Lipídios

Guia de estudo · Revisado em 02/10/2026

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A manteiga endurece na geladeira e o óleo de soja continua líquido, nenhum dos dois sai da frigideira só com água, e o rótulo do biscoito separa gorduras totais, saturadas e trans. O que essas moléculas têm em comum, o que muda de uma para outra, e como a mesma família que guarda energia também forma a membrana das células, os hormônios e parte das vitaminas?

O que você vai aprender

  • Definir lipídio pelo comportamento (insolúvel em água, solúvel em solventes orgânicos) e explicar por que lipídios não são polímeros.
  • Diferenciar ácidos graxos saturados, insaturados cis e insaturados trans pela forma da cadeia e prever o estado físico de uma gordura a partir de sua composição.
  • Escrever a síntese por desidratação e a hidrólise de um triglicerídeo e calcular o número e a massa de moléculas de água envolvidas.
  • Explicar, pelo grau de oxidação da molécula e pela ausência de água, por que a gordura rende 9 kcal por grama, e relacionar o tecido adiposo a reserva, isolamento térmico e proteção mecânica.
  • Descrever o fosfolipídio como molécula anfipática e explicar por que ele forma bicamadas em meio aquoso.
  • Explicar a saponificação e o modo como sabão, detergente e sais biliares dispersam a gordura na água, distinguindo emulsificar de digerir.
  • Listar as funções do colesterol, justificar sua ausência em alimentos vegetais e diferenciar LDL e HDL como partículas de transporte.
  • Explicar como a hidrogenação parcial produz gordura trans, por que ela é regulada e quais prazos a Anvisa estabeleceu (RDC 332/2019, substituída pela RDC 632/2022).
  • Identificar os ácidos graxos essenciais (ômega-3 e ômega-6) e o significado da numeração.
  • Associar as vitaminas A, D, E e K a função, fontes e carência, e explicar por que são absorvidas com a gordura e podem se acumular.
  • Interpretar resultados de testes escolares para lipídios (mancha translúcida, Sudan III), reconhecendo controles e limites da conclusão.
  • Ler as linhas de gorduras de uma tabela nutricional, calcular a energia vinda da gordura e a porcentagem do valor diário e aplicar o critério da lupa de gordura saturada.

Deixe três potes na geladeira por uma noite: manteiga, azeite de oliva e óleo de soja. De manhã, a manteiga está dura, o azeite ficou turvo e pastoso e o óleo de soja continua líquido. Leve a frigideira do jantar para a pia e abra a torneira: a água escorre por cima da gordura e não leva nada. Com uma gota de detergente, a gordura sai. Vire o pacote de biscoito recheado que ficou na mesa: a tabela lista gorduras totais, saturadas e trans, e na frente da embalagem uma lupa preta avisa que o produto é alto em gordura saturada.

As três cenas tratam da mesma família de moléculas, os lipídios. O que une a família é um comportamento: essas moléculas não se dissolvem em água. Dessa propriedade saem as funções. Uma gordura que não se mistura com a água pode ser guardada sem água, e por isso é a reserva de energia mais compacta que um ser vivo tem. Uma molécula com uma ponta que gosta de água e outra que foge dela se organiza sozinha em uma película, e essa película é a membrana de todas as células. O que diferencia um lipídio de outro é a forma da molécula: uma cadeia reta ou dobrada decide entre a manteiga e o óleo, e quatro anéis de carbono fazem o colesterol, de onde o corpo tira hormônios e vitamina D.

Esta página explica o que é um lipídio e por que ele não é um polímero, o que significam saturada, insaturada e trans, como se monta e se desmonta um triglicerídeo, por que a gordura rende 9 kcal por grama, como o fosfolipídio forma a bicamada, como o sabão e a bile dispersam gordura na água, o que o colesterol faz e o que são LDL e HDL, por que o Brasil proibiu a gordura trans industrial, o que são ômega-3 e ômega-6, o que fazem as vitaminas A, D, E e K, como identificar um lipídio no laboratório da escola e como ler as linhas de gordura de um rótulo. Os açúcares estão em carboidratos; as enzimas e as vitaminas hidrossolúveis, em proteínas e enzimas; a polaridade da água, em água e sais minerais; o mosaico fluido e os transportes, em membrana plasmática e transportes; a digestão das gorduras ao longo do tubo digestório, em sistema digestório; os hormônios esteroides como sistema, em sistema endócrino; a aterosclerose, em sistema cardiovascular.

Lipídio se define pelo comportamento, não por uma fórmula

Uma ideia de química basta para começar. A molécula de água é polar: tem um lado levemente negativo (o do oxigênio) e outro levemente positivo (o dos hidrogênios). Substâncias com cargas ou com regiões polares, como o sal e o açúcar, são atraídas pelas moléculas de água e se dissolvem. Uma cadeia longa feita só de carbono e hidrogênio não tem polos. As moléculas de água atraem-se mais entre si do que atraem essa cadeia, e ela fica de fora. Substâncias que se dissolvem em água são hidrofílicas; as que não se dissolvem, hidrofóbicas.

O que é um lipídio

Lipídios são as moléculas orgânicas dos seres vivos que não se dissolvem em água e se dissolvem em solventes orgânicos, como éter, hexano, clorofórmio e acetona. O grupo não tem uma unidade que se repete nem uma fórmula geral. Entram nele os triglicerídeos (gorduras e óleos), os fosfolipídios, os esteroides (colesterol e hormônios derivados), as ceras e os carotenoides. O que todos têm em comum é uma grande região de carbono e hidrogênio, apolar.

Essa definição tem uma consequência que as provas exploram. Carboidratos, proteínas e ácidos nucleicos formam polímeros: uma unidade pequena, o monômero, repete-se dezenas ou milhares de vezes em cadeia. O amido é uma fila de glicoses, e uma proteína é uma fila de aminoácidos. Os lipídios não funcionam assim. Um triglicerídeo tem quatro peças, um glicerol e três ácidos graxos, e termina aí. Nenhum ácido graxo se liga a outro ácido graxo para alongar uma cadeia. Glicerol e ácidos graxos são as peças de alguns lipídios, e não monômeros. O colesterol nem ácido graxo tem.

grupo de que é feito o que faz exemplos
triglicerídeos glicerol + três ácidos graxos reserva de energia, isolamento térmico, proteção mecânica manteiga, óleo de soja, gordura do tecido adiposo
fosfolipídios glicerol + dois ácidos graxos + grupo fosfato formam a bicamada das membranas lecitina (da gema e da soja)
esteroides quatro anéis de carbono fundidos componente de membrana; origem de hormônios, vitamina D e sais biliares colesterol, testosterona, estradiol, cortisol
ceras ácido graxo + álcool de cadeia longa impermeabilizam superfícies cutícula das folhas, cera de abelha, cera de carnaúba
carotenoides cadeias longas de carbono com duplas ligações alternadas pigmentos; alguns originam vitamina A betacaroteno, licopeno
Não se misturar e boiar são duas coisas

O óleo não se mistura com a água porque é apolar. O óleo fica por cima porque é menos denso que a água. São duas propriedades independentes. Um líquido apolar mais denso que a água, como o clorofórmio, também não se mistura com ela e vai para o fundo. Uma frase como “o óleo boia porque é apolar” junta uma causa com o efeito errado.

Ácidos graxos: a forma da cadeia decide entre gordura e óleo

Um ácido graxo é uma cadeia de carbonos ligados a hidrogênios, com um grupo ácido (a carboxila, −COOH\mathrm{-COOH}) em uma das pontas. Nos alimentos, as cadeias têm em geral de 12 a 22 carbonos, e as mais comuns têm 16 ou 18. A carboxila é a única parte polar. O resto da cadeia é apolar, e é ela que dá ao lipídio seu comportamento.

Duas cadeias do mesmo tamanho podem diferir nas ligações entre os carbonos.

Saturado, insaturado, cis e trans

No ácido graxo saturado, todos os carbonos da cadeia estão unidos por ligações simples. Cada carbono carrega o máximo de hidrogênios possível: a cadeia está saturada de hidrogênio. O ácido esteárico, de 18 carbonos, tem fórmula C18H36O2\mathrm{C_{18}H_{36}O_2}.

No ácido graxo insaturado, há uma ou mais ligações duplas entre carbonos. Cada dupla tira dois hidrogênios da molécula. O ácido oleico, também de 18 carbonos, tem uma dupla e fórmula C18H34O2\mathrm{C_{18}H_{34}O_2}: é monoinsaturado. O ácido linoleico tem duas duplas (C18H32O2\mathrm{C_{18}H_{32}O_2}) e é poli-insaturado.

A dupla ligação pode se arranjar de duas maneiras. Na configuração cis, a que os seres vivos produzem quase sempre, os dois hidrogênios vizinhos à dupla ficam do mesmo lado, e a cadeia faz uma dobra de cerca de 30 graus naquele ponto. Na configuração trans, os dois hidrogênios ficam em lados opostos, e a cadeia continua quase reta, parecida com a de um saturado.

A forma decide o estado físico. Cadeias retas encostam umas nas outras em todo o comprimento, como lápis em uma caixa. As atrações entre elas se somam, e é preciso mais calor para separá-las: o ponto de fusão é alto. Cadeias dobradas não se encaixam, ficam afastadas, e o material derrete em temperatura mais baixa. Quatro ácidos graxos de 18 carbonos mostram o efeito (valores do banco de dados PubChem, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos):

ácido graxo (18 carbonos) duplas ligações forma da cadeia ponto de fusão
esteárico nenhuma reta cerca de 69 °C
elaídico uma, trans quase reta 42 a 44 °C
oleico uma, cis dobrada cerca de 13 °C
linoleico duas, cis duas dobras cerca de −7 °C

Em um dia de 25 °C, os dois primeiros são sólidos e os dois últimos, líquidos. O ácido elaídico e o oleico têm a mesma fórmula, C18H34O2\mathrm{C_{18}H_{34}O_2}, e a mesma quantidade de duplas. A única diferença é a geometria da dupla, e ela vale cerca de 30 graus Celsius no ponto de fusão.

Três linhas, uma para cada tipo de ácido graxo de 18 carbonos. Na primeira, saturado, ácido esteárico: uma cadeia laranja em zigue-zague reta, com o grupo COOH em azul na ponta esquerda, e ao lado quatro cadeias retas empilhadas bem juntas; rótulo: funde a cerca de 69 graus Celsius, sólido a 25 graus. Na segunda, insaturado cis, ácido oleico: a cadeia tem uma ligação dupla marcada em vermelho e desce em diagonal depois dela; ao lado, quatro cadeias dobradas em pontos diferentes, que não se encaixam e deixam espaços; rótulo: funde a cerca de 13 graus, líquido a 25 graus. Na terceira, insaturado trans, ácido elaídico: a cadeia tem uma ligação dupla em vermelho e segue quase reta; ao lado, quatro cadeias retas empilhadas; rótulo: funde entre 42 e 44 graus, sólido a 25 graus. Uma faixa na base diz: mesma quantidade de carbonos, formas diferentes, pontos de fusão diferentes.
Três cadeias de 18 carbonos. A saturada é reta e se empilha. A dupla cis dobra a cadeia e impede o encaixe. A dupla trans mantém a cadeia quase reta, e o material volta a ser sólido. Esquema fora de escala; os ângulos são ilustrativos. Diagrama autoral.

Na cozinha, gordura é o lipídio sólido na temperatura ambiente, e óleo, o líquido. Os dois são misturas de triglicerídeos, e o que muda é a proporção de cadeias saturadas e insaturadas. A Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO, NEPA/Unicamp, 4.ª edição, 2011) traz os números, em gramas por 100 g de alimento:

alimento saturados monoinsaturados poli-insaturados fração saturada
coco, cru (42,0 g de lipídios) 30,0 1,5 0,3 94 %
manteiga com sal (82,4 g de lipídios) 49,2 20,4 1,2 69 %
óleo de pequi 39,9 55,8 4,2 40 %
óleo de soja 15,2 23,3 60,0 15 %
azeite de oliva extra virgem 14,9 75,5 9,5 15 %
óleo de canola 7,9 62,6 28,4 8 %

A última coluna é a parte saturada dividida pela soma dos três tipos. Ela explica os três potes da abertura. A manteiga, com 69 % de saturados, endurece. O óleo de soja, com 60 g de poli-insaturados em cada 100 g, continua líquido. O azeite, rico em ácido oleico, fica no meio do caminho: no frio da geladeira, parte de seus triglicerídeos se solidifica, e ele fica turvo e pastoso.

Exemplo resolvido: vegetal quer dizer insaturado? Uma postagem recomenda trocar a manteiga por gordura de coco com o argumento de que ela é vegetal e, por isso, insaturada. Com os dados da tabela, a fração saturada da manteiga é 49,2÷(49,2+20,4+1,2)=49,2÷70,8≈0,6949{,}2 \div (49{,}2 + 20{,}4 + 1{,}2) = 49{,}2 \div 70{,}8 \approx 0{,}69. A do coco é 30,0÷(30,0+1,5+0,3)=30,0÷31,8≈0,9430{,}0 \div (30{,}0 + 1{,}5 + 0{,}3) = 30{,}0 \div 31{,}8 \approx 0{,}94. A gordura do coco é mais saturada que a da manteiga. Conferência pelo que se vê: em dias amenos, a gordura de coco fica branca e sólida no pote, e o óleo de soja continua líquido. A origem do alimento não informa a forma da cadeia. O raciocínio vale também no sentido inverso: os peixes gordurosos, como a sardinha, são animais, e sua gordura é rica em poli-insaturados.

O PAS cobrou essa relação de modo direto. O item 34 da 1.ª etapa de 2012 afirmava: “Em temperatura ambiente, de aproximadamente 27 °C, as gorduras insaturadas permanecem no estado líquido, e as saturadas, no estado sólido.” Certo. O item usa a palavra gordura para os dois casos, e o julgamento depende só da relação entre saturação e estado físico.

Triglicerídeo: um glicerol, três ácidos graxos e três moléculas de água

O lipídio mais abundante na comida e no corpo é o triglicerídeo, também chamado triacilglicerol. O glicerol é uma molécula pequena, de três carbonos, cada um com um grupo −OH\mathrm{-OH}. Cada um desses grupos reage com a carboxila de um ácido graxo. A cada ligação formada, que se chama ligação éster, sai uma molécula de água. O processo é uma síntese por desidratação, a mesma lógica que une duas glicoses ou dois aminoácidos.

Com três ácidos esteáricos, a equação é

C3H8O3+3 C18H36O2→C57H110O6+3 H2O\mathrm{C_3H_8O_3 + 3\,C_{18}H_{36}O_2 \rightarrow C_{57}H_{110}O_6 + 3\,H_2O}

A reação inversa é a hidrólise: três moléculas de água entram, e o triglicerídeo se separa em glicerol e três ácidos graxos. É o que as lipases fazem na digestão e o que as células do tecido adiposo fazem quando o corpo recorre à reserva.

Exemplo resolvido: quanta água sai na montagem de um triglicerídeo? Massas molares: glicerol, 92 g/mol; ácido esteárico, 284 g/mol; água, 18 g/mol. Na formação de 1 mol de triestearina saem 3 mols de água, isto é, 3×18=543 \times 18 = 54 g. A massa do triglicerídeo é a soma das peças menos a água: 92+3×284−54=89092 + 3 \times 284 - 54 = 890 g. Conferência pela fórmula C57H110O6\mathrm{C_{57}H_{110}O_6}: 57×12+110×1+6×16=684+110+96=89057 \times 12 + 110 \times 1 + 6 \times 16 = 684 + 110 + 96 = 890. A conta dos átomos também fecha: os reagentes somam 116 hidrogênios e 9 oxigênios; o produto fica com 110 e 6; a diferença, 6 hidrogênios e 3 oxigênios, são as três águas.

Esquema em duas partes ligadas por setas. À esquerda, as peças soltas: uma barra vertical verde rotulada glicerol, com três grupos OH, e três cadeias laranja em zigue-zague rotuladas ácidos graxos, cada uma com um grupo COOH azul voltado para o glicerol. Uma seta preta para a direita, rotulada síntese por desidratação, leva ao triglicerídeo: a mesma barra verde unida a três cadeias laranja por três pontos escuros rotulados ligação éster. Acima da seta, três gotas azuis com o rótulo saem 3 H2O. Uma seta roxa de volta, da direita para a esquerda, rotulada hidrólise, lipases, tem abaixo três gotas azuis com o rótulo entram 3 H2O. Na base, o exemplo da triestearina, com a equação e a conta de massas: 92 mais 3 vezes 284 menos 3 vezes 18 igual a 890 gramas por mol.
A montagem e a desmontagem de um triglicerídeo. Cada ligação éster formada libera uma molécula de água; cada ligação desfeita na hidrólise consome uma. As três cadeias não precisam ser iguais. Esquema fora de escala. Diagrama autoral.

Dois detalhes completam o quadro. Os três ácidos graxos de um triglicerídeo podem ser diferentes entre si, e é a mistura deles que dá a cada gordura seu ponto de fusão. E a molécula pronta é inteiramente apolar: os grupos polares do glicerol e dos ácidos foram gastos nas ligações éster. Por isso, dentro da célula, os triglicerídeos se juntam em gotas, sem água. Na célula do tecido adiposo, uma única gota ocupa quase todo o volume.

Por que a gordura guarda 9 kcal por grama

O valor energético de um rótulo é calculado com três fatores: 4 kcal por grama de carboidrato, 4 kcal por grama de proteína e 9 kcal por grama de gordura (são os fatores de conversão do Anexo XXII da Instrução Normativa 75/2020 da Anvisa). Há duas razões para a gordura render mais que o dobro.

A molécula está pouco oxidada. A célula obtém energia oxidando o alimento, isto é, retirando elétrons dos carbonos e entregando-os ao oxigênio (o processo está em respiração celular). Na glicose, C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6}, o oxigênio já responde por 96÷180≈53 %96 \div 180 \approx 53\ \% da massa: boa parte do caminho da oxidação está feita. Na triestearina, o oxigênio é só 96÷890≈11 %96 \div 890 \approx 11\ \% da massa. Quase toda a molécula é carbono ligado a hidrogênio, e há muito mais a oxidar por grama.

A gordura é guardada sem água. O glicogênio, a reserva de carboidrato dos animais, é hidrofílico: cada grama é armazenado com pelo menos 3 g de água (Murray e Rosenbloom, Nutrition Reviews, 2018). O triglicerídeo, hidrofóbico, é armazenado puro.

Exemplo resolvido: 1 kg de reserva. Um quilograma de triglicerídeo guarda 1 000×9=9 0001\,000 \times 9 = 9\,000 kcal. Um quilograma de glicogênio com sua água tem, no máximo, 250 g de glicogênio, porque cada grama vem com 3 g de água. São 250×4=1 000250 \times 4 = 1\,000 kcal. Para a mesma energia, a reserva em carboidrato pesaria cerca de nove vezes mais. Conferência: 9 000÷1 000=99\,000 \div 1\,000 = 9, que é o produto de 9÷4=2,259 \div 4 = 2{,}25 (energia por grama) por 4 (a massa total de cada grama de glicogênio hidratado).

Dois painéis. À esquerda, gráfico de barras verticais em escala, com eixo de zero a 10 quilocalorias por grama: carboidrato, barra verde até 4; proteína, barra azul até 4; gordura, barra laranja até 9. À direita, dois blocos de mesmo tamanho que representam 1 quilograma de reserva. O primeiro, inteiro laranja, é 1 quilograma de triglicerídeo sem água, com o valor 9 000 quilocalorias. O segundo é dividido em uma fatia verde de um quarto, 250 gramas de glicogênio, e uma parte azul-clara de três quartos, 750 gramas de água, com o valor 1 000 quilocalorias. Uma faixa na base conclui: para guardar a mesma energia, a reserva em glicogênio pesaria cerca de nove vezes mais.
À esquerda, os fatores usados nos rótulos (barras em escala). À direita, o que cabe em 1 kg de reserva: o triglicerídeo é guardado sem água; cada grama de glicogênio leva pelo menos 3 g de água. Diagrama autoral.

É por isso que os seres vivos que precisam de reserva leve e densa acumulam gordura: a semente oleaginosa (soja, amendoim, girassol, castanhas), que tem de alimentar o embrião até a primeira folha; a ave migratória, antes da viagem; o animal que hiberna; e você, no tecido adiposo. O glicogênio fica para a reserva de uso rápido, pequena e hidratada, no fígado e nos músculos.

O tecido adiposo faz mais que guardar energia. A camada de gordura sob a pele conduz mal o calor e funciona como isolante térmico, o que explica a camada espessa de baleias e focas, que vivem em água fria. Coxins de gordura em volta dos rins e na planta dos pés amortecem impactos. E as células adiposas produzem hormônios, como a leptina, que informa o cérebro sobre o tamanho da reserva.

Mais energia por grama não quer dizer energia mais rápida

O item 35 do PAS 1 de 2012 dizia: “As gorduras proporcionam mais energia por grama que outros nutrientes, como proteínas e carboidratos; por isso, a ingestão de alimentos gordurosos é a melhor e a mais rápida forma de se repor a energia do corpo humano.” Errado. A primeira metade é verdadeira: 9 kcal contra 4. A conclusão não decorre dela. A gordura é digerida e absorvida devagar, depende da bile, segue um caminho mais longo até o sangue e é mobilizada lentamente; a glicose já circula pronta. A gordura é a reserva de longo prazo, e o carboidrato, o combustível de reposição rápida. Em repouso e em esforço leve e prolongado, os músculos usam bastante ácido graxo; o erro do item está em chamar a gordura de forma mais rápida de repor energia. Quando a frase tem “por isso”, julgue a premissa e a conclusão separadamente.

Fosfolipídio: trocar uma cauda por um fosfato cria a membrana

Tire um dos três ácidos graxos de um triglicerídeo e ponha no lugar um grupo fosfato, que tem carga negativa e costuma estar ligado a outra molécula polar pequena. O resultado é um fosfolipídio. A lecitina da gema do ovo e da soja é um deles.

A troca dá à molécula duas regiões de comportamento oposto. A cabeça, com o fosfato, é polar e hidrofílica. As duas caudas de ácido graxo são apolares e hidrofóbicas.

Molécula anfipática

Anfipática é a molécula que tem uma região hidrofílica e outra hidrofóbica. Em água, moléculas anfipáticas não ficam espalhadas: arrumam-se de modo que a parte hidrofílica toque a água e a parte hidrofóbica fique longe dela. São anfipáticos os fosfolipídios, os sabões, os detergentes e os sais biliares. Os de duas caudas, como os fosfolipídios, formam bicamadas; os de uma cauda só formam micelas, pequenas esferas com as caudas voltadas para o centro.

Com fosfolipídios, o arranjo estável é a bicamada: duas fileiras de moléculas, caudas contra caudas no meio, cabeças voltadas para a água dos dois lados. Uma borda aberta deixaria caudas expostas, e por isso a bicamada se fecha sobre si mesma, como uma bolha. Ninguém monta essa estrutura: ela se forma sozinha, porque água e cadeias apolares não se misturam.

Essa é a base da membrana de toda célula. O miolo hidrofóbico da bicamada barra íons e moléculas polares e deixa passar moléculas pequenas e apolares, como o oxigênio. As proteínas que atravessam a bicamada, o modelo do mosaico fluido e os tipos de transporte estão em membrana plasmática e transportes. Daqui, fica a ligação com a seção anterior: caudas insaturadas, dobradas, deixam a bicamada mais fluida, e caudas saturadas a deixam mais rígida. O ENEM de 2019 partiu dessa relação: informou que o tamanho e o grau de insaturação das caudas dos fosfolipídios influenciam a fluidez e pediu a bicamada mais fluida entre cinco desenhos.

O PAS 1 de 2012 resumiu o princípio no item 33: “As moléculas de lipídeos são hidrofóbicas, característica fundamental para a formação das membranas plasmáticas.” Certo. Repare na precisão que a página exige e o item não: quem forma a bicamada é um lipídio que, além da parte hidrofóbica, tem uma cabeça hidrofílica.

Três painéis lado a lado. No primeiro, um fosfolipídio isolado: um círculo azul rotulado fosfato, indicado como cabeça polar, hidrofílica, e duas linhas laranja em zigue-zague que descem dele, indicadas como duas caudas apolares, hidrofóbicas; embaixo, o rótulo molécula anfipática. No segundo, sobre fundo azul-claro que representa a água, uma micela em corte: dezesseis moléculas de uma só cauda dispostas em círculo, com as cabeças azuis na periferia e as caudas laranja apontando para o centro, onde há uma gota amarela rotulada gordura. No terceiro, uma bicamada em corte: duas fileiras de fosfolipídios, a de cima com as cabeças azuis encostadas em uma faixa azul-clara rotulada água, fora da célula, e a de baixo com as cabeças encostadas em outra faixa rotulada água, dentro da célula; as caudas laranja das duas fileiras se encontram no meio, em uma região rotulada interior hidrofóbico. Uma faixa na base diz: em água, as cabeças ficam em contato com ela e as caudas se escondem.
Um fosfolipídio, uma micela e uma bicamada. Moléculas de uma cauda (sabões, detergentes, sais biliares) formam micelas em volta da gordura; fosfolipídios, de duas caudas, formam bicamadas com água dos dois lados. Esquema fora de escala e sem as proteínas da membrana. Diagrama autoral.
Triglicerídeo e fosfolipídio: o que muda

Os dois têm glicerol e ácidos graxos. O triglicerídeo tem três caudas e nenhuma região polar: é apolar por inteiro, junta-se em gotas e serve de reserva. O fosfolipídio tem duas caudas e uma cabeça com fosfato: é anfipático, forma bicamada e serve de estrutura. Critério de decisão em uma questão: se o enunciado fala em molécula anfipática, cabeça polar ou bicamada, a resposta é fosfolipídio; se fala em reserva, gota de gordura ou tecido adiposo, é triglicerídeo.

Sabão, detergente e bile: como a água passa a carregar gordura

A frigideira da abertura não fica limpa só com água porque a água não tem como segurar a gordura. O sabão resolve isso com a mesma arquitetura do fosfolipídio.

Um sabão é o sal de um ácido graxo. Ele se obtém aquecendo gordura ou óleo com uma base forte, como o hidróxido de sódio (a soda cáustica), em uma reação chamada saponificação. A base desfaz as três ligações éster do triglicerídeo. Formam-se glicerol e três unidades de sabão:

C57H110O6+3 NaOH→C3H8O3+3 C17H35COONa\mathrm{C_{57}H_{110}O_6 + 3\,NaOH \rightarrow C_3H_8O_3 + 3\,C_{17}H_{35}COONa}

A conta das massas fecha: 890+3×40=1 010890 + 3 \times 40 = 1\,010 g de reagentes; 92+3×306=1 01092 + 3 \times 306 = 1\,010 g de produtos. É a reação do sabão caseiro feito com óleo de cozinha usado.

Em água, o sabão se separa no íon sódio e em um íon com duas regiões: uma cauda longa e apolar e uma ponta com carga negativa, o grupo −COO−\mathrm{-COO^-}. É uma molécula anfipática de uma cauda só. Diante de uma gota de gordura, as caudas mergulham na gordura e as cabeças carregadas ficam na água. A gota fica coberta de cargas negativas. Gotas com a mesma carga se repelem e não voltam a se juntar. O que era uma camada de gordura vira uma nuvem de gotículas dispersas na água, uma emulsão, que o enxágue leva embora. Os detergentes sintéticos têm outra cabeça polar e funcionam do mesmo modo.

Três painéis em sequência, ligados por setas. No primeiro, rotulado só água, um recipiente com água azul-clara e, por cima, uma camada amarela contínua de gordura; a legenda diz duas fases, não se misturam. No segundo, rotulado com sabão ou detergente, uma ampliação circular mostra uma gota amarela de gordura cercada por catorze moléculas de sabão: as caudas laranja estão enfiadas na gota e as cabeças azuis, com sinal de menos, ficam para fora, na água. No terceiro, rotulado emulsão, o recipiente tem oito gotículas amarelas de contorno azul espalhadas pela água; uma seta vermelha de duas pontas entre duas gotículas tem o rótulo repulsão. Uma faixa na base diz que a bile faz o mesmo com a gordura da refeição, no intestino delgado, e que emulsificar não é digerir.
Como o sabão dispersa a gordura. As caudas apolares entram na gota, as cabeças com carga negativa ficam na água, e as gotículas, todas negativas por fora, se repelem. Esquema fora de escala. Diagrama autoral.

O corpo usa o mesmo recurso. A bile, produzida pelo fígado e guardada na vesícula biliar, contém sais biliares, moléculas anfipáticas fabricadas a partir do colesterol. No intestino delgado, eles quebram as gotas grandes de gordura da refeição em gotículas. A bile não tem enzimas e não digere nada: ela emulsifica, e isso aumenta a superfície em que a lipase do pâncreas trabalha. O percurso completo está em sistema digestório.

Maionese, leite e mãos lavadas

A maionese é óleo disperso em uma pequena quantidade de água e vinagre ou limão. O que impede a separação é a lecitina da gema, um fosfolipídio que cerca cada gotícula de óleo. O leite é uma emulsão natural: gotículas de gordura espalhadas na água, envoltas por fosfolipídios e proteínas. E lavar as mãos com sabão faz mais que soltar a sujeira gordurosa da pele. Vírus como o da gripe e o da covid-19 têm por fora um envelope que é uma bicamada de lipídios, e o sabão desorganiza essa bicamada.

Esteroides: quatro anéis e nenhum ácido graxo

O terceiro grande grupo de lipídios não tem glicerol nem ácidos graxos. Os esteroides são moléculas formadas por quatro anéis de carbono fundidos. São lipídios pelo comportamento: quase toda a molécula é carbono e hidrogênio.

O esteroide mais conhecido é o colesterol (C27H46O\mathrm{C_{27}H_{46}O}). Ele tem quatro funções no corpo humano:

  1. Componente das membranas das células animais. Encaixado entre os fosfolipídios, ele ajusta a fluidez da bicamada.
  2. Matéria-prima dos hormônios esteroides: os hormônios sexuais (testosterona, estrogênios, progesterona) e os do córtex da glândula adrenal (cortisol, aldosterona). Como são lipídios, esses hormônios atravessam a membrana das células-alvo; o assunto está em sistema endócrino.
  3. Origem da vitamina D. Na pele, a radiação ultravioleta do Sol converte o 7-desidrocolesterol, um esteroide da mesma via de síntese do colesterol, em vitamina D₃.
  4. Origem dos sais biliares, que emulsificam a gordura na digestão.
Diagrama em duas partes. Na parte de cima, uma caixa amarela central com o desenho de quatro anéis fundidos e o rótulo colesterol, quatro anéis de carbono; dela saem quatro setas para quatro caixas: membrana das células animais, ajusta a fluidez da bicamada; hormônios esteroides, testosterona, estrogênios, progesterona, cortisol, aldosterona; vitamina D, formada na pele, sob radiação ultravioleta; sais biliares, emulsificam a gordura na digestão. Na parte de baixo, sob o título no sangue, o colesterol viaja dentro de lipoproteínas, há à esquerda um desenho do fígado e à direita seis células rotuladas tecidos. Uma seta vermelha vai do fígado aos tecidos e passa por um círculo rotulado LDL, com a legenda lipoproteína de baixa densidade, leva colesterol aos tecidos. Uma seta verde volta dos tecidos ao fígado e passa por um círculo rotulado HDL, com a legenda lipoproteína de alta densidade, traz o excesso de volta ao fígado. Uma faixa na base diz: a molécula de colesterol é a mesma nas duas partículas.
Em cima, o que o corpo faz com o colesterol. Embaixo, como ele viaja no sangue: a LDL (seta vermelha) leva colesterol do fígado aos tecidos, e a HDL (seta verde) recolhe o excesso e o devolve ao fígado. Esquema fora de escala. Diagrama autoral.

Com tantas funções, o corpo não depende da comida para ter colesterol. O organismo fabrica todo o colesterol de que precisa, principalmente no fígado (é o que informa o MedlinePlus, serviço dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos). Uma pessoa que não come nenhum alimento de origem animal tem colesterol no sangue e em cada membrana.

O colesterol é um esteroide dos animais. As plantas fabricam outros esteróis, os fitoesteróis, e os fungos, o ergosterol; o colesterol aparece em vegetais só em traços, sem peso na alimentação. Na TACO, a coluna de colesterol traz 356 mg para 100 g de ovo de galinha cru, 201 mg para 100 g de manteiga com sal e a sigla NA, de não aplicável, para todos os óleos vegetais. Por isso a frase “sem colesterol” no rótulo de um óleo de soja é verdadeira e não o distingue de nenhum outro óleo vegetal.

Soja não tem colesterol, e colesterol não é de todo ser vivo

Dois itens do PAS partiram desse ponto. Na 1.ª etapa de 2014, o item 69: “O colesterol, componente essencial da membrana plasmática de células dos seres vivos, é ingerido ao se consumir carne bovina ou proteína de soja.” Errado duas vezes: o colesterol é componente das membranas de células animais, e não dos seres vivos em geral, e a soja, que é planta, não o fornece. Na 2.ª etapa de 2012, uma das opções erradas do item 102, de múltipla escolha, dizia: “Somente os óleos de vegetais leguminosos são ricos em colesterol.” Nenhum óleo vegetal é.

LDL e HDL são partículas de transporte

O colesterol é hidrofóbico, e o sangue é água. Para circular, ele viaja dentro de lipoproteínas: partículas com um miolo de triglicerídeos e colesterol, envolto por uma camada de fosfolipídios e proteínas, com as cabeças polares para fora. É a mesma solução da micela, em escala maior.

Duas dessas partículas aparecem no exame de sangue. A LDL (lipoproteína de baixa densidade) leva colesterol do fígado aos tecidos. A HDL (lipoproteína de alta densidade) recolhe colesterol dos tecidos e o devolve ao fígado, que o elimina. Quando a concentração de LDL fica alta por muito tempo, parte desse colesterol se deposita na parede das artérias e forma placas; o processo, a aterosclerose, está em sistema cardiovascular.

Daí vêm os apelidos de colesterol ruim, para a LDL, e colesterol bom, para a HDL. Eles são apelidos das partículas. A molécula de colesterol dentro delas é a mesma. As concentrações de LDL e de HDL dependem da herança genética, da quantidade de gordura saturada e de gordura trans na alimentação, da atividade física e do fumo, entre outros fatores. O resultado de um exame se interpreta com um profissional de saúde, e não com uma regra de internet.

Ceras e carotenoides: os lipídios que impermeabilizam e os que colorem

As ceras são formadas por um ácido graxo ligado a um álcool de cadeia longa. São sólidas e muito hidrofóbicas. Formam a cutícula que cobre folhas e frutos e reduz a perda de água por evaporação; muitas plantas do Cerrado têm folhas duras, de cutícula espessa. A cera de abelha, a cera de carnaúba e a cera do ouvido humano são outros exemplos.

Por que o pato sai seco da lagoa

As aves aquáticas têm, perto da cauda, uma glândula que produz uma secreção oleosa rica em ceras. Com o bico, a ave espalha essa secreção sobre as penas. A água, polar, não adere à camada apolar: junta-se em gotas e escorre. É a mesma cena do fio de azeite que não se mistura com a sopa, vista pelo lado de fora.

Os carotenoides são pigmentos amarelos, alaranjados e vermelhos, lipossolúveis, presentes na cenoura, na abóbora, na manga e nas folhas verdes, onde ajudam a clorofila a captar luz. Alguns, como o betacaroteno, são convertidos em vitamina A no intestino humano; outros, como o licopeno do tomate, não são.

Gordura trans: uma dupla ligação que a indústria criou e o Brasil proibiu

Óleos vegetais são baratos e líquidos. Para biscoitos, recheios, margarinas e frituras, a indústria precisava de uma gordura sólida, que desse textura e durasse na prateleira. A saída foi a hidrogenação: fazer o óleo reagir com gás hidrogênio na presença de um catalisador. O hidrogênio se soma às duplas ligações, que viram simples. O ácido oleico, por exemplo, vira esteárico:

C18H34O2+H2→C18H36O2\mathrm{C_{18}H_{34}O_2 + H_2 \rightarrow C_{18}H_{36}O_2}

Com menos duplas, as cadeias ficam mais retas e o óleo endurece. O problema está na hidrogenação parcial. Quando o processo é interrompido antes do fim, parte das duplas que sobraram muda de cis para trans. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os óleos parcialmente hidrogenados têm, em média, de 25 % a 45 % de gordura trans.

A gordura trans também existe na natureza, em pequena quantidade: bactérias do estômago dos ruminantes a produzem, e ela aparece na carne e no leite de bois, cabras e ovelhas. A fritura em temperatura muito alta gera um pouco (até 2 % a 3 %, segundo a OMS). A fonte que pesava na alimentação era a industrial.

O efeito sobre a saúde é o motivo da regulação. A gordura trans eleva a LDL e reduz a HDL no sangue, a combinação que favorece o depósito de colesterol nas artérias. A OMS atribui ao consumo de gordura trans industrial mais de 278 mil mortes por ano no mundo, afirma que ela não tem benefício conhecido e recomenda que a gordura trans de qualquer origem fique abaixo de 1 % da energia da dieta, o que dá menos de 2,2 g por dia em uma dieta de 2 000 kcal (ficha informativa de janeiro de 2024).

No Brasil, a Anvisa regulou o assunto pela Resolução RDC 332, de 23 de dezembro de 2019, em três etapas. Em 2022, a agência reuniu as mesmas regras na RDC 632, de 24 de março de 2022, que substituiu a anterior e é a norma em vigor:

a partir de o que a norma determina
1.º de julho de 2021 os óleos refinados não podem ter mais de 2 g de gordura trans industrial por 100 g de gordura total
1.º de julho de 2021 a 1.º de janeiro de 2023 o mesmo limite de 2 g por 100 g de gordura total vale para os alimentos destinados ao consumidor final e aos serviços de alimentação
1.º de janeiro de 2023 ficam proibidos a produção, a importação, o uso e a oferta de óleos e gorduras parcialmente hidrogenados para uso em alimentos, e de alimentos formulados com eles

As duas medidas, o limite de 2 g por 100 g de gordura e a proibição dos óleos parcialmente hidrogenados, são as que a OMS recomenda aos governos. Entre os substitutos usados para manter a textura dos produtos estão as gorduras interesterificadas, mais ricas em saturados. A TACO, de 2011, já registrava a diferença: na margarina com óleo hidrogenado, 14,9 g de saturados por 100 g; na margarina com óleo interesterificado, 21,9 g.

Trans não é saturada, e o zero do rótulo antigo não era zero

A gordura trans é insaturada: tem ligação dupla. O que ela tem de parecido com a saturada é a forma reta da cadeia e, por isso, o estado sólido. O rótulo lista as duas em linhas separadas. Segundo ponto: pela regra antiga (RDC 360/2003), o fabricante podia declarar zero quando a porção tinha até 0,2 g de gordura trans. Um produto com 0,2 g por porção trazia “0 g de gordura trans”, e quem comia um pacote de seis porções ingeria 1,2 g. Pela regra em vigor (IN 75/2020), o zero só vale para até 0,1 g por 100 g do alimento e por porção. Para saber se um produto antigo tinha trans, o caminho era a lista de ingredientes, onde aparecia “gordura vegetal hidrogenada” ou “parcialmente hidrogenada”.

Ômega-3 e ômega-6: os ácidos graxos que o corpo não fabrica

O corpo humano produz a maior parte dos ácidos graxos de que precisa a partir de outros nutrientes. Dois ele não consegue produzir, e por isso são chamados ácidos graxos essenciais: precisam vir da comida.

  • O ácido linoleico, de 18 carbonos e duas duplas, é um ômega-6. Está nos óleos de soja, de milho e de girassol, em castanhas e em sementes.
  • O ácido alfa-linolênico, de 18 carbonos e três duplas, é um ômega-3. Está na linhaça, nas nozes e nos óleos de soja e de canola.

O número indica a posição da primeira dupla ligação, contada a partir da ponta da cadeia oposta à carboxila (a ponta ômega, a última letra do alfabeto grego). No ômega-3, a primeira dupla está no terceiro carbono; no ômega-6, no sexto. As enzimas humanas não conseguem criar duplas nessas posições, e essa é a razão de os dois serem essenciais.

A partir do alfa-linolênico, o corpo fabrica ômega-3 mais longos, o EPA e o DHA, mas em quantidade pequena. Esses dois vêm prontos nos peixes gordurosos, como a sardinha. Os ácidos graxos essenciais entram na composição das membranas e dão origem a moléculas sinalizadoras. Repare que os dois são poli-insaturados: a existência deles já desmente a ideia de que gordura é um nutriente dispensável.

Vitaminas lipossolúveis: A, D, E e K viajam com a gordura

Vitamina

Vitaminas são moléculas orgânicas de que o organismo precisa em quantidades muito pequenas, de microgramas a miligramas por dia, e que não fabrica ou fabrica em quantidade insuficiente. Elas regulam processos. Nenhuma é oxidada para fornecer energia, e a tabela nutricional não lhes atribui calorias.

O PAS 1 de 2011 testou essa ideia. O texto-base contava que a dieta dos marinheiros das caravelas causava o escorbuto, por carência de vitamina C. O item 37 afirmava: “Na dieta dos marinheiros, não constavam vitaminas, excelentes fontes diretas de calorias, o que provocava déficit calórico no organismo dos marinheiros e doenças.” Errado. O problema dos marinheiros era a falta de uma vitamina, e não de calorias, e vitaminas não são fonte de calorias.

As vitaminas dividem-se em dois grupos pela solubilidade. As hidrossolúveis (a vitamina C e as do complexo B) dissolvem-se em água, e o excesso sai na urina; elas estão em proteínas e enzimas. As lipossolúveis são quatro: A, D, E e K. Ser lipossolúvel tem três consequências.

São absorvidas junto com a gordura. No intestino delgado, as vitaminas lipossolúveis entram nas mesmas micelas, formadas com os sais biliares, que carregam os produtos da digestão das gorduras. Uma refeição sem nenhuma gordura, ou uma doença que prejudique a produção de bile ou a absorção de gordura, reduz a absorção dessas vitaminas.

Acumulam-se. O que se dissolve em gordura não sai com facilidade na urina, que é água. As vitaminas lipossolúveis ficam guardadas, sobretudo no fígado e no tecido adiposo.

Podem intoxicar em excesso. Como o corpo as acumula, doses altas por tempo prolongado, quase sempre de suplementos, causam hipervitaminose. O excesso crônico de vitamina A causa pele seca, dores em músculos e articulações e alterações no fígado; o de vitamina D eleva o cálcio no sangue. O excesso de betacaroteno dos vegetais não causa hipervitaminose A: no máximo, deixa a pele amarelada.

vitamina o que faz onde está o que a falta causa
A (retinol) forma o pigmento da retina que responde à luz (rodopsina); mantém a córnea e outros epitélios; participa da defesa imune pronta: fígado, ovos, leite e derivados, peixes; como carotenoides: vegetais alaranjados e folhas verde-escuras cegueira noturna; xeroftalmia (ressecamento do olho), que pode levar à cegueira
D (calciferol) promove a absorção de cálcio no intestino e a mineralização dos ossos fabricada na pele sob luz solar; peixes gordurosos, óleo de fígado de peixe, gema de ovo raquitismo em crianças; osteomalácia em adultos
E (tocoferol) antioxidante: protege da oxidação os lipídios das membranas óleos vegetais, castanhas, sementes, folhas verdes rara; ocorre em doenças de má absorção de gordura, com danos a nervos e músculos
K necessária à produção de proteínas da coagulação do sangue, como a protrombina folhas verdes; bactérias do intestino também a produzem sangramentos; risco maior no recém-nascido
Quadro com quatro colunas coloridas, uma para cada vitamina lipossolúvel, e três linhas: o que faz, onde está, o que a falta causa. Coluna A, laranja: pigmento da retina sensível à luz e manutenção da córnea e de outros epitélios; fígado, ovos, leite e, como carotenoides, vegetais alaranjados e folhas verde-escuras; cegueira noturna e xeroftalmia. Coluna D, amarela: absorção de cálcio no intestino e mineralização dos ossos; produzida na pele, com luz solar, peixes gordurosos e gema de ovo; raquitismo em crianças e osteomalácia em adultos. Coluna E, verde: antioxidante que protege da oxidação os lipídios das membranas; óleos vegetais, castanhas, sementes e folhas verdes; carência rara, ligada à má absorção de gordura. Coluna K, roxa: produção de proteínas da coagulação do sangue; folhas verdes e bactérias do intestino; sangramentos, com risco maior no recém-nascido. Abaixo, três caixas ligadas por setas: absorvidas com a gordura, em micelas, com a bile; guardadas no fígado e no tecido adiposo; o excesso se acumula e pode intoxicar. Uma linha final lembra que nenhuma vitamina fornece energia.
As quatro vitaminas lipossolúveis: função, fontes e carência. A faixa de baixo resume o que elas têm em comum por serem lipídios: absorção junto com a gordura, armazenamento e risco de acúmulo. Diagrama autoral.

A vitamina D é a ponte com a seção do colesterol: a pele a fabrica a partir de um esteroide, e por isso a exposição ao sol conta como fonte. Depois de formada, ela ainda precisa ser ativada no fígado e nos rins. A vitamina K explica uma rotina das maternidades. Ela atravessa mal a placenta, e o recém-nascido nasce com pouca reserva; o Ministério da Saúde orienta a aplicação de 1 mg de vitamina K₁ ao nascimento, para prevenir sangramentos (Atenção à Saúde do Recém-Nascido, 2.ª edição, 2014).

A carência de vitamina A no Brasil. A deficiência de vitamina A é descrita pelo Ministério da Saúde como a principal causa de cegueira evitável nos países em desenvolvimento. O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019), que coletou sangue de crianças de 6 a 59 meses em 123 municípios, encontrou deficiência de vitamina A em 6,0 % delas, com as maiores prevalências no Centro-Oeste (9,5 %), no Sul (8,9 %) e no Norte (8,3 %). O Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A, instituído pela Portaria 729, de 13 de maio de 2005, distribui megadoses nas unidades de saúde: uma dose de 100 000 UI entre 6 e 11 meses de idade e, a partir de 12 meses, uma dose de 200 000 UI a cada seis meses. Pelo Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes (Ministério da Saúde, 2022), o programa atende crianças de 6 a 59 meses no Norte, no Nordeste, no Centro-Oeste e na saúde indígena, e de 6 a 24 meses no Sul e no Sudeste. A dose pode ser espaçada assim porque a vitamina, lipossolúvel, fica guardada no fígado. A mesma propriedade explica por que a suplementação é feita com controle de dose e de intervalo.

O ENEM cobrou a relação entre carotenoides e visão em duas provas da aplicação PPL. Em 2014, uma questão sobre o arroz-dourado, variedade transgênica que produz betacaroteno, perguntava que problema de saúde seu consumo ajudaria a reduzir: problemas de visão. Em 2018, outra partia da cegueira noturna e pedia o motivo de o médico indicar vegetais ricos em carotenoides: eles são precursores da vitamina A, necessária às estruturas da retina que captam a luz.

O que se dissolve em gordura, fica

A regra que vale para as vitaminas A, D, E e K vale para qualquer substância apolar. Inseticidas organoclorados, como o DDT, são lipossolúveis. Entram no corpo pelo alimento, não saem pela urina e se concentram onde há gordura: no tecido adiposo e, nos mamíferos, no leite. O ENEM de 2024 descreveu poluentes orgânicos apolares aderidos a microplásticos e perguntou em que tecido dos vertebrados eles se acumulam: no adiposo. O acúmulo ao longo da cadeia alimentar, a magnificação trófica, está em cadeias e teias alimentares.

Como reconhecer um lipídio no laboratório da escola

Quatro testes simples partem da mesma propriedade, a de não se dissolver em água.

  1. Mancha translúcida no papel. Esfregue a amostra em papel sulfite e espere secar. A água evapora e a mancha some. O lipídio não evapora: fica uma mancha translúcida, que deixa passar a luz quando o papel é erguido contra a janela.
  2. Sudan III. É um corante vermelho, lipossolúvel. Ele se dissolve na gordura e não na água. Em uma mistura de água e óleo, só a camada de óleo fica vermelha; ao microscópio, gotículas de gordura aparecem coradas de vermelho-alaranjado.
  3. Solubilidade. A amostra não se dissolve em água e se dissolve em um solvente orgânico.
  4. Emulsão. Agita-se a amostra com etanol, e o líquido é despejado em água. Se havia lipídio dissolvido no etanol, forma-se uma turvação branca de gotículas.

Como em todo teste, os controles dão sentido ao resultado: um tubo com óleo (controle positivo, mostra como é o resultado quando há lipídio) e um com água (controle negativo, mostra que o reagente sozinho não dá o resultado).

Exemplo resolvido: lendo uma tabela de testes. Uma turma testou cinco amostras. O lugol detecta amido (fica azul-escuro); o Sudan III detecta lipídios.

amostra mancha no papel depois de seca Sudan III lugol
castanha-do-pará, amassada translúcida gotículas vermelhas castanho
batata cozida, amassada some sem gotículas coradas azul-escuro
leite integral translúcida, fraca gotículas vermelhas castanho
óleo de soja translúcida camada vermelha castanho
água some corante não se dissolve castanho

Leitura. O óleo e a água são os controles, e deram o esperado. A castanha-do-pará e o leite integral contêm lipídios, e o teste não detectou amido neles. A batata contém amido, e o teste não detectou lipídios. Dois cuidados na conclusão. Primeiro, “não detectou” não é “não tem”: a batata tem uma quantidade muito pequena de lipídios, abaixo do que esses testes mostram. Segundo, o teste diz que há lipídio, mas não diz qual: mancha no papel e Sudan III não distinguem saturado de insaturado nem informam quanto colesterol há na amostra.

O rótulo: gorduras totais, saturadas, trans e a lupa

Desde 9 de outubro de 2022 vale no Brasil a rotulagem nutricional definida pela RDC 429/2020 e pela Instrução Normativa 75/2020, da Anvisa. A tabela traz, obrigatoriamente, três linhas de lipídios, em gramas por 100 g (ou 100 mL) e por porção:

  • gorduras totais: todos os lipídios do alimento;
  • gorduras saturadas: a parte formada por ácidos graxos sem duplas ligações;
  • gorduras trans.

A coluna %VD compara a porção com valores diários de referência: 65 g de gorduras totais e 20 g de gorduras saturadas. Na frente da embalagem, a lupa com a frase “alto em gordura saturada” é obrigatória quando o alimento sólido tem 6 g ou mais de gordura saturada por 100 g, ou quando o líquido tem 3 g ou mais por 100 mL. As outras duas lupas possíveis são as de açúcar adicionado e de sódio.

Alguns alimentos não levam lupa, seja qual for o teor. A lista da própria norma (Anexo XVI da IN 75/2020) inclui o azeite de oliva e os demais óleos vegetais, os leites e, quando não recebem ingredientes que acrescentem açúcar, gordura saturada ou sódio, os queijos, as carnes e os ovos. Por isso um azeite, que tem cerca de 15 g de saturados em cada 100 g, não traz lupa.

Exemplo resolvido: as linhas de gordura de um biscoito recheado. Pela TACO, 100 g de biscoito doce recheado com chocolate têm 472 kcal, 19,6 g de lipídios e 6,2 g de ácidos graxos saturados. A porção é de 30 g.

(a) Energia que vem da gordura: 19,6×9≈17619{,}6 \times 9 \approx 176 kcal em 100 g. Fração do total: 176÷472≈0,37176 \div 472 \approx 0{,}37. A gordura é um quinto da massa do biscoito e responde por 37 % das calorias.

(b) Lupa: 6,2 g de saturados por 100 g é mais que 6 g. O produto leva “alto em gordura saturada”.

© Na porção de 30 g: gorduras totais, 19,6×0,3≈5,919{,}6 \times 0{,}3 \approx 5{,}9 g, isto é, 5,9÷65≈9 %5{,}9 \div 65 \approx 9\ \% do valor diário; saturadas, 6,2×0,3≈1,96{,}2 \times 0{,}3 \approx 1{,}9 g, isto é, 1,9÷20≈9 %1{,}9 \div 20 \approx 9\ \% do valor diário.

Conferência: a porção é 30 % de 100 g, e 0,3×176≈530{,}3 \times 176 \approx 53 kcal de gordura, o mesmo que 5,9×95{,}9 \times 9.

Figura em três blocos e uma faixa. À esquerda, uma tabela de informação nutricional de um biscoito doce recheado com chocolate, com colunas por 100 gramas e por porção de 30 gramas: valor energético, 472 e 142 quilocalorias; carboidratos, 70,5 e 21 gramas; proteínas, 6,4 e 1,9 gramas; gorduras totais, 19,6 e 5,9 gramas; gorduras saturadas, 6,2 e 1,9 gramas; as duas linhas de gordura estão destacadas em laranja. No centro, um retângulo preto com o desenho de uma lupa e o texto alto em gordura saturada, e abaixo o critério: 6 gramas ou mais por 100 gramas em sólidos, 3 gramas ou mais por 100 mililitros em líquidos; uma caixa conclui que 6,2 gramas em 100 gramas passa de 6 gramas e leva a lupa. À direita, uma barra horizontal em escala que representa as 472 quilocalorias, com uma fatia laranja de 37 por cento, gordura, 176 quilocalorias, e o restante cinza, 63 por cento, carboidratos e proteínas; abaixo, a conta 19,6 gramas vezes 9 aproximadamente 176 quilocalorias. Na faixa de baixo, os valores da porção de 30 gramas: 5,9 gramas de gorduras totais e 1,9 grama de saturadas, cerca de 9 por cento do valor diário de referência cada.
As linhas de gordura de um biscoito recheado (dados da TACO, 2011, sem marca). Com 6,2 g de saturados por 100 g, o produto passa do limite de 6 g e leva a lupa. A barra à direita está em escala: a gordura é 20 % da massa e 37 % das calorias. Diagrama autoral.

Para comparar o rótulo com as recomendações de saúde pública: a OMS orienta que, na alimentação de adultos, a gordura total não passe de 30 % da energia, a saturada de 10 % e a trans de 1 %. São metas para a alimentação como um todo, estabelecidas para populações. O rótulo descreve um alimento; a orientação para uma pessoa é trabalho de nutricionista ou de médico.

Como a prova cobra lipídios

Nos materiais consultados para esta página há sete itens da 1.ª etapa do PAS sobre o assunto, todos de julgamento Certo ou Errado: cinco de 2012 (itens 32 a 36, presos a um texto de divulgação da Fiocruz chamado “Gorduras: vilãs da saúde?”), um de 2011 (item 37, vitaminas) e um de 2014 (item 69, colesterol). Quatro tiveram gabarito Errado. Eles mostram três modos de errar uma frase sobre lipídios.

Trocar o critério do texto. O texto de 2012 chamava de “gorduras da pior qualidade” as saturadas e as hidrogenadas, de produtos industrializados, frituras, embutidos e carnes gordas, e de “gorduras amigas” as monoinsaturadas e poli-insaturadas, de óleos vegetais, peixes, azeite, sementes e nozes. O item 32 afirmava: “Segundo o texto, as gorduras de origem animal são mais prejudiciais à saúde que as de origem vegetal.” Errado. O critério do texto era o tipo de gordura, e não a origem: os peixes, animais, estão entre as fontes das gorduras amigas, e os biscoitos e bolos industrializados, entre as fontes das piores. Item que começa com “segundo o texto” se julga no texto.

Prender uma conclusão falsa a uma premissa verdadeira. É o item 35, do “por isso”, analisado na seção sobre energia.

Embutir um atributo falso em uma oração intercalada. É o “excelentes fontes diretas de calorias” do item 37 de 2011 e o “proteína de soja” do item 69 de 2014. O resto da frase pode estar certo; a intercalada decide.

Os itens certos são frases curtas e gerais: o 33 (lipídios hidrofóbicos e membranas), o 34 (saturadas sólidas e insaturadas líquidas) e o 36, que fechava o bloco: “Gorduras são constituintes ou precursoras de outras moléculas importantes no organismo humano.” Certo: os fosfolipídios constituem as membranas, e o colesterol é precursor de hormônios, vitamina D e sais biliares.

No ENEM, as questões citadas nesta página pedem a aplicação de uma propriedade: lipossolúvel se acumula no tecido adiposo (2024), carotenoide é precursor de vitamina A (2014 e 2018, aplicações PPL), composição lipídica muda a fluidez da membrana (2019).

Exemplo resolvido: julgue o item. “Por serem polímeros de ácidos graxos, os triglicerídeos são hidrolisados no intestino em suas unidades, que são absorvidas e utilizadas pelas células como fonte de energia.” Separe as afirmações. Os triglicerídeos são hidrolisados no intestino: verdadeiro. Os produtos são absorvidos e servem de fonte de energia: verdadeiro. Os triglicerídeos são polímeros de ácidos graxos: falso. Um triglicerídeo tem um glicerol e três ácidos graxos, que não se ligam entre si nem se repetem em cadeia. A oração inicial derruba o item: Errado.

Oito frases que parecem certas e não são

“Gordura só faz mal.” Sem lipídios não há membrana celular, hormônios sexuais, vitamina D nem absorção das vitaminas A, D, E e K, e dois ácidos graxos são essenciais na dieta. O que as recomendações de saúde limitam são quantidades e tipos, sobretudo a gordura saturada e a trans.

“Colesterol é uma gordura que entope as artérias.” O colesterol é um esteroide que o próprio corpo fabrica e usa. O que se associa às placas nas artérias é a concentração alta de LDL no sangue por muito tempo.

“Óleo vegetal tem colesterol” ou, no sentido oposto, “este óleo é melhor porque não tem colesterol”. Nenhum óleo vegetal tem colesterol em quantidade relevante, de modo que a ausência não diferencia um óleo de outro e não informa nada sobre a fração saturada.

“Lipídio é um polímero de ácidos graxos.” Lipídios não são polímeros. O triglicerídeo tem quatro peças; o colesterol não tem ácido graxo nenhum.

“Gordura vegetal é insaturada, e gordura animal é saturada.” A gordura do coco tem 94 % de saturados, e a dos peixes é rica em poli-insaturados. O que decide é a forma das cadeias.

“Gordura trans é um tipo de gordura saturada.” A trans tem ligação dupla; é insaturada. Parece-se com a saturada na forma reta e no estado sólido.

“Zero trans no rótulo queria dizer nenhuma gordura trans.” Pela regra antiga, zero podia ser até 0,2 g por porção.

“Vitamina dá energia.” Vitaminas regulam processos e não são oxidadas para produzir ATP. As calorias de uma bebida vitaminada vêm do açúcar.

O essencial em meia página

  • Lipídios são moléculas orgânicas insolúveis em água e solúveis em solventes orgânicos. O grupo se define por esse comportamento. Lipídios não são polímeros.
  • Ácido graxo saturado: só ligações simples, cadeia reta, empilha, sólido (gordura). Insaturado cis: dupla que dobra a cadeia, não empilha, líquido (óleo). Trans: dupla que mantém a cadeia quase reta, sólido. Origem vegetal ou animal não decide.
  • Triglicerídeo = glicerol + 3 ácidos graxos, com saída de 3 moléculas de água (síntese por desidratação). A hidrólise, feita por lipases, consome 3 águas.
  • Funções dos triglicerídeos: reserva concentrada (9 kcal/g contra 4 de carboidratos e proteínas, porque a molécula é pouco oxidada e é guardada sem água), isolamento térmico e proteção mecânica. Mais energia por grama não significa energia mais rápida.
  • Fosfolipídio = glicerol + 2 ácidos graxos + fosfato. Cabeça polar, caudas apolares: molécula anfipática, que em água forma a bicamada, base de todas as membranas.
  • Sabão é sal de ácido graxo, obtido por saponificação (gordura + base forte). Sabão, detergente e sais biliares são anfipáticos: cercam a gordura e a dispersam em gotículas (emulsão). A bile emulsifica e não digere.
  • Colesterol: esteroide (quatro anéis) das células animais; componente de membrana e precursor de hormônios sexuais, cortisol, vitamina D e sais biliares; o corpo o fabrica. Plantas não o fornecem. LDL leva colesterol aos tecidos, HDL o traz de volta ao fígado: são partículas de transporte, e a molécula é a mesma.
  • Ceras impermeabilizam (cutícula das folhas). Carotenoides são pigmentos; o betacaroteno origina vitamina A.
  • Gordura trans: produzida na hidrogenação parcial de óleos; eleva a LDL e reduz a HDL; a OMS recomenda menos de 1 % da energia. No Brasil, a Anvisa (RDC 332/2019, substituída pela RDC 632/2022, com as mesmas regras) limitou-a a 2 g por 100 g de gordura a partir de julho de 2021 e proibiu os óleos parcialmente hidrogenados a partir de 1.º de janeiro de 2023.
  • Ácidos graxos essenciais: linoleico (ômega-6) e alfa-linolênico (ômega-3); o corpo não os fabrica.
  • Vitaminas lipossolúveis: A (visão; cegueira noturna e xeroftalmia), D (cálcio e ossos; raquitismo), E (antioxidante das membranas), K (coagulação; sangramentos). São absorvidas com a gordura, ficam guardadas no fígado e no tecido adiposo e podem intoxicar em excesso. Vitamina não fornece energia.
  • No rótulo: gorduras totais, saturadas e trans, em gramas; lupa de “alto em gordura saturada” a partir de 6 g por 100 g (sólidos) ou 3 g por 100 mL (líquidos); azeite, demais óleos vegetais e leites não levam lupa, seja qual for o teor.
  • Na prova: confira a oração intercalada (soja com colesterol, vitamina como fonte de calorias), separe premissa e conclusão quando houver “por isso” e, em item “segundo o texto”, volte ao texto.

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Flashcards temporariamente indisponíveis

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LIPÍDIOS - Bioquímica - Compostos Orgânicos - Aula
Biologia com Samuel Cunha · 18:48
Introdução. Em cerca de 19 minutos, a aula define lipídio pela insolubilidade em água, lista as funções (reserva, isolamento térmico, membrana, hormônios) e percorre os grupos: glicerídeos, esteroides, fosfolipídios, ceras e carotenoides, com gordura trans, ômega-3 e ômega-6, LDL e HDL e a ação do detergente. Serve de panorama para as seções “Lipídio se define pelo comportamento, não por uma fórmula” e “Triglicerídeo: um glicerol, três ácidos graxos e três moléculas de água”. Assista com duas ressalvas: a aula diz que óleo é de origem vegetal e gordura, de origem animal, e chama o colesterol de vilão; compare com a tabela de ácidos graxos desta página (coco e peixes contrariam a regra) e com a seção sobre esteroides.
Gorduras saturadas, insaturadas e trans | Macromoléculas | Biologia | Khan Academy
Khan Academy Brasil · 11:06
Aprofundamento. A videoaula da Khan Academy, em português, trata só das diferenças entre gorduras saturadas, insaturadas e trans, desenhando as cadeias. É o conteúdo das seções “Ácidos graxos: a forma da cadeia decide entre gordura e óleo” e “Gordura trans: uma dupla ligação que a indústria criou e o Brasil proibiu”; depois de assistir, refaça de memória o desenho das três cadeias e diga qual delas se empilha.
Vitaminas lipossolúveis - Biologia - Ensino Médio
Canal Futura · 12:29
Aplicação. A aula do Canal Futura para o ensino médio apresenta as vitaminas solúveis em lipídios e seu armazenamento no fígado e no tecido adiposo. Acompanha a seção “Vitaminas lipossolúveis: A, D, E e K viajam com a gordura”; use o quadro da página para conferir, vitamina por vitamina, função, fonte e carência.
Resolução de QUESTÕES LIPÍDIOS bioquímica ENEM - Exercícios resolvidos
Luix Nascimento Biologia · 27:42
Resolução de questões. O professor resolve questões do ENEM e de vestibulares sobre lipídios: índice de iodo e insaturação (ENEM 2013), emulsificação pelos ácidos biliares (ENEM 2018), ácidos graxos trans (ENEM 2009) e a classificação dos lipídios. Use depois das seções “Sabão, detergente e bile” e “Como a prova cobra lipídios”: pause em cada enunciado, resolva e só então compare.
Rota PAS 1
Bioquímica da vida: compostos, enzimas e fermentação · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Bioquímica da vida: compostos, enzimas e fermentação · Antes de começar: dez minutos de aquecimento; Lipídios e vitaminas: reserva, membrana e regulação; Como a banca cobra este capítulo; Exercícios e Banco de treino (itens de lipídios e vitaminas)

    Itens reais do PAS 1 de 2011 (37), 2012 (33, 35, 36) e 2014 (69), funções dos lipídios e contas com os fatores 4/4/9.

  • Rota PAS 3 — Citologia e bioquímica: a célula em funcionamento · De que a vida é feita: as quatro famílias de compostos orgânicos

    Quadro das quatro famílias de compostos orgânicos; lipídios como a família que não forma polímero.

  • Biologia EM1 — A química da vida I: água, sais, açúcares e gorduras · O que a tabela do rótulo conta; Lipídios: a gordura é estrutura; Vitaminas: o gancho para o próximo capítulo

    Estrutura de triglicerídeos, fosfolipídios e esteroides, dados da TACO, rotulagem e vitaminas lipossolúveis. A afirmação do capítulo de que azeite pode receber a lupa de gordura saturada foi corrigida pela IN 75/2020, Anexo XVI.

  • Biologia EM1 — bloco PAS do capítulo 3 · Textos-base II, III e IV e itens reais

    Textos-base integrais do PAS 1 de 2011, 2012 e 2014 e itens 32 a 35 de 2012.

  • Rota PAS 2 — Botânica (item real de 2012) · Item 102 do PAS 2 de 2012, opção D

    Citado na teoria como exemplo de afirmação errada sobre colesterol em óleos vegetais.