Carboidratos

Guia de estudo · Revisado em 02/10/2026

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O arroz do prato, a folha de papel do caderno e a casca do camarão são feitos de açúcar, e nenhum dos três é doce. Como a mesma glicose vira combustível, estoque, parede e armadura, e por que o corpo aproveita o amido do arroz e deixa passar inteira a celulose da alface?

O que você vai aprender

  • Definir carboidrato pela estrutura (unidades com muitos grupos –OH unidas por ligações glicosídicas) e apontar os casos em que a fórmula geral (CH₂O)ₙ falha.
  • Associar cada uma das quatro funções dos carboidratos (energia de uso rápido, reserva, estrutura, reconhecimento e informação) a pelo menos um exemplo.
  • Classificar glicose, frutose, galactose, ribose, desoxirribose, sacarose, lactose, maltose, amido, glicogênio, celulose e quitina como mono, di ou polissacarídeos e indicar onde cada um ocorre.
  • Escrever a síntese por desidratação e a hidrólise de um dissacarídeo, deduzir a fórmula C₁₂H₂₂O₁₁ e calcular o número de moléculas de água envolvidas em uma cadeia de n unidades.
  • Comparar amido, glicogênio, celulose e quitina quanto à unidade, à forma da cadeia, ao organismo e à função.
  • Explicar, pela diferença entre as ligações alfa e beta, por que o ser humano digere o amido e não a celulose, e quem digere a celulose na natureza.
  • Descrever o papel da fibra alimentar e corrigir a ideia de que a celulose não serve para nada.
  • Prever e interpretar resultados dos testes de lugol e de Benedict, identificando controles e os limites do que cada teste permite concluir.
  • Explicar o mecanismo da intolerância à lactose, diferenciá-la da alergia à proteína do leite e relacionar a persistência da lactase à evolução recente de populações humanas.
  • Ler as linhas de carboidratos, açúcares totais, açúcares adicionados e fibras de uma tabela nutricional, calcular energia e porcentagem do valor diário e aplicar o critério da rotulagem frontal de açúcar adicionado.
  • Distinguir o que garantem e o que não garantem as expressões zero açúcar, sem adição de açúcares, light e diet.
  • Julgar itens de Certo/Errado e de múltipla escolha conferindo se organismo, função e molécula combinam.

Monte um prato de arroz, feijão e mandioca cozida, com uma folha de alface ao lado. Ponha na mesa um copo de caldo de cana e um de leite. Deixe por perto a folha de papel do caderno e a casca de um camarão. Quase tudo o que está nessa mesa é feito da mesma matéria-prima: unidades de açúcar com seis carbonos, quase sempre a glicose, ligadas umas às outras em quantidades e de jeitos diferentes. O arroz e a mandioca são amido. As fibras da folha de alface e o papel são celulose. A casca do camarão é quitina, uma glicose modificada. O caldo de cana tem sacarose, e o leite, lactose.

Só os dois copos são doces. Do amido do arroz o seu corpo tira energia em poucas horas; a celulose da alface atravessa o intestino inteira; a quitina e o papel nem entram no cardápio. A diferença entre um combustível, um estoque, uma parede e uma armadura não está na unidade: está no número de unidades e no tipo de ligação entre elas.

Esta página explica o que é um carboidrato e o que a fórmula geral dele acerta e erra, quais são os monossacarídeos, os dissacarídeos e os polissacarídeos que a escola e as provas cobram, por que amido e celulose têm destinos tão diferentes, como o lugol e o reagente de Benedict revelam carboidratos no laboratório, o que acontece com a lactose em quem tem pouca lactase e como ler as linhas de carboidratos de um rótulo. O que a célula faz com a glicose depois de recebê-la está em respiração celular e em fermentação; a fabricação da glicose pelas plantas, em fotossíntese; o trajeto dos alimentos pelo tubo digestório, em sistema digestório; o controle da glicose no sangue por insulina e glucagon, em sistema endócrino; as enzimas e o efeito de temperatura e pH sobre elas, em proteínas e enzimas; as gorduras, em lipídios.

O que é um carboidrato: carbono, hidrogênio, oxigênio e muitos grupos OH

Três ideias sustentam a página inteira.

Molécula orgânica. Os seres vivos são feitos de água, sais minerais e moléculas com esqueleto de carbono. As moléculas de carbono se agrupam em quatro famílias: carboidratos, lipídios, proteínas e ácidos nucleicos. Água e sais estão em água e sais minerais.

Monômero e polímero. Muitas moléculas grandes são cadeias de unidades repetidas. A unidade é o monômero; a cadeia, o polímero. No amido, a unidade é a glicose.

Hidrólise. Separar duas unidades ligadas consome uma molécula de água. Ligar duas unidades libera uma molécula de água. Digerir um polímero é fazer hidrólises em série.

Os carboidratos, também chamados de glicídios, açúcares (em sentido amplo), sacarídeos ou hidratos de carbono, são formados por carbono, hidrogênio e oxigênio. Nos mais simples, os três elementos aparecem na proporção de um carbono para uma molécula de água, e daí vem a fórmula geral

(CH2O)n(\mathrm{CH_2O})_n

e o próprio nome: “carbono hidratado”. A glicose obedece à fórmula com n=6n = 6: C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6}. A ribose, com n=5n = 5: C5H10O5\mathrm{C_5H_{10}O_5}.

A fórmula geral é um bom ponto de partida e um mau critério. Ela falha nos dois sentidos:

caso fórmula obedece a (CH2O)n(\mathrm{CH_2O})_n? é carboidrato?
glicose C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6} sim sim
desoxirribose (o açúcar do DNA) C5H10O4\mathrm{C_5H_{10}O_4} não, falta um oxigênio sim
sacarose C12H22O11\mathrm{C_{12}H_{22}O_{11}} não, perdeu uma água na ligação sim
quitina contém nitrogênio não sim
ácido lático C3H6O3\mathrm{C_3H_6O_3} sim não
ácido acético (do vinagre) C2H4O2\mathrm{C_2H_4O_2} sim não

O que define a família é a estrutura. Um carboidrato simples tem uma cadeia de carbonos em que quase todos carregam um grupo hidroxila (–OH) e um deles carrega um grupo carbonila (C=O), na ponta da cadeia ou no meio dela. Os carboidratos maiores são cadeias dessas unidades. Os muitos grupos –OH explicam a propriedade que você conhece da cozinha: açúcares pequenos se dissolvem bem em água, porque as hidroxilas fazem ligações de hidrogênio com ela. É por isso que a glicose viaja dissolvida no sangue e a sacarose some no café.

Não confunda carboidrato com hidrocarboneto. Hidrocarbonetos, como os da gasolina, têm só carbono e hidrogênio, não têm hidroxilas e não se dissolvem em água.

O que é um carboidrato

Carboidratos são moléculas orgânicas formadas por C, H e O (algumas com nitrogênio, como a quitina), construídas a partir de unidades com muitos grupos –OH, os monossacarídeos. Classificam-se pelo número de unidades: monossacarídeos (uma), dissacarídeos (duas), oligossacarídeos (poucas) e polissacarídeos (centenas a milhares). As unidades são unidas por ligações glicosídicas, formadas com saída de água e desfeitas por hidrólise. A fórmula (CH2O)n(\mathrm{CH_2O})_n vale para os monossacarídeos mais comuns e não serve de definição.

Quadro em três colunas. Na primeira, monossacarídeos, de 1 unidade: três hexágonos, glicose em verde, frutose em laranja e galactose em azul, com a legenda hexoses, 6 carbonos, C6H12O6; abaixo, dois pentágonos roxos, ribose e desoxirribose, com a legenda pentoses, 5 carbonos, RNA e DNA; uma etiqueta diz absorvidos sem digestão. Na segunda coluna, dissacarídeos, de 2 unidades: pares de hexágonos ligados, sacarose igual a glicose mais frutose, lactose igual a glicose mais galactose, maltose igual a glicose mais glicose; uma etiqueta diz hidrolisados antes de absorver. Na terceira coluna, polissacarídeos, de centenas a milhares de unidades: fileiras de hexágonos pequenos representam o amido, com um ramo, reserva das plantas; o glicogênio, com vários ramos, reserva de animais e fungos; a celulose, em duas fileiras retas, parede celular das plantas; e a quitina, em roxo, exoesqueleto de artrópodes e parede dos fungos, com unidade que contém nitrogênio. Uma faixa na base avisa que o esquema está fora de escala.
A família dos carboidratos, do monômero ao polímero. Os monossacarídeos são as unidades; os dissacarídeos têm duas; os polissacarídeos, centenas a milhares. Amido, glicogênio e celulose são feitos só de glicose (hexágonos verdes). Esquema fora de escala. Diagrama autoral.

Para que servem: energia rápida, reserva, estrutura e reconhecimento

A frase que resume os carboidratos como fonte de energia está certa e incompleta. São quatro funções, e a prova cobra a que combina com cada molécula.

função o que significa exemplos
energia de uso rápido a molécula é oxidada pela célula para produzir ATP glicose no sangue; frutose e galactose, depois de convertidas no fígado
reserva glicose guardada em forma de polímero, para uso posterior amido (plantas); glicogênio (animais e fungos)
estrutura a molécula sustenta ou protege celulose (parede celular das plantas); quitina (exoesqueleto de artrópodes, parede celular de fungos)
reconhecimento e informação a molécula identifica a célula ou compõe outra molécula cadeias curtas de açúcares presas à membrana (glicocálix); ribose no RNA e desoxirribose no DNA

A primeira função é a mais lembrada. A glicose é o combustível que o sangue leva a todas as células, e a oxidação de 1 g de carboidrato digerível fornece cerca de 4 kcal, o mesmo que 1 g de proteína e menos da metade das 9 kcal de 1 g de gordura. O que distingue o carboidrato não é a quantidade de energia por grama: é a prontidão. A glicose já circula dissolvida, entra na célula e começa a ser quebrada no citosol, sem etapa de preparo. A gordura rende mais por grama e é mobilizada mais devagar. O PAS 1 de 2012 (item 35) juntou as duas ideias em uma frase: “As gorduras proporcionam mais energia por grama que outros nutrientes, como proteínas e carboidratos; por isso, a ingestão de alimentos gordurosos é a melhor e a mais rápida forma de se repor a energia do corpo humano.” Errado. A primeira metade é verdadeira; a conclusão não decorre dela.

A quarta função é a menos lembrada. Na face externa da membrana plasmática, proteínas e lipídios carregam pequenas cadeias de açúcares. Esse revestimento, o glicocálix, funciona como etiqueta: é por ele que as células se reconhecem. Os grupos sanguíneos A, B, AB e O diferem justamente no açúcar da ponta de uma dessas cadeias, na superfície das hemácias. A estrutura da membrana está em membrana plasmática e transportes.

Monossacarídeos: as unidades que o intestino absorve sem quebrar

Monossacarídeo é o carboidrato que não pode ser hidrolisado em açúcares menores. Classificam-se pelo número de carbonos. Cinco deles bastam para o ensino médio.

monossacarídeo carbonos fórmula onde aparece
glicose 6 (hexose) C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6} sangue; unidade do amido, do glicogênio e da celulose; produto da fotossíntese
frutose 6 (hexose) C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6} frutas e mel; metade da sacarose
galactose 6 (hexose) C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6} metade da lactose, o açúcar do leite
ribose 5 (pentose) C5H10O5\mathrm{C_5H_{10}O_5} RNA e ATP
desoxirribose 5 (pentose) C5H10O4\mathrm{C_5H_{10}O_4} DNA

Glicose, frutose e galactose têm a mesma fórmula molecular e arranjos diferentes dos átomos: são isômeros. A diferença de arranjo é suficiente para mudar o sabor (a frutose é a mais doce das três) e a enzima que trabalha sobre cada uma. Dentro da célula e em solução, as hexoses e as pentoses ficam quase sempre fechadas em anel, e é por isso que os esquemas as desenham como hexágonos e pentágonos.

As pentoses não estão na lista por causa da energia. A ribose e a desoxirribose são peças dos nucleotídeos: a função delas é estrutural e informacional, e o assunto continua em DNA, RNA e síntese proteica.

Como já são a unidade, os monossacarídeos não precisam de digestão. Atravessam a parede do intestino delgado e chegam ao sangue como estão. A glicose segue para as células. Em jejum, a concentração de glicose no sangue de uma pessoa saudável fica entre 70 e 100 mg por 100 mL, o que dá poucos gramas no sangue inteiro; o ajuste fino desse valor é trabalho da insulina e do glucagon, em sistema endócrino. A frutose e a galactose são convertidas, principalmente no fígado, em compostos da via da glicose.

O PAS 3 de 2025 usou uma reportagem sobre a domesticação do cupuaçu para afirmar, no item 69: “O cupuaçu apresenta, em sua composição, açúcares naturais, como a glicose e a frutose, que são monossacarídeos utilizados pelas células para produzir energia.” Certo. O item não pedia nada do texto. Bastava reconhecer a categoria (monossacarídeos) e a função (energia).

Monossacarídeo não é digerido

Uma frase que diga que a glicose ou a frutose precisam ser hidrolisadas no tubo digestório antes de serem absorvidas está errada. Hidrolisar é separar unidades, e o monossacarídeo é uma unidade só. Quem precisa de hidrólise são os dissacarídeos e os polissacarídeos. O erro oposto também aparece: dizer que a sacarose ou a lactose passam direto para o sangue.

Dissacarídeos: duas unidades, uma ligação glicosídica e uma água a menos

Dois monossacarídeos se unem por uma ligação glicosídica. A hidroxila de um reage com a hidroxila do outro, um oxigênio fica fazendo a ponte entre os dois anéis e os átomos que sobram saem como uma molécula de água. O nome da reação é síntese por desidratação (ou condensação). A reação inversa, que desfaz a ligação com a entrada de uma molécula de água, é a hidrólise.

C6H12O6+C6H12O6→C12H22O11+H2O\mathrm{C_6H_{12}O_6 + C_6H_{12}O_6 \rightarrow C_{12}H_{22}O_{11} + H_2O}

dissacarídeo unidades onde está enzima que o hidrolisa
sacarose glicose + frutose cana-de-açúcar, beterraba, açúcar de mesa sacarase
lactose glicose + galactose leite lactase
maltose glicose + glicose produto da quebra do amido; malte maltase

As três enzimas ficam na superfície das células do intestino delgado. Cada uma reconhece o seu dissacarídeo: a lactase não corta sacarose, e a sacarase não corta lactose. A especificidade das enzimas está em proteínas e enzimas.

Ligação glicosídica, desidratação e hidrólise

Ligação glicosídica é a ligação covalente que une dois monossacarídeos por meio de um átomo de oxigênio. Ela se forma por síntese por desidratação: cada ligação formada libera uma molécula de água. Ela se desfaz por hidrólise: cada ligação rompida consome uma molécula de água. Critério para contas: uma cadeia linear de nn unidades tem n−1n - 1 ligações e, portanto, envolve n−1n - 1 moléculas de água. Exemplo: a sacarose tem 2 unidades, 1 ligação e 1 água a menos que a soma de glicose e frutose.

Dois painéis. No de cima, síntese por desidratação: um hexágono verde, glicose, com um grupo OH em vermelho, mais um hexágono laranja, frutose, com um grupo HO em vermelho; uma seta verde rotulada sai H2O leva a dois hexágonos unidos por um átomo de oxigênio, a sacarose, com ligação glicosídica no centro, mais uma gota azul de H2O, de 18 gramas por mol. No painel de baixo, hidrólise: a sacarose mais uma gota de H2O; uma seta laranja rotulada entra H2O, com a enzima sacarase, leva a um hexágono verde, glicose, e a um hexágono laranja, frutose, separados, com a legenda dois monossacarídeos, prontos para absorção. Uma faixa na base faz a contagem dos átomos da sacarose: 12 carbonos, 22 hidrogênios e 11 oxigênios, C12H22O11, com 342 gramas por mol, e lembra que uma cadeia de n unidades tem n menos 1 ligações.
A mesma ligação nos dois sentidos. Na síntese por desidratação, as hidroxilas de duas unidades reagem, um oxigênio fica na ponte e sai uma molécula de água. Na hidrólise, a água entra e a ligação se desfaz; no intestino, quem faz isso com a sacarose é a sacarase. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido: a fórmula de um dissacarídeo. A glicose e a frutose têm fórmula C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6}. Qual é a fórmula da sacarose, e qual é a sua massa molar? (Massas molares: C, 12 g/mol; H, 1 g/mol; O, 16 g/mol.)

Some os átomos das duas unidades: C12H24O12\mathrm{C_{12}H_{24}O_{12}}. Retire a molécula de água liberada na ligação: 2 hidrogênios e 1 oxigênio a menos. Resultado: C12H22O11\mathrm{C_{12}H_{22}O_{11}}.

Massa molar de cada hexose: 6×12+12×1+6×16=1806 \times 12 + 12 \times 1 + 6 \times 16 = 180 g/mol. Da sacarose: 2×180−18=3422 \times 180 - 18 = 342 g/mol.

Conferência pela soma direta: 12×12+22×1+11×16=144+22+176=34212 \times 12 + 22 \times 1 + 11 \times 16 = 144 + 22 + 176 = 342 g/mol. Os dois caminhos chegam ao mesmo valor. Repare que a lactose e a maltose, formadas do mesmo jeito por duas hexoses, têm a mesma fórmula molecular da sacarose. Dobrar a fórmula da glicose (C12H24O12\mathrm{C_{12}H_{24}O_{12}}) é o erro que esquece a água.

Exemplo resolvido: quantas águas em uma cadeia. Uma cadeia linear com nn unidades tem n−1n - 1 ligações, como uma fila de nn pessoas de mãos dadas tem n−1n - 1 pares de mãos. Montar a cadeia libera n−1n - 1 moléculas de água; hidrolisá-la por completo consome n−1n - 1.

Para uma cadeia linear de 300 glicoses: 299 ligações, 299 águas. Massa molar da cadeia: 300×180−299×18=54 000−5 382=48 618300 \times 180 - 299 \times 18 = 54\,000 - 5\,382 = 48\,618 g/mol. Conferência: cada unidade dentro da cadeia “vale” 180−18=162180 - 18 = 162 g/mol, e a cadeia inteira tem uma água a mais que 300×162300 \times 162: 48 600+18=48 61848\,600 + 18 = 48\,618 g/mol.

Na hidrólise completa de 1 mol de sacarose, a água entra na conta da massa: 342+18=360342 + 18 = 360 g de reagentes, e 180+180=360180 + 180 = 360 g de produtos, 1 mol de glicose e 1 mol de frutose. Formam-se 2 mol de monossacarídeos, e não 2 mol de cada um.

Entre os dissacarídeos e os polissacarídeos ficam os oligossacarídeos, cadeias de três a cerca de dez unidades. Aparecem em dois lugares desta página: nas cadeias curtas do glicocálix e em sementes como o feijão, que contém oligossacarídeos que as enzimas humanas não hidrolisam e que as bactérias do intestino grosso fermentam, com produção de gases.

Polissacarídeos: a mesma glicose em quatro materiais

Centenas ou milhares de monossacarídeos ligados formam um polissacarídeo. Ele não é doce, não se dissolve como o açúcar de mesa e não atravessa a parede do intestino. Quatro polissacarídeos bastam para o ensino médio, e três deles são feitos só de glicose.

polissacarídeo unidade forma da cadeia onde está função
amido glicose cadeias enroladas em hélice; uma parte linear (amilose) e outra ramificada (amilopectina) grãos dentro das células de raízes, tubérculos, sementes e frutos verdes reserva das plantas
glicogênio glicose como a amilopectina, com muito mais ramificações grânulos no citosol das células do fígado e dos músculos; células de fungos reserva de animais e fungos
celulose glicose cadeias retas, sem ramificações, unidas lado a lado em fibras parede celular das plantas e de muitas algas estrutura
quitina glicose modificada, com nitrogênio cadeias retas, parecidas com as da celulose exoesqueleto de insetos, aranhas e crustáceos; parede celular dos fungos estrutura

Amido. A planta fabrica glicose na fotossíntese e guarda o excedente em grãos de amido. Batata, mandioca, arroz, trigo, milho e feijão são tubérculos, raízes e sementes em que a planta guarda reserva, e por isso são alimentos energéticos. A sua amilase, presente na saliva e no suco pancreático, corta o amido em pedaços menores e em maltose; a maltase termina o serviço e libera glicose.

Glicogênio. É a reserva dos animais e dos fungos. As muitas ramificações criam muitas pontas, e é pelas pontas que as enzimas retiram glicose: uma molécula muito ramificada libera muitas unidades ao mesmo tempo. Um adulto guarda algo em torno de 80 g de glicogênio no fígado e de 500 g nos músculos, com grande variação conforme a alimentação e a atividade física (de quase zero a 160 g no fígado e de 300 a 700 g nos músculos, na revisão de Murray e Rosenbloom, de 2018). Os dois estoques têm destinos diferentes. O do fígado devolve glicose ao sangue entre as refeições e abastece o corpo todo. O do músculo é consumido pela própria fibra muscular.

Celulose. É o material da parede celular das plantas, e costuma ser apontada como a molécula orgânica mais abundante do planeta. O algodão é quase só celulose; a madeira e o papel são celulose com outros compostos. Nas paredes de sustentação e de condução das plantas, ela vem reforçada por lignina, que não é carboidrato. O PAS 3 de 2023 (item 118) trocou as duas: “A parede celular primária é flexível por ser composta principalmente de lignina.” Errado: a parede primária é flexível e é feita principalmente de celulose; a lignina enrijece as paredes secundárias. A parede como estrutura da célula está em teoria celular e tipos de células.

Quitina. A unidade é um derivado da glicose com um grupo que contém nitrogênio. É o material que estala na casca do camarão e que obriga o inseto a trocar de exoesqueleto para crescer. É também o que separa a parede dos fungos da parede das plantas. Dois itens do PAS 2 afirmaram os pares corretos, e os dois estavam certos. Em 2020, o item 60: “Os fungos são organismos heterótrofos e possuem parede celular de quitina e reserva de glicose na forma de glicogênio.” Em 2019, o item 80, sobre formigas tecelãs, descrevia um exoesqueleto “constituído por camadas de proteína e do polissacarídeo quitina”. Os fungos como grupo estão em fungos.

Guardar glicose em forma de polímero tem uma vantagem que não aparece no rótulo. Milhares de glicoses soltas dentro de uma célula atrairiam água por osmose e fariam a célula inchar. Reunidas em uma única molécula grande, contam como uma partícula só. O estoque fica compacto e quase não mexe no equilíbrio de água da célula.

Quadro com quatro colunas coloridas. Amido, em verde: desenho de uma cadeia em arcos sucessivos, que representa a hélice, com um ramo; unidade, glicose; forma, hélice, parte linear, parte ramificada; onde está, grãos nas células de raízes, tubérculos e sementes; função, reserva das plantas. Glicogênio, em laranja: desenho de uma árvore com muitos ramos; unidade, glicose; forma, muito ramificado, com muitas pontas; onde está, fígado e músculos e células de fungos; função, reserva de animais e fungos. Celulose, em azul: quatro traços retos paralelos ligados por linhas pontilhadas; unidade, glicose; forma, cadeias retas unidas lado a lado em fibras; onde está, parede celular das plantas e de muitas algas; função, estrutura. Quitina, em roxo: quatro traços retos paralelos com a letra N marcada sobre eles; unidade, glicose modificada, com nitrogênio; forma, cadeias retas, como as da celulose; onde está, exoesqueleto de artrópodes e parede celular dos fungos; função, estrutura. Uma nota avisa que os esquemas estão fora de escala.
Dois polissacarídeos de reserva e dois estruturais. Os de reserva (amido e glicogênio) têm cadeias enroladas e ramificadas, fáceis de desmontar pelas pontas; os estruturais (celulose e quitina) têm cadeias retas, presas umas às outras por ligações de hidrogênio (linhas pontilhadas). Esquemas fora de escala. Diagrama autoral.
Amido é de planta, glicogênio é de animal e de fungo, celulose não é reserva

Três trocas produzem frases erradas com aparência de certas. A primeira põe o glicogênio como reserva das plantas, ou o amido como reserva dos animais. A segunda chama a celulose de reserva energética das plantas: a planta não desmonta a própria parede para obter energia. A terceira dá aos fungos parede de celulose e reserva de amido, como se fossem plantas. Para conferir, pergunte de qual organismo se fala e se a frase descreve estoque ou sustentação.

Alfa e beta: por que o amido alimenta e a celulose sustenta

Amido e celulose são feitos da mesma unidade, ligada pelos mesmos carbonos. O que muda é a posição de uma hidroxila no momento em que a ligação se forma. A química chama as duas formas de alfa (α) e beta (β).

Na ligação alfa, do amido e do glicogênio, todas as glicoses ficam viradas para o mesmo lado. A cadeia faz uma curva suave a cada unidade e se enrola em hélice. O resultado é um novelo compacto, com pontas expostas, que cabe em um grão dentro da célula e que as amilases conseguem atacar.

Na ligação beta, da celulose, cada glicose fica girada meia-volta em relação à vizinha. As curvas se cancelam, e a cadeia fica reta como uma fita. Fitas retas se encostam umas nas outras ao longo de todo o comprimento, e as hidroxilas de uma fazem ligações de hidrogênio com as hidroxilas da outra. Dezenas de cadeias presas assim formam uma microfibrila, e as microfibrilas, entrelaçadas, formam a parede. O resultado é um cabo resistente à tração, insolúvel em água e difícil de atacar.

Os livros de química e alguns vestibulares escrevem essas ligações com números, que indicam os carbonos unidos. No amido e no glicogênio, as glicoses da cadeia se ligam por α-1,4 (carbono 1 de uma unidade com carbono 4 da seguinte), e cada ramificação começa em uma ligação α-1,6. Na celulose, todas as ligações são β-1,4, e não há ramificações. A amilose do amido só tem α-1,4; a amilopectina e o glicogênio têm os dois tipos, com ramificações bem mais frequentes no glicogênio.

Dois painéis. À esquerda, ligação alfa, amido e glicogênio: sete hexágonos verdes ligados em sequência e dispostos em arco, cada um com um ponto vermelho na face de fora do arco, isto é, todas as unidades viradas para o mesmo lado; a legenda diz que a cadeia faz curva e se enrola em hélice; um quadro informa que a amilase encaixa nessa ligação e que o ser humano digere o amido e obtém glicose. À direita, ligação beta, celulose: três fileiras retas de sete hexágonos azuis, em que o ponto vermelho aparece alternadamente em cima e embaixo, isto é, cada unidade girada meia-volta em relação à vizinha; linhas pontilhadas verticais unem uma fileira à outra e representam ligações de hidrogênio; um quadro informa que nenhuma enzima humana corta essa ligação, que a celulose passa como fibra e que decompositores e microrganismos do rúmen têm celulase. Uma nota avisa que o esquema está fora de escala.
Por que a mesma glicose dá um alimento e uma fibra. Com a ligação alfa, as unidades ficam viradas para o mesmo lado (ponto vermelho sempre na mesma face) e a cadeia se curva. Com a ligação beta, cada unidade fica girada meia-volta, a cadeia sai reta e várias cadeias se prendem lado a lado. Esquema fora de escala. Diagrama autoral.

Enzimas reconhecem forma. A amilase se encaixa na ligação alfa e não na beta. Nenhuma enzima produzida pelo corpo humano hidrolisa a ligação beta da celulose: não temos celulase. A celulose que você come atravessa o tubo digestório sem ser digerida.

Não digerir não quer dizer que ninguém digere. Fungos e bactérias decompositores produzem celulases, e é por isso que uma folha de papel se decompõe no solo muito antes de uma sacola plástica. Bois, cabras e outros ruminantes vivem de capim porque abrigam, em um compartimento do estômago chamado rúmen, microrganismos que fermentam a celulose; os cupins fazem o mesmo com a madeira, com microrganismos no intestino. O animal fornece abrigo e alimento triturado, e os microrganismos fornecem a enzima que falta a ele.

Dois itens reais cobraram essa ideia. O PAS 1 de 2022 (item 70), em um bloco sobre fraldas descartáveis, feitas de polpa de celulose e de plásticos, afirmou: “A decomposição da celulose é mais lenta que a de polímeros plásticos.” Errado: a celulose tem quem a decomponha, e os plásticos comuns quase não têm. O PAS 2 de 2016 (item 79), sobre um bovino mostrado em uma prancha de figuras, afirmou que o animal “possui um estômago multicompartimentado; no compartimento conhecido como rúmen, existem glândulas que secretam enzimas hidrolíticas que degradam componentes alimentares”. Errado: no rúmen, quem degrada a celulose são os microrganismos, e não enzimas secretadas por glândulas do boi.

Para que serve a fibra que você não digere

A parte dos vegetais que as enzimas humanas não hidrolisam se chama fibra alimentar. A celulose é o exemplo mais conhecido, e há outras: a pectina das frutas, por exemplo.

Fibra alimentar

Fibra alimentar é o carboidrato dos alimentos que as enzimas digestivas humanas não hidrolisam. A regra brasileira de rotulagem a define como polímero de carboidrato com três ou mais unidades que não são hidrolisadas pelas enzimas do trato digestivo humano. Critério de decisão: se a enzima humana corta a ligação (amido, sacarose, lactose), o carboidrato é digerível e fornece glicose ou outro monossacarídeo ao sangue; se não corta (celulose, pectina), é fibra e segue para o intestino grosso. As fibras se dividem em insolúveis, como a celulose, e solúveis, como a pectina.

A fibra não fornece glicose ao sangue e tem três efeitos conhecidos. Ela retém água e aumenta o volume do conteúdo do intestino, o que facilita o trânsito. Ela torna mais lenta a absorção dos açúcares que vêm junto no mesmo alimento. E uma parte dela, sobretudo a fibra solúvel, é fermentada por bactérias do intestino grosso, que vivem desse material. Parte dos produtos dessa fermentação é absorvida, e por isso a fibra solúvel não vale zero na conta de energia: a regra brasileira atribui a ela 2 kcal por grama, metade do valor dos carboidratos digeríveis. A Organização Mundial da Saúde recomenda, para pessoas com mais de 10 anos, pelo menos 25 g de fibra por dia, obtida dos próprios alimentos.

Celulose não serve para nada

Do fato de não digerirmos a celulose não se conclui que ela seja inútil, nem que não contenha energia. Queime uma folha de papel e a energia aparece. O que falta ao corpo humano é a enzima que dê acesso a essa energia. No ecossistema, a celulose é a maior parte do alimento dos herbívoros e dos decompositores. No intestino humano, é fibra. Na planta, é a parede de todas as células. Um item que diga que nenhum ser vivo aproveita a celulose está errado por causa do “nenhum”.

Nem todo açúcar é doce, nem todo carboidrato é açúcar

A língua tem receptores de sabor doce que respondem a moléculas pequenas: monossacarídeos e dissacarídeos. Uma cadeia de milhares de glicoses não se encaixa neles. Por isso o amido não tem gosto doce, embora seja feito só de glicose.

O teste é fácil. Mastigue um pedaço de pão francês por um minuto, sem engolir. Aos poucos, um leve gosto doce aparece. A amilase da saliva está cortando o amido, e o que você sente é sobretudo a maltose liberada, com um pouco de glicose.

A doçura também varia entre os açúcares pequenos. A frutose é mais doce que a sacarose, que é mais doce que a glicose; a lactose está entre os menos doces. Isso explica três observações de cozinha:

  • A banana verde e a madura. A banana verde é rica em amido e pouco doce. No amadurecimento, enzimas da própria fruta hidrolisam o amido em açúcares pequenos. A banana madura é doce e tem pouco amido.
  • O milho-verde. No sentido inverso, o milho-verde, depois de colhido, converte seus açúcares em amido e perde a doçura. O ENEM de 2024 descreveu uma agricultora que mergulhava as espigas em água fervente para conservar o sabor adocicado: o calor desnatura as enzimas que fariam a conversão.
  • O leite sem lactose. Ele é levemente mais doce que o leite comum, sem que se acrescente açúcar. A indústria adiciona lactase, que hidrolisa a lactose em glicose e galactose, e as duas juntas adoçam mais que a lactose.

A palavra “açúcar” tem pelo menos três sentidos, e trocar um pelo outro produz confusões:

sentido o que inclui exemplo de uso
açúcar de mesa sacarose “duas colheres de açúcar”
açúcares monossacarídeos e dissacarídeos a linha “açúcares totais” do rótulo
açúcares, em sentido amplo todos os carboidratos “a celulose é um açúcar”

Nem todo açúcar em sentido amplo é doce (amido, celulose), e nem tudo o que é doce é carboidrato: os adoçantes artificiais são moléculas de outras famílias, que ativam o mesmo receptor.

Carboidratos na mesa brasileira

O arroz com feijão é uma dupla de amidos: o arroz, quase só amido; o feijão, amido com bastante fibra e proteína. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde (2014), registra que arroz e feijão correspondem a quase um quarto das calorias da alimentação dos brasileiros. A mandioca, também chamada de macaxeira ou aipim e originária da América do Sul, segundo a Embrapa, é raiz de reserva: é consumida cozida; ralada e torrada, vira farinha; e a fécula extraída dela (o polvilho, ou goma) é a base da tapioca e do pão de queijo. O PAS 1 de 2014 partiu de um texto sobre a agricultura familiar, responsável por 87 % da produção de mandioca no Censo Agropecuário de 2006, para afirmar no item 68: “A mandioca, por ser um alimento rico em amido, tem papel biológico energético para os animais que a consomem.” Certo. A cana-de-açúcar guarda sacarose no colmo, em vez de amido: o caldo de cana, o melado, a rapadura e o açúcar de mesa são, na maior parte, essa sacarose, e a mesma sacarose, fermentada por leveduras, vira o etanol combustível (o processo está em fermentação).

Lugol e Benedict: como o laboratório escolar enxerga um carboidrato

Dois reagentes baratos distinguem tipos de carboidrato. Nenhum dos dois detecta “carboidrato” em geral, e a leitura correta começa por saber o que cada um enxerga.

Lugol. É uma solução de iodo com iodeto de potássio, de cor castanho-alaranjada. O iodo se aloja dentro da hélice das cadeias de amido e forma um complexo azul-escuro, quase preto. Sem amido, a gota continua castanha. O lugol não reage com glicose, frutose, sacarose, lactose ou celulose. Resultado positivo quer dizer que há amido. Resultado negativo quer dizer que não há amido detectável, e não que não há carboidrato.

Reagente de Benedict (e o de Fehling, que funciona pelo mesmo princípio). É uma solução azul que contém íons de cobre. Aquecida com certos açúcares, muda de cor e forma um precipitado: verde, amarelo, laranja e vermelho-tijolo, conforme a quantidade de açúcar. Os açúcares que fazem isso se chamam açúcares redutores, porque reduzem o cobre: cedem elétrons a ele. Para reduzir o cobre, o açúcar precisa ter livre o grupo carbonila de pelo menos uma de suas unidades.

Açúcar redutor

Açúcar redutor é o carboidrato que tem um grupo carbonila livre e, por isso, reduz os íons de cobre do reagente de Benedict (ou de Fehling), mudando a cor do tubo aquecido. São redutores todos os monossacarídeos (glicose, frutose, galactose) e os dissacarídeos em que uma das unidades fica com a carbonila livre: maltose e lactose. A sacarose não é redutora: a ligação glicosídica prende as carbonilas das duas unidades. Critério prático: Benedict positivo indica açúcar redutor, e não qual deles; Benedict negativo não exclui sacarose nem amido.

carboidrato lugol Benedict (com aquecimento) por quê
glicose, frutose, galactose castanho (negativo) muda de cor (positivo) monossacarídeos são redutores
maltose, lactose castanho (negativo) muda de cor (positivo) uma das unidades mantém a carbonila livre
sacarose castanho (negativo) continua azul (negativo) a ligação entre glicose e frutose ocupa as carbonilas das duas unidades
amido azul-escuro (positivo) continua azul (negativo) cadeia longa, com uma única ponta redutora para milhares de unidades
celulose castanho (negativo) continua azul (negativo) sem hélice para o iodo; cadeia longa e insolúvel

A sacarose é a exceção: é um açúcar, é doce e não é redutora. Se a solução de sacarose for fervida com algumas gotas de ácido, ela se hidrolisa em glicose e frutose, e o teste de Benedict passa a dar positivo.

Em cima, à esquerda, quadro do lugol, solução de iodo, que detecta amido a frio: dois tubos de ensaio, um com líquido castanho, sem amido, e outro com líquido azul-escuro, com amido. Em cima, à direita, quadro do reagente de Benedict depois de aquecer, que detecta açúcares redutores: cinco tubos com líquidos nas cores azul, negativo, verde, amarelo, laranja e vermelho-tijolo, sobre uma seta que indica quantidade crescente de açúcar redutor. Embaixo, tabela com quatro linhas e etiquetas coloridas: glicose, frutose, maltose e lactose, lugol castanho e Benedict muda de cor, açúcar redutor, sem amido; sacarose, o açúcar de mesa, lugol castanho e Benedict continua azul, açúcar não redutor; amido, lugol azul-escuro e Benedict continua azul, polissacarídeo com hélice; celulose e água, controle, lugol castanho e Benedict continua azul, nenhum dos dois detecta. Uma frase final lembra que negativo no lugol significa sem amido detectável, e não sem carboidrato.
Dois reagentes, duas perguntas. O lugol responde se há amido; o Benedict, aquecido, responde se há açúcar redutor, e a cor final dá uma ideia da quantidade. A sacarose escapa dos dois testes: dar negativo no lugol e no Benedict não prova que a amostra não tem carboidrato. Cores representadas de modo aproximado. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido: ler a tabela de uma aula prática. Uma turma testou oito amostras e registrou as cores (resultados típicos, apresentados aqui como ilustração).

amostra lugol Benedict, após aquecer
1. água castanho azul
2. amido de milho em água azul-escuro azul
3. glicose em água castanho vermelho-tijolo
4. batata crua ralada azul-escuro azul
5. suco de maçã castanho laranja
6. açúcar de mesa em água castanho azul
7. leite castanho laranja
8. banana madura amassada castanho vermelho-tijolo

Controles. As amostras 1, 2 e 3 não são alimentos em estudo: são os controles. A água mostra a cor de cada reagente quando não há o que detectar (controle negativo). O amido de milho mostra que o lugol está funcionando, e a glicose mostra que o Benedict está funcionando (controles positivos). Sem eles, um reagente vencido passaria por resultado negativo.

O que se conclui. A batata tem amido e não tem quantidade detectável de açúcares redutores. O suco de maçã e a banana madura não têm amido detectável e têm açúcares redutores (glicose e frutose). O leite não tem amido e tem um açúcar redutor, a lactose.

O que não se conclui. A amostra 6 deu negativo nos dois testes, e mesmo assim é carboidrato quase puro: a sacarose não tem hélice para o iodo e não é redutora. Quem concluísse que o açúcar de mesa “não tem carboidrato” estaria lendo o teste além do que ele mede. Os testes também são qualitativos: a cor laranja do leite e a do suco de maçã não permitem dizer qual dos dois tem mais açúcar sem uma escala de comparação preparada com concentrações conhecidas. E nenhum dos dois reagentes diz quantas calorias a amostra tem.

Conferência. Um teste extra confirma a leitura da amostra 6: ferver a solução de açúcar com gotas de ácido, neutralizar e repetir o Benedict. Se a cor mudar, a amostra continha um açúcar não redutor que se hidrolisou em redutores.

O lugol também permite acompanhar uma digestão. Misture saliva a uma solução de amido, mantenha a 37 °C e pingue lugol em uma gota da mistura a cada dois minutos: o azul vai enfraquecendo até sumir, à medida que a amilase desmonta o amido. O efeito da temperatura e do pH sobre essa enzima está em proteínas e enzimas.

Lactose, lactase e o leite na vida adulta

A lactose só é absorvida depois de hidrolisada em glicose e galactose pela lactase, na superfície das células do intestino delgado. Os filhotes de mamíferos produzem lactase em abundância enquanto mamam. Depois do desmame, na maioria dos mamíferos e em grande parte dos seres humanos, a produção da enzima cai.

Quando há pouca lactase, parte da lactose ingerida não é hidrolisada nem absorvida. Ela segue para o intestino grosso, e dois efeitos explicam os sintomas. Bactérias fermentam a lactose e produzem gases e ácidos. E a lactose dissolvida, que não foi absorvida, retém água no intestino por osmose, o que amolece as fezes.

Duas faixas horizontais, cada uma com dois compartimentos ligados por uma seta: intestino delgado e intestino grosso. Na faixa de cima, verde, com lactase suficiente: no intestino delgado, um par de hexágonos, verde e azul, rotulado lactose, passa por uma seta rotulada lactase e vira dois hexágonos separados, glicose e galactose, que seguem por uma seta vermelha para o sangue, absorção; no intestino grosso, o texto diz que quase nenhuma lactose chega ali e que não há sintomas. Na faixa de baixo, laranja, com pouca lactase: no intestino delgado, a lactose segue por uma seta tracejada com o rótulo não é hidrolisada nem absorvida e chega inteira ao intestino grosso, onde dois textos numerados informam: 1, bactérias fermentam a lactose, gases e ácidos; 2, a lactose dissolvida retém água por osmose, fezes amolecidas. Uma faixa na base diz que se trata de pouca enzima, sem participação do sistema imunitário, e que intolerância à lactose não é alergia à proteína do leite.
O que muda quando há pouca lactase. A enzima trabalha na superfície das células do intestino delgado. Sem ela em quantidade suficiente, a lactose segue inteira para o intestino grosso, e os sintomas vêm de dois processos: a fermentação por bactérias e a retenção de água por osmose. Diagrama autoral.

Três termos precisam ficar separados.

  • Má absorção de lactose é a capacidade reduzida de digerir a lactose. Pode existir sem sintoma nenhum.
  • Intolerância à lactose é a má absorção acompanhada de sintomas digestivos (gases, inchaço, cólica, diarreia) depois do consumo de lactose. A quantidade tolerada varia de pessoa para pessoa.
  • Alergia à proteína do leite é outra condição: uma resposta do sistema imunitário a proteínas do leite, como a caseína. Não envolve a lactose nem a lactase, pode ser desencadeada por quantidades muito pequenas e pode atingir a pele e a respiração. Leite sem lactose contém as mesmas proteínas do leite comum.

A distinção entre intolerância e alergia está nos materiais do Ministério da Saúde e do instituto norte-americano que trata de doenças digestivas (NIDDK). O diagnóstico de qualquer uma das duas é feito por profissional de saúde; sintomas parecidos têm outras causas.

A queda da lactase depois do desmame é a condição ancestral da espécie. A novidade evolutiva é o contrário: a persistência da lactase, a capacidade de continuar produzindo a enzima na vida adulta. Ela é frequente em populações com longa história de criação de animais leiteiros, como as do norte da Europa e alguns povos pastoris da África, e pouco frequente na maior parte da África e da Ásia. Um estudo de Tishkoff e colaboradores, publicado em 2007, mostrou que as variantes genéticas associadas à persistência em povos pastoris da África oriental são diferentes da variante europeia e surgiram de modo independente, com sinais de seleção nos últimos 7 000 anos, aproximadamente. É um caso de evolução recente em que um hábito cultural, o consumo de leite na vida adulta, alterou a pressão de seleção sobre um gene.

Na indústria, o leite “zero lactose” é leite tratado com lactase. Pela regra brasileira, a alegação exige no máximo 0,1 g de lactose por 100 g ou 100 mL. Iogurtes e queijos curados têm menos lactose que o leite: parte dela foi consumida pelas bactérias da fermentação ou saiu com o soro.

Um número que saiu de circulação

Sites de saúde e materiais didáticos costumam informar uma porcentagem mundial de adultos com má absorção de lactose. Uma estimativa muito citada vem de uma revisão publicada em 2017 na revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology. Em janeiro de 2025, a própria revista publicou a retratação desse artigo, isto é, declarou que ele não deve mais ser usado como fonte. O padrão geográfico, conhecido por muitos outros estudos, continua válido: a má absorção é a regra na maior parte da África e da Ásia e a exceção no norte da Europa. A porcentagem mundial é que ficou sem a fonte que a sustentava, e por isso esta página não dá esse número. Dado científico tem data e pode ser retirado.

O rótulo: carboidratos, açúcares totais, açúcares adicionados e fibra

Desde 9 de outubro de 2022 valem no Brasil as regras de rotulagem nutricional da Anvisa (RDC 429/2020 e Instrução Normativa 75/2020). A tabela de informação nutricional informa os valores por 100 g ou 100 mL, por porção e em porcentagem do valor diário (%VD). Quatro linhas tratam do assunto desta página.

linha do rótulo o que entra valor diário de referência
carboidratos mono, di, oligo e polissacarídeos que o corpo digere, absorve e metaboliza 300 g
açúcares totais todos os monossacarídeos e dissacarídeos do alimento, naturais ou adicionados não tem
açúcares adicionados monossacarídeos e dissacarídeos acrescentados no processamento, inclusive mel, melado, xaropes e maltodextrina 50 g
fibras alimentares carboidratos que as enzimas humanas não hidrolisam 25 g

Os valores diários partem de uma dieta de 2 000 kcal. A linha “açúcares totais” fica recuada sob “carboidratos”, e “açúcares adicionados”, recuada sob “açúcares totais”: cada uma é parte da anterior. A fibra tem linha própria, fora da linha de carboidratos. Os açúcares naturalmente presentes no leite e nas frutas contam como açúcares totais e não como adicionados.

O valor energético é calculado, e não medido alimento por alimento: 4 kcal por grama de carboidrato, 4 kcal por grama de proteína e 9 kcal por grama de gordura.

A regra criou também a rotulagem nutricional frontal: uma lupa na frente da embalagem com a expressão “alto em” para três nutrientes. Para o açúcar, o critério é:

alimento recebe “alto em açúcar adicionado” quando tem
sólido ou semissólido 15 g ou mais de açúcares adicionados por 100 g
líquido 7,5 g ou mais de açúcares adicionados por 100 mL

Os outros dois nutrientes da lupa são a gordura saturada e o sódio. O critério olha a quantidade por 100 g ou 100 mL, e não o tamanho da porção, e olha o açúcar adicionado, e não o açúcar próprio do alimento. Nos produtos que precisam de preparo, como um pó para misturar ao leite, a conta é feita no alimento pronto para o consumo, seguindo as instruções do fabricante, e sem somar os nutrientes do ingrediente acrescentado.

À esquerda, reprodução esquemática de uma tabela de informação nutricional em preto e branco, de uma bebida com porção de 200 mililitros, com colunas para 100 mililitros, 200 mililitros e porcentagem do valor diário: valor energético, 80, 160 e 8; carboidratos, 13, 26 e 9; açúcares totais, recuada, 12 e 24; açúcares adicionados, mais recuada, 8, 16 e 32; proteínas, 2,5, 5,0 e 10; gorduras totais, 2,0, 4,0 e 6; fibras alimentares, 0. Abaixo da tabela, o símbolo da rotulagem frontal: uma lupa preta e as palavras alto em açúcar adicionado. À direita, cinco quadros coloridos de anotações. De onde vêm as calorias: 13 vezes 4, 52 quilocalorias dos carboidratos, 10 das proteínas e 18 das gorduras, soma 80; os carboidratos dão 65 por cento da energia. Porcentagem do valor diário: 26 dividido por 300, 9 por cento; 16 dividido por 50, 32 por cento; referência, dieta de 2 000 quilocalorias. Uma linha dentro da outra: carboidratos incluem açúcares totais, que incluem os adicionados; 12 menos 8, 4 gramas, são lactose do leite. Critério da lupa: líquido, 7,5 gramas ou mais de açúcares adicionados por 100 mililitros; sólido, 15 gramas ou mais por 100 gramas; aqui, 8 é maior que 7,5. O que o rótulo não diz: a fibra tem linha própria; zero açúcar e sem adição de açúcares não significam sem carboidrato. Uma nota avisa que os valores são ilustrativos e a tabela, simplificada.
Um rótulo lido linha a linha, com os mesmos valores do exemplo resolvido. A energia sai da conta 4, 4 e 9 kcal por grama; o %VD usa 300 g para carboidratos e 50 g para açúcares adicionados; a lupa depende da quantidade de açúcar adicionado por 100 mL ou 100 g. Valores ilustrativos e tabela simplificada (a tabela real traz também gorduras saturadas e trans e sódio). Diagrama autoral.

Exemplo resolvido: ler um rótulo. Uma bebida láctea sabor chocolate, vendida em caixinha de 200 mL, traz na tabela (valores ilustrativos, construídos para o exemplo), por 100 mL: valor energético, 80 kcal; carboidratos, 13 g; açúcares totais, 12 g; açúcares adicionados, 8 g; proteínas, 2,5 g; gorduras totais, 2 g; fibras alimentares, 0 g.

De onde vêm as calorias. Carboidratos: 13×4=5213 \times 4 = 52 kcal. Proteínas: 2,5×4=102{,}5 \times 4 = 10 kcal. Gorduras: 2×9=182 \times 9 = 18 kcal. Soma: 52+10+18=8052 + 10 + 18 = 80 kcal, o valor impresso. Os carboidratos respondem por 52/80=65 %52 / 80 = 65\,\% da energia.

Quanto há na caixinha. A porção é o dobro de 100 mL: 160 kcal, 26 g de carboidratos e 16 g de açúcares adicionados.

Porcentagem do valor diário. Carboidratos: 26/300≈0,08726 / 300 \approx 0{,}087, ou 9 % do VD. Açúcares adicionados: 16/50=0,3216 / 50 = 0{,}32, ou 32 % do VD em uma caixinha.

Tem lupa? É um líquido com 8 g de açúcares adicionados por 100 mL. Como 8≥7,58 \geq 7{,}5, a embalagem precisa trazer “alto em açúcar adicionado”.

Que açúcar é esse? Dos 12 g de açúcares totais, 8 g foram adicionados. Os outros 4 g são açúcar próprio de um ingrediente: a lactose do leite. O 1 g que falta para os 13 g de carboidratos não é açúcar: é amido ou outro carboidrato maior, usado como espessante.

Conferência. A soma das parcelas de energia reproduz o valor declarado, e as linhas respeitam a hierarquia: adicionados (8) cabem em totais (12), que cabem em carboidratos (13).

A Organização Mundial da Saúde recomenda que os açúcares livres fiquem abaixo de 10 % da energia diária, o que dá cerca de 50 g para uma dieta de 2 000 kcal, e indica que reduzir a 5 % ou menos pode trazer benefícios adicionais. A definição da OMS é um pouco mais larga que a de açúcar adicionado do rótulo brasileiro: açúcares livres incluem também os açúcares naturalmente presentes no mel, nos xaropes e nos sucos de fruta. Por isso um suco integral não leva lupa e mesmo assim entra na conta dos açúcares livres.

Para alimentos sem rótulo, como o arroz cozido ou a banana, os dados vêm de tabelas de composição, como a TACO, da Unicamp. Alguns valores por 100 g:

alimento (TACO, 4.ª edição, 2011) energia (kcal) carboidrato (g) fibra (g)
arroz tipo 1 cozido 128 28,1 1,6
feijão-carioca cozido 76 13,6 8,5
mandioca cozida 125 30,1 1,6
farinha de mandioca torrada 365 89,2 6,5
batata-inglesa cozida 52 11,9 1,3
pão francês 300 58,6 2,3
banana-prata 98 26,0 2,0
maçã fuji com casca 56 15,2 1,3
caldo de cana 65 18,2 0,1
refrigerante tipo cola 34 8,7 não se aplica
açúcar cristal 387 99,6 não se aplica

Um cuidado de leitura: na TACO, a coluna de carboidrato é calculada por diferença e inclui a fibra; no rótulo brasileiro, a fibra fica fora da linha de carboidratos. A batata cozida, que não é doce, tem mais carboidrato por 100 g que o refrigerante, que é. A maçã tem mais que os dois. O que muda é o tipo: amido na batata, frutose e glicose na maçã, com fibra e dentro das células da fruta, e açúcar adicionado, dissolvido e sem fibra, no refrigerante.

Diet, light, zero e “sem adição de açúcares”

Essas palavras têm definição legal, e nenhuma delas quer dizer “sem carboidrato”.

o que a embalagem diz o que a regra exige o que não garante
zero açúcar, sem açúcares, não contém açúcares no máximo 0,5 g de açúcares por porção de referência e por 100 g ou 100 mL que o produto não tenha amido ou outros carboidratos, nem que tenha poucas calorias
sem adição de açúcares nenhum açúcar e nenhum ingrediente com açúcar adicionado que o produto não tenha açúcares próprios dos ingredientes; nesse caso, o rótulo deve avisar “contém açúcares próprios dos ingredientes”
light em açúcares, reduzido em açúcares pelo menos 25 % a menos que o alimento de referência que a quantidade restante seja pequena
diet termo opcional da regulamentação de alimentos para fins especiais: alimento formulado para dietas com restrição de algum nutriente, que pode ser carboidrato (açúcares), gordura, proteína ou sódio que o nutriente restrito seja o açúcar, nem que o produto tenha pouca gordura ou poucas calorias

Um biscoito “zero açúcar” feito de farinha de trigo continua sendo, em massa, principalmente amido, e o amido digerido chega ao sangue como glicose.

Carboidrato engorda? O que acontece com a glicose depois de absorvida

A glicose que chega ao sangue depois de uma refeição tem três destinos.

  1. Uso imediato. As células a oxidam para produzir ATP. As hemácias dependem só dela, e o cérebro, em condições habituais, quase só dela.
  2. Glicogênio. O fígado e os músculos guardam glicose na forma de glicogênio, até o limite de algumas centenas de gramas.
  3. Gordura. Com os estoques de glicogênio cheios e a energia ingerida acima da energia gasta, o excedente é convertido em gordura e armazenado no tecido adiposo.

O terceiro destino mostra que carboidrato pode virar gordura. Ele mostra também que a condição é o excedente de energia, e não a presença do carboidrato. Proteína e gordura em excesso têm o mesmo fim. Por grama, o carboidrato fornece menos da metade da energia da gordura. Dizer que “carboidrato engorda” e dizer que “carboidrato não engorda” são duas simplificações do mesmo balanço: o que conta é a diferença entre a energia que entra e a que sai, ao longo do tempo.

O que diferencia as fontes de carboidrato é a velocidade com que elas elevam a glicose no sangue e o que vem junto. O índice glicêmico compara a elevação da glicose no sangue nas duas horas seguintes à ingestão de um alimento com a elevação provocada pela mesma quantidade de carboidrato na forma de glicose pura: quanto mais rápida e mais alta a subida, maior o índice. Açúcar dissolvido em um refrigerante é absorvido depressa; o amido do feijão, cercado de fibra, é digerido aos poucos. O que o pâncreas faz diante de cada situação está em sistema endócrino.

É por esse caminho que o Guia Alimentar brasileiro recomenda arroz, feijão, mandioca e frutas e desaconselha refrigerantes e biscoitos recheados, embora todos sejam fontes de carboidrato. A regra de ouro do Guia não fala em nutrientes: “Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados”. Esta página descreve o que a ciência sabe sobre as moléculas. Decisões sobre a alimentação de uma pessoa, com suas condições de saúde, cabem a ela e aos profissionais de saúde que a acompanham.

Fluxograma da esquerda para a direita. Uma caixa cinza, intestino delgado, onde amido, sacarose e lactose são hidrolisados em monossacarídeos, liga-se por uma seta vermelha a uma caixa vermelha, sangue, com glicose dissolvida, poucos gramas no sangue todo. Do sangue saem três setas. Uma seta verde sobe até a caixa 1, uso imediato: todas as células oxidam glicose e produzem ATP, por respiração celular ou fermentação. Uma seta laranja vai à caixa 2, glicogênio: fígado, cerca de 80 gramas, músculos, cerca de 500 gramas; o do fígado devolve glicose ao sangue e o do músculo é usado pela própria fibra; uma seta laranja tracejada volta dessa caixa ao sangue, com o rótulo entre as refeições. Uma seta roxa desce até a caixa 3, gordura: só quando a energia ingerida supera a gasta e os estoques de glicogênio estão cheios, o excedente é guardado no tecido adiposo. Uma faixa na base informa: por grama, carboidrato e proteína, 4 quilocalorias, gordura, 9; o que leva ao acúmulo de gordura é o excedente de energia.
O que o corpo faz com a glicose de uma refeição. Primeiro ela é usada; depois, guardada como glicogênio, em quantidade limitada (valores médios de adultos, com grande variação); só o excedente de energia vira gordura. A seta tracejada mostra o fígado devolvendo glicose ao sangue entre as refeições. Diagrama autoral.

Como a prova cobra: oito itens reais, quatro certos e quatro errados

Esta página cita oito itens reais do PAS: 1.ª etapa de 2012 (item 35), 2014 (item 68) e 2022 (item 70); 2.ª etapa de 2016 (item 79), 2019 (item 80) e 2020 (item 60); 3.ª etapa de 2023 (item 118) e 2025 (item 69). Quatro estão certos e quatro, errados. Os certos afirmam um par correto de nome e função. Os errados mantêm a cena e alteram um ponto: uma comparação, um agente, um composto ou uma conclusão.

item o que afirma gabarito onde está a decisão
PAS 1 2014, 68 mandioca, rica em amido, tem papel energético C amido é reserva; quem come obtém energia
PAS 3 2025, 69 glicose e frutose do cupuaçu são monossacarídeos usados para produzir energia C categoria e função
PAS 2 2020, 60 fungos: heterótrofos, parede de quitina, reserva de glicogênio C três pares corretos
PAS 2 2019, 80 exoesqueleto de proteína e do polissacarídeo quitina C quitina é polissacarídeo
PAS 1 2022, 70 celulose se decompõe mais devagar que plásticos E comparação invertida
PAS 2 2016, 79 glândulas do rúmen secretam as enzimas que degradam o alimento E agente trocado: são microrganismos
PAS 3 2023, 118 parede primária flexível por ser de lignina E composto trocado: é celulose
PAS 1 2012, 35 gordura como a melhor e mais rápida forma de repor energia E conclusão que não decorre da premissa

Exemplo resolvido: julgar quatro afirmações. Julgue cada uma como certa ou errada.

I. O glicogênio é o polissacarídeo de reserva das plantas, armazenado em raízes e sementes. Organismo: plantas. Função: reserva. O nome que corresponde ao par é amido. Errada: a frase descreve o amido e usa o nome da reserva de animais e fungos.

II. A lactose é um dissacarídeo formado por glicose e galactose, e sua hidrólise no intestino humano depende da lactase. Classe, unidades e enzima corretas. Certa. Uma frase longa e detalhada não é suspeita por ser longa.

III. Por serem formados pela mesma unidade, o amido e a celulose são hidrolisados pela mesma enzima no tubo digestório humano. A primeira parte é verdadeira: os dois são polímeros de glicose. A conclusão é falsa: a ligação é alfa em um e beta no outro, a amilase só reconhece a alfa, e o ser humano não produz celulase. Errada.

IV. Um alimento cujo rótulo informa “sem adição de açúcares” pode conter açúcares e fornecer energia. A alegação proíbe o açúcar acrescentado, e não o açúcar próprio dos ingredientes nem o amido. Certa.

O roteiro é o mesmo nos quatro casos: identifique o organismo, a função e a molécula, e confira se os três combinam. Se a frase tem “por isso” ou “por serem”, julgue a premissa e a conclusão separadamente.

Treze erros clássicos

  1. Glicogênio em plantas, amido em animais. A reserva das plantas é o amido; a dos animais e dos fungos, o glicogênio.
  2. Celulose como reserva. A celulose é estrutural. A planta não a desmonta para obter energia.
  3. Fungo com parede de celulose. A parede dos fungos é de quitina, e a reserva é o glicogênio (PAS 2 2020, item 60, afirmou o par correto).
  4. Celulose que ninguém aproveita. Decompositores e os microrganismos do rúmen e do intestino dos cupins a digerem (PAS 1 2022, item 70; PAS 2 2016, item 79). Para o ser humano, é fibra.
  5. Monossacarídeo digerido. Glicose, frutose e galactose são absorvidas como estão (PAS 3 2025, item 69, afirmou a função correta).
  6. Dissacarídeo absorvido inteiro. Sacarose, lactose e maltose precisam ser hidrolisadas antes.
  7. Amido doce. Polissacarídeos não ativam os receptores de sabor doce. O gosto adocicado do pão mastigado vem da maltose liberada pela amilase.
  8. Lugol detecta carboidrato. Detecta amido. Açúcar de mesa e glicose dão resultado negativo.
  9. Sacarose redutora. A sacarose não reage com o Benedict; glicose, frutose, maltose e lactose reagem.
  10. Fórmula da glicose dobrada. Os dissacarídeos de hexoses são C12H22O11\mathrm{C_{12}H_{22}O_{11}}: cada ligação glicosídica elimina uma água.
  11. Intolerância tratada como alergia. A intolerância à lactose decorre de pouca lactase; a alergia é resposta imunitária a proteínas do leite.
  12. “Sem açúcar” lido como sem carboidrato. Zero açúcar não exclui amido; sem adição não exclui o açúcar próprio; diet não diz qual nutriente foi restrito; light é redução de pelo menos 25 %.
  13. Carboidrato engorda. O que leva ao acúmulo de gordura é o excedente de energia, venha de onde vier. O carboidrato fornece 4 kcal por grama, e a gordura, 9.

Os erros 3, 4 e 5 correspondem a itens reais do PAS citados nesta página (no 3 e no 5, o item afirmou a versão correta). Os demais são confusões frequentes em sala de aula e em resumos, sem item do PAS reproduzido aqui.

O essencial em meia página

  • O que são. Moléculas de C, H e O com muitos grupos –OH, formadas por unidades (monossacarídeos) unidas por ligações glicosídicas. A fórmula (CH2O)n(\mathrm{CH_2O})_n vale para os monossacarídeos comuns e não define a família: a desoxirribose e a sacarose não a seguem, e o ácido lático a segue sem ser carboidrato.
  • Funções. Energia de uso rápido (glicose, 4 kcal/g), reserva (amido, glicogênio), estrutura (celulose, quitina), reconhecimento e informação (glicocálix; ribose e desoxirribose).
  • Monossacarídeos. Glicose, frutose e galactose (C6H12O6\mathrm{C_6H_{12}O_6}, isômeros); ribose e desoxirribose (pentoses). Absorvidos sem digestão.
  • Dissacarídeos. Sacarose = glicose + frutose; lactose = glicose + galactose; maltose = glicose + glicose. Fórmula C12H22O11\mathrm{C_{12}H_{22}O_{11}}. Cada ligação formada libera uma água; cada hidrólise consome uma. Cadeia de nn unidades: n−1n - 1 ligações.
  • Polissacarídeos. Amido: reserva das plantas. Glicogênio: reserva de animais e fungos, muito ramificado, no fígado e nos músculos. Celulose: parede celular das plantas. Quitina: exoesqueleto de artrópodes e parede dos fungos, com nitrogênio.
  • Alfa e beta. Ligação alfa (amido, glicogênio): cadeia em hélice, atacada pela amilase. Ligação beta (celulose): cadeias retas unidas em fibras; o ser humano não tem celulase. Decompositores e microrganismos do rúmen e dos cupins têm.
  • Fibra. Carboidrato que as enzimas humanas não hidrolisam. Regula o trânsito, torna mais lenta a absorção de açúcares e alimenta bactérias do intestino grosso.
  • Doçura. Só moléculas pequenas são doces. Nem todo carboidrato é doce, e açúcar tem três sentidos: sacarose, mono e dissacarídeos, ou todos os carboidratos.
  • Testes. Lugol fica azul-escuro com amido. Benedict, aquecido, muda de azul para verde, amarelo, laranja ou vermelho-tijolo com açúcares redutores (glicose, frutose, maltose, lactose). A sacarose é negativa nos dois.
  • Lactose. Pouca lactase: a lactose chega ao intestino grosso, é fermentada por bactérias e retém água. Intolerância não é alergia à proteína do leite. A persistência da lactase em adultos é uma adaptação recente de populações pastoris.
  • Rótulo. Carboidratos (VD 300 g), açúcares totais, açúcares adicionados (VD 50 g), fibras (VD 25 g). Lupa de “alto em açúcar adicionado”: 15 g ou mais por 100 g, ou 7,5 g ou mais por 100 mL. Zero açúcar, sem adição, light e diet não significam sem carboidrato.
  • Na prova. Confira organismo, função e molécula. Amido com planta, glicogênio com animal e fungo, celulose com estrutura, quitina com fungo e artrópode.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

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CARBOIDRATOS: o que são, função, exemplos (BIOQUÍMICA) | Resumo de Biologia para o Enem
Curso Enem Gratuito · 11:55
Introdução. Em cerca de 12 minutos, a aula percorre o que são carboidratos, suas funções, a composição, os monossacarídeos, a ligação glicosídica, os dissacarídeos e os polissacarídeos, nessa ordem (a descrição do vídeo traz a minutagem de cada parte). É o panorama das seções “O que é um carboidrato: carbono, hidrogênio, oxigênio e muitos grupos OH” e “Para que servem: energia rápida, reserva, estrutura e reconhecimento”. Assista antes de ler e anote um exemplo para cada função.
Glicídios ou carboidratos - Aula 04 - Módulo 1: Bioquímica - Prof. Guilherme
Prof. Guilherme Goulart - Biologia · 34:36
Aprofundamento. Aula de 35 minutos que classifica os glicídios em monossacarídeos (das trioses às heptoses), dissacarídeos (maltose, sacarose, lactose) e polissacarídeos (amido, glicogênio, celulose, quitina), com funções e exemplos de cada grupo. Corresponde às seções “Monossacarídeos: as unidades que o intestino absorve sem quebrar”, “Dissacarídeos: duas unidades, uma ligação glicosídica e uma água a menos” e “Polissacarídeos: a mesma glicose em quatro materiais”. Assista depois de ler essas seções e monte a sua própria tabela de polissacarídeos, com organismo e função.
DETECÇÃO DE AMIDO NOS ALIMENTOS
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Aplicação. Em menos de três minutos, o projeto Laboratório na Rede, do Colégio de Aplicação João XXIII, com apoio da Universidade Federal de Juiz de Fora, mostra o teste do iodo em vários alimentos: onde há amido, a região que recebe a gota fica azulada. É a parte prática da seção “Lugol e Benedict: como o laboratório escolar enxerga um carboidrato”. Antes de cada gota, pause e preveja a cor; depois pergunte o que um resultado negativo permite e não permite concluir.
Resolução de QUESTÕES CARBOIDRATOS Bioquímica ENEM - Melhores exercícios - Luix Nascimento Biologia
Luix Nascimento Biologia · 22:50
Resolução de questões. Em 23 minutos, o professor resolve questões de vestibulares e do ENEM sobre carboidratos; a descrição do vídeo reproduz os enunciados, entre eles um do ENEM de 2014 sobre meio de cultura com xarope de caju, um da UEMA sobre polissacarídeos e um da Unifor sobre a reserva das fibras musculares. Use depois da seção “Como a prova cobra: oito itens reais, quatro certos e quatro errados”: pause em cada enunciado, identifique organismo, função e molécula e só então compare com a resolução.
Rota PAS 1
Bioquímica da vida: compostos, enzimas e fermentação · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Bioquímica da vida: compostos, enzimas e fermentação · Antes de começar: dez minutos de aquecimento (monômero e polímero, quilocalorias por grama); Carboidratos: a energia de uso imediato (classificação, três polímeros de glicose, item 2022/70); Lipídios e vitaminas (item 2012/35, citado pela comparação de energia por grama); Como a banca cobra este capítulo (histórico: 2014/68); Exercícios 2 e 8; Banco de treino T4 (PAS 1 2014, item 68), T5, T6 e T11

    Recorte por assunto: só carboidratos. Água e sais, lipídios e vitaminas, proteínas e enzimas, respiração e fermentação, do mesmo capítulo, ficam nas páginas próprias. A página acrescenta, ausentes do capítulo: os limites da fórmula geral, pentoses, maltose, quitina, ligações alfa e beta, açúcares redutores e os testes de lugol e Benedict, lactase e persistência da lactase, rotulagem nutricional e destinos da glicose.

  • Rota PAS 3 — Citologia e bioquímica: a célula em funcionamento · De que a vida é feita: as quatro famílias de compostos orgânicos (monossacarídeos absorvidos sem hidrólise, lactose e lactase, celulose como fibra); Leia como na prova: o bloco do cupuaçu (texto-base integral da prova de 2025 e item 69); Como a banca cobra (item 2023/118, lignina no lugar da celulose)

    Fonte do item PAS 3 2025/69, reproduzido com o texto-base e o comando originais. O item 2023/118 pertence à página de teoria celular e é reusado por GUID.

  • Biologia EM1 — Capítulo 3: A química da vida I (água, sais, açúcares e gorduras) · O que a tabela do rótulo conta e o que ela esconde (fatores 4, 4 e 9 kcal/g; rotulagem frontal; Guia Alimentar); Carboidratos: do tijolo à parede (lugol e a batata; mono, di e polissacarídeos; lactase e intolerância; amido, glicogênio, celulose e quitina; por que carboidrato não é doce; leitura do experimento do lugol; batata, maçã e refrigerante)

    Fonte da estrutura da seção de testes e da discussão de doçura. Os números foram reconferidos nas fontes primárias (IN 75/2020 e RDC 429/2020 da Anvisa, TACO, OMS, Guia Alimentar); onde o capítulo diverge delas, a página segue a fonte primária.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 3 (itens reais com textos-base) · Texto-base II (PAS 1 2014, Censo Agropecuário e agricultura familiar) e item 68; gabarito comentado

    Fonte do texto-base integral e do comando do item PAS 1 2014/68. Os itens 57, 58 (água), 69 (colesterol), 32 a 35 de 2012 (gorduras) e 37 de 2011 (vitaminas), do mesmo bloco, pertencem a outras páginas.

  • Biologia EM1 — Respostas do Capítulo 3 · Checagens 6 e 7; exercícios 4, 5, 11, 12 e 15

    Conferência de gabaritos e de distratores.

  • Rota PAS 2 — Parte II, Biologia: fungos · Fungos: item real PAS 2 2020/60 (parede de quitina e reserva de glicogênio)

    O item é citado na teoria; não virou questão desta página porque o tema dele é da página de fungos.

  • Rota PAS 2 — Parte IV, Biologia: animais · Artrópodes (item real PAS 2 2019/80, exoesqueleto de quitina); Como a banca cobra (item real PAS 2 2016/79, rúmen)

    Itens citados na teoria em trechos literais; dependem de texto ou de prancha de figuras do caderno e pertencem a outros temas.