Um soldado espanhol escreveu que, ao ver Tenochtitlán pela primeira vez, pensou estar dentro de um livro de cavalaria. O que havia na América em 1492 para espantar um europeu — e por que a escola ainda ensina que o continente estava vazio?
O que você vai aprender
Localizar no mapa e no tempo as grandes áreas culturais da América antes de 1492 (Mesoamérica, Andes, América do Norte e terras baixas sul-americanas) e as sociedades que as ocuparam.
Explicar como funcionavam mecanismos concretos de cada área: chinampa e tributo mexicas, escrita e calendário maias, terraços, estradas, armazéns, quipu e mita incas, terra preta, tesos e geoglifos amazônicos, sambaquis do litoral.
Ler uma fonte sobre esses povos (relato de conquistador, descrição de sítio, gráfico de estimativas) com o esquema observar, hipotetizar, contextualizar e corroborar, terminando pelas outras leituras possíveis.
Reconhecer e desmontar o critério eurocêntrico (roda, ferro, escrita, semelhança com a Europa) e o mito do continente vazio, nomeando os historiadores que mudaram essa imagem.
Julgar itens no molde do PAS e do ENEM sobre função de monumentos, politeísmo, demografia, Amazônia antrópica e organização inca, identificando o erro plantado.
Situar o patrimônio arqueológico brasileiro no presente: legislação, museus, povos indígenas como sujeitos (Lei 11.645/2008).
Em 8 de novembro de 1519, um soldado chamado Bernal Díaz del Castillo atravessou a calçada que ligava a margem do lago Texcoco a uma cidade construída sobre a água. Décadas depois, velho, ele escreveria que a visão parecia saída do Amadis de Gaula, o romance de cavalaria mais lido da Espanha: torres, templos e casas erguidas na água, canoas por toda parte, uma calçada reta e larga lançada sobre a água. Seu comandante, Hernán Cortés, contou ao rei que o mercado da cidade recebia mais de sessenta mil pessoas por dia. Nenhum dos dois tinha visto, na Europa, algo daquele tamanho. E nenhum dos dois estava vendo o começo de nada: Tenochtitlán tinha quase dois séculos, e a Mesoamérica, três mil anos de cidades.
Esta página trata do que existia na América antes de 1492 — não como véspera da chegada europeia, mas como um mundo com história própria, velha e cheia de gente. O recorte vai da Mesoamérica aos Andes, da América do Norte às terras baixas da América do Sul, com atenção especial ao território que hoje é o Brasil. O povoamento do continente, dezenas de milênios antes, tem página própria; a conquista espanhola e a colonização portuguesa, também. Aqui a pergunta é outra: o que esses povos construíram com o que tinham, e por que a escola insistiu tanto tempo em descrevê-los pelo que lhes “faltava”.
Um continente cheio, velho e diverso: o que o mapa esconde
A primeira coisa a corrigir é a imagem de um continente vazio com três ilhas de “civilização” (maias, astecas, incas). Em 1492 havia gente em todas as regiões habitáveis da América, de caçadores do Ártico a pescadores da Terra do Fogo, e havia sociedades de todos os tamanhos: aldeias de poucas dezenas de pessoas, confederações de cidades, Estados que coletavam tributo de milhões. A diversidade de línguas dá a medida: só no território que hoje é o Brasil, o linguista Aryon Rodrigues estimou cerca de 1 200 línguas faladas em 1500 (sobrevivem perto de 180); no continente inteiro eram bem mais de mil, repartidas por dezenas de famílias linguísticas sem parentesco entre si — mais variedade do que em toda a Europa.
Os primeiros habitantes chegaram vindos do nordeste da Ásia, numa época em que o nível do mar mais baixo expunha a ponte de terra entre a Sibéria e o Alasca; sítios como Monte Verde, no Chile, mostram gente no extremo sul há pelo menos 14 mil anos. Como isso aconteceu, por quais rotas e em que datas é assunto da página sobre a pré-história e o povoamento da América. Para o que interessa aqui, basta o ponto de partida: quando os europeus desembarcaram, a ocupação humana do continente já tinha mais de dez mil anos de idade, tempo suficiente para domesticar o milho, a batata, a mandioca, o cacau e o tomate, inventar sistemas de escrita, erguer cidades e esquecer cidades.
Quatro áreas, muitos povos
Pré-colombiano designa o que existiu na América até 1492; o termo é cômodo, mas nasce de um marco europeu. Mesoamérica é o México central e meridional mais o norte da América Central: olmecas, Teotihuacan, maias, toltecas, mexicas (astecas). Andes é a cordilheira e a costa do Pacífico na América do Sul, do Equador ao Chile: Caral, Chavín, Moche, Nazca, Tiwanaku, Wari, Chimu, incas. América do Norte inclui os construtores de montes do Mississippi (Cahokia) e os povos Pueblo do sudoeste (Chaco, Mesa Verde). Terras baixas sul-americanas são a Amazônia, o Brasil central e o litoral atlântico: sambaquieiros, marajoaras, construtores de geoglifos, povos de língua tupi-guarani, jê e aruaque. As fronteiras entre essas áreas são linhas de arqueólogo, não muros: cacau, obsidiana, conchas, penas e ideias circulavam entre elas.
Quatro áreas culturais e alguns dos sítios citados nesta página. O mapa é esquemático: os povos não conheciam essas fronteiras, e o comércio de obsidiana, conchas e cacau cruzava todas elas. Diagrama autoral.
Quatro relógios: a mesma data significa coisas diferentes em cada área
O erro mais comum ao estudar a América antiga é imaginar maias, astecas e incas como contemporâneos. Não eram. Quando os mexicas fundaram Tenochtitlán, por volta de 1325, as grandes cidades maias do sul já estavam abandonadas havia quatro séculos; quando os incas começaram a expandir o Tawantinsuyu, por volta de 1438, Teotihuacan era ruína havia quase mil anos. A linha do tempo comparada ajuda a enxergar isso.
Quatro relógios. Caral, nos Andes, é contemporânea das pirâmides de Gizé; os sambaquis do litoral brasileiro começam antes de qualquer cidade mesoamericana; os impérios asteca e inca, os mais famosos, são os mais novos de todos. Diagrama autoral.
Repare em três coisas. A sociedade mais antiga do gráfico está nos Andes, não na Mesoamérica: Caral, no vale de Supe, no Peru, ergueu plataformas e praças circulares entre cerca de 2600 e 2000 a.C., na mesma época em que os egípcios levantavam as pirâmides de Gizé. A faixa mais longa é a dos sambaquis, no litoral do Brasil: sete mil anos de ocupação contínua. E os dois impérios que a escola mais cita, o asteca e o inca, ocupam uma fatia minúscula na ponta direita — menos de dois séculos cada um. Chamar a América de “jovem” porque seus impérios eram jovens é como chamar a Europa de jovem por causa de Portugal.
Mesoamérica: cidades, calendários e tributo
Os primeiros: olmecas e Teotihuacan
Na costa do golfo do México, entre cerca de 1500 e 400 a.C., os olmecas esculpiram cabeças colossais de basalto com mais de dois metros, construíram centros cerimoniais como San Lorenzo e La Venta e espalharam pela região motivos religiosos — o jaguar, a serpente — que reaparecem em todas as sociedades mesoamericanas posteriores. Com eles aparecem também as primeiras formas de registro de datas e, provavelmente, o jogo de bola com bola de borracha que, séculos depois, a prova do PAS mostrou numa pintura ao lado de um quadro de Portinari.
Teotihuacan, no vale do México, foi a maior cidade das Américas entre cerca de 100 a.C. e 550 d.C.: ruas planejadas em grade, uma avenida central de mais de dois quilômetros, a Pirâmide do Sol com cerca de 65 metros de altura e uma população que os arqueólogos estimam em torno de cem mil pessoas. Ninguém sabe que língua se falava ali nem como a cidade era governada; ela foi incendiada e abandonada no século VI. Quando os mexicas a visitaram, oitocentos anos depois, encontraram ruínas e deram-lhes o nome em náuatle que usamos até hoje — “o lugar onde os deuses foram feitos”. Vale guardar esse detalhe: Teotihuacan não é asteca, embora a própria prova do PAS, em 2017, a tenha legendado assim.
Maias: escrita completa, zero e um povo que continua existindo
Os maias ocuparam a península de Iucatã, a Guatemala, Belize e partes de Honduras. Nunca formaram um império: organizavam-se em cidades-Estado que guerreavam, aliavam-se e trocavam entre si, como as cidades gregas. O auge, chamado período clássico, vai de cerca de 250 a 900 d.C., com cidades como Tikal, Calakmul, Palenque e Copán; depois, as cidades das terras baixas do sul foram abandonadas — por secas prolongadas, guerras e esgotamento do solo, numa combinação que os arqueólogos ainda discutem — e o centro de gravidade mudou para o norte de Iucatã, onde Chichén Itzá floresceu entre os séculos X e XII.
Três realizações maias aparecem nas provas. A escrita: um sistema de mais de oitocentos glifos que registra sons e palavras e que ficou indecifrado até os anos 1950, quando o linguista Yuri Knorozov mostrou que boa parte dos sinais era fonética; hoje se leem estelas, painéis e os quatro códices sobreviventes, como o de Dresden, com suas tábuas que preveem as posições de Vênus. O zero: os maias usavam um sistema de base vinte com um símbolo para o zero séculos antes de ele chegar à Europa pela Índia e pelo mundo árabe. E o calendário: dois ciclos combinados, um de 260 dias e outro de 365, mais a “contagem longa”, que conta os dias desde uma data inicial em 3114 a.C. e permitiu datar monumentos com precisão de um dia. A pirâmide de Kukulcán, em Chichén Itzá, é um calendário de pedra: quatro escadarias de 91 degraus mais a plataforma do topo somam 365, e nos equinócios a sombra dos degraus desenha uma serpente descendo pela escada.
"Os maias desapareceram"
Não desapareceram. O que acabou, por volta de 900, foi o sistema político das cidades do sul; o povo continuou em Iucatã, nas terras altas da Guatemala e em Chiapas, resistiu aos espanhóis por quase dois séculos (a última cidade independente, Tayasal, caiu em 1697) e existe hoje: cerca de trinta línguas maias são faladas por milhões de pessoas no México e na Guatemala. Um item que trate os maias como povo extinto “do qual restam só ruínas” está errado duas vezes — na história e no presente.
Mexicas: Tenochtitlán, chinampas e o tributo
Os mexicas (o nome “asteca” vem de Aztlán, a terra mítica de origem, e foi popularizado no século XIX) chegaram ao vale do México como um povo tardio e pobre e estabeleceram-se, por volta de 1325, num ilhote do lago Texcoco, onde nasceu Tenochtitlán. Um século depois, em 1428, aliaram-se a Texcoco e Tlacopan na Tríplice Aliança e, em menos de cem anos, submeteram grande parte do México central. No início do século XVI a cidade abrigava algo como 150 a 200 mil pessoas — mais do que qualquer cidade da Península Ibérica na mesma época.
O que sustentava tanta gente num lago? A chinampa: uma plataforma de cultivo construída em água rasa, com estacas e cercas de galhos entrelaçados preenchidas por camadas de lodo e vegetação, ancorada por salgueiros plantados nas bordas. O lodo do fundo do lago, continuamente retirado dos canais e jogado sobre a plataforma, funcionava como adubo; a água ao redor garantia irrigação sem esforço e protegia contra geadas. Uma chinampa bem cuidada dava várias colheitas por ano — milho, feijão, abóbora, pimenta, flores — e as canoas transportavam a produção pelos canais até os mercados.
Duas respostas a dois problemas: no lago, criar terra; na montanha, segurar terra. A chinampa mexica e o terraço andino são tecnologias agrícolas sem arado, sem boi e sem ferro, e ambas continuam em uso. Diagrama autoral.
No centro da cidade ficava o recinto sagrado, e no centro do recinto o Templo Mayor: uma pirâmide com duas escadarias e dois santuários no topo, um para Tlaloc, deus da chuva e da agricultura, outro para Huitzilopochtli, deus solar e da guerra, padroeiro dos mexicas. O templo foi ampliado sete vezes, cada fase envolvendo a anterior, até chegar a cerca de 60 metros na última; ali se faziam oferendas, rituais do calendário e sacrifícios humanos. Depois de 1521 os espanhóis o demoliram e construíram a capital colonial por cima; em 1978, operários da companhia de eletricidade encontraram, por acaso, o disco de pedra da deusa Coyolxauhqui, e a escavação do sítio começou no coração da Cidade do México.
O império mexica funcionava a tributo. As cidades submetidas não eram ocupadas por guarnições nem governadas por mexicas; continuavam com seus senhores e sua religião, desde que entregassem, em prazos fixos, mantas de algodão, milho, cacau, penas de quetzal, jade, guerreiros e escravos. O Códice Mendoza, pintado por escribas mexicas por volta de 1541 a pedido do vice-rei, lista província por província o que cada uma devia — é a melhor fonte sobre a economia do império, feita, ironicamente, já sob domínio espanhol. Nem todos pagavam: Tlaxcala, cercada por territórios mexicas, nunca foi submetida, e esse ódio antigo teria consequências decisivas em 1519.
O império mexica como rede de obrigações: bens entram em prazos fixos, o senhor local fica, nenhuma guarnição ocupa a província. Tlaxcala, sem seta, nunca pagou — e em 1519 escolheu o outro lado. Diagrama autoral a partir das listas do Códice Mendoza.
Duas tecnologias de poder mesoamericanas
Calendário: os mexicas, como os maias, combinavam um ano solar de 365 dias (18 meses de 20 dias mais 5 dias “vazios”) com um ciclo ritual de 260 dias; os dois voltavam a coincidir a cada 52 anos, data de uma cerimônia de “fogo novo” que renovava o mundo. Tributo: a dominação se media em bens entregues, não em território ocupado; por isso o império era uma rede de obrigações que podia desmanchar-se depressa quando as províncias viam uma chance de parar de pagar.
Andes: um império sem escrita que contava tudo
Antes dos incas
A cordilheira dos Andes concentra a sequência mais longa de sociedades complexas das Américas. Caral, no Peru, já erguia plataformas monumentais por volta de 2600 a.C. — sem cerâmica, o que surpreendeu os arqueólogos, e com quipus primitivos, cordões com nós que anunciam a tecnologia de registro dos incas quatro mil anos depois. Chavín de Huántar, entre cerca de 1500 e 300 a.C., foi um centro religioso cuja arte de felinos e serpentes se espalhou pelos Andes centrais. Na costa norte, os moche (séculos I a VIII) modelaram retratos em cerâmica e irrigaram o deserto; no sul, os nazca riscaram no chão linhas e figuras de centenas de metros. Tiwanaku, nas margens do lago Titicaca, foi uma cidade de pedra lavrada que dominou o altiplano entre cerca de 500 e 1000 d.C., contemporânea do Estado wari, nas serras peruanas. Os incas herdaram tudo isso: estradas, terraços, técnicas de pedra, o quipu, o trabalho por turnos.
O Tawantinsuyu: estradas, armazéns, trabalho e nós
O império inca chamava-se Tawantinsuyu, “as quatro partes juntas”, e era mesmo dividido em quatro regiões que se encontravam em Cusco, a capital. A expansão começou com Pachacuti, por volta de 1438, e em menos de um século alcançou do sul da Colômbia ao centro do Chile e ao noroeste da Argentina — o maior Estado das Américas antes de 1492, com uma população que as estimativas situam entre seis e doze milhões de pessoas.
Como se governa isso sem escrita? Com quatro instrumentos.
O Qhapaq Ñan, a rede de estradas, somava cerca de 30 mil quilômetros, com pontes de corda sobre os desfiladeiros, escadarias talhadas na rocha e estações de descanso; mensageiros a pé, os chasquis, revezavam-se em trechos curtos e levavam uma mensagem de Cusco à costa em poucos dias. Ao longo das estradas, milhares de collcas, armazéns de pedra, guardavam milho, batata desidratada (chuño), tecidos e armas — reserva contra a fome e suprimento para os exércitos.
O trabalho era organizado pela mita: cada comunidade devia ao Estado turnos de trabalho — construir estradas e terraços, servir no exército, minerar, tecer — em vez de pagar em bens ou moeda, que os incas não usavam. A base de tudo era o ayllu, a comunidade de parentesco que trabalhava a terra em conjunto e a repartia em três partes: a do Inca, a do culto do Sol e a da própria comunidade. A agricultura na montanha dependia dos terraços (andenes): degraus de muro de pedra preenchidos com camadas de cascalho, areia e terra, irrigados por canais, que transformavam encostas íngremes em lavoura e criavam microclimas diferentes a cada altitude. Machu Picchu, construída por volta de 1450 como propriedade real de Pachacuti, mostra o conjunto — terraços, canais, templos e casas encaixados numa crista de montanha sem argamassa.
E o registro? O quipu: um cordão principal do qual pendem dezenas ou centenas de cordões coloridos, com nós de tipos diferentes em posições que representam unidades, dezenas, centenas e milhares. Funcionários especializados, os quipucamayocs, registravam neles censos, tributos devidos, estoques dos armazéns e, segundo os cronistas, também narrativas — mas essa parte ainda não se sabe ler. O ponto que importa para a prova: um império de milhões de habitantes foi administrado com contabilidade por nós, sem uma linha de escrita. Escrita não é condição de Estado.
Como se lê um quipu: a altura do nó no cordão é a casa decimal, o tipo de nó distingue as unidades, a faixa vazia vale zero e a cor diz o que se conta. Os quipus contábeis são legíveis desde 1912; os narrativos, não. Diagrama autoral.
Dominação dura, cultura flexível
Os incas impunham o quéchua como língua de administração, o culto ao Sol e ao Inca e o tributo em trabalho; deslocavam populações inteiras (os mitimaes) para quebrar resistências e colonizar regiões novas. Mas deixavam que cada povo submetido continuasse adorando seus deuses locais e falando sua língua — o império era, na expressão de um historiador citado pelo ENEM em 2023, um “mosaico cultural”. Rigidez no território e no tributo, flexibilidade nos costumes: as duas coisas ao mesmo tempo.
Nos Andes havia metalurgia avançada — ouro, prata, cobre e bronze, em ligas que os ourives trabalhavam com maestria —, mas não ferro. Havia animais domesticados — lhama para carga leve, alpaca para lã, cobaia para carne —, mas nenhum capaz de puxar um arado ou um carro. A roda era conhecida na Mesoamérica em brinquedos de cerâmica com rodinhas, encontrados em Veracruz, e nunca ganhou uso em veículos: sem animal de tração e em terreno de montanha e de lago, ela não resolvia problema nenhum. É este o detalhe que a prova do PAS explorou em 2005, numa afirmação que atribuía a organização de maias, astecas e incas ao “domínio da roda”: falso duas vezes, porque a roda não tinha uso de transporte e porque não eram eles os únicos povos organizados do continente.
América do Norte: Cahokia e os povos Pueblo
Ao norte do México, dois conjuntos de sociedades desmentem a imagem de um continente de caçadores nômades. No vale do Mississippi, perto da atual St. Louis, Cahokia foi entre cerca de 1050 e 1350 a maior cidade ao norte da Mesoamérica: mais de cem montes de terra, o maior deles, o Monks Mound, com cerca de 30 metros de altura e uma base maior que a da Pirâmide do Sol, e uma população estimada entre dez e vinte mil pessoas, sustentada pelo milho. No sudoeste árido, os povos Pueblo ergueram em Chaco Canyon, entre cerca de 850 e 1250, “casas grandes” de pedra com centenas de cômodos e vários andares, alinhadas com os solstícios e ligadas por estradas retas a comunidades distantes; mais tarde, em Mesa Verde, construíram aldeias inteiras sob abrigos nas paredes de desfiladeiros. Tanto Cahokia quanto Chaco foram abandonados antes de 1492, e seus descendentes — os povos Pueblo do Novo México, as nações do sudeste — estavam lá quando os europeus chegaram.
As terras baixas: sambaquis, terra preta, Marajó e geoglifos
A Amazônia e o litoral atlântico foram, durante quase todo o século XX, o exemplo preferido de “ambiente que não permite civilização”: floresta pobre em nutrientes, solos que se esgotam em dois anos de plantio, pequenos grupos que se mudavam o tempo todo. Essa imagem, defendida com mais rigor pela arqueóloga norte-americana Betty Meggers a partir dos anos 1950, foi desmontada peça por peça nas últimas quatro décadas. Quatro tipos de vestígio contam a história.
Sambaquis: sete mil anos à beira-mar
Ao longo do litoral, do Pará ao Rio Grande do Sul — com a maior concentração entre o Espírito Santo e Santa Catarina —, erguem-se montes de conchas, ossos de peixe, carvão, cerâmica e sepultamentos — os sambaquis, do tupi tamba’ki, “monte de conchas”. Alguns, como o Garopaba do Sul, no município de Jaguaruna, em Santa Catarina, chegam a cerca de 30 metros de altura e ocupam hectares. Não são lixeiras: são construções, erguidas intencionalmente por grupos de pescadores e coletores que viveram no litoral entre cerca de 8 mil e mil anos atrás, usadas como moradia, cemitério e marco visível a quilômetros. Milhares de sepultamentos, com oferendas e fogueiras rituais, mostram sociedades sedentárias e numerosas, muito antes de qualquer cerâmica, que tratavam seus mortos com um cuidado que dura milênios.
Terra preta: o solo que gente fez
Pela bacia amazônica, arqueólogos mapearam milhares de manchas de um solo escuro, fértil e profundo — às vezes com mais de um metro de espessura e dezenas de hectares de extensão — em meio a solos amarelos e pobres. É a terra preta de índio. Ela não ocorre naturalmente: é o resultado de séculos de ocupação humana densa no mesmo lugar, acumulando carvão de fogueiras, restos de comida, ossos, fragmentos de cerâmica e matéria orgânica, que a floresta sozinha não produz. A maior parte dessas manchas se formou nos últimos 2.500 anos. Onde há terra preta, houve aldeia grande e duradoura; o mapa das terras pretas é, na prática, um mapa das cidades amazônicas que a floresta cobriu. Um artigo de 2024 sobre o médio Solimões, assinado por arqueólogos da USP, retoma a estimativa do historiador John Hemming de 150 mil pessoas na região antes da invasão — e registra cerca de 2.500 nos povoados coloniais em 1762, nas primeiras contagens confiáveis.
Terra preta, agricultura e clima
A terra preta hoje interessa a agrônomos e a engenheiros do clima. O carvão enterrado por indígenas dois mil anos atrás ainda retém nutrientes e água, e inspira o “biochar”, carvão vegetal adicionado ao solo para fertilizá-lo e guardar carbono fora da atmosfera. Pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia mostraram ainda que as espécies de árvores mais comuns da floresta — castanheira, açaí, cacau, pupunha — são justamente as que os povos amazônicos domesticaram ou favoreceram: a floresta “virgem” é, em boa parte, um pomar antigo. O ENEM cobrou exatamente isso em 2018, e o PAS, em 2025.
Marajó: aterros e urnas na foz do Amazonas
Na ilha de Marajó, entre cerca de 400 e 1400 d.C., sociedades que não conhecemos pelo nome ergueram tesos — aterros artificiais que chegam a 10 metros de altura e 200 metros de comprimento — para abrigar casas e cemitérios acima das cheias. Neles depositaram urnas de cerâmica policroma, pintadas em vermelho, preto e branco com grafismos geométricos, incisões e figuras humanas estilizadas, usadas no sepultamento secundário: os ossos, já limpos, eram recolhidos e guardados na urna depois de um primeiro enterro. A arqueóloga Anna Roosevelt, escavando o sítio de Teso dos Bichos nos anos 1980, defendeu que Marajó abrigava um cacicado de dezenas de milhares de pessoas; outros, como Denise Schaan, que estudou a cerâmica no Museu Goeldi, veem comunidades menores, mas com chefias e artesãos especializados. A disputa é sobre a escala, não sobre o fato: havia sociedade organizada o bastante para mover terra e produzir uma das cerâmicas mais elaboradas das Américas, séculos antes de qualquer europeu.
Geoglifos do Acre e a cerâmica tupi-guarani
No Acre e no sul do Amazonas, o desmatamento das últimas décadas revelou centenas de geoglifos: valas escavadas no solo argiloso formando círculos, quadrados e figuras combinadas com até 350 metros de diâmetro, ligadas por caminhos. As datações radiocarbônicas situam a maioria entre cerca de 2 mil e 700 anos atrás; alguns continuaram em uso até o século XIII. Não se sabe ao certo para que serviam — centros cerimoniais, provavelmente —, mas a sua construção exigiu mover dezenas de milhares de metros cúbicos de terra, em terra firme, longe dos grandes rios, onde a arqueologia esperava não encontrar nada.
Nos últimos dois mil anos antes de 1500, povos que falavam línguas da família tupi-guarani expandiram-se a partir da Amazônia pelo Brasil central e pelo litoral, levando consigo uma cerâmica pintada característica e a agricultura da mandioca. Foram eles — tupiniquins, tupinambás, potiguaras, carijós — que os portugueses encontraram na costa em 1500, em aldeias de centenas ou milhares de pessoas. No interior do Piauí, a Serra da Capivara concentra o maior conjunto de pinturas rupestres do continente, em centenas de abrigos; a idade da ocupação humana mais antiga ali é objeto de debate (tratado na página de pré-história), mas o parque, tombado pela UNESCO em 1991, documenta milhares de anos de gente desenhando caça, dança e rituais nas paredes.
Leitura de fonte 1: a cidade vista por quem veio destruí-la
A fonte: a História verdadeira da conquista da Nova Espanha, de Bernal Díaz del Castillo, escrita por volta de 1568, quando o autor, soldado de Cortés, tinha mais de setenta anos. Ele descreve a entrada em Tenochtitlán em 1519 — cidades e vilas povoadas na água, grandes povoações em terra firme, a calçada reta, templos e edifícios de pedra que “pareciam coisa de encantamento, como as que contam no livro de Amadis”. Ao lado dela, a Segunda carta de relação de Cortés ao imperador Carlos V (1520), com o mercado de Tlatelolco frequentado por “mais de sessenta mil almas” por dia, vendendo de tudo.
Observar. Dois invasores descrevem uma cidade grande, ordenada, populosa, com mercado diário maior que qualquer feira europeia. Nenhum dos dois tinha interesse em exagerar a civilidade dos inimigos — Cortés precisava justificar a guerra; Díaz, valorizar a façanha. Se mesmo assim escrevem isso, o dado é confiável: a cidade impressionava.
Hipotetizar. Por que a comparação com um romance de cavalaria? Porque era o único repertório que Díaz tinha para o que viu; ele mede o novo com a régua do velho. E por que Cortés conta o mercado em “almas”? Porque está contando súditos — e futuros tributários — para o rei.
Contextualizar. Díaz escreve cinquenta anos depois, velho, pobre e irritado com as crônicas que davam toda a glória a Cortés; ele quer mostrar que os soldados enfrentaram algo imenso. Cortés escreve em plena campanha, depois de ter sido expulso da cidade, e precisa convencer o rei de que vale a pena voltar. Nenhum dos dois é neutro, e é justamente por isso que a convergência dos dois pesa.
Corroborar. A arqueologia confirma o essencial: os canais sob a Cidade do México, as chinampas que sobrevivem em Xochimilco, o Templo Mayor escavado a partir de 1978, os mapas do século XVI que mostram as calçadas. O número de 150 a 200 mil moradores é uma estimativa que cruza o tamanho da área urbanizada com o rendimento das hortas e com os relatos — intervalo, não contagem.
E as outras leituras? Um historiador decolonial lerá os mesmos textos pelo que silenciam: nenhum mexica fala, ninguém é nomeado além do imperador, a cidade aparece como cenário da façanha espanhola. Um leitor apressado tirará da admiração de Díaz a conclusão errada de que a conquista foi “o encontro de duas civilizações iguais” — e esquecerá que a mesma cidade admirada foi arrasada dois anos depois. A fonte serve para derrubar o mito do continente vazio; não serve para apagar o que veio em seguida.
Leitura de fonte 2: uma urna marajoara numa vitrine
A fonte: uma urna funerária marajoara do acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro — cerâmica de 42 centímetros de altura, boca larga, corpo com uma figura humana estilizada modelada no bojo, incisões em “S” e “Z” repetidas em escada, pintura vermelha sobre engobo branco; a ficha a classifica no tipo “Pacoval inciso” e a data entre 400 e 1400 d.C. A peça guardou os ossos de uma ou mais pessoas.
Observar. Uma forma pensada para conter; decoração em vários registros, que exige planejamento antes de queimar; uma figura humana que não é retrato, mas convenção repetida em dezenas de urnas conhecidas. Tamanho e peso incompatíveis com gente que se muda o tempo todo.
Hipotetizar. Quem faz um objeto assim domina uma técnica aprendida ao longo de anos e tem tempo livre do plantio e da pesca para exercê-la: artesão especializado. Quem encomenda e enterra alguém nele destina ao morto um ritual em etapas — o sepultamento secundário — e um lugar de destaque no teso. Ritual elaborado e especialização apontam para uma sociedade com diferenças internas: alguns mortos mereciam urna, outros não.
Contextualizar. A urna veio de um teso, aterro construído coletivamente por gente que mobilizava trabalho de muitos braços; os tesos se concentram na parte leste da ilha, inundável na cheia. A arqueologia de Marajó começou no século XIX, no próprio Museu Nacional, e a cerâmica marajoara virou, já naquela época, símbolo de uma “antiguidade brasileira” para a elite imperial — leitura anacrônica, porque não havia Brasil nem brasileiros quando ela foi feita.
Corroborar. As datas vêm de carbono-14 nos tesos; a função funerária, dos ossos encontrados dentro de urnas iguais em escavações controladas; a especialização, da comparação entre a cerâmica de uso diário, simples, e a cerâmica ritual, elaborada, nos mesmos sítios.
E as outras leituras? A urna não diz o que os marajoaras acreditavam sobre a morte, nem que nome davam a si mesmos, nem se tinham um chefe ou um conselho. Dizer que “acreditavam na vida após a morte” é interpretação plausível, não leitura do objeto. E atenção às legendas: a prova do ENEM de 2018, ao reproduzir uma urna do Museu Nacional, imprimiu a datação como “1400 a 400 a.C.” — invertendo a era. A fase marajoara é de 400 a 1400 depois de Cristo. Até uma prova pode errar a data; a ficha do museu e as datações publicadas são a referência.
Leitura de fonte 3: quantos eram? O gráfico que mudou várias vezes
A fonte: as estimativas da população das Américas em 1492 publicadas por estudiosos ao longo do século XX, reunidas pelo geógrafo William Denevan num artigo de 1992.
A mesma pergunta, respostas que variam mais de dez vezes. Os números baixos vêm de contagens coloniais tardias, feitas depois das epidemias; os altos, de projeções a partir das taxas de mortandade conhecidas. Denevan propõe 53,9 milhões, com faixa de 43 a 65, e estima a queda a 5,6 milhões em 1650 — 89%. Diagrama autoral, dados de Denevan (1992).
Observar. Entre os anos 1930 e 1950, o antropólogo Alfred Kroeber e o filólogo Ángel Rosenblat estimavam entre 8 e 15 milhões de habitantes em todo o continente. Em 1966, Henry Dobyns propôs entre 90 e 112 milhões. Denevan, revisando tudo em 1992, chegou a 53,9 milhões — 3,8 na América do Norte, 17,2 no México, 5,6 na América Central, 3 no Caribe, 15,7 nos Andes e 8,6 nas terras baixas da América do Sul.
Hipotetizar. Por que a diferença é tão grande? Porque ninguém contou em 1492. As estimativas baixas partem dos primeiros censos coloniais — feitos décadas depois do contato, quando a varíola, o sarampo e a guerra já tinham passado — e projetam esse número para trás. As altas partem das taxas de mortandade documentadas em regiões bem conhecidas (o México central caiu de talvez 25 milhões para cerca de um milhão em um século) e as aplicam ao continente inteiro.
Contextualizar. O número não é neutro. Um continente de oito milhões de pessoas “cabia” na narrativa do deserto a ser civilizado; um de cinquenta ou cem milhões obriga a falar em catástrofe demográfica — a maior proporcional da história humana — e em sociedades que foram destruídas, não “descobertas”. As estimativas subiram junto com a arqueologia da Amazônia, com a terra preta, com Cahokia escavada.
Corroborar. O ponto em que quase todos os pesquisadores concordam é a queda: algo em torno de 90% em um século e meio, qualquer que seja o ponto de partida. A convergência está na proporção, não no total.
E as outras leituras? Há quem acuse os números altos de exagero militante e quem acuse os baixos de minimizar o genocídio; o debate continua. O que a prova pode cobrar é o raciocínio: por que as estimativas divergem, de onde vem cada uma, e o que a magnitude da queda significa para a história da colonização.
Onde os historiadores discordam
Amazônia: Betty Meggers (Amazonia: Man and Culture in a Counterfeit Paradise, 1971) sustentava que a floresta era um “paraíso falso” incapaz de sustentar sociedades complexas; Anna Roosevelt (Moundbuilders of the Amazon, 1991) e, no Brasil, Eduardo Góes Neves e Denise Schaan mostraram tesos, terra preta e cerâmica que apontam para aldeias grandes e duradouras. O consenso atual pende para o lado de Roosevelt, mas a escala exata das populações segue em aberto. Números: Denevan e Charles Mann (1491, 2005) popularizaram a América densamente povoada; críticos como David Henige (Numbers from Nowhere, 1998) consideram as projeções altas “números tirados do nada”. Estado: o antropólogo Pierre Clastres (A sociedade contra o Estado, 1974) argumentou, a partir dos guaranis e de outros povos das terras baixas, que ausência de Estado não é “atraso”, e sim escolha política ativa de sociedades que impedem a concentração de poder — uma leitura que inverte a régua da “civilização”. Conquista: Matthew Restall (Sete mitos da conquista espanhola, 2003) desmontou a ideia de que um punhado de europeus venceu impérios sozinho; mas isso é assunto da página sobre a conquista.
A régua errada: roda, ferro, escrita e o mito do continente vazio
Por que a escola demorou tanto a ver tudo isso? Porque mediu a América com uma régua feita na Europa. Na lista do que define uma “civilização” — escrita, metalurgia do ferro, roda, animais de tração, cidades muradas, Estado centralizado —, os povos americanos “falham” em vários itens. O problema não está nos povos, está na lista: ela descreve a trajetória de um lugar e a transforma em exigência universal.
Olhe cada item. Escrita: os maias a tinham, completa; os incas administraram milhões sem ela. Escrita é uma tecnologia útil, não um certificado de complexidade. Ferro: nenhum povo americano o fundiu; os andinos dominavam o bronze, os mesoamericanos trabalhavam o cobre e o ouro, e todos cortavam com obsidiana, uma pedra vulcânica que dá lâmina mais afiada que o aço. Roda: conhecida em brinquedos, inútil sem animal de tração e em terreno de lago e montanha. Animais de tração: não existiam no continente; os grandes mamíferos americanos foram extintos no fim da última glaciação. Não é “atraso” não ter domesticado o que não havia. Cidade: Teotihuacan, Tenochtitlán, Cusco, Cahokia — Teotihuacan no século V e Tenochtitlán em 1519 estavam entre as maiores cidades do mundo na sua época, e eram maiores que qualquer cidade ibérica.
Cinco frases que derrubam quem usa a régua europeia
(1) “Os incas não tinham escrita, portanto não podiam administrar um território extenso.” — Administravam, com quipus e armazéns; a conclusão não decorre da premissa. (2) “As pirâmides maias e egípcias tinham a mesma função.” — A egípcia é túmulo; a mesoamericana é plataforma de templo, feita para ser subida. (3) “A religião maia era monoteísta.” — Politeísta, como todas as mesoamericanas: dedicar um templo a um deus não exclui os outros. (4) “Os marajoaras eram uma sociedade brasileira.” — Anacronismo: não havia Brasil entre 400 e 1400. (5) “A Amazônia era habitada só por pequenos bandos nômades que não alteravam o ambiente.” — Terra preta, tesos, geoglifos e a própria composição da floresta provam o contrário. Em todas elas, o erro é o mesmo: tomar a ausência de um traço europeu como prova de ausência de organização.
Há um segundo mito, parente do primeiro: o do continente vazio. A imagem de uma natureza intocada, de florestas virgens e planícies sem dono, serviu durante séculos para justificar a ocupação — terra que não é de ninguém pode ser tomada. Denevan chamou isso de “mito pristino”: a paisagem que os colonos europeus encontraram nos séculos XVII e XVIII, com florestas densas e poucos habitantes, não era a de 1492; era o resultado de um século de epidemias, com as roças abandonadas e a mata crescendo sobre as aldeias. O “vazio” foi produzido pela conquista, e depois atribuído à natureza.
Finalmente, há a questão do ponto de vista. Chamar de “descobrimento” a chegada de 1492 ou 1500 é narrar do navio; chamar de “pré-história” tudo o que veio antes é definir milhares de sociedades pelo que não tinham. A Lei 11.645, de 10 de março de 2008, tornou obrigatório o ensino da história e cultura dos povos indígenas nas escolas brasileiras e mandou estudar “a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil” e o seu lugar “na formação da sociedade nacional”. O texto legal ainda fala em “contribuições”; a leitura que as diretrizes curriculares e a historiografia fazem dele vai além: esses povos são sujeitos da história, não cenário nem vítima. Estudar Marajó, os sambaquis e as aldeias tupis antes de 1500 é cumprir essa lei no único jeito que faz sentido — levando a sério o que essa gente fez.
Como a prova cobra: função, religião, demografia e a Amazônia antrópica
Os itens reais sobre este assunto seguem alguns moldes que se repetem há vinte anos, e vale conhecê-los antes dos exercícios.
A função do monumento. É o molde favorito. Uma pirâmide mesoamericana aparece num texto ou numa foto, e o item atribui a ela uma função que não é a dela: túmulo de reis (como a de Quéops), “fortificação para defesa militar”, “sepultamento de nobres”. A resposta está sempre na pergunta “para que este edifício foi feito?”: templo, plataforma de ritual, calendário de pedra. O gabarito certo costuma vir na forma de uma generalização verdadeira — a arquitetura mesoamericana se caracteriza por complexos piramidais monumentais — que assusta quem aprendeu a desconfiar de toda frase forte. Palavra abrangente não é marcador de erro; a arqueologia decide.
A religião. “Monoteísta” aplicado a maias ou astecas é sempre errado. O par com o Egito aparece com frequência: as duas sociedades dominavam geometria, arquitetura e astronomia (certo), mas não compartilhavam função de monumentos nem crenças.
Comparações formais entre culturas distantes. Materiais e linguagem arquitetônica em pedra, simetria, monumentalidade: itens que comparam Teotihuacan, o Egito e até o Teatro Nacional de Brasília cobram a diferença entre semelhança de forma e identidade de função — e punem quem deduz “caráter esotérico” ou “mesma função” da silhueta piramidal.
A organização inca. Sociedade estratificada, nobreza hereditária, ayllu, tributo em trabalho, língua e culto oficiais convivendo com deuses e línguas locais. Os distratores inventam igualdade social, “coletivização de todos os bens”, mobilidade pelo mérito, ou aplicam “direitos humanos” ao século XV.
O legado. Textos como o de Eduardo Galeano enumeram astronomia, zero, cirurgia, organização: a resposta é sempre “saberes próprios”, nunca “inspirados” em matriz cristã ou científica europeia.
A Amazônia antrópica. Domesticação de plantas há mais de 8 mil anos, coivara com pousio e baixo impacto, manejo que aumentou a biodiversidade: o item certo rompe com a “ausência de ação antrópica”; o errado inventa “grandes plantações comerciais” ou atribui ao solo natural o que foi produzido por gente.
A cerâmica como fonte. Uma urna marajoara posta ao lado de uma escultura contemporânea cobra a diferença entre técnica com função ritual e técnica sem função utilitária — e a leitura atenta da legenda.
Patrimônio: quem guarda esse passado hoje
Os sítios arqueológicos do Brasil são bens da União pela Constituição de 1988 (art. 20) e integram o patrimônio cultural brasileiro (art. 216); a Lei 3.924, de 1961, proíbe destruí-los ou explorá-los economicamente antes de pesquisados, e o IPHAN mantém o Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos. Na prática, a proteção depende de três coisas: fiscalização, que falta; museus, que guardam e estudam; e educação, que faz as pessoas reconhecerem o que estão vendo. O Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, desde 1866, tem a maior coleção de cerâmica amazônica; o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP concentra a pesquisa sobre a Amazônia central; e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, guardava a coleção arqueológica mais antiga do país até o incêndio de 2 de setembro de 2018, que consumiu grande parte do acervo — urnas marajoaras inclusive. Uma noite apagou mais de um século de coleta.
Olhar a floresta de cima
Desde 2023 o projeto Amazônia Revelada, coordenado por arqueólogos da USP, sobrevoa áreas ameaçadas pelo desmatamento com LiDAR — um radar a laser que “enxerga” o chão sob as copas — e mapeia aldeias, caminhos, valas e geoglifos invisíveis do solo, com autorização prévia das comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Cada sítio registrado no IPHAN ganha proteção legal; cada mapa mostra que, onde se dizia “floresta intocada”, houve cidade. O passado pré-colonial virou argumento na disputa pela Amazônia do presente.
O essencial em meia página
Em 1492 a América estava cheia (estimativas de 40 a 100 milhões de pessoas, Denevan: 53,9), era velha (Caral é contemporânea de Gizé; sambaquis têm 8 mil anos) e diversa (cerca de 1 200 línguas só no Brasil de 1500, segundo Aryon Rodrigues; de aldeias a impérios).
Os relógios não coincidem: olmecas (1500–400 a.C.), Teotihuacan (100 a.C.–550), maias clássicos (250–900), mexicas (1325–1521); Caral (2600–2000 a.C.), Chavín, Tiwanaku, incas (1438–1533); Cahokia (1050–1350); Marajó (400–1400). Astecas e incas são os mais novos.
Mesoamérica: escrita maia completa, zero, calendários de 260 e 365 dias; Tenochtitlán sobre o lago, chinampas, Templo Mayor (dois santuários: Tlaloc e Huitzilopochtli), império por tributo (Códice Mendoza), Tlaxcala nunca submetida.
Andes: Tawantinsuyu governado sem escrita — Qhapaq Ñan (cerca de 30 mil km), collcas, mita, ayllu, quipu; terraços; bronze, sem ferro; lhama, sem animal de tração; dominação rígida com culturas locais preservadas.
Terras baixas: sambaquis (8 mil a mil anos), terra preta (solo feito por gente), tesos e urnas de Marajó (400–1400), geoglifos do Acre (cerca de 2 mil a 700 anos), expansão tupi-guarani; a floresta é em parte um pomar antigo.
A régua europeia (roda, ferro, escrita) mede o observador, não o observado; o “continente vazio” foi produzido pelas epidemias e depois atribuído à natureza.
Na prova: função do monumento (templo ≠ túmulo ≠ fortaleza), politeísmo, estratificação inca, legado como saber próprio, Amazônia antrópica, anacronismo (“brasileiros”, “direitos humanos”), e generalização verdadeira não é erro.
Patrimônio: Constituição (arts. 20 e 216), Lei 3.924/1961, IPHAN, museus (Goeldi, MAE-USP, Museu Nacional), Lei 11.645/2008: povos indígenas como sujeitos da história.
Exercícios temporariamente indisponíveis
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Flashcards temporariamente indisponíveis
Não foi possível consultar os cartões de revisão.
Maias, Astecas e Incas | Rioeduca na TV – História - 7º Ano
MultiRio · 14:32
Introdução. Aula da rede municipal do Rio (professora Rafael Nichols) que apresenta a localização, a organização e a cultura das três sociedades mais cobradas, com a habilidade declarada de “analisar a estrutura e organização das sociedades originárias da América”. Serve de panorama antes das seções “Mesoamérica” e “Andes”.
Astecas e o México Pré-Hispânico | Nerdologia
Nerdologia · 9:20
Aprofundamento (Mesoamérica). Roteiro de Filipe Figueiredo com fontes declaradas (Hamnett, Eduardo Natalino dos Santos sobre os códices, a coleção História da América Latina): o nome dos mexicas, o vale do México, Tenochtitlán e o tributo. Cobre a seção “Mexicas: Tenochtitlán, chinampas e o tributo”.
A civilização Maia | Nerdologia
Nerdologia · 9:33
Aprofundamento (maias). Agricultura, matemática e astronomia, organização das cidades, comércio e religião — com lista de fontes publicada pelo canal. É a seção “Maias: escrita completa, zero e um povo que continua existindo” em vídeo; repare que o vídeo trata os maias como civilização, não como povo extinto.
História do Império Inca | Nerdologia
Nerdologia · 9:33
Aprofundamento (Andes). Formação e organização do Tawantinsuyu a partir dos capítulos 2 e 4 da História da América Latina organizada por Leslie Bethell e de A Civilização Inca, de Henri Favre, citados na descrição. Acompanha a seção “O Tawantinsuyu: estradas, armazéns, trabalho e nós”.
A Amazônia de 14 mil anos atrás: Eduardo Góes Neves at TEDxVer-o-Peso
TEDx Talks · 13:37
Aplicação (terras baixas). O arqueólogo da USP Eduardo Góes Neves, em Belém, explica a densa ocupação pré-colonial da Amazônia, a relação entre biodiversidade e sociodiversidade e o modo de uso da floresta pelos povos antigos: terra preta e manejo, a seção “As terras baixas” contada por quem escava.
Uma cidade de 150 a 200 mil pessoas sobre um lago, sustentada por hortas construídas na água: o que um soldado espanhol comparou a um livro de cavalaria em 1519.Quatro áreas culturais e alguns dos sítios citados na página. O mapa é esquemático: os povos não conheciam essas fronteiras, e o comércio de obsidiana, conchas e cacau cruzava todas elas. Diagrama autoral.Quatro relógios. Caral, nos Andes, é contemporânea das pirâmides de Gizé; os sambaquis começam antes de qualquer cidade mesoamericana; os impérios asteca e inca são os mais novos de todos. Diagrama autoral.Duas respostas a dois problemas: no lago, criar terra; na montanha, segurar terra. A chinampa mexica e o terraço andino são tecnologias agrícolas sem arado, sem boi e sem ferro, e ambas continuam em uso. Diagrama autoral.O império mexica como rede de obrigações: bens entram em prazos fixos, o senhor local fica, nenhuma guarnição ocupa a província. Tlaxcala, sem seta, nunca pagou — e em 1519 escolheu o outro lado. Diagrama autoral a partir das listas do Códice Mendoza.Como se lê um quipu: a altura do nó no cordão é a casa decimal, o tipo de nó distingue as unidades, a faixa vazia vale zero e a cor diz o que se conta. Os quipus contábeis são legíveis desde 1912; os narrativos, não. Diagrama autoral.A mesma pergunta, respostas que variam mais de dez vezes. Os números baixos vêm de contagens coloniais tardias; os altos, de projeções a partir das taxas de mortandade conhecidas. O ponto de consenso é a proporção da queda, cerca de 89% em um século e meio. Diagrama autoral com dados de Denevan (1992).Contabilidade por nós: censos, tributos e estoques de um império de milhões de pessoas, sem uma linha de escrita.A terra preta de índio: um solo que gente fez, acumulando carvão, cerâmica e restos por séculos no mesmo lugar.Marajó entre 400 e 1400: aterros erguidos coletivamente e urnas que exigiam artesãos especializados, séculos antes de qualquer europeu.Geoglifos do Acre: valas de até 350 metros de diâmetro abertas entre cerca de 2 mil e 700 anos atrás, em terra firme, onde a arqueologia esperava não encontrar nada.Sambaquis: montes construídos, não lixeiras, por sociedades sedentárias do litoral entre 8 mil e mil anos atrás.Lida como fonte, a urna diz: artesão especializado, ritual de morte em etapas, sociedade com diferenças internas. Não diz o que acreditavam nem como se chamavam.A chinampa: criar terra na água. O lodo do canal aduba, a água irriga e protege da geada; várias colheitas por ano sem arado nem boi.
Rota PAS 1
O ofício do historiador e as origens: África e América antes de 1492 · PAS 1
Fontes desta página
Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.
Rota PAS 1 — O ofício do historiador e as origens: África e América antes de 1492 · A América antes de 1492: um continente cheio, velho e diverso; Leia como na prova (bloco do Templo Mayor, PAS 1 2025, itens 21–22); box Como a banca cobra; Banco de treino T7–T12; exercícios 3, 5, 6–10, 16 e 17
Recorte por assunto: só a América antes do contato. Fontes, periodização e método ficam em fontes-historicas-e-tempo-historico; o povoamento pela Beríngia, em pre-historia; a África antiga, em africa-antiga; a conquista e a colonização, nas páginas futuras colonizacao-da-america e resistencia-indigena.
Rota PAS 1 — Resoluções do capítulo de História (Parte I) · Itens 3, 5, 6–10, 16 e 17 (anacronismo 'brasileiros', Tawantinsuyu, bloco Marajó/terra preta, Templo Mayor estratificado, tipo C sobre as sociedades americanas)
Rota PAS 1 — Resoluções do Banco de treino (Parte I) · T7 (PAS 1 2005, item 59: 'únicos povos organizados' e a roda), T8–T12 (chinampas, Kukulcán, quipus, Templo Mayor, Marajó)
Rota PAS 1 — Expansão, invasão e colonização (Parte III) · A invasão da América espanhola (só a leitura de Bernal Díaz sobre Tenochtitlán e a ficha do Templo Mayor como capital conquistada; a conquista em si fica para colonizacao-da-america)
Extrator de provas — PAS/UnB e ENEM (itens reusados por GUID, conferidos na imagem do caderno e no gabarito oficial) · PAS 1 2012/26, 2013/48, 2017/56, 2021/52–54 e 62, 2025/21–22; PAS 3 2025/72 e 75; ENEM 2010/16, 2018/34 e 72, 2022/89, 2023/74
Lista completa com GUIDs e o que foi conferido nas notas de retomada; correções de resolução registradas em drafts/extrator-correcoes-historia.md.