Vacinas e soros

Guia de estudo · Revisado em 02/10/2026

BNCC · EM13CNT310

Uma pessoa picada por jararaca recebe no hospital uma injeção que age em minutos; um bebê de dois meses recebe a vacina penta e só estará protegido semanas depois, mas por anos. As duas seringas têm a ver com anticorpos. O que muda entre entregar um anticorpo pronto e ensinar o corpo a fabricá-lo, e por que só uma das duas pode tirar uma doença do mapa?

O que você vai aprender

  • Distinguir barreiras, resposta inata e resposta adaptativa pela velocidade, pela especificidade e pela presença de memória, e julgar afirmações sobre a pele, a febre e a inflamação como partes do sistema imune.
  • Definir antígeno e anticorpo, descrever o anticorpo como proteína em forma de Y produzida por plasmócitos derivados de linfócitos B, e separar o papel dos linfócitos B, T auxiliares e T citotóxicos.
  • Ler um gráfico de concentração de anticorpos no tempo, identificar latência, pico e queda da resposta primária e da secundária, calcular razões entre picos e tempos até o pico e distinguir a curva do soro.
  • Classificar qualquer situação de imunidade nos quatro quadrantes (ativa ou passiva, natural ou artificial) pela pergunta quem fabricou o anticorpo, incluindo placenta, leite materno, doença, vacina e soro.
  • Explicar o princípio de cada tipo de vacina (atenuada, inativada, toxoide, subunidade ou recombinante, conjugada, vetor viral, RNA mensageiro) com exemplos do calendário brasileiro, e justificar o número de doses e reforços pelo gráfico de anticorpos.
  • Descrever como um soro hiperimune é produzido a partir de cavalos imunizados, listar os soros distribuídos pelo SUS, distinguir soro de imunoglobulina humana e de soro fisiológico, e decidir quando soro e vacina são aplicados juntos (tétano, raiva).
  • Decidir se uma afirmação descreve vacina ou soro pelo verbo que descreve o anticorpo (produz ou recebe), e aplicar o critério a itens reais como o PAS 2 2020/81.
  • Situar na linha do tempo variolação, Jenner (1796), Pasteur (1885), Vital Brazil (1901), a Revolta da Vacina (1904), Salk e Sabin, o PNI (1973), o Zé Gotinha (1986), a erradicação da varíola (1980), a pólio no Brasil (1989, 1994) e o certificado do sarampo (2016, 2019, 2024, 2025).
  • Explicar por que a varíola pôde ser erradicada (vacina eficaz, vigilância, ausência de reservatório animal) e por que a febre amarela não pode ser erradicada pela mesma estratégia.
  • Ler o Calendário Nacional de Vacinação por faixa etária e justificar as idades da BCG, da tríplice viral, da HPV em dose única, da dTpa da gestante e do reforço decenal da dT.
  • Calcular o limiar da imunidade coletiva (1 menos 1 sobre R0), o número de casos secundários por caso e quantas pessoas faltam para uma meta de cobertura, e enunciar os limites da proteção coletiva.
  • Interpretar as séries de cobertura vacinal do Brasil (OMS/Unicef, 2015 a 2025), relacionar a queda ao retorno do sarampo e à perda do certificado e distinguir eficácia (redução relativa do risco) de porcentagem de protegidos.
  • Explicar alergia, autoimunidade, rejeição a transplantes e imunodeficiência como erros ou faltas da resposta adaptativa, com os mecanismos de IgE e histamina, tolerância, HLA e imunossupressão.

Numa tarde de sábado, na beira de uma trilha do Cerrado, uma pessoa pisa numa jararaca e, duas horas depois, recebe no hospital uma injeção que começa a agir em minutos. Na mesma semana, uma criança de dois meses recebe no posto de saúde a primeira dose da vacina penta e sai de lá sem proteção nenhuma: os anticorpos contra tétano, difteria e coqueluche só vão aparecer no sangue dela dias depois, e só ficarão altos depois da terceira dose e dos reforços. As duas seringas carregam líquidos transparentes e as duas têm a ver com anticorpos. Mas fazem coisas opostas. Uma entrega anticorpos que outro organismo fabricou; a outra entrega um antígeno e deixa que o corpo da criança fabrique os seus, e guarde a receita. Essa diferença decide quando se usa cada uma, por que o soro não deixa memória, por que a vacina leva semanas para proteger e por que só uma das duas pode tirar uma doença do mapa.

Esta página é a aula de referência sobre imunização. Ela monta o sistema imune no nível do ensino médio (barreiras, resposta inata, resposta adaptativa com linfócitos, anticorpos e memória), lê o gráfico de anticorpos no tempo que separa a primeira infecção da segunda, organiza os quatro modos de ficar imune, explica o que há dentro de cada tipo de vacina e como um soro é produzido, conta a história de Jenner à vacina de RNA, apresenta o Calendário Nacional de Vacinação, faz a conta da imunidade coletiva com os dados de cobertura do Brasil e fecha com alergia, autoimunidade e rejeição a transplantes. Os vírus e as bactérias que as vacinas previnem têm páginas próprias em vírus e bactérias; o câncer de colo do útero e a biologia do HPV estão em núcleo e ciclo celular; saneamento e as medidas da epidemiologia, em saneamento e saúde coletiva; a estrutura das proteínas, que é o que um anticorpo é, em proteínas e enzimas.

O corpo tem três linhas de defesa, e só a terceira aprende

Antes de falar em vacina é preciso saber o que a vacina treina. A defesa do corpo humano se organiza em três camadas, e cada uma responde a uma pergunta diferente: o invasor consegue entrar? Se entrou, alguém o ataca de imediato? E alguém o reconhece pelo nome e se lembra dele?

As três linhas de defesa

Barreiras (primeira linha): a pele queratinizada, as mucosas e o muco com seus cílios, a acidez do estômago, as lágrimas e a saliva com enzimas, a microbiota que ocupa o espaço. Impedem a entrada; não distinguem um invasor do outro. A pele conta como parte do sistema imunológico, e não só por ser parede: na epiderme há células de Langerhans, que capturam antígenos e os apresentam aos linfócitos.

Resposta inata (segunda linha): rápida, presente desde o nascimento e igual para qualquer invasor. Fagócitos (neutrófilos, macrófagos) engolem micróbios; a inflamação aumenta o fluxo de sangue e atrai células de defesa para o local; a febre dificulta a multiplicação de muitos patógenos; proteínas do sistema complemento perfuram membranas de bactérias; células dendríticas recolhem pedaços do invasor e os levam aos linfonodos. A inata reage em minutos a horas e não guarda memória.

Resposta adaptativa (terceira linha): lenta na primeira vez (dias), específica para cada antígeno e com memória. É feita pelos linfócitos, um tipo de leucócito. Os linfócitos B, ao reconhecer o antígeno, multiplicam-se e se diferenciam em plasmócitos, que fabricam anticorpos; os linfócitos T auxiliares coordenam a operação e os T citotóxicos destroem células já infectadas. Ao fim da batalha ficam células de memória B e T, que tornam a resposta a um reencontro com o mesmo antígeno muito mais rápida e intensa.

Esquema em três colunas, da esquerda para a direita. Coluna 1, barreiras, em verde: desenho da pele em corte, muco com cílios e estômago com ácido, com a legenda não distingue invasores, impede a entrada. Coluna 2, resposta inata, em laranja: um macrófago engolindo bactérias, uma seta de inflamação e um termômetro de febre, com a legenda minutos a horas, igual para todos, sem memória. Coluna 3, resposta adaptativa, em azul: um linfócito B virando plasmócito que libera anticorpos em forma de Y, um linfócito T auxiliar com setas de coordenação, um T citotóxico destruindo uma célula infectada e, embaixo, células de memória guardadas em um retângulo tracejado, com a legenda dias na primeira vez, específica, com memória. Uma seta no rodapé indica que o invasor avança da esquerda para a direita só se vencer a linha anterior.
As três linhas de defesa. Da esquerda para a direita, cada camada só entra em ação se a anterior falhou. As duas primeiras não distinguem um invasor do outro e não aprendem; a terceira reconhece cada antígeno por sua forma e guarda células de memória. É a terceira linha que a vacina treina. Diagrama autoral, fora de escala.

A divisão em três linhas serve para julgar frases. Uma frase que diga que a pele é parte do sistema imunológico está certa: ela é barreira e sentinela ao mesmo tempo, e foi exatamente isso que o PAS 3 de 2025 cobrou no item 39 (gabarito C). Uma frase que atribua memória à resposta inata está errada: memória é propriedade da adaptativa. Uma frase que diga que a febre é um defeito do corpo também está errada: a febre é uma resposta inata, e muitos patógenos se multiplicam pior acima de 38 °C.

Antígeno, anticorpo e as células que aprendem

Antígeno é qualquer molécula que o sistema adaptativo reconhece como estranha e contra a qual monta uma resposta: uma proteína da superfície de um vírus, um açúcar da cápsula de uma bactéria, uma toxina, uma proteína do veneno de uma serpente. O que o linfócito reconhece não é o micróbio inteiro, é uma região pequena da molécula, pela forma. Um mesmo vírus tem vários antígenos, e cada antígeno pode ter várias regiões reconhecíveis.

Anticorpo é a proteína que o plasmócito fabrica sob medida para um antígeno. Tem forma de Y: as duas pontas dos braços são o sítio de ligação, com uma forma que encaixa no antígeno como a chave na fechadura; a haste é igual em todos os anticorpos de uma mesma classe e é reconhecida pelos fagócitos e pelo complemento. Anticorpo também se chama imunoglobulina; a classe mais abundante no sangue é a IgG, a primeira a aparecer numa infecção nova é a IgM, e a que protege as mucosas e passa no leite materno é a IgA. Por ser proteína, o anticorpo obedece a tudo o que está em proteínas e enzimas: a especificidade vem da forma tridimensional, e a forma vem da sequência de aminoácidos.

O que um anticorpo faz, ao se ligar ao antígeno, é de três tipos. Neutraliza: ligado à proteína que o vírus usa para entrar na célula, ou ao sítio ativo de uma toxina, ele bloqueia a função da molécula. É assim que o soro antitetânico neutraliza a toxina do tétano e o antiofídico, as enzimas do veneno. Marca: um micróbio coberto de anticorpos é engolido com muito mais eficiência pelos fagócitos (opsonização). Aglutina e ativa o complemento: anticorpos ligados a várias bactérias as grudam em grumos e acionam as proteínas que perfuram a membrana bacteriana.

"Anticorpo é uma célula de defesa"

Não é. Anticorpo é molécula, uma proteína solúvel que circula no sangue, na linfa e nas mucosas. A célula que o fabrica é o plasmócito, que vem do linfócito B. Um item que descreva o anticorpo “fagocitando” o micróbio, ou “se dividindo”, trocou molécula por célula. Do mesmo modo, um item que diga que os linfócitos T produzem anticorpos trocou o linfócito: quem produz é o B (como plasmócito); os T auxiliam, coordenam e destroem células infectadas.

Como o corpo tem um anticorpo pronto para um antígeno que nunca viu? A resposta tem Nobel. Cada linfócito B nasce com um receptor de forma única, montado por rearranjo aleatório de pedaços de genes; o corpo produz bilhões de linfócitos com bilhões de formas diferentes, e o antígeno que entra seleciona os poucos que o encaixam. Esses poucos se multiplicam (seleção clonal, teoria formulada por Macfarlane Burnet nos anos 1950) e viram plasmócitos e células de memória. As teorias sobre a especificidade e o controle do sistema imune, de Niels Jerne, e a técnica de produzir anticorpos monoclonais, idênticos e dirigidos a um único alvo, de Georges Köhler e César Milstein, deram aos três o Nobel de Medicina de 1984; anticorpos monoclonais hoje são medicamentos contra cânceres, doenças autoimunes e infecções. Antes deles, em 1908, Paul Ehrlich e Ilya Mechnikov dividiram o Nobel pelos trabalhos sobre imunidade: Ehrlich pela ideia de anticorpos solúveis que encaixam no antígeno, Mechnikov pela fagocitose. Em 2011, Bruce Beutler e Jules Hoffmann foram premiados pela ativação da imunidade inata e Ralph Steinman pela célula dendrítica, a ponte entre a resposta inata e a adaptativa.

Resposta primária e secundária: o gráfico que decide itens

Pense na catapora. Uma criança de cinco anos pega o vírus, passa dez dias doente e nunca mais tem catapora, mesmo cuidando dos irmãos doentes anos depois. O que mudou no corpo dela foi o tempo de resposta.

Na resposta primária, o primeiro contato com o antígeno, há uma fase de latência de vários dias em que a concentração de anticorpos no sangue é indetectável: é o tempo que os poucos linfócitos B que encaixam no antígeno levam para se multiplicar e virar plasmócitos. Depois a concentração sobe, chega a um pico modesto por volta da segunda semana e cai lentamente ao longo de semanas e meses. Enquanto a curva sobe, a pessoa está doente: o patógeno se multiplica mais depressa do que a defesa se monta.

Na resposta secundária, um reencontro com o mesmo antígeno, as células de memória já existem em grande número e já reconhecem bem o antígeno. A latência encurta para um a três dias, o pico é muito mais alto (dez vezes ou mais) e a queda é mais lenta, com anticorpos de encaixe melhor. Em geral o patógeno é eliminado antes de causar sintomas: a pessoa nem percebe que foi reinfectada.

Gráfico com eixo horizontal de tempo em dias, de 0 a 60, e eixo vertical de concentração de anticorpos no sangue, em unidades arbitrárias de 0 a 100, com duas setas marcando a primeira exposição no dia 0 e a segunda exposição no dia 30. Curva azul, resposta primária: fica em zero até cerca do dia 5, sobe até um pico de 10 por volta do dia 14 e decai lentamente. Curva azul mais grossa, resposta secundária: sobe a partir do dia 31, atinge pico de 100 por volta do dia 37 e decai muito devagar. Curva laranja tracejada, soro: salta de zero para 60 no dia da aplicação e decai até perto de zero em três a quatro semanas. Um retângulo cinza-claro entre os dias 0 e 5 está rotulado latência.
Anticorpos no sangue ao longo do tempo (valores ilustrativos). A resposta primária tem latência de dias, pico baixo e queda lenta; a secundária, disparada pelas células de memória, começa em um ou dois dias e chega a um pico cerca de dez vezes maior. A curva do soro é diferente das duas: começa alta no instante da injeção, porque os anticorpos já vêm prontos, e cai em semanas, porque são degradados e ninguém os repõe. Diagrama autoral.

Esse gráfico é a chave de meia dúzia de perguntas de prova. Por que a vacina protege devagar? Porque a primeira dose provoca uma resposta primária, com latência e pico baixo. Por que as vacinas têm segunda dose e reforço? Porque cada dose seguinte provoca uma resposta secundária, mais alta e mais duradoura, e amplia o estoque de células de memória. Por que o soro age em minutos? Porque não espera resposta nenhuma: a concentração de anticorpos sobe no instante da injeção. Por que o soro não dura? Porque esses anticorpos são proteínas estranhas, degradadas em dias a semanas, e nenhuma célula do paciente foi treinada para repô-los. Por que quem teve sarampo não tem de novo? Porque a memória da resposta primária transforma qualquer reencontro numa resposta secundária que elimina o vírus antes dos sintomas.

Exemplo resolvido: ler o gráfico. Use as curvas da figura. (a) Quanto tempo a resposta primária leva do contato ao pico, e quanto a secundária? (b) Qual é a razão entre os picos? © Se o soro foi aplicado no dia 0 e a concentração dos anticorpos emprestados cai à metade a cada 7 dias, que fração resta no dia 28?

(a) A primária parte do dia 0 e chega ao pico perto do dia 14: cerca de 14 dias, dos quais os 5 primeiros de latência. A secundária parte do dia 30 e chega ao pico perto do dia 37: cerca de 7 dias. A segunda resposta é duas vezes mais rápida no tempo até o pico e quase sem latência. (b) Pico secundário 100, pico primário 10: razão 10. © Quatro meias-vidas de 7 dias cabem em 28 dias: (12)4=116\left(\tfrac{1}{2}\right)^4 = \tfrac{1}{16}, cerca de 6 % do valor inicial. Um soro aplicado hoje praticamente não protege daqui a um mês, e é por isso que quem recebe soro antitetânico recebe também a vacina.

Conferência. As três respostas são coerentes com o mecanismo: a secundária é mais rápida porque as células de memória pulam a etapa de seleção e multiplicação inicial; é mais alta porque há muito mais células prontas para virar plasmócitos; o soro decai porque não há plasmócitos do paciente por trás dele. Se um item disser que a resposta secundária “demora mais, porém é mais intensa”, a primeira metade está errada.

Quatro maneiras de ficar imune: ativa ou passiva, natural ou artificial

Duas perguntas classificam qualquer imunidade adquirida. Quem fabricou os anticorpos? Se foi o próprio organismo, a imunidade é ativa; se vieram prontos de outro organismo, é passiva. Como o antígeno ou o anticorpo chegou? Se por um processo da vida (uma infecção, a gravidez, a amamentação), a imunidade é natural; se por uma intervenção (vacina, soro), é artificial. Cruzando as duas perguntas aparecem quatro quadrantes.

natural artificial
ativa (o corpo fabrica; lenta; duradoura; com memória) ter a doença (catapora, sarampo); infecção sem sintomas vacina
passiva (recebe pronto; imediata; transitória; sem memória) anticorpos IgG da mãe pela placenta; IgA pelo leite materno soro (anticorpos de animal imunizado) e imunoglobulina humana
Quadro dividido em quatro células por duas linhas. As colunas são natural e artificial; as linhas são ativa, com a frase o próprio corpo fabrica anticorpos e memória, e passiva, com a frase recebe anticorpos prontos, sem memória. Célula ativa-natural, verde-claro: ícone de pessoa com manchas de catapora e a legenda ter a doença. Célula ativa-artificial, azul-claro: seringa com antígeno e a legenda vacina. Célula passiva-natural, amarelo-claro: ícone de gestante com placenta e bebê, com a legenda placenta IgG e leite IgA. Célula passiva-artificial, laranja-claro: frasco de soro com anticorpos em Y e a legenda soro e imunoglobulina. Na margem direita, uma régua vertical compara as duas linhas: ativa, o corpo do próprio indivíduo; passiva, outro organismo (mãe, cavalo, doador).
Os quatro quadrantes da imunidade adquirida. A linha responde quem fabricou o anticorpo; a coluna responde como ele chegou. Vacina e doença estão na mesma linha porque nas duas o corpo fabrica; soro e leite materno estão na outra porque nas duas o anticorpo vem pronto. Diagrama autoral.

A imunidade passiva natural merece atenção porque é o quadrante que mais confunde. A IgG da mãe atravessa a placenta nos últimos meses da gestação e protege o recém-nascido contra as doenças que a mãe já enfrentou ou contra as quais foi vacinada. Esses anticorpos são degradados ao longo dos primeiros meses de vida e desaparecem entre os 6 e os 12 meses; por isso a vacina tríplice viral só entra aos 12 meses (antes disso, anticorpos maternos contra o sarampo neutralizariam o vírus atenuado da vacina) e por isso a gestante recebe a dTpa a partir da 20.ª semana: para fabricar anticorpos contra a coqueluche e passá-los ao bebê, que só completará o próprio esquema aos 6 meses. O leite materno, sobretudo o colostro, carrega IgA que protege as mucosas do intestino do bebê. É proteção real, imediata e transitória, e não gera memória no bebê: o lactente que recebe anticorpos pela amamentação continua precisando de todas as vacinas.

"A amamentação é uma forma de imunização ativa"

É passiva: os anticorpos do leite foram fabricados pela mãe, não pelo bebê, e não deixam células de memória no bebê. Ativa é a imunidade em que o próprio organismo responde ao antígeno, seja pela doença (ativa natural), seja pela vacina (ativa artificial). A pergunta que decide é sempre a mesma: quem fabricou o anticorpo?

Vacina: apresentar o antígeno sem o custo da doença

Uma vacina é um preparado que contém o antígeno de um patógeno, ou a instrução para que as células do vacinado o fabriquem, em uma forma que não causa a doença. O sistema adaptativo responde como responderia à infecção: seleciona os linfócitos B e T que encaixam, fabrica anticorpos e, o mais importante, guarda células de memória. Quando o patógeno de verdade aparecer, o corpo monta uma resposta secundária e o elimina antes dos sintomas, ou com sintomas leves. Vacina é imunização ativa artificial: o corpo fabrica, a proteção demora dias a semanas para começar e dura anos ou a vida inteira. Vacina previne; dada a quem já está doente, não interrompe a infecção em curso, porque a resposta que ela provoca chega tarde demais para essa infecção.

O que muda de uma vacina para outra é a forma do antígeno. Os tipos abaixo estão todos no calendário brasileiro.

Os tipos de vacina, pelo que há dentro do frasco

Atenuada: o patógeno vivo, mas enfraquecido por cultivos sucessivos em condições que selecionam variantes incapazes de causar doença em pessoas saudáveis. Multiplica-se um pouco no vacinado e por isso imita bem a infecção: resposta forte, com poucas doses. Exemplos: BCG (bacilo de Calmette e Guérin, uma cepa atenuada de Mycobacterium bovis), tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), varicela, febre amarela (cepa 17D, de 1937), rotavírus, dengue e a antiga vacina oral da poliomielite (VOP, de Sabin). Por conter agente vivo, é contraindicada para gestantes e para pessoas com imunidade muito comprometida.

Inativada: o patógeno inteiro, morto por calor ou substância química. Não se multiplica: resposta mais fraca, que exige várias doses e reforços. Exemplos: poliomielite inativada (VIP, de Salk), hepatite A, influenza, raiva, componente coqueluche da penta e da DTP (bactéria inteira inativada).

Toxoide: não é o micróbio, é a toxina dele, tratada para perder a toxicidade e manter a forma. O vacinado fabrica anticorpos que neutralizam a toxina quando a bactéria de verdade a produzir. Exemplos: tétano e difteria (o d e o T da dT e da dTpa). Como o alvo é a toxina, a vacina não impede a bactéria do tétano de entrar num ferimento; impede a toxina de agir.

Subunidade e recombinante: só uma proteína do patógeno, em geral produzida por engenharia genética em leveduras ou bactérias. Exemplos: hepatite B (a proteína de superfície do vírus, recombinante), HPV (partículas que imitam o capsídeo, montadas com uma proteína do vírus, sem genoma), coqueluche acelular da dTpa.

Conjugada: o antígeno é um açúcar da cápsula de uma bactéria, que sozinho provoca resposta fraca em crianças pequenas; ligado quimicamente a uma proteína, passa a ser bem reconhecido pelos linfócitos T auxiliares e gera memória. Exemplos: pneumocócica, meningocócica C e ACWY, Hib (o H da penta).

Vetor viral: um vírus inofensivo (um adenovírus que não se replica em humanos) carrega o gene de uma proteína do patógeno; as células do vacinado fabricam a proteína e o sistema imune a reconhece. Exemplo: a vacina de Oxford/AstraZeneca contra a covid-19, produzida no Brasil pela Fiocruz em 2021.

RNA mensageiro: o frasco contém o RNAm que codifica uma proteína do patógeno, embalado em nanopartículas de lipídio. As células do vacinado traduzem o RNAm no citoplasma, expõem a proteína e o sistema imune responde; o RNAm é degradado em dias e não entra no núcleo nem altera o DNA. Exemplo: Comirnaty contra a covid-19, hoje no calendário para bebês de 6 a 9 meses, gestantes e idosos. A química que tornou o RNAm utilizável, a modificação de bases que impede a inflamação excessiva, foi publicada por Katalin Karikó e Drew Weissman em 2005 e lhes valeu o Nobel de Medicina de 2023; as duas primeiras vacinas de RNAm foram aprovadas em dezembro de 2020.

Quadro com sete colunas, cada uma com um ícone do conteúdo do frasco, o nome do tipo, uma frase sobre o princípio e exemplos do calendário brasileiro. Atenuada, em verde: vírus inteiro com uma marca de certo, vivo e enfraquecido; BCG, tríplice viral, febre amarela, varicela, rotavírus, dengue. Inativada, em cinza: vírus inteiro com um X, morto; VIP, hepatite A, influenza, raiva, coqueluche da DTP. Toxoide, em roxo: molécula de toxina riscada; tétano, difteria. Subunidade, em azul: um único triângulo de proteína; hepatite B, HPV, coqueluche acelular. Conjugada, em rosa: um hexágono de açúcar ligado a um triângulo de proteína; pneumocócica, meningocócica, Hib. Vetor viral, em laranja: adenovírus carregando um gene destacado; covid-19 Oxford/AstraZeneca. RNA mensageiro, em vermelho: fita de RNA dentro de uma bolha tracejada de lipídio; covid-19 Comirnaty. Uma faixa inferior diz que em todos os sete o vacinado fabrica os próprios anticorpos e células de memória.
Sete tipos de vacina, do agente inteiro vivo à receita em RNA. Muda o que entra no frasco; não muda o princípio: o antígeno, ou a instrução para produzi-lo, é apresentado ao sistema adaptativo, que fabrica anticorpos e memória. Nenhuma vacina do calendário entrega anticorpos prontos. Diagrama autoral.

Doses e reforços. O número de doses segue o gráfico de anticorpos. A primeira dose provoca uma resposta primária e um estoque pequeno de memória; a segunda e a terceira provocam respostas secundárias e multiplicam esse estoque. Vacinas atenuadas, que se multiplicam no vacinado, costumam precisar de uma ou duas doses (tríplice viral: 12 e 15 meses; febre amarela: 9 meses e 4 anos). Vacinas inativadas e toxoides precisam de três doses no primeiro ano e de reforços depois (penta aos 2, 4 e 6 meses; DTP aos 15 meses e aos 4 anos; dT a cada 10 anos, porque a memória contra o toxoide tetânico decai com o tempo). A vacina da gripe é anual por outro motivo: o vírus influenza muta depressa e a vacina de cada ano é feita com as variantes previstas para a temporada. A segunda dose da tríplice viral existe porque cerca de 15 % das crianças não desenvolvem imunidade com a primeira, segundo a OPAS; não é reforço no sentido de memória gasta, é uma segunda chance para quem não respondeu.

Adjuvantes. Muitas vacinas inativadas e de subunidade trazem um adjuvante, em geral um sal de alumínio, que retém o antígeno no local da injeção e ativa a resposta inata, o que amplifica a resposta adaptativa. Sem adjuvante, uma proteína purificada isolada passaria quase despercebida.

Eventos adversos. A vacina provoca uma resposta imune de propósito, e a inflamação local (dor, vermelhidão, inchaço no braço) e a febre baixa nos dias seguintes são parte dessa resposta, não sinal de doença. Eventos graves existem, são raros, e por isso são monitorados por um sistema nacional de notificação; cada vacina do calendário passou por ensaios clínicos em fases, com milhares de participantes, antes do registro pela Anvisa. A relação entre risco e benefício é o critério de cada inclusão no calendário, e é o critério que a prova espera que você use.

"Vacina pode causar a doença que previne"

Vacinas inativadas, toxoides, de subunidade, conjugadas, de vetor e de RNA não contêm agente capaz de se multiplicar; não há como causarem a doença. Vacinas atenuadas contêm agente vivo enfraquecido, que em pessoas com imunidade normal provoca no máximo sintomas leves (febre, algumas manchas depois da tríplice viral); é por isso que são contraindicadas para imunodeprimidos e gestantes. A frase que a prova espera: a vacina apresenta o antígeno em versão inofensiva, e os sintomas leves após a dose são a resposta imune em andamento, não a doença.

Por que a antitetânica exige reforço e a tríplice viral não?

Dois fatores. O tipo de vacina: a tríplice viral é atenuada e se multiplica no vacinado, imitando a infecção inteira; o toxoide tetânico é uma proteína inerte, que dispara uma resposta menor a cada dose. E a natureza do alvo: contra o sarampo, qualquer reencontro com o vírus circulante funciona como reforço natural silencioso; a toxina do tétano só aparece quando esporos de Clostridium tetani, que vivem no solo, germinam num ferimento profundo, o que acontece raramente, e a memória decai sem ser renovada. Daí o dT a cada 10 anos, antecipado para 5 em caso de ferimento com risco. A proteção que você tem hoje contra o tétano depende da data da última dose na sua caderneta.

Soro: anticorpos emprestados para a emergência que não pode esperar

O veneno de uma jararaca destrói tecido e desregula a coagulação em horas; a toxina do tétano começa a travar músculos em dias; o vírus da raiva, uma vez instalado no sistema nervoso, mata em quase 100 % dos casos. Nas três situações não há tempo para o corpo montar uma resposta primária. A solução é emprestar anticorpos que outro organismo já fabricou: o soro (ou antissoro, ou soro hiperimune), uma preparação de anticorpos prontos contra um antígeno específico. Soro é imunização passiva artificial: age em minutos, dura dias a semanas e não deixa memória. Soro trata ou protege imediatamente; não previne a longo prazo.

Como um soro é produzido. O método é o de Vital Brazil, que em 1901 começou a imunizar cavalos na fazenda Butantan, em São Paulo, e demonstrou que o soro contra veneno de serpente tem de ser específico para o gênero da serpente. Um cavalo (um animal grande, que produz muito plasma) recebe doses pequenas e crescentes do antígeno (veneno, toxoide, vírus inativado) ao longo de semanas; o sistema imune do cavalo faz uma resposta ativa, com picos secundários cada vez maiores, até que o sangue dele fique rico em anticorpos. Retira-se então o sangue, separa-se o plasma (a parte líquida, sem células) e dele se purificam as imunoglobulinas, que são fracionadas, filtradas e envasadas. Os laboratórios públicos que fazem isso no Brasil são o Instituto Butantan (SP), o Instituto Vital Brazil (RJ) e a Fundação Ezequiel Dias (MG); a Funed mantém uma fazenda experimental com equinos produtores de plasma hiperimune e um criadouro com mais de 200 serpentes e milhares de escorpiões para extrair o veneno que serve de antígeno. A produção é encomendada anualmente pelo Ministério da Saúde, que distribui os soros aos hospitais de referência. Repare que o cavalo fez imunização ativa e o paciente recebe imunização passiva: o mesmo anticorpo é ativo para quem o fabricou e passivo para quem o recebe.

Fluxograma horizontal em seis etapas ligadas por setas. Etapa 1: serpente e frasco de veneno com a legenda antígeno. Etapa 2, destacada em azul: cavalo com seringa e um pequeno gráfico de barras crescentes, legenda doses pequenas e crescentes por semanas, resposta ativa do cavalo. Etapa 3: bolsa de sangue com legenda coleta, sangria controlada. Etapa 4: tubo com camada superior amarela rotulada plasma e inferior vermelha rotulada células, legenda centrifugação. Etapa 5: funil com anticorpos em Y, legenda purificação das imunoglobulinas, controle de qualidade e envase. Etapa 6, destacada em laranja: pessoa recebendo a ampola, legenda imunização passiva, age em minutos, dura semanas, sem memória. Abaixo, duas caixas comparam: no cavalo, imunização ativa; no paciente, passiva.
Como um soro hiperimune é produzido. O cavalo faz uma imunização ativa, com doses crescentes do antígeno; o paciente recebe os anticorpos prontos, uma imunização passiva. É o mesmo anticorpo nos dois lados da seta; o que muda é quem o fabricou. Diagrama autoral.

Quais soros existem. A rede pública distribui soros antipeçonhentos, antitóxicos e antivirais: antibotrópico (jararacas, gênero Bothrops, responsáveis pela maioria dos acidentes ofídicos do país), anticrotálico (cascavel, Crotalus), antilaquético (surucucu, Lachesis), antielapídico (corais verdadeiras, Micrurus), antiescorpiônico (Tityus), antiaracnídico (aranhas), antitetânico, antidiftérico, antibotulínico e antirrábico. Cada um só neutraliza o veneno ou a toxina contra a qual o cavalo foi imunizado: soro de cascavel não serve para picada de jararaca. Daí a importância de identificar o animal, e daí a existência de soros polivalentes, que misturam anticorpos contra várias espécies de um mesmo gênero (o antibotrópico pentavalente cobre cinco espécies de Bothrops).

Imunoglobulina humana. Há uma alternativa ao soro de cavalo: a imunoglobulina obtida do plasma de doadores humanos vacinados, com alto teor de anticorpos (por exemplo, a imunoglobulina humana antitetânica e a antirrábica). Também é imunização passiva, e também não deixa memória; a vantagem é que anticorpos humanos provocam menos reações e duram mais no corpo (meia-vida de 21 a 28 dias para a antitetânica, segundo o Ministério da Saúde). É indicada para quem já teve reação a soro de origem animal e para imunodeprimidos, entre outros casos.

Doença do soro. Anticorpos de cavalo são proteínas estranhas ao paciente, e o sistema imune do paciente pode montar uma resposta ativa contra elas. Uma a duas semanas depois da aplicação pode surgir a doença do soro (febre, urticária, dores articulares), e, em pessoas já sensibilizadas, há risco de reação alérgica grave na própria aplicação. Por isso o soro é aplicado em serviço de saúde com equipamento de emergência, e por isso os soros atuais são cada vez mais purificados.

"Soro fisiológico tem anticorpos"

Não tem. Soro fisiológico é água com 0,9 % de cloreto de sódio, uma solução isotônica com o plasma, usada para hidratar, diluir medicamentos e limpar ferimentos; o soro de reidratação oral é água, sal e glicose. Nenhum dos dois contém anticorpos. O soro da imunização é o antissoro, uma preparação de imunoglobulinas obtida do plasma de um animal imunizado ou de doadores humanos. A palavra é a mesma porque todos vêm de soro no sentido original, a parte líquida que sobra do sangue coagulado; o conteúdo é completamente diferente. Um item que diga que o soro fisiológico confere imunidade passiva está errado.

Quando se usam soro e vacina juntos. Dois casos do protocolo brasileiro ensinam a lógica. No tétano, uma pessoa com ferimento profundo e sujo que nunca se vacinou, ou cuja última dose foi há mais de 10 anos, recebe soro antitetânico (ou imunoglobulina) e a vacina dT na mesma consulta: o soro neutraliza hoje a toxina que a ferida possa liberar; a vacina começa o esquema que protegerá nos anos seguintes. Quem está com a vacina em dia recebe só a dose de reforço, ou nada, porque as células de memória resolvem. Na raiva, depois de mordida de animal suspeito, a conduta depende da gravidade da exposição e do histórico: vacina antirrábica em várias doses, e, nos casos graves, também soro ou imunoglobulina antirrábica infiltrados na ferida. Como o vírus leva dias a semanas para alcançar o sistema nervoso, a vacina dada logo após a mordida ainda chega a tempo (profilaxia pós-exposição). É o caso clássico de vacina aplicada depois do contato com o patógeno para impedir a doença; a dT no ferimento de risco segue a mesma lógica, e há outras profilaxias pós-exposição (sarampo até 72 horas depois do contato, hepatite B depois de acidente com material contaminado), todas apoiadas no mesmo fato: a doença demora mais para se instalar do que a resposta ativa para começar. Quem fez a vacina antes (profilaxia pré-exposição, para veterinários e outros profissionais) não precisa de soro depois da mordida: já tem memória. Em nenhum dos dois casos a vacina cura a doença; ela chega antes dela.

Exemplo resolvido: quem recebe o quê? Três pessoas chegam ao pronto-socorro depois de um acidente numa obra, com ferimentos profundos sujos de terra. Ana tomou a última dose de dT há 3 anos. Bruno tomou as três doses na infância, mas a última foi há 15 anos. Carla nunca se vacinou. Decida, para cada um, se há indicação de vacina, de soro, de ambos ou de nenhum, e justifique pela imunologia.

Ana tem células de memória recentes e anticorpos circulantes: nem soro nem reforço (o calendário só antecipa o reforço quando a última dose tem mais de 5 anos). Bruno tem células de memória, mas os anticorpos circulantes caíram em 15 anos: uma dose de reforço dispara uma resposta secundária em poucos dias, rápida o bastante para a janela do tétano; soro não é necessário. Carla não tem memória nenhuma: a primeira dose só produziria anticorpos depois de uma latência de dias, tarde demais para a toxina que a ferida pode liberar. Ela recebe soro antitetânico (ou imunoglobulina) para a proteção imediata e começa o esquema de três doses de dT para a proteção duradoura.

Conferência. A decisão segue o gráfico de anticorpos: quem tem memória faz resposta secundária e dispensa o empréstimo; quem não tem precisa do empréstimo enquanto a resposta primária não vem. Note que a toxina do tétano é o alvo em todos os casos: a vacina é um toxoide e o soro, uma antitoxina.

Vacina ou soro: a única pergunta que decide o item

vacina soro
o que contém antígeno (agente atenuado, inativado, fragmento, toxoide, RNAm) anticorpos prontos (imunoglobulinas)
quem fabrica o anticorpo o próprio vacinado outro organismo (cavalo, doador humano)
tipo de imunização ativa, artificial passiva, artificial
começo da proteção dias a semanas (resposta primária) minutos
duração anos ou vida inteira, com memória dias a semanas, sem memória
uso prevenir, antes do contato tratar ou proteger de imediato, depois do contato
exemplos penta, tríplice viral, HPV, covid-19 antiofídico, antiescorpiônico, antitetânico, antirrábico
em comum ambos são específicos para um antígeno e ambos envolvem anticorpos; nenhum dos dois age sobre a bactéria como um antibiótico age

A prova gosta de trocar uma linha dessa tabela. O PAS 2 de 2020 fez isso no item 81: “Após a aplicação da vacina, o paciente fica imunizado, uma vez que o organismo recebe um anticorpo pronto; logo, a vacina pode ser considerada uma forma de imunização passiva.” Gabarito E: “anticorpo pronto” e “imunização passiva” descrevem o soro. Repare como o item é quase todo verdadeiro (a vacina de fato imuniza) e erra numa única expressão. A mesma troca aparece no sentido oposto: um item que diga que o soro antiofídico “estimula o organismo a produzir anticorpos e células de memória” está descrevendo a vacina.

Quem produziu o anticorpo?

Se o item disser “recebe anticorpos prontos”, “ação imediata”, “sem memória” ou “proteção transitória”, está falando de soro, seja qual for o nome que use. Se disser “o organismo produz”, “células de memória”, “prevenção” ou “proteção duradoura”, é vacina. Sublinhe o verbo que descreve o anticorpo (recebe ou produz) antes de ler o rótulo que o item deu; o rótulo é o que a banca troca.

Há um terceiro produto que a prova junta a esses dois: o antibiótico. Ele não é imunização nenhuma. É uma substância que ataca estruturas da célula bacteriana (parede, ribossomo 70S, enzimas) e por isso não faz nada contra vírus, que não têm célula, nem contra a toxina já liberada. Vacina previne a infecção; soro neutraliza o antígeno de imediato; antibiótico mata a bactéria instalada. A ficha de qualquer doença da prova tem uma casa para cada um; os detalhes dos antibióticos estão em bactérias.

Da vaca de Jenner à varíola zero: a história que a prova usa como texto-base

A palavra “vacina” vem de vacca, e a história começa com uma doença de vaca. Antes dela, desde pelo menos o século XVIII, praticava-se a variolação: inocular numa pessoa sadia material de uma pústula de varíola, para provocar um caso brando que deixasse a pessoa imune. Funcionava com frequência, mas era inoculação do vírus vivo da própria varíola: alguns inoculados morriam e todos podiam transmitir a doença.

Jenner, 1796. Camponeses ingleses observavam que quem contraía a cowpox (a varíola bovina, doença branda das ordenhadoras) não pegava a varíola humana. Em maio de 1796, o médico Edward Jenner inoculou o menino James Phipps com material da ferida de uma ordenhadora e, dois meses depois, expôs o menino à varíola: ele não adoeceu. Jenner publicou os resultados em 1798. Em linguagem de hoje: o vírus da cowpox tem antígenos parecidos com os do vírus da varíola, de modo que a resposta ativa contra um protege contra o outro, sem o risco da variolação. Jenner não sabia o que era um vírus nem um anticorpo; sabia observar e testar.

Pasteur, 1885. Louis Pasteur descobriu que patógenos podiam ser enfraquecidos em laboratório (atenuados) e ainda assim proteger, e generalizou a palavra “vacina” para qualquer preparado desse tipo. Em 6 de julho de 1885, recebeu Joseph Meister, um menino de nove anos mordido catorze vezes por um cão raivoso, e aplicou nele, ao longo de dez dias, treze injeções de uma preparação de medula de coelho infectada, cada vez mais virulenta. Meister não desenvolveu a raiva. Foi a primeira profilaxia pós-exposição da história, e o afluxo de pacientes levou à fundação do Instituto Pasteur, inaugurado em 1888.

Vital Brazil, 1901, e Oswaldo Cruz, 1904. No Brasil, Vital Brazil imunizou cavalos num estábulo adaptado da fazenda Butantan e demonstrou que o soro antiofídico tem de ser específico para o gênero da serpente: nasciam o soro antibotrópico e o anticrotálico, e o instituto que em 1925 ganharia o nome de Instituto Butantan. No Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz, diretor-geral de Saúde Pública desde 1903, enfrentava febre amarela, peste e varíola; só em 1904 a varíola matou cerca de 3 500 pessoas na capital. Em 31 de outubro de 1904 o Congresso aprovou a lei da vacinação obrigatória, com multas, exigência de atestado para matrícula escolar e emprego público, e poder de entrada dos agentes nas casas. A regulamentação, nove dias depois, foi o estopim: em 10 de novembro começou a Revolta da Vacina, uma semana de barricadas, bondes virados e confronto com a polícia e o Exército, somada a uma tentativa de golpe militar. O estado de sítio decretado no dia 16 permitiu ao governo retomar o controle: o levante deixou 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, e quase metade dos detidos foi mandada ao Acre, muitos para trabalhos forçados. O presidente Rodrigues Alves manteve Oswaldo Cruz no cargo, mas anunciou o fim da vacinação obrigatória; em 1908, uma nova epidemia de varíola mataria mais de 6 500 pessoas no Rio. A revolta não foi só contra a vacina: foi contra a remoção de cortiços, a invasão de casas e um Estado que decidia sobre o corpo das pessoas sem explicar nada. A lição que a saúde pública tirou dali, e que vale até hoje, é que vacinar uma população exige confiança, informação e acesso, não só decreto. O Brasil só eliminou a varíola em 1971: os 19 últimos casos conhecidos foram registrados naquele ano, num surto no então Estado da Guanabara.

BCG e os toxoides, anos 1920. Albert Calmette e Camille Guérin obtiveram em 1921, no Instituto Pasteur, uma cepa atenuada de Mycobacterium bovis que dá nome à vacina BCG, usada no Brasil desde 1927; o toxoide tetânico, a toxina tratada para perder a toxicidade, é da mesma década. A vacina atenuada da febre amarela, com a cepa 17D, é de 1937, e essa cepa ainda é a base da vacina usada hoje.

Salk e Sabin: duas vacinas contra a pólio. A poliomielite paralisava dezenas de milhares de crianças por ano nos Estados Unidos no início dos anos 1950. Jonas Salk desenvolveu uma vacina de vírus inativado, injetável, licenciada em 12 de abril de 1955 depois de um ensaio com mais de um milhão de crianças; perguntado a quem pertencia a patente, respondeu que ao povo, e que não se patenteia o Sol. Albert Sabin desenvolveu em seguida uma vacina de vírus atenuado, oral (as gotinhas), aprovada no começo dos anos 1960 e testada em larga escala na União Soviética. A vacina oral tinha uma vantagem para a erradicação: o vírus atenuado se multiplica no intestino e o vacinado passa a eliminar vírus vacinal, imunizando contatos e interrompendo a circulação do vírus selvagem; tinha também um risco raro, o de o vírus vacinal reverter à forma paralítica. Por isso, concluída a fase de eliminação, os países migram para a vacina inativada: no Brasil, desde 4 de novembro de 2024 o esquema é exclusivamente com a VIP (2, 4 e 6 meses, com reforços aos 15 meses e aos 4 anos).

O PNI, 1973, e o Zé Gotinha, 1986. O Programa Nacional de Imunizações foi formulado em 1973 e institucionalizado pela Lei 6.259, de 1975, com a tarefa de organizar a vacinação de rotina e as campanhas em todo o território, com vacinas gratuitas. Ele completou 50 anos em 2023. Os dias nacionais de vacinação contra a pólio, em que o país inteiro vacinava num só dia, deram ao Brasil cobertura e uma figura: o boneco-símbolo das campanhas, criado em 1986 e batizado de Zé Gotinha num concurso nacional com voto de crianças de todas as unidades da federação. O último isolamento de poliovírus selvagem no Brasil foi em 1989, no município de Souza, na Paraíba; o último caso das Américas foi em 1991, em Junín, no Peru; em 1994 a OPAS certificou a erradicação da transmissão autóctone do poliovírus selvagem no continente, e o Brasil recebeu o certificado. O poliovírus selvagem ainda circula no Afeganistão e no Paquistão, o que mantém a vacinação de rotina aqui: um vírus importado encontra terreno em qualquer bolsão de crianças sem vacina.

A varíola, 1977 e 1980. A OMS intensificou a campanha de erradicação da varíola em 1967: vacinação em massa, e depois a estratégia de vigilância e contenção, em que cada caso era rastreado e todos os contatos, vacinados. O último caso natural ocorreu na Somália em 1977; a comissão independente certificou a erradicação em dezembro de 1979, e a Assembleia Mundial da Saúde a declarou em 1980. A varíola é até hoje a única doença humana erradicada. Três fatores tornaram isso possível: uma vacina eficaz e estável; vigilância que encontrava cada caso; e um vírus que só infecta seres humanos, sem reservatório animal onde se esconder. É por esse último fator que a febre amarela, com ciclo silvestre em macacos e mosquitos do mato, não pode ser erradicada pela mesma estratégia, e que o sarampo, sem reservatório animal, é candidato.

Sarampo: certificado ganho, perdido e recuperado. A vacina contra o sarampo é de 1963; antes dela, a doença matava cerca de 2,6 milhões de pessoas por ano no mundo. O Brasil registrou o que então era o último caso autóctone em 2000, e em 2016 as Américas foram declaradas livres do sarampo endêmico, a primeira região do mundo. A partir de 2018, com a queda da cobertura e a importação de casos, o vírus voltou a circular; em 2019 a transmissão endêmica foi considerada restabelecida e o Brasil perdeu a certificação. A transmissão foi interrompida em meados de 2022 e, em 2024, a Comissão Regional de Verificação da OPAS devolveu ao país o status de livre do sarampo. Em novembro de 2025, porém, a região das Américas perdeu o status, porque o vírus circulou por mais de 12 meses no Canadá; em 2025 foram 15 011 casos confirmados e 32 mortes na região, e nas primeiras 28 semanas de 2026, 47 459 casos, o maior número em 22 anos, concentrados em Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá. A OMS estima que a vacina contra o sarampo evitou cerca de 59 milhões de mortes no mundo entre 2000 e 2024, e que ainda assim houve cerca de 95 mil mortes em 2024, quase todas de crianças não vacinadas. Confira o status do Brasil no momento em que ler esta página: ele muda com a cobertura.

A covid-19 e a vacina de RNA, 2020. Em dezembro de 2020, menos de um ano depois do início da pandemia, duas vacinas de RNA mensageiro foram aprovadas, com eficácia da ordem de 95 % nos ensaios. A velocidade só foi possível porque a plataforma já existia: o trabalho de Karikó e Weissman sobre bases modificadas do RNA é de 2005. No Brasil, o Instituto Butantan e a Fiocruz/Bio-Manguinhos produziram as primeiras vacinas da campanha de 2021, e a vacina contra a covid-19 entrou no Calendário Nacional. O PAS 3 de 2020 pendurou três itens num texto sobre essas vacinas e cobrou que o RNAm é traduzido no citoplasma, produz a proteína viral reconhecida pelo sistema imune e não se insere no DNA.

Linha do tempo horizontal de 1790 a 2030, com marcadores acima e abaixo da linha. Acima, em azul, marcos mundiais: 1796 Jenner e a cowpox; 1885 Pasteur e a raiva; 1921 BCG; 1955 Salk, pólio inativada; 1963 vacina do sarampo e anos 1960 Sabin; 1977 último caso natural de varíola; 1980 OMS declara a varíola erradicada; 2016 Américas livres do sarampo; 2020 vacinas de RNAm; 2025 Américas perdem o status do sarampo. Abaixo, em verde, marcos brasileiros: 1901 Vital Brazil e o soro antiofídico; 1904 Revolta da Vacina; 1927 BCG no Brasil; 1971 últimos casos de varíola; 1973 PNI; 1986 Zé Gotinha; 1989 último poliovírus selvagem; 1994 certificado da pólio; 2000 último caso autóctone de sarampo da época; 2019 perde o certificado do sarampo; 2024 recupera o certificado e pólio só com VIP.
Dois séculos de imunização, com os marcos mundiais acima da linha e os brasileiros abaixo. As datas são as de fontes oficiais (OMS, OPAS, Instituto Pasteur, Ministério da Saúde, Casa de Oswaldo Cruz). Diagrama autoral.

Como a prova usou essa história. O PAS 2 pendurou itens de imunologia em textos de História em três ocasiões. Em 2007, um texto de Mary Karasch sobre a varíola entre os escravizados do Rio no século XIX serviu de base ao item 81 (gabarito C): a presença de muitas cicatrizes variólicas no rosto indica que a pessoa tem anticorpos contra o vírus. É a imunização ativa natural pelo caminho mais duro: quem sobreviveu à doença fez a resposta primária, e as cicatrizes são o registro dela. Em 2020, um texto sobre Jenner sustentou dois itens: o 77 (gabarito E) reescreveu a crença dos camponeses como se contrair a cowpox “comprovasse” uma imunidade que já existia, quando a crença era a de que contrair a cowpox conferia a proteção, e foi essa relação de causa que Jenner testou; o 81 (gabarito E) é o da vacina chamada de imunização passiva. Em 2024, a reportagem sobre as doenças que os colonizadores espalharam entre povos indígenas sustentou o tipo C do item 20, cujo gabarito (opção A) afirma que a varíola é uma doença viral erradicada no mundo em decorrência da vacinação em larga escala e da vigilância sanitária; os distratores trocavam o agente da gripe (vírus, não bactéria), do sarampo (vírus, não protozoário) e da febre amarela (vírus transmitido pelo Aedes, não platelminto). Em 2022, o item 61 (gabarito E) afirmava que um programa de vacinação das aves “garantirá” produtividade e retorno financeiro a um criador: vacina reduz o risco de doença; nenhuma vacina garante resultado econômico, e o quantificador absoluto derruba a frase.

"Poderia patentear o Sol?"

Em 1955, numa entrevista de televisão logo após a licença da vacina inativada da pólio, perguntaram a Jonas Salk quem detinha a patente. Ele respondeu que a patente era do povo, e que não se patenteia o Sol. Seis fabricantes foram autorizados a produzir a vacina com a fórmula aberta. O episódio costuma ser lembrado nas discussões sobre o preço das vacinas e sobre a produção pública, que no Brasil é feita pelo Butantan e por Bio-Manguinhos.

O Calendário Nacional de Vacinação, idade por idade

O calendário é a tradução do gráfico de anticorpos em política pública: cada vacina entra na idade em que a criança perde a proteção materna e passa a correr risco, e cada reforço entra quando a memória começa a cair. A tabela abaixo resume o calendário vigente do Ministério da Saúde (2026) para a rotina; grupos especiais (povos indígenas, trabalhadores da saúde, pessoas imunocomprometidas) têm indicações adicionais.

idade vacinas tipo doença prevenida
ao nascer BCG (dose única); hepatite B atenuada; recombinante formas graves de tuberculose; hepatite B
2, 4 e 6 meses penta (DTP + Hib + hepatite B); VIP; pneumocócica (2 e 4 m) inativada + toxoide + conjugada; inativada; conjugada difteria, tétano, coqueluche, meningite por Hib, hepatite B; pólio; pneumonia e meningite pneumocócica
2 e 4 meses rotavírus (oral) atenuada diarreia grave por rotavírus
3 e 5 meses meningocócica C conjugada meningite meningocócica C
6, 7 e 9 meses covid-19 (Comirnaty); influenza a partir dos 6 meses, anual RNAm; inativada formas graves de covid-19; gripe
9 meses febre amarela (reforço aos 4 anos) atenuada febre amarela
12 meses tríplice viral (1.ª dose); meningocócica ACWY; pneumocócica (reforço) atenuada; conjugada sarampo, caxumba, rubéola; meningites A, C, W, Y
15 meses tríplice viral (2.ª dose); varicela; hepatite A; DTP (1.º reforço); VIP (reforço) atenuada; atenuada; inativada; inativada + toxoide; inativada
4 anos DTP (2.º reforço); VIP; varicela (2.ª dose); febre amarela (reforço)
9 anos (até 14) HPV, dose única recombinante infecções pelos tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV; câncer de colo do útero e outros
10 anos (até 14) dengue (2 doses, intervalo de 3 meses) atenuada dengue pelos quatro sorotipos
11 anos meningocócica ACWY conjugada meningites
14 e 24 anos, depois a cada 10 anos dT (reforço) toxoide difteria e tétano
gestante dT (3 doses se nunca vacinada); dTpa a partir da 20.ª semana, em cada gestação; influenza; covid-19; hepatite B toxoide; toxoide + acelular; inativada; RNAm; recombinante proteção da mãe e, pela placenta, do bebê (coqueluche)
idoso (60 +) influenza anual; covid-19 semestral; dT a cada 10 anos; hepatite B; pneumocócica em casos específicos

Quatro detalhes do calendário são matéria de prova. A BCG é dose única ao nascer e protege contra as formas graves e disseminadas da tuberculose em crianças, com efeito protetor também contra a hanseníase; não impede a infecção pulmonar do adulto, e não trata a doença instalada. A tríplice viral começa aos 12 meses por causa dos anticorpos maternos, como visto na seção dos quadrantes. A vacina contra o HPV é dose única dos 9 aos 14 anos, para meninas e meninos (Nota Técnica n.º 16/2025 do Ministério da Saúde), e previne a infecção pelos tipos de HPV ligados a câncer; é mais eficaz antes do início da vida sexual porque não trata infecções já existentes. O PAS 1 de 2013 pendurou quatro itens num projeto de lei sobre essa vacina: ela não previne herpes nem outras infecções sexualmente transmissíveis, porque é específica (item 76, E); a faixa etária do projeto correspondia ao início da maturidade reprodutiva (77, C); a vacinação de meninos interrompe a cadeia de transmissão (79, C). A antitetânica precisa de reforço a cada 10 anos, antecipado para 5 anos em caso de ferimento com risco.

Cobertura vacinal e imunidade coletiva: a conta que define a meta de 95 %

Uma vacina protege o vacinado. Uma população vacinada protege também quem não pôde ser vacinado (recém-nascidos, pessoas em quimioterapia, alérgicos a um componente), porque um vírus que chega a uma comunidade em que quase todo mundo é imune não encontra a quem infectar e a cadeia de transmissão se apaga. Esse efeito é a imunidade coletiva (ou de rebanho). Ela tem uma conta.

O limiar da imunidade coletiva

O número básico de reprodução, R0R_0, é o número médio de pessoas que um doente infecta numa população em que ninguém é imune. Se uma fração pp da população é imune, cada doente só consegue infectar os suscetíveis, e o número efetivo de novos casos por doente cai para R0(1−p)R_0 (1 - p). A epidemia para de crescer quando esse número fica abaixo de 1:

R0(1−p)<1⟹p>1−1R0.R_0(1-p) < 1 \quad\Longrightarrow\quad p > 1 - \frac{1}{R_0}.

O valor pc=1−1/R0p_c = 1 - 1/R_0 é o limiar da imunidade coletiva. Quanto mais contagiosa a doença (maior R0R_0), mais perto de 100 % a cobertura precisa ficar. Para o sarampo, uma das infecções mais contagiosas que se conhece, as estimativas clássicas de R0R_0 ficam entre 12 e 18 (revisão sistemática de Guerra e colaboradores, 2017), o que dá um limiar entre 92 % e 94 %; a OMS trabalha com a meta de pelo menos 95 % de cobertura com duas doses. Para uma doença com R0=2R_0 = 2, o limiar é 50 %.

Exemplo resolvido: o limiar do sarampo. (a) Calcule o limiar de imunidade coletiva para R0=12R_0 = 12 e para R0=18R_0 = 18. (b) Numa cidade de 200 000 habitantes com cobertura de 80 %, um caso importado de sarampo (com R0=15R_0 = 15) tende a gerar quantos casos secundários? © Quantas pessoas a mais precisariam ser imunes para a cidade alcançar 95 %?

(a) 1−1/12=11/12≈0,9171 - 1/12 = 11/12 \approx 0{,}917, ou 91,7 %; 1−1/18=17/18≈0,9441 - 1/18 = 17/18 \approx 0{,}944, ou 94,4 %. (b) Suscetíveis: 20 % da população. Casos secundários por caso: R0(1−p)=15×0,20=3R_0(1-p) = 15 \times 0{,}20 = 3. Cada doente infecta em média três pessoas; a epidemia cresce. © 95 % de 200 000 são 190 000 imunes; 80 % são 160 000. Faltam 30 000 pessoas. Com 95 %, 15×0,05=0,75<115 \times 0{,}05 = 0{,}75 < 1: cada caso gera menos de um novo caso e a cadeia se extingue.

Conferência. Com p=80 %p = 80\,\% e R0=15R_0 = 15 a epidemia cresce (3 > 1); com 95 % ela se apaga (0,75 < 1). O limiar exato para R0=15R_0 = 15 é 1−1/15≈93,3 %1 - 1/15 \approx 93{,}3\,\%, entre os dois valores, como deve ser.

Dois painéis com grades de 100 bonecos cada. Painel da esquerda, cobertura de 70 %: 70 bonecos azuis vacinados, 30 bonecos brancos suscetíveis; um boneco vermelho infectado no centro tem setas vermelhas até vários suscetíveis vizinhos, que ficam vermelhos, com a legenda 15 vezes 0,30 igual a 4,5 novos casos por doente, a epidemia cresce. Painel da direita, cobertura de 95 %: 95 bonecos azuis e 5 brancos espalhados; do boneco vermelho central sai uma única seta até um suscetível, com a legenda 15 vezes 0,05 igual a 0,75 novo caso por doente, a cadeia se apaga. Abaixo, uma barra horizontal de 0 a 100 % marca o limiar 1 menos 1 sobre R0 para R0 igual a 2, 5, 10, 15 e 18, com os valores 50 %, 80 %, 90 %, 93,3 % e 94,4 %.
Imunidade coletiva em duas coberturas. Com 70 % de vacinados, um caso importado de uma doença com R0 igual a 15 ainda encontra suscetíveis suficientes para gerar vários casos; com 95 %, quase todos os contatos do doente são imunes e a transmissão morre. A barra inferior mostra que o limiar sobe depressa com a contagiosidade. Diagrama autoral, esquema sem escala geográfica.

O que a imunidade coletiva não faz. Ela não é um escudo absoluto para quem não se vacinou: reduz a probabilidade de o suscetível encontrar o vírus, e essa probabilidade volta a subir sempre que a cobertura cai abaixo do limiar ou quando os não vacinados se concentram num mesmo bairro, escola ou comunidade (a cobertura média de um país pode ser 95 % e a de um bairro, 60 %; é no bairro que o surto acontece). Ela também só vale para doenças transmitidas de pessoa a pessoa: a vacina contra o tétano protege só o vacinado, porque o tétano vem de esporos do solo e não se transmite entre pessoas, e a da febre amarela não gera imunidade coletiva contra o ciclo silvestre, que vive nos macacos. Um item que afirme que “a imunidade coletiva dispensa a vacinação individual” ou que “protege integralmente os não vacinados” está errado.

Os números do Brasil. As estimativas conjuntas da OMS e do Unicef (WUENIC, edição de 2026) mostram a queda e a recuperação da cobertura brasileira entre 2015 e 2025. A terceira dose da penta (DTP3), indicador clássico de rotina, caiu de 96 % em 2015 para 70 % em 2019 e 68 % em 2021, o ponto mais baixo, e voltou a 86 % em 2023, 90 % em 2024 e 86 % em 2025. A primeira dose contra o sarampo (MCV1) foi de 96 % em 2015 a 73 % em 2021, e voltou a 96 % em 2024 e 90 % em 2025. A segunda dose contra o sarampo (MCV2), a que decide a imunidade coletiva, caiu a 44 % em 2020 e subiu a 81 % em 2024 e 76 % em 2025, ainda longe dos 95 %. A BCG, aplicada na maternidade, foi de 99 % a 69 % em 2021 e voltou a 97 % em 2025. O período de queda coincide com o retorno do sarampo em 2018 e com a perda do certificado em 2019; a recuperação coincide com a devolução do certificado em 2024. As causas da queda são várias e estudadas: a sensação de que as doenças desapareceram, a desinformação, a dificuldade de acesso aos postos nos horários de trabalho, as falhas de registro e a pandemia, que esvaziou as unidades de saúde em 2020 e 2021. A recuperação veio com campanhas de multivacinação nas escolas, busca ativa de crianças com caderneta atrasada e microplanejamento por município.

Gráfico de linhas com eixo horizontal de anos, de 2015 a 2025, e eixo vertical de cobertura em porcentagem, de 40 a 100. Linha tracejada horizontal em 95 % rotulada meta. Quatro séries com pontos: DTP3 em azul, de 96 em 2015 caindo a 70 em 2019 e 68 em 2021, subindo a 86, 90 e 86 em 2023, 2024 e 2025; MCV1 em verde, de 96 a 73 em 2021 e de volta a 96 em 2024 e 90 em 2025; MCV2 em laranja, de 80 em 2015 a 44 em 2020 e 46 em 2021, subindo a 81 em 2024 e 76 em 2025; BCG em roxo, de 99 a 69 em 2021 e de volta a 99 em 2024 e 97 em 2025. Uma faixa vermelha clara marca 2018 a 2019, retorno do sarampo e perda do certificado, e uma faixa verde clara marca 2024, certificado recuperado.
Cobertura vacinal no Brasil, 2015 a 2025, segundo as estimativas OMS/Unicef (WUENIC 2026). Todas as séries caem a partir de 2016, chegam ao fundo em 2020 ou 2021 e se recuperam depois de 2022; a segunda dose contra o sarampo (MCV2) é a que mais ficou abaixo da meta de 95 %. Diagrama autoral com dados oficiais.

Exemplo resolvido: cobertura e população. Um município tem 4 000 crianças de um ano. A cobertura da segunda dose da tríplice viral é de 76 %, e a meta é 95 %. (a) Quantas crianças estão vacinadas e quantas faltam para a meta? (b) Se um surto de sarampo com R0=15R_0 = 15 chegasse a essa coorte, cada caso geraria quantos casos secundários?

(a) Vacinadas: 0,76×4 000=3 0400{,}76 \times 4\,000 = 3\,040. Meta: 0,95×4 000=3 8000{,}95 \times 4\,000 = 3\,800. Faltam 760760 crianças. (b) Suscetíveis: 24 %. 15×0,24=3,615 \times 0{,}24 = 3{,}6 casos por caso: a epidemia cresce.

Conferência. 760 é 19 % de 4 000, que é a diferença entre 95 % e 76 %: as duas contas batem. E 3,6 > 1 é coerente com a cobertura estar abaixo do limiar de 93 %.

Eficácia de uma vacina não é “porcentagem de protegidos”. Nos ensaios clínicos de fase 3, dois grupos sorteados, um vacinado e um com placebo, são acompanhados no mesmo período e comparam-se as taxas de adoecimento. Se 1,5 % do grupo placebo adoeceu e 0,3 % do grupo vacinado, a eficácia é a redução relativa do risco: (1,5−0,3)/1,5=0,80(1{,}5 - 0{,}3)/1{,}5 = 0{,}80, ou 80 %. Isso significa que a vacina evitou 80 % dos casos que teriam ocorrido, não que 80 % dos vacinados ficaram protegidos e 20 % não. Eficácias de vacinas diferentes, medidas em países, épocas e variantes diferentes, não se comparam diretamente. O PAS 2 de 2008 usou a diferença entre medidas para separar quem entendeu: a distribuição gratuita de antirretrovirais derrubou a mortalidade por AIDS (item 53, C), mas não a incidência (item 52, E), porque remédio trata quem já se infectou e só a prevenção reduz casos novos. Com vacina a lógica é a inversa: ela derruba a incidência. Os detalhes de incidência, prevalência, mortalidade e letalidade estão em saneamento e saúde coletiva.

Hesitação vacinal. A OMS trata a hesitação vacinal como um fenômeno de saúde pública, com três componentes: confiança (na vacina, no serviço, no governo), comodidade (acesso, horário, distância) e complacência (a percepção de que a doença não é mais um risco). O movimento antivacina moderno tem uma data de origem conhecida: em 1998, um artigo de Andrew Wakefield e colaboradores na revista The Lancet sugeriu uma ligação entre a tríplice viral e o autismo em doze crianças; o estudo tinha falhas de método e conflitos de interesse não declarados, dezenas de estudos com milhões de crianças não encontraram a ligação, e a revista retratou o artigo em fevereiro de 2010. O dano à cobertura em vários países sobreviveu à retratação. A Revolta da Vacina de 1904 lembra que a desconfiança tem raízes sociais e históricas, e que a resposta eficaz da saúde pública é informação acessível, serviço perto de casa e confiança construída, o que o PNI fez durante décadas.

Quando o sistema imune erra: alergia, autoimunidade e rejeição

O mesmo sistema que reconhece o antígeno estranho pode errar o alvo, e os três erros clássicos são matéria de ensino médio.

Alergia é uma resposta adaptativa exagerada a uma substância inofensiva para a maioria das pessoas (pólen, ácaro da poeira, proteína do amendoim ou do camarão, veneno de abelha, látex, alguns medicamentos). No primeiro contato, o alérgico produz anticorpos da classe IgE contra o alérgeno; eles se fixam a mastócitos. Nos contatos seguintes, o alérgeno liga as IgE e o mastócito despeja histamina e outras substâncias, que causam coceira, espirros, inchaço e, na forma mais grave, a anafilaxia, com queda de pressão e fechamento das vias respiratórias. Também aqui há memória: a alergia piora com os reencontros. A doença do soro, descrita acima, é um exemplo de reação imune a proteínas estranhas.

Autoimunidade é o ataque do sistema adaptativo a componentes do próprio corpo. Normalmente, os linfócitos que reconhecem moléculas próprias são eliminados durante o amadurecimento (tolerância); quando esse filtro falha, anticorpos ou linfócitos T atacam células do próprio organismo: as células do pâncreas que produzem insulina (diabetes tipo 1), a bainha de mielina dos neurônios (esclerose múltipla), as articulações (artrite reumatoide), a tireoide (tireoidite de Hashimoto). Anticorpos monoclonais que bloqueiam sinais da inflamação, descendentes diretos do Nobel de 1984, são hoje tratamentos para várias dessas doenças.

Rejeição a transplantes é o sistema imune fazendo o que foi feito para fazer, contra um órgão que não é o alvo certo. As células de todo tecido exibem na membrana proteínas de histocompatibilidade (HLA, o complexo principal de histocompatibilidade humano), que variam de pessoa a pessoa; os linfócitos T do receptor reconhecem as proteínas do doador como estranhas e atacam o órgão. Por isso se busca o doador mais compatível possível, idealmente um irmão com os mesmos genes HLA, e por isso quem recebe um transplante usa medicamentos imunossupressores, que reduzem a resposta adaptativa e, como efeito colateral, aumentam o risco de infecções. No transplante de medula óssea, a compatibilidade HLA é tão exigente que o Brasil mantém um cadastro nacional de doadores voluntários, o REDOME, descrito em núcleo e ciclo celular. A transfusão de sangue é um transplante de tecido que obedece à mesma lógica: os antígenos A, B e Rh na membrana das hemácias são reconhecidos por anticorpos do receptor, e a incompatibilidade provoca aglutinação; os grupos sanguíneos estão em sistema cardiovascular.

Um quarto erro é o oposto dos três: a imunodeficiência, em que a resposta falta. Pode ser congênita, adquirida por infecção (o HIV destrói justamente os linfócitos T auxiliares, os coordenadores da resposta adaptativa) ou provocada por tratamento (quimioterapia, imunossupressores). É para essas pessoas que a imunidade coletiva existe, e é por causa delas que as vacinas atenuadas têm contraindicações.

Erros clássicos e como a prova os explora

Doze frases que derrubam itens, com o conserto de cada uma.

  1. “Soro e vacina são a mesma coisa.” A vacina entrega antígeno e o corpo fabrica anticorpos e memória; o soro entrega anticorpos prontos, sem memória. O PAS 2 de 2020 (item 81) chamou a vacina de imunização passiva e o item caiu por isso.
  2. “Vacina é tratamento.” Vacina previne: dada a quem já está doente, não interrompe a infecção em curso. O PAS 1 de 2017 (item 59) chamou a vacina contra a dengue de “remédio eficaz para a cura” e o gabarito foi E. A vacina só entra depois do contato quando a doença demora a se instalar (profilaxia pós-exposição da raiva, dT no ferimento de risco, sarampo até 72 horas), e mesmo ali ela chega antes da doença, não a trata.
  3. “O soro deixa memória imunológica.” Não deixa: os anticorpos emprestados são degradados em semanas e nenhuma célula do paciente foi treinada. Quem recebe soro antitetânico recebe também a vacina.
  4. “Vacina de vírus morto não funciona.” Funciona: a VIP, a da hepatite A, a da gripe e a da raiva são inativadas. O que muda é a necessidade de mais doses e reforços, porque o agente não se multiplica no vacinado.
  5. “A vacina causa a doença que previne.” Vacinas inativadas, toxoides, de subunidade, conjugadas, de vetor e de RNA não contêm agente capaz de se multiplicar. As atenuadas contêm agente enfraquecido, que só é problema para imunodeprimidos e gestantes. Febre e dor no braço são a resposta imune, não a doença.
  6. “A imunidade coletiva protege quem não se vacina, sem limite.” Protege enquanto a cobertura fica acima do limiar 1−1/R01 - 1/R_0 e os não vacinados não se concentram; não vale para doenças que não se transmitem entre pessoas (tétano).
  7. “Anticorpo é célula.” Anticorpo é proteína; a célula que o produz é o plasmócito, derivado do linfócito B. Linfócitos T não produzem anticorpos.
  8. “Soro fisiológico tem anticorpos.” Soro fisiológico é NaCl a 0,9 % em água; o soro da imunização é uma preparação de imunoglobulinas.
  9. “Quem já teve a doença não precisa de nada.” Para doenças com memória duradoura (sarampo, catapora) a infecção protege; mas a infecção é o caminho mais caro para a imunidade, e para tétano, difteria, gripe e covid-19 a proteção da doença é parcial ou curta. A vacina dá a memória sem o risco.
  10. “Leite materno é imunização ativa.” É passiva natural: anticorpos fabricados pela mãe, sem memória no bebê.
  11. “A resposta secundária demora mais, porém é mais forte.” Ela é mais rápida e mais forte: latência de um a três dias, pico cerca de dez vezes maior.
  12. “Antibiótico é uma forma de imunização.” Não é: antibiótico mata bactérias atacando estruturas da célula bacteriana; não envolve antígeno nem anticorpo, e não age em vírus nem em toxinas já liberadas.

E duas armadilhas de leitura, não de definição. O quantificador absoluto: “garantirá”, “elimina qualquer risco”, “protege integralmente” derrubam frases sobre vacinas, porque vacina reduz risco (2022/61). O adjetivo transferido: “o vírus é contagioso, logo o câncer que ele causa é contagioso” (não é), “a vacina é específica, logo protege contra todas as infecções sexualmente transmissíveis” (não protege; 2013/76).

O essencial em meia página

  • Três linhas de defesa: barreiras (pele, mucosas, ácido), inata (fagócitos, inflamação, febre, complemento; rápida, igual para todos, sem memória) e adaptativa (linfócitos B → plasmócitos → anticorpos; T auxiliares e citotóxicos; lenta na primeira vez, específica, com memória). A pele é parte do sistema imune (PAS 3 2025/39, C).
  • Antígeno é a molécula estranha reconhecida; anticorpo (imunoglobulina) é a proteína em Y que o plasmócito fabrica sob medida: neutraliza, marca para fagocitose, aglutina. Anticorpo é molécula, não célula. Nobel 1908 (Ehrlich, Mechnikov), 1984 (Jerne: especificidade do sistema imune; Köhler e Milstein: monoclonais), 2011 (inata e célula dendrítica), 2023 (RNAm).
  • Resposta primária: latência de dias, pico baixo (~2 semanas), queda lenta. Secundária: começa em 1 a 3 dias, pico cerca de 10 vezes maior, dura mais. Soro: alto no instante, cai em semanas.
  • Quatro quadrantes: ativa natural (doença), ativa artificial (vacina), passiva natural (placenta IgG, leite IgA; anticorpos maternos somem entre 6 e 12 meses), passiva artificial (soro, imunoglobulina). Pergunta decisiva: quem fabricou o anticorpo?
  • Vacina = antígeno → resposta ativa → memória; previne; lenta e duradoura. Tipos: atenuada (BCG, tríplice viral, febre amarela, varicela, rotavírus, dengue), inativada (VIP, hepatite A, influenza, raiva), toxoide (tétano, difteria), subunidade/recombinante (hepatite B, HPV), conjugada (pneumo, meningo, Hib), vetor viral, RNAm (covid-19). Doses e reforços seguem o gráfico de anticorpos; adjuvante amplifica; eventos adversos leves são a resposta imune.
  • Soro = anticorpos prontos de cavalo imunizado (Vital Brazil, 1901; Butantan, Vital Brazil, Funed) ou de doadores humanos (imunoglobulina) → passiva; imediata; sem memória; trata a emergência (antibotrópico, anticrotálico, antiescorpiônico, antitetânico, antirrábico). Doença do soro é resposta ativa contra a proteína de cavalo. Soro fisiológico (NaCl 0,9 %) não tem anticorpos. Tétano e raiva: soro para hoje, vacina para o resto da vida.
  • História: variolação → Jenner 1796 (cowpox) → Pasteur 1885 (raiva, Meister) → Vital Brazil 1901 → Revolta da Vacina, Rio, a partir de 10 de novembro de 1904 (lei de 31/10; estado de sítio em 16/11) → BCG 1921/1927 → Salk 1955 (inativada), Sabin anos 1960 (oral) → PNI 1973 (Lei 6.259/1975), Zé Gotinha 1986 → varíola: Brasil 1971, mundo 1977, declarada erradicada 1980 (única; sem reservatório animal) → pólio: Brasil 1989, Américas 1991, certificado 1994, só VIP desde 2024 → sarampo: Américas livres 2016, Brasil perde 2019 e recupera 2024, região perde em novembro de 2025 → covid-19: RNAm dezembro de 2020, Nobel 2023.
  • Calendário: BCG e hepatite B ao nascer; penta e VIP aos 2, 4, 6 meses; pneumocócica e rotavírus aos 2 e 4 (pneumo com reforço aos 12); meningo C 3 e 5; covid-19 6, 7, 9 meses; febre amarela 9 meses e 4 anos; tríplice viral 12 e 15 meses; varicela e hepatite A 15 meses; DTP 15 meses e 4 anos; HPV dose única 9 a 14 anos; dengue 10 a 14 anos; ACWY 12 meses e 11 anos; dT a cada 10 anos; gestante dTpa a partir da 20.ª semana.
  • Imunidade coletiva: limiar pc=1−1/R0p_c = 1 - 1/R_0; sarampo R0R_0 12 a 18 → 92 a 94 %; meta OMS 95 %. Casos por caso: R0(1−p)R_0(1-p). Não protege sem limite nem vale para tétano. Eficácia = redução relativa do risco (1,5 % → 0,3 % = 80 %).
  • Cobertura do Brasil (WUENIC 2026): DTP3 96 % (2015) → 68 % (2021) → 90 % (2024) → 86 % (2025); MCV2 44 % (2020) → 81 % (2024). Queda ligada a complacência, acesso, desinformação (Wakefield 1998, retratado em 2010) e pandemia; recuperação com campanhas e busca ativa.
  • Erros do sistema imune: alergia (IgE, mastócito, histamina, anafilaxia), autoimunidade (falha de tolerância: diabetes tipo 1, esclerose múltipla, artrite reumatoide), rejeição (HLA; imunossupressores; REDOME), imunodeficiência (HIV ataca T auxiliares).

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Sistema imunológico - Biologia - Ensino Médio
Canal Futura · 11:22
Introdução. Aula de televisão educativa, em linguagem de ensino médio, sobre o que é o sistema imunológico: as estruturas e os processos que protegem o organismo contra doenças, das barreiras aos linfócitos. É o conteúdo das seções “O corpo tem três linhas de defesa” e “Antígeno, anticorpo e as células que aprendem”. Assista antes de ler e, a cada célula citada, classifique-a na linha de defesa certa (barreira, inata ou adaptativa) e diga se ela guarda memória.
Resposta Imunológica Primária e Secundária
Fisiologia 3D · 5:05
Aprofundamento. Animação curta que compara a resposta primária (primeiro contato com o antígeno: lenta, com sintomas intensos) e a secundária (reencontro: rápida e específica, com sintomas brandos ou inexistentes), exatamente o gráfico da seção “Resposta primária e secundária: o gráfico que decide itens”. Pause quando aparecer a curva de anticorpos e diga, antes do narrador, onde está a latência, qual pico é maior e por quê; depois explique com ela por que a vacina tem segunda dose e por que o soro não deixa memória.
Quais são os tipos de vacinas? - Inativadas e Atenuadas (Parte 1)
Luz, Câmera e Ciência USP · 4:37
Aplicação. Vídeo de um projeto de extensão de estudantes da USP que explica a diferença entre vacinas inativadas e atenuadas, com referências bibliográficas publicadas na descrição; a série continua com as vacinas de subunidades (parte 2) e as de DNA, RNA e vetores virais (parte 3). Corresponde à seção “Vacina: apresentar o antígeno sem o custo da doença” e à figura dos sete tipos. Enquanto assiste, localize cada vacina citada na tabela do Calendário Nacional desta página e diga quantas doses ela tem e por quê.
Vacina e Soro no Enem - Brasil Escola
Brasil Escola Oficial · 10:00
Resolução de questões. Videoaula que fecha o par vacina × soro e mostra como o tema aparece nas provas do Enem, com a comparação ativa × passiva, prevenção × tratamento e memória × ausência de memória. É a seção “Vacina ou soro: a única pergunta que decide o item”. Antes de ver cada exemplo resolvido, aplique o critério desta página (quem fabricou o anticorpo?) e só então compare com a resolução do professor.
Rota PAS 2
Sistemática, taxonomia, vírus e bactérias · PAS 2

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 2 — Sistemática, taxonomia, vírus e bactérias · Antes de começar (ideia 5: antígeno, anticorpo e células de memória; tabela agente e remédio); Vacina e soro: dois modos de ganhar anticorpos (conceito, tabela, exemplo de Ana e Bruno, itens 2007/80, 2022/61, armadilha quem produz o anticorpo); Como a banca cobra (2024/20, 2020/81); Exercícios 8 e 10; Banco de treino T12 a T15 (itens reais 2020/77 e 2007/81)

    Fonte principal do recorte vacina × soro e dos itens reais do PAS 2. Vírus e bactérias do mesmo capítulo ficam nas páginas próprias.

  • Rota PAS 2 — Resoluções do Banco de treino · T12 (2020/77, causa invertida), T13 (soro como ativa), T14 (2007/81), T15 (reservatório animal)

    Conferência dos gabaritos e dos padrões de erro usados nas questões autorais.

  • Rota PAS 3 — Fisiologia humana · Imunidade e vacinas: como o corpo aprende a vencer sem adoecer (três andares da defesa; exemplo do toxoide e do soro antitetânico; a rede com o endócrino; itens 2017/43, 2025/38, 2025/39); Leia como na prova (texto de Han; 2025/39 em três pedaços); Exercício 5 e 14; Banco de treino T5 e T6

    Fonte da estrutura em três linhas de defesa e do exemplo resolvido do ferimento. Os itens 2025/38 e 2025/39 pertencem às páginas de sistema endócrino e de tecidos humanos e são citados só na teoria.

  • Rota PAS 2 — Protozoários, fungos, verminoses e políticas de saúde · Políticas de saúde: a doença tem biologia, a epidemia tem sociologia (eficácia como redução relativa do risco, 1,5 % → 0,3 %; incidência × mortalidade nos itens 2008/52 e 53; 2022/61)

    Fonte do exemplo de eficácia e da distinção entre medidas epidemiológicas; as medidas em si ficam na página de saneamento e saúde coletiva.

  • Rota PAS 3 — Genética: do gene à proteína · Na prova: bloco de 2020 sobre as vacinas de RNA (itens 77, 78 e 80)

    Lido para o mecanismo da vacina de RNAm; os itens pertencem à página de DNA, RNA e síntese proteica.

  • Biologia EM1 — Capítulo 8: Núcleo, cromossomos e divisão celular · Quando o ciclo perde o freio: câncer (vírus e a vacina contra o HPV)

    Fonte do recorte da vacina contra o HPV; a biologia do câncer fica na página de núcleo e ciclo celular.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 8 · Texto-base IV (PAS 1 2013, itens 76 a 79, vacina contra o HPV) e gabarito comentado

    Os itens 2013/76, 77 e 79 já estão gravados pela página de núcleo e ciclo celular e são referenciados por GUID.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 12 · Texto-base VIII (Antígona; PAS 1 2017, item 59: vacina não é remédio para a cura)

    Fonte do item 2017/59, reproduzido com o texto-base.

  • Biologia EM1 — Capítulo 12: Cerrado, impactos, conservação e saúde · Vacina previne, não cura (vacina contra a dengue no SUS; vacina age no hospedeiro, controle do criadouro age no vetor)

    Lido para não contradizer a página de saneamento; a vacina contra a dengue aparece aqui só pelo calendário.

  • Biologia EM1 — Capítulo 6: Membrana e transportes · Por que o soro é 0,9 % (soro fisiológico isotônico com o plasma)

    Fonte da armadilha soro fisiológico × soro imune.