais de outros neurônios ou de receptores; o corpo celular (soma), com o núcleo e as organelas, soma esses sinais; o axônio é um prolongamento único, de milímetros a mais de um metro (do final da medula até o pé), que conduz o sinal até os terminais, onde ele é passado adiante. A ordem é sempre a mesma: dendrito, corpo celular, axônio. Foi essa seta que o PAS 3 inverteu em 2023: “A condução do impulso nervoso ocorre no sentido corpo celular → axônio → dendrito” (item 119, gabarito E). A estrutura em detalhe, com as diferenças entre neurônios multipolares, bipolares e pseudounipolares, está em tecidos humanos; aqui interessa o que a estrutura faz.
Os neurônios não trabalham sozinhos. As células da glia são tão numerosas quanto eles e não conduzem impulsos, mas tornam a condução possível. Os astrócitos sustentam, regulam a composição do líquido em volta dos neurônios, recolhem neurotransmissor em excesso e ajudam a formar a barreira entre o sangue e o encéfalo. A micróglia defende. As células ependimárias revestem as cavidades e produzem o líquido cefalorraquidiano. E duas glias fabricam a bainha de mielina, o isolante lipídico enrolado em volta de muitos axônios: os oligodendrócitos no SNC e as células de Schwann no SNP. A bainha é interrompida de espaço em espaço pelos nódulos de Ranvier, e é essa interrupção que acelera o sinal, como a seção sobre condução mostra. Na mesma prova de 2023, sobre a figura de um neurônio, uma seta apontava os segmentos espessos que envolvem o axônio, separados por intervalos, e o item perguntava o que eram: a bainha de mielina (item 120, tipo C, gabarito C). Quem conhece a forma das quatro partes (a árvore curta dos dendritos, o corpo com núcleo, o axônio comprido, os gomos da mielina) responde sem ler as opções.
Quantos neurônios há? O número que circulou por décadas, 100 bilhões de neurônios e dez vezes mais glia, nunca tinha sido medido. Em 2009, a equipe da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel contou, dissolvendo encéfalos inteiros em suspensões de núcleos, cerca de 86 bilhões de neurônios e um número parecido, 85 bilhões, de células não neuronais. Só 19 % dos neurônios estão no córtex cerebral, que por sua vez responde por 82 % da massa do encéfalo; a maior parte dos neurônios está no cerebelo, em células pequenas e densamente empacotadas. No SNC, os corpos celulares e os dendritos se concentram na substância cinzenta (o córtex, por fora do cérebro, e núcleos profundos; o H central da medula); os feixes de axônios mielinizados formam a substância branca (branca pela mielina). Substância cinzenta é onde se processa; branca, por onde se transmite.
Em repouso, a membrana já está carregada
Um neurônio parado não está desligado. Entre o lado de dentro e o lado de fora da sua membrana existe uma diferença de potencial elétrico de cerca de −70 mV (o sinal negativo diz que o interior é negativo em relação ao exterior). Esse é o potencial de repouso, e ele existe porque a célula mantém, com gasto de energia, dois desequilíbrios que a difusão tende a desfazer. Fora da célula há muito sódio (cerca de 145 mmol/L de Na⁺) e pouco potássio (uns 4 mmol/L de K⁺); dentro, pouco sódio (uns 10 mmol/L) e muito potássio (uns 140 mmol/L).
Quem monta esses gradientes é a bomba de sódio e potássio, uma proteína da membrana que, a cada molécula de ATP hidrolisada, expulsa três Na⁺ e traz dois K⁺, os dois contra o gradiente. Como sai uma carga positiva a mais por ciclo, a bomba já deixa o interior um pouco negativo. Mas a maior parte dos −70 mV vem de outro detalhe: a membrana em repouso tem canais de vazamento de K⁺ sempre abertos e quase nenhum canal de Na⁺ aberto. O K⁺, muito concentrado dentro, vaza para fora a favor do gradiente de concentração e leva carga positiva consigo; o interior fica negativo até que essa negatividade passe a atrair o K⁺ de volta com a mesma força com que a concentração o empurra para fora. O equilíbrio dessas duas forças, a química e a elétrica (o gradiente eletroquímico), é o potencial de repouso. A bomba mantém o estoque; o vazamento de K⁺ dá o número. O mecanismo da bomba, com o desenho da proteína e o custo em ATP, está em membrana plasmática e transportes.
"Neurônio em repouso não gasta energia"
Gasta, e muito. A bomba de sódio e potássio consome, segundo a estimativa de Rolfe e Brown (1997), de 19 a 28 % do oxigênio que um mamífero em repouso usa para produzir ATP; nos neurônios, que disparam o tempo todo, a fração é bem maior, porque cada disparo deixa Na⁺ entrar e K⁺ sair, e a bomba precisa devolvê-los. É por isso que o encéfalo, com cerca de 2 % da massa do corpo, consome perto de 20 % da energia de repouso, proporção repetida em revisões de neuroenergética desde o trabalho de Raichle e Gusnard (2002). O “repouso” do neurônio é um equilíbrio pago em ATP: cortado o oxigênio, como num AVC, as bombas param, os gradientes se desfazem e os neurônios morrem em minutos.
O potencial de ação é tudo ou nada
Um estímulo (um neurotransmissor numa sinapse, a deformação de um receptor de tato, um choque elétrico no laboratório) abre canais na membrana e a torna um pouco menos negativa: é uma despolarização graduada, proporcional ao estímulo, que se espalha pela membrana perdendo força com a distância. Se ela não chegar a cerca de −55 mV, o limiar, nada mais acontece e a membrana volta ao repouso. Se chegar, dispara um evento que já não depende do estímulo: o potencial de ação, o impulso nervoso. Ele acontece assim, em cerca de 2 milissegundos.
Despolarização. No limiar, abrem-se canais de Na⁺ dependentes de voltagem. O Na⁺, muito concentrado fora e atraído pelo interior negativo, entra em massa; o interior fica positivo e o potencial sobe até cerca de +30 mV. Cada canal que abre despolariza mais a membrana e abre mais canais: é um ciclo que se alimenta, e por isso a subida é explosiva e sempre igual.
Repolarização. Perto do pico, os canais de Na⁺ se inativam (um portão interno fecha e não reabre até a membrana voltar perto do repouso) e abrem-se canais de K⁺ dependentes de voltagem, mais lentos. O K⁺ sai, levando carga positiva, e o potencial desce de volta.
Hiperpolarização. Os canais de K⁺ demoram a fechar, e por um instante sai K⁺ demais: o potencial passa de −70 mV e chega a uns −80 mV. Depois os canais fecham, o vazamento normal e a bomba restauram o repouso.
O potencial de ação em um ponto do axônio. Repouso em −70 mV, limiar em −55 mV, pico em +30 mV: uma oscilação de cerca de 100 mV em cerca de 2 ms. A subida é entrada de Na⁺; a descida, saída de K⁺. Durante o período refratário absoluto nenhum estímulo dispara outro potencial; no relativo, só um estímulo maior que o normal. Valores típicos de livro-texto; a forma exata varia com a célula. Diagrama autoral.
Três consequências desse mecanismo decidem itens de prova.
Tudo ou nada. O potencial de ação tem sempre a mesma amplitude (cerca de 100 mV, de −70 a +30) e a mesma duração na mesma célula. Um estímulo mais forte não produz um impulso maior: ou atinge o limiar e dispara o impulso inteiro, ou não atinge e não dispara nada. Um fósforo e um maçarico disparam o mesmo potencial de ação na mesma fibra.
A intensidade vai na frequência. Se a amplitude é fixa, como o sistema sabe que o maçarico queima mais? Pela frequência dos disparos (um estímulo mais intenso dispara mais potenciais por segundo) e pelo recrutamento de mais fibras (um estímulo forte excita também fibras de limiar mais alto). O código do sistema nervoso é digital no pulso e analógico na frequência.
Período refratário. Logo depois de um disparo, os canais de Na⁺ estão inativados e nenhum estímulo, por maior que seja, dispara outro potencial naquele trecho: é o período refratário absoluto, de cerca de 1 ms. Em seguida, durante a hiperpolarização, só um estímulo maior que o normal dispara: é o período refratário relativo. O refratário limita a frequência máxima (se cada disparo ocupa o trecho por 1 ms, não há como passar de uns 1 000 disparos por segundo, e os neurônios reais ficam bem abaixo disso) e garante que o impulso só ande para a frente: o trecho que acabou de disparar está refratário, então a despolarização só pode avançar para o trecho seguinte, nunca voltar.
Por que o impulso não é “puramente elétrico”
Em 2025, na única prova do PAS 3 sob a matriz vigente, um bloco sobre radioatividade atravessou Física, Química e Biologia e, no item 95, afirmou que “o uso de radiofármacos em exames como o PET scan demonstra uma aplicação da radioatividade dissociada da eletroquímica, visto que a transmissão de impulsos nervosos é um fenômeno puramente elétrico”. Gabarito E. A conclusão sobre o PET nem precisa ser julgada: a premissa já está errada. O impulso nervoso é eletroquímico. Elétrico no efeito, porque o que viaja é uma variação de voltagem; iônico no mecanismo, porque essa voltagem é produzida por íons (Na⁺, K⁺) atravessando canais de proteína, e não por elétrons correndo num condutor. Num fio de cobre, elétrons se deslocam ao longo do metal a uma fração da velocidade da luz; num axônio, nenhum íon viaja do dendrito ao terminal: em cada ponto, alguns íons cruzam a membrana, a voltagem local muda, essa mudança abre os canais do ponto vizinho, e assim por diante. O que se propaga é a abertura sucessiva de canais, como a onda de uma torcida num estádio: ninguém sai do lugar, e a onda dá a volta.
Isso explica duas coisas que um fio não explica. A velocidade: de décimos de metro por segundo a cerca de 100 m/s, milhões de vezes menos que a eletricidade num cabo. E a regeneração: o potencial de ação é refeito, com a amplitude inteira, em cada trecho do axônio; ele não enfraquece com a distância, como enfraqueceria um sinal elétrico passivo. Por isso a mesma mensagem chega ao pé com a mesma força com que saiu da medula. A história dessa descoberta começa em 1791, quando Luigi Galvani viu pernas de rã se contraírem ao toque de metais e falou em “eletricidade animal”, e se fecha em 1952, quando Alan Hodgkin e Andrew Huxley, medindo correntes no axônio gigante da lula, descreveram o potencial de ação como correntes de Na⁺ e K⁺ dependentes da voltagem (Nobel de 1963, com John Eccles). A seção de história retoma o fio.
O vocabulário do potencial, em uma linha cada
Polarizada: a membrana em repouso, com interior negativo (−70 mV). Despolarizar: tornar o interior menos negativo, ou positivo; é entrada de Na⁺. Repolarizar: devolver o interior ao negativo; é saída de K⁺. Hiperpolarizar: deixar o interior mais negativo que o repouso; afasta a membrana do limiar e inibe o disparo. Limiar: a voltagem (cerca de −55 mV) a partir da qual os canais de Na⁺ dependentes de voltagem disparam o ciclo. Potencial graduado: a variação proporcional ao estímulo, que se soma e decai com a distância; potencial de ação: a variação tudo-ou-nada que se propaga sem decair. Todos são movimentos de íons, nunca de elétrons.
A mielina faz o sinal saltar, e por isso correr
Num axônio sem mielina, o potencial de ação se refaz em cada ponto da membrana, um atrás do outro: é a condução contínua, lenta. Num axônio mielinizado, a bainha isola trechos inteiros da membrana: ali não há canais de Na⁺ expostos e a corrente não vaza, de modo que a despolarização de um nódulo de Ranvier se espalha por dentro do axônio, quase sem perda, até o nódulo seguinte, onde há uma alta densidade de canais de Na⁺ e o potencial de ação é refeito. O impulso parece pular de nódulo em nódulo: é a condução saltatória (do latim saltare, saltar). Pular dez trechos de uma vez é mais rápido que percorrer os dez, e a célula economiza energia, porque só precisa bombear de volta os íons que entraram nos nódulos.
Duas coisas fazem um axônio conduzir mais depressa: ser mielinizado e ser mais grosso. O diâmetro ajuda porque um axônio largo oferece menos resistência à corrente interna, mas ajuda pouco: num axônio sem mielina, para dobrar a velocidade é preciso quadruplicar o diâmetro. A lula resolveu o problema assim e tem axônios de quase um milímetro para o reflexo de fuga, o que permitiu a Hodgkin e Huxley espetar eletrodos dentro deles. Os vertebrados resolveram com mielina: um axônio mielinizado de 20 µm conduz a uns 100 m/s; uma fibra fina e sem mielina, como as que levam a dor lenta e a temperatura, conduz a menos de 1 m/s. A tabela resume a faixa; os valores são ordens de grandeza de livro-texto, não medidas de uma fibra específica.
fibra
diâmetro
mielina
velocidade típica
o que conduz
grossa
10 a 20 µm
sim
60 a 100 m/s
comando aos músculos esqueléticos; propriocepção (posição do corpo)
média
5 a 12 µm
sim
30 a 70 m/s
tato fino, pressão
fina
1 a 5 µm
sim (fina)
5 a 30 m/s
dor rápida e localizada, frio
muito fina
0,2 a 1,5 µm
não
0,5 a 2 m/s
dor lenta e difusa, calor, fibras autônomas pós-ganglionares
Contínua contra saltatória. Sem mielina (em cima), cada ponto da membrana refaz o potencial de ação; com mielina (embaixo), a corrente corre por dentro do trecho isolado e o potencial só é refeito nos nódulos. Mesmo axônio, mesma amplitude de sinal, velocidades que diferem em até cem vezes. Fora de escala. Diagrama autoral.
A conta que a prova pode pedir é a mais simples da física: t=d/v. Um axônio de 1 m conduzindo a 50 m/s leva 1/50=0,02 s, isto é, 20 ms, para levar o sinal de ponta a ponta. A 1 m/s, levaria 1 s inteiro: é a diferença entre a dor aguda e imediata de uma picada e a dor surda que chega um segundo depois, levada por fibras finas e sem mielina. E é a diferença que a esclerose múltipla produz: nela, o sistema imune destrói a mielina do SNC, e o impulso em axônios intactos atrasa, se dispersa ou se perde, causando visão turva, fraqueza e formigamento conforme a via atingida. A estrutura da bainha e o que a glia faz estão em tecidos humanos; a mielina como lipídio, em lipídios.
"A mielina acelera porque isola o axônio por completo"
Se isolasse por completo, não haveria condução: um axônio inteiramente encapado não teria onde refazer o potencial de ação, e o sinal passivo morreria em poucos milímetros. A mielina acelera porque isola por trechos e deixa os nódulos expostos, concentrando neles os canais de Na⁺. O sinal “salta” porque corre por dentro do trecho isolado e renasce no nódulo seguinte. Item que descreva a bainha como contínua, sem interrupções, ou que diga que os íons atravessam o espaço de um nódulo ao outro, está errado nos dois casos.
A sinapse traduz eletricidade em química
O potencial de ação chega ao fim do axônio e encontra um abismo: a célula seguinte (outro neurônio, uma fibra muscular, uma célula glandular) está separada por uma fenda de 20 a 40 nanômetros, e a corrente não a atravessa. O que atravessa é uma molécula. Essa é a sinapse química, o ponto de comunicação entre o terminal de um neurônio (o elemento pré-sináptico) e a membrana da célula seguinte (o elemento pós-sináptico), e ela funciona em seis passos.
O potencial de ação chega ao terminal e despolariza a membrana.
A despolarização abre canais de Ca²⁺ dependentes de voltagem, e o cálcio, muito mais concentrado fora, entra no terminal.
O Ca²⁺ faz as vesículas sinápticas, pequenas bolsas cheias de neurotransmissor, se fundirem com a membrana e despejarem o conteúdo na fenda sináptica por exocitose.
O neurotransmissor se difunde pela fenda em menos de um milissegundo e se liga a receptores, proteínas específicas da membrana pós-sináptica.
O receptor responde: abre um canal iônico (resposta rápida) ou aciona uma cascata química dentro da célula (resposta lenta e duradoura). A membrana pós-sináptica se despolariza ou hiperpolariza.
O neurotransmissor é removido da fenda, para que a mensagem acabe: por degradação enzimática (a acetilcolinesterase quebra a acetilcolina na junção neuromuscular), por recaptação pelo terminal que o liberou ou pela glia (serotonina, dopamina, noradrenalina, glutamato) ou por simples difusão para fora da fenda.
Os seis passos da sinapse química. O sinal elétrico vira químico no terminal, atravessa a fenda como molécula e volta a ser elétrico na célula seguinte. Só o lado pré-sináptico tem vesículas e só o pós-sináptico tem receptores: por isso a sinapse tem sentido único. Fora de escala. Diagrama autoral.
Três consequências. Primeira: a sinapse química tem sentido único, porque só o terminal tem vesículas e só a membrana seguinte tem receptores; o sinal nunca volta pelo mesmo caminho. Segunda: ela introduz um atraso sináptico, uma fração de milissegundo, somando a cada sinapse de um circuito. Terceira: ela pode inverter o sinal. Se o receptor abre canais de Na⁺ (ou de cátions em geral), a célula pós-sináptica despolariza e se aproxima do limiar: é um potencial excitatório (PEPS). Se abre canais de Cl⁻ (que entra, negativo) ou de K⁺ (que sai, positivo), a célula hiperpolariza e se afasta do limiar: é um potencial inibitório (PIPS). Quem decide se a sinapse excita ou inibe é o receptor, não o neurotransmissor: a acetilcolina excita o músculo esquelético pelo receptor nicotínico e freia o coração pelo receptor muscarínico.
Existe também a sinapse elétrica, em que as duas células estão unidas por junções comunicantes e a corrente passa diretamente, sem neurotransmissor, nos dois sentidos e sem atraso. É rara entre neurônios humanos e abundante no músculo cardíaco e no músculo liso, em que as células precisam contrair juntas; é o que faz o coração bater como uma peça só, como explica sistema cardiovascular.
Somação: o neurônio é uma calculadora de milivolts
Um neurônio do SNC recebe milhares de sinapses, umas excitatórias, outras inibitórias, e cada uma produz um potencial graduado de poucos milivolts que decai com a distância e o tempo. O segmento inicial do axônio soma tudo o que chega. Somação temporal: a mesma sinapse disparando várias vezes em sequência rápida, antes de o potencial anterior decair. Somação espacial: várias sinapses de lugares diferentes disparando ao mesmo tempo. Se a soma chega ao limiar, o neurônio dispara; se não, fica em silêncio. Um modelo linear simples, útil para itens: repouso −70 mV, limiar −55 mV; três PEPS simultâneos de +6 mV dão −52 mV e disparam; dois PEPS de +6 mV e um PIPS de −4 mV dão −62 mV e não disparam. O modelo real não é tão aritmético, mas a lógica é essa: a decisão de disparar é o saldo entre excitação e inibição.
Quando a célula seguinte é uma fibra muscular esquelética, a sinapse tem nome: junção neuromuscular ou placa motora. O neurotransmissor é sempre a acetilcolina, o receptor é o nicotínico, e a resposta é sempre excitatória: cada potencial de ação do neurônio motor dispara um potencial de ação na fibra e uma contração. A acetilcolinesterase na fenda destrói a acetilcolina em milissegundos, e o músculo relaxa até o próximo comando. É nessa junção que agem o curare, a toxina botulínica e os inseticidas organofosforados, como mostra a seção sobre drogas e toxinas.
Neurotransmissores: a mesma molécula, efeitos diferentes
Há dezenas de neurotransmissores; sete são os que aparecem em itens de prova e em manchetes. Para cada um, guarde a função principal, um exemplo de onde age e uma doença ou droga associada. A tabela é um mapa, não um catálogo de efeitos fixos: o efeito depende do receptor e do circuito.
neurotransmissor
onde e para quê
associação em saúde
acetilcolina
junção neuromuscular (contração do músculo esquelético); todos os gânglios autônomos; terminais parassimpáticos (freia o coração, ativa a digestão); memória e atenção no córtex
miastenia grave (anticorpos contra o receptor nicotínico: fraqueza); Alzheimer (perda de neurônios colinérgicos); alvo do curare, da toxina botulínica e dos organofosforados
noradrenalina
terminais simpáticos (acelera o coração, dilata brônquios e pupila); no encéfalo, alerta e vigília
também é hormônio da medula suprarrenal, junto com a adrenalina; alvo de anfetaminas e de antidepressivos
dopamina
movimento (via da substância negra ao corpo estriado); motivação e recompensa; aprendizado por reforço
Parkinson (morte dos neurônios dopaminérgicos da substância negra: tremor, rigidez, lentidão); dependência de cocaína e anfetaminas (que elevam a dopamina na fenda)
serotonina
humor, sono, apetite, dor; a maior parte da serotonina do corpo está no intestino
antidepressivos ISRS inibem sua recaptação; a hipótese de que a depressão é “falta de serotonina” não tem sustentação direta nas evidências (veja a seção de saúde)
GABA (ácido gama-aminobutírico)
principal inibitório do encéfalo: abre canais de Cl⁻ e hiperpolariza
álcool, benzodiazepínicos e muitos anticonvulsivantes reforçam sua ação; a toxina tetânica impede a liberação de GABA e glicina na medula (espasmos)
glutamato
principal excitatório do SNC; base da memória e do aprendizado (fortalecimento de sinapses)
em excesso, no AVC e na epilepsia, mata neurônios por excitação (excitotoxicidade)
endorfinas e encefalinas
opioides produzidos pelo próprio corpo: inibem a transmissão da dor na medula e no tronco; euforia do exercício prolongado
morfina e demais opioides agem nos mesmos receptores; o uso prolongado reduz a resposta (tolerância) e cria dependência
O item mais antigo do assunto no PAS 3 usou essa tabela como moldura. Em 2008, um texto sobre a química da paixão falava de serotonina e norepinefrina (outro nome da noradrenalina) e mencionava uma queda de serotonina no cérebro dos apaixonados. O item 89 pediu para julgar: “Infere-se da leitura do texto que, devido à ausência de serotonina no cérebro, as pessoas apaixonadas tornam-se alienadas e perdem a capacidade de percepção da realidade.” Gabarito E, por dois motivos de leitura: queda não é ausência (ninguém vive sem serotonina), e o texto não autorizava “alienadas” nem “perdem a percepção da realidade”. A lição vale para qualquer item sobre neurotransmissor: as frases da prova gostam de trocar “menos” por “nenhum” e de esticar um efeito modesto até um absurdo.
O arco reflexo: a medula responde antes de o cérebro saber
Um reflexo é uma resposta rápida, involuntária e estereotipada a um estímulo, produzida por um circuito fixo chamado arco reflexo. O arco tem cinco peças, sempre nesta ordem: o receptor, que transforma o estímulo em potencial; o neurônio sensitivo, que leva o sinal ao SNC pela raiz dorsal do nervo espinhal; o centro de integração, na medula (ou no tronco encefálico), com ou sem interneurônio; o neurônio motor, que sai pela raiz ventral; e o efetor, o músculo ou a glândula que responde. O encéfalo não participa da decisão: ele recebe uma cópia do sinal, pelas vias que sobem pela medula, e por isso você fica sabendo do reflexo depois que ele já aconteceu. É isso que o item de 2013 sobre a dor na pele e o aquecimento desta página têm em comum: a retirada da mão é medular; a dor consciente é cortical e chega depois.
O reflexo patelar é o mais simples. A batida no tendão abaixo da patela estica de repente o músculo da coxa (o quadríceps); receptores de estiramento dentro do músculo, os fusos musculares, disparam; o neurônio sensitivo entra na medula e faz sinapse diretamente com o neurônio motor do mesmo músculo, que o contrai, e a perna chuta. É um arco monossináptico: uma única sinapse, no centro. Ao mesmo tempo, um ramo do neurônio sensitivo excita um interneurônio inibitório, que silencia o neurônio motor do músculo antagonista (o da parte de trás da coxa), para que ele não resista ao chute: é a inervação recíproca. O médico testa o patelar porque ele revela, em um segundo, se o nervo sensitivo, a medula naquele nível e o nervo motor estão íntegros.
O reflexo de retirada, o da panela quente, é polissináptico. O receptor é um nociceptor da pele, que dispara com o calor capaz de lesar o tecido; o neurônio sensitivo entra na medula e faz sinapse com interneurônios, que excitam os neurônios motores dos flexores do braço (o bíceps dobra o cotovelo e a mão sai) e inibem os dos extensores. Se o estímulo é no pé, outros interneurônios cruzam a medula e ativam os extensores da perna oposta, que sustenta o peso: é o reflexo extensor cruzado. Mais sinapses, mais músculos coordenados, e ainda assim tudo acontece na medula.
Os dois reflexos que a prova usa. No patelar, uma única sinapse entre o sensitivo e o motor; na retirada, interneurônios coordenam flexores e extensores. Nos dois, a raiz dorsal é a entrada (sensitiva) e a raiz ventral é a saída (motora), e o encéfalo só recebe uma cópia. Fora de escala; tempos de modelo. Diagrama autoral.
Exemplo resolvido: ponha números na panela quente. Uma pessoa de 1,70 m encosta o dedo numa superfície a 70 °C. Modele o reflexo com estes dados: o nociceptor leva 1 ms para disparar; o axônio sensitivo, mielinizado, percorre 1,0 m do dedo à medula a 50 m/s; na medula há duas sinapses, de 1 ms cada; o axônio motor desce 1,0 m até o bíceps a 50 m/s; o músculo leva 10 ms entre o potencial de ação na fibra e a flexão visível. Quanto tempo leva a retirada? E a dor consciente, se a via até o córtex tem mais 0,5 m a 20 m/s e três sinapses?
Estratégia: o tempo total é a soma dos trechos; cada trecho de condução é t=d/v, e sinapses e receptor entram como constantes.
Resolução: condução sensitiva 1,0/50=0,020 s =20 ms; sinapses 2×1=2 ms; condução motora 20 ms; receptor 1 ms; músculo 10 ms. Total: 1+20+2+20+10=53 ms, cerca de um vigésimo de segundo. Para a dor consciente, a cópia do sinal precisa subir da medula ao córtex: 0,5/20=0,025 s =25 ms, mais 3 ms de sinapses, contados a partir da chegada do sinal à medula (21 ms após o toque): 21+25+3=49 ms para o córtex ser avisado, e a percepção consciente leva ainda algumas dezenas de milissegundos de processamento. Isto é, a mão começa a se mover quando o córtex mal recebeu a notícia. Se o estímulo fosse levado por fibras finas sem mielina, a 1 m/s, só a condução sensitiva levaria 1 s: é a dor queimante e tardia que vem depois da retirada.
Conferência: a maior parte do tempo (40 dos 53 ms) está nos dois trechos longos de condução; receptor e sinapses são pequenos. Dobrar a velocidade de condução derrubaria o total para 33 ms; tirar a mielina o levaria a mais de 2 s. A conta mostra por que a seleção natural investiu em mielina justamente nas vias de reflexo e de comando motor.
Reflexo não é ato voluntário, e ato voluntário não é reflexo
Tirar a mão da panela é reflexo: estereotipado, medular, igual em todo mundo, não depende de aprendizado. Pegar a panela com um pano é ato voluntário: começa no córtex motor, desce pela medula até os mesmos neurônios motores e pode ser diferente a cada vez. Os dois usam a mesma via final (neurônio motor e placa motora), e por isso uma lesão do neurônio motor paralisa ambos; mas uma lesão da medula acima do arco pode preservar o reflexo e abolir o movimento voluntário, porque o arco está intacto e o comando do córtex não chega. É o que acontece abaixo do nível de uma lesão medular: os reflexos patelares continuam (às vezes exagerados), e a pessoa não move as pernas. Reflexo condicionado (o cão de Pavlov salivando ao som da campainha) é outra coisa: um reflexo cuja associação com o estímulo foi aprendida.
A medula espinhal é cabo e centro ao mesmo tempo
A medula espinhal é um cordão que desce pelo canal da coluna vertebral, do bulbo até a primeira ou segunda vértebra lombar; abaixo disso, só raízes nervosas. Em corte transversal, mostra a substância cinzenta central em forma de H (ou borboleta), onde estão os corpos celulares dos neurônios motores (nos cornos ventrais, à frente) e os interneurônios que recebem a informação sensitiva (nos cornos dorsais, atrás), e a substância branca em volta, feita de feixes de axônios mielinizados que sobem ao encéfalo (vias ascendentes, sensitivas) e descem dele (vias descendentes, motoras).
De cada segmento saem dois pares de raízes. A raiz dorsal é sensitiva: traz os axônios dos neurônios sensitivos, cujos corpos celulares ficam fora da medula, no gânglio da raiz dorsal. A raiz ventral é motora: leva os axônios dos neurônios motores, cujos corpos estão no corno ventral. As duas raízes se unem e formam o nervo espinhal, misto, que leva fibras sensitivas e motoras juntas. Guarde a regra: dorsal entra, ventral sai. Cortar uma raiz dorsal tira a sensibilidade de uma faixa de pele (um dermátomo) e preserva o movimento; cortar a raiz ventral paralisa músculos e preserva a sensibilidade.
A medula faz dois serviços. É cabo: toda informação sensitiva do pescoço para baixo sobe por ela até o encéfalo, e todo comando motor desce por ela. E é centro: integra os reflexos medulares (patelar, retirada, extensor cruzado, controle da bexiga e do intestino) sem o encéfalo. Uma lesão que seccione a medula interrompe o cabo, e a pessoa perde sensibilidade e movimento voluntário abaixo do nível da lesão (paraplegia se a lesão é torácica ou lombar; tetraplegia se é cervical, acima dos nervos dos braços), mas os reflexos abaixo da lesão podem continuar. Lesões cervicais altas comprometem também o diafragma, cujo nervo (frênico) sai dos segmentos cervicais 3 a 5, e exigem ventilação mecânica. Os neurônios do SNC, em regra, não se regeneram, e é por isso que lesões medulares são permanentes; os axônios dos nervos periféricos, envoltos por células de Schwann, podem voltar a crescer lentamente.
O encéfalo: cada região com um verbo
O encéfalo é o conjunto de estruturas dentro do crânio; cérebro, no uso anatômico rigoroso, é só a sua maior parte, os dois hemisférios, embora a linguagem comum (e muitos itens) use as duas palavras como sinônimos. O encéfalo se divide em cérebro, diencéfalo (tálamo e hipotálamo), cerebelo e tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo), este último contínuo com a medula. A tabela dá a cada região um verbo, que é o que a prova cobra; o detalhe vem a seguir.
região
onde fica
o que faz (o verbo)
item ou erro típico
córtex cerebral
camada externa de substância cinzenta dos hemisférios
percebe, pensa, decide, fala, lembra, inicia o movimento voluntário
“o cerebelo pensa” (errado: quem pensa é o córtex)
lobo frontal
à frente
planeja e comanda o movimento voluntário (área motora); linguagem falada (área de Broca); personalidade e decisão
lesão de Broca: a pessoa entende, mas não consegue articular a fala
lobo parietal
em cima, atrás do frontal
recebe tato, pressão, temperatura e dor do corpo (área somatossensorial); noção espacial
“a dor é sentida na pele” (errado: é percebida aqui)
lobo temporal
nas laterais
audição; compreensão da linguagem (área de Wernicke); memória, com o hipocampo
PAS 3 2011, item 107: o “controle” da audição não é do diencéfalo, é do córtex temporal (gabarito E)
lobo occipital
atrás
visão
PAS 3 2024, item 55: via óptica termina no occipital (gabarito C)
corpo caloso
entre os hemisférios
conecta os dois hemisférios
cada hemisfério controla e sente o lado oposto do corpo
tálamo
centro do encéfalo
retransmite ao córtex quase toda informação sensorial (exceto o olfato); filtra
estação, não centro: ele encaminha, não interpreta
hipotálamo
abaixo do tálamo
mantém a homeostase: temperatura, fome, sede, sono e vigília; comanda o autônomo e a hipófise; emoções e sexo
elo entre o nervoso e o endócrino; não participa da audição
cerebelo
atrás e abaixo do cérebro
coordena e ajusta o movimento, mantém o equilíbrio e a postura, aprende habilidades motoras
não inicia o movimento nem pensa; lesão: tremor ao agir, desequilíbrio, fala arrastada
mesencéfalo
alto do tronco
reflexos visuais e auditivos (virar a cabeça para um som); abriga a substância negra, fonte de dopamina
Parkinson começa aqui
ponte
meio do tronco
liga o cérebro ao cerebelo; ajusta o ritmo respiratório
Alzheimer começa pelo hipocampo: a memória recente vai primeiro
O encéfalo visto de lado, cada região com o seu verbo. Córtex percebe e decide; tálamo retransmite; hipotálamo mantém a homeostase e comanda a hipófise; cerebelo coordena; tronco mantém a respiração e os batimentos. A linguagem fica no hemisfério esquerdo na maioria das pessoas: Broca fala, Wernicke compreende. Esquema fora de escala. Diagrama autoral.
Dois itens reais do PAS 3 testam a diferença entre estação e centro. Em 2011, num bloco sobre Stravinsky, a prova afirmou que “o controle do sistema auditivo é efetuado pelo diencéfalo, em especial, pelo tálamo e pelo hipotálamo” (item 107, gabarito E). O tálamo de fato retransmite o sinal auditivo, mas quem percebe e interpreta o som (o controle, no sentido do item) é o córtex do lobo temporal; e o hipotálamo não tem nada com a audição: é a central da homeostase. Em 2024, num texto sobre o retinoblastoma, a prova descreveu a via visual inteira: “O nervo óptico conduz os estímulos captados pelos fotorreceptores via tálamo até os centros da visão localizados no lado occipital de cada hemisfério cerebral” (item 55, gabarito C). Estação certa (tálamo), destino certo (occipital), e o item está correto. A regra para julgar: tálamo retransmite, córtex interpreta, hipotálamo regula o corpo.
O hipotálamo merece uma frase a mais, porque é a fronteira entre esta página e a de sistema endócrino. Com poucos gramas, ele lê a temperatura do sangue, a concentração de sal, a glicose e os hormônios circulantes, e responde por três vias: pelo sistema nervoso autônomo (suor, tremor, vasos da pele), pelo comportamento (sede, fome, procurar sombra) e pela hipófise, a glândula pendurada abaixo dele, à qual manda ordens por hormônios liberadores e pela qual libera ADH e ocitocina. Esquentou: o hipotálamo manda suar e dilatar os vasos da pele. Esfriou: tremor e vasos contraídos. É o termostato do corpo, e uma questão do ENEM perguntou qual sistema mantém a temperatura em 36 a 37 °C: o nervoso, pelo hipotálamo e pelo autônomo, que promovem a sudorese e ajustam o calibre dos vasos.
Proteção. O SNC é o tecido mais protegido do corpo. Por fora, osso: crânio e vértebras. Dentro do osso, três membranas, as meninges: a dura-máter, grossa e resistente, colada ao osso; a aracnoide, no meio, com aspecto de teia; e a pia-máter, fina, colada ao tecido nervoso. Entre a aracnoide e a pia-máter circula o líquido cefalorraquidiano (líquor), que também preenche as cavidades internas do encéfalo (os ventrículos) e o canal central da medula: ele amortece choques, deixa o encéfalo flutuar (reduzindo o peso que ele exerce sobre a própria base) e troca substâncias com o tecido. A meningite é a inflamação dessas membranas, por vírus, bactérias ou outros agentes, e a punção lombar, que colhe líquor entre vértebras lombares, abaixo do fim da medula, é como se faz o diagnóstico; o Ministério da Saúde a considera endêmica no Brasil, com casos o ano inteiro, e as formas bacterianas, mais graves, são prevenidas pelas vacinas do calendário (veja bactérias e vacinas e soros). Por fim, a barreira hematoencefálica: os capilares do encéfalo têm células endoteliais unidas por junções oclusivas e envolvidas por prolongamentos de astrócitos, de modo que a maioria das substâncias do sangue não passa ao tecido nervoso sem um transportador. Oxigênio, gás carbônico, glicose (por transportador), álcool e anestésicos passam; a maioria dos antibióticos e muitas toxinas e células de defesa não passam, o que protege o encéfalo e, ao mesmo tempo, dificulta tratar infecções e tumores dentro dele.
Simpático e parassimpático: acelerar e frear sem pedir licença
O sistema nervoso autônomo governa o que você não decide: o calibre dos vasos, o ritmo do coração e da respiração, a digestão, a pupila, as glândulas. Faz isso com dois ramos que, na maioria dos órgãos, puxam em sentidos opostos e trabalham ao mesmo tempo, em equilíbrio variável: a frequência cardíaca de repouso, por exemplo, é o nó sinusal (que sozinho bateria perto de 100 vezes por minuto) freado pelo parassimpático até 60 a 80, e o exercício a eleva reduzindo o freio e pisando no acelerador simpático. Nenhum dos dois cria o ritmo; os dois o ajustam, como detalha sistema cardiovascular.
A anatomia explica os nomes e os neurotransmissores. Nos dois ramos, o comando sai do SNC por um neurônio pré-ganglionar, faz sinapse num gânglio e chega ao órgão por um neurônio pós-ganglionar. No simpático, os pré-ganglionares saem da medula torácica e lombar (divisão toracolombar) e são curtos: os gânglios formam duas cadeias ao lado da coluna, e os pós-ganglionares, longos, se espalham pelo corpo. No parassimpático, os pré-ganglionares saem do tronco encefálico (pelos nervos cranianos, sobretudo o vago, que desce até o abdome) e da medula sacral (divisão craniossacral) e são longos: os gânglios ficam perto ou dentro do órgão, e o pós-ganglionar é curto. Em todos os gânglios, dos dois ramos, o neurotransmissor é a acetilcolina. No terminal que toca o órgão, o parassimpático libera acetilcolina e o simpático libera noradrenalina (com a exceção das glândulas sudoríparas, em que o simpático também usa acetilcolina). E a medula da glândula suprarrenal é um gânglio simpático modificado: estimulada pelo pré-ganglionar, lança no sangue adrenalina e noradrenalina, que agem como hormônios e prolongam a resposta simpática pelo corpo inteiro. A mesma molécula, noradrenalina, é neurotransmissor quando sai de um terminal nervoso sobre um órgão e hormônio quando sai da suprarrenal para o sangue: a classificação depende da via de entrega, não da molécula. O que a adrenalina faz como hormônio, o cortisol do estresse crônico e os itens de 2021 e 2025 sobre a suprarrenal estão em sistema endócrino.
órgão ou função
simpático (luta ou fuga; noradrenalina)
parassimpático (repouso e digestão; acetilcolina)
pupila
dilata (para captar mais luz e enxergar longe)
contrai
coração
acelera e contrai com mais força
desacelera (nervo vago)
brônquios
dilatam (mais ar)
contraem
vasos da pele e das vísceras
contraem (palidez; sangue desviado para os músculos)
pouco efeito direto
vasos dos músculos esqueléticos
dilatam
pouco efeito
fígado
libera glicose (quebra do glicogênio)
armazena
estômago e intestinos
reduzem motilidade e secreção
aumentam motilidade e secreção (digestão)
glândulas salivares
saliva pouca e espessa (boca seca)
saliva abundante e fluida
bexiga
relaxa a parede, fecha o esfíncter (segura)
contrai a parede, abre o esfíncter (esvazia)
glândulas sudoríparas
suor (com acetilcolina)
sem inervação
medula da suprarrenal
libera adrenalina no sangue
sem inervação
Os dois ramos do autônomo, órgão a órgão. O simpático prepara para a emergência: mais luz, mais sangue nos músculos, mais glicose, mais ar; o parassimpático cuida do repouso: digestão, esvaziamento, coração lento. A pupila já foi item de prova (PAS 3 2024, item 56): dilata no escuro e no susto, contrai na claridade. Diagrama autoral.
"Simpático é o da calma, porque é simpático"
O nome engana. Simpático é o ramo da emergência: coração acelerado, pupila dilatada, brônquios abertos, glicose no sangue, digestão parada. Parassimpático é o do repouso: coração lento, pupila contraída, digestão a todo vapor. Guarde pelo susto da faixa de pedestres: tudo o que acontece ali é simpático. E guarde a pupila pelo escuro: no cinema, a pupila dilata para captar mais luz, e foi isso que o PAS 3 inverteu em 2024 (“As pupilas se contraem em locais escuros”, item 56, gabarito E). A dilatação é simpática; a contração à luz é parassimpática.
Do nervo ao músculo: a contração em quatro passos
A maior parte das ordens do sistema nervoso termina num músculo. Como a fibra muscular esquelética transforma um potencial de ação em força cabe em quatro passos, e um íon está no centro deles.
1. A placa motora. O neurônio motor libera acetilcolina na junção neuromuscular; ela se liga aos receptores nicotínicos da membrana da fibra (o sarcolema), abre canais de cátions e dispara um potencial de ação na fibra, que corre pela membrana e penetra no interior da célula por invaginações chamadas túbulos T.
2. O cálcio. O potencial de ação nos túbulos T faz o retículo sarcoplasmático, um retículo endoplasmático especializado que armazena Ca²⁺, abrir seus canais e liberar o cálcio no citosol da fibra. Esse é o gatilho. O PAS 3 o cobrou em 2021, num bloco sobre ansiedade a partir de um conto de Clarice Lispector: “A contração muscular ocorre porque os íons Ca²⁺ espalham-se pelo citosol, o que provoca a contração das miofibrilas” (item 59, gabarito C).
3. O deslizamento. Cada miofibrila é uma fileira de sarcômeros, unidades em que filamentos finos de actina e filamentos grossos de miosina se interpenetram. Em repouso, a tropomiosina cobre os sítios da actina onde a miosina se prenderia. O Ca²⁺ se liga à troponina, que desloca a tropomiosina e expõe os sítios; as cabeças de miosina se prendem à actina, dobram-se e puxam o filamento fino para o centro do sarcômero, soltam-se, rearmam-se e puxam de novo, como mãos numa corda. O sarcômero encurta porque os filamentos deslizam uns sobre os outros; nenhum filamento muda de comprimento. Milhares de sarcômeros em série encurtando ao mesmo tempo é o músculo contraindo.
4. O ATP e o relaxamento. O ATP faz dois serviços: a sua hidrólise rearma a cabeça de miosina para a próxima puxada, e a sua ligação à miosina é o que a solta da actina. Para relaxar, a fibra precisa ainda bombear o Ca²⁺ de volta ao retículo, outra vez com ATP, e a acetilcolinesterase precisa limpar a fenda. Sem comando, sem cálcio no citosol; sem cálcio, a tropomiosina volta a cobrir a actina e o músculo relaxa.
Quatro fenômenos do cotidiano saem desses passos. O rigor mortis: depois da morte, o ATP acaba, as cabeças de miosina ficam presas à actina sem ter como soltar, e os músculos enrijecem por um ou dois dias, até que a própria decomposição desfaça as proteínas; a rigidez não é contração, é a ausência do ATP que solta. A tetania fisiológica: um único potencial de ação produz um abalo breve; se o neurônio motor dispara em alta frequência, os abalos se somam antes de a fibra relaxar e a contração se torna contínua e máxima, que é como qualquer músculo sustenta uma carga (o tétano, a doença, é esse estado produzido por uma toxina, como mostra a seção seguinte). A cãibra: uma contração involuntária, dolorosa e sustentada de um músculo, frequente no esforço prolongado, no calor e à noite, de causa multifatorial (fadiga do controle nervoso do músculo, desidratação, perda de sais), que cede ao alongamento passivo. E a fadiga: a queda de força depois de esforço intenso, que a tradição atribuiu ao ácido lático e que hoje se sabe envolver vários fatores (fosfato acumulado, cálcio, falha da transmissão nervosa); o lactato é um combustível que o músculo exporta e o coração e o fígado reaproveitam, como explica fermentação.
Os outros dois músculos obedecem a outro comando. O músculo liso das vísceras e dos vasos e o músculo cardíaco não têm placa motora nem recebem ordens voluntárias: são regulados pelo autônomo e por hormônios, e o cardíaco ainda tem ritmo próprio. Neles o Ca²⁺ também é o gatilho, mas entra em boa parte do meio externo, e no liso a regulação é por outra proteína (a calmodulina), não pela troponina. A comparação estrutural dos três tecidos musculares está em tecidos humanos; a energia da contração (ATP, fosfocreatina, glicogênio), em respiração celular.
Receptores sensoriais: traduzir o mundo em potenciais
Tudo o que o sistema nervoso sabe do mundo e do corpo entra por receptores sensoriais: células, ou terminações de neurônios, que convertem uma forma de energia (pressão, calor, luz, uma molécula) em variação de potencial de membrana. Essa conversão é a transdução: a energia do estímulo abre ou fecha canais iônicos, a membrana do receptor se despolariza em proporção ao estímulo (o potencial receptor, um potencial graduado) e, se o limiar é atingido no neurônio sensitivo, nascem potenciais de ação cuja frequência codifica a intensidade. A partir daí, o sinal é igual a qualquer outro: o que faz você ver luz e não ouvir luz é para onde o axônio vai (córtex occipital, não temporal), não uma diferença no impulso. Esmagar o olho fechado produz clarões; o córtex interpreta como luz tudo o que chega pela via visual.
corpúsculos da pele (tato), fusos musculares (estiramento), células ciliadas da cóclea (audição) e do vestíbulo (equilíbrio), barorreceptores das artérias (pressão)
termorreceptores
temperatura
terminações livres da pele para frio e para calor; neurônios do hipotálamo que leem a temperatura do sangue
quimiorreceptores
moléculas
olfato, paladar, receptores de CO₂ e pH do bulbo e das carótidas, receptores de O₂ das carótidas, receptores de glicose e sal do hipotálamo
fotorreceptores
luz
bastonetes (pouca luz, preto e branco) e cones (cores, três tipos) da retina
nociceptores
estímulos que lesam ou ameaçam lesar o tecido: calor ou frio extremos, pressão intensa, substâncias liberadas por células feridas
terminações livres na pele, nos músculos, nas articulações e nas vísceras; a sensação resultante é a dor
Dois atributos valem para todas as classes. Limiar: cada receptor responde a partir de certa intensidade, e os nociceptores têm limiar alto de propósito, para só avisar do que ameaça o tecido. Adaptação: com estímulo constante, muitos receptores reduzem a frequência de disparo. O tato e o olfato adaptam depressa, e por isso você deixa de sentir a roupa no corpo e o cheiro da casa alheia em minutos; os receptores de dor e os de posição do corpo adaptam devagar ou não adaptam, porque avisar continuamente é a função deles. Em 2021, o Nobel de Fisiologia ou Medicina foi para David Julius e Ardem Patapoutian pela descoberta dos receptores de temperatura e de toque: Julius usou a capsaicina da pimenta para encontrar o canal que responde ao calor doloroso (por isso pimenta “queima” sem esquentar), e Patapoutian encontrou os canais que abrem quando a membrana é esticada, base do tato e da pressão.
A dor não é sentida na pele. A pele tem os nociceptores; a dor é a percepção que o córtex constrói quando o sinal chega. A distinção importa em três situações. Na anestesia local, o dentista bloqueia os canais de Na⁺ do nervo: o dente continua sendo perfurado, os nociceptores disparam, e o sinal não passa; não há dor porque não há mensagem chegando, embora o estímulo exista. Na dor do membro fantasma, uma pessoa amputada sente dor num pé que não tem: o córtex que representava o pé continua ativo, e a dor é tão real quanto qualquer outra. E na analgesia pelas endorfinas, o próprio sistema nervoso reduz a passagem do sinal de dor na medula e no tronco: é o que faz um atleta ferido terminar a prova sem sentir e o que a morfina imita. O item 37 do PAS 3 de 2013, num bloco sobre a doença de Fabry (um acúmulo de lipídios que, dizia o texto, “afeta coração, pele, rins, além dos sistemas gastrointestinal, nervoso, central e periférico” e cujo “principal sintoma é a dor”), afirmou que indivíduos albinos com a doença “não sentem dor, pois as terminações nervosas da sua pele, que é desprovida de queratina, são ineficazes na condução da dor” (gabarito E). Três erros numa frase: albinismo é falta de melanina, não de queratina; a queratina é uma proteína de proteção da epiderme e não conduz coisa alguma, quem conduz são neurônios; e o texto dizia justamente que a dor era o principal sintoma. O item 39 do mesmo bloco, “A doença de Fabri afeta a conexão dos vários tecidos com o sistema nervoso central”, estava certo (gabarito C): o texto listava o sistema nervoso periférico, que é exatamente a conexão dos tecidos com o central. A pele como órgão sensorial e como barreira, com o item 39 de 2025, está em tecidos humanos.
A via visual, até onde os itens chegaram. A luz atravessa a córnea e o cristalino, que são lentes e só focam a imagem, e é convertida em impulso apenas na retina, pelos fotorreceptores: bastonetes para pouca luz, cones para cores (três tipos, e a falha de um ou mais tipos produz o daltonismo). O nervo óptico leva o sinal, via tálamo, ao córtex occipital. A pupila, abertura da íris, dilata no escuro e contrai na claridade. Quatro itens do PAS 3 testaram esta ficha. Em 2015, num texto sobre ritmo circadiano, a prova pôs a transdução no lugar errado: “a luz entra pela córnea e atinge o cristalino, onde se processa a transformação da informação luminosa em impulso nervoso” (item 87, gabarito E; o cristalino é lente, quem transduz é a retina) e acertou a ficha dos cones: “A cegueira de cores… decorre da não funcionalidade dos cones ou de determinados tipos de cones” (item 88, gabarito C). Em 2024, no bloco do retinoblastoma, trocou a membrana: “A camada que reveste a câmara ocular é denominada conjuntiva” (item 54, gabarito E; por dentro, a câmara é revestida pela retina; a conjuntiva cobre o branco do olho e a face interna das pálpebras) e inverteu a pupila (item 56, acima). A audição segue o mesmo desenho: o som é convertido em impulso pelas células ciliadas da cóclea, no ouvido interno, e chega via tálamo ao córtex temporal. A óptica do olho, a mecânica do ouvido, o olfato, o paladar e o equilíbrio em detalhe ficam para a página de órgãos dos sentidos.
Quando o circuito falha: as doenças do sistema nervoso
Cada peça desta página tem uma doença que a ilustra, e os itens reais desta página vieram de textos-base sobre doenças (a doença de Fabry em 2013, o retinoblastoma em 2024). A tabela liga a doença ao mecanismo; nada aqui é orientação individual, e os números vêm das fontes indicadas.
doença
o que falha
o que se sabe e o que a página ensina
AVC (acidente vascular cerebral)
o sangue para de chegar a uma região do encéfalo, por obstrução de uma artéria (isquêmico, 85 % dos casos segundo o Ministério da Saúde) ou por rompimento (hemorrágico, 15 %, mais letal)
sem oxigênio, as bombas de Na⁺/K⁺ param e os neurônios morrem em minutos; o glutamato liberado em excesso agrava a morte celular. A função perdida depende do lugar: fala, movimento de um lado do corpo, visão. É a segunda causa isolada de morte no Brasil, atrás do infarto; a hipertensão é o principal fator de risco. Veja sistema cardiovascular.
epilepsia
descargas elétricas sincronizadas e excessivas de grupos de neurônios do córtex
cerca de 50 milhões de pessoas no mundo vivem com epilepsia (OMS), uma das doenças neurológicas mais comuns; a maioria controla as crises com medicamentos, muitos deles reforçando o GABA ou bloqueando canais de Na⁺. Diz-se “pessoa com epilepsia”, e durante uma crise convulsiva a conduta é proteger a cabeça, não conter os movimentos nem colocar nada na boca.
doença de Parkinson
morte dos neurônios produtores de dopamina da substância negra, no mesencéfalo
tremor em repouso, rigidez, lentidão dos movimentos; mais de 8,5 milhões de pessoas no mundo em 2019, prevalência que dobrou em 25 anos (OMS). O tratamento clássico repõe o precursor da dopamina (levodopa), que atravessa a barreira hematoencefálica; a dopamina em si não atravessa.
doença de Alzheimer
acúmulo de proteínas anormais e morte progressiva de neurônios, começando pelo hipocampo (memória recente) e avançando pelo córtex
causa mais comum de demência (60 a 70 % dos casos, OMS); 57 milhões de pessoas viviam com demência em 2021. Perda de neurônios colinérgicos; não tem cura, e os fatores de risco controláveis (hipertensão, diabetes, sedentarismo, baixa escolaridade, isolamento) são os mesmos de outras doenças crônicas.
esclerose múltipla
o sistema imune destrói a mielina do SNC, em placas
condução lenta, dispersa ou interrompida em axônios vivos; sintomas em surtos conforme a via atingida (visão, força, sensibilidade, equilíbrio). Mostra o que a mielina faz.
depressão
transtorno do humor com base multifatorial (genética, estresse, inflamação, circuitos de recompensa)
os antidepressivos mais usados aumentam a serotonina na fenda, e isso gerou a hipótese de que a depressão seria “falta de serotonina”; uma revisão sistemática de 2022 (Moncrieff e colaboradores) não encontrou evidência consistente de que a depressão seja causada por serotonina baixa. O remédio funcionar não prova a causa: aspirina alivia a dor de cabeça, e dor de cabeça não é falta de aspirina.
meningite
inflamação das meninges por vírus, bactérias, fungos ou parasitas
endêmica no Brasil, com casos o ano inteiro; as bacterianas são as mais graves e as crianças as mais afetadas (Ministério da Saúde); vacinas do calendário previnem as principais formas bacterianas. Detalhe em bactérias.
tétano e botulismo
toxinas de bactérias do gênero Clostridium que agem na sinapse: a tetânica impede a liberação de GABA e glicina na medula e os músculos contraem sem freio (espasmos, trismo); a botulínica impede a liberação de acetilcolina na placa motora e os músculos não contraem (paralisia flácida)
a mesma junção, efeitos opostos: uma tira o freio, a outra tira o acelerador. Prevenção e vias de transmissão em bactérias; soro e vacina em vacinas e soros.
raiva e poliomielite
vírus que infectam neurônios: o da raiva viaja pelos nervos até o encéfalo e causa encefalite quase sempre fatal depois dos sintomas; o da pólio destrói neurônios motores da medula e paralisa
Quase toda substância que altera o sistema nervoso age em um de cinco lugares: nos canais iônicos do axônio, na liberação do neurotransmissor, no receptor, na recaptação ou na enzima que destrói o neurotransmissor. Classificar uma substância pelo lugar em que age é o método para qualquer item do tipo. A tabela organiza as que a prova e o noticiário mais usam; os mecanismos são os descritos na literatura farmacológica, e os efeitos dependem de dose, via e pessoa.
substância
onde age
efeito
anestésicos locais (lidocaína)
bloqueiam canais de Na⁺ dependentes de voltagem do nervo
sem potencial de ação, o sinal de dor não passa; o estímulo existe, a mensagem não chega
tetrodotoxina (baiacu)
bloqueia os mesmos canais de Na⁺, no corpo inteiro, em concentrações mínimas
paralisia dos músculos, inclusive os respiratórios; não há antídoto, só suporte
toxina botulínica
corta proteínas da fusão das vesículas (SNARE) e impede a liberação de acetilcolina na placa motora
paralisia flácida; em doses mínimas e localizadas, uso médico e estético
toxina tetânica
impede a liberação de GABA e glicina nos interneurônios inibitórios da medula
os neurônios motores perdem o freio: espasmos, trismo, opistótono
curare (flechas de povos amazônicos; relaxantes cirúrgicos)
bloqueia o receptor nicotínico de acetilcolina da placa motora
o neurônio libera acetilcolina normalmente, mas o músculo não a lê: paralisia; o paciente anestesiado precisa de ventilação
organofosforados (inseticidas, gases de guerra)
inibem a acetilcolinesterase
a acetilcolina não é destruída e se acumula: contrações contínuas, secreções, convulsões
nicotina
ativa receptores nicotínicos de acetilcolina, no encéfalo e nos gânglios autônomos; libera dopamina no circuito de recompensa
alerta, taquicardia, dependência; o tabaco mata mais de 7 milhões de pessoas por ano no mundo (OMS), e o percentual de fumantes no Brasil vem caindo com ambientes fechados sem fumo, impostos, advertências e tratamento no SUS (INCA)
cafeína
bloqueia receptores de adenosina, a molécula que acumula durante a vigília e sinaliza sono
adia o sono e aumenta a atenção; tolerância com o uso diário
álcool (etanol)
depressor do SNC: reforça a ação inibitória do GABA e reduz a do glutamato, entre outros alvos
desinibição, lentidão de reflexos, perda de coordenação (cerebelo), sono; em dose alta, depressão do bulbo e parada respiratória. O consumo de álcool causou cerca de 2,6 milhões de mortes no mundo em 2019 (OMS), parte delas em acidentes de trânsito, pelo efeito sobre o tempo de reação
cocaína
bloqueia o transportador de recaptação de dopamina (e de noradrenalina e serotonina)
dopamina acumula na fenda: euforia breve, taquicardia, hipertensão, risco de arritmia e AVC; dependência
anfetaminas (incluindo metanfetamina e o metilfenidato terapêutico)
aumentam a liberação e bloqueiam a recaptação de dopamina e noradrenalina
alerta, redução do sono e do apetite; dependência no uso recreativo
opioides (morfina, heroína, fentanil)
ativam os receptores das endorfinas
analgesia potente, euforia, depressão respiratória (causa das mortes por overdose); dependência e tolerância
benzodiazepínicos (ansiolíticos)
reforçam a ação do GABA no seu receptor
sedação, redução da ansiedade; dependência com uso prolongado; perigosos com álcool, que age no mesmo alvo
Cinco alvos, uma lógica. Toda droga ou toxina que age no sistema nervoso bloqueia ou imita algo em um destes lugares: o canal do axônio, a liberação, o receptor, a recaptação ou a enzima. Duas substâncias no mesmo alvo com ações opostas (curare bloqueia o receptor que a nicotina ativa) produzem efeitos opostos. Diagrama autoral.
Por que o tempo de reação é o que o trânsito mede
Um motorista sóbrio e atento leva cerca de 1 s entre ver o obstáculo e pisar no freio: retina, tálamo, córtex visual, decisão, córtex motor, medula, nervo, músculo da perna. Nesse 1 s, um carro a 80 km/h (22 m/s) percorre 22 m antes de começar a frear. O álcool alonga esse tempo (reforça o GABA, deprime o córtex e o cerebelo), o celular desvia a atenção que o córtex teria de dar à estrada, e o sono (a adenosina acumulada que a cafeína bloqueia) faz as duas coisas. É por isso que a lei seca e as campanhas contra o celular ao volante são, em última análise, políticas sobre sinapses: cada décimo de segundo a mais de reação são 2,2 m a mais de carro em movimento.
O sistema nervoso também marca a hora
Dormir não é desligar: é um estado ativo, organizado em ciclos de cerca de 90 minutos que alternam sono de ondas lentas e sono REM (dos movimentos rápidos dos olhos, em que se sonha e em que os músculos ficam paralisados por inibição dos neurônios motores). O que determina a hora de dormir é um relógio de 24 horas no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, um grupo de neurônios que recebe informação direta da retina sobre a luz e ajusta o resto do corpo: a temperatura, a pressão arterial, o cortisol e a melatonina, hormônio da glândula pineal que sobe à noite e é inibido pela luz, em especial a luz azul das telas. Esse relógio existe em cada célula, movido por genes cuja proteína acumula e, ao chegar a certo nível, desliga o próprio gene, num ciclo de cerca de um dia. Jeffrey Hall, Michael Rosbash e Michael Young descobriram esse mecanismo molecular em moscas e receberam por isso o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2017. A melatonina, o sono e sua relação com a insulina e o estresse estão em sistema endócrino.
Da rede difusa ao encéfalo: um minuto de evolução
Esponjas não têm neurônios. Os cnidários (hidras, águas-vivas) têm os primeiros: uma rede nervosa difusa, sem centro, em que o sinal se espalha em todas as direções a partir do estímulo. Nos animais de simetria bilateral apareceram duas novidades que o resto da evolução só refinou: a cefalização, a concentração de neurônios e receptores na extremidade que vai à frente, formando gânglios cerebrais e depois um encéfalo; e os cordões nervosos longitudinais, que levam o sinal de ponta a ponta. Planárias têm gânglios na cabeça e dois cordões; anelídeos e artrópodes têm um par de gânglios cerebrais e um cordão nervoso ventral, com um gânglio por segmento; os cordados, incluindo nós, têm um tubo nervoso dorsal, oco, que forma o encéfalo e a medula. Ventral nos artrópodes, dorsal nos vertebrados: é a diferença que a prova explora em zoologia. A fisiologia comparada do sistema nervoso dos invertebrados e dos vertebrados fica para as páginas de zoologia; aqui vale a lição: o neurônio, o potencial de ação e a sinapse química são os mesmos de uma hidra a um ser humano. O que mudou foi o número e a organização.
Quem descobriu o quê
ano
descoberta
quem
1791
pernas de rã se contraem ao toque de metais: a “eletricidade animal”; nascem a eletrofisiologia e a ideia de que o nervo conduz eletricidade
Luigi Galvani, em Bolonha
1906
Nobel pela estrutura do sistema nervoso: Golgi criou a coloração de prata que revelou o neurônio inteiro; Cajal, usando-a, mostrou que os neurônios são células separadas, que se comunicam por contato (a doutrina do neurônio), contra a tese de Golgi de uma rede contínua. Dividiram o prêmio discordando
Camillo Golgi e Santiago Ramón y Cajal
1921
o experimento dos dois corações de rã: o líquido que banhava um coração cujo nervo vago fora estimulado, transferido a um segundo coração, também o freava; a transmissão nervosa é química (a substância era a acetilcolina). Nobel de 1936, com Henry Dale
Otto Loewi
1952
medições no axônio gigante da lula descrevem o potencial de ação como correntes de Na⁺ e K⁺ através de canais dependentes de voltagem, com um modelo matemático que prevê a forma e a velocidade do impulso. Nobel de 1963, com John Eccles (sinapses inibitórias)
Alan Hodgkin e Andrew Huxley
1957
identificação da bomba de sódio e potássio, em nervos de caranguejo. Nobel de Química de 1997
Jens Skou
2000
Nobel pela transdução de sinal no sistema nervoso: a dopamina como neurotransmissor e sua falta no Parkinson (Carlsson), a cascata química dentro do neurônio depois do receptor (Greengard) e a base sináptica da memória, estudada num molusco marinho (Kandel)
Arvid Carlsson, Paul Greengard e Eric Kandel
2017
Nobel pelos genes do relógio circadiano, em moscas
Jeffrey Hall, Michael Rosbash e Michael Young
2021
Nobel pelos receptores de temperatura (o canal da capsaicina e do calor) e de toque (canais ativados por estiramento)
David Julius e Ardem Patapoutian
A disputa que valeu um Nobel para os dois lados
Golgi e Cajal subiram juntos ao palco em Estocolmo em 1906 e deram palestras que se contradiziam. Golgi defendia que o sistema nervoso era um retículo contínuo, uma rede de citoplasma sem fronteiras entre as células; Cajal, com as lâminas feitas pelo método do próprio Golgi, sustentava que cada neurônio era uma célula independente, e que o sinal passava de uma a outra por contato, em um só sentido, dos dendritos ao axônio. Cajal estava certo, mas a confirmação definitiva só veio nos anos 1950, quando o microscópio eletrônico mostrou a fenda sináptica: um espaço real de uns 20 nanômetros entre duas membranas, estreito demais para o microscópio óptico, largo demais para a corrente atravessar. A fenda que Golgi não via é o motivo de a sinapse ser química.
Como ler um gráfico, uma tabela e um esquema de sistema nervoso
Os itens de sistema nervoso vêm em três formatos de figura, e cada um tem uma leitura.
O gráfico de potencial de ação (mV × ms). Primeiro localize as três linhas de referência: o repouso (perto de −70 mV), o limiar (perto de −55) e o zero. Depois identifique as fases pelo sentido da curva: subindo é despolarização (Na⁺ entrando), descendo é repolarização (K⁺ saindo), abaixo do repouso é hiperpolarização. A amplitude é a distância do repouso ao pico (cerca de 100 mV); a duração, a largura da base (1 a 2 ms). Se o gráfico mostra vários potenciais em sequência, a informação está no intervalo entre eles: intervalos menores significam frequência maior, portanto estímulo mais intenso; a altura dos picos deve ser a mesma, e um gráfico em que o pico cresce com o estímulo está desenhando um potencial graduado, não um potencial de ação. Exemplo resolvido: um gráfico mostra potenciais de ação a cada 20 ms durante um estímulo fraco e a cada 5 ms durante um estímulo forte. A frequência passou de 1/0,020=50 Hz para 1/0,005=200 Hz; a amplitude não mudou. Conferência: 200 Hz corresponde a um disparo a cada 5 ms, folgado em relação ao limite imposto pelo período refratário absoluto de cerca de 1 ms (1 000 Hz).
A tabela de velocidade de condução. As colunas são diâmetro, mielina e velocidade. A leitura é monotônica: mais diâmetro, mais velocidade; com mielina, muito mais velocidade. Um item que diga que a fibra mais fina e sem mielina é a mais rápida está invertendo a tabela; um que associe fibras finas e lentas à dor difusa e tardia está certo. Se a tabela der distância e velocidade, a conta é t=d/v, com atenção às unidades (metros e metros por segundo dão segundos; multiplique por 1 000 para milissegundos).
O esquema de sinapse ou de arco reflexo. Procure a direção das setas: numa sinapse química, vesículas de um lado, receptores do outro, seta em um sentido. Num arco reflexo, o receptor está na periferia, a entrada é dorsal, a saída é ventral, o efetor é um músculo ou glândula. Conte as sinapses dentro do SNC: uma, monossináptico (patelar); duas ou mais, polissináptico (retirada). Se a figura mostra uma seta subindo ao encéfalo, ela é a cópia que gera a percepção, não a via do reflexo. Exemplo resolvido: um esquema mostra um neurônio A liberando uma substância sobre um neurônio B, e um gráfico ao lado mostra o potencial de B indo de −70 para −78 mV. Que tipo de sinapse é? A hiperpolarização afasta B do limiar: sinapse inibitória, com receptor que abre canais de Cl⁻ ou de K⁺; se a substância fosse GABA ou glicina, o padrão fecharia. Conferência: a direção do efeito está no gráfico de B, não no nome do neurotransmissor; a acetilcolina, por exemplo, produziria o oposto num músculo esquelético e o mesmo numa célula do nó sinusal.
Os erros que a prova planta, e como desarmá-los
Nos treze itens reais do PAS 3 reunidos nesta página (2008 a 2025), a banca usou sempre a mesma estratégia: uma frase fisiológica correta até quase o fim, com uma etiqueta trocada, o sentido (dendrito e axônio, pupila que contrai no escuro), o agente (queratina conduzindo dor, cristalino convertendo luz) ou o endereço (hipotálamo na audição). A lista abaixo junta esses e os erros clássicos das aulas.
“O impulso nervoso é um fenômeno puramente elétrico.” Eletroquímico: a voltagem é produzida por íons atravessando canais, não por elétrons num condutor. Foi E no PAS 3 de 2025 (item 95).
“O sinal percorre o neurônio no sentido corpo celular → axônio → dendrito” ou volta pelo mesmo axônio. É dendrito → corpo → axônio, e o período refratário impede a volta. E no PAS 3 de 2023 (item 119).
“A sinapse é um contato físico por onde passa a corrente.” A sinapse química tem uma fenda e usa neurotransmissor; só a sinapse elétrica, rara entre neurônios, passa corrente.
“O neurotransmissor entra na célula seguinte.” Ele se liga a um receptor da membrana e é removido da fenda; a resposta é da célula, pelo canal ou pela cascata que o receptor aciona.
“O reflexo passa pelo cérebro.” O arco fecha na medula (ou no tronco); o encéfalo recebe uma cópia e fica sabendo depois.
“Simpático é o da calma.” Simpático é emergência; parassimpático é repouso. A pupila dilata no escuro e no susto: “contraem em locais escuros” foi E em 2024 (item 56).
“O cerebelo pensa” ou “o tálamo interpreta”. Córtex pensa e interpreta; cerebelo coordena; tálamo retransmite; hipotálamo regula. O diencéfalo “controlando a audição” foi E em 2011 (item 107).
“Neurônio em repouso não gasta energia.” O repouso é mantido pela bomba de Na⁺/K⁺, uma das maiores despesas de ATP do corpo.
“A mielina acelera porque isola o axônio por completo.” Isola por trechos; o potencial renasce nos nódulos. Uma bainha contínua impediria a condução.
“Estímulo mais forte, impulso maior.” Tudo ou nada: a amplitude é fixa; a intensidade vai na frequência e no número de fibras recrutadas.
“A adrenalina é só hormônio” ou “a noradrenalina é só neurotransmissor”. A mesma molécula é neurotransmissor quando sai de um terminal e hormônio quando a suprarrenal a lança no sangue.
“A dor é sentida na pele.” A pele tem nociceptores; a dor é percebida no córtex. A queratina “ineficaz na condução da dor” foi E em 2013 (item 37).
“A luz vira impulso no cristalino.” Lentes focam; a retina transduz. E em 2015 (item 87). A conjuntiva revestindo a câmara ocular foi E em 2024 (item 54).
“A contração acontece porque a actina encurta” ou “o cálcio é a energia da contração”. Os filamentos deslizam sem mudar de tamanho; o Ca²⁺ é o gatilho e o ATP é a energia. O Ca²⁺ “espalhando-se pelo citosol” e provocando a contração foi C em 2021 (item 59).
“A depressão é falta de serotonina” e “queda de serotonina é ausência de serotonina”. A primeira é uma hipótese sem sustentação consistente nas evidências; a segunda foi o erro do item 89 de 2008.
“Usamos só 10 % do cérebro.” Não há região inativa: exames de imagem mostram atividade em todo o encéfalo ao longo de um dia, e lesões em qualquer região produzem déficit. Um órgão que consome 20 % da energia do corpo não carrega 90 % de peso morto.
O essencial em meia página
Organização: SNC (encéfalo e medula) processa; SNP (nervos e gânglios) leva e traz. SNP sensitivo (aferente) e motor (eferente); motor somático (músculo esquelético, 1 neurônio) e autônomo (liso, cardíaco, glândulas, 2 neurônios com gânglio), dividido em simpático e parassimpático; entérico na parede do intestino.
Neurônio: dendrito → corpo celular → axônio, sempre (2023/119 E). Sensitivo, interneurônio, motor. Glia: astrócitos, micróglia, ependimárias, oligodendrócitos (mielina no SNC) e Schwann (mielina no SNP). Cerca de 86 bilhões de neurônios. Cinzenta processa, branca transmite.
Repouso: −70 mV; Na⁺ fora (145 mmol/L), K⁺ dentro (140); bomba 3 Na⁺ fora / 2 K⁺ dentro por ATP; canais de vazamento de K⁺ dão o número. Custa 19 a 28 % do O₂ de repouso; encéfalo = 2 % da massa, 20 % da energia.
Potencial de ação: limiar −55 mV → canais de Na⁺ abrem, Na⁺ entra, pico +30 (despolarização) → Na⁺ inativa, K⁺ sai (repolarização) → hiperpolarização → repouso. Cerca de 100 mV em cerca de 2 ms. Tudo ou nada; intensidade = frequência + recrutamento; refratário absoluto (cerca de 1 ms) limita a frequência e impede a volta. Eletroquímico, não elétrico (2025/95 E).
Condução: contínua (sem mielina, lenta, menos de 1 m/s nas fibras finas) ou saltatória (mielina + nódulos de Ranvier, até cerca de 100 m/s). Mais diâmetro e mielina = mais rápido; sem mielina, 2× velocidade exige 4× diâmetro. t=d/v: 1 m a 50 m/s = 20 ms. Esclerose múltipla destrói a mielina.
Sinapse química: PA → Ca²⁺ entra → vesículas → neurotransmissor na fenda → receptor → PEPS (Na⁺) ou PIPS (Cl⁻, K⁺) → remoção (enzima, recaptação, difusão). Sentido único; atraso; o receptor decide o efeito. Somação temporal e espacial. Placa motora: acetilcolina, sempre excitatória. Elétrica: junções comunicantes, coração e músculo liso.
Reflexo: receptor → sensitivo (raiz dorsal) → medula → motor (raiz ventral) → efetor; o encéfalo só recebe cópia. Patelar: monossináptico. Retirada: polissináptico, com interneurônios. Cerca de 50 ms; a dor consciente chega depois.
Encéfalo: córtex (frontal comanda e fala, parietal sente, temporal ouve e compreende, occipital vê) percebe e decide; corpo caloso une os hemisférios, cada um governa o lado oposto; tálamo retransmite (2024/55 C); hipotálamo regula a homeostase e a hipófise (não ouve: 2011/107 E); cerebelo coordena e equilibra; tronco (mesencéfalo, ponte, bulbo) mantém respiração e batimentos; límbico: emoção (amígdala) e memória (hipocampo). Meninges (dura, aracnoide, pia), líquor, barreira hematoencefálica.
Autônomo: simpático = emergência (toracolombar, noradrenalina no órgão): pupila dilata (2024/56 E), coração acelera, brônquios dilatam, glicose sobe, digestão para, suprarrenal libera adrenalina. Parassimpático = repouso (craniossacral, vago, acetilcolina): o inverso. Acetilcolina em todos os gânglios. Nenhum cria o ritmo cardíaco; os dois o ajustam.
Músculo: acetilcolina → PA na fibra → Ca²⁺ sai do retículo (2021/59 C) → troponina move a tropomiosina → miosina puxa a actina (deslizamento, filamentos não encurtam) → ATP solta e rearma; relaxar = recolher Ca²⁺. Rigor mortis = sem ATP; tetania = somação de abalos; fadiga não é lactato.
Receptores: mecano, termo, quimio, foto e nociceptores; transdução = energia → potencial; frequência codifica intensidade; limiar e adaptação. Dor é percepção cortical, não cutânea (2013/37 E). Luz vira impulso na retina, não no cristalino (2015/87 E); cones = cores (2015/88 C); retina reveste a câmara ocular (2024/54 E).
Saúde: AVC (85 % isquêmico, 2.ª causa de morte no Brasil), epilepsia (50 milhões, OMS), Parkinson (dopamina; 8,5 milhões, 2019), Alzheimer (hipocampo; 60 a 70 % das demências), esclerose múltipla (mielina), meningite (endêmica; vacinas), tétano (sem freio) e botulismo (sem acelerador). Drogas: classifique pelo alvo (canal, liberação, receptor, recaptação, enzima). Álcool: 2,6 milhões de mortes em 2019; tabaco: mais de 7 milhões por ano (OMS).
História: Galvani 1791; Golgi e Cajal 1906 (doutrina do neurônio); Loewi 1921 (acetilcolina; Nobel 1936); Hodgkin e Huxley 1952 (Nobel 1963); Skou 1957 (bomba); Nobel 2000 (dopamina, cascatas, memória), 2017 (relógio circadiano), 2021 (receptores de temperatura e toque).
Exercícios temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.
Flashcards temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar os cartões de revisão.
Sistema Nervoso | Prof. Paulo Jubilut
Paulo Jubilut · 31:22
Introdução. Em cerca de 31 minutos, a aula apresenta as funções do sistema nervoso e o funcionamento do sistema nervoso central e do periférico e dos órgãos que os compõem. É o panorama das seções “O corpo tem dois correios, e o nervoso é o rápido” e “O encéfalo: cada região com um verbo”; assista com a árvore da organização e a tabela do encéfalo abertas e, a cada estrutura citada, anote o verbo dela.
[#1] POTENCIAL DE AÇÃO: Despolarização, Repolarização e Hiperpolarização | MK Fisiologia
MK Fisiologia · 11:24
Aprofundamento. A aula explica como o potencial de ação é gerado no neurônio, quais são as suas fases e o que acontece com os canais de sódio e de potássio na despolarização, na repolarização e na hiperpolarização. É a seção “O potencial de ação é tudo ou nada” e o gráfico de mV por ms desta página; pause em cada fase e confira o íon e o sentido com o gráfico.
Sistema Nervoso Voluntário e Autônomo | Simpático e Parassimpático - Aula 38 - Mód. 7: Fisio Humana
Prof. Guilherme Goulart - Biologia · 19:37
Aplicação. A aula separa o sistema nervoso periférico voluntário (12 pares de nervos cranianos e 31 espinhais) do autônomo e compara os ramos simpático e parassimpático nos órgãos. É a seção “Simpático e parassimpático: acelerar e frear sem pedir licença”; acompanhe com a tabela de efeitos por órgão e marque, a cada exemplo, qual ramo age e qual neurotransmissor chega ao órgão.
Resolução comentada | Enem | Biologia | Sistema nervoso
Doctormath · 4:52
Resolução de questão. Comentário de uma questão do ENEM sobre qual sistema é o principal responsável por manter a temperatura corporal entre 36 °C e 37 °C em dias de calor ou durante o exercício, com as cinco alternativas (digestório, imunológico, nervoso, cardiovascular, endócrino) e a resposta no sistema nervoso, que promove a sudorese. É a passagem sobre o hipotálamo como termostato e o controle autônomo das glândulas sudoríparas e dos vasos da pele; resolva antes de ver a resolução.
A árvore do sistema nervoso. A divisão anatômica (central e periférico) e a funcional (sensitivo e motor; somático e autônomo; simpático e parassimpático) são dois cortes do mesmo sistema: um nervo espinhal carrega, lado a lado, axônios sensitivos, somáticos e autônomos. Diagrama autoral.O potencial de ação em um ponto do axônio. Repouso em −70 mV, limiar em −55 mV, pico em +30 mV: uma oscilação de cerca de 100 mV em cerca de 2 ms. A subida é entrada de Na⁺; a descida, saída de K⁺. Durante o período refratário absoluto nenhum estímulo dispara outro potencial; no relativo, só um estímulo maior que o normal. Valores típicos de livro-texto. Diagrama autoral.Contínua contra saltatória. Sem mielina (em cima), cada ponto da membrana refaz o potencial de ação; com mielina (embaixo), a corrente corre por dentro do trecho isolado e o potencial só é refeito nos nódulos. Mesmo axônio, mesma amplitude de sinal, velocidades que diferem em até cem vezes. Fora de escala; velocidades em ordem de grandeza. Diagrama autoral.Os seis passos da sinapse química. O sinal elétrico vira químico no terminal, atravessa a fenda como molécula e volta a ser elétrico na célula seguinte. Só o lado pré-sináptico tem vesículas e só o pós-sináptico tem receptores: por isso a sinapse tem sentido único. Fora de escala. Diagrama autoral.Os dois reflexos que a prova usa. No patelar, uma única sinapse entre o sensitivo e o motor; na retirada, interneurônios coordenam flexores e extensores. Nos dois, a raiz dorsal é a entrada (sensitiva) e a raiz ventral é a saída (motora), e o encéfalo só recebe uma cópia. Fora de escala; tempos de modelo (1 m a 50 m/s em cada nervo). Diagrama autoral.O encéfalo visto de lado, cada região com o seu verbo. Córtex percebe e decide; tálamo retransmite; hipotálamo mantém a homeostase e comanda a hipófise; cerebelo coordena; tronco mantém a respiração e os batimentos. A linguagem fica no hemisfério esquerdo na maioria das pessoas: Broca fala, Wernicke compreende. Esquema fora de escala. Diagrama autoral.Os dois ramos do autônomo, órgão a órgão. O simpático prepara para a emergência: mais luz, mais sangue nos músculos, mais glicose, mais ar; o parassimpático cuida do repouso: digestão, esvaziamento, coração lento. A pupila já foi item de prova (PAS 3 2024, item 56): dilata no escuro e no susto, contrai na claridade. Diagrama autoral.Cinco alvos, uma lógica. Toda droga ou toxina que age no sistema nervoso bloqueia ou imita algo em um destes lugares: o canal do axônio, a liberação, o receptor, a recaptação ou a enzima. Duas substâncias no mesmo alvo com ações opostas (curare bloqueia o receptor que a nicotina ativa) produzem efeitos opostos. Fora de escala. Diagrama autoral.O reflexo de retirada em ação: nociceptor da pele, neurônio sensitivo, interneurônios na medula, neurônio motor e bíceps, em cerca de 50 ms. A mão sai antes de a dor ser percebida no córtex.O eletroencefalograma registra, pelo couro cabeludo, a soma da atividade elétrica de milhões de neurônios do córtex: potenciais pós-sinápticos sincronizados aparecem como ondas. É o exame que mostra as descargas excessivas e sincronizadas da epilepsia.Em segundos: pupilas dilatadas, coração acelerado, brônquios abertos, glicose no sangue, digestão parada. É o ramo simpático em ação, prolongado pela adrenalina que a suprarrenal lança no sangue.O baiacu carrega tetrodotoxina, que bloqueia os canais de sódio dependentes de voltagem: sem entrada de Na⁺ não há potencial de ação, e os músculos, inclusive os respiratórios, param. Um alvo, um efeito.A toxina tetânica impede a liberação de GABA e glicina na medula e tira o freio dos neurônios motores: espasmos. A vacina ensina o corpo a neutralizar a toxina antes que ela chegue à sinapse.O eletroencefalograma registra, pelo couro cabeludo, a soma da atividade elétrica de milhões de neurônios do córtex. É o exame que mostra as descargas sincronizadas da epilepsia.O reflexo de retirada: nociceptor da pele, neurônio sensitivo, interneurônios na medula, neurônio motor e bíceps em cerca de 50 ms. A mão sai antes de a dor chegar ao córtex.Neurônios e glia em cultura. O neurônio é uma célula de mão única: dendritos recebem, o corpo celular integra, o axônio transmite. A glia, tão numerosa quanto os neurônios, sustenta, isola e defende.O anestésico local bloqueia os canais de Na⁺ do nervo: o dente continua sendo tratado, os nociceptores disparam, mas o potencial de ação não chega à medula nem ao encéfalo. O estímulo existe; a dor não.
Rota PAS 3
Histologia e fisiologia humana: o corpo em rede · PAS 3
Fontes desta página
Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.
Rota PAS 3 — Histologia e fisiologia humana: o corpo em rede · Abertura e aquecimento (os dois correios do corpo; neurônio e sinapse em uma frase; o susto da faixa de pedestres passo a passo); Sistema nervoso e muscular: o sinal que viaja em mão única (conceito, o reflexo da panela com números, lembrete despolarizar/repolarizar, itens reais 2023/119 e 120, 2024/54, 55 e 56, 2015/87 e 88, 2011/107, 2013/37 e 39, 2008/89, armadilha da palavra final, checagem); Como a banca cobra (histórico do assunto); Estratégia (impulso é eletroquímico); Banco de treino T9 (PAS 3 2021/59), T20 e T24 (PAS 3 2025/95)
Recorte por assunto: só a fisiologia nervosa, sensorial geral e muscular. As seções de tecidos e pele, endócrino, genitais, circulação e respiração, digestão e excreção e imunidade do mesmo capítulo pertencem às páginas próprias. A página acrescenta, ausentes do capítulo: potencial de repouso e de ação com números, períodos refratários, condução e velocidade, sinapse em seis passos e somação, tabela de neurotransmissores, arco reflexo detalhado, medula, encéfalo região por região, tabela do autônomo, contração muscular passo a passo, receptores e dor, doenças, drogas e toxinas, sono, evolução e história.
Rota PAS 3 — Resoluções do banco de treino · T9 (PAS 3 2021, item 59, C) e T24 (PAS 3 2025, item 95, E): confirmação de que os dois são itens reais e dos gabaritos
Conferência dos gabaritos dos itens do banco de treino usados como itens reais.
Biologia EM1 — Capítulo 6: Membrana plasmática e transportes · Transporte ativo: a bomba de sódio e potássio (concentrações de Na⁺ e K⁺ dentro e fora do neurônio; 3 para fora, 2 para dentro, 1 ATP; custo de 19 a 28 % do oxigênio de repouso, Rolfe e Brown 1997; Skou 1957); exercício sobre a conta de energia do sódio e o encéfalo com 2 % da massa e 20 % da energia
Fonte dos números do potencial de repouso, conferidos com OpenStax Anatomy and Physiology 2e, capítulo 12.4.
Biologia EM1 — Capítulo 7: Energia na célula · Fermentação lática (músculo em esforço; o lactato não é a causa da fadiga; a corrida de 400 m nas três escalas); retículo endoplasmático liso guardando Ca²⁺ no músculo
Base da passagem sobre fadiga, lactato e cãibra, coerente com a página de fermentação.
Rota PAS 2 — Zoologia (fisiologia comparada) · Cordão nervoso ventral dos artrópodes e tubo nervoso dorsal dos cordados; órgãos dos sentidos como conjuntos de receptores (transdução, classificação pelo estímulo)
Usado só para a comparação evolutiva curta e para a definição de receptor; os itens de zoologia (2017/31, 2019/82) pertencem às páginas de zoologia.