Cerrado

Guia de estudo · Revisado em 02/10/2026

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Brasília recebe cerca de 1 500 mm de chuva por ano, mais que muitas florestas do mundo, e no entanto a paisagem dominante é um campo de capim com árvores baixas e tortas que queima a cada poucos anos. Por que essa savana não vira floresta, por que a aparência pobre esconde a savana mais rica em espécies do planeta, e como a mesma raiz que torce a árvore faz nascer os grandes rios do país?

O que você vai aprender

  • Definir bioma e savana e explicar por que o Cerrado é a savana brasileira, distinguindo o bioma (com maiúscula) da fisionomia savânica e situando-o no mapa do IBGE (área, fração do território, estados, biomas vizinhos).
  • Ler um climograma do Brasil central e caracterizar o clima do Cerrado por duas estações, chuva anual alta concentrada em seis meses e amplitude térmica pequena, rejeitando a descrição de clima seco.
  • Descrever o latossolo do Cerrado (profundo, ácido, pobre em nutrientes, rico em alumínio) e relacionar essas propriedades à vegetação nativa e à necessidade de calagem na agricultura.
  • Classificar as onze fitofisionomias de Ribeiro e Walter em formações campestres, savânicas e florestais pelo critério do dossel e do estrato herbáceo, e explicar o gradiente pela profundidade do lençol freático e pelo solo.
  • Associar cada adaptação das plantas do Cerrado (raiz profunda, xilopódio, casca grossa, tronco tortuoso, folha coriácea) ao fator que a explica (seca sazonal, fogo, solo pobre), e distinguir xerófitas de pseudoxerófitas pela hipótese do escleromorfismo oligotrófico.
  • Explicar o fogo como fator ecológico do Cerrado e comparar os efeitos de três regimes de fogo (natural ou manejado, ausência total, frequente e tardio), usando as definições de regime do fogo, queima prescrita e ecossistema associado ao fogo da Lei 14.944/2024.
  • Distinguir riqueza, endemismo, abundância e ameaça, aplicar o critério de hotspot de Myers e colaboradores (2000) ao Cerrado e explicar por que o desmatamento elimina, e não dispersa, espécies endêmicas.
  • Explicar o mecanismo pelo qual o Cerrado é o berço das águas (posição de planalto, solo poroso, infiltração sob vegetação nativa, recarga de aquíferos, veredas como nascentes) e calcular lâminas de infiltração e escoamento a partir de um balanço hídrico simplificado.
  • Interpretar dados do MapBiomas e do PRODES sobre a vegetação nativa remanescente, a perda acumulada e a taxa anual de desmatamento do Cerrado, identificando a base e a data de cada porcentagem.
  • Explicar por que restaurar campo e savana não é plantar árvores, e relacionar sociobiodiversidade e manejo sustentável aos frutos e saberes do Cerrado, remetendo os temas de conservação e sucessão às páginas próprias.
  • Julgar itens no estilo Cebraspe sobre o Cerrado identificando a etiqueta ou a causa trocada (dossel contínuo na savana, pouca água como causa da folha dura, raízes de mangue, estróbilos, desmatamento que dispersa).

Quem chega a Brasília em setembro vê, dos dois lados da estrada, um campo amarelo de capim seco com árvores baixas, tortas, de casca grossa e rachada, espalhadas a vários metros uma da outra. Em muitos trechos o chão está preto de uma queimada recente. A paisagem parece pobre, e quem a vê pela primeira vez costuma dizer que ali “não tem nada”. Volte em novembro. O mesmo lugar está verde, com capim novo, árvores de folhas vermelhas recém-brotadas e flores saindo direto do solo queimado. E uma conta não fecha: Brasília recebe cerca de 1 500 mm de chuva por ano, mais que muitas florestas do mundo, e no entanto a vegetação dominante não é floresta.

A resposta está debaixo do chão e no calendário. A chuva do Brasil central cai quase toda em seis meses; nos outros seis, quase não chove. O solo é profundo, ácido e pobre em nutrientes, com alumínio em quantidade tóxica para a maioria das plantas. E o capim seco queima a cada poucos anos desde muito antes de haver gente para acender fogo. A árvore torta não é uma planta que sofre: é uma planta que resolveu três problemas ao mesmo tempo, com uma raiz que desce dez metros atrás de água, uma casca que isola do calor e gemas guardadas onde o fogo não chega. Essa mesma raiz é a razão de a água da chuva entrar no solo em janeiro e sair pelas nascentes em agosto, alimentando rios que abastecem boa parte do país.

Esta página é sobre o Cerrado como bioma: o que define uma savana e por que o Cerrado é uma; onde ele está e quanto ocupa; o clima de duas estações e o solo que o sustentam; as onze fisionomias, do campo limpo à mata de galeria; as adaptações das plantas ao solo pobre, à seca e ao fogo; o fogo como fator ecológico, com dois regimes de efeitos opostos; a biodiversidade e o endemismo que fazem dele a savana mais rica do planeta; o papel de “berço das águas”; o que resta do bioma e onde ele se perde; e os erros que a prova planta em cada um desses pontos. Os conceitos de bioma e ecossistema estão em níveis de organização ecológica. O que é clímax e por que a savana é o clímax dela mesma, em sucessão ecológica. Desmatamento, unidades de conservação e sustentabilidade como tema geral, em impactos ambientais e biodiversidade. O ciclo da água e os rios voadores, em ciclos biogeoquímicos. A fisiologia por trás da transpiração e dos estômatos, em fisiologia vegetal; os tecidos (súber, meristemas, xilema), em tecidos e órgãos vegetais.

O Cerrado é um bioma e é uma savana

Um bioma é um grande conjunto de ecossistemas com clima, solo e vegetação característicos, reconhecível pela fisionomia, isto é, pela forma da vegetação vista de longe. O mapa oficial do IBGE (Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil, 2019) reconhece seis biomas continentais: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal. O Cerrado é o segundo em área.

bioma área (km²), IBGE 2019 fração do território
Amazônia 4 212 742 49,5 %
Cerrado 1 983 017 23,3 %
Mata Atlântica 1 107 419 13,0 %
Caatinga 862 818 10,1 %
Pampa 193 836 2,3 %
Pantanal 150 988 1,8 %

Quase dois milhões de quilômetros quadrados: mais que a área do México. O bioma ocupa o Planalto Central e se estende por doze estados e o Distrito Federal (em Rondônia, no Pará e no Paraná, em áreas pequenas), com a maior parte em Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais; Goiás e Tocantins estão quase inteiros dentro dele, e o Distrito Federal está 100 % no Cerrado (IBGE, 2019, Tabela 1). Por ocupar o centro do país, faz fronteira com todos os outros biomas, menos o Pampa: Amazônia a norte e oeste, Caatinga a nordeste, Mata Atlântica a leste e sul, Pantanal a sudoeste. Nessas fronteiras há faixas de transição, os ecótonos, em que fisionomias dos dois biomas se misturam. Textos de divulgação ainda citam “2 milhões de km²” e “24 %”: são os números do mapa anterior do IBGE (2004), que o de 2019, mais detalhado, revisou para baixo. Em prova, aceite os dois como ordem de grandeza; em trabalho, cite a fonte e o ano.

Dois gráficos de barras horizontais lado a lado, um para cada um dos seis biomas continentais do Brasil, na mesma ordem: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal. À esquerda, a área de cada bioma em milhares de quilômetros quadrados, segundo o IBGE de 2019: a barra da Amazônia, verde-escura, chega a 4 213; a do Cerrado, laranja e destacada, a 1 983; as demais, em cinza, a 1 107, 863, 194 e 151. À direita, a porcentagem da área de cada bioma ainda coberta por vegetação nativa em 2024, segundo o MapBiomas: Amazônia 81,9, Cerrado 51,2, Mata Atlântica 31, Caatinga 60, Pampa 44,5 e Pantanal 84,8; uma linha vertical tracejada marca os 50 por cento. Uma nota de rodapé dá as fontes e o ano.
À esquerda, a área dos seis biomas (IBGE, 2019); à direita, a fração de cada um que ainda tinha vegetação nativa em 2024 (MapBiomas, Coleção 10). O Cerrado é o segundo maior e está perto da linha da metade. Diagrama autoral com dados públicos.

Por que “savana”? Savana é um termo técnico, não um sinônimo de África. Designa uma formação vegetal em que um estrato herbáceo contínuo, dominado por gramíneas, convive com árvores e arbustos esparsos, cujas copas não formam uma cobertura contínua. A luz chega ao chão, e é essa luz que sustenta o capim. Uma floresta é o oposto: o dossel fechado sombreia o solo e elimina as gramíneas. Pelo critério, o cerrado sentido restrito, a fisionomia mais extensa do bioma, é uma savana. A Austrália e a Índia têm savanas; a África tem as mais famosas; a América do Sul tem o Cerrado e os Llanos da Venezuela e da Colômbia. O IBGE usa a palavra no próprio mapa de vegetação: a Savana é o tipo de vegetação mais expressivo do bioma Cerrado (IBGE, 2019).

Bioma, savana e Cerrado

Bioma é o conjunto de ecossistemas de uma grande região, com clima, solo e fisionomia vegetal característicos. Savana é um tipo de vegetação: gramíneas em tapete contínuo mais árvores e arbustos esparsos, sem dossel fechado. Cerrado, com maiúscula, é o nome do bioma brasileiro em que a savana predomina; “cerrado”, com minúscula, costuma designar a fisionomia savânica (cerrado sentido restrito, cerrado típico). Nem todo o bioma é savana: ele contém campos sem árvores e florestas de dossel fechado. E nem toda savana é Cerrado: a palavra vale para a África, a Austrália e os Llanos.

O PAS 1 de 2021 cobrou exatamente esse vocabulário, no item 18: “São exemplos de biomas brasileiros a savana, o pampa e o cerrado.” Certo. A banca aceitou “savana” como nome do bioma, ao lado de “cerrado”: na classificação de vegetação do IBGE, Savana é o nome técnico do que o uso brasileiro chama de cerrado. Quem marcou errado pensando “savana é na África” caiu no erro clássico.

"Savana é África; o Cerrado é outra coisa"

Savana é o nome de um tipo de vegetação definido pela estrutura (capim contínuo, árvores esparsas), e não pelo continente. O Cerrado é a savana brasileira, e é a mais rica em espécies de todas as savanas do mundo. A frase “o Cerrado não é uma savana porque tem muitas árvores” também erra: as árvores existem, mas são esparsas e baixas na maior parte da área; onde elas se fecham em dossel, a fisionomia deixa de ser savânica e passa a ser florestal (cerradão, mata de galeria), ainda dentro do bioma.

Duas estações, não “pouca chuva”: o clima que faz a savana

O clima do Cerrado é tropical com duas estações bem marcadas. A chuva anual fica, na maior parte do bioma, entre 1 200 mm e 1 800 mm, e cai quase toda entre outubro e abril. De maio a setembro quase não chove: cinco a seis meses com menos de 50 mm, e três deles (junho, julho e agosto) quase a zero. A temperatura média mensal varia pouco ao longo do ano, de uns 19 °C a 23 °C no Planalto Central; o que muda com força é a umidade do ar, que na seca cai a menos de 20 % nas tardes de agosto e setembro. O texto que a prova do PAS usa como base desde 2023 resume isso com números: “um regime climático que despeja em média 1.200 mm a 1.500 mm de chuvas anuais, concentradas em apenas seis meses do ano. Nos outros seis, há grande limitação hídrica para as plantas” (Revista Darcy, n.º 21, 2019).

Climograma esquemático de uma localidade do Brasil central. No eixo horizontal, os doze meses, de janeiro a dezembro. Barras azuis mostram a precipitação mensal em milímetros, no eixo vertical da esquerda: altas de outubro a março, acima de 150 e chegando perto de 250 em dezembro e janeiro; intermediárias em abril e setembro; e quase nulas de maio a agosto, abaixo de 40. Uma faixa amarela sombreia os meses de maio a setembro, rotulada estação seca, de cinco a seis meses, e uma linha azul tracejada marca os 50 mm. Uma linha vermelha com pontos mostra a temperatura média mensal, no eixo da direita, oscilando entre cerca de 19 e 23 graus Celsius, com os valores mais baixos em junho e julho e os mais altos em setembro e outubro. Uma caixa de texto resume: chuva anual perto de 1 500 mm, concentrada em seis meses; amplitude térmica anual pequena. Uma nota indica que os valores são típicos e aproximados, e não a normal de uma estação específica.
Climograma esquemático do Cerrado do Planalto Central: barras de chuva, linha de temperatura. O que define o clima não é o total anual, que é alto, e sim a concentração da chuva em seis meses e a seca longa. Valores típicos e aproximados. Diagrama autoral.

Como se lê um climograma como esse. Primeiro, o total: some as barras, ou leia a legenda; aqui o total passa de 1 400 mm, o que afasta qualquer ideia de clima seco ou semiárido. Segundo, a distribuição: conte os meses com menos de 50 mm (ou menos de 60 mm, conforme o critério do enunciado); cinco a seis meses secos seguidos definem o clima tropical sazonal, que os geógrafos chamam de tropical típico ou de savana. Terceiro, a linha de temperatura: se ela quase não oscila, a amplitude térmica anual é pequena, e não há inverno frio; o que organiza a vida das plantas é a água, não a temperatura. Quarto, cruze com o que o enunciado afirma. O PAS 2 de 2015 (item 59) fez exatamente esse teste, com um climograma impresso e um parágrafo que avisava que “a maior parte das queimadas é provocada pelo homem”: “As queimadas no cerrado são favorecidas pela baixa amplitude térmica e pelas chuvas escassas e irregulares, concentradas em um curto período, conforme ilustrado no gráfico.” Errado. As chuvas do gráfico não eram escassas nem irregulares: eram abundantes e regulares, só que concentradas em sete meses; e amplitude térmica baixa não favorece queimada nenhuma. O que favorece o fogo é a seca longa, que acumula capim morto, e a ignição, que na maior parte dos casos é humana. O item leu o gráfico ao contrário e trocou a causa.

"Cerrado é seco"

Não é. Chove no Cerrado tanto quanto em muitas florestas; o que há é uma estação seca longa. A diferença importa porque muda a explicação de tudo o que vem depois: a árvore torta, a folha dura e a casca grossa não são respostas a um lugar sem água, e a savana não é uma floresta que a chuva não sustentou. Item que explique a vegetação do Cerrado por “pouca água no solo” está errado antes de qualquer outro detalhe.

Um solo profundo, pobre e ácido, que guarda água mas não alimenta

O que a chuva encontra ao cair no Planalto Central é um latossolo: solo muito antigo, profundo (dezenas de metros até a rocha), bem drenado, de cor vermelha ou amarela por causa dos óxidos de ferro e alumínio, ácido (pH em geral entre 4 e 5,5), pobre em cálcio, magnésio e fósforo e rico em alumínio em forma trocável, que é tóxico para a raiz da maioria das plantas cultivadas e bloqueia a absorção de nutrientes. É o oposto do que a intuição espera de uma região que hoje produz tanta soja: a lavoura só existe ali porque o solo é corrigido com calcário (calagem), que neutraliza a acidez e precipita o alumínio, e adubado com fósforo. Por isso o Cerrado só entrou na fronteira agrícola a partir dos anos 1970, quando a correção do solo em larga escala se tornou viável.

A combinação é peculiar: um solo que armazena muita água em profundidade, porque é poroso e profundo, mas que não alimenta. A limitação do Cerrado é química, não hídrica. Isso explica duas coisas ao mesmo tempo. Explica a árvore de raiz profunda, que alcança a água guardada no subsolo o ano inteiro. E explica a folha dura, o crescimento lento e o porte baixo das plantas nativas, que são respostas à pobreza do solo e ao alumínio, não à falta de água (o nome dessa hipótese, escleromorfismo oligotrófico, fica para a seção das adaptações).

O PAS 1 de 2023 (item 12), num item classificado em Geografia, cobrou o solo pelo avesso: “Os latossolos (solos avermelhados) do bioma Cerrado são ricos em nutrientes, o que garante a sua fertilidade e, consequentemente, proporciona êxito na produção agropecuária, razão por que a população na região Centro-Oeste se mantém predominantemente rural.” Errado, duas vezes. Os latossolos do Cerrado são pobres; a produção agrícola depende de corrigir o solo. E o Centro-Oeste é uma das regiões mais urbanizadas do país. O item inverte a causa (solo rico) e erra a consequência (população rural). O PAS 2 de 2018 (item 73) usou o solo numa frase que começa certa e termina errada: “Os altos índices de alumínio e acidez no solo são as principais causas da pouca diversificação de espécies vegetais no cerrado, que é um bioma de formação savânica, com poucas árvores e raras espécies frutíferas.” Errado. Alumínio e acidez existem e limitam as plantas não adaptadas; mas o Cerrado é um dos biomas mais diversos do planeta, com perto de 12 mil espécies de plantas, e as “raras frutíferas” são pequi, mangaba, cagaita, araticum, baru, buriti, murici. A premissa sobre o solo é verdadeira; a conclusão sobre a diversidade é o contrário do inventário.

O calcário que vai para a lavoura explica o solo

Quem passa por uma rodovia do Brasil central em julho vê caminhões basculantes descarregando um pó branco nas lavouras: é calcário, aplicado por tonelada e por hectare. Nenhuma planta nativa precisa dele. A aplicação existe porque a soja, o milho e o algodão não toleram o alumínio nem o pH baixo do latossolo, e a vegetação do Cerrado tolera. O mesmo solo é “pobre” para a lavoura e “normal” para o pequizeiro: fertilidade é uma relação entre o solo e a planta, não uma propriedade só do solo.

Onze fisionomias, um bioma: o mosaico do campo limpo à mata de galeria

Quem espera “o Cerrado” como um cenário único se surpreende numa caminhada pelo Parque Nacional de Brasília: em poucos quilômetros, a vegetação passa de um campo de gramíneas sem árvore nenhuma a uma mata fechada e úmida à beira do córrego. Os botânicos chamam essas formas de fitofisionomias (fisionomias da vegetação). A classificação mais usada, de Ribeiro e Walter (Embrapa Cerrados, 1998, revista em 2008), reconhece onze fitofisionomias em três grupos.

grupo fitofisionomia o que se vê onde ocorre
campestres (sem árvores ou quase) campo limpo só gramíneas e ervas; nenhum arbusto ou quase nenhum solos rasos, encharcados ou muito pobres; topos e encostas
campo sujo gramíneas com arbustos esparsos solos pobres e rasos
campo rupestre gramíneas e arbustos sobre afloramentos de rocha, acima de 900 m chapadas altas e serras
savânicas (árvores esparsas sobre capim contínuo) cerrado sentido restrito árvores baixas (3 a 8 m), tortuosas, de casca grossa, espalhadas; copas não se tocam; capim contínuo solos profundos e bem drenados do planalto; a fisionomia mais extensa
parque de cerrado árvores agrupadas em pequenas elevações (murundus), campo ao redor áreas planas com encharcamento sazonal
palmeiral predomínio de uma palmeira (babaçu, buriti, macaúba) depende da espécie; buritizal em solo úmido
vereda buritis em fileira sobre solo encharcado, com campo úmido ao redor onde o lençol freático aflora; nascentes
florestais (dossel contínuo) mata ciliar floresta estreita ao longo de rios maiores; árvores perdem parte das folhas na seca margens de rios largos
mata de galeria floresta sempre verde que acompanha os córregos e fecha o dossel sobre eles fundos de vale, com água permanente
mata seca floresta sem associação com curso d’água; perde folhas na seca solos mais férteis, muitas vezes sobre calcário
cerradão floresta de árvores de 8 a 15 m, com a flora do cerrado, dossel contínuo solos um pouco mais profundos e férteis

O cerrado sentido restrito ainda se subdivide pela densidade das árvores: cerrado denso (copas cobrem 50 % a 70 % do chão), cerrado típico (20 % a 50 %), cerrado ralo (5 % a 20 %) e cerrado rupestre (sobre rocha). O MapBiomas, que mapeia o bioma por satélite com uma legenda mais simples, encontrou em 2024 a seguinte repartição da área do Cerrado: formação savânica, 28,4 %; formação florestal, 16,4 %; formação campestre, 2,7 %; campos alagados e áreas pantanosas, 3,1 %; o restante é uso humano (MapBiomas, Coleção 10). A savana é a cara do bioma, mas um sexto dele é floresta.

Corte esquemático de uma paisagem do Cerrado, lido da esquerda para a direita, do interflúvio ao córrego, fora de escala. Sobre uma faixa marrom de solo, cinco fisionomias se sucedem, cada uma com rótulo: campo limpo, só com tufos de capim; campo sujo, capim com arbustos esparsos; cerrado sentido restrito, árvores baixas e tortuosas de copa arredondada, espaçadas, sobre capim contínuo, com raízes tracejadas que descem até uma linha azul tracejada marcada lençol freático; vereda, três buritis de tronco reto e folhas em leque sobre uma mancha azul-clara de solo encharcado, onde a linha do lençol toca a superfície; e mata de galeria, árvores altas de copas que se tocam ao redor de um córrego azul. A linha do lençol freático é profunda sob o planalto e sobe até aflorar na vereda e no córrego. Uma legenda abaixo diz que a forma da vegetação acompanha a profundidade da água e o solo, e que as raízes do cerrado sentido restrito são mais compridas que os troncos.
Um gradiente de fitofisionomias, do planalto ao córrego. A forma da vegetação acompanha a profundidade do lençol freático (linha azul tracejada) e o solo: campo onde o solo é raso ou encharcado, savana no planalto profundo, floresta onde há água permanente. Repare nas raízes do cerrado sentido restrito, mais compridas que os troncos. Diagrama autoral, fora de escala.

O que decide qual fisionomia cresce em cada ponto é, antes de tudo, água e solo, com o fogo como terceiro filtro. Onde o lençol freático está fundo e o solo é profundo e drenado, cresce o cerrado sentido restrito, com raízes que vão buscar a água. Onde o lençol chega perto da superfície e o solo fica encharcado parte do ano, as raízes das árvores não têm oxigênio e vence o campo úmido ou a vereda com buritis, que toleram o alagamento. Onde há um córrego, a mata de galeria. Onde o solo é um pouco mais fértil, cerradão ou mata seca. A relação, que parece contraintuitiva, foi o centro de um texto-base do PAS 2 (2015 e 2017): “quanto mais próximo da superfície está o lençol freático em determinada área, menor é a quantidade de árvores ou arbustos”, porque “as árvores do cerrado não se adaptam bem a solos úmidos”. Mais água perto da superfície, menos árvores. O item 58 de 2015 (tipo C) tinha como opção correta justamente “a variedade de paisagens do cerrado decorre de três fatores”: clima sazonal, profundidade do lençol freático e solo pobre e ácido.

Exemplo resolvido: três fisionomias numa fazenda

Um agricultor pretende abrir 500 ha de lavoura num terreno do planalto que hoje tem cerrado sentido restrito e, num dos cantos, uma vereda com buritis e um córrego com mata de galeria. (a) Como distinguir as três formações no campo, pela fisionomia? (b) O que acontece com a vereda se só o cerrado sentido restrito do planalto for convertido, mantendo a vereda e a mata intocadas? © Um texto afirma que “o cerrado sentido restrito é uma vegetação degradada, meio caminho entre o campo e a floresta; se deixarem, vira floresta, então plantar soja ali não perde nada”. Critique.

Estratégia. Use o gradiente: a fisionomia segue água e solo. Em (b), siga a água: de onde vem a água da vereda? Em ©, pergunte qual é a comunidade madura daquele lugar e onde está o endemismo.

(a) Cerrado sentido restrito: árvores baixas, tortuosas, de casca grossa, espaçadas, com copas cobrindo menos da metade do chão, e capim contínuo entre elas; solo profundo, seco na superfície durante a estiagem. Vereda: solo encharcado ou brejoso, sem árvores exceto o renque de buritis, gramíneas e ciperáceas de brejo; a água aflora. Mata de galeria: dossel fechado, árvores altas, sombra e umidade, acompanhando o córrego; é a única das três com copas que se tocam.

(b) A vereda depende da água que infiltrou no planalto. Convertido o cerrado ao redor, cai a infiltração (solo compactado por máquinas, sem raízes profundas, sem cobertura na seca) e sobe o escoamento superficial; a recarga do lençol diminui, e a vereda, mesmo intocada, tende a secar na estiagem, primeiro nas bordas. Proteger a nascente sem proteger a área de recarga é proteger o sintoma.

© A frase erra na biologia e na consequência. O cerrado sentido restrito não é uma etapa a caminho da floresta: é a comunidade madura de uma savana mantida por solo pobre, seca de seis meses e fogo periódico; deixado em paz, continua savana (o argumento completo está em sucessão ecológica). E “não perde nada” contradiz o endemismo: é nas fisionomias abertas que está a maior parte das plantas exclusivas do bioma. O que a frase acerta: sem fogo por décadas, algumas áreas adensam e ganham cerradão, mas isso é uma fisionomia do próprio Cerrado, não “a floresta que faltava”.

Conferência. Se o cerrado sentido restrito fosse “degradado”, áreas protegidas há mais de sessenta anos, como o Parque Nacional de Brasília (criado em 1961), deveriam ser hoje florestas contínuas. Não são: são mosaicos de campo, savana e mata de galeria.

O item que confundiu savana com floresta

O PAS 1 de 2024 (item 31), sobre um texto que descrevia a Chapada dos Veadeiros, afirmou: “A diversidade de hábitats dentro do cerrado contribui para a presença de uma ampla gama de espécies vegetais, especialmente árvores cujas copas formam uma cobertura contínua e fechada, característica típica da formação savânica encontrada no cerrado, mas que vem sofrendo alterações com o desmatamento crescente.” Leia em três pedaços. A premissa está certa: o mosaico de fitofisionomias é a razão da riqueza. A conclusão também é verdadeira em si: o desmatamento altera o bioma. O erro está no meio: copas que formam cobertura contínua e fechada são a definição de floresta; a formação savânica é, por definição, sem dossel contínuo, com sol chegando ao capim. O rótulo “savânica” foi colado no retrato de outra fisionomia (cerradão, mata de galeria). Errado. Uma frase que começa certa convida a marcar C sem ler o resto.

O PAS 2 de 2014 (item 41) deu a definição correta e cobrou as fronteiras: “O Cerrado, cuja vegetação se caracteriza pela formação aberta de árvores e arbustos sobre uma camada rasteira de gramíneas, apresenta zonas transicionais com os biomas Pantanal, Amazônia, Mata Atlântica e Caatinga.” Certo. Formação aberta sobre camada rasteira de gramíneas é a savana; os quatro vizinhos são os quatro com que o Cerrado faz fronteira. E o PAS 2 de 2017 (item 71) usou a fisionomia campestre para armar um cruzamento de botânica: “A fisionomia campestre do cerrado é formada por gramíneas, plantas vasculares que se caracterizam pela ausência de sementes e pela reprodução assexuada por brotamento.” Errado. Gramíneas são angiospermas: têm flor, fruto e semente (o grão). A fisionomia está certa; a botânica da gramínea está errada. Os grupos vegetais estão em grupos vegetais.

A floresta de cabeça para baixo: como as plantas resolvem solo, seca e fogo

A árvore típica do cerrado sentido restrito tem casca grossa, tronco tortuoso, folhas rígidas e uma raiz que desce muito mais do que o tronco sobe. Cada uma dessas marcas responde a um dos três fatores do bioma, e a prova gosta de perguntar qual responde a qual.

Desenho esquemático, fora de escala, de uma árvore do cerrado sentido restrito vista em corte, com a parte aérea acima da linha do solo e a subterrânea abaixo, e rótulos ligados por linhas a cada estrutura. Acima do solo: copa baixa de folhas pequenas e espessas, rotulada folhas coriáceas, com cutícula grossa, pilosidade e muitas vezes esclerofilia; tronco tortuoso com curvas, rotulado tronco tortuoso, resultado de gemas apicais mortas pelo fogo e substituídas por gemas laterais; casca espessa e fissurada, rotulada casca grossa de súber, isolante térmico que protege o câmbio e as gemas; tufos de capim ao redor, rotulados estrato herbáceo, o combustível do fogo rasteiro. Abaixo do solo: um órgão subterrâneo lenhoso e arredondado, rotulado xilopódio, reserva e gemas de rebrota fora do alcance do fogo; uma raiz pivotante que desce por toda a altura do desenho, muito mais longa que o tronco, até uma linha azul tracejada marcada lençol freático a 10 a 15 metros, rotulada raiz profunda, água o ano inteiro; e, no solo, as anotações latossolo ácido, pobre, com alumínio. Uma escala lateral indica que a parte subterrânea pode guardar mais biomassa que a aérea.
A árvore do cerrado em corte: cada estrutura responde a um dos três fatores do bioma. A casca grossa e o xilopódio respondem ao fogo; a raiz profunda, à seca sazonal; a folha dura e o crescimento lento, ao solo pobre e ao alumínio. Mais biomassa embaixo do que em cima: a "floresta de cabeça para baixo". Diagrama autoral, fora de escala.

Raízes profundas. Raízes pivotantes de muitas árvores do Cerrado alcançam o lençol freático a 10 m, 15 m, em alguns registros perto de 20 m. É por isso que, em agosto, com quatro meses sem chuva e o capim amarelo, as árvores continuam com folhas verdes: a raiz está na água. Em muitas áreas do bioma, a maior parte da biomassa está debaixo do solo (raízes, xilopódios, rizomas do capim), o que rendeu o apelido de floresta de cabeça para baixo ou floresta invertida. O PAS 1 de 2013 (item 56) cobrou essa comparação pelo avesso: “O estoque de carbono subterrâneo é maior no solo da Mata Atlântica que no solo do Cerrado, porque a maior parte da biomassa da floresta encontra-se abaixo do solo.” Errado, nas duas metades: a floresta úmida tem a maior parte da biomassa acima do solo (troncos, copas), e é o Cerrado que concentra biomassa e carbono embaixo. O PAS 2 de 2018 (item 72) trocou o bioma: “As raízes mais comuns no cerrado são as aéreas, em especial as raízes do tipo respiratórias e as raízes escoras.” Errado. Raízes respiratórias (pneumatóforos) e escoras são do manguezal, onde o solo é lodoso e sem oxigênio; no Cerrado a raiz típica é pivotante e profunda.

Xilopódios e órgãos subterrâneos. Muitos arbustos e subarbustos do Cerrado têm um xilopódio: caule subterrâneo lenhoso, intumescido, que guarda reservas (amido, água) e gemas. Quando o fogo ou a seca mata a parte aérea, a planta rebrota do xilopódio em semanas. Gramíneas rebrotam de rizomas. É a herança biológica que faz um campo queimado em setembro estar verde em novembro.

Casca grossa. O súber (a casca morta, de células suberizadas e cheias de ar) de muitas árvores do Cerrado tem um a vários centímetros de espessura. Ele isola o câmbio vivo do calor de um fogo de capim, que passa em minutos a algumas centenas de graus na superfície, e também reduz a perda de água pelo tronco na seca. O PAS 2 de 2023 (item 54), num bloco sobre o incêndio do Parque Nacional da Serra da Canastra, deu a função dupla: “Determinadas árvores do cerrado apresentam especializações, como cascas grossas, que as protegem tanto contra a perda de água quanto contra as queimadas.” Certo. Repare nos modalizadores: “determinadas árvores” (nem todas têm), “tanto… quanto” (duas funções reais). Modalizador honesto costuma acompanhar item certo; absolutização (“todas”, “unicamente”, “sempre”) é o alarme para procurar o erro.

Tronco tortuoso e plantas anãs. A árvore é torta porque cresce aos trancos. O fogo ou a seca mata a gema apical, que puxava o crescimento em linha; gemas laterais, protegidas sob a casca, assumem e crescem em outra direção; a cada ciclo, uma nova curva. Quando o fogo volta cedo demais, antes de a planta repor as reservas, a parte aérea morre repetidamente e a planta não passa de um arbusto baixo, com um sistema subterrâneo grande: as plantas anãs do Cerrado. O PAS 2 de 2018 trabalhou isso em dois itens. O item 70: “Uma das razões para a ocorrência de plantas anãs no cerrado é o fato de as queimadas frequentes afetarem as gemas apicais.” Certo. O item 67: “Também conhecidas como colênquimas, as gemas estão situadas nos caules, nas raízes e nas folhas das plantas do cerrado.” Errado. Gema é meristema, tecido vivo em divisão; colênquima é tecido de sustentação. A frase troca a etiqueta histológica (os tecidos estão em tecidos e órgãos vegetais). E o item 69 do mesmo ano: “A principal característica das árvores do cerrado é a presença de estróbilos masculinos e femininos.” Errado. Estróbilo é a estrutura reprodutiva das gimnospermas (pinheiros); as árvores do Cerrado são angiospermas, com flor e fruto.

Folhas coriáceas e o escleromorfismo. As folhas de muitas espécies são rígidas, espessas, com cutícula grossa, às vezes pilosas: o conjunto que se chama esclerofilia ou xeromorfismo, a aparência de planta de lugar seco. A explicação mais aceita para o Cerrado, porém, não é a seca. É a hipótese do escleromorfismo oligotrófico (oligo = pouco, trófico = alimento): tecidos duros, folhas que duram anos e crescimento lento são respostas à pobreza de nutrientes e ao alumínio do solo. Uma planta que recebe pouco nitrogênio e fósforo não pode trocar de folha todo ano; fabrica folhas caras, duras e duráveis, e investe em defesa. Como a água está disponível no subsolo o ano todo, essas plantas são chamadas de pseudoxerófitas: têm cara de xerófita, mas não vivem em estresse hídrico crônico. Xerófitas verdadeiras são as da Caatinga e dos desertos, que de fato ficam sem água.

Xeromorfismo, pseudoxerófita e escleromorfismo oligotrófico

Xeromorfismo é a aparência de planta de ambiente seco: folha dura e espessa, cutícula grossa, casca grossa, pelos. Xerófita é a planta que vive de fato com pouca água e tem essas características como adaptação à seca (cactos, plantas da Caatinga). Pseudoxerófita é a planta com aparência xeromórfica mas com água disponível no subsolo, como as árvores do Cerrado. Escleromorfismo oligotrófico é a hipótese que explica a folha dura do Cerrado pela pobreza de nutrientes do solo (e pela toxicidade do alumínio), não pela falta de água. Em uma frase: água a árvore tem; nutriente, não.

Foi esse o alvo do bloco do PAS 2 de 2017, com um texto que dizia que o solo é “pobre, ácido e carregado de alumínio”. O item 70: “A baixa disponibilidade de água, decorrente dos períodos longos de seca, é o principal fator responsável pela adaptação das pseudoxerófitas ao cerrado.” Errado. O nome já diz: pseudoxerófita é a que não sofre de falta de água; o fator principal é o solo. O item 72 do mesmo bloco inferiu do texto que “a variedade florística do cerrado decorre, entre outros fatores, da existência de pouca quantidade de água em seu solo” (Errado: o texto apontava clima sazonal, lençol e solo pobre, não pouca água). E o item 74 testou o estômato: “A vegetação do cerrado se caracteriza por apresentar folhas com estômatos permanentemente abertos.” Errado. Nenhuma planta mantém estômatos permanentemente abertos; na tarde seca de agosto, com ar a 15 % de umidade, as plantas do Cerrado fecham os estômatos para não desidratar, e os abrem de manhã (a mecânica está em fisiologia vegetal).

Floração e frutificação no ritmo da seca e do fogo. Muitas árvores do Cerrado florescem no fim da seca, antes das chuvas (os ipês, em julho a setembro, são o caso mais visível), e várias ervas e arbustos florescem depois do fogo, em dias ou semanas, usando reservas do xilopódio. Sementes de algumas espécies, sobretudo leguminosas de tegumento duro e impermeável, germinam melhor depois de um choque térmico, que fissura a casca e deixa a água entrar; outras são mortas pelo calor. A resposta ao fogo não é uma só, e isso importa para a seção seguinte.

"A árvore é torta por falta de água"

É a explicação que a prova coloca para o aluno derrubar. A água profunda existe (raiz pivotante; pseudoxerófitas). O que limita é o solo (alumínio e acidez), e o que torce é o fogo (gema apical morta, gemas laterais assumem). “Cerrado é seco, logo a planta sofre por falta d’água” é a frase que a banca escreveu, com variações, em 2017 (itens 70 e 72) e em 2018 (item 73), sempre com gabarito errado.

Exemplo resolvido: um ano na vida de uma árvore do cerrado

Acompanhe um pequizeiro de cerrado típico, no Distrito Federal, e associe cada acontecimento a um fator (solo, seca, fogo) e a uma estrutura.

Maio a setembro, estação seca. Não chove; o ar nas tardes fica a 15 % de umidade. A raiz pivotante, a oito metros, continua absorvendo água do lençol; a árvore mantém boa parte das folhas, rígidas e de cutícula grossa, e fecha estômatos nas horas quentes. Fator: seca sazonal. Estruturas: raiz profunda, folha coriácea, estômatos que fecham. O capim, de raiz rasa, seca e vira palha.

Setembro, fogo. Um raio ou uma faísca acende a palha. O fogo passa em minutos; a temperatura na superfície chega a algumas centenas de graus, mas cai depressa com a altura e quase não penetra o solo. As folhas e a gema do alto morrem; a casca de súber isola o câmbio; o xilopódio, a trinta centímetros de profundidade, não sente o calor. Sementes de tegumento duro caídas no chão são fissuradas pelo calor. Fator: fogo. Estruturas: súber, gemas protegidas, xilopódio, tegumento impermeável.

Outubro e novembro, chuva. Gemas laterais sob a casca brotam em direções novas: o tronco ganha mais uma curva. O capim rebrota do rizoma. As sementes fissuradas embebem e germinam. Ervas florescem direto do chão queimado. Fator: retomada da água. Estruturas: gemas laterais, rizomas, reservas do xilopódio.

O ano inteiro. A folha dura, o porte baixo e o crescimento lento não mudam com a estação: respondem ao solo pobre e ácido, com alumínio. Fator: solo. Estrutura: esclerofilia (escleromorfismo oligotrófico).

E se o fogo voltasse em janeiro e de novo em setembro? A parte aérea morreria antes de repor as reservas; a árvore ficaria anã, e as sementes germinadas morreriam antes de formar xilopódio. É a fronteira entre o fogo que o Cerrado tolera e o fogo que o degrada.

Conferência. Nenhum acontecimento foi explicado por “falta de água no solo”. O único momento em que a água falta ao capim, não falta à árvore, e é isso que a raiz profunda resolve. Os três fatores aparecem separados, cada um com a sua estrutura, que é como a prova os cobra.

Fogo: o fator ecológico que mantém a savana, em um regime, e a destrói, em outro

No fim da estação seca, o tapete de gramíneas do Cerrado vira palha. Nas primeiras tempestades da transição seca-chuva, em setembro e outubro, raios acendem essa palha, e o fogo corre rasteiro e rápido, consumindo o capim e chamuscando as árvores sem matá-las. Isso acontece desde muito antes de haver gente no continente, a cada poucos anos num mesmo ponto. O Cerrado é, no vocabulário da ecologia e da própria lei brasileira, um ecossistema associado ao fogo: um ecossistema em que o fogo “cumpra papel ecológico em suas funções e seus processos” (Lei 14.944, de 2024, art. 2.º). As adaptações da seção anterior (casca grossa, xilopódio, rebrota, floração pós-fogo, germinação por choque térmico) são a prova dessa história.

Como essas adaptações surgiram pede cuidado com a linguagem. Nada foi “desenvolvido para resistir ao fogo”. Num ambiente que queimava a cada poucos anos, os indivíduos com casca mais grossa, gemas mais protegidas e reservas subterrâneas deixaram mais descendentes; a casca fina e a gema exposta foram sendo eliminadas da população a cada incêndio. Um estudo de datação de linhagens publicado em 2009 (Simon e colaboradores, PNAS) mostrou que a maioria dos grupos de plantas típicos do Cerrado se diversificou há menos de 10 milhões de anos, a partir de parentes de florestas e de outras vegetações sem fogo, no mesmo período em que as gramíneas de metabolismo C4, altamente inflamáveis, se expandiam pelo planeta. As adaptações ao fogo surgiram dentro do Cerrado; o bioma, na forma atual, é mais jovem do que se pensava, mas tem milhões de anos.

O ponto central desta seção é que não existe “o fogo”; existem regimes de fogo. A Lei 14.944 define regime do fogo como “frequência, época, tamanho da área queimada, intensidade, severidade e tipo de queima em determinada área ou ecossistema”. Mude uma dessas variáveis e o efeito se inverte.

Quadro comparativo em três colunas, cada uma com um pequeno desenho de um trecho de cerrado e uma lista de efeitos. Coluna da esquerda, com fundo verde-claro, rotulada fogo em regime natural ou manejado: fogo rasteiro e rápido, a cada poucos anos, no início da seca ou na transição para as chuvas, em manchas que formam um mosaico; o desenho mostra capim parcialmente queimado e árvores com copas intactas; efeitos listados: consome a palha, rebrota em semanas, floração pós-fogo, germinação de sementes de tegumento duro, mosaico de áreas com idades diferentes, mantém campos e savanas abertos e ricos em ervas. Coluna do meio, com fundo amarelo-claro, rotulada ausência total de fogo por décadas: o desenho mostra palha acumulada e arbustos adensados sombreando o chão; efeitos: acumula combustível, árvores e arbustos adensam onde o solo permite, gramíneas e ervas perdem luz e a riqueza cai, parte do cerrado vira cerradão, e o primeiro incêndio depois de anos sem fogo é muito mais intenso. Coluna da direita, com fundo vermelho-claro, rotulada fogo frequente demais, extenso e tardio: incêndio todo ano ou quase, no fim da seca, em grandes áreas contínuas, alimentado por capim exótico; o desenho mostra árvores queimadas até a copa e uma mata de galeria em chamas; efeitos: gemas apicais mortas repetidamente e plantas anãs, plântulas morrem antes de formar xilopódio, fogo sobe às copas da mata de galeria, que não tem adaptações, mortalidade de animais, perda de biodiversidade e invasão por gramíneas africanas. Um rodapé lembra que o que muda entre as colunas é frequência, época, extensão e intensidade, e não a presença do fogo.
Três regimes de fogo, três resultados. O fogo rasteiro e periódico mantém a savana; a supressão total adensa a vegetação e prepara o incêndio catastrófico; o fogo anual, extenso e de fim de seca degrada e mata. A variável não é "ter fogo", e sim frequência, época, extensão e intensidade. Diagrama autoral.

Regime natural (e manejado). Fogo rasteiro, rápido, de superfície, a cada poucos anos, no início da seca ou na transição para a chuva, em manchas de tamanhos variados. Consome a palha, abre espaço e luz para gramíneas e ervas, estimula a floração e a germinação de parte das espécies, mantém o mosaico de áreas com idades diferentes de queima, que serve de refúgio e de fonte de recolonização para a fauna. É o regime com que a flora evoluiu.

Ausência total de fogo. Em áreas de cerrado protegidas do fogo por décadas, o estrato arbóreo adensa, o cerrado sentido restrito caminha para cerradão onde o solo permite, e a riqueza de gramíneas e ervas, que é a maior parte da biodiversidade do bioma, cai, sombreada. Nos campos úmidos e nas veredas, nada de árvores, porque o solo encharcado não deixa. E a palha acumulada por anos vira combustível para um incêndio muito mais intenso do que qualquer fogo natural. Sem fogo, parte do Cerrado vira outro tipo de Cerrado, mais pobre em espécies.

Fogo frequente demais, extenso e tardio. Queimadas todo ano, ateadas em pasto seco ou em áreas de desmatamento no fim da seca (agosto e setembro), alimentadas por capins africanos invasores (capim-gordura, braquiária) que produzem muito mais palha que os nativos, atravessam grandes áreas contínuas e sobem às copas das matas de galeria, que não têm as adaptações do cerrado. Matam plântulas antes de elas formarem xilopódio, produzem plantas anãs, eliminam espécies e desorganizam as cadeias de polinização e dispersão. Esse é o fogo que degrada.

O PAS 2 de 2024 (item 73) cobrou exatamente a fronteira: “As queimadas no cerrado, apesar de serem uma prática de manejo do solo, prejudicam a biodiversidade desse bioma quando atingem grandes extensões.” Certo. O item concede que o fogo é prática de manejo (e é, dentro de um regime) e coloca a condição que o transforma em dano: “grandes extensões”. Repare que o item seria errado se dissesse “toda queimada prejudica” ou “nenhuma queimada prejudica”: o que a banca cobra é a dependência do regime.

Manejo integrado do fogo. Por décadas a política brasileira foi “fogo zero”: apagar tudo, proibir tudo. O resultado, em parques do Cerrado, foi o acúmulo de palha e incêndios catastróficos de fim de seca. A partir de 2014, o ICMBio testou no Jalapão (Tocantins) o manejo integrado do fogo, hoje aplicado nos parques nacionais de Brasília e da Chapada dos Veadeiros, entre outros: queimas prescritas no início da seca, em manchas, para reduzir o combustível, recriar o mosaico e proteger as matas de galeria; combate concentrado nos incêndios de fim de seca; e respeito ao uso tradicional do fogo por povos indígenas e quilombolas, que manejam o Cerrado com fogo há séculos. Em 31 de julho de 2024, a Lei 14.944 instituiu a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, com o objetivo declarado de reconhecer “o papel ecológico do fogo nos ecossistemas” e definindo queima prescrita como “uso planejado, monitorado e controlado do fogo, realizado para fins de conservação, de pesquisa ou de manejo em áreas determinadas e sob condições específicas, com objetivos predefinidos em plano de manejo integrado do fogo”. A mesma ciência que diz “o Cerrado precisa de fogo” diz “este incêndio destrói a mata de galeria”: a diferença está na época, na intensidade e na escala. Como a sucessão explica que a savana queimada não “evolui” para floresta, e por que o clímax de uma savana é a savana, está em sucessão ecológica.

"Fogo sempre destrói" e "fogo nunca faz mal"

As duas frases erram pelo mesmo motivo: tratam o fogo como presença ou ausência, quando o que decide é o regime. Em item de prova, procure as variáveis: época (início da seca ou fim?), frequência (a cada poucos anos ou todo ano?), extensão (manchas ou grandes áreas contínuas?), fisionomia atingida (campo e savana, que toleram, ou mata de galeria, que não tolera?). “As queimadas prejudicam a biodiversidade quando atingem grandes extensões” é certo; “a rebrota rápida mostra que o aumento da frequência de queimadas não altera o equilíbrio das populações” é errado. E incêndio de fim de seca em pasto com capim-gordura não é “fogo natural”: é outro regime.

Exemplo resolvido: ler a tabela de um plano de manejo do fogo

Um parque nacional do Cerrado registrou, em dois períodos de cinco anos, a área queimada por tipo de fogo. Antes do manejo integrado (2010 a 2014), a política era de supressão total; depois (2015 a 2019), passou-se a fazer queimas prescritas no início da seca. Os valores são hipotéticos, construídos para o exercício.

período área média queimada por ano em queimas prescritas (maio a junho) área média queimada por ano em incêndios (agosto a outubro) total
2010 a 2014 0 ha 18 000 ha 18 000 ha
2015 a 2019 6 000 ha 5 000 ha 11 000 ha

(a) O manejo reduziu ou aumentou a área que queima por ano? (b) Que fração da área queimada passou a ocorrer em queimas prescritas? © Por que a mesma área queimada em maio tem efeito ecológico diferente da queimada em setembro? (d) Um crítico diz que “o parque passou a queimar de propósito 6 000 ha por ano, o que é incompatível com conservação”. Avalie.

(a) Reduziu: de 18 000 ha para 11 000 ha por ano, uma queda de 7 000÷18 000≈39 %7\,000 \div 18\,000 \approx 39\,\%. E a área queimada em incêndios, que é a que importa para o dano, caiu de 18 000 para 5 000 ha (−72 %-72\,\%).

(b) 6 000÷11 000≈55 %6\,000 \div 11\,000 \approx 55\,\%: mais da metade do fogo passou a ser planejado.

© Em maio e junho, o capim ainda tem umidade, as noites são frias e úmidas, e o fogo é de baixa intensidade, rasteiro, fácil de controlar, e para sozinho nas bordas úmidas; as matas de galeria não queimam. Em setembro, com a palha seca, o ar a 15 % de umidade e vento, o mesmo hectare queima com muito mais intensidade, o fogo sobe às copas e atravessa a mata de galeria. Além disso, as queimas prescritas são feitas em manchas, o que deixa áreas não queimadas como refúgio para a fauna; o incêndio de setembro é contínuo.

(d) A crítica confunde quantidade com regime. Queimar 6 000 ha em manchas de baixa intensidade no início da seca é o que evita queimar 18 000 ha de uma vez em setembro, com as matas de galeria dentro. Para um ecossistema associado ao fogo, “não queimar nada” não é conservação: é acumular combustível. A crítica seria pertinente se as queimas prescritas atingissem fisionomias sensíveis (matas de galeria, veredas) ou se fossem feitas na época errada.

Conferência. Se a tabela mostrasse a área de incêndio subindo depois do manejo, a conclusão (a) se inverteria, e seria preciso perguntar se as queimas prescritas foram feitas na época e nas fisionomias certas. O que a tabela não mostra, e um plano real mediria, é o efeito sobre as espécies: riqueza de ervas, sobrevivência de plântulas, fauna. Área queimada é um indicador do regime, não da biodiversidade.

A savana mais rica do mundo: riqueza, endemismo e o que faz um hotspot

Até os anos 1980, imaginava-se que a flora da Amazônia fosse muito mais rica que a do Cerrado. Os inventários mudaram a conta. O levantamento da flora vascular do bioma feito pela Embrapa Cerrados registra perto de 12 mil espécies de plantas nativas (Embrapa; o inventário de Mendonça e colaboradores, de 2008, lista 11 627 espécies, mais subespécies e variedades). A fauna conhecida soma cerca de 200 espécies de mamíferos, 800 de aves, 180 de répteis, 150 de anfíbios e 1 200 de peixes (ICMBio). O texto-base que o PAS usa desde 2023 fala em “5 % das espécies de todo o planeta e 30 % da biodiversidade nacional” e chama o Cerrado de “a savana mais rica do mundo” (Revista Darcy, n.º 21, 2019): nenhuma outra savana, africana ou australiana, se aproxima dessa riqueza de plantas.

Mais do que a riqueza, o que define o valor do Cerrado para a conservação é o endemismo. Uma espécie endêmica de uma região é aquela cuja distribuição inteira cabe nessa região: ela não existe em nenhum outro lugar. A estimativa mais citada, feita no levantamento mundial de hotspots publicado em 2000 (Myers e colaboradores, Nature) e retomada por Klink e Machado em 2005, é de cerca de 4 400 espécies de plantas endêmicas, perto de 44 % da flora então conhecida do bioma, estimada em 10 mil espécies. Em números redondos: de cada dez plantas do Cerrado, quatro só existem no Cerrado. E a maior parte dessas espécies exclusivas está nas fisionomias abertas (campos e savanas), nas gramíneas, ervas e arbustos, não nas árvores.

Riqueza, endemismo, abundância e ameaça são quatro medidas diferentes, e a prova as troca de propósito.

medida o que conta exemplo
riqueza número de espécies de um lugar o Cerrado tem ~12 mil plantas
endemismo fração das espécies que só existem ali ~44 % das plantas do Cerrado
abundância número de indivíduos de cada espécie o Pantanal tem poucas espécies exclusivas, mas grandes populações (jacarés, capivaras, aves aquáticas)
ameaça risco de extinção de uma espécie, pela perda de habitat e pelo tamanho da população o lobo-guará é “vulnerável” na lista nacional de espécies ameaçadas (Portaria MMA 148/2022) e “quase ameaçado” na lista mundial da IUCN; muitas plantas endêmicas estão ameaçadas pela conversão do habitat

Uma espécie endêmica não é necessariamente rara nem ameaçada; mas, se o habitat de uma espécie endêmica é destruído, não há outra população em outro lugar, e a perda é definitiva. É por isso que endemismo pesa mais que riqueza nas decisões de conservação. O PAS 1 de 2018 (item 41) separou as medidas: “O que marca a biodiversidade do Pantanal, região com reduzido número de espécies endêmicas, é a abundância de indivíduos presentes em algumas espécies.” Certo. O Pantanal é rico em indivíduos e pobre em endêmicas; o Cerrado é o contrário.

Diagrama em duas partes. À esquerda, uma barra horizontal grande representa as cerca de 12 mil espécies de plantas do Cerrado; dentro dela, um trecho mais escuro, de cerca de 44 por cento do comprimento, representa as espécies endêmicas, com o rótulo cerca de 4 400 espécies que só existem no Cerrado, e o restante, mais claro, as espécies que também ocorrem em outros biomas. Ao lado, quatro pequenas caixas definem riqueza, endemismo, abundância e ameaça, cada uma com uma frase. À direita, uma caixa com o título hotspot de biodiversidade, critério de Myers e colaboradores, 2000, lista as duas condições, ligadas por e: pelo menos 1 500 espécies de plantas vasculares endêmicas, e pelo menos 70 por cento da vegetação original já perdida; abaixo, a frase: muito a perder e pouco tempo; os dois hotspots brasileiros são o Cerrado e a Mata Atlântica. Uma nota de rodapé diz que as proporções da barra são aproximadas.
Riqueza e endemismo não são a mesma coisa. Das cerca de 12 mil plantas do Cerrado, perto de 4 em cada 10 não existem em nenhum outro lugar, e são elas que fazem do bioma um dos dois *hotspots* brasileiros. Proporções aproximadas. Diagrama autoral.

Hotspot. Em 2000, Norman Myers e colaboradores propuseram um critério para identificar as regiões do planeta em que a conservação é mais urgente: ter pelo menos 1 500 espécies de plantas vasculares endêmicas e ter perdido pelo menos 70 % da vegetação original. Muito a perder e pouco tempo. Os 25 hotspots identificados então somavam 1,4 % da superfície terrestre e concentravam 44 % das plantas vasculares do mundo. Dois deles estão no Brasil: a Mata Atlântica e o Cerrado. Pelo critério de endemismo o Cerrado entra com folga; pelo critério de perda, entrou porque a conversão para lavoura e pastagem já havia removido a maior parte da vegetação de muitas regiões.

Fauna emblemática. O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), maior canídeo da América do Sul, de pernas longas para enxergar sobre o capim, que come frutos (a lobeira é “a fruta do lobo”) tanto quanto pequenos animais; o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), de focinho afilado e língua de meio metro, que vive de cupins e formigas; o tatu-canastra, maior tatu do mundo, que escava tocas usadas por dezenas de outras espécies; a ema, maior ave das Américas, e a seriema, de canto alto, ambas de campo aberto; o veado-campeiro; a onça-pintada, no topo da cadeia. Entre as plantas, o pequizeiro, o buriti das veredas, o barbatimão, a lobeira, as canelas-de-ema dos campos rupestres, os ipês que florescem no fim da seca. A cadeia alimentar que liga o pequi ao carcará foi tema do PAS 1 de 2023 (item 17), em cadeias e teias alimentares.

O item do endemismo. O PAS 1 de 2024 (item 32), sobre o texto da Chapada dos Veadeiros que acabara de definir endêmicas como espécies “que vivem exclusivamente em determinada região geográfica”, afirmou: “A maioria das espécies vegetais e animais do bioma cerrado pode ser encontrada também em outros biomas, como a Amazônia, pois o desmatamento do Cerrado possibilitou que grande número de espécies, principalmente as arbóreas, se dispersassem pelos diferentes biomas.” Errado, duas vezes: contradiz o texto (alto índice de endêmicas) e inventa um mecanismo, o desmatamento como dispersor de árvores. Desmatamento não “dispersa” espécies: elimina populações; destruído o habitat de uma endêmica, não há mudança de endereço possível. O PAS 2 de 2025 (item 48) armou outra troca: “Embora o cerrado seja reconhecido como bioma a ser preservado, as regiões florestais, por apresentarem maior número de espécies, merecem prioridade no que se refere a estratégias de conservação.” Errado. Contagem bruta de espécies não é o único critério de prioridade; a conservação pesa endemismo, grau de ameaça, velocidade de perda e serviços ecossistêmicos, e em todos eles o Cerrado está no topo da lista.

"Cerrado é vegetação pobre"

A aparência engana três vezes. Primeiro, a riqueza está no chão, nas gramíneas, ervas e arbustos, não nas árvores: um hectare de campo sujo pode ter mais espécies de plantas que um hectare de floresta. Segundo, a biomassa está debaixo da terra. Terceiro, o que falta ao Cerrado não é espécie, é nutriente no solo. Item que deduza “poucas espécies” de “poucas árvores”, ou “pouca diversidade” de “solo pobre” (como o PAS 2 2018, item 73), está errado.

Berço das águas: o que uma raiz de quinze metros faz com a chuva

A chuva do Cerrado é concentrada e cai sobre um solo profundo e poroso. Sob vegetação nativa, com raízes de dezenas de metros abrindo caminho, uma camada de capim e serrapilheira segurando o impacto das gotas e um solo cheio de poros, boa parte dessa água infiltra e desce até o lençol freático, em vez de escorrer pela superfície. O lençol, abastecido na estação chuvosa, drena lentamente para os córregos e aflora nas veredas e nascentes ao longo da estação seca. É esse mecanismo que mantém os rios do Planalto Central correndo em agosto, quatro meses depois da última chuva. A água que sai de uma vereda em setembro entrou no solo em janeiro, quilômetros acima, no planalto.

Dois cortes de paisagem lado a lado, do planalto a um fundo de vale, fora de escala. No da esquerda, rotulado planalto com vegetação nativa: chuva cai sobre cerrado sentido restrito; setas azuis grossas apontam para baixo, atravessando o solo marrom até uma linha de lençol freático alta, rotuladas infiltração e recarga; setas azuis finas no solo seguem para o vale e saem numa vereda com buritis e num córrego cheio, rotulados nascente perene e vazão na seca; uma seta cinza pequena à superfície indica escoamento superficial pequeno; raízes profundas tracejadas chegam ao lençol. No da direita, rotulado planalto convertido em lavoura ou pastagem: chuva cai sobre solo exposto e compactado, com fileiras de cultura; setas cinza grossas correm pela superfície em direção ao vale, rotuladas escoamento e erosão, levando sedimento marrom para o córrego, que aparece raso e turvo; só uma seta azul fina desce ao lençol, rotulado recarga menor, e a linha do lençol está mais baixa; a vereda aparece com buritis secos e sem água, rotulada vereda seca na estiagem. Abaixo dos dois painéis, uma frase: a mesma chuva, dois destinos; a nascente depende do que acontece quilômetros acima.
A mesma chuva, dois destinos. Sob vegetação nativa, a água infiltra, recarrega o lençol e sai meses depois nas nascentes. Sob solo compactado e exposto, escoa em horas, leva sedimento e deixa a vereda sem recarga. Proteger a nascente sem proteger a área de recarga é proteger o sintoma. Diagrama autoral, fora de escala.

Daí o apelido de berço das águas. Das doze regiões hidrográficas em que a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico divide o país, a maioria recebe água que nasce no Cerrado: Tocantins-Araguaia, São Francisco, Paraná, Paraguai (e com ela o Pantanal inteiro), Parnaíba, parte da Amazônica e trechos das regiões do Atlântico Leste e do Atlântico Nordeste Ocidental. A Embrapa resume em três números: 78 % das águas da bacia do Araguaia-Tocantins, 70 % das do São Francisco e 48 % das do Paraná têm origem no bioma Cerrado. Sob o bioma estão três grandes aquíferos, Guarani, Bambuí e Urucuia, recarregados pela chuva que infiltra no planalto (Embrapa, Contando Ciência na Web, Bioma Cerrado). O Urucuia, no oeste da Bahia, é um dos que sustentam a vazão do São Francisco na seca; o Guarani, compartilhado com Paraguai, Uruguai e Argentina, é um dos maiores reservatórios de água doce subterrânea do mundo.

"Berço das águas porque chove muito"

Não é o volume de chuva que faz o Cerrado berço das águas: chove tanto ou mais na Amazônia e na Mata Atlântica. O que faz é a combinação de posição (o planalto central é o divisor de águas de onde os grandes rios descem para todos os lados), solo (profundo e poroso, que armazena) e vegetação (raízes profundas e cobertura que fazem a água infiltrar em vez de escorrer). Troque a vegetação por solo compactado e a chuva continua a mesma, mas vira enxurrada em janeiro e falta em agosto.

A vereda como nascente que se vê de longe. A fileira de buritis (Mauritia flexuosa) marca a linha em que o lençol freático aflora, no fundo de um vale suave. O solo encharcado, pobre em oxigênio, seleciona quem cresce ali: o buriti e as plantas de brejo têm aerênquima, um tecido com canais de ar que leva oxigênio das partes emersas até as raízes; sem ele, a raiz fermentaria e morreria. A vereda drena para um córrego, que alimenta um rio, que alimenta uma das regiões hidrográficas. Quando uma vereda seca, o que secou foi a recarga, quilômetros acima, no planalto que virou lavoura. O PAS 2 de 2024 (item 74), num item classificado em Geografia, cobrou o mecanismo: “O desmatamento do cerrado para fins agropecuários e de urbanização prejudica sua função ecológica de alimentação de grandes bacias hidrográficas a partir de nascentes e afluentes.” Certo. Menos infiltração, menos recarga, menos vazão nas nascentes na estação seca.

A água de Brasília nasce dentro de um parque

O Distrito Federal tem 5 760 km², todos no Cerrado. O ribeirão do Torto e o córrego Santa Maria, que abastecem parte da capital, nascem dentro do Parque Nacional de Brasília, criado em 1961 em parte para proteger essas nascentes. A bacia do Descoberto, que abastece a outra parte, tem lavouras e loteamentos sobre a área de recarga. Na crise hídrica de 2017 e 2018, com racionamento na capital, o que faltou não foi chuva num ano: foi a soma de anos abaixo da média com uma área de recarga cada vez mais impermeabilizada. A nascente dentro do parque estava protegida; a recarga fora dele, não.

Exemplo resolvido: a conta da água numa bacia do Cerrado

Numa bacia do Planalto Central, a chuva média é de 1 500 mm por ano. Sob vegetação nativa, 55 % desse volume voltam à atmosfera pela evapotranspiração; do restante, um quarto escoa pela superfície e três quartos infiltram e recarregam o lençol. Depois da conversão de toda a bacia em lavoura e pastagem, a evapotranspiração caiu para 45 % da chuva, e, do restante, metade passou a escoar e metade a infiltrar. (a) Calcule a lâmina de água infiltrada por ano nas duas situações. (b) Calcule a lâmina escoada. © O que acontece com a vazão dos córregos na estação seca e com as enxurradas na chuvosa? Lembre que 1 mm de chuva equivale a 1 litro por metro quadrado.

(a) Antes. Restam da evapotranspiração 1 500×0,45=6751\,500 \times 0{,}45 = 675 mm. Infiltram 675×0,75≈506675 \times 0{,}75 \approx 506 mm. Depois. Restam 1 500×0,55=8251\,500 \times 0{,}55 = 825 mm. Infiltram 825×0,50≈412825 \times 0{,}50 \approx 412 mm.

(b) Antes. Escoam 675×0,25≈169675 \times 0{,}25 \approx 169 mm. Depois. Escoam 825×0,50≈412825 \times 0{,}50 \approx 412 mm.

© A recarga caiu de 506 para 412 mm por ano, perto de 19 % a menos: menos água guardada no lençol, logo menor vazão de nascentes e córregos na estação seca, e veredas que secam primeiro nas bordas. O escoamento superficial subiu de 169 para 412 mm, mais que o dobro: enxurradas maiores na estação chuvosa, mais erosão e assoreamento. A chuva anual não mudou; mudou o destino dela.

Conferência. Em cada situação, as três parcelas somam a chuva: antes, 825+169+506=1 500825 + 169 + 506 = 1\,500; depois, 675+412+412≈1 500675 + 412 + 412 \approx 1\,500 (com arredondamento). Em litros por metro quadrado, 506 mm são 506 litros infiltrados por metro quadrado por ano; numa bacia de 100 km² (10810^8 m²), são 5,06×10105{,}06 \times 10^{10} litros, cinquenta bilhões de litros por ano guardados no subsolo.

Frutos, remédios e gente: a sociobiodiversidade em uma passagem

O Cerrado é habitado há milênios por povos indígenas (Xavante, Krahô, Xakriabá, Xerente, Karajá, entre muitos), e há séculos por quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, quebradeiras de coco babaçu, raizeiros e outras comunidades tradicionais que vivem do bioma em pé. Os frutos nativos entraram na alimentação regional e, cada vez mais, na nacional: pequi (Caryocar brasiliense), baru (castanha), cagaita, mangaba, araticum, buriti, murici, jatobá, gabiroba. Casca, raiz e folha de dezenas de espécies (barbatimão, sucupira, arnica-do-campo) formam a farmácia dos raizeiros, e várias delas são estudadas pela farmacologia. O nome que a ecologia e a política pública dão a essa relação é sociobiodiversidade: a interação histórica entre diversidade biológica e os sistemas produtivos e culturais de povos e comunidades tradicionais. O PAS 1 de 2025 (item 71) a definiu e deu como certa: “A interação histórica entre comunidades humanas e o ambiente em práticas de manejo sustentável no cerrado é conhecida como sociobiodiversidade.” Certo. A ideia que sustenta o conceito é a do manejo sustentável, cuja régua é simples: a taxa de retirada não pode superar a de reposição (colher o pequi caído mantém a árvore; derrubar o pequizeiro para colher não). Essa régua, a pesca com defeso (PAS 1 2023, item 60), as unidades de conservação de uso sustentável e o uso tradicional do fogo, que a Lei 14.944 protege, estão em impactos ambientais e biodiversidade.

Quanto resta, onde se perde e por que restaurar não é plantar árvore

O MapBiomas, que mapeia o país por satélite ano a ano desde 1985, informa na Coleção 10 (publicada em 2025, dados de 2024): o Cerrado tem 198,5 milhões de hectares; 51,2 % da área ainda tinha vegetação nativa em 2024 e 47,9 % estava ocupada por uso humano: pastagem (24,1 %), agricultura (13,2 %), mosaico de usos (8,2 %) e silvicultura, áreas urbanas e mineração no restante. Entre 1985 e 2024 o bioma perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa, 28 % do que havia em 1985: 405 mil km², mais do que a área do estado de Goiás. No mesmo período a agricultura cresceu 22,1 Mha (mais de cinco vezes a área de 1985) e a pastagem, 14,7 Mha. Em 1985 o bioma já havia perdido perto de 30 % da vegetação original, convertida sobretudo entre os anos 1960 e 1985, quando a soja chegou ao planalto; somadas as duas fases, cerca de metade da vegetação original foi substituída. “O Cerrado perdeu 28 %” e “o Cerrado perdeu metade” são duas frases verdadeiras com bases diferentes: a primeira conta desde 1985, a segunda desde a ocupação.

Dois gráficos. À esquerda, uma barra vertical empilhada representa 100 por cento da área do Cerrado em 2024, segundo o MapBiomas: de baixo para cima, formação savânica 28,4 por cento em verde-oliva, formação florestal 16,4 em verde-escuro, campos alagados 3,1 em azul-esverdeado, formação campestre 2,7 em verde-claro, e uma pequena fatia de outras naturais, 0,6; uma linha tracejada marca o limite de 51,2 por cento de vegetação nativa, com os rótulos vegetação nativa, abaixo da linha, e uso humano, 47,9 por cento, acima dela; depois, pastagem 24,1 em amarelo, agricultura 13,2 em laranja, mosaico de usos 8,2 em marrom-claro e outros usos 2,4 em cinza, somando 47,9 por cento de área antrópica, mais uma fatia fina de rios e lagos, 0,8, em azul-claro. À direita, barras verticais laranja com a área desmatada por ano no Cerrado medida pelo PRODES do INPE, em quilômetros quadrados, de 2021 a 2025: 8 531, 10 689, 11 012, 8 174 e 7 235; duas barras verdes menores ao lado das de 2024 e 2025 mostram a Amazônia Legal, 6 518 e 5 731. Um rodapé dá as fontes: MapBiomas Coleção 10 e INPE PRODES, consultados em outubro de 2026.
À esquerda, o que o Cerrado era em 2024: metade vegetação nativa, metade uso humano (MapBiomas, Coleção 10). À direita, quanto se derruba por ano, em km², segundo o PRODES do INPE; em 2024 e 2025, mais no Cerrado do que na Amazônia Legal, que tem o dobro da área. Dados consultados em 3/10/2026. Diagrama autoral.

Onde se perde. O desmatamento recente não está espalhado ao acaso. O PRODES Cerrado, do INPE, mediu 8 531 km² de supressão de vegetação nativa no ano de 2021 (agosto de 2020 a julho de 2021), 10 689 km² em 2022, 11 012 km² em 2023, 8 174 km² em 2024 e 7 235 km² em 2025. Nos dois últimos anos, o Cerrado perdeu mais área que a Amazônia Legal (6 518 km² em 2024 e 5 731 km² em 2025), com menos da metade do tamanho. A perda se concentra no Matopiba, as chapadas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que guardam quase metade da vegetação nativa que resta no bioma e onde a fronteira agrícola avança mais depressa (MapBiomas). O padrão, visível em qualquer imagem de satélite da região, é o de retângulos de lavoura (soja, milho, algodão) no topo plano das chapadas, onde a máquina roda, e vegetação nativa confinada aos vales. O agente principal é a agricultura de grãos e a pastagem; o carvão vegetal, que já foi uma pressão importante no norte de Minas, hoje pesa menos. O texto-base do PAS 2 de 2025 descreveu o processo: “Na região conhecida como MATOPIBA observamos a expansão rápida do desmatamento, do mesmo jeito que vimos acontecer na parte sul do bioma cerrado, com a chamada fronteira agropecuária” (Revista Darcy, n.º 21, 2019). Os impactos da conversão (perda de endêmicas, fragmentação, carbono, água, solo), incluindo o item discursivo do PAS 1 de 2014 sobre a soja no Cerrado, estão em impactos ambientais e biodiversidade.

Áreas protegidas. O Cerrado é o bioma brasileiro com menor fração protegida. Pelo Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (CNUC, consulta de julho de 2026), as unidades de proteção integral (parques, estações ecológicas, reservas biológicas, refúgios, monumentos) somam cerca de 5,7 milhões de hectares no bioma, perto de 3 % da área; as de uso sustentável somam cerca de 13,8 Mha, perto de 7 %, quase tudo em áreas de proteção ambiental (APAs), a categoria mais permissiva, que admite propriedades privadas e produção. Mesmo somando as duas, e sem descontar sobreposições, fica-se perto de um décimo do bioma, contra mais de um quarto na Amazônia. Entre as unidades, o Parque Nacional de Brasília (42 356 ha, criado em 1961, dentro do Distrito Federal), o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (240 587 ha, criado em 1961 e ampliado em 2017, no nordeste de Goiás), o Parque Nacional das Emas, a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins no Jalapão, e a Reserva da Biosfera do Cerrado, reconhecida pela UNESCO no programa O Homem e a Biosfera, que começou pelo Distrito Federal e foi ampliada em fases. Como funcionam as categorias do SNUC, o que é reserva legal (que no Cerrado é de 20 % da propriedade, e de 35 % no Cerrado da Amazônia Legal) e o que é área de preservação permanente está em impactos ambientais e biodiversidade.

Restaurar Cerrado não é plantar árvore. Quem restaura um trecho de cerrado sentido restrito ou de campo plantando mudas de árvores em linha produz um bosque, não um Cerrado: a sombra elimina as gramíneas e ervas nativas, que são a maior parte da biodiversidade, e o capim-gordura ocupa o resto. A técnica que funciona nas fisionomias abertas é a semeadura direta de uma mistura de dezenas de espécies nativas, com muitas gramíneas e arbustos, lançada sobre o solo preparado, e o controle das gramíneas africanas invasoras, seguido de um regime de fogo compatível. Nas matas de galeria degradadas, aí sim, o plantio de mudas de árvores faz sentido. Restauração é conduzir uma sucessão na direção da comunidade que o lugar sustenta, e a comunidade de um campo é um campo; a lógica inteira está em sucessão ecológica.

Mais jovem do que parece, mais velho do que se pensa

O Cerrado como paisagem de plantas adaptadas ao fogo é geologicamente recente: a maioria das suas linhagens vegetais típicas se diversificou nos últimos 10 milhões de anos, muitas nos últimos 4, no período em que as gramíneas C4 se espalharam pelo planeta e tornaram o fogo frequente (Simon e colaboradores, 2009). Isso é pouco na escala geológica, mas é centenas de vezes mais que o tempo de presença humana no continente. Uma consequência prática: as adaptações ao fogo são herança da própria savana, e não “resistência” adquirida com as queimadas humanas das últimas décadas.

Como ler mapa, climograma e tabela sobre o Cerrado

Os itens sobre o bioma vêm quase sempre com um suporte: um texto de divulgação, um mapa do desmatamento, um climograma, uma tabela. Quatro perguntas resolvem a maior parte.

  1. Porcentagem de quê e desde quando? “O Cerrado perdeu 28 %” (da vegetação de 1985, até 2024), “perdeu metade” (da original), “30,2 % do desmatamento do país em 2021 foi no Cerrado” (fração do total desmatado no Brasil naquele ano, não fração do bioma). O mapa que acompanhou o texto-base do PAS 1 de 2023 trazia exatamente a terceira: Amazônia 59 %, Cerrado 30,2 %, Caatinga 7 %, Mata Atlântica 1,8 %, Pantanal 1,7 %, Pampa 0,1 %. Os seis somam 100 %. Eles não dizem que 59 % da Amazônia foi desmatada; dizem que, de cada 100 hectares desmatados no país em 2021, 59 estavam na Amazônia e 30 no Cerrado, que tem menos da metade da área.
  2. No climograma, total e distribuição são perguntas diferentes. Total alto e seis meses secos é o Cerrado; total baixo e irregular é a Caatinga; total alto e sem mês seco é a Amazônia. Amplitude térmica pequena é marca de clima tropical, e não tem relação com fogo (PAS 2 2015, item 59).
  3. Na tabela de fitofisionomias, a coluna que decide é a do dossel. Copas que se tocam: florestal. Árvores esparsas sobre capim contínuo: savânica. Sem árvores: campestre. O nome vem depois do critério (PAS 1 2024, item 31).
  4. Na frase sobre adaptação, procure o fator. Casca grossa e xilopódio respondem ao fogo; raiz profunda, à seca sazonal; folha dura e crescimento lento, ao solo. Frase que atribui tudo à falta de água está errada (PAS 2 2017, itens 70 e 72).

Os erros que a prova planta

  1. “Cerrado é vegetação pobre, degradada ou em formação.” É a savana mais rica em espécies do mundo; a riqueza está no estrato herbáceo e a biomassa, no subsolo. Campo e savana são comunidades maduras, não etapas (PAS 2 2018, item 73; PAS 1 2024, item 31).
  2. “As árvores são tortas por falta de água.” São tortas pelo fogo, que mata a gema apical, e baixas e de folha dura pelo solo pobre e com alumínio. Água existe no subsolo: pseudoxerófitas (PAS 2 2017, itens 70 e 72; PAS 2 2018, item 70).
  3. “Fogo sempre destrói.” Em regime natural ou manejado, o fogo mantém a savana; frequente, extenso e tardio, degrada (PAS 2 2024, item 73). A frase inversa, “o Cerrado rebrota, logo queimar não faz mal”, é igualmente errada.
  4. “O solo é fértil, por isso a agricultura dá certo.” O latossolo é ácido e pobre; a lavoura exige calcário e fósforo (PAS 1 2023, item 12).
  5. “Savana é África.” Savana é um tipo de vegetação; o Cerrado é a savana brasileira, e a banca a aceitou como nome de bioma (PAS 1 2021, item 18).
  6. “A formação savânica tem copas contínuas.” Copas contínuas definem floresta; a savana tem árvores esparsas e sol no capim (PAS 1 2024, item 31).
  7. “As espécies do Cerrado também vivem em outros biomas; o desmatamento as dispersa.” Cerca de 44 % das plantas são endêmicas; desmatamento elimina, não dispersa (PAS 1 2024, item 32).
  8. “Berço das águas porque chove muito.” É a posição no planalto, o solo poroso e a vegetação que infiltra; a chuva é parecida com a de outros biomas (PAS 2 2024, item 74).
  9. “O estoque de carbono do Cerrado é pequeno porque as árvores são pequenas.” O carbono está nas raízes e no solo; é a floresta úmida que guarda a maior parte da biomassa acima do solo (PAS 1 2013, item 56).
  10. “Raízes aéreas, estróbilos, gemas-colênquima.” Etiquetas de outro bioma ou de outro grupo: raízes respiratórias e escoras são do manguezal; estróbilos, das gimnospermas; gema é meristema (PAS 2 2018, itens 67, 69 e 72).
  11. “Florestas, por terem mais espécies, merecem prioridade sobre o Cerrado.” Conservação pesa endemismo, ameaça, velocidade de perda e serviços, não só contagem (PAS 2 2025, item 48).
  12. “Restaurar Cerrado é plantar árvores.” Em campo e savana, é devolver gramíneas, ervas e arbustos nativos por semeadura direta e controlar o capim exótico; plantar árvores em linha troca um ecossistema por outro.

Como a prova cobra o Cerrado

O Cerrado é um dos temas mais constantes das três etapas do PAS/UnB, e desde 2023 a prova da 1.ª etapa tira dele itens todo ano, a partir de uma mesma obra do caderno de leituras, o dossiê O Cerrado está morrendo (Revista Darcy, n.º 21, 2019): 2023, itens 15 e 17 (desmatamento e clima; cadeia alimentar do pequi); 2024, itens 31 e 32 (fisionomia savânica; endemismo); 2025, item 71 (sociobiodiversidade). Na 2.ª etapa, blocos inteiros saíram de textos sobre a botânica do bioma: 2017 (itens 70, 71, 72 e 74: pseudoxerófitas, fisionomia campestre, variedade florística, estômatos), 2018 (itens 67, 69, 70, 72 e 73: gemas, estróbilos, plantas anãs, raízes, alumínio), 2023 (item 54: casca grossa), 2024 (item 73: queimadas e extensão), além de itens de Geografia que se resolvem com biologia: 2014 (item 41, fisionomia e vizinhos), 2015 (item 59, climograma e fogo), 2024 (item 74, berço das águas), 2025 (item 48, prioridade de conservação) e, na 1.ª etapa, 2023 (item 12, latossolos) e 2013 (item 56, carbono subterrâneo), 2018 (item 41, endemismo do Pantanal) e 2021 (item 18, savana). Na 3.ª etapa, 2019 (item 41) tratou dos genes de adaptação das plantas nativas à seca.

O padrão é um só: a banca descreve a cena com vocabulário correto e troca uma etiqueta ou uma causa. Copas “contínuas” na savana. “Pouca água” como causa da folha dura. Alumínio como causa da “pouca diversidade”. Desmatamento que “dispersa”. Raízes de mangue no planalto. Chuvas “escassas” num climograma de 1 500 mm. Antes de julgar, nomeie a fisionomia pelo dossel, o fator pela estrutura e a base de cada porcentagem. Modalizadores honestos (“determinadas árvores”, “quando atingem grandes extensões”, “entre outros fatores”) costumam acompanhar itens certos; absolutizações (“permanentemente abertos”, “principal fator”, “a maioria pode ser encontrada”) pedem que se procure o erro.

O essencial em meia página

  • Bioma e savana. O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil: 1 983 017 km², 23,3 % do território (IBGE, 2019), em doze estados e no DF, que está inteiro dentro dele; faz fronteira com todos os biomas, menos o Pampa. Savana é um tipo de vegetação (capim contínuo mais árvores esparsas, sem dossel fechado), não um lugar da África; a banca aceitou “savana” como nome de bioma brasileiro (PAS 1 2021, item 18).
  • Clima. Tropical de duas estações: 1 200 mm a 1 800 mm de chuva, concentrados de outubro a abril; cinco a seis meses secos; amplitude térmica anual pequena. Cerrado não é seco; tem seca longa.
  • Solo. Latossolo profundo, bem drenado, ácido, pobre em cálcio e fósforo, rico em alumínio tóxico. Armazena água, não alimenta. A lavoura só existe com calcário e adubo.
  • Fitofisionomias. Onze, em três grupos (Ribeiro e Walter, 1998/2008): campestres (campo limpo, campo sujo, campo rupestre), savânicas (cerrado sentido restrito, parque de cerrado, palmeiral, vereda) e florestais (mata ciliar, mata de galeria, mata seca, cerradão). Água e solo decidem: lençol raso, menos árvores; córrego, mata de galeria. Em 2024: savânica 28,4 %, florestal 16,4 %, campestre 2,7 % do bioma (MapBiomas).
  • Adaptações. Raiz profunda (10 a 15 m, água na seca; “floresta de cabeça para baixo”, mais biomassa embaixo); xilopódio (reserva e rebrota); casca grossa de súber (isola do fogo e reduz perda de água, PAS 2 2023, item 54); tronco tortuoso (gema apical morta, laterais assumem) e plantas anãs (fogo frequente, PAS 2 2018, item 70); folhas coriáceas por escleromorfismo oligotrófico (solo pobre e alumínio, não seca): pseudoxerófitas (PAS 2 2017, item 70).
  • Fogo. Fator ecológico; o Cerrado é ecossistema associado ao fogo. O que importa é o regime (frequência, época, extensão, intensidade, Lei 14.944/2024): natural ou manejado mantém a savana; ausência total adensa e prepara o incêndio; frequente, extenso e tardio degrada (PAS 2 2024, item 73). Manejo integrado do fogo e queima prescrita no início da seca.
  • Biodiversidade. Perto de 12 mil espécies de plantas, cerca de 4 400 (≈ 44 %) endêmicas, a maioria nas fisionomias abertas; hotspot (≥ 1 500 plantas endêmicas e ≥ 70 % da vegetação perdida, Myers 2000). Riqueza, endemismo, abundância e ameaça são medidas diferentes (PAS 1 2018, item 41; PAS 1 2024, item 32). Lobo-guará, tamanduá-bandeira, tatu-canastra, ema, seriema, onça; pequi, buriti, barbatimão, ipê.
  • Berço das águas. Posição de planalto, solo poroso e raízes profundas fazem a chuva infiltrar e sair meses depois nas nascentes; 78 % das águas do Tocantins-Araguaia, 70 % do São Francisco e 48 % do Paraná nascem no bioma (Embrapa); aquíferos Guarani, Bambuí e Urucuia; a vereda é a nascente visível; desmatar o planalto seca a nascente (PAS 2 2024, item 74).
  • Estado. 51,2 % de vegetação nativa em 2024; perda de 40,5 Mha (28 %) desde 1985; cerca de metade da vegetação original convertida (MapBiomas, Coleção 10). PRODES: 8 174 km² em 2024 e 7 235 km² em 2025, mais que a Amazônia Legal. Perda concentrada no Matopiba. Menos de 3 % em proteção integral (CNUC). Restaurar campo e savana é semear gramíneas, ervas e arbustos nativos e controlar o capim exótico, não plantar árvores em linha.
  • Erro-chave da prova: uma etiqueta trocada numa cena correta. Nomeie a fisionomia pelo dossel, o fator pela estrutura, a base de cada porcentagem.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Cerrado | Biomas do Brasil | Ep.9
Paulo Jubilut · 25:43
Introdução. Episódio da série Biomas do Brasil gravado no Parque Nacional das Emas: o professor apresenta o Cerrado como a savana de maior biodiversidade do mundo, o solo poroso e pobre em nutrientes, o clima e a variedade de paisagens do bioma. É o panorama das seções “O Cerrado é um bioma e é uma savana” e “Onze fisionomias, um bioma”; assista antes de ler e anote, para cada paisagem mostrada, se as copas das árvores se tocam.
Bioma Cerrado e suas Fitofisionomias
Luiza Raquel · 12:05
Aprofundamento. Videoaula produzida no projeto UFMT Online, apresentada e roteirizada pela professora Patrícia Oliveira, do Departamento de Ciências Biológicas da UFMT, sobre as fitofisionomias do Cerrado. Complementa a tabela de Ribeiro e Walter da seção “Onze fisionomias, um bioma”: pause em cada fisionomia apresentada e classifique-a, pelo dossel, em campestre, savânica ou florestal antes de ouvir o nome.
[PENSE VERDE] O que é manejo integrado de fogo? - Christian Berlinck
CanalOEco · 6:28
Aplicação. O coordenador de prevenção e combate a incêndios do ICMBio explica, em seis minutos, como o manejo do fogo é usado para prevenir grandes incêndios em unidades de conservação. É a prática por trás da seção “Fogo: o fator ecológico que mantém a savana, em um regime, e a destrói, em outro”; ao assistir, identifique as variáveis do regime (época, frequência, extensão, intensidade) que o entrevistado controla nas queimas prescritas.
Resolução comentada - Todos os itens PAS 2 2017 - Biologia
Prof. Vítor Piauí - Química · 35:32
Resolução de itens reais. O professor resolve todos os itens de Biologia da prova do PAS 2 de 2017, inclusive os do bloco sobre o Cerrado (fisionomia campestre formada por gramíneas, variedade florística e água no solo, estômatos permanentemente abertos), com minutagem na descrição. Use depois das seções “Onze fisionomias” e “A floresta de cabeça para baixo”: julgue cada item antes de ouvir a resolução e compare com os comentários desta página. A numeração do vídeo (71, 72 e 74) é a do caderno oficial e coincide com a desta página; o item das pseudoxerófitas (70) não está na minutagem da descrição.
Rota PAS 1
Ecologia II e a origem da vida: ciclos, impactos e começos · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Ecologia II e a origem da vida: ciclos, impactos e começos · Cerrado: a savana mais rica do mundo e o berço das águas (texto-base da Revista Darcy, conceito, exemplo guia, itens 2013/56, 2021/18, 2018/41, 2023/60); Leia como na prova: sete itens entre a Chapada e o cerrado (texto-base do Centro UnB Cerrado, itens 2024/31 e 2024/32); Como a banca cobra (histórico de itens; 2014/70); Banco de treino T15 a T17 e T23

    Fonte dos itens reais da 1.ª etapa e do vocabulário (fitofisionomia, formação savânica, endemismo, fogo como fator evolutivo, berço das águas, sociobiodiversidade). Os números de área (2 milhões de km², 24 %) e de endemismo (4 mil das 12 mil) do capítulo foram substituídos pelos da fonte primária (IBGE 2019; Myers 2000 e Klink e Machado 2005) e a divergência está relatada.

  • Rota PAS 2 — Botânica: histologia, morfologia e fisiologia vegetal · O cerrado por dentro da botânica: por que a árvore torta é uma aula de fisiologia? (fisionomias, pseudoxerófitas, escleromorfismo oligotrófico, xilopódio, regime de fogo; itens 2017/70, 71, 72 e 74, numerados no capítulo como 68, 69, 73 e 74; 2018/67, 68, 69, 70, 72 e 73; 2023/54; 2024/73 e 79); Leia como na prova (texto-base do MATOPIBA, 2025); Resolvido do viveiro; Banco de treino T4, T11 a T14, T22 e T23

    Fonte das adaptações e dos itens reais da 2.ª etapa. A numeração dos itens de 2017 no capítulo (68, 69, 73, 74) está errada: pelo caderno oficial e pelo gabarito definitivo do Cebraspe (caderno ÓLEO, aplicação de 3/12/2017), os itens do bloco do cerrado são 70 (pseudoxerófitas, E), 71 (fisionomia campestre, E), 72 (variedade florística, E) e 74 (estômatos, E); 68 e 69 são de Geografia (calagem, E; commodities, C) e 73 é de Língua Portuguesa (C). A página usa a numeração oficial; os gabaritos coincidem.

  • Rota PAS 2 — Geografia, Parte III (fronteira agrícola e Cerrado) · Texto-base Laboratório a céu aberto (Pesquisa FAPESP, 2013) e a descrição do climograma da prova de 2015; itens 2014/41, 2015/58 e 59, 2024/74, 2023/56

    Itens de Geografia que se julgam por biologia (fisionomia e biomas vizinhos, climograma e fogo, berço das águas). Os itens de ocupação, agronegócio e conflitos fundiários não foram usados. O capítulo numera os itens de Geografia do bloco do cerrado de 2017 como 71 (calagem) e 72 (commodities); pelo caderno e pelo gabarito oficiais são 68 e 69.

  • Rota PAS 1 — Geografia, Parte IV · Item 2023/12 (latossolos do Cerrado)

    Item interdisciplinar sobre o solo, julgado pela pedologia do bioma.

  • Rota PAS 2 — Geografia, Parte IV · Item 2025/48 (prioridade de conservação do cerrado frente às florestas)

    Item que se resolve pelos critérios de conservação (endemismo, ameaça, serviços).

  • Rota PAS 3 — Genética, Parte II · Item 2019/41 (genes de adaptação das plantas nativas do cerrado)

    Item da 3.ª etapa sobre a base genética das adaptações do bioma.

  • Biologia EM1 — Capítulo 12: Ecologia IV, Cerrado, impactos, conservação e saúde · Seis biomas: onde o Brasil está, e quanto ainda resta de cada um (tabela do IBGE 2019 e PRODES); O Cerrado como território: paisagens, endemismo, água e solo (gradiente de fitofisionomias, latossolos, inventário da flora, hotspot, berço das águas, Matopiba, o DF dentro do Cerrado; Resolvido da fazenda; Checagem 2)

    Fonte da estrutura da seção de fitofisionomias e do berço das águas. Os dados do MapBiomas foram atualizados da Coleção 9 para a Coleção 10 (2025). O capítulo apresenta 44 % de 11 627 espécies e, na mesma passagem, cerca de 4 400 endêmicas: os dois números têm bases diferentes (a estimativa de 4 400 e de 44 % é de Myers e colaboradores, 2000, sobre uma flora de 10 mil espécies); a página usa a base correta e a divergência está relatada.

  • Biologia EM1 — Capítulo 11: Ecologia III, relações, populações e sucessão · O Cerrado é uma savana, e é o clímax dela (onze fisionomias; solo, água, fogo; Simon e colaboradores, 2009; não é uma floresta que não deu certo; manejo integrado do fogo e Lei 14.944/2024; Resolvido do campo que não é floresta; Checagem 10)

    Fonte da seção sobre o fogo e das definições de regime; o argumento do clímax fica em sucessão ecológica.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 12 (itens reais com textos-base) · Texto-base I (Centro UnB Cerrado, 2024, item 32); Texto-base II (Patrimônio (in)visível, 2023, com o mapa do desmatamento por bioma transcrito; item 15); Texto-base III (2025, item 71); item 2014/70 (tipo D); gabarito comentado

    Conferência dos textos-base verbatim e dos gabaritos oficiais. Os itens 2023/15, 2024/32, 2025/71 e 2014/70 pertencem a impactos ambientais e biodiversidade e são reusados por GUID.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 11 · Texto-base V (Centro UnB Cerrado, 2024, item 31); Texto-base VI (2021, item 18)

    Texto-base verbatim do item 2024/31, gravado nesta página.

  • IBGE — Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil (2019) · Tabela 1 (área por bioma e unidade da federação) e texto sobre o Bioma Cerrado

    Área de 1 983 017 km², 23,3 % do território, 12 estados e o DF na Tabela 1 (RO, PA, TO, MA, PI, BA, MG, SP, PR, MS, MT, GO e DF), DF 100 % no bioma, limite com todos os biomas exceto o Pampa, Savana como tipo de vegetação mais expressivo.

  • MapBiomas — Destaques do mapeamento anual de cobertura e uso da terra, Coleção 10, Bioma Cerrado (2025) · Cobertura e uso da terra no Cerrado em 2024; formações florestal, savânica e campestre; expansão da agropecuária 1985 a 2024

    51,2 % de vegetação nativa em 2024; perda de 40,5 Mha (28 %) desde 1985; repartição por formação e por uso.

  • INPE — PRODES Cerrado (TerraBrasilis) · Incrementos anuais de supressão da vegetação nativa, 2021 a 2025

    8 531, 10 689, 11 012, 8 174 e 7 235 km²; Amazônia Legal 6 518 (2024) e 5 731 (2025, consolidado). Consulta de 3/10/2026.

  • Embrapa — Contando Ciência na Web: Bioma Cerrado · Berço dos grandes rios brasileiros; aquíferos; números do bioma

    78 % das águas do Araguaia-Tocantins, 70 % do São Francisco e 48 % do Paraná nascem no Cerrado; aquíferos Bambuí, Urucuia e Guarani; 12 mil espécies de plantas.

  • Presidência da República — Lei 14.944, de 31 de julho de 2024 (Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo) · Art. 1.º (papel ecológico do fogo) e art. 2.º (queima prescrita, regime do fogo, ecossistema associado ao fogo)

    Definições citadas literalmente.

  • ICMBio — Parque Nacional de Brasília e Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros; Cadastro Nacional de Unidades de Conservação · Fichas das unidades (área, ato de criação) e página do bioma (fauna conhecida); CNUC, tabela de julho de 2026 (área por bioma e grupo)

    PNB 42 355,54 ha (Decreto 241/1961); PNCV 240 586,56 ha (1961, ampliado em 2017); fauna: ~200 mamíferos, 800 aves, 180 répteis, 150 anfíbios, 1 200 peixes. Soma CNUC: proteção integral 5,66 Mha (2,9 %), uso sustentável 13,84 Mha (7,0 %), sem descontar sobreposições.