Primeira Guerra Mundial: a guerra curta que durou quatro anos (1914–1919)

Guia de estudo · Revisado em 22/10/2026

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A pergunta desta aula

Como um atentado num canto dos Bálcãs virou, em cinco semanas, uma guerra de cinco grandes potências que durou quatro anos, matou dez milhões de soldados e acabou com quatro impérios, e por que a paz assinada em Versalhes em 1919 já carregava dentro dela a guerra seguinte?

O que você vai aprender

  • Distinguir estopim de causas e explicar a eclosão da guerra de 1914 pela combinação de imperialismo (crises marroquinas, Berlim–Bagdá), nacionalismos (revanchismo, pan-germanismo, pan-eslavismo e a crise balcânica de 1908–1913), militarismo (corrida naval, planos de mobilização) e sistema de alianças com diplomacia secreta, acionados pela crise de julho de 1914.
  • Situar o debate historiográfico sobre a responsabilidade pela guerra (Fischer 1961, Hobsbawm 1987/1994, Ferguson 1998, Clark 2012) e reconhecer que ele é disputado e datado.
  • Narrar a guerra em suas fases e frentes (Plano Schlieffen e Marne, trincheiras, Gallipoli, Itália, Verdun e Somme, frente oriental, África, Ásia e Oriente Médio) e explicar por que a defesa venceu o ataque até 1918.
  • Caracterizar a guerra total (economia de guerra, bloqueio e racionamento, trabalho feminino, propaganda e censura, tropas coloniais) e o lugar das colônias e dos impérios no conflito.
  • Explicar 1917 como ano-charneira: a entrada dos Estados Unidos, as revoluções russas de fevereiro e de outubro na sua relação com a guerra, Brest-Litovsk, e a entrada do Brasil (afundamentos do Paraná e do Macau, declaração de guerra de 26 de outubro de 1917, DNOG, missão médica, gripe de 1918).
  • Descrever o fim da guerra (ofensivas de 1918, catorze pontos, armistício de 11 de novembro, revolução alemã) e as cláusulas de Versalhes (territoriais, militares, artigo 231 e reparações, mandatos) e dos tratados de Saint-Germain, Trianon, Neuilly, Sèvres e Lausanne, com o mapa de 1923 e a Liga das Nações.
  • Ler fontes do período no esquema observar, hipotetizar, contextualizar, corroborar: o ultimato austríaco à Sérvia, a Declaração Balfour, os catorze pontos de Wilson e o artigo 231 do Tratado de Versalhes, terminando em 'e as outras leituras?'.
  • Avaliar o legado da guerra (mortos, mutilados, memória, 'geração perdida', fim de quatro impérios, Oriente Médio, a tese das duas etapas 1914–1945) e julgar itens no molde do PAS e do ENEM: ficha pura, lista modalizada, inversão do saldo, item sobre texto, guerra errada e lado errado.

Em 28 de junho de 1919, dois funcionários alemães de fraque atravessaram o Salão dos Espelhos do palácio de Versalhes, sob o olhar de mil convidados, para assinar um tratado que não tinham negociado. O lugar fora escolhido com intenção: naquela mesma galeria, em janeiro de 1871, os príncipes alemães haviam proclamado o Império depois de derrotar a França. E a data também: cinco anos antes, dia por dia, um estudante sérvio de dezenove anos disparara dois tiros contra um automóvel aberto em Sarajevo. Entre o tiro e a assinatura cabem cerca de dez milhões de soldados mortos, quatro impérios dissolvidos (Romanov, Hohenzollern, Habsburgo e otomano), uma revolução que durou até 1991, uma pandemia que matou mais do que a guerra, o mapa do Oriente Médio que ainda está no noticiário e uma Europa que, de credora do mundo, passou a devedora dos Estados Unidos. Como uma crise diplomática de um mês num canto dos Bálcãs virou tudo isso? E por que a paz assinada com tanta pompa carregava dentro dela a guerra seguinte?

Esta página responde às duas perguntas na ordem em que a prova as faz: primeiro as causas (o que estava armado antes de 1914 e o que o tiro apenas acionou), depois a guerra (por que a “guerra curta” de agosto virou quatro anos de trincheira, e como a indústria, as mulheres, as colônias e a propaganda entraram nela), depois 1917 (o ano em que os Estados Unidos entraram, a Rússia saiu e o Brasil declarou guerra), depois o fim (as ofensivas de 1918, o armistício, a revolução alemã) e, por último, a paz que não fechou: Versalhes, os outros quatro tratados, a Liga das Nações e o mapa de 1923. O que não cabe aqui tem página própria: a corrida colonial que alimentou a rivalidade de 1914 está em Imperialismo; os nacionalismos que fizeram a Alemanha e a Itália e inflamaram os Bálcãs, em Nacionalismos e unificações europeias; a Revolução Russa aparece só na sua relação com a guerra; o fascismo, a crise de 1929, a Segunda Guerra e a Guerra Fria entram apenas como ganchos no fim.

Vocabulário que a prova supõe sabido

Estopim e causa não são a mesma coisa: o estopim é o acontecimento que aciona (o atentado de Sarajevo); as causas são as condições acumuladas que fazem de um incidente uma guerra geral. Aliança é um pacto formal com obrigação militar (a Tríplice Aliança de 1882); entente é um “entendimento”, um acordo de cooperação sem cláusula automática de guerra (a Entente Cordial anglo-francesa de 1904); na prática, em 1914, as duas funcionaram como blocos. Potências Centrais é o nome que a Alemanha, a Áustria-Hungria, o Império Otomano e a Bulgária receberam depois que a Itália, terceira sócia da Tríplice Aliança, ficou neutra em 1914 e mudou de lado em 1915; Aliados ou Entente designa o bloco de França, Rússia, Grã-Bretanha (e seu império), Sérvia, Bélgica, Japão, Itália (1915), Romênia (1916), Estados Unidos e Brasil (1917), entre outros. Beligerante é quem está em guerra; neutro, quem fica de fora (Espanha, Suíça, Países Baixos, Dinamarca, Noruega, Suécia, e os Estados Unidos até 1917). Guerra de movimento é a que avança e recua em campo aberto (agosto–setembro de 1914); guerra de posição é a que se fixa em linhas fortificadas (as trincheiras de novembro de 1914 a março de 1918). Guerra total é a mobilização de toda a sociedade e de toda a economia para o esforço bélico, que apaga a fronteira entre frente e retaguarda. Armistício é a suspensão das hostilidades (11 de novembro de 1918); tratado de paz é o instrumento jurídico que põe fim ao estado de guerra (28 de junho de 1919, no caso alemão), e entre um e outro podem passar meses. Reparações são as somas pagas pelo derrotado para “reparar” os danos; mandato é a fórmula da Liga das Nações para entregar ex-colônias alemãs e ex-províncias otomanas à administração de uma potência, em nome da “tutela” dos povos “ainda não capazes de se governar”. Autodeterminação é o princípio, enunciado por Wilson e por Lenin em 1917–1918, de que cada povo decide a que Estado pertence; foi aplicado na Europa central e negado às colônias.

A Europa de 1914: dois blocos, seis grandes potências e um barril nos Bálcãs

Cartograma esquemático da Europa em agosto de 1914 com os blocos da Tríplice Entente, das Potências Centrais e os países neutros, e as datas dos tratados que formaram cada aliança

Em 1914 havia seis grandes potências na Europa e todas, menos uma, estavam amarradas a um bloco. O sistema nascera na Alemanha de Bismarck depois de 1871: para isolar a França, que queria a Alsácia-Lorena de volta, o chanceler fechou a Dupla Aliança com a Áustria-Hungria (1879) e a converteu em Tríplice Aliança com a entrada da Itália (1882), ao mesmo tempo em que mantinha um tratado secreto com a Rússia para que ela não se aproximasse de Paris. Quando o jovem Guilherme II demitiu Bismarck (1890) e deixou caducar o acordo com os russos, a França fez o que Bismarck temia: a aliança franco-russa (1892–1894), com empréstimos do capital francês financiando as ferrovias do czar. A Grã-Bretanha, que até então evitava compromissos no continente (“esplêndido isolamento”), mudou de posição quando a Alemanha começou a construir uma frota de alto-mar capaz de desafiá-la (as leis navais de 1898 e 1900, obra do almirante Tirpitz): fechou com a França a Entente Cordial (1904), liquidando as disputas coloniais no Egito e no Marrocos, e com a Rússia a convenção anglo-russa (1907), que repartia a Pérsia em zonas e neutralizava o Afeganistão. Com isso, a Tríplice Entente estava formada. Repare na diferença de natureza: a Aliança tinha cláusulas de guerra automática; a Entente era um conjunto de entendimentos que só a crise transformaria em frente única.

Fora dos blocos estavam os pequenos neutros e um grande doente. O Império Otomano, que perdera a Líbia para a Itália (1911–1912) e quase toda a sua Europa nas guerras balcânicas, ainda não escolhera lado; entraria ao lado da Alemanha em novembro de 1914. E entre a Áustria-Hungria e o Império Otomano ficavam os Bálcãs, onde os nacionalismos que a página de unificações explica se chocavam com os interesses de duas potências: a Áustria-Hungria, Estado multinacional com milhões de eslavos do sul dentro das fronteiras, e a Rússia, que se apresentava como protetora dos eslavos e dos ortodoxos (o pan-eslavismo). Três crises aqueceram a região antes de 1914: a anexação da Bósnia-Herzegovina pela Áustria (1908), que humilhou a Sérvia e a Rússia; a Primeira Guerra Balcânica (1912), em que Sérvia, Bulgária, Grécia e Montenegro expulsaram os otomanos; e a Segunda (1913), em que os vencedores brigaram pelo espólio e a Sérvia saiu dobrada de tamanho, com a Áustria convencida de que o reino vizinho era uma ameaça à existência do Império.

Por que a guerra: quatro causas de fundo e uma faísca

Esquema das causas da Primeira Guerra Mundial: imperialismo, nacionalismo, militarismo e sistema de alianças convergindo para a crise de julho de 1914, com as teses de Fischer, Clark, Hobsbawm e Ferguson

Nenhuma causa sozinha explica 1914, e a banca sabe disso: o item que a prova premia enumera fatores e os modaliza; o que ela pune reduz tudo a um (“resultou exclusivamente do atentado”). O que se pode fazer é separar os quatro fios e mostrar onde eles se cruzaram.

Imperialismo. A corrida colonial de 1870–1914 criou rivalidades que não tinham a ver com a Europa, mas se resolviam nela. A Alemanha, chegada tarde à partilha, reclamou um “lugar ao sol” e testou a Entente duas vezes no Marrocos: em 1905, quando Guilherme II desembarcou em Tânger e exigiu uma conferência (Algeciras, 1906, em que a Alemanha saiu isolada), e em 1911, quando mandou a canhoneira Panther a Agadir e teve de se contentar com um pedaço do Congo francês. A cada crise, os blocos se soldavam. E a rivalidade por mercados e matérias-primas, por ferrovias (a Berlim–Bagdá, que levava a Alemanha ao golfo Pérsico, assustava Londres e São Petersburgo) e por áreas de investimento transformou a concorrência econômica em desconfiança de Estado. É nesse sentido que a prova aceita a guerra de 1914 como “desdobramento da corrida imperialista”, desde que acompanhada dos outros fatores.

Nacionalismo. Três versões, todas inflamadas. O revanchismo francês, alimentado desde 1871 pela perda da Alsácia-Lorena (a estátua de Estrasburgo na praça da Concórdia ficou coberta de luto por 47 anos). O pan-germanismo, que sonhava reunir todos os povos de língua alemã e dava à Alemanha uma missão de potência mundial (Weltpolitik), com uma imprensa e ligas patrióticas que pediam frota, colônias e firmeza. E o pan-eslavismo, que na Rússia servia de ideologia de Estado e na Sérvia de programa: unir os eslavos do sul (sérvios, croatas, eslovenos, bósnios) num só reino, o que só era possível desmontando a Áustria-Hungria. Dentro do Império dos Habsburgo, por sua vez, tchecos, poloneses, croatas e italianos pediam autonomia; a guerra pareceu a Viena uma maneira de resolver por fora um problema que não resolvia por dentro.

Militarismo. Entre 1890 e 1914 os gastos militares das grandes potências mais que dobraram. A corrida naval anglo-alemã mudou de escala quando a Grã-Bretanha lançou o Dreadnought (1906), um encouraçado que tornava obsoletos todos os anteriores e obrigava os dois países a recomeçar a contagem do zero; em 1914 a Royal Navy tinha 29 navios dessa classe, a Alemanha 17. Nos exércitos de conscrição em massa (a Alemanha podia mobilizar 4 milhões de homens em dias, a Rússia mais ainda, embora mais devagar), os Estados-Maiores prepararam planos detalhados que dependiam de horários de trem: o Plano Schlieffen alemão (1905, revisto por Moltke) previa derrotar a França em seis semanas atravessando a Bélgica, antes que a Rússia completasse a mobilização; o Plano XVII francês apostava no ataque à Alsácia-Lorena. Mobilizar era quase declarar guerra, porque quem mobilizasse primeiro ganhava dias, e nenhum general aceitava esperar. O historiador A. J. P. Taylor chamou isso de “guerra por horário de trem”: a técnica tirou dos diplomatas o tempo de negociar.

O sistema de alianças e a diplomacia secreta. Os blocos deveriam dissuadir; na crise, funcionaram como transmissão. Como as cláusulas eram secretas, cada governo calculava mal o que o outro faria: Berlim apostou que a Grã-Bretanha ficaria fora; Viena, que a Rússia recuaria como em 1908; São Petersburgo, que a Alemanha não arriscaria a guerra em duas frentes. É por isso que a prova fala em “diplomacia secreta” entre as causas: não só os tratados eram sigilosos, como os pactos de 1915–1917 (Londres, Sykes–Picot) continuariam a sê-lo até os bolcheviques publicarem os arquivos do czar.

A faísca e a crise de julho. Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, visitou Sarajevo, capital da Bósnia anexada, no dia da festa nacional sérvia. Depois de uma bomba falhada, o motorista errou o caminho e parou o carro diante de Gavrilo Princip, membro da Jovem Bósnia, organização ligada à sociedade secreta sérvia Mão Negra, cujo chefe era o coronel Dimitrijević, diretor da inteligência militar sérvia. Princip matou o arquiduque e a esposa, Sofia. Viena decidiu usar o atentado para esmagar a Sérvia e, em 5–6 de julho, obteve de Berlim o “cheque em branco”: a Alemanha apoiaria o que a Áustria fizesse. Em 23 de julho, a Áustria entregou à Sérvia um ultimato de dez pontos e 48 horas (você vai lê-lo logo abaixo); em 25, a Sérvia aceitou quase tudo, menos a participação de funcionários austríacos nas investigações em território sérvio; em 28, a Áustria declarou guerra e bombardeou Belgrado. A partir daí, os horários de trem comandaram: a Rússia ordenou a mobilização geral em 30 de julho; a Alemanha declarou guerra à Rússia em 1.º de agosto e à França em 3; em 4 de agosto invadiu a Bélgica, cuja neutralidade a Grã-Bretanha garantia por um tratado de 1839, e naquela noite Londres declarou guerra a Berlim. Em cinco semanas, um atentado virara uma guerra de cinco grandes potências. Em todas as capitais houve multidões aplaudindo, e em todas os governos prometeram que seria curta.

Sarajevo não "causou" a guerra: detonou

A afirmação que apresenta o atentado como a causa da guerra (ou “a causa principal”) troca o estopim pelas causas. O teste é simples: se Princip tivesse errado o tiro, a Europa de 1914 continuaria com os mesmos blocos, os mesmos planos de mobilização, a mesma corrida naval e as mesmas disputas nos Bálcãs; já houvera cinco crises graves desde 1905 e todas tinham sido contornadas. O que o atentado fez foi dar a Viena o pretexto e a Berlim a ocasião. Da mesma forma, erra quem diz que o sistema de alianças “garantia a paz” pelo equilíbrio: foi ele que converteu uma guerra austro-sérvia em guerra geral. E erra, no sentido contrário, quem lista as quatro causas como se fossem de igual peso em todos os países: na França o fator dominante era o revanchismo e a aliança russa; na Grã-Bretanha, a Bélgica e a frota alemã; na Áustria, a Sérvia; na Rússia, os Bálcãs e o prestígio. A multicausalidade não é uma lista decorada, é uma distribuição.

Onde os historiadores discordam: de quem foi a culpa?

O artigo 231 do Tratado de Versalhes atribuiu a responsabilidade à Alemanha e seus aliados, e a pergunta nunca mais saiu da historiografia. Nos anos 1920–1930, a tese dominante, inclusive entre historiadores aliados, foi a da “responsabilidade compartilhada”: todos escorregaram para a guerra (a imagem é de Lloyd George). Em 1961, o alemão Fritz Fischer reabriu a ferida em A ambição de potência mundial (Griff nach der Weltmacht): com documentos do Ministério do Exterior, sustentou que a Alemanha imperial buscara deliberadamente a guerra em 1914 para se tornar potência mundial e que seus objetivos de guerra (o “programa de setembro” de 1914, com anexações no oeste e no leste) mostravam continuidade com os de Hitler. A “controvérsia Fischer” dividiu a Alemanha por uma década. Eric Hobsbawm, em A era dos impérios (1987) e Era dos extremos (1994), deslocou a explicação para o sistema: um capitalismo de potências rivais que já não cabia na diplomacia do século XIX e um imperialismo que fazia da guerra a continuação da concorrência; para ele, a pergunta “quem foi o culpado” é menos interessante do que “por que o sistema deixou de conter crises”. Niall Ferguson, em The Pity of War (1998), virou a mesa: a guerra foi um erro britânico, a Grã-Bretanha não precisava entrar e, sem ela, uma vitória alemã rápida teria produzido uma Europa continental dominada por Berlim, mas sem o nazismo nem o comunismo; a tese é polêmica e tem mais críticos do que adeptos, mas obrigou a repensar a “inevitabilidade”. Por fim, Christopher Clark, em Os sonâmbulos (2012), publicado às vésperas do centenário, redistribuiu a responsabilidade: a Sérvia (cujo Estado tolerava a Mão Negra), a Rússia (que mobilizou primeiro) e a França (que a encorajou) pesam tanto quanto a Áustria e a Alemanha, e os estadistas de 1914 agiram como sonâmbulos, “de olhos abertos, mas sem ver”, sem imaginar a guerra que estavam fazendo. Para a prova, o que importa é saber que a explicação é disputada e datada: Fischer (1961) é a tese da culpa alemã; Clark (2012), a da responsabilidade difusa; Hobsbawm, a estrutural; Ferguson, a contrafactual. Um item que afirme que “a historiografia é unânime” sobre a culpa está errado por definição.

Leitura de fonte 1: o ultimato austríaco à Sérvia (23 de julho de 1914)

“O Governo Real da Sérvia condenará a propaganda contra a Áustria-Hungria […] e compromete-se: 1. A suprimir toda publicação que incite ao ódio e ao desprezo da Monarquia […]; 2. A dissolver imediatamente a sociedade chamada Narodna Odbrana […]; 3. A eliminar sem demora da instrução pública na Sérvia tudo o que sirva ou possa servir para fomentar a propaganda contra a Áustria-Hungria; 4. A afastar do serviço militar e da administração em geral todos os oficiais e funcionários culpados de propaganda contra a Monarquia austro-húngara, cujos nomes o Governo Imperial e Real se reserva o direito de comunicar; 5. A aceitar a colaboração, na Sérvia, de órgãos do Governo Imperial e Real na repressão do movimento subversivo dirigido contra a integridade territorial da Monarquia; 6. A abrir um inquérito judicial contra os participantes do complô de 28 de junho que se encontrem em território sérvio; órgãos delegados pelo Governo Imperial e Real tomarão parte nas investigações correspondentes. […] O Governo Imperial e Real espera a resposta do Governo Real o mais tardar até sábado, 25 do corrente, às 18 horas.” (Nota do governo austro-húngaro ao governo sérvio, 23 de julho de 1914; tradução livre, com cortes.)

Observar. Dez exigências, das quais seis estão acima, e um prazo de 48 horas. O vocabulário é de polícia, não de diplomacia: “suprimir”, “dissolver”, “eliminar”, “afastar”, “inquérito”. Duas cláusulas (a 5 e a 6) exigem que funcionários austríacos atuem dentro da Sérvia, na repressão e nas investigações. Não há proposta de arbitragem, nem de conferência, nem de prazo para negociar: ou se aceita tudo, ou não se aceita. O ministro do Exterior britânico, Edward Grey, chamou a nota, ao lê-la, de “o documento mais formidável que já vi um Estado dirigir a outro Estado independente”.

Hipotetizar. Um ultimato que exige a renúncia à soberania não é feito para ser aceito. A hipótese de leitura é que Viena queria a recusa, para ter o pretexto da guerra que decidira fazer desde o começo de julho, com o apoio alemão garantido no dia 6. O prazo curto reforça a hipótese: 48 horas não deixam tempo para que as outras potências intervenham, e o texto foi entregue num momento em que o presidente francês Poincaré, em visita à Rússia, estava em alto-mar na viagem de volta, sem telégrafo seguro.

Contextualizar. A nota chegou 25 dias depois do atentado, tempo que a Áustria gastou em obter o “cheque em branco” alemão e em esperar a colheita, para não mobilizar camponeses antes dela. A Sérvia respondeu dentro do prazo e aceitou nove das dez exigências, com reservas de redação; recusou só a participação de órgãos austríacos no inquérito interno (a cláusula 6), oferecendo levar a questão ao tribunal de Haia. Guilherme II, ao ler a resposta sérvia em 28 de julho, anotou que ela eliminava “qualquer motivo para a guerra”; naquele mesmo dia, Viena declarou guerra.

Corroborar. As atas do Conselho de Ministros austro-húngaro de 7 de julho, publicadas depois da guerra, registram que o objetivo era “uma guerra contra a Sérvia” e que a nota seria redigida de modo a tornar “a aceitação praticamente impossível”. A mobilização parcial austríaca de 25 de julho, decretada minutos depois de recebida a resposta sérvia, confirma que a decisão não dependia do conteúdo da resposta. E o fato de os dez pontos terem sido quase todos aceitos sem que a guerra fosse evitada é a prova de que a crise não era sobre os dez pontos.

E as outras leituras? Um diplomata austríaco de 1914 diria que o Estado sérvio abrigava uma sociedade secreta que acabara de matar o herdeiro do trono, e que nenhum governo toleraria isso; Christopher Clark, em 2012, deu peso a esse argumento ao mostrar as ligações entre a Mão Negra e o aparelho militar sérvio. Um nacionalista sérvio leria a nota como a prova de que a Áustria queria apagar a Sérvia do mapa, como quisera em 1908. Um historiador do sistema internacional lê nela o momento em que uma potência decidiu usar a força sem calcular a reação das outras, e em que as outras, por sua vez, decidiram não recuar. Para a prova: um item que afirme que a Sérvia “rejeitou o ultimato” está errado na letra; ela o aceitou quase inteiro, e a guerra veio assim mesmo. É um dos melhores exemplos de que o estopim não explica a explosão.

De guerra de movimento a guerra de posição: 1914–1916

Linha do tempo da Primeira Guerra Mundial de junho de 1914 a junho de 1919, com as frentes, as entradas e saídas de países e o ano de 1917 destacado

Agosto de 1914: os planos. O Plano Schlieffen pôs sete exércitos alemães em marcha pela Bélgica neutra (Liège resistiu doze dias; Lovaina foi incendiada e sua biblioteca medieval queimada, episódio que a propaganda aliada usaria como símbolo da “barbárie” alemã). Os franceses, fiéis ao Plano XVII, atacaram a Alsácia-Lorena e perderam 27 mil homens num só dia, 22 de agosto, o mais sangrento da história militar francesa. No leste, a Rússia mobilizou mais depressa do que Berlim previra e invadiu a Prússia Oriental, mas foi destroçada em Tannenberg (26–30 de agosto) por Hindenburg e Ludendorff, que se tornaram os heróis da Alemanha; em compensação, os russos derrotaram os austríacos na Galícia. Na frente ocidental, a ala direita alemã chegou a 40 quilômetros de Paris, cujo governo fugiu para Bordeaux; entre 6 e 12 de setembro, na batalha do Marne, franceses e britânicos contra-atacaram (os táxis parisienses que levaram reforços viraram lenda) e obrigaram os alemães a recuar até o rio Aisne, onde cavaram. Seguiu-se a “corrida ao mar”: cada lado tentou contornar o flanco do outro até a costa belga, e em novembro de 1914 uma linha contínua de trincheiras ia do canal da Mancha à fronteira suíça, com cerca de 700 quilômetros. O plano de seis semanas falhara, e a guerra em duas frentes, que a Alemanha quisera evitar, começava.

O que é uma trincheira. Não uma vala, mas um sistema: linha de frente, linha de apoio e linha de reserva, ligadas por passagens em zigue-zague para que uma explosão não varresse a trincheira inteira; abrigos escavados, sacos de areia, arame farpado à frente e, entre as duas linhas inimigas, a “terra de ninguém”, de 30 a 500 metros de lama, crateras e cadáveres. A vida ali alternava tédio, lama, ratos, piolhos, “pé de trincheira” (gangrena pela umidade) e terror: os bombardeios de artilharia, que causaram a maioria das mortes, e os assaltos, em que a infantaria saía “por cima” para atravessar a terra de ninguém contra metralhadoras que disparavam 500 tiros por minuto. A defesa era mais forte do que o ataque, e por isso, entre o fim de 1914 e a primavera de 1918, a frente ocidental se moveu poucos quilômetros, ao custo de milhões de homens.

1915: a guerra se alarga. O Império Otomano entrara em novembro de 1914, fechando os estreitos que ligavam os aliados ocidentais à Rússia; para reabri-los, a Entente desembarcou em Gallipoli (abril de 1915 a janeiro de 1916), uma campanha desastrosa que custou cerca de 250 mil baixas a cada lado, marcou o nascimento da memória nacional da Austrália e da Nova Zelândia (o dia do ANZAC) e revelou um coronel otomano chamado Mustafa Kemal. A Itália, comprada pelo Tratado secreto de Londres (abril de 1915) com a promessa do Trentino, do Tirol do Sul, de Trieste e da Dalmácia, declarou guerra à Áustria em maio e abriu uma frente alpina que consumiria onze batalhas no rio Isonzo. A Bulgária entrou com as Potências Centrais em outubro, e a Sérvia, atacada por três lados, foi ocupada; seu exército atravessou a Albânia no inverno, perdendo metade dos homens. Na frente oriental, a ofensiva de Gorlice–Tarnów (maio) expulsou os russos da Polônia e da Galícia. No mar, a Alemanha respondeu ao bloqueio britânico com a guerra submarina: em 7 de maio de 1915, o U-20 afundou o transatlântico Lusitania ao largo da Irlanda, matando 1 198 pessoas, 128 delas americanas; o protesto de Washington obrigou Berlim a restringir os ataques, mas a questão voltaria em 1917.

1916: Verdun e o Somme. Foi o ano da guerra de desgaste assumida como doutrina. O chefe do Estado-Maior alemão, Falkenhayn, escolheu Verdun, fortaleza simbólica da França, para “sangrar o exército francês até a morte”: de 21 de fevereiro a dezembro de 1916, numa frente de poucos quilômetros, os dois lados perderam cerca de 700 mil homens entre mortos, feridos e desaparecidos; a defesa organizada por Pétain, com a “Via Sagrada” por onde passavam 3 mil caminhões por dia, fez da batalha o mito fundador da resistência francesa (“Eles não passarão”). Para aliviar Verdun, os britânicos atacaram no Somme em 1.º de julho de 1916, depois de uma semana de bombardeio que não cortara o arame: naquele dia, o exército britânico sofreu 57 mil baixas, 19 mil mortos, o pior dia de sua história; até novembro, a batalha custou mais de um milhão de baixas aos três exércitos por um avanço de uns dez quilômetros. No Somme apareceram, em 15 de setembro, os primeiros tanques. No leste, a ofensiva russa de Brusilov (junho) quebrou a frente austríaca e trouxe a Romênia para a guerra, mas custou à Rússia um milhão de baixas e foi a última grande ofensiva do czar. No mar, a única batalha de esquadras, Jutlândia (31 de maio–1.º de junho), terminou sem vencedor claro, mas a frota alemã nunca mais saiu para desafiar o bloqueio.

A técnica da guerra industrial

A Primeira Guerra foi a primeira em que a indústria decidiu. Artilharia: canhões de tiro rápido e obuses pesados, responsáveis por cerca de 60% das mortes em combate; a batalha começava com dias de bombardeio preparatório, e a “barragem rastejante” avançava à frente da infantaria. Metralhadora: a Maxim e suas derivadas (Vickers, MG 08) deram à defesa uma vantagem que só os tanques e a tática de infiltração de 1918 quebrariam. Gás: cloro usado pelos alemães em Ypres (22 de abril de 1915), fosgênio em dezembro, gás mostarda em 1917; causou cerca de 90 mil mortos e 1,2 milhão de feridos, muitos cegos, e foi proibido pelo Protocolo de Genebra de 1925. Tanque: britânico, estreado no Somme (setembro de 1916) e usado em massa em Cambrai (novembro de 1917). Aviação: de reconhecimento em 1914 a caças, bombardeiros e “ases” em 1917–1918 (o Barão Vermelho, Richthofen, com 80 vitórias); os dirigíveis Zeppelin bombardearam Londres desde 1915. Submarino: a arma que quase derrotou a Grã-Bretanha em 1917, quando os U-boats afundaram 860 mil toneladas num só mês (abril), e que trouxe os Estados Unidos para a guerra. Ferrovia, telefone e rádio: a logística moveu milhões de homens e toneladas de granadas por dia. Medicina: a transfusão de sangue armazenado (1917), a cirurgia reconstrutiva de Harold Gillies para os “rostos quebrados”, as próteses em série; e a prova de que a técnica também salva, no mesmo ritmo em que mata.

O genocídio armênio (1915). Em 24 de abril de 1915, o governo dos Jovens Turcos, que dirigia o Império Otomano, prendeu em Constantinopla centenas de intelectuais e líderes armênios; nos meses seguintes, sob a justificativa de que os armênios cristãos colaboravam com a Rússia invasora, o Estado deportou a população armênia da Anatólia para o deserto da Síria, em marchas em que homens eram executados e mulheres, crianças e velhos morriam de fome, sede e violência. As estimativas de mortos vão de 600 mil a 1,5 milhão de pessoas. O termo “genocídio” só seria cunhado em 1944 por Raphael Lemkin, que pensava justamente nesse caso e no Holocausto; a Turquia, herdeira do Império, nega até hoje o caráter planejado do extermínio, e o reconhecimento é objeto de disputa diplomática (o Senado brasileiro o reconheceu em 2015; os Estados Unidos, em 2021). A prova já tratou o episódio entre os “genocídios do século XX”, ao lado do Holocausto e de Ruanda, e a página de Segunda Guerra Mundial retoma a comparação.

Guerra total: quando a retaguarda virou frente

Esquema da guerra total: a frente (trincheiras, artilharia, gás, submarinos) e a retaguarda (economia de guerra, mulheres nas fábricas, racionamento e bloqueio, propaganda e censura, empréstimos de guerra, colônias) ligadas em um circuito único

Em 1914, ninguém tinha estoque para mais de alguns meses de guerra; em 1915, os exércitos descobriram que gastavam num dia mais granadas do que as fábricas produziam numa semana (a “crise das munições” derrubou o governo britânico em maio de 1915 e criou um Ministério das Munições sob Lloyd George). A partir daí, a guerra deixou de ser assunto dos exércitos e virou assunto de toda a sociedade. É isso que a expressão guerra total nomeia: um Estado que planeja a economia, controla preços, requisita fábricas, raciona pão, mobiliza mulheres, censura jornais, pede dinheiro emprestado aos cidadãos e faz da opinião pública uma arma. O termo foi usado pelos contemporâneos (o general Ludendorff escreveu um livro com esse título em 1935) e virou categoria de análise com Hobsbawm, que vê nele o traço que liga as duas guerras mundiais.

A economia de guerra. Na Alemanha, Walther Rathenau, industrial da AEG, organizou desde agosto de 1914 o Departamento de Matérias-Primas de Guerra, que inventariou e distribuiu tudo o que havia de cobre, nitrato e lã; em 1916, o Programa Hindenburg subordinou a indústria ao Alto-Comando, com uma Lei do Serviço Auxiliar que obrigava todo homem de 17 a 60 anos ao trabalho de guerra. Na Grã-Bretanha, o Estado passou a controlar ferrovias, minas e navios, e a Lei de Defesa do Reino (DORA, 1914) lhe deu poder de requisição e censura. Na França, a indústria de armamentos passou de 50 mil a 1,7 milhão de trabalhadores. A guerra custou cerca de 200 bilhões de dólares da época; os governos a pagaram com impostos, com emissão de moeda (o que gerou inflação) e sobretudo com empréstimos: os “bônus de guerra” vendidos ao público com cartazes, e os empréstimos externos, principalmente dos Estados Unidos, que passaram de devedores a credores da Europa (a Grã-Bretanha e a França deviam a Washington cerca de 10 bilhões de dólares em 1919). O centro financeiro do mundo mudou de Londres para Nova York durante a guerra, e esse é um dos sentidos da frase “fim do domínio europeu” que a prova gosta de usar.

Bloqueio e racionamento. A Royal Navy bloqueou os portos alemães desde 1914, e o bloqueio continuou até o Tratado de Versalhes, em junho de 1919. Combinado às más colheitas e à desorganização do campo (homens e cavalos na frente), ele produziu o “inverno do nabo” de 1916–1917, em que a ração alemã caiu a cerca de mil calorias por dia e os civis comeram pão de serragem e nabo. As estimativas de mortes civis por desnutrição e doenças associadas na Alemanha ficam em algumas centenas de milhares (o número oficial alemão de 1918 falava em 760 mil; estudos atuais reduzem para cerca de 400 mil). A fome urbana alimentou as greves de 1917–1918 e a revolução de novembro. Do outro lado, a guerra submarina tentou fazer o mesmo com a Grã-Bretanha, que em abril de 1917 tinha trigo para seis semanas; o comboio escoltado, adotado em maio, reduziu as perdas e salvou a ilha.

As mulheres. Com milhões de homens na frente, as mulheres entraram em massa nas fábricas de munição (as munitionettes britânicas, com a pele amarelada pelo ácido pícrico), nos bondes, nos correios, nos campos e nos hospitais (as enfermeiras voluntárias, como Vera Brittain, que escreveu Testament of Youth). Na Grã-Bretanha, cerca de um milhão de mulheres a mais estavam empregadas em 1918 do que em 1914; na Alemanha, as mulheres eram 55% da força de trabalho da Krupp. O argumento de que a nação devia o voto a quem sustentara o esforço de guerra pesou nas reformas do pós-guerra: sufrágio feminino (parcial) na Grã-Bretanha em 1918, na Alemanha e na Áustria em 1918–1919, nos Estados Unidos em 1920. Mas a historiografia (Françoise Thébaud, entre outras) adverte contra a ideia de “emancipação pela guerra”: com a desmobilização, as mulheres foram devolvidas às ocupações anteriores, e a diferença salarial não se moveu.

Propaganda e censura. Pela primeira vez, Estados modernos organizaram a opinião pública em escala industrial. O cartaz de Kitchener apontando o dedo (“Your country needs you”, 1914) e o de Tio Sam (“I want you”, 1917, de James Montgomery Flagg) recrutaram voluntários enquanto a conscrição não vinha (a Grã-Bretanha só a adotou em 1916; os Estados Unidos, em 1917). As “atrocidades alemãs” na Bélgica, reais na parte dos civis fuzilados e de Lovaina incendiada, foram ampliadas em histórias de mãos cortadas de crianças que a propaganda britânica nunca comprovou; o afundamento do Lusitania virou cartaz e medalha; a Alemanha, por sua vez, vendeu a guerra como defesa da Kultur contra o “cerco”. Nos Estados Unidos, o Comitê de Informação Pública (1917) de George Creel pôs 75 mil “homens de quatro minutos” a discursar em cinemas. A censura postal e de imprensa foi geral, e é por ela que a Espanha neutra deu nome à gripe de 1918 (a página volta a isso adiante). Repare na ponte com a página de Cultura de massa: a técnica de mobilizar multidões por cartaz, cinema e rádio que o fascismo usaria nos anos 1920–1930 foi aprendida aqui.

As colônias e o mundo fora da Europa. “Mundial” é adjetivo que precisa ser levado a sério. A Grã-Bretanha mobilizou 1,3 milhão de soldados da Índia, dos quais mais de 70 mil morreram, na França, na Mesopotâmia, no Egito e na África Oriental; a França recrutou cerca de 500 mil soldados coloniais, entre eles os tirailleurs sénégalais da África Ocidental (cerca de 170 mil, dos quais uns 30 mil mortos), argelinos, marroquinos e indochineses, e mais de 200 mil trabalhadores coloniais e chineses para as fábricas e as trincheiras de retaguarda; os domínios (Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul) enviaram exércitos próprios. Na África, as colônias alemãs foram atacadas desde agosto de 1914: Togo caiu em semanas, o Sudoeste Africano em 1915 (pelas tropas sul-africanas), Camarões em 1916, e na África Oriental o general Lettow-Vorbeck resistiu com tropas africanas (askaris) até 25 de novembro de 1918, duas semanas depois do armistício na Europa; a campanha custou a vida de centenas de milhares de carregadores africanos, requisitados à força pelos dois lados, de fome e doença, e esse é o custo humano africano da guerra que raramente entra nos números. Na Ásia, o Japão, aliado da Grã-Bretanha desde 1902, tomou a base alemã de Tsingtao, na China, e as ilhas alemãs do Pacífico (1914), e em 1915 impôs à China as “Vinte e Uma Exigências”, prenúncio do expansionismo que a página de Segunda Guerra Mundial retoma; a China, que entrou na guerra em 1917, descobriu em Versalhes que Shandong ficaria com o Japão, e o protesto estudantil de 4 de maio de 1919 em Pequim fundou o nacionalismo chinês moderno. No Brasil e na Argentina, a guerra cortou importações e, sem querer, estimulou a indústria de substituição, tema da página de Capitalismo e industrialização.

O que a guerra deixou no seu dia a dia

O horário de verão foi adotado pela Alemanha em 30 de abril de 1916 para economizar carvão, e a Europa inteira copiou. O relógio de pulso, antes joia feminina, virou equipamento de oficial, porque sincronizar o assalto pelo relógio de bolso era impraticável. O trench coat da Burberry e da Aquascutum foi desenhado para os oficiais na trincheira. A transfusão de sangue com sangue armazenado e tipado começou em 1917, e a cirurgia plástica moderna nasceu nos hospitais de Harold Gillies, com mais de 11 mil operações em rostos. O zíper foi produzido em massa para os uniformes da Marinha americana. A palavra camuflagem entrou nas línguas em 1915, com os pintores que a inventaram. E o minuto de silêncio de 11 de novembro, às 11 horas, celebrado em dezenas de países, é o rito laico que a guerra criou para o luto de massa.

O Oriente Médio: a guerra que desenhou as fronteiras de hoje

Quando o Império Otomano entrou na guerra (novembro de 1914), abriu-se uma frente que decidiu menos a guerra do que o século seguinte. Os britânicos, que ocupavam o Egito desde 1882 e o declararam protetorado em 1914, tinham dois interesses: o canal de Suez e o petróleo da Pérsia e da Mesopotâmia (o Iraque), onde a Royal Navy, convertida ao óleo, buscava combustível. A campanha da Mesopotâmia começou em 1914 e passou pela humilhação de Kut (1916), onde uma divisão anglo-indiana se rendeu, antes da tomada de Bagdá (março de 1917). Gallipoli (1915) fracassou. E, para sublevar as províncias árabes contra o sultão, o alto-comissário britânico no Cairo, McMahon, trocou cartas com o xerife Hussein de Meca (1915–1916) prometendo apoio a um Estado árabe independente depois da vitória; a Revolta Árabe começou em junho de 1916, com o coronel T. E. Lawrence (“Lawrence da Arábia”) como ligação, e os exércitos de Faiçal, filho de Hussein, entraram em Damasco em outubro de 1918.

Enquanto prometia a independência aos árabes, a Grã-Bretanha negociava com a França o acordo Sykes–Picot (maio de 1916), que repartia as províncias otomanas em zonas de administração direta e de influência: a Síria e o Líbano para a França; o Iraque, a Transjordânia e o porto de Haifa para a Grã-Bretanha; a Palestina sob regime internacional. O acordo era secreto; os bolcheviques o publicaram em novembro de 1917, para constrangimento dos aliados. E, no mesmo mês, veio a terceira promessa, a Declaração Balfour, que você lê a seguir. Três compromissos incompatíveis sobre o mesmo chão. No pós-guerra, a Liga das Nações converteu o arranjo em mandatos (conferência de San Remo, 1920): Síria e Líbano à França; Palestina, Transjordânia e Iraque à Grã-Bretanha. As fronteiras que resultaram, retas no deserto, são as do Iraque, da Síria, do Líbano, da Jordânia e de Israel–Palestina de hoje, e os conflitos sobre elas (o curdo, o palestino, o libanês) têm nesse momento a sua origem documental. O Tratado de Sèvres (1920), que retalhava a própria Anatólia, foi recusado pelo movimento nacional de Mustafa Kemal, que expulsou gregos e franceses e obteve, em Lausanne (1923), a Turquia atual, com uma troca forçada de populações (1,2 milhão de gregos da Anatólia e 400 mil turcos da Grécia) que foi o modelo de outras do século.

Leitura de fonte 2: a Declaração Balfour (2 de novembro de 1917)

“O governo de Sua Majestade vê com aprovação o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e fará todos os esforços para facilitar tal objetivo. Nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas na Palestina, nem os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.” (Carta de Arthur James Balfour, secretário do Exterior britânico, a Lord Rothschild, 2 de novembro de 1917; tradução livre.)

Observar. Uma carta de três frases, dirigida a um banqueiro que representava a Federação Sionista, e não a um Estado. Promete um “lar nacional” (não “Estado”), para “o povo judeu” (nomeado como povo), “na Palestina” (sem dizer “em toda a Palestina”). A segunda frase impõe limites: “nada será feito” contra os “direitos civis e religiosos” (não “políticos” nem “nacionais”) das “comunidades não judaicas”, que em 1917 eram cerca de 90% da população e que o texto não nomeia como árabes nem como povo. A terceira frase protege os judeus de outros países de serem tratados como estrangeiros.

Hipotetizar. Cada vagueza é intencional. “Lar nacional” permite ser lido como Estado pelos sionistas e como colônia protegida pelos britânicos; “comunidades não judaicas” evita reconhecer uma nação árabe palestina a quem, dois anos antes, a correspondência Hussein–McMahon acenara com independência. A hipótese é que a carta serve a interesses de guerra: atrair a opinião judaica dos Estados Unidos (que acabavam de entrar na guerra) e da Rússia (em revolução), e garantir à Grã-Bretanha, com uma “população amiga”, o controle do flanco oriental do canal de Suez, que o acordo Sykes–Picot deixara para um regime internacional.

Contextualizar. Novembro de 1917: a ofensiva britânica de Allenby está a semanas de tomar Jerusalém (9 de dezembro); a Revolução de Outubro acaba de acontecer (dia 7), e os bolcheviques vão publicar Sykes–Picot; a guerra submarina pressiona os Estados Unidos. O sionismo político, fundado por Theodor Herzl no congresso da Basileia (1897) como resposta ao antissemitismo europeu (o caso Dreyfus, os pogroms russos), tinha então cerca de 60 mil judeus na Palestina otomana, ao lado de 600 mil árabes. A carta foi redigida em meses de negociação com Chaim Weizmann, químico que prestara serviços à indústria de munições britânica.

Corroborar. Em 1922, a Liga das Nações incorporou o texto da Declaração ao mandato britânico sobre a Palestina, o que lhe deu força de direito internacional. O que se seguiu mede a distância entre a carta e o chão: imigração judaica crescente (sobretudo depois de 1933), compra de terras e despejo de camponeses, revoltas árabes em 1920–1921, 1929 e 1936–1939, o Livro Branco britânico de 1939 limitando a imigração justamente quando os judeus europeus mais precisavam fugir, e, em 1947, a Grã-Bretanha devolvendo o mandato à ONU, que votou a partilha; a guerra de 1948 e a Nakba palestina vêm daí. É o que o ENEM de 2023 chamou de incapacidade do governo inglês de “mediar os conflitos territoriais”.

E as outras leituras? Para um sionista de 1917, a carta foi a primeira vitória diplomática de um movimento de meio século, e a promessa de refúgio a um povo perseguido. Para um árabe palestino, foi a doação, por quem não era dono, de uma terra a quem não morava nela, nas palavras de Arthur Koestler. Para a historiografia britânica, foi uma peça de política imperial em tempo de guerra, improvisada e contraditória com Sykes–Picot e Hussein–McMahon. As três leituras não se anulam: a prova pede que você identifique o que o texto promete, a quem e com que limites, e que saiba que o resultado (a partilha de 1947, a guerra de 1948, o conflito de hoje) é tema da página de Guerra Fria, onde entram a ONU e Oswaldo Aranha.

1917, o ano em que a guerra mudou de natureza

Três coisas aconteceram em 1917 que fizeram da guerra europeia outra guerra: os Estados Unidos entraram, a Rússia saiu em duas revoluções, e as sociedades beligerantes, exaustas, começaram a rachar (motins no exército francês em maio–junho, depois da ofensiva fracassada de Nivelle; greves na Alemanha e na Áustria; a derrota italiana de Caporetto em outubro, que levou 300 mil prisioneiros). É por isso que a linha do tempo desta página destaca o ano: antes dele, a guerra é um impasse entre impérios europeus; depois, é um conflito entre uma potência extraeuropeia e um bloco que se desfaz, com uma revolução socialista no meio.

A entrada dos Estados Unidos. Wilson fora reeleito em novembro de 1916 com o lema “ele nos manteve fora da guerra”, e em janeiro de 1917 ainda propunha uma “paz sem vitória”. Dois atos alemães o fizeram mudar: em 1.º de fevereiro, a Alemanha retomou a guerra submarina irrestrita (afundar sem aviso qualquer navio, neutro ou não, nas águas em torno da Grã-Bretanha), apostando em derrotar os britânicos antes que os americanos pudessem reagir; e em fevereiro o governo britânico entregou a Washington o telegrama Zimmermann, interceptado, em que Berlim propunha ao México uma aliança com a promessa de devolver o Texas, o Novo México e o Arizona. Em 6 de abril de 1917, o Congresso declarou guerra; Wilson a justificou como guerra para “tornar o mundo seguro para a democracia”. Os Estados Unidos entraram como “potência associada”, não como aliada, para preservar a liberdade de ação; tinham um exército de 130 mil homens e, em novembro de 1918, dois milhões na França, sob o general Pershing. Mais do que os soldados, pesaram desde logo os créditos, o aço, o trigo e a marinha para os comboios; e pesou a promessa de um pós-guerra diferente, que os catorze pontos de janeiro de 1918 enunciariam.

As duas revoluções russas. A Rússia entrou na guerra com o maior exército e a pior indústria das grandes potências: faltavam fuzis, granadas, botas, e as ferrovias não davam conta de abastecer frente e cidades. Em 1916, a inflação e a escassez de pão nas cidades, somadas a 1,7 milhão de mortos e a um czar que assumira pessoalmente o comando (1915), deixando o governo nas mãos da czarina e de Rasputin, haviam esgotado a legitimidade do regime. Em fevereiro de 1917 (março, no calendário ocidental), uma greve de operárias têxteis de Petrogrado no Dia Internacional da Mulher virou greve geral, a guarnição se recusou a atirar e, em 2 de março (15), Nicolau II abdicou. Surgiu um poder duplo: o Governo Provisório, liberal, que manteve a Rússia na guerra para honrar os compromissos com a Entente, e o Soviete de Petrogrado, conselho de operários e soldados, que a cada mês controlava mais a rua e os quartéis. Foi a guerra que decidiu entre os dois: a ofensiva de Kerensky (julho) fracassou, o exército se desfez, os camponeses tomaram as terras e Lenin, trazido da Suíça num trem alemão (abril), ofereceu o programa que ninguém mais oferecia: “paz, terra e pão”, “todo o poder aos sovietes”. Em 25 de outubro (7 de novembro), os bolcheviques tomaram o Palácio de Inverno; os primeiros decretos foram o da paz e o da terra. Em 3 de março de 1918, a Rússia soviética assinou com a Alemanha o Tratado de Brest-Litovsk, cedendo Polônia, países bálticos, Finlândia e Ucrânia, cerca de um terço da população, metade da indústria e nove décimos das minas de carvão do antigo império: a paz a qualquer preço, que Lenin defendeu contra a própria maioria do partido para salvar a revolução. O preço foi o começo de uma guerra civil (1918–1921), com intervenção aliada, que não cabe aqui. Repare no elo que a prova testa: a guerra aprofundou a crise do czarismo (fevereiro) e a incapacidade do Governo Provisório de sair dela abriu o caminho de outubro; a Revolução Russa é filha da guerra, e a guerra, por sua vez, ganhou com ela um sentido novo, o de um conflito em que o socialismo passava a ser um Estado.

Fevereiro e outubro não são a mesma revolução

Fevereiro de 1917 (março ocidental): revolução espontânea, de operários e soldados de Petrogrado, que derruba o czar e cria o Governo Provisório (liberais e, depois, socialistas moderados, como Kerensky) ao lado dos sovietes; a Rússia continua na guerra. Outubro de 1917 (novembro ocidental): insurreição planejada pelo partido bolchevique (Lenin, Trotsky), que derruba o Governo Provisório e instala o poder dos sovietes sob controle bolchevique; a Rússia sai da guerra (armistício em dezembro, Brest-Litovsk em março de 1918). O item do PAS de 2014 que separa “o primeiro” (fim do czarismo) do “segundo” (ascensão dos bolcheviques e o “início da primeira experiência de um Estado que se pretendia socialista”) está certo justamente por fazer a distinção. Guardar as datas pelo calendário juliano (fevereiro, outubro) e saber que o ocidental as desloca treze dias evita confundir “Revolução de Outubro” com novembro.

O Brasil na guerra: navios, médicos e a gripe que matou um presidente

Em 1914 o Brasil declarou neutralidade, como quase toda a América. A guerra chegou primeiro pela economia: o café, que dependia dos portos alemães (Hamburgo era o segundo comprador), perdeu mercado quando o bloqueio britânico fechou o mar do Norte; a borracha, já em queda pela concorrência asiática, afundou; as importações de carvão, máquinas e manufaturados secaram, e a indústria nacional, por falta de concorrente, cresceu. Chegou também pela política: o senador Rui Barbosa, em discurso em Buenos Aires (1916), condenou a neutralidade moral diante da violação do direito (“a neutralidade não é indiferença”), e o poeta Olavo Bilac fundou, em 1916, a Liga de Defesa Nacional, que pregava o serviço militar obrigatório e o nacionalismo cívico; o governo de Wenceslau Braz (1914–1918), porém, manteve a neutralidade, e o chanceler Lauro Müller, catarinense de ascendência alemã, foi acusado de germanofilia.

O que mudou o rumo foi a guerra submarina irrestrita. Em 5 de abril de 1917, o cargueiro Paraná, que levava café para a França, foi torpedeado ao largo da Normandia por um submarino alemão, com três mortos. Em 11 de abril, o Brasil rompeu relações diplomáticas; Lauro Müller caiu, substituído por Nilo Peçanha. Em maio, o Tijuca foi afundado, e o Congresso revogou a neutralidade entre Estados Unidos e Alemanha (junho); o governo apreendeu os 46 navios alemães ancorados em portos brasileiros. Em 18 de outubro, o Macau foi torpedeado perto da Espanha e seu comandante, levado prisioneiro; em 26 de outubro de 1917, o Congresso reconheceu o estado de guerra com a Alemanha, e o Executivo o declarou no mesmo dia. Repare no que o item do PAS de 2022 cobra: o Brasil lutou ao lado da Entente, contra a Tríplice Aliança, e não mandou tropas de terra à Europa; a “força expedicionária” é a FEB, de 1944, outra guerra.

A participação foi naval e médica. A DNOG (Divisão Naval em Operações de Guerra), com dois cruzadores, quatro contratorpedeiros e navios de apoio, sob o contra-almirante Pedro Max Fernando Frontin, saiu do Rio em agosto de 1918 para patrulhar a costa da África Ocidental, no corredor entre Dakar e Gibraltar; em Dakar, em setembro, a gripe matou mais de uma centena de tripulantes e deixou a divisão quase inoperante; ela chegou a Gibraltar em 10 de novembro, véspera do armistício. Uma missão médica de cerca de cem pessoas, chefiada por Nabuco de Gouveia, montou um hospital em Paris; treze aviadores navais serviram na Royal Air Force; e o Brasil enviou um contingente de oficiais do Exército para estágio no exército francês. O saldo diplomático foi maior do que o militar: o Brasil foi o único país da América do Sul beligerante, teve assento na Conferência de Paris (a delegação chefiada por Epitácio Pessoa, que voltou eleito presidente), conseguiu que a França pagasse o café apreendido e que os navios alemães fossem incorporados à frota mercante, e entrou como membro fundador na Liga das Nações, de onde sairia em 1926, quando lhe negaram um assento permanente no Conselho.

A gripe de 1918. A pandemia (o vírus H1N1 de 1918–1919, que matou de 50 a 100 milhões de pessoas no mundo, mais do que a guerra inteira) chegou ao Brasil em setembro de 1918, pelos navios que vinham da Europa e de Dakar. Em outubro e novembro, o Rio de Janeiro parou: comércio fechado, escolas vazias, cadáveres recolhidos por carroças da Santa Casa, cerca de 15 mil mortos na capital em poucas semanas e pelo menos 35 mil no país (a cidade de São Paulo contou uns 5 mil). Entre os mortos estava o presidente eleito, Rodrigues Alves, que adoeceu antes da posse de 15 de novembro e morreu em 16 de janeiro de 1919; o vice, Delfim Moreira, assumiu, e uma nova eleição levou Epitácio Pessoa à presidência. O nome “gripe espanhola”, como o ENEM de 2025 lembra, é efeito da censura de guerra: a imprensa dos beligerantes escondia a epidemia, e só os jornais da Espanha neutra a noticiavam. O carnaval de 1919, o primeiro depois da catástrofe e do armistício, ficou na memória da cidade como o mais exaltado de todos, e é tema de outro item do ENEM reusado nesta página.

1918: as ofensivas, o armistício e a revolução alemã

Livre da frente russa, Ludendorff apostou tudo numa série de ofensivas na frente ocidental antes que os americanos chegassem em massa: a Kaiserschlacht, iniciada em 21 de março de 1918 com táticas novas (bombardeio curto, tropas de assalto infiltrando-se pelos pontos fracos), rompeu a frente britânica, avançou 60 quilômetros, voltou a bombardear Paris e levou os aliados a criar, pela primeira vez, um comando único sob o marechal Foch. Mas a Alemanha não tinha reservas para explorar o sucesso: em julho, a segunda batalha do Marne deteve o último avanço, e em 8 de agosto, em Amiens, tanques e aviação aliados romperam as linhas alemãs no “dia negro do exército alemão”, segundo Ludendorff. Começaram os “Cem Dias” de recuo contínuo. Em setembro, os aliados romperam a frente de Salônica e a Bulgária pediu armistício (29 de setembro); em 30 de outubro, o Império Otomano assinou o de Mudros; em 3 de novembro, a Áustria-Hungria, já dissolvida em Estados nacionais (tchecos, eslavos do sul, húngaros e austríacos proclamaram-se independentes em outubro), assinou o de Villa Giusti. Em 29 de setembro, Ludendorff dissera ao Kaiser que a guerra estava perdida e que era preciso pedir armistício com base nos catorze pontos de Wilson, de preferência por um governo parlamentar que carregasse a culpa; essa manobra está na origem da lenda da punhalada pelas costas (Dolchstoßlegende), segundo a qual o exército “invicto” teria sido traído pelos civis, socialistas e judeus, mito que a direita alemã e depois o nazismo exploraram.

A Alemanha desabou por dentro antes de ser invadida. Em 29–30 de outubro, os marinheiros de Kiel se amotinaram contra uma ordem de sair para uma última batalha; em uma semana, conselhos de operários e soldados, à moda russa, tomaram as cidades. Em 9 de novembro, o chanceler anunciou a abdicação de Guilherme II (que fugiu para a Holanda) e o social-democrata Philipp Scheidemann proclamou a república de uma janela do Reichstag, para se antecipar à república socialista que Karl Liebknecht proclamava a dois quilômetros dali. Em 11 de novembro de 1918, às 5 da manhã, num vagão-restaurante na floresta de Compiègne, a delegação alemã, chefiada pelo deputado civil Matthias Erzberger, assinou o armistício ditado por Foch; o cessar-fogo entrou em vigor às 11 horas, e por isso o mundo lembra o “décimo primeiro dia do décimo primeiro mês, às onze horas”. As condições (evacuação dos territórios ocupados e da margem esquerda do Reno, entrega de armas, navios e locomotivas, manutenção do bloqueio) eram as de uma rendição. No inverno de 1918–1919, a jovem república enfrentou o levante espartaquista de Berlim (janeiro), esmagado pelos Freikorps, que assassinaram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, e elegeu a Assembleia Constituinte que, reunida em Weimar, deu nome ao regime; a Constituição de Weimar (agosto de 1919) foi uma das mais democráticas da Europa, e foi ela que assinou Versalhes, carregando desde o berço o peso da derrota. O que aconteceu com essa república nos anos 1920–1930 é a página de Fascismo e nazismo.

Os números. Cerca de 65 milhões de homens mobilizados; entre 9 e 10 milhões de militares mortos (Alemanha cerca de 2 milhões; Rússia 1,8 milhão; França 1,4 milhão, mais de 10% da população masculina ativa; Áustria-Hungria 1,1 milhão; Império Britânico 900 mil; Itália 600 mil; Império Otomano 800 mil; Sérvia, proporcionalmente, a maior perda, com um sexto da população total, civis incluídos); cerca de 20 milhões de feridos, dos quais milhões de mutilados; civis mortos por fome, doença, massacres e deslocamentos, entre 6 e 10 milhões; e a gripe, de 50 a 100 milhões no mundo. Os números variam porque os impérios que morreram não contaram seus mortos; o que não varia é a escala, nunca vista.

Leitura de fonte 3: os catorze pontos de Wilson (8 de janeiro de 1918)

“I. Acordos de paz abertos, negociados abertamente, depois dos quais não haverá mais entendimentos internacionais privados de qualquer espécie, e a diplomacia procederá sempre com franqueza e à vista do público. II. Liberdade absoluta de navegação nos mares […]. III. Remoção, na medida do possível, de todas as barreiras econômicas […]. IV. Garantias adequadas de que os armamentos nacionais serão reduzidos ao mínimo compatível com a segurança interna. V. Um ajuste livre, aberto e absolutamente imparcial de todas as reivindicações coloniais, baseado na observância estrita do princípio de que, ao determinar todas essas questões de soberania, os interesses das populações em causa devem ter o mesmo peso que as reivindicações equitativas do governo cujo título está em discussão. […] VIII. Todo o território francês deverá ser libertado […] e a injustiça feita à França pela Prússia em 1871 no caso da Alsácia-Lorena […] deverá ser reparada. […] XIII. Um Estado polonês independente deverá ser erigido, incluindo os territórios habitados por populações indiscutivelmente polonesas, ao qual se deve assegurar um acesso livre e seguro ao mar. XIV. Uma associação geral das nações deverá ser formada, sob pactos específicos, com o propósito de oferecer garantias mútuas de independência política e de integridade territorial aos grandes e aos pequenos Estados igualmente.” (Discurso de Woodrow Wilson ao Congresso dos Estados Unidos, 8 de janeiro de 1918; tradução livre, com cortes.)

Observar. Um programa em catorze itens, dos quais os cinco primeiros são princípios gerais (diplomacia aberta, mares livres, livre-comércio, desarmamento, questão colonial), os oito seguintes são ajustes territoriais na Europa (Rússia, Bélgica, Alsácia-Lorena, Itália, Áustria-Hungria, Bálcãs, Turquia, Polônia) e o último cria a “associação geral das nações”. O primeiro ponto é um ataque direto à diplomacia secreta, que a página listou entre as causas da guerra; o quinto fala em “interesses das populações” coloniais, mas não em independência; o oitavo chama de “injustiça” a anexação de 1871; o décimo terceiro inventa, com “acesso ao mar”, o futuro corredor polonês.

Hipotetizar. O discurso é dirigido a três públicos ao mesmo tempo: aos aliados europeus, cujos tratados secretos (Londres, Sykes–Picot) os bolcheviques acabavam de publicar, e a quem Wilson avisa que os Estados Unidos não lutam por anexações; aos povos das Potências Centrais, a quem oferece uma paz aceitável para que abandonem seus governos; e à Rússia soviética, que propusera em novembro uma paz “sem anexações nem indenizações” e que Wilson tenta não deixar sozinha com a bandeira da paz justa. A hipótese de leitura: os catorze pontos são, ao mesmo tempo, um programa liberal e uma arma de guerra.

Contextualizar. Janeiro de 1918: a Rússia negocia em Brest-Litovsk; a Alemanha prepara a ofensiva de março; os Estados Unidos têm poucas tropas na França. A ideia de uma liga das nações vinha de sociedades pacifistas britânicas e americanas desde 1915; a de “autodeterminação” vinha tanto do liberalismo do século XIX quanto do programa bolchevique. Em outubro de 1918, a Alemanha pediria o armistício invocando os catorze pontos, e seria com base neles que o governo de Weimar denunciaria Versalhes como traição.

Corroborar. Compare os pontos com o tratado de 1919: a diplomacia aberta foi praticada só na aparência (as decisões foram tomadas pelo Conselho dos Quatro, a portas fechadas); os mares livres caíram diante do veto britânico; o livre-comércio não sobreviveu aos anos 1920; o desarmamento foi imposto apenas aos vencidos; o ponto V produziu os mandatos, não a independência das colônias (os delegados egípcios, indianos, vietnamitas, como o jovem Ho Chi Minh, foram ignorados em Paris); os pontos VIII e XIII foram cumpridos; o XIV virou a Liga, à qual os próprios Estados Unidos não aderiram, porque o Senado rejeitou o tratado em 1919–1920. Keynes, que assistiu às negociações, escreveu que Wilson chegou a Paris como um profeta e saiu como um pastor presbiteriano enganado pelos advogados europeus.

E as outras leituras? Um socialista de 1918 lia os pontos como a versão burguesa do decreto bolchevique da paz, sem a palavra “imperialismo”. Um nacionalista polonês ou tcheco, como a carta de alforria do seu Estado. Um francês, como um idealismo perigoso que deixaria a Alemanha intacta para a próxima guerra. Um historiador de hoje vê no texto o ato de nascimento do internacionalismo liberal que a ONU herdaria em 1945, e a prova de que a autodeterminação foi um princípio europeu: fora da Europa, 1919 confirmou os impérios. Para a prova, uma coisa importa: os catorze pontos são de janeiro de 1918, antes do armistício, e não são o Tratado de Versalhes; quem os confunde erra a data e o autor.

A paz que não fechou: Versalhes e os outros quatro tratados

Esquema do Tratado de Versalhes de 1919: cláusulas territoriais, militares, econômicas (artigo 231 e reparações) e políticas (Liga das Nações), com os três negociadores e os pontos de ruptura

A Conferência de Paz abriu em Paris em 18 de janeiro de 1919 (aniversário da proclamação do Império Alemão em Versalhes) com 27 Estados vencedores e nenhum vencido: a Alemanha só seria chamada para receber o texto pronto. Decidiram quatro homens, e na prática três: Clemenceau, primeiro-ministro francês, de 77 anos, que vira duas invasões alemãs e queria segurança (desmembrar a Alemanha, ou ao menos tirar-lhe a margem esquerda do Reno); Lloyd George, primeiro-ministro britânico, que precisava de reparações para o eleitorado (“espremer a Alemanha até os caroços rangerem”, prometera na campanha de dezembro de 1918) mas não queria uma França dominante no continente nem uma Alemanha arruinada que não pudesse comprar produtos britânicos; e Wilson, que queria a Liga antes de tudo e cedeu em quase todo o resto para obtê-la. O italiano Orlando saiu da sala quando lhe negaram Fiume. O resultado foi um compromisso que não satisfez ninguém: duro demais para reconciliar, brando demais para destruir.

As cláusulas de Versalhes (28 de junho de 1919). Territoriais: a Alsácia-Lorena volta à França; Eupen e Malmedy vão à Bélgica; o norte do Schleswig, à Dinamarca, após plebiscito; a Posnânia e a Prússia Ocidental, à Polônia ressuscitada, formando o corredor polonês que separa a Prússia Oriental do resto do país; Danzig vira cidade livre sob a Liga; a Alta Silésia é dividida após plebiscito (1921); Memel vai à Lituânia; o Sarre, com suas minas de carvão, fica quinze anos sob administração da Liga, com a produção para a França; a Renânia é desmilitarizada e ocupada por tropas aliadas por quinze anos; todas as colônias passam a mandatos (Togo e Camarões para França e Grã-Bretanha; a África Oriental para a Grã-Bretanha e a Bélgica; o Sudoeste para a África do Sul; o Pacífico para o Japão, a Austrália e a Nova Zelândia); a união com a Áustria (Anschluss) é proibida. A Alemanha perde cerca de 13% do território e 10% da população. Militares: exército de no máximo 100 mil homens, sem conscrição, sem Estado-Maior, sem tanques, sem aviação militar, sem submarinos, marinha reduzida a seis encouraçados antigos. Econômicas: o artigo 231, que você lê abaixo, atribui à Alemanha e seus aliados a responsabilidade pelos danos, e serve de base jurídica às reparações, cujo valor a conferência não conseguiu fixar; uma comissão o estabeleceu em 1921 em 132 bilhões de marcos-ouro (cerca de 33 bilhões de dólares), dos quais uma parte menor era exigível de fato; a Alemanha entrega ainda a frota mercante, locomotivas, carvão e gado. Políticas: o Pacto da Liga das Nações é a parte I do tratado; o artigo 227 prevê julgar Guilherme II, o que nunca aconteceu, porque a Holanda não o extraditou. A delegação alemã, recebida em maio sob guarda, protestou por escrito, obteve mudanças mínimas e assinou sob ameaça de invasão; o chanceler Scheidemann demitiu-se a dizer que a mão que assinasse aquilo deveria secar. Na Alemanha, o tratado foi, para todos os partidos, o Diktat.

Os outros tratados. Cada derrotado teve o seu, assinado num palácio diferente dos arredores de Paris. Saint-Germain (10 de setembro de 1919) reduziu a Áustria a um pequeno Estado alemão de 6,5 milhões de habitantes, proibido de se unir à Alemanha, e reconheceu a Tchecoslováquia (com os 3 milhões de alemães dos Sudetos dentro), a Polônia e o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (a futura Iugoslávia), cedendo à Itália o Trentino, o Tirol do Sul (de língua alemã) e Trieste. Neuilly (27 de novembro de 1919) tirou da Bulgária a saída para o mar Egeu. Trianon (4 de junho de 1920) fez da Hungria o grande perdedor proporcional: dois terços do território e três quintos da população do antigo reino foram para a Romênia (Transilvânia), a Tchecoslováquia (Eslováquia) e a Iugoslávia, deixando 3 milhões de húngaros fora das novas fronteiras; o “trauma de Trianon” é até hoje tema da política húngara. Sèvres (10 de agosto de 1920) retalhava o Império Otomano em zonas gregas, italianas, francesas, armênias e curdas e foi recusado pelo movimento de Mustafa Kemal, que, depois de vencer os gregos (1922), obteve em Lausanne (24 de julho de 1923) a Turquia nas fronteiras atuais e a abolição do sultanato. A Rússia, ausente de Paris, perdeu pela força o que Brest-Litovsk lhe tirara e o que não conseguiu recuperar na guerra com a Polônia (1920–1921): Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia nasceram no vácuo entre dois impérios derrotados.

Dois cartogramas esquemáticos da Europa, em 1914 e em 1923, mostrando o fim dos impérios russo, alemão, austro-húngaro e otomano e os novos Estados: Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Tchecoslováquia, Áustria, Hungria, Iugoslávia e Turquia, com a Alsácia-Lorena e o corredor polonês destacados

O mapa de 1923. Compare os dois cartogramas. Em 1914, quatro impérios multinacionais cobriam a metade oriental da Europa; em 1923, no lugar deles há uma dúzia de Estados nacionais, desenhados segundo a autodeterminação onde ela convinha aos vencedores e segundo a estratégia onde não convinha: a Tchecoslováquia recebeu os Sudetos alemães porque eram sua fronteira montanhosa; a Polônia recebeu o corredor porque Wilson lhe prometera o mar; a Romênia dobrou de tamanho por ter escolhido o lado certo. Cerca de 30 milhões de pessoas ficaram como minorias nacionais em Estados alheios, e a Liga criou um sistema de proteção de minorias que não funcionou. Os novos Estados eram fracos, rivais entre si e cercados por dois gigantes humilhados, a Alemanha e a Rússia; é esse mapa que a Alemanha de 1938–1939 desfará peça por peça.

Leitura de fonte 4: o artigo 231 do Tratado de Versalhes (1919)

“Os Governos aliados e associados declaram, e a Alemanha reconhece, que a Alemanha e seus aliados são responsáveis, por os terem causado, por todas as perdas e todos os danos sofridos pelos Governos aliados e associados e seus nacionais em consequência da guerra que lhes foi imposta pela agressão da Alemanha e de seus aliados.” (Tratado de Versalhes, 28 de junho de 1919, parte VIII, “Reparações”, artigo 231; tradução livre.)

Observar. Uma frase só, com dois verbos de autoridade (“declaram”, “reconhece”) e uma cadeia de causa: a “agressão” causou a “guerra”, a guerra causou as “perdas e danos”, logo a Alemanha é “responsável”. O artigo abre a parte VIII do tratado, intitulada “Reparações”, e não a parte sobre crimes ou culpa; a palavra “culpa” (Schuld, guilt) não aparece, mas foi assim que a Alemanha o leu e traduziu: Kriegsschuldartikel, o artigo da culpa de guerra.

Hipotetizar. Quem escreve assim precisa de um fundamento jurídico para cobrar. A hipótese de leitura é que o artigo existe para resolver um problema contábil: como a conferência não conseguira fixar o valor das reparações, e como Lloyd George e Clemenceau precisavam prometer aos eleitores que a Alemanha pagaria tudo, o tratado afirmou a responsabilidade total em princípio (o 231) e limitou a cobrança na prática (o artigo 232 reconhece que os recursos alemães “não são adequados” para reparar tudo). Os dois redatores americanos do artigo, John Foster Dulles e Norman Davis, pretendiam exatamente isso: uma cláusula de responsabilidade civil, não um veredito moral.

Contextualizar. Junho de 1919: a França tem dez departamentos devastados, 1,4 milhão de mortos e uma dívida de guerra; a Grã-Bretanha deve bilhões aos Estados Unidos; a opinião pública dos vencedores pede que “o boche pague”; na Alemanha, o bloqueio continua, a república tem semanas de vida e a lenda da punhalada já circula. O mesmo artigo, com os nomes trocados, foi incluído nos tratados com a Áustria (177), a Hungria (161) e a Bulgária (121), o que mostra seu caráter de cláusula-padrão.

Corroborar. O que o artigo produziu está documentado: a fixação de 132 bilhões de marcos-ouro em 1921; a ocupação do Ruhr pela França e pela Bélgica em janeiro de 1923, quando a Alemanha atrasou entregas de carvão; a resistência passiva financiada por emissão de moeda e a hiperinflação de 1923 (um dólar valia 4,2 trilhões de marcos em novembro); os planos Dawes (1924) e Young (1929), que reescalonaram a dívida com crédito americano; a moratória de 1931 e o fim de fato dos pagamentos em 1932, com cerca de 20 bilhões pagos. A Alemanha só quitou os juros dos empréstimos ligados às reparações em 2010. E, do outro lado, a campanha de toda a direita alemã contra o “artigo da vergonha” é a melhor prova de que uma cláusula escrita para a contabilidade funcionou como ferida nacional.

E as outras leituras? Keynes, em 1919, leu o artigo como a pedra de uma “paz cartaginesa” que arruinaria a Europa inteira ao arruinar a Alemanha. O historiador francês Étienne Mantoux respondeu em 1946 (A paz cartaginesa, ou as consequências econômicas do sr. Keynes) que a Alemanha podia pagar e que o problema fora político, não econômico: a falta de vontade de cumprir e a falta de vontade de impor. A historiografia recente (Margaret MacMillan, Paris 1919, 2001; Sally Marks) tende a essa segunda leitura: o tratado não foi tão duro quanto a propaganda alemã disse, nem a Alemanha ficou tão arruinada quanto Keynes previu; o que faltou foi um mecanismo de aplicação, com os Estados Unidos fora e a Grã-Bretanha arrependida. Para a prova: o artigo 231 é a base jurídica das reparações e o foco do ressentimento alemão; dizer que ele “impôs o valor das reparações” erra (o valor veio em 1921) e dizer que Versalhes “dividiu a Alemanha em duas” é a ambiguidade que fez a banca anular um item em 2022, porque o corredor polonês de fato isolou a Prússia Oriental, mas as duas Alemanhas só nasceram em 1949.

A Liga das Nações: a primeira organização mundial, sem o país que a inventou

O Pacto da Liga (parte I de todos os tratados de 1919–1920) criou, com sede em Genebra, uma Assembleia de todos os membros, um Conselho com quatro membros permanentes (Grã-Bretanha, França, Itália, Japão) e um Secretariado; ao lado dela, a Corte Permanente de Justiça Internacional (Haia) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que sobrevive até hoje. O princípio era a segurança coletiva: uma agressão contra um membro seria agressão contra todos, e a resposta viria por sanções econômicas (a Liga não tinha exército). Os mandatos (artigo 22) eram classificados em A (ex-províncias otomanas, “quase prontas” para a independência), B (África alemã) e C (Sudoeste Africano e Pacífico, administrados como parte do território do mandatário); a fórmula consagrou a tutela colonial com linguagem humanitária, exatamente como a Ata de Berlim fizera em 1885.

A Liga teve sucessos pequenos e fracassos grandes. Resolveu a disputa das ilhas Åland entre Suécia e Finlândia (1921), administrou o Sarre e Danzig, repatriou 400 mil prisioneiros de guerra e criou, com Fridtjof Nansen, o passaporte para refugiados apátridas (1922), pioneiro do direito dos refugiados; a Alemanha entrou em 1926 (depois dos acordos de Locarno, de 1925, que garantiram as fronteiras ocidentais) e a URSS em 1934. Mas não impediu a Polônia de tomar Vilna (1920), nem a Itália de bombardear Corfu (1923), nem o Japão de invadir a Manchúria (1931), nem a Itália de conquistar a Etiópia (1935–1936), nem a Alemanha de rearmar-se; os agressores simplesmente saíram (Japão e Alemanha em 1933, Itália em 1937). O defeito de nascença era a ausência dos Estados Unidos: o Senado, dominado pelos republicanos de Henry Cabot Lodge, rejeitou o Tratado de Versalhes (e com ele o Pacto) em novembro de 1919 e março de 1920, porque o artigo 10 obrigaria o país a defender fronteiras alheias sem decisão do Congresso; Wilson, que fizera uma campanha pelo país e sofrera um derrame em outubro de 1919, não aceitou reservas. Os Estados Unidos assinaram paz em separado com a Alemanha (1921) e nunca entraram na Liga, que ficou com a França e uma Grã-Bretanha pouco entusiasmada para sustentá-la. O Brasil, membro fundador e único sul-americano a ter lutado, saiu em 1926, quando a Alemanha ganhou o assento permanente que o governo Artur Bernardes reivindicava. A Liga foi formalmente dissolvida em 1946, e a ONU herdou seus arquivos, o Palácio das Nações e a lição: um Conselho de Segurança com as grandes potências dentro, inclusive as duas que faltaram em 1920, os Estados Unidos e a União Soviética. Esse desfecho é a página de Guerra Fria.

O que a guerra deixou: impérios, mortos, memória e a guerra seguinte

Quatro impérios a menos e uma Europa destronada. O dos Romanov caiu em 1917; os Hohenzollern e os Habsburgo, em novembro de 1918; o sultão otomano, em 1922. No lugar deles, Estados nacionais na Europa central e mandatos no Oriente Médio. Os impérios coloniais britânico e francês, ao contrário, chegaram em 1920 à sua extensão máxima, mas com fissuras: a Irlanda em guerra de independência (1919–1921), a Índia em agitação (o massacre de Amritsar, 1919, e a ascensão de Gandhi), o Egito em revolta (1919), a promessa de autodeterminação cobrada pelos soldados coloniais que voltaram. A Europa, que em 1914 era a credora e a fábrica do mundo, saiu endividada com os Estados Unidos, com a produção industrial abaixo da de 1913 até meados dos anos 1920 e com duas potências extraeuropeias em ascensão, os Estados Unidos e o Japão. É esse o sentido que a prova dá ao “fim do domínio europeu” e por isso ela pune quem fala em Europa “revigorada” ou “hegemônica” depois de 1918.

Mortos, mutilados e o luto de massa. Os cerca de 10 milhões de mortos deixaram 3 milhões de viúvas e 6 milhões de órfãos; os mutilados, na França, eram mais de um milhão, e os gueules cassées, os “rostos quebrados”, desfilaram na assinatura de Versalhes a pedido de Clemenceau. Cada país inventou ritos: o Soldado Desconhecido sepultado em 11 de novembro de 1920 na Abadia de Westminster e sob o Arco do Triunfo; os monumentos aos mortos em cada aldeia francesa (36 mil); a papoula vermelha dos campos de Flandres, tirada do poema de John McCrae (1915); o minuto de silêncio. A arte registrou o trauma: os gravados de Otto Dix (Der Krieg, 1924), as mães de Käthe Kollwitz, que perdeu um filho em 1914, os poetas das trincheiras (Owen, morto uma semana antes do armistício; Sassoon). A chamada geração perdida (expressão de Gertrude Stein que Hemingway pôs na epígrafe de O sol também se levanta) nomeia os sobreviventes que não encontraram lugar no mundo de 1919. E em 1929, quando a paz já parecia frágil, um ex-soldado chamado Erich Maria Remarque publicou Nada de novo no front, que vendeu um milhão de exemplares em um ano, virou filme em 1930 e foi um dos primeiros livros queimados pelos nazistas em 1933: a memória da guerra era, ela mesma, um campo de batalha político.

A tese das duas etapas. Muitos historiadores veem em 1914–1945 uma “nova Guerra dos Trinta Anos”, com um armistício de vinte anos no meio (a frase é atribuída ao marechal Foch em 1919: “Isto não é uma paz, é um armistício de vinte anos”). Os elos são nomeáveis: o ressentimento alemão contra Versalhes e a lenda da punhalada, que o nazismo converteu em programa; a “vitória mutilada” italiana (Fiume negada, d’Annunzio em 1919), que alimentou o fascismo; a instabilidade dos novos Estados e das minorias; a fraqueza da Liga sem os Estados Unidos; a Revolução Russa, que pôs o anticomunismo no centro da política europeia; e a crise de 1929, que detonou tudo isso ao mesmo tempo. Hobsbawm chama o período de 1914–1945 de “era da catástrofe”, primeira parte do seu “breve século XX” (1914–1991). Mas a tese não é unanimidade nem fatalidade: a Alemanha de Stresemann (1924–1929) foi reintegrada, e a Segunda Guerra exigiu decisões que ninguém em 1919 tomara. A prova gosta do tema porque ele testa se você sabe ler a seta: Versalhes não “causou” 1939, mas está entre as condições que 1929 e Hitler acionaram.

O Oriente Médio, a Rússia e as colônias. As três heranças de 1917–1923 que mais explicam o mundo de hoje saíram desta guerra: as fronteiras do Oriente Médio e a questão palestina; um Estado socialista que durou até 1991 e organizou a política do século em torno de si; e a promessa de autodeterminação feita aos povos colonizados e negada em Paris, que a descolonização cobraria depois de 1945 (ver Guerra Fria). Some a elas o sufrágio feminino, o Estado intervencionista que a guerra ensinou a planejar, a propaganda de massa, a aviação e o rádio, e a gripe que ensinou às cidades o que é uma pandemia.

Onde a Grande Guerra aparece no seu noticiário

Quando um país do Oriente Médio aparece no jornal com uma fronteira reta no deserto, a linha foi traçada entre 1916 e 1923. Quando a Armênia e a Turquia brigam sobre a palavra “genocídio”, o assunto é 1915. Quando a Hungria fala de Trianon, é 1920. Quando a Polônia lembra o corredor e Danzig, é 1919 e 1939. Quando se compara a covid-19 com a “gripe espanhola”, é 1918, inclusive no nome errado. Quando o Reino Unido para por um minuto às 11 horas do 11 de novembro e usa papoulas de papel, é o armistício. E quando a ONU vota uma resolução no Conselho de Segurança com veto das grandes potências, a regra foi escrita para corrigir o que faltou à Liga das Nações. A Primeira Guerra não é um assunto distante: é a camada mais funda do mapa atual.

Anacronismos e erros clássicos: dez frases para desconfiar

Dez frases que custam ponto
  1. “A guerra foi causada pelo assassinato de Sarajevo.” Estopim, não causa; as quatro causas estavam armadas antes.
  2. “A Itália lutou com a Alemanha, como na Tríplice Aliança.” Ficou neutra em 1914 e entrou com a Entente em 1915; na Segunda Guerra, sim, estaria com a Alemanha.
  3. “O Brasil enviou uma força expedicionária e lutou ao lado da Tríplice Aliança.” Lado errado e guerra errada: o Brasil lutou contra a Alemanha, ao lado da Entente, com navios e médicos; a FEB é de 1944.
  4. “A Alemanha venceu / tornou-se a potência dominante.” Perdeu, assinou Versalhes e afundou na crise; quem saiu credor do mundo foram os Estados Unidos.
  5. “A Europa saiu revigorada e hegemônica.” Saiu endividada, destronada e com quatro impérios a menos; o “fim do domínio europeu” é a leitura que a prova premia.
  6. “Versalhes dividiu a Alemanha em dois Estados.” A Alemanha só se partiu em dois Estados em 1949; o que 1919 fez foi separar a Prússia Oriental pelo corredor polonês. A ambiguidade fez a banca anular um item em 2022.
  7. “A Liga das Nações era a ONU / tinha os Estados Unidos entre os membros.” A Liga é de 1920, a ONU de 1945; os Estados Unidos nunca entraram na Liga, porque o Senado rejeitou o tratado.
  8. “Os catorze pontos são o Tratado de Versalhes.” São o programa de Wilson de janeiro de 1918, anterior ao armistício; o tratado de 1919 os contrariou em quase tudo.
  9. “A Revolução de Outubro derrubou o czar.” Foi a de fevereiro; outubro derrubou o Governo Provisório. E a Rússia saiu da guerra em Brest-Litovsk (março de 1918), antes do fim dela.
  10. “A guerra terminou em 11 de novembro de 1918 com o Tratado de Versalhes.” Em 11 de novembro houve o armistício; o tratado é de 28 de junho de 1919, e a guerra com a Turquia só acabou em 1923. E, projetando no sentido contrário: “a Espanha / os Estados Unidos lutaram desde 1914” erra também, porque a Espanha ficou neutra até o fim e os Estados Unidos só entraram em abril de 1917.

Como a prova cobra: cinco moldes e um julgamento guiado

O molde da ficha pura (PAS 3, 2022). O bloco mais recente sobre a guerra pendurou quatro itens num trecho de Hobsbawm que abre com a frase de Edward Grey sobre as luzes da Europa, e nenhum exigiu o texto: a Espanha entre os poucos neutros ©, a Alemanha “vitoriosa” (E), o Brasil com “força expedicionária ao lado da Tríplice Aliança” (E), o nacionalismo entre as causas ©. São fichas de memória: quem lutou com quem, quem venceu, quem ficou de fora, o que causou. Existe item certo óbvio; não procure uma sutileza que o enunciado não tem.

O molde da lista modalizada (PAS 3, 2024). O item de 2024 apresenta a guerra de 1914 como desdobramento da corrida imperialista do século XIX e acrescenta que ela foi “determinada por fatores como” nacionalismo, militarismo e diplomacia secreta ©. Repare em “fatores como”: a enumeração não é exaustiva nem hierarquizada, e cada fator é verificável. É a multicausalidade que a banca premia. O molde errado troca “fatores como” por “exclusivamente” ou faz do estopim a causa.

O molde do item sobre texto (PAS 3, 2014). Num texto de revista que dizia que a Segunda Guerra foi “uma extensão” da Primeira e que desta vieram o declínio do domínio europeu e a subida dos Estados Unidos a potência, a banca perguntou se o autor “contraria” a tese das duas etapas (E: ele a endossa), se “infere-se” uma Europa “revigorada, hegemônica” (E: o texto diz o contrário) e se o texto “critica” as gerações atuais (E: ele descreve uma percepção, não a condena). Item sobre texto se julga pela letra do texto, contra o grão da sua opinião. O único C do grupo foi o elo com a Rússia: a guerra aprofundou a crise, fevereiro derrubou o czar, outubro pôs os bolcheviques no poder.

O molde da fonte (ENEM). O ENEM imprime a Declaração Balfour e pergunta o que o governo inglês “foi incapaz de garantir” (mediar os conflitos territoriais); imprime um texto sobre o nome da gripe e pergunta por que “espanhola” (o controle dos relatos de guerra nos beligerantes); imprime versos do carnaval de 1919 e pergunta o que a pandemia fez (matou). A resposta está sempre na relação entre o texto e o contexto que esta página dá: a guerra como condição de leitura.

O molde dos fatores (ENEM, 2009). “Entre os principais fatores que estiveram na origem dos conflitos da primeira metade do século XX estão a crise do colonialismo, a ascensão do nacionalismo e do totalitarismo” (A). As outras opções misturam épocas (corrida nuclear, Revolução Cubana, terceiro-mundismo são do pós-1945). O teste é o relógio: cada fator precisa existir antes do conflito que explica.

Julgamento guiado. Leia o item de 2022 que apresenta a Alemanha como vencedora e, por isso, como “o país mais importante da Europa”. Duas cláusulas, uma dependendo da outra. A primeira é falsa: a Alemanha pediu o armistício em outubro de 1918, assinou-o em 11 de novembro e aceitou Versalhes em junho de 1919 com perdas territoriais, desarmamento e reparações. A segunda é falsa por consequência: nos anos 1920, a Alemanha vivia sob ocupação parcial, inflação e tutela; “o país mais importante da Europa”, se a pergunta fosse sobre 1919, seria a França, e, sobre o mundo, os Estados Unidos. Gabarito E, com as duas razões nomeadas. Compare com o item que diz que a Espanha ficou de fora: uma cláusula, um fato, sem qualificação; C. A diferença entre os dois é a diferença entre conferir uma ficha e julgar um par vencedor–consequência.

O essencial em meia página

  • Palavras. Estopim (Sarajevo, 28/6/1914) não é causa. Tríplice Aliança (1882: Alemanha, Áustria-Hungria, Itália) × Tríplice Entente (1907: França, Rússia, Grã-Bretanha). Potências Centrais = Alemanha, Áustria-Hungria, Império Otomano, Bulgária. Neutros: Espanha, Suíça, Países Baixos, Escandinávia. Guerra total = sociedade e economia inteiras mobilizadas. Armistício (11/11/1918) ≠ tratado (28/6/1919).
  • Causas. Imperialismo (Marrocos 1905 e 1911, Berlim–Bagdá), nacionalismos (revanchismo, pan-germanismo, pan-eslavismo; Bálcãs 1908, 1912–1913), militarismo (corrida naval, Dreadnought 1906, Plano Schlieffen), alianças e diplomacia secreta. Crise de julho: ultimato 23/7, Sérvia aceita quase tudo, guerra 28/7, mobilizações, Bélgica invadida 4/8. Historiografia: Fischer 1961 (culpa alemã), Hobsbawm (sistema), Ferguson 1998 (erro britânico), Clark 2012 (sonâmbulos).
  • A guerra. Marne (set. 1914) e trincheiras; Tannenberg; Gallipoli e Itália (1915); Lusitania (7/5/1915); genocídio armênio (1915); Verdun e Somme (1916); gás, tanques, aviões, submarinos. Guerra total: economia planejada, bloqueio e “inverno do nabo”, mulheres nas fábricas, propaganda (Kitchener, Tio Sam), 1,3 milhão de indianos, tirailleurs, África Oriental até 25/11/1918, Japão em Tsingtao.
  • Oriente Médio. Hussein–McMahon (1915–1916), Revolta Árabe, Sykes–Picot (maio 1916), Balfour (2/11/1917), mandatos (1920), Sèvres (1920) → Lausanne (1923).
  • 1917. Submarinos irrestritos (1/2) + Zimmermann → EUA entram (6/4). Rússia: fevereiro derruba o czar; outubro, os bolcheviques; Brest-Litovsk (3/3/1918). Brasil: Paraná (5/4), rompimento (11/4), Macau (18/10), guerra (26/10/1917); DNOG, missão médica, aviadores; Entente, sem tropas de terra; gripe de 1918 mata Rodrigues Alves; Liga das Nações até 1926.
  • 1918. Catorze pontos (8/1); Kaiserschlacht (21/3); Amiens (8/8); Bulgária, Turquia, Áustria saem; Kiel, república (9/11), armistício (11/11, 11h); lenda da punhalada.
  • A paz. Versalhes: Alsácia-Lorena, corredor polonês, Sarre, Renânia, colônias como mandatos, exército de 100 mil, art. 231 e reparações (132 bilhões em 1921), Liga sem os EUA. Saint-Germain, Neuilly, Trianon, Sèvres/Lausanne. Fim de quatro impérios; novos Estados; Keynes 1919.
  • Legado. Europa destronada, EUA credores; 10 milhões de mortos, mutilados, Soldado Desconhecido, Remarque (1929); Revolução Russa; Oriente Médio; a tese das duas etapas (1914–1945).
  • Na prova. Ficha pura (Espanha neutra C; Alemanha vitoriosa E; Brasil com FEB E; nacionalismo C), lista modalizada (2024, C), item sobre texto julgado pela letra (2014), Europa “revigorada” E, “dividida em duas” = anulado. No ENEM, a fonte (Balfour, gripe) lida com o contexto.

Exercícios temporariamente indisponíveis

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Flashcards temporariamente indisponíveis

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Rota PAS 3
Conflitos imperialistas e cultura de massa no século XX · PAS 3

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 3 — Conflitos imperialistas e cultura de massa no século XX · 1914–1919: a guerra curta que durou quatro anos e a paz que não fechou (l.196–239); aquecimento (vocabulário, cronologia, quem lutou com quem; l.44–95); bloco de Gandhi e Arendt, item 2024/23 (l.456–511); box Como a banca cobra (l.512–538); Resolvido 1 (l.540–556); Banco de treino T5–T10

    Recorte por assunto: só a seção da Primeira Guerra e da paz de 1919. O imperialismo (seção anterior) está em imperialismo; 1939–1945, Guerra Fria e cultura de massa pertencem a segunda-guerra-mundial, guerra-fria e cultura-de-massa-no-seculo-xx (mapa de itens em drafts/historia-p2-pas3-mapa-itens.md, seção 2).

  • Rota PAS 3 — Resoluções do Banco de treino (Parte II) · T5 (2022/98), T6 (2022/99), T7 (2022/100), T8 (2022/102), T9 (variante de 2024/23), T10 (variante de 2014/66)
  • Rota PAS 3 — Gabaritos da Parte II · T5–T10
  • Extrator de provas — PAS/UnB, ENEM e vestibulares (itens reusados por GUID, conferidos na imagem do caderno e no gabarito oficial) · PAS 3 2024/23; 2014/62, 64, 65, 66; 2022/98, 99, 100, 102 (2022/101 anulado, só na prosa); ENEM 2009/50, 2023/51, 2023 PPL/69, 2025/52; data-vest UFGD 2023, UECE 2021, UEG 2024, UEA 2024, UFVJM 2019, UNESP 2021

    Resoluções escritas e reclassificações registradas em drafts/extrator-correcoes-historia.md (22/10/2026): ENEM 2023/51, 2025/52 e 2023 PPL/69 tinham resolução vazia. PAS 3 2012/98 e 2013/51 ficam com guerra-fria; 2019/63 (genocídios) com segunda-guerra-mundial.