As cidades voltam: comércio, burguesia e a crise do feudalismo

Guia de estudo · Revisado em 21/10/2026

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A pergunta desta aula

Por que, por volta de 1250, uma Europa de senhores e servos passou a cunhar ouro, erguer catedrais e emprestar a juros, e por que esse mesmo mundo, um século depois, enterrou um terço dos seus habitantes em cinco anos? A cidade medieval e as suas rotas respondem às duas perguntas, e são elas que a prova cobra como "crise do feudalismo".

O que você vai aprender

  • Explicar de onde saiu o excedente que sustentou o renascimento urbano e comercial dos séculos XI a XIII (crescimento demográfico, arroteamentos, mercados), com as estimativas de população e suas fontes, e reconhecer que a cidade medieval nasceu do campo e dentro do senhorio.
  • Descrever os três circuitos comerciais (Hansa, feiras de Champagne, Gênova e Veneza), o que circulava em cada direção, como eles se encaixavam nas rotas do mundo islâmico e por que a mesma rede transportou mercadorias, dinheiro e doenças.
  • Explicar a volta da moeda de ouro, a letra de câmbio, os bancos italianos e a condenação da usura pela Igreja, e distinguir o tempo do mercador do tempo da Igreja (Le Goff), com o sino de trabalho, o relógio mecânico e o Purgatório.
  • Distinguir as três vias de obtenção da franquia (compra, negociação, tomada) e caracterizar a comuna como governo de patriciado dentro da ordem feudal, com o alcance e os limites do "ar da cidade liberta".
  • Descrever a corporação de ofício (aprendiz, oficial, mestre; estatutos, jurados, confraria) e dizer o que ela não era (sindicato, livre concorrência, trabalho servil), e quem ficava fora dela (mulheres, judeus, povo miúdo).
  • Ler a carta de Lorris (1155), um estatuto do Livro dos Ofícios de Paris (c. 1268) e a abertura do Decameron (1349–1353) como fontes, no esquema observar, hipotetizar, contextualizar, corroborar, e dizer o que cada uma não permite concluir.
  • Situar universidades e catedrais góticas como obras da cidade (a universidade como corporação; quem pagava a catedral), e reconhecer esse enquadramento nos itens do ENEM de 2015, 2024 e 2024 PPL.
  • Reconstituir a crise do século XIV (Grande Fome de 1315–1317, Peste Negra de 1347–1351 e sua difusão pelas rotas, explicações da época, flagelantes e massacres de judeus, Estatuto dos Trabalhadores, Jacquerie, Ciompi, revolta de 1381, Grande Cisma, Guerra dos Cem Anos) e o que mudou depois: recuo da servidão no Ocidente e segunda servidão no Leste.
  • Apresentar o debate historiográfico (Pirenne contra Duby e Verhulst sobre a origem das cidades; Postan, Bois, Brenner, Dobb e Sweezy, Le Goff e Wickham sobre crise e transição) e distinguir crise do feudalismo de fim do feudalismo.
  • Julgar itens no molde do PAS e do ENEM sobre cidades, comércio e crise, identificando o erro plantado: cronologia invertida (peste antes do comércio), absolutização (erradicado, substituído), anacronismo (burguesia capitalista, sindicato, ratos, Renascimento em 1348), cidade oposta ao campo.

Em 1277, uma galé genovesa entrou pela primeira vez no porto de Bruges, em Flandres, depois de contornar a Península Ibérica e subir o Atlântico. Trazia alume (o fixador de tintas sem o qual nenhum pano colorido valia dinheiro), especiarias, seda e sacos de moedas; levaria de volta panos de lã, arenque salgado e, a partir de uma banca montada numa praça da cidade, papéis assinados que valiam ouro em Gênova sem que uma única moeda cruzasse o mar. Quem pagou a viagem foram sócios que nunca saíram de casa; quem cobrou a entrada foi a comuna de Bruges, dona das suas próprias portas; quem lucrou foram tecelões, cambistas, taberneiros e o conde de Flandres, que recebia uma parte de tudo. Setenta anos depois, em janeiro de 1348, outra galé genovesa, vinda do mar Negro, entrou no porto de Gênova com a carga de sempre e com uma a mais, que ninguém via: a bactéria da peste. Em três anos, ela percorreria exatamente o mapa das rotas que a primeira galé tinha ajudado a desenhar.

Essas duas viagens resumem a página. Entre os séculos XI e XIII, uma Europa de senhores, servos e aldeias viu voltar o que quase desaparecera desde o fim de Roma: cidades populosas, comércio de longa distância, moeda de ouro, crédito, escolas que viraram universidades e canteiros de catedrais. Nasceu com isso um grupo social que não cabia na sociedade das três ordens, a burguesia dos burgos, com o seu tempo, os seus tribunais e o seu dinheiro. E foi por essa mesma rede, densa e integrada, que o século XIV trouxe a fome, a peste, a guerra e as revoltas que abalaram a ordem senhorial sem destruí-la de uma vez. O que a prova chama de “crise do feudalismo” é esse processo longo, e o erro mais comum nos itens é tratá-lo como ruptura instantânea, ou como se a cidade tivesse nascido contra o feudo. Ela nasceu dentro dele, e dele viveu por muito tempo.

O vocabulário que a prova supõe sabido

Burgo, burguesia, comuna, corporação, feira, usura: as palavras que decidem itens

Burgo é a cidade cercada de muros (do germânico burg, fortaleza); burguês, quem mora dentro deles e tem direitos ali, isto é, o mercador e o mestre artesão cuja riqueza é dinheiro, mercadoria e casa, não terra e homens. Na Idade Média, “burguesia” nomeia esse grupo urbano novo, diverso e hierarquizado; não é ainda a classe industrial que a palavra designará no século XIX, e o item que mistura as duas comete anacronismo.

Renascimento comercial e urbano é o nome dado à retomada, entre os séculos XI e XIII, das trocas de longa distância, das feiras e das cidades, numa Europa em que a economia, sem nunca ter deixado de trocar, era sobretudo agrária e local. “Renascimento” aqui não tem nada a ver com o movimento artístico italiano do século XV; a prova gosta de pôr os dois juntos para ver quem confunde.

Comuna é a cidade que obteve do senhor (bispo, conde, rei) o direito de se governar: tribunal próprio, milícia, imposto, selo, sino. O documento que registra esse direito é a carta de franquia (ou carta comunal, foral, fuero), comprada, negociada ou arrancada à força. Franquia vem de “franco”, livre: o burguês é franco das obrigações servis.

Corporação de ofício (em outras línguas, guilda, arte, métier) é a associação obrigatória dos mestres de uma profissão numa cidade, com estatutos que fixam quem pode exercer o ofício, como se aprende (aprendiz, oficial, mestre), a que preço e com que qualidade se vende. Confraria é a irmandade religiosa que, em geral, dobra a corporação: o mesmo grupo, sob um santo padroeiro.

Feira é o mercado periódico e privilegiado, de duração longa (semanas), protegido por um senhor que garante a paz e cobra taxas; o mercado semanal da cidade é outra coisa. As feiras de Champagne foram, no século XIII, o ponto de encontro entre o norte têxtil e o sul mercantil.

Letra de câmbio é o papel pelo qual um mercador recebe dinheiro numa praça e promete pagá-lo, em outra moeda, em outra praça e em outra data, a quem o portar: resolve ao mesmo tempo o transporte do dinheiro, o câmbio e, disfarçado no câmbio, o juro. Banco vem da banca de madeira em que o cambista trabalhava; usura, no vocabulário da Igreja, é qualquer juro sobre empréstimo de dinheiro, pecado condenado pelos concílios de 1179 e 1215.

Baixa Idade Média é o nome dado, na periodização corrente no Brasil, aos séculos XI a XV, por oposição à Alta Idade Média (V a X); na historiografia francesa fala-se em “Idade Média central” (XI–XIII) e “fim da Idade Média” (XIV–XV). Crise do feudalismo ou crise do século XIV é o conjunto de fome, peste, guerra, revoltas e queda das rendas senhoriais entre 1315 e meados do século XV; transição do feudalismo ao capitalismo é o nome de um debate historiográfico sobre como a economia mercantil e a monetária corroeram a ordem senhorial, que se estende do século XIV ao XVIII.

Primeiro o campo, depois a cidade: de onde saiu o excedente

Nenhuma cidade se alimenta a si mesma. Para que dezenas de milhares de pessoas vivam de tecer, trocar e rezar, é preciso que o campo produza mais do que come, e que esse excedente chegue ao mercado. O ponto de partida do renascimento urbano está, portanto, fora da cidade: na expansão agrária que a página sobre o feudalismo descreve pelo lado da técnica (charrua pesada, colar de tração, rotação trienal, moinho d’água) e que aqui interessa pelo lado dos números e do espaço.

Os números são estimativas, não censos, e vale saber de onde vêm. Colin McEvedy e Richard Jones, no Atlas of World Population History (1978), calculam para a Europa inteira cerca de 36 milhões de habitantes no ano 1000, 58 milhões em 1200 e 79 milhões em 1300; Josiah Russell (1972), somando estimativas regionais a partir de registros fiscais e senhoriais, chega a 38,5 milhões em 1000 e 73,5 milhões em 1340. As duas séries discordam no detalhe e concordam no essencial: a população europeia dobrou em três séculos. O espaço acompanhou. Entre 1050 e 1300, as florestas recuaram diante dos arroteamentos (do francês essart, “desbravar”): monges cistercienses drenaram vales, condes de Flandres e da Holanda construíram diques e pôlderes, senhores alemães chamaram colonos para a terra além do Elba (a Ostsiedlung, com aldeias novas de nome “Nova-”, “Neu-”), e reis ibéricos repovoaram as terras tomadas ao al-Andalus com forais que prometiam liberdade a quem viesse. Mais terra, mais gente, mais colheita: o excedente que sobrava depois do dízimo, da talha e da semente ia para o mercado da vila mais próxima, e de lá, por rios e estradas, para as feiras.

Aqui está a primeira regra que a prova cobra sob várias formas: a cidade medieval não se separou do campo, viveu dele. O item do ENEM de 2019 que descreve a cidade como “sociedade da abundância concentrada num pequeno espaço em meio a vastas regiões pouco povoadas” (Le Goff e Schmitt) e o de 2024 que lê, em Duby, as catedrais como “fruto do campo”, esculpidas com bois e videiras, cobram a mesma coisa de dois lados. E a alternativa que fala em “independência da produção alimentar dos campos” é a que cai.

"Diminuição demográfica" como causa do renascimento comercial

Um vestibular (UFU, 2019) listou entre os possíveis fatores do renascimento comercial “uma forte diminuição demográfica, causada pela peste negra e pelas invasões bárbaras”. É uma armadilha dupla: a cronologia está invertida (a peste é de 1347, dois séculos depois do renascimento comercial, e as invasões, dos séculos V e IX–X, são anteriores a ele) e a causa está invertida (foi o crescimento da população, não a sua queda, que alimentou cidades e feiras). Quando um item junta peste e renascimento comercial na mesma frase, confira a ordem: o comércio cresce primeiro, a peste viaja por ele depois.

Rotas: o mar do Norte, Champagne e o Mediterrâneo

O mapa das rotas (figura) mostra três circuitos que, por volta de 1250, se encaixavam uns nos outros.

No norte, a Hansa. A palavra significa “bando”, “companhia”, e designou primeiro as associações de mercadores alemães que negociavam em Gotland, Londres e Novgorod, depois a liga das próprias cidades, com Lübeck à frente (refundada em 1159; o pacto de Lübeck com Hamburgo, em 1241, é tido como o embrião da liga; a primeira dieta geral, a Hansetag, reuniu-se em 1356). A Hansa tinha entrepostos (Kontore) em Bruges, Londres (o Steelyard), Bergen e Novgorod, e dominava o comércio do arenque do Báltico, do sal de Lüneburg, da madeira, do âmbar, da cera, das peles russas e dos cereais prussianos, trocados por panos de Flandres e lã inglesa. No auge, no fim do século XIV, derrotou o rei da Dinamarca e lhe impôs, pela paz de Stralsund (1370), o controle das fortalezas que vigiavam o estreito do Sund. Era uma potência sem rei, feita de cidades.

No centro, as feiras de Champagne. Em quatro cidades (Troyes, Provins, Lagny e Bar-sur-Aube), sob a proteção dos condes de Champagne, que vendiam salvo-condutos e garantiam a paz da estrada, seis feiras de cerca de seis semanas cada uma cobriam quase o ano inteiro. Para lá desciam os panos de Flandres, de Arras, de Ypres e de Gand; para lá subiam, pelos passos dos Alpes, os mercadores de Gênova, de Siena, de Luca, de Florença, com especiarias, seda, alume e dinheiro. As feiras tinham um calendário fixo: primeiro os panos, depois os couros, depois as “mercadorias de peso”, e, no fim, os dias do pagamento, em que os cambistas italianos acertavam contas e emitiam as letras que seriam pagas na feira seguinte. Por volta de 1300, as feiras decaíram: as galés genovesas passaram a ir direto a Bruges pelo Atlântico (desde 1277), o rei da França passou a taxá-las, a guerra entre França e Flandres interrompeu a estrada, e as praças de Lyon e Genebra, mais ao sul, herdaram a função.

No sul, Gênova e Veneza, cidades-Estado governadas por mercadores. Veneza obteve do imperador bizantino, em 1082, isenção de taxas em todo o império em troca de apoio naval; em 1204 desviou a Quarta Cruzada contra Constantinopla e ficou com “um quarto e meio” do Império, isto é, com as ilhas e portos de que precisava, de Creta a Negroponte. Gênova, rival de Pisa (derrotada na batalha naval de Meloria, 1284) e de Veneza (guerras de 1256 a 1381), instalou-se em Caffa, na Crimeia, em 1266, e em Pera, diante de Constantinopla, de onde controlava o trigo, os escravos e as peles do mar Negro e o alume de Foceia, na Anatólia. As duas vendiam à Europa o que vinha de mais longe: pimenta, cravo, canela, seda e algodão comprados em Alexandria, Acre e Constantinopla a mercadores muçulmanos, judeus e bizantinos, que por sua vez os tinham trazido do Índico, do Golfo Pérsico e da Ásia Central. O comércio europeu não nasceu sozinho: encaixou-se nas rotas mais antigas e mais ricas do mundo islâmico, e dependia delas.

O que circulava, em que direção, e por que isso importa para os itens

Do norte para o sul: lã crua da Inglaterra, panos de Flandres e do norte da França, arenque, sal, madeira, peles, cera, âmbar, cereais. Do sul para o norte: especiarias, seda, algodão, alume, açúcar, vidro de Veneza, ouro cunhado, e os serviços dos cambistas. Do mundo islâmico e bizantino para a Itália: o próprio Oriente. O item do PAS de 2008 que lê, a partir de telas de Canaletto, “a Itália que, em boa parte da Europa medieval, manteve ativo comércio, praticamente monopolizando o mar Mediterrâneo” foi dado como certo, com duas ressalvas que a resolução precisa fazer: “Itália” ali é a região, não um Estado (que só existirá em 1861), e “monopolizando” vale para o trecho europeu das rotas, não para o mar inteiro, onde Bizâncio, o Egito mameluco e Túnis continuavam a navegar. O item de 2020 que associa Gênova e Veneza às rotas Mediterrâneo–Oriente e à circulação de “mercadorias, pessoas e doenças” também foi dado como certo: o mesmo mapa serve ao comércio e à epidemia.

Moeda, crédito e o pecado da usura

Durante séculos, a Europa latina cunhara apenas prata, e pouca. O ouro voltou com o comércio: Gênova cunhou o genovino e Florença o florim em 1252, Veneza o ducado em 1284. Moeda boa, de peso e título estáveis, era um instrumento de confiança: o florim valia o mesmo em Bruges e em Alexandria, e por isso virou a moeda de conta do comércio internacional. Mas transportar ouro era caro e perigoso, e a solução foi tirar o dinheiro da estrada. A letra de câmbio, aperfeiçoada pelos italianos nas feiras de Champagne, fazia um mercador em Gênova entregar florins a um banqueiro e receber uma carta pela qual o correspondente desse banqueiro, em Bruges, pagaria a soma em libras de Flandres ao sócio do mercador, três meses depois. A diferença entre as duas moedas e o prazo escondiam o juro, e era assim que o crédito atravessava a Europa sem transgredir, na letra, a proibição da Igreja.

Porque a Igreja proibia. O Terceiro Concílio de Latrão (1179) negou sepultura cristã aos usurários; o Quarto (1215) e o Segundo de Lyon (1274) endureceram as penas. Usura, para os teólogos, era qualquer ganho sobre o empréstimo de dinheiro, porque o dinheiro, dizia Aristóteles lido pelos escolásticos, não gera dinheiro, e porque cobrar pelo tempo era vender algo que só pertence a Deus. Na prática, o crédito era indispensável e a proibição foi contornada de várias maneiras: pela letra de câmbio, pelos contratos de sociedade em que o investidor “participava” do risco (a commenda marítima), pela cobrança de “multa por atraso”, e, acima de tudo, pelo deslocamento do ofício para quem estava fora da comunidade cristã. Os judeus, excluídos das corporações e da posse de terra, foram empurrados para o empréstimo a juros e depois acusados por exercê-lo; os reis os protegiam enquanto os taxavam e os expulsavam quando lhes convinha confiscar os créditos (Inglaterra, 1290; França, 1306 e 1394). Os “lombardos” e os “caorsinos”, banqueiros cristãos da Itália e de Cahors, também emprestavam, e com juros que iam de 20 a mais de 40 por cento ao ano, protegidos por licenças compradas aos príncipes.

Os grandes bancos florentinos, Bardi e Peruzzi, financiaram reis e papas com os depósitos de centenas de famílias e com os lucros do comércio da lã; quando Eduardo III da Inglaterra, no início da Guerra dos Cem Anos, deixou de pagar o que devia, as duas casas quebraram (1343–1346), levando consigo as economias de meia Florença. O episódio ensina o que o vocabulário “banco” e “bancarrota” guarda: a banca quebrada do cambista falido. E ensina também o limite do crédito medieval: não existia banco central, nem moeda fiduciária, nem Estado que socorresse; o risco era pessoal, e a fé pública era a reputação da família.

O tempo do mercador contra o tempo da Igreja

Jacques Le Goff observou, num artigo de 1960, que o mercador introduziu na Europa cristã uma maneira nova de contar o tempo. Para a Igreja, o tempo pertencia a Deus: era marcado pelos sinos das horas canônicas (matinas, laudes, vésperas), pelas festas e pelos jejuns, e não podia ser vendido, razão última da condenação da usura. Para o mercador, o tempo era a medida do lucro: um empréstimo rendia conforme os meses, um navio chegava ou não antes da feira, uma jornada de trabalho tinha começo e fim que valiam salário. A partir do fim do século XIII, as cidades têxteis de Flandres e da Itália instalaram sinos de trabalho (a Werkglocke) que tocavam o início, as pausas e o fim da jornada, e, por volta de 1300–1350, o relógio mecânico apareceu nas torres comunais, batendo horas iguais, de sessenta minutos, independentes do nascer do sol e da oração. Le Goff não disse que um tempo expulsou o outro: disse que passaram a conviver e a disputar, e que, para absolver o mercador, a Igreja acabou inventando-lhe um lugar, o Purgatório, formalizado pelos teólogos entre 1170 e 1250, onde a usura podia ser expiada depois da morte sem fechar o céu ao usurário arrependido. O vestibular (IF-BA, 2019) citou outro trecho de Le Goff sobre isso: a cidade, “por sua lógica econômica fundada mais no dinheiro do que na terra”, impôs “outro ideal de hierarquia horizontal, do tempo, do trabalho e do cálculo”, e podia “minar por dentro o sistema feudal”, mas “foi preciso esperar pela revolução industrial” para que ele virasse capitalismo.

Comuna e carta de franquia: a cidade compra, negocia ou toma o direito de se governar

Toda cidade medieval nasceu em terra de alguém: de um bispo, de um conde, de uma abadia, do rei. O senhor cobrava pedágio nas portas, julgava no seu tribunal, exigia corveias e taxas como de qualquer aldeia. Mas uma população de mercadores e artesãos, que vivia de contratos e de prazos, precisava de outra coisa: de um tribunal que entendesse de dívidas, de um imposto previsível, de muros que ela mesma guardasse, de liberdade de ir e vir. A partir do fim do século XI, as cidades obtiveram isso de três maneiras, e a prova gosta de testar se o aluno sabe que as três existiram.

A primeira foi comprar. Em 1155, Luís VII da França confirmou os costumes de Lorris, uma vila do seu domínio, numa carta que fixava o censo da casa em seis dinheiros por ano, isentava os moradores de pedágio sobre os próprios víveres, limitava o serviço militar a expedições de que se pudesse voltar no mesmo dia e dava liberdade a quem vivesse ali um ano e um dia sem ser reclamado. Essa carta foi copiada por dezenas de vilas do centro da França; era o modelo do que um rei vendia a quem lhe pagasse. Na Península Ibérica, os fueros castelhanos e os forais portugueses faziam o mesmo nas terras de fronteira, onde o povoador era escasso e a liberdade, o preço de atraí-lo.

A segunda foi negociar sob pressão. Em Flandres, depois do assassinato do conde Carlos, o Bom, em 1127, as cidades de Bruges, Gand, Saint-Omer e Ypres venderam o seu apoio aos candidatos ao condado em troca de cartas que lhes garantiam tribunal próprio e isenções; quem não cumpriu, o conde Guilherme Clito, foi derrubado por elas no ano seguinte. Na Itália do norte, as cidades foram mais longe: Pisa, Milão, Gênova e dezenas de outras elegiam cônsules desde o fim do século XI, e, quando o imperador Frederico Barba-Ruiva tentou retomar os direitos régios (as regalia) sobre elas, formaram a Liga Lombarda (1167), venceram-no em Legnano (1176) e lhe arrancaram, pela paz de Constança (1183), o reconhecimento da sua autonomia. Eram cidades-Estado, com território, moeda, exército e política externa; a palavra comune é delas.

A terceira foi tomar. Laon, no norte da França, teve bispo-senhor até 1112, quando o bispo Gaudry, que tinha vendido uma carta comunal aos burgueses e depois a comprado de volta do rei para anulá-la, foi caçado dentro da própria catedral e morto por uma multidão; a cidade foi saqueada em represália e só obteve uma carta definitiva em 1128. O abade Guibert de Nogent, que viveu os acontecimentos, chamou a comuna de “nome novo e detestável”, e a frase vale como lembrete de que o movimento comunal foi, para a Igreja e para a nobreza, uma afronta: homens de dinheiro jurando entre si, sem senhor acima.

Em todos os casos, a comuna não era uma democracia. Governavam os mais ricos, o patriciado de mercadores e, mais tarde, os mestres das corporações maiores; o “povo miúdo” (popolo minuto, menu peuple) de oficiais, diaristas e pobres não votava e, quando se revoltou, no século XIV, foi contra esse governo de burgueses, não contra o senhor feudal. E a comuna não era antifeudal: jurava fidelidade ao rei ou ao conde, pagava-lhe anualmente a confirmação da carta, servia-lhe com a sua milícia, e com frequência era ela própria senhora de aldeias ao redor, com servos, banalidades e tribunal. O que a cidade corroía na ordem senhorial não era a hierarquia; era o monopólio da terra como fonte de poder.

"O ar da cidade liberta": costume, não lei universal

Stadtluft macht frei, “o ar da cidade liberta”, é um provérbio jurídico alemão que resume uma regra de muitas cartas: o servo que viver na cidade um ano e um dia sem ser reclamado pelo senhor torna-se livre. O item que a transforma em “lei geral da Europa” erra duas vezes. Primeiro, porque a regra valia onde a carta a previa, e muitos senhores a contestaram, com cláusulas que obrigavam a cidade a devolver o fugitivo. Segundo, porque a liberdade comprada não era igualdade: o ex-servo chegava sem ofício, sem corporação e sem casa, e ficava na margem da cidade que o libertara. Em Bolonha, em 1256–1257, a comuna fez o contrário do provérbio: comprou dos senhores do contado a liberdade de cerca de seis mil servos e registrou-os num livro chamado, sem modéstia, Liber Paradisus, o Livro do Paraíso. A liberdade foi uma operação fiscal: os libertos passaram a pagar impostos à cidade.

Leitura de fonte 1: a carta de Lorris (1155), lida contra o grão

Um rei da França, Luís VII, confirma aos habitantes da vila de Lorris, no Gâtinais, os costumes que o seu pai lhes concedera. O documento tem 35 artigos; estes são alguns, em tradução adaptada do latim: “Quem tiver casa na paróquia de Lorris pagará por ela, e por cada arpento de terra que ali possuir, seis dinheiros de censo ao ano. Nenhum habitante da paróquia de Lorris pagará pedágio nem qualquer outra taxa sobre os seus víveres, nem sobre o que colher com o seu trabalho. Nenhum deles irá a expedição militar, a pé ou a cavalo, da qual não possa voltar à sua casa no mesmo dia, se quiser. Nenhum deles fará corveia para nós, exceto levar o nosso vinho a Orléans duas vezes por ano. Ninguém será preso se puder dar fiança de que se apresentará em juízo. Quem viver um ano e um dia na paróquia de Lorris sem que ninguém o reclame ficará livre ali, a não ser que tenhamos proibido a sua permanência.”

Observar. O que a carta regula são taxas e serviços: o censo da casa (seis dinheiros, uma quantia simbólica), o pedágio, a corveia, o serviço militar, a prisão. Cada artigo começa com uma negação ou um limite (“nenhum”, “exceto”, “não irá”), isto é, a carta é uma lista de coisas que o senhor renuncia a exigir. E ela tem uma cláusula final de porta aberta, o ano e um dia, com uma reserva: o rei pode proibir alguém de ficar.

Hipotetizar. Se o rei lista o que não vai cobrar, é porque antes cobrava, ou porque outros senhores cobram. A carta é um anúncio dirigido a quem está fora: venha para Lorris, aqui o senhor é o rei e o rei é barato. A cláusula do ano e um dia confirma a hipótese: é um convite ao servo de outro senhor. Lorris não é uma grande cidade, é uma vila agrícola; a carta não cria uma comuna com cônsules, cria uma população de homens livres que paga pouco e produz para o mercado.

Contextualizar. Luís VII governa um domínio pequeno, cercado de senhores mais ricos do que ele; a sua arma é a terra que povoa e o direito que concede. Lorris fica numa região de arroteamentos, perto da estrada de Orléans, a cidade onde o vinho do rei é vendido (daí a única corveia que sobra). A carta foi copiada por mais de oitenta vilas da Île-de-France e do Orléanais no século seguinte, e serviu de modelo ao que o rei vendia. É um documento do crescimento, não da crise: nasce num mundo em que faltam braços e sobram terras.

Corroborar. O texto sobrevive em cópias de confirmações posteriores, e é a comparação entre elas que permite datá-lo e reconstruí-lo; os historiadores do direito (Maurice Prou editou e estudou os costumes de Lorris em 1884) cruzaram a carta com as de vilas vizinhas para medir o que era comum e o que era de Lorris. Os registros fiscais do domínio real confirmam o censo de seis dinheiros.

E as outras leituras? “A carta aboliu o feudalismo em Lorris”: cai, porque o rei continua senhor, cobra censo, exige a corveia do vinho e reserva o direito de expulsar; o que muda é o preço e a previsibilidade, não a existência do senhor. “A carta prova que os camponeses conquistaram direitos pela luta”: cai, porque não há aqui nenhuma revolta; a liberdade foi concedida como política de povoamento. “O ano e um dia era a regra da Europa”: cai, porque esta é uma carta real, e os senhores vizinhos não estavam obrigados a aceitar a fuga dos seus servos para Lorris; a cláusula só vale dentro da paróquia. O que a fonte não diz: quantos vieram, quantos ficaram, e se a vila prosperou mais que as vizinhas sem carta. Para a prova, a lição é esta: franquia é um contrato com o senhor, não a sua negação.

Corporações de ofício: mestre, oficial, aprendiz

Dentro dos muros, o trabalho se organizava por ofício. Não existia, na cidade medieval, o mercado livre de trabalho em que qualquer um abre uma loja e contrata quem quiser: para tecer, tingir, assar pão, ferrar cavalos ou ourivesar em Paris, Bruges ou Florença, era preciso pertencer à corporação do ofício, aceitar os seus estatutos e submeter-se aos seus jurados. O esquema (figura) resume a escada. Na base, o aprendiz, menino de dez a catorze anos entregue por contrato ao mestre por um prazo que ia de dois a doze anos conforme o ofício, morando e comendo na casa dele, sem salário ou quase; no meio, o oficial (ou companheiro), formado, que recebia salário por dia ou por peça e podia mudar de oficina e de cidade, mas não abrir a sua; no topo, o mestre, dono da oficina e das ferramentas, que vendia em seu nome, votava na assembleia do ofício e podia ter aprendizes. Subia-se de aprendiz a oficial pelo tempo cumprido, e de oficial a mestre pela obra-prima aprovada pelos jurados, pelo pagamento de uma taxa e pela existência de uma vaga.

O que os estatutos fixavam era, em essência, a ausência de concorrência: preços e salários, horário (do nascer ao pôr do sol; o trabalho noturno era proibido, por causa da má luz, do risco de incêndio e da fraude que a escuridão permitia), qualidade (medidas, matéria-prima, marca do mestre; a peça defeituosa era destruída em público), número de aprendizes e de oficiais por mestre, proibição de atrair o cliente do vizinho ou de vender mais barato. A cidade ou o rei confirmavam os estatutos e cobravam por isso; em Paris, por volta de 1268, o preboste Étienne Boileau mandou registrá-los no Livro dos Ofícios, que reúne os regulamentos de cerca de cem profissões e é a fonte mais rica que temos sobre o trabalho urbano do século XIII.

Vale insistir no que a corporação não era, porque os itens vivem disso. Não era um sindicato: reunia os mestres, isto é, os patrões, e os oficiais e aprendizes estavam nela como subordinados, não como sócios. Não era “livre concorrência”: era o seu contrário organizado. E o trabalho que ela regulava era livre, no sentido jurídico: o oficial recebia salário e podia partir; não era servo, preso à terra, nem escravo, propriedade de alguém. O item do ENEM de 2013 que lê, no poema de Chrétien de Troyes sobre as tecelãs de seda, “uso da coerção no mundo do trabalho artesanal” cobra exatamente a distinção: as moças são ameaçadas de pancada, trabalham noite e dia e enriquecem o patrão, mas são assalariadas (“com os nossos salários enriquece aquele para quem trabalhamos”); a coerção é econômica e física, não servil.

Quem fica fora: mulheres, judeus e o "povo miúdo"

A corporação era uma porta estreita, e quem ficava do lado de fora conta tanto quanto quem entrava. As mulheres apareciam em quase todos os ofícios como esposas, filhas e viúvas de mestre (a viúva podia, em muitos estatutos, manter a oficina e os aprendizes); poucas corporações eram delas, e as que havia concentravam-se no trabalho da seda: em Paris, as fiandeiras e as tecelãs de seda tinham estatutos próprios, e os róis da talha de 1292 e 1313, estudados por David Herlihy (Opera Muliebria, 1990), registram mulheres contribuintes com ofício declarado numa grande variedade de profissões, da fiação à barbearia. Mas a regra era a exclusão do grau de mestre, e as tecelãs do poema de Chrétien, que “sempre tecem panos de seda e nem por isso se vestem melhor”, são o retrato de uma mão de obra feminina, assalariada e sem corporação. Os judeus estavam fora de todos os ofícios cristãos, por estatuto, e por isso concentrados no crédito e no comércio miúdo; o Quarto Concílio de Latrão (1215) impôs-lhes um sinal distintivo na roupa. O povo miúdo, carregadores, diaristas, cardadores de lã, serventes de pedreiro, era a maioria da cidade e não pertencia a corporação nenhuma: em Florença, em 1378, os cardadores de lã, os Ciompi, tomaram o governo por seis semanas pedindo exatamente o direito a uma corporação própria. Para a prova, a lição é dupla: a cidade medieval era hierarquizada como o campo, com outra hierarquia; e a palavra “burguesia” nunca designa todos os que viviam na cidade.

Leitura de fonte 2: um estatuto de corporação (Paris, c. 1268)

Do Livro dos Ofícios de Paris, os estatutos dos tecelões de lã, em tradução adaptada do francês antigo: “Ninguém pode ser tecelão de lã em Paris se não comprar o ofício do rei. Cada tecelão pode ter em sua casa dois teares largos e um estreito, e os filhos do mestre, nascidos de casamento legítimo, podem ter cada um dois teares em casa do pai, desde que saibam trabalhar com as próprias mãos. Nenhum mestre pode ter mais de um aprendiz, e não o pode tomar por menos de quatro anos de serviço e quatro libras parisis, ou cinco anos e sessenta soldos, ou seis anos e vinte soldos, ou sete anos sem dinheiro. Ninguém do ofício pode começar a trabalhar antes do nascer do sol, sob pena de multa; nem trabalhar de noite. Os tecelões devem cessar o trabalho às vésperas no sábado e nas vigílias das festas. Os jurados do ofício, eleitos entre os mestres, guardam o ofício pelo rei, e as multas são divididas entre o rei e a confraria.”

Observar. Quatro coisas estão reguladas: o acesso (comprar o ofício do rei), a escala (dois teares largos e um estreito, com exceção para os filhos do mestre), a formação (um aprendiz por mestre, com uma tabela que troca anos por dinheiro) e o tempo (nada antes do sol, nada à noite, nada no sábado à tarde). E duas autoridades aparecem: o rei, que vende o ofício e recebe metade das multas, e os jurados, mestres eleitos que fiscalizam.

Hipotetizar. Limitar teares e aprendizes só faz sentido se alguém quer crescer mais do que os outros: o estatuto é um freio contra o mestre ambicioso e, ao mesmo tempo, uma garantia de que haverá trabalho para todos os mestres existentes. A exceção para os filhos é a semente do fechamento: a oficina tende a virar herança, e o oficial sem pai mestre tende a não subir. A tabela do aprendizado mostra que o tempo se compra com dinheiro, e que o pobre paga com anos.

Contextualizar. Paris por volta de 1268 é a maior cidade da Europa cristã (talvez duzentos mil habitantes), com um rei, Luís IX, que faz do registro dos ofícios um instrumento de ordem e de renda. O tecelão de lã parisiense é um pequeno produtor, não um empresário: os grandes panos vêm de Flandres, onde mercadores-empresários distribuem a lã a centenas de tecelões e recolhem o pano (o sistema que os historiadores chamam de Verlag, ou “trabalho a domicílio”). O estatuto de Paris protege o pequeno contra o grande; o de Gand ou de Ypres protegeria o grande contra o pequeno.

Corroborar. O Livro dos Ofícios sobreviveu em dois manuscritos e foi editado em 1879; a comparação com os estatutos de outras cidades (Londres, Florença, Colônia) mostra que o modelo de três graus e de jurados era comum, e que os números (teares, anos, soldos) mudavam de lugar para lugar. Os registros fiscais de 1292 e 1313 permitem contar os tecelões de Paris e ver que a maioria tinha mesmo uma oficina pequena.

E as outras leituras? “O estatuto mostra a liberdade do trabalho urbano contra o servo do campo”: cai pela metade, porque o tecelão é livre de senhor, mas não de ofício; a liberdade de vender é dele, a de produzir como quiser, não. “A corporação protegia os trabalhadores”: cai, porque quem está protegido é o mestre; o aprendiz paga para servir e o oficial não aparece como parte. “O rei era contra as corporações”: cai, porque é ele quem vende o ofício e recebe as multas; a corporação é também uma repartição de arrecadação. O que a fonte não diz: quanto ganhava um oficial, quantos tecelões havia, e se os jurados aplicavam mesmo as multas. Para a prova, a lição é a que a corporação ensina: regulação é a regra, concorrência é a exceção, e o trabalho urbano é livre e vigiado ao mesmo tempo.

Universidades e catedrais: o saber e a pedra como obras da cidade

A cidade renascida precisava de dois tipos de obra que só ela podia pagar: gente que soubesse ler contratos e argumentar em tribunais, e edifícios que mostrassem a quem chegava que ali havia riqueza e fé. As duas nasceram da mesma forma jurídica. Universitas, em latim, não quer dizer “universo de saberes”: quer dizer “corporação”, “o conjunto” de uma profissão. A universidade de Bolonha foi, no fim do século XI e ao longo do XII, a corporação dos estudantes de direito, que contratavam e pagavam os mestres (e os multavam quando faltavam à aula); em 1158, o imperador Frederico Barba-Ruiva lhes concedeu, pela Authentica Habita, a proteção imperial e o foro próprio. A de Paris foi a corporação dos mestres de teologia e artes, reconhecida pelo rei Filipe Augusto em 1200 e dotada de estatutos pelo legado papal em 1215; em 1229, depois de uma briga de taberna reprimida pela polícia do rei, mestres e estudantes fizeram greve e deixaram a cidade por dois anos, até o papa Gregório IX, na bula Parens scientiarum (1231), garantir-lhes o direito de greve, o foro eclesiástico e o controle sobre os próprios cursos. Oxford, Salamanca (1218), Pádua, Nápoles, Toulouse, e, em 1290, o Estudo Geral português (criado em Lisboa por D. Dinis e transferido mais tarde para Coimbra) repetiram o modelo; por volta de 1500, havia cerca de oitenta universidades na Europa.

Como qualquer corporação, a universidade tinha graus (o bacharel, o licenciado, o mestre ou doutor), uma obra-prima (a disputa pública, a disputatio), jurados (o reitor, eleito), privilégios (diplomas válidos em toda a cristandade, a licentia ubique docendi) e exclusões (mulheres não entravam; judeus, só na medicina, e em poucas). O que ela ensinava vinha, em larga medida, de fora: Aristóteles inteiro, traduzido do árabe em Toledo no século XII, com os comentários de Avicena e de Averróis, e o direito romano redescoberto em Bolonha. Le Goff chamou de “intelectual” esse tipo novo de homem que vivia de ensinar e escrever na cidade, “como um desses homens de ofício que se instalavam nas cidades nas quais se impôs a divisão do trabalho”, e o ENEM de 2015 cobrou exatamente a relação entre cidade, divisão do trabalho e nascimento do intelectual.

A catedral gótica é o outro produto urbano. Saint-Denis, perto de Paris, inaugurou por volta de 1140, sob o abade Suger, o vocabulário da arquitetura nova: o arco quebrado, a abóbada de cruzaria, o arcobotante que empurra o peso para fora e permite abrir a parede em vitrais. Seguiram-se Chartres (reconstruída depois do incêndio de 1194), Reims (iniciada em 1211; a igreja em que os reis da França eram sagrados), Amiens (1220), Colônia (1248), e dezenas de outras, numa corrida em que cada cidade queria a nave mais alta (Beauvais, em 1284, desabou por isso). Quem pagava era uma soma de fontes que a arqueologia dos arquivos reconstituiu: o bispo e o cabido, com as rendas das suas terras; as doações de confrarias de ofícios, que apareciam retratadas nos vitrais (em Chartres, padeiros, sapateiros, tanoeiros, cambistas doaram vitrais com as suas cenas de trabalho); as indulgências vendidas em campanhas de arrecadação; as taxas sobre o mercado; e, ao fim, o trabalho dos arroteadores, porque o excedente do campo é o que sustentava tudo, como Duby escreveu e o ENEM de 2024 cobrou. Um canteiro de catedral durava gerações, empregava centenas de pessoas e exigia corporações de pedreiros, carpinteiros, vidreiros e escultores que só a cidade tinha. Por isso a catedral é documento: onde há uma, houve cidade, dinheiro e organização do trabalho.

A universidade como corporação: o que os privilégios de 1231 diziam

A bula Parens scientiarum dava aos mestres de Paris o direito de suspender as aulas se um deles fosse preso ou ferido e a reparação não viesse em quinze dias, o direito de fazer os próprios estatutos sobre horários, trajes e funerais, e a proteção contra o preboste do rei. É uma lista de direitos corporativos, igual à de qualquer ofício: foro próprio, greve, regulamento. A diferença é que a corporação dos mestres podia usar uma arma que a dos tecelões não tinha, a mobilidade: se a cidade a maltratasse, ia-se embora, e levava consigo milhares de estudantes que pagavam aluguel, comida e pergaminho. Foi assim que Oxford ganhou Cambridge (1209) e Bolonha gerou Pádua (1222): por greves que viraram migrações.

1315: o crescimento bate no teto

Por volta de 1300, a Europa tinha mais gente do que a sua agricultura, com a técnica de então, conseguia alimentar com folga. As terras boas estavam ocupadas; as últimas arroteadas eram encostas e charcos de rendimento baixo; os lotes camponeses, divididos por herança, encolhiam; e os preços do trigo subiam havia décadas. Michael Postan chamou isso de “teto malthusiano”: a população crescera até o limite dos recursos e qualquer má colheita viraria fome. A má colheita veio, e foram três. De 1315 a 1317, chuvas quase contínuas na primavera e no verão apodreceram o trigo nos campos de toda a Europa do norte, de Flandres à Polônia; o preço do trigo multiplicou-se por três ou quatro, o gado morreu de doenças, e as crônicas registram canibalismo em alguns lugares. Em Ypres, os registros municipais contam cerca de 2 800 sepultamentos pagos pela cidade entre maio e outubro de 1316, perto de um décimo da população (série estudada por Henry Lucas em 1930 e retomada por William Jordan em The Great Famine, 1996). A Grande Fome não derrubou o crescimento sozinha, mas marcou o seu fim: depois de 1320, a população deixou de crescer, e os estudos de clima (anéis de árvores, depósitos de geleiras) situam nesses anos o início da fase fria que os climatólogos chamam de Pequena Idade do Gelo.

O gráfico da população (figura) mostra o perfil: uma subida de três séculos, um patamar depois de 1300, uma queda vertical em meados do século XIV e uma recuperação lenta, que só repõe o nível de 1300 por volta de 1500. As duas séries (McEvedy e Jones; Russell) discordam nos valores e concordam na forma. Guarde a forma: é ela que a prova cobra quando pergunta pela “crise do século XIV”.

A peste viajou de navio: 1347–1351

A bactéria Yersinia pestis, identificada apenas em 1894 por Alexandre Yersin, vive em roedores da Ásia Central e passa ao homem pela picada da pulga; a forma bubônica (gânglios inchados, os bubões, na virilha e nas axilas) matava em poucos dias a maioria dos infectados, e a forma pulmonar, transmitida pela tosse, quase todos. Em 1346, a peste estava entre os mongóis que cercavam Caffa, a colônia genovesa da Crimeia; de lá, galés genovesas a levaram a Constantinopla (meados de 1347), a Messina, na Sicília (outubro de 1347), a Gênova, Marselha e Veneza (janeiro de 1348). Na primavera de 1348 estava em Florença, Siena, Avignon (onde morava o papa); em agosto, em Paris; em novembro, em Londres; em 1349, em Flandres, na Renânia e em Bergen (num navio de lã inglesa, conta a crônica); em 1350, em Lübeck e na Escandinávia; em 1352, em Novgorod. O mapa (figura) é o mapa das rotas comerciais lido com datas: a peste seguiu a lã, o trigo, as especiarias e os peregrinos, e os lugares menos ligados à rede (partes da Polônia, dos Pirineus, da Boêmia, e Milão, que murou as casas dos primeiros doentes) foram os menos atingidos.

Os números são discutidos, e vale saber a faixa. As estimativas clássicas falavam em um terço da população europeia morta entre 1347 e 1351; Ole Benedictow, em The Black Death, 1346–1353 (2004), reunindo estudos regionais, chegou a cerca de 60 por cento. Nenhuma das duas é um censo: são projeções a partir de testamentos, listas de paróquia, registros de aluguel e de tributo, isto é, da documentação seriada que as cidades e os senhorios produziam. Para a prova, o que importa é a ordem de grandeza (de um terço a mais da metade) e a diferença entre cidade e campo (as cidades, mais densas e mais conectadas, morreram mais), não o decimal.

Como se explicava a peste em 1348? Com o conhecimento da época, que era muito, mas era outro. A faculdade de medicina de Paris, consultada pelo rei, atribuiu-a a uma conjunção de Saturno, Júpiter e Marte em 1345, que teria corrompido o ar; os médicos recomendavam fugir, queimar ervas aromáticas, evitar banhos (que abriam os poros ao ar ruim) e sangrias. A Igreja via nela o castigo de Deus pelos pecados, e organizou procissões; grupos de flagelantes percorreram a Alemanha e a Flandres em 1348 e 1349 açoitando-se em público até o papa proibi-los. E a procura de culpados encontrou os judeus, acusados de envenenar os poços: em Estrasburgo, em fevereiro de 1349, antes mesmo de a peste chegar à cidade, cerca de dois mil judeus foram queimados; dezenas de comunidades do Reno e da Suíça foram destruídas, apesar das bulas de Clemente VI (julho e setembro de 1348), que condenaram as acusações lembrando que os judeus morriam da peste como os cristãos. Nenhuma dessas explicações menciona ratos ou contágio microbiano, por uma razão simples: a teoria microbiana é do século XIX.

A peste explicada com o vocabulário do século XIX

O item do PAS de 2020 que afirma que, “no imaginário medieval, marcado pelo Renascimento Cultural e pelas lógicas pré-científicas”, a peste “era explicada como tendo uma causa natural, e sua transmissão foi associada aos ratos ou ao contágio direto entre pessoas” foi dado como errado, e por três motivos empilhados. “Renascimento Cultural” é anacronismo: em 1348 ele ainda não existia (e Petrarca, que estava em Parma e perdeu Laura para a peste, não é “o imaginário medieval”). “Causa natural” é meia verdade que vira erro: a corrupção do ar e os astros eram “naturais” para a medicina da época, mas a leitura dominante era a do castigo. E “ratos” e “contágio” são explicações do século XIX, projetadas sobre quem não as tinha. O molde é o de sempre: dado verdadeiro (a peste, o imaginário) mais conclusão falsa (ratos). Quando um item põe na cabeça dos medievais o que só se soube depois, marque E.

Leitura de fonte 3: Boccaccio abre o Decameron (1349–1353)

Giovanni Boccaccio, florentino, filho de um agente dos Bardi, abre a sua coleção de cem novelas com a descrição da peste de 1348 na sua cidade (tradução adaptada): “No ano de 1348 da frutífera Encarnação do Filho de Deus, chegou à egrégia cidade de Florença a mortífera pestilência, que, por obra dos corpos celestes ou pela justa ira de Deus contra as nossas iniquidades, tinha começado alguns anos antes nas partes orientais. Não valiam contra ela nem a sabedoria nem a providência humana: a cidade fora limpa de imundícies por oficiais encarregados disso, fora proibida a entrada de doentes, e muitos conselhos se deram para a saúde; nem valeram as humildes súplicas feitas a Deus em procissões. Nasciam, no início, aos homens e às mulheres, nas virilhas ou sob as axilas, certos inchaços, dos quais alguns cresciam até o tamanho de uma maçã comum, outros de um ovo, e o povo chamava-os bubões. E não só o falar e o conviver com os doentes passava a doença aos sãos, mas também tocar as roupas que eles tinham tocado. Um irmão abandonava o outro, o tio o sobrinho, a irmã o irmão e muitas vezes a mulher o marido; e, o que é mais grave e quase incrível, os pais e as mães evitavam visitar e servir os filhos, como se não fossem seus. Tantos corpos chegavam a cada igreja, a cada dia e a cada hora, que, esgotada a terra sagrada, cavavam-se nos cemitérios fossas enormes, em que se punham às centenas os que chegavam, amontoados em camadas como mercadoria num navio. Entre março e julho seguinte, acredita-se com certeza que mais de cem mil criaturas humanas perderam a vida dentro dos muros de Florença.”

Observar. O texto tem três registros. Um é clínico e preciso: o lugar dos inchaços, o tamanho (maçã, ovo), o nome popular (bubões), a transmissão por contato e por roupas. Outro é moral: a ira de Deus e as iniquidades, o abandono dos parentes, a quebra dos laços. O terceiro é quantitativo: as fossas, as camadas, os cem mil mortos. E há uma comparação que salta aos olhos: os corpos amontoados “como mercadoria num navio”.

Hipotetizar. O escritor que compara mortos a mercadoria estivada é alguém que conhece navios e cargas: Boccaccio cresceu no mundo dos banqueiros e mercadores. A precisão clínica sugere observação direta ou leitura dos médicos; a leitura moral, o quadro mental comum; e “cem mil” é, para uma cidade que teria entre noventa e cento e vinte mil habitantes antes da peste, um número impossível à letra, que deve ser lido como “quase todos”, a hipérbole que diz a escala da experiência. A hipótese de leitura é que o texto combina o que o autor viu, o que a cidade acreditava e o que a retórica exigia.

Contextualizar. O Decameron foi escrito entre 1349 e 1353, logo depois da peste, como moldura de uma ficção: dez jovens fogem de Florença para uma vila no campo e contam histórias durante dez dias. A descrição inicial justifica a fuga e contrasta a cidade morta com a vida que continua nas novelas. Boccaccio imitava modelos: a descrição da peste de Atenas por Tucídides, lida através de Lucrécio, e a crônica da peste lombarda do século VI por Paulo Diácono, de quem copiou frases quase literais. Florença em 1348 era uma comuna governada por mercadores, com oficiais de saúde que, como o texto diz, limparam ruas e barraram doentes nas portas, sem resultado.

Corroborar. Os registros fiscais e notariais de Florença e os dados de outras cidades toscanas (Siena, Pistoia, Prato) confirmam a mortalidade altíssima de 1348 (entre metade e três quintos), a desorganização dos enterros (valas comuns escavadas pela arqueologia) e a fuga dos ricos para o campo. O cronista Giovanni Villani, que começara a escrever sobre a peste, morreu dela em 1348 e deixou a frase inacabada; o seu irmão Matteo continuou a crônica. Nenhuma fonte confirma os cem mil mortos; as estimativas sérias vão de quarenta a sessenta mil.

E as outras leituras? “Boccaccio descreve com objetividade, logo os números dele são confiáveis”: cai, porque a precisão clínica não se transfere ao número, que é retórico. “O texto prova que os medievais não entendiam nada de contágio”: cai, porque ele registra a transmissão por contato e por roupas, isto é, a noção de contágio existia, sem a bactéria. “A peste destruiu a família e a religião”: cai, porque o abandono descrito é a exceção escandalosa (“quase incrível”), e as procissões mostram a religião em ação; o que a peste expôs foi o limite dos dois. “Boccaccio era um moderno, por isso culpou os astros e não Deus”: cai, porque ele oferece as duas causas no mesmo “ou”, como fazia a cultura do seu tempo. O que a fonte não diz: como morreram os pobres, que não tinham para onde fugir, e o que aconteceu nos campos ao redor, de onde vinham os jovens contadores de histórias. Para a prova: um relato de testemunha dá a experiência e o imaginário; o número vem de outra fonte, a seriada.

Depois da peste: salários, servidão e revoltas

Quem sobreviveu encontrou um mundo com metade das pessoas e a mesma terra. A consequência econômica foi imediata: faltavam braços, e o trabalho encareceu. Na Inglaterra, os salários dos ceifeiros e dos pedreiros subiram, em moeda, de 50 a 100 por cento em poucos anos; os aluguéis da terra caíram; os servos descobriram que o senhor vizinho oferecia condições melhores, e mudaram-se. As elites reagiram com a lei: a Ordinance of Labourers (1349) e o Estatuto dos Trabalhadores (1351), na Inglaterra, e a ordenança de João II, na França (1351), fixaram os salários nos níveis anteriores à peste e obrigaram todo homem válido a aceitar o trabalho oferecido. As leis foram pouco obedecidas e muito odiadas, e estão na origem das revoltas da geração seguinte.

As revoltas vieram em série, e com causas que a prova gosta de distinguir. A Jacquerie (maio e junho de 1358), no norte da França, foi uma explosão de camponeses contra os nobres, nos meses que se seguiram à derrota francesa de Poitiers (1356), quando a nobreza, que não defendera o reino, exigia dinheiro para reconstruir castelos e pagar resgates; “Jacques” era o apelido dado pelos nobres ao camponês, e a revolta foi afogada em sangue em duas semanas. Os Ciompi (julho a agosto de 1378), em Florença, foram os cardadores de lã, trabalhadores sem corporação, que tomaram o governo da comuna e criaram três corporações novas para os ofícios menores, antes de serem derrubados pelos mestres das corporações maiores. A revolta de 1381 na Inglaterra, liderada por Wat Tyler e pelo pregador John Ball, começou contra um imposto por cabeça (a poll tax de 1380, cobrada igualmente de ricos e pobres) e pediu o fim da servidão, a liberdade de comércio e o perdão das dívidas; os rebeldes entraram em Londres, mataram o arcebispo da Cantuária e o tesoureiro, e dispersaram-se quando o rei Ricardo II, de catorze anos, prometeu tudo e depois revogou tudo. Froissart, cronista das cortes e inimigo dos rebeldes, conservou a pergunta que Ball teria feito nos sermões: “Quando Adão cavava e Eva fiava, quem era o fidalgo?”. A pergunta vale como fonte sobre a fala do rebelde e como fonte sobre o medo do cronista.

A Igreja, que deveria ser o consolo, estava ela própria em crise: os papas viviam em Avignon desde 1309, sob influência do rei da França; quando voltaram a Roma (1377), uma dupla eleição abriu o Grande Cisma (1378–1417), com dois papas e, a partir de 1409, três, cada um excomungando os outros; John Wyclif, em Oxford, e Jan Hus, em Praga (queimado em 1415), pregaram contra a riqueza da Igreja e pela leitura da Bíblia na língua do povo. E a guerra atravessou tudo: a Guerra dos Cem Anos, que opôs de 1337 a 1453 as coroas da França e da Inglaterra, com as suas batalhas (Crécy, 1346; Poitiers, 1356; Azincourt, 1415), as companhias de mercenários que viviam de saque entre uma campanha e outra, e os impostos permanentes que os reis inventaram para pagá-la. A guerra é um dos ganchos desta página com a seguinte, a da formação das monarquias: ela desgastou a cavalaria feudal, fez dos soldados a soldo a força decisiva e ofereceu aos reis a justificativa de que só eles podiam restaurar a paz.

O que mudou de verdade: a servidão recua no Ocidente e avança no Leste

No longo prazo, a peste não destruiu o senhorio, mas mudou a relação de forças dentro dele. No Ocidente (Inglaterra, França, Itália, oeste da Alemanha), a escassez de braços fez os senhores trocarem a corveia por rendas em dinheiro e aceitarem arrendamentos; a servidão pessoal foi desaparecendo ao longo do século XV, não por decreto, mas por abandono, e o camponês livre que paga renda substituiu o servo que deve trabalho. A nobreza, com rendas em queda, voltou-se para o rei: pensões, cargos, guerra. No Leste (Prússia, Polônia, Boêmia, Hungria), aconteceu o contrário. Senhores com poder político intacto e cidades fracas responderam à mesma escassez prendendo os camponeses à terra por lei e ampliando as corveias para produzir cereais destinados à exportação para o Ocidente, pelo Báltico; os historiadores chamam isso de segunda servidão, e ela se consolidou nos séculos XVI e XVII. A mesma peste, dois resultados opostos: o que decidiu não foi a demografia, foi a relação de forças entre senhores, camponeses, cidades e reis em cada região. É o argumento de Robert Brenner no debate de 1976, e é a resposta certa quando um item pergunta se a crise “acabou com o feudalismo”: acabou com uma forma dele, em alguns lugares, e reforçou outra, em outros.

"Erradicado": a absolutização que a banca pune desde 2011

O item do PAS de 2011 que afirmava que, na “realidade histórica advinda das grandes navegações”, estavam “erradicadas as formas de organização política, econômica, social e cultural vigentes no feudalismo medieval” foi dado como errado, e a palavra que o derruba é “erradicadas”. Em 1500, e em 1700, a Europa ainda tinha sociedade de ordens, privilégios jurídicos de nascimento, dízimo, banalidades em muitas regiões, servidão no Leste e Igreja com tribunais e terras; a Revolução Francesa aboliu os direitos senhoriais na noite de 4 de agosto de 1789, e a servidão russa só acabou em 1861. O mesmo item ainda falava em “religiões não cristãs” surgidas da Reforma, trocando o que ela foi, um cisma dentro do cristianismo. Em contraste, o item de 2011 (outro bloco) que situava o século XVI no “início da Idade Moderna, contexto em que, na Europa, se aprofunda a crise do feudalismo”, e o de 2019 que inseria a chegada dos portugueses ao Brasil “no contexto de crise da velha ordem feudal europeia, quando a nascente burguesia, a vida urbana e o comércio ganham novo impulso”, foram dados como certos: “aprofunda”, “crise”, “nascente”, “novo impulso” são verbos de processo, não de ruptura. A regra para julgar: a crise do feudalismo é longa e desigual; quem escreve “acabou”, “erradicado”, “substituído por completo” perde o ponto.

Crise, transição ou reorganização? Onde os historiadores discordam

Pirenne, Le Goff, Duby, Bois, Brenner, Wickham: cinco gerações de explicações

Henri Pirenne, historiador belga, propôs em As cidades da Idade Média (1925) que a cidade medieval nascera do comércio de longa distância: mercadores itinerantes, vindos de fora da sociedade feudal, teriam acampado junto a castelos e abadias e criado, com o seu dinheiro e as suas liberdades, um corpo estranho que acabaria por corroer o feudalismo. Em Maomé e Carlos Magno (1937), completou a tese pelo outro lado: a expansão islâmica do século VII teria fechado o Mediterrâneo e empurrado a Europa para a economia agrária, que só o reabrir das rotas, nos séculos XI e XII, teria rompido. A tese é elegante, e as duas metades foram contestadas. A arqueologia (Richard Hodges e David Whitehouse, Mohammed, Charlemagne and the Origins of Europe, 1983) mostrou que o comércio do norte, entre frísios, anglo-saxões e escandinavos, nunca parou, e que os entrepostos (emporia) dos séculos VII–IX, como Dorestad e Quentovic, precedem as cidades comunais; e os estudos de história rural (Georges Duby, Economia rural e vida no campo no Ocidente medieval, 1962; Adriaan Verhulst, The Rise of Cities in North-West Europe, 1999) mostraram que o crescimento urbano saiu do crescimento agrário, de dentro do senhorio, e não de um corpo estranho que teria chegado de fora. Hoje, a maioria dos medievalistas lê a cidade como filha do campo, não como sua adversária, o que é exatamente a leitura que o ENEM de 2024 cobra com Duby.

Sobre a crise do século XIV, o debate é outro. Michael Postan (anos 1950–1960) explicou-a pela demografia: população acima dos recursos, fome, peste, queda. Guy Bois (Crise du féodalisme, 1976) explicou-a pela renda senhorial: a produtividade estagnada e a divisão dos lotes faziam cair a renda dos senhores, que respondiam com mais pressão sobre os camponeses até o sistema travar, com ou sem peste. Robert Brenner (1976) respondeu aos dois com a relação de forças: a mesma demografia produziu servidão no Leste e liberdade no Ocidente, logo a explicação está nas lutas entre senhores e camponeses e na capacidade dos Estados de arbitrá-las. Antes deles, Maurice Dobb (1946) e Paul Sweezy (1950) tinham discutido a transição do feudalismo ao capitalismo: Dobb a via como resultado das contradições internas do senhorio (a exploração que esgotava o camponês); Sweezy, como efeito do comércio, que teria dissolvido por fora a economia feudal. Jacques Le Goff, por sua vez, chamou a atenção para as mentalidades (o tempo, o trabalho, o dinheiro, o Purgatório) e insistiu em que a Idade Média “longa” vai até o século XVIII, isto é, que a crise do XIV não a encerra. E Chris Wickham (Medieval Europe, 2016) prefere falar em reorganização: o século XIV redistribuiu riqueza e poder (para os camponeses sobreviventes, para os reis, para algumas cidades), mas as estruturas de base, senhorio, Igreja, corporação, saíram de pé.

Para a prova, basta guardar três coisas. A cidade nasceu do campo (contra Pirenne). A crise teve causas demográficas, econômicas e políticas combinadas, e o seu resultado variou por região (Brenner). E “crise do feudalismo” não é “fim do feudalismo”: é a palavra para um processo de séculos, que a prova testa com verbos de absolutização.

Os vizinhos e os ausentes: quem a cidade deixou de fora

A cidade medieval contava-se pelo que excluía. Mulheres trabalhavam em todos os ofícios e eram donas de poucos; aparecem nos registros fiscais como fiandeiras, cervejeiras, vendedoras de peixe e de pão, regateiras, costureiras, e, nas cidades de Flandres e do Reno, como beguinas, mulheres leigas que viviam em comunidade, sem votos perpétuos, trabalhando com as mãos, uma forma de vida urbana e feminina que a Igreja tolerou com desconfiança e por fim reprimiu (concílio de Viena, 1311–1312). Judeus viviam em bairros próprios (a judiaria), com sinagoga, tribunal e escola, sob proteção paga do rei ou do bispo; foram expulsos da Inglaterra (1290), da França (1306 e, definitivamente, 1394), de muitas cidades alemãs depois de 1349, e da Espanha em 1492. Leprosos viviam fora dos muros, na leprosaria; estrangeiros (os “lombardos”, os flamengos em Londres, os alemães em Veneza, com o seu Fondaco dei Tedeschi) tinham estatuto à parte, protegidos e vigiados. E o povo miúdo, a maioria, não votava na comuna, não tinha corporação, e enchia as revoltas de 1378 e de 1381. As ordens mendicantes, franciscanos e dominicanos, nasceram exatamente para essa cidade: instalaram os seus conventos junto aos muros, pregavam nas praças, confessavam mercadores e, a partir de teólogos como Tomás de Aquino, construíram uma moral do comércio que distinguia o lucro justo da usura. A cidade fabricou os seus críticos e os seus confessores.

Pandemias comparadas: o que vale e o que não vale

O item do PAS de 2020 que comparou a pintura A peste em Lovaina em 1578 com “a atual pandemia de covid-19 em algumas cidades italianas e brasileiras” foi dado como certo, e vale entender o que ele compara: a sobrecarga dos enterros, os corpos à espera, a cidade que não dá conta dos seus mortos. É uma comparação de situação, não de causa: a peste é bacteriana e transmitida por pulgas e pela tosse, a covid é viral; a mortalidade de 1348 (de um terço a mais da metade) não tem paralelo moderno; e os remédios de então (fuga, aromas, sangria, procissão) não são os de hoje. O que atravessou os séculos foi a instituição: a quarentena nasceu em Ragusa (Dubrovnik) em 1377, como isolamento de trinta dias para navios vindos de áreas infectadas, ampliado depois para quarenta (quaranta giorni, daí a palavra), e Veneza abriu em 1423 o primeiro lazareto, hospital de isolamento numa ilha. Isolamento, cordão sanitário, fechamento de portas e boletins de mortos são invenções das cidades italianas dos séculos XIV e XV, e as cidades de 2020 as usaram quase sem mudança. A comparação válida é esta, da resposta institucional; a inválida é a que põe a mesma doença, o mesmo conhecimento ou a mesma culpa nos dois tempos. O massacre de Estrasburgo lembra o que uma epidemia faz com quem já era suspeito antes dela.

Anacronismos e erros clássicos

Dez frases que custam um ponto
  1. “A burguesia medieval era a classe capitalista”: era um grupo urbano de mercadores e mestres, com rendas, privilégios e corporações; o capitalismo industrial é de outro século.
  2. “O renascimento comercial foi causado pela queda da população”: foi causado pelo crescimento dela; a queda é de 1315–1351.
  3. “A cidade nasceu contra o feudalismo”: nasceu dentro dele, em terra senhorial, com carta do senhor, e foi senhora de aldeias.
  4. “O ar da cidade libertava em toda a Europa”: era cláusula de muitas cartas, contestada por muitos senhores; liberdade sem ofício não era cidadania.
  5. “A corporação defendia os trabalhadores, como um sindicato”: reunia os mestres; aprendizes e oficiais obedeciam.
  6. “As corporações promoviam a livre concorrência”: fixavam preços, teares, aprendizes e horários; a concorrência era o que proibiam.
  7. “O trabalho urbano era servil”: era livre e assalariado, com coerção econômica e às vezes física, mas sem vínculo à terra.
  8. “Os medievais explicavam a peste pelos ratos”: explicavam pelo ar, pelos astros e por Deus; o bacilo é de 1894.
  9. “A peste acabou com o feudalismo”: enfraqueceu a servidão no Ocidente e a reforçou no Leste; as ordens duraram até 1789.
  10. “No início da Idade Moderna, o feudalismo estava erradicado”: estava em crise; “erradicado” perdeu o ponto em 2011.

Como a prova cobra as cidades e a crise

No PAS, o assunto aparece como transição e como leitura de fonte. A banca premia quem reconhece os sinais do novo sem exagerar a ruptura: foi certo afirmar, em 2007, que as muralhas dos burgos defendiam a população urbana e que as cidades reuniam artífices em corporações de ofício capazes de erguer uma catedral; em 2006, que o dinheiro se tornava símbolo de riqueza e poder “a partir da Baixa Idade Média”; em 2008, que a Itália medieval praticamente monopolizava o comércio europeu do Mediterrâneo; em 2014, lendo Le Goff, que as criações do “apogeu medieval” (cidades, monarquia, comerciantes, escolásticos, mendicantes) anunciavam a crise do feudalismo e uma realidade urbano-mercantil; em 2019, que a chegada dos portugueses ao Brasil se insere na crise da velha ordem feudal, com a burguesia nascente e a vida urbana em novo impulso; em 2020, que Gênova e Veneza fizeram circular mercadorias, pessoas e doenças. E a banca pune a absolutização e o anacronismo: “erradicadas” as formas feudais e “religiões não cristãs” (2011, errado); a peste explicada por “ratos” e “contágio” num imaginário “marcado pelo Renascimento” (2020, errado); o feudalismo “já substituído pelo capitalismo” no fim do século XIV por causa dos moinhos de vento (segunda etapa, 2011, errado). O bloco de 2020 é o mais instrutivo, porque usa um texto de Georges Duby e uma pintura de 1578 para três itens: um de geografia do comércio (certo), um de história das ideias (errado) e um de comparação com o presente (certo).

No ENEM, o assunto é sempre uma fonte com uma palavra que decide. Agnolo di Tura enterrando os cinco filhos “sugere que” a peste foi associada ao fim dos tempos (2008); as muralhas que viram pórticos (Duby, 2011) remetem ao crescimento comercial e urbano; Veneza, que “não lavra, semeia ou colhe” (Fletcher, 2014), à importância das cidades comerciais; as tecelãs de Chrétien de Troyes (2013 e 2014) à coerção e à exploração do trabalho feminino urbano; a lã procurada por compradores de Flandres e da Itália (Duby, 2017) ao desenvolvimento da vida urbana; o intelectual que “nasceu com as cidades” (Le Goff, 2015) à divisão do trabalho; a cidade “sociedade da abundância” com muralhas (Le Goff e Schmitt, 2019) à permanência da arquitetura de proteção; os incêndios como “quinto cavaleiro” que remodelam a cidade (2021) à reconfiguração dos espaços; a universidade como instituição legada (Rashdall, 2024) à tradição e ao conhecimento; a catedral “fruto do campo” (Duby, 2024) à cultura agropecuária; e a Veneza cosmopolita de Carlevaris e Braudel (2025) à integração do comércio mediterrâneo. O método é um só: achar no texto a palavra-chave, eliminar as alternativas que trocam agente, época ou lugar, e desconfiar da que traz um conceito de outro século (fábricas, parques industriais, sindicatos, imprensa, Lutero).

Três reflexos. Ordene o tempo: crescimento (XI–XIII), fome (1315), peste (1347), revoltas (1358–1381); o item que inverte a sequência cai. Separe cidade e campo sem opô-los: a cidade vive do excedente rural e é senhora de aldeias; “independência” e “ruptura” são as palavras suspeitas. Date o conceito: burguesia, capitalismo, sindicato, contágio microbiano, Renascimento; se o item os põe antes do tempo, o erro já está achado.

O essencial em meia página

  • Renascimento comercial e urbano (séc. XI–XIII) = cidades, feiras e rotas de longa distância que voltam a crescer sobre o excedente de um campo em expansão (população dobra entre 1000 e 1300; arroteamentos). A cidade nasce do campo e dentro do senhorio, não contra ele.
  • Rotas: Hansa (Lübeck, Bruges, Londres, Bergen, Novgorod; arenque, sal, madeira, peles, panos), feiras de Champagne (Troyes, Provins, Lagny, Bar; panos do norte contra especiarias do sul; letra de câmbio), Gênova e Veneza (Constantinopla, Caffa, Acre, Alexandria; especiarias, seda, alume), encaixadas nas rotas do mundo islâmico. Galés atlânticas desde 1277.
  • Moeda e crédito: florim (1252), ducado (1284); letra de câmbio; bancos florentinos (Bardi e Peruzzi quebram em 1343–1346); usura condenada (1179, 1215) e contornada; judeus empurrados para o crédito e expulsos (1290, 1306).
  • Tempo do mercador (Le Goff): sinos de trabalho e relógio mecânico (c. 1300) contra o tempo da Igreja; Purgatório como saída para o usurário.
  • Comuna e carta de franquia: comprada (Lorris 1155, forais), negociada (Flandres 1127–1128, Liga Lombarda e Constança 1183), tomada (Laon 1112–1128). Governo de patriciado, não democracia; comuna jura ao rei e é senhora de aldeias. “Ar da cidade liberta” = costume, com limites.
  • Corporação: aprendiz, oficial, mestre; estatutos fixam preço, qualidade, horário, aprendizes; jurados; confraria. Não é sindicato nem livre concorrência; trabalho livre, não servil. Fora: mulheres (salvo viúvas e seda), judeus, povo miúdo (Ciompi, 1378).
  • Universidades = corporações de mestres ou estudantes (Bolonha, Paris 1200–1231, Lisboa 1290); Aristóteles por Toledo. Catedrais góticas (Saint-Denis c. 1140, Chartres, Reims 1211, Amiens) = obra urbana paga por bispo, confrarias e excedente do campo.
  • Crise do século XIV: Grande Fome 1315–1317; Peste Negra 1347–1351 pelas rotas comerciais (de um terço a mais da metade; explicações de época: ar, astros, Deus; flagelantes; massacres de judeus; quarentena só em 1377); Estatuto dos Trabalhadores 1351; Jacquerie 1358, Ciompi 1378, Tyler 1381; Cisma 1378–1417; Guerra dos Cem Anos 1337–1453 (gancho para as monarquias).
  • Resultado: servidão recua no Ocidente, “segunda servidão” no Leste (Brenner); crise ≠ fim; ordens até 1789. Historiografia: Pirenne (cidade de fora, contestado), Duby e Verhulst (cidade do campo), Postan, Bois, Brenner, Dobb e Sweezy, Le Goff, Wickham.
  • Decisão na prova: ordene o tempo (crescimento, fome, peste, revoltas), não oponha cidade e campo, date o conceito (burguesia, capitalismo, sindicato, ratos, Renascimento), desconfie de “erradicado”, “substituído”, “independência”.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Baixa Idade Média: Renascimento Urbano e Comercial - Idade Média ep. 05
História Rápida · 4:38
Introdução. Aula curta do professor Luís Filipe (gravada no Festival Medieval Brasil 2017, em Brasília) sobre como as cidades medievais cresceram, o surgimento da burguesia, a organização em corporações de ofício e a conquista da carta de foral: cinco minutos para quem parte do zero, antes das seções “Primeiro o campo, depois a cidade” e “Comuna e carta de franquia”. A descrição do autor traz uma errata (aos 2 min 50 s, leia “burgueses” onde se diz “suseranos”).
O que eram as guildas medievais?
Estranha História · 15:03
Aprofundamento. Vídeo com referências explícitas (Le Goff, O apogeu da cidade medieval; Steven Epstein, Wage Labor and Guilds in Medieval Europe; Ridder-Symoens e Rüegg, A History of the University in Europe) sobre as guildas ou corporações de ofício e a sua relação com o renascimento urbano e com as universidades: é a seção “Corporações de ofício: mestre, oficial, aprendiz” e a de “Universidades e catedrais” em quinze minutos, com a mesma tese desta página (universitas = corporação).
Peste Negra
História em Meia Hora · 34:30
Aprofundamento da peste. Episódio de trinta e quatro minutos do professor Vítor Soares sobre a Peste Negra: origem e difusão, mortalidade, explicações da época e consequências. Use depois da seção “A peste viajou de navio” e da leitura de fonte sobre Boccaccio, e confira as datas com o mapa da difusão.
A CRISE do SÉCULO XIV: Fome, Peste Negra e a Guerra dos cem anos
Ôxe Humanas · 10:22
Aplicação e revisão para a prova. Aula voltada ao ENEM e aos vestibulares que encadeia fome, peste, revoltas populares e Guerra dos Cem Anos com a crise do feudalismo, o enfraquecimento dos nobres e a centralização do poder nos reis: a seção “Depois da peste: salários, servidão e revoltas” e o gancho para a página das monarquias, antes de resolver os itens reusados do PAS (2011, 2019, 2020) e do ENEM (2008).
Rota PAS 1
Das cidades-estado às monarquias: poder na Europa pré-moderna · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Das cidades-estado às monarquias: poder na Europa pré-moderna · As cidades voltam: comércio, burguesia e a crise do feudalismo (l.303–344); box Como a banca cobra (cidades e crise do feudalismo); Banco de treino T16–T18

    Recorte por assunto: só a seção das cidades e a crise do século XIV. O senhorio, a vassalagem e a Igreja ficam em feudalismo; as monarquias e a Guerra dos Cem Anos como processo político, em formacao-dos-estados-nacionais; a Reforma e a expansão marítima aparecem só como gancho.

  • Rota PAS 1 — Resoluções do Banco de treino (Parte II) · T16 (variante de PAS 1 2014/35), T17 (PAS 1 2020/74), T18 (inédito, a crise do século XIV e o poder régio)
  • História Viva (UE) — História 1, capítulo 6: A Idade Média não foi das trevas · Depois do ano 1000: por que a Europa acelerou?; O ar da cidade liberta?; Universidades e tradutores; A peste negra: o século em que tudo balançou; exercícios sobre Froissart e John Ball

    Fonte de fatos, números citados (Russell, Benedictow, Verger) e historiografia; exemplos, fontes lidas, imagens e ordem são desta página.

  • Extrator de provas — PAS/UnB e ENEM (itens reusados por GUID, conferidos na imagem do caderno e no gabarito oficial) e data-vest · PAS 1 2020/74, 2020/75, 2020/76, 2019/61, 2014/35, 2011/42, 2011/91, 2008/121; PAS 2 2011/55; ENEM 2008/47, 2011/35, 2013 PPL/30, 2014 PPL/2, 2014 PPL/23, 2015/37, 2017/70, 2019/60, 2024/59, 2024 PPL/47, 2025/49; data-vest UFU 2019 e IF-BA 2019

    Correções de resolução e de classificação registradas em drafts/extrator-correcoes-historia.md; itens acrescentados ao mapa drafts/historia-p2-pas1-mapa-itens.md §3b. Revisão de 21/10/2026: ENEM 2021/67 retirado (Alta Idade Média); PAS 1 2019/61 reclassificado no extrator para Crise do Sistema Feudal.