Impactos ambientais e biodiversidade

Guia de estudo · Revisado em 02/10/2026

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Uma represa amanhece verde e, dias depois, com peixes mortos; no mesmo ano, o satélite mede milhares de quilômetros quadrados de vegetação derrubada e o observatório de Mauna Loa registra mais gás carbônico no ar do que no ano anterior. O adubo não envenena o peixe, o buraco na camada de ozônio não aquece o planeta e o desmatamento não espalha as espécies pelos biomas vizinhos. Como descobrir, em cada impacto, qual é a pressão, por qual mecanismo ela age e que resposta se mede?

O que você vai aprender

  • Aplicar a qualquer impacto ambiental as três perguntas (qual a pressão, qual o mecanismo, qual a resposta medida) e classificar impactos em bióticos e abióticos.
  • Distinguir diversidade genética, de espécies e de ecossistemas; diferenciar riqueza, abundância e endemismo; e explicar o que é um hotspot e o que são serviços ecossistêmicos.
  • Ler dados de desmatamento e de vegetação remanescente dos biomas brasileiros, identificando a base e a data de cada porcentagem e separando taxa anual de área acumulada.
  • Explicar como a perda e a fragmentação de habitat reduzem populações, calcular a área de interior de um fragmento sob efeito de borda e justificar o uso de corredores ecológicos.
  • Relacionar o desmatamento e as queimadas a seus efeitos sobre o clima local, a água, o solo, o carbono e as espécies.
  • Reconhecer a sobre-exploração pela comparação entre taxa de retirada e taxa de reposição e explicar por que defeso e tamanho mínimo de captura protegem um estoque.
  • Classificar uma espécie como exótica, estabelecida ou invasora a partir de critérios dados e explicar o papel da água de lastro e da ausência de inimigos naturais nas invasões.
  • Explicar o mecanismo do efeito estufa, diferenciar o fenômeno natural da sua intensificação e associar CO₂, CH₄ e N₂O às suas fontes, comparando-os em CO₂ equivalente.
  • Apresentar as linhas de evidência do aquecimento global, distinguir tempo de clima, mitigação de adaptação e redução de emissões de remoção de CO₂.
  • Separar o problema da camada de ozônio (ultravioleta, CFC, estratosfera, Protocolo de Montreal) do efeito estufa intensificado.
  • Descrever a eutrofização em cinco passos, explicar a queda do oxigênio dissolvido à noite e ao longo de um rio que recebe esgoto e interpretar a DBO.
  • Diferenciar preservação de conservação, proteção integral de uso sustentável, conservação in situ de ex situ, e definir sustentabilidade por taxas de uso, de reposição e de absorção de resíduos.

Uma represa de cidade, num fevereiro quente. Durante duas semanas a água fica verde e opaca, como tinta. Numa manhã, os moradores encontram peixes mortos na margem, e a explicação que corre no bairro é que alguém jogou veneno. Ninguém jogou. O que chegou à represa foi esgoto e adubo, e nenhum dos dois envenena peixe: os dois alimentam algas. As algas se multiplicaram, morreram aos bilhões, e as bactérias que decompõem algas mortas gastaram o oxigênio dissolvido na água. Os peixes morreram asfixiados, de madrugada. Entre a causa (nutriente demais) e o efeito (peixe morto) há quatro etapas. Quem pula uma delas explica errado, e é exatamente a etapa pulada que a prova pergunta.

Quase todo impacto ambiental tem essa forma. Uma atividade humana exerce uma pressão; a pressão altera o ecossistema por um mecanismo; e o mecanismo produz uma resposta que alguém mede: miligramas de oxigênio por litro, quilômetros quadrados de vegetação derrubada, partes por milhão de gás carbônico, número de espécies numa lista. Esta página aplica as três perguntas, uma a uma, aos impactos que a escola e os exames cobram. Começa pelo que se quer proteger, a biodiversidade, e por quanto resta dela em cada bioma brasileiro. Percorre as grandes pressões: perda e fragmentação de habitat, desmatamento e queimadas, exploração excessiva, espécies invasoras, poluição e mudança do clima. Separa três problemas que costumam aparecer misturados, o efeito estufa, a camada de ozônio e a eutrofização. Termina no que se faz a respeito: unidades de conservação, restauração e uma definição de sustentabilidade que dá para medir.

Alguns assuntos vizinhos têm página própria e aparecem aqui só no ponto em que tocam os impactos. As etapas dos ciclos da água, do carbono, do nitrogênio e do fósforo estão em ciclos biogeoquímicos. A concentração de poluentes ao longo da cadeia alimentar e as cascatas tróficas, em cadeias e teias alimentares. O crescimento de uma população invasora e o risco das populações pequenas, em dinâmica populacional. As paisagens, o fogo e a água do Cerrado, a sucessão ecológica que conduz a restauração e o esgoto como questão de saneamento e saúde coletiva também ficam nas páginas deles.

Quadro com três colunas, intituladas pressão, mecanismo e resposta, e cinco linhas ligadas por setas. Primeira linha: esgoto e adubo chegam ao lago; algas proliferam, morrem e a decomposição consome oxigênio; o oxigênio dissolvido cai e peixes morrem asfixiados. Segunda linha: queima de combustíveis fósseis, desmatamento, rebanho e adubo; mais gás carbônico, metano e óxido nitroso retêm mais infravermelho; temperatura média e nível do mar sobem. Terceira linha: CFC de geladeiras e aerossóis antigos; cloro destrói ozônio na estratosfera; mais ultravioleta chega à superfície. Quarta linha: vegetação nativa vira lavoura, pasto ou cidade; menos habitat, fragmentos isolados e efeito de borda; populações menores e espécies na lista vermelha. Quinta linha: espécie levada para fora da área natural; sem inimigos naturais, compete com as nativas ou as preda; populações nativas declinam.
Cinco impactos lidos com as mesmas três perguntas. Em cada linha, a coluna do meio é a que os itens de prova costumam trocar: o mecanismo de um impacto colado na pressão de outro. Diagrama autoral.

Três perguntas para qualquer impacto: qual a pressão, qual o mecanismo, o que se mede

Impacto ambiental é a alteração de um ambiente causada por uma atividade humana. Quase nunca o ser humano inventa um processo novo. Vulcões soltam gás carbônico, rios levam nutrientes aos lagos, raios queimam o Cerrado, espécies chegam a ilhas levadas pelo vento. O que a atividade humana muda é a velocidade e a escala: o carbono que levou milhões de anos para ser enterrado volta ao ar em décadas; o fósforo que um lago receberia em séculos chega em um verão. Impacto é um processo acelerado além do que os outros processos do ecossistema conseguem compensar.

O protocolo de três perguntas

1. Qual é a pressão? O que a atividade humana acrescenta, retira ou muda: esgoto, CO₂, CFC, corte da vegetação, pesca, uma espécie trazida de fora. 2. Qual é o mecanismo? O que acontece no ecossistema entre a pressão e o dano, etapa por etapa, e quem faz cada etapa (algas, bactérias, um gás, um predador). 3. Qual é a resposta medida? O número que muda e a unidade em que ele é medido: mg/L de oxigênio, ppm de CO₂, km² de vegetação, espécies ameaçadas.

A ordem importa pelo mesmo motivo que na represa da abertura. O adubo não mata o peixe; a radiação que entra por uma camada de ozônio mais fina não aquece o planeta; o desmatamento não espalha as espécies pelos biomas vizinhos. Em cada um desses erros, a pressão é real e a resposta também, mas o mecanismo que as liga foi trocado ou pulado.

Duas distinções acompanham o protocolo o tempo todo.

Biótico e abiótico. Um impacto é biótico quando atinge diretamente seres vivos (uma população some, uma praga explode, uma espécie invade) e abiótico quando atinge o meio físico (solo, água, ar, clima). A fronteira é porosa: o solo exposto esquenta (abiótico), os decompositores diminuem (biótico), a matéria orgânica cai (abiótico de novo). A prova pede a classificação, e um impacto certo na coluna errada não conta.

Estoque e fluxo. Quase toda resposta medida é um estoque (a vegetação que resta, o CO₂ que está no ar, os peixes do reservatório) ou um fluxo (o que se desmata por ano, o que se emite por ano, o que se pesca por ano). Uma taxa que cai não quer dizer que o estoque parou de diminuir: quer dizer que ele diminui mais devagar. Essa leitura volta nos gráficos de desmatamento e de CO₂.

Biodiversidade tem três andares e mais de um número

Biodiversidade é a variedade da vida em três níveis, e cada nível se perde de um jeito.

  • Diversidade genética: a variação de genes dentro de uma mesma espécie. As centenas de variedades de milho, feijão e mandioca mantidas por agricultores familiares, indígenas e quilombolas são diversidade genética; uma lavoura inteira plantada com uma única variedade quase não tem. É ela que permite a uma população responder a uma doença nova ou a um clima diferente.
  • Diversidade de espécies: as espécies de um lugar e a proporção entre elas. É o nível em que se pensa primeiro e o que as listas contam.
  • Diversidade de ecossistemas: a variedade de ambientes de uma região. Um trecho de Cerrado com campo, vereda e mata de galeria tem mais ecossistemas, e por isso mais espécies, que a mesma área coberta por uma única formação.

Os três níveis dependem um do outro. Uma espécie reduzida a poucos indivíduos ainda existe, mas já perdeu a maior parte da variação genética. Um bioma reduzido a um único tipo de ambiente perde as espécies dos outros.

Riqueza, abundância e o que os dois juntos dizem

Dois números descrevem a diversidade de espécies. Riqueza é quantas espécies há. Abundância é quantos indivíduos cada espécie tem. Uma comunidade é mais diversa quanto maior a riqueza e quanto mais bem distribuídos os indivíduos entre as espécies.

Exemplo resolvido (duas matas com a mesma riqueza). Duas parcelas de mata do mesmo tamanho têm 100 árvores cada uma, de quatro espécies. Na parcela I, cada espécie tem 25 árvores. Na parcela II, uma espécie tem 94 árvores e cada uma das outras tem 2. Qual é a mais diversa?

espécie 1 espécie 2 espécie 3 espécie 4 riqueza
parcela I 25 25 25 25 4
parcela II 94 2 2 2 4

Leitura. A riqueza é igual: quatro espécies em cada parcela. A distribuição é muito diferente. Na parcela I, uma árvore sorteada ao acaso tem a mesma chance de ser de qualquer espécie. Na parcela II, 94 de cada 100 sorteios dão a mesma espécie, e três espécies estão representadas por dois indivíduos cada, a um passo de desaparecer dali.

Resposta. A parcela I é a mais diversa. Quem olha só a riqueza conclui que as duas são iguais.

Conferência. Teste o caso-limite: se as três espécies raras da parcela II perdessem os dois indivíduos, a riqueza cairia para 1. Na parcela I, a perda de seis árvores quaisquer não eliminaria nenhuma espécie. A segunda parcela está muito mais perto de perder espécies, embora o número de hoje seja o mesmo.

Endêmica não é rara, e rara não é ameaçada

Espécie endêmica é a que ocorre em uma única região e em nenhuma outra. O critério é geográfico. Uma espécie pode ser endêmica e abundante (só existe naquela serra, mas ali há milhares de indivíduos) ou não endêmica e rara. Endemismo de um lugar é a proporção de espécies exclusivas dele.

Riqueza e endemismo são medidas diferentes, e a prova já usou uma contra a outra. O item 41 do PAS 1 de 2018 afirmou que o que marca a biodiversidade do Pantanal, “região com reduzido número de espécies endêmicas, é a abundância de indivíduos presentes em algumas espécies”. Certo. O Pantanal é uma planície inundável cercada por outros biomas, e a maior parte de suas espécies também vive neles; o que impressiona ali são as populações enormes de jacarés, capivaras e aves aquáticas. O Cerrado e a Mata Atlântica são o caso oposto: milhares de espécies de plantas só ocorrem neles.

O endemismo é o que transforma perda de área em perda de espécie. Uma espécie de ampla distribuição perde parte do território quando um bioma é desmatado. Uma espécie endêmica de uma única serra perde tudo quando a serra vira pasto ou mina. O item 32 do PAS 1 de 2024 testou essa ideia com um texto-base que definia espécies endêmicas como as “que vivem exclusivamente em determinada região geográfica” e, em seguida, afirmou que a maioria das espécies do cerrado “pode ser encontrada também em outros biomas, como a Amazônia, pois o desmatamento do Cerrado possibilitou que grande número de espécies, principalmente as arbóreas, se dispersassem pelos diferentes biomas”. Errado, duas vezes: contradiz a definição que o próprio texto dá e inventa um mecanismo. Desmatamento não dispersa espécies; elimina populações.

Hotspot de biodiversidade: muito endemismo e muita perda

Um hotspot é uma região que reúne duas condições ao mesmo tempo: pelo menos 1 500 espécies de plantas vasculares endêmicas e pelo menos 70 % da vegetação original já perdida. O conceito foi proposto pelo ecólogo Norman Myers e ganhou a forma atual num artigo de 2000, que listou 25 regiões; hoje são reconhecidas 36. Duas ficam no Brasil: a Mata Atlântica e o Cerrado. O nome não significa “lugar com muitas espécies”. Significa lugar em que muita coisa exclusiva está sob muita pressão, e por isso prioritário para a conservação.

Extinção local, extinção global e a lista vermelha

Extinção local é o desaparecimento de uma população de uma área; a espécie continua existindo em outros lugares. Extinção global é o desaparecimento de todas as populações. A primeira é reversível, por recolonização ou reintrodução. A segunda não é.

O risco de extinção é avaliado com critérios numéricos: quanto a população diminuiu em dez anos ou três gerações, que área a espécie ocupa, quantos adultos restam. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) organiza o resultado em categorias. Três delas formam o grupo das ameaçadas: vulnerável (VU), em perigo (EN) e criticamente em perigo (CR), em ordem crescente de risco. Antes delas vem quase ameaçada (NT); depois, extinta na natureza (EW) e extinta (EX). A lista de espécies assim classificadas é a lista vermelha. No Brasil, as listas oficiais são publicadas pelo Ministério do Meio Ambiente, com avaliações coordenadas pelo ICMBio para a fauna e pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro para a flora.

A lista oficial da fauna, atualizada em 2026, reconhece 1 279 espécies ameaçadas: 378 de peixes, 376 de invertebrados, 241 de aves, 123 de répteis, 102 de mamíferos e 59 de anfíbios, além de 9 espécies extintas e 1 extinta na natureza (ICMBio, consulta em outubro de 2026). Na avaliação publicada em 2018, eram 1 173 ameaçadas entre 12 254 espécies e subespécies avaliadas. A ameaça que mais aparece nas fichas é a perda e a fragmentação de habitat.

Mais espécies na lista não quer dizer só piora

Uma espécie entra na lista porque piorou ou porque foi estudada pela primeira vez. E sai porque melhorou, porque se descobriu que a população era maior do que se pensava, ou porque foi extinta. Comparar o tamanho de duas listas sem saber quantas espécies foram avaliadas em cada uma leva a conclusão errada. Pergunte sempre: ameaçadas entre quantas avaliadas?

Por que a biodiversidade importa: os serviços ecossistêmicos

Os benefícios que os ecossistemas prestam às pessoas têm nome, serviços ecossistêmicos, e uma classificação em quatro grupos.

grupo o que é exemplos
provisão produtos retirados do ecossistema alimento, água, madeira, fibras, plantas medicinais
regulação processos que mantêm as condições do ambiente regulação do clima e das chuvas, polinização, controle de pragas por inimigos naturais, purificação da água
suporte processos de base, dos quais os outros dependem formação do solo, ciclagem de nutrientes, fotossíntese
culturais benefícios não materiais lazer, turismo, conhecimento, valor religioso e de identidade

Os grupos se encadeiam. A ciclagem de nutrientes (suporte) sustenta a fertilidade do solo, que sustenta a produção de alimento (provisão). A polinização por abelhas nativas (regulação) decide a safra de maracujá, café e muitas frutas. Quando a vegetação nativa é retirada de uma bacia, cai o estoque de carbono, muda o caminho da água da chuva e somem polinizadores e predadores de pragas das lavouras vizinhas: são três serviços de regulação perdidos de uma vez, e o efeito não fica dentro da área desmatada.

A onça-pintada, o mico-leão e a arara-azul aparecem nos cartazes, mas a maior parte da biodiversidade é feita de plantas, insetos, fungos e microrganismos, e é deles que saem os serviços de suporte e de regulação. Uma descrição que reduza a conservação à proteção de animais carismáticos, ou que trate a biodiversidade só como número de espécies, está incompleta. O item 71 do PAS 1 de 2022 mediu a perda pela comunidade inteira: “O plantio em monocultura para extração de celulose diminui a biodiversidade”. Certo: uma só espécie de árvore, muitas vezes um só clone, no lugar de centenas de espécies de plantas e dos animais, fungos e microrganismos que viviam com elas.

Quanto resta de cada bioma: porcentagem de quê, desde quando

O Brasil tem seis biomas continentais no mapa oficial do IBGE (2019). A tabela junta a área de cada um ao que os sistemas de monitoramento por satélite informam sobre a vegetação nativa.

bioma área (km²) fração do país vegetação nativa em 2024 vegetação nativa perdida de 1985 a 2024
Amazônia 4 212 742 49,5 % 81,9 % 13 % (52,1 Mha)
Cerrado 1 983 017 23,3 % 51,2 % 28 % (40,5 Mha)
Mata Atlântica 1 107 419 13,0 % 31 % 11 % (4,4 Mha)
Caatinga 862 818 10,1 % 60 % 15 % (9,2 Mha)
Pampa 193 836 2,3 % 44,5 % 30 % (3,8 Mha)
Pantanal 150 988 1,8 % 84,8 % (área natural, com os corpos de água) 12 % (1,7 Mha)

Áreas e frações do território: IBGE, Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil (2019). Vegetação nativa: MapBiomas, Coleção 10 (2025), que cobre os anos de 1985 a 2024. Mha quer dizer milhões de hectares; 1 Mha equivale a 10 000 km². A quarta coluna é uma fração da área do bioma; a quinta, uma fração da vegetação que havia em 1985.

Três correções que os dados fazem em frases muito repetidas.

“O bioma que mais perde vegetação é a Amazônia.” Depende do ano e da medida. Em área derrubada por ano, o sistema PRODES, do INPE, mediu mais corte no Cerrado (8 174 km² em 2024 e 7 235 km² em 2025, este ainda uma estimativa) do que na Amazônia Legal (6 518 km² e 5 731 km²), e o Cerrado tem menos da metade da área. Em área total perdida desde 1985, a Amazônia vem na frente (52,1 Mha contra 40,5 Mha). Em proporção do que havia em 1985, o Pampa e o Cerrado perderam mais (30 % e 28 %).

“Restam 5 % da Mata Atlântica.” A frase é antiga e não corresponde às medidas atuais. Hoje circulam três números, e eles medem coisas diferentes. Restam cerca de 24 % da cobertura original do bioma, e as florestas maduras, sem sinais de degradação, cobrem 12,4 % da área de aplicação da Lei da Mata Atlântica (Atlas da Mata Atlântica, da SOS Mata Atlântica e do INPE, 2026). E o MapBiomas, que conta toda a vegetação nativa, inclusive a não florestal e a que rebrotou, encontra 31 % do bioma em 2024. A Mata Atlântica continua sendo o bioma mais reduzido do país; o número certo é o que permite saber se a perda continua.

“A Caatinga é um deserto.” Não é. É um semiárido: chove pouco e em poucos meses, a vegetação perde as folhas na seca e rebrota com a chuva, e há muitas espécies exclusivas. Em 2024, 60 % do bioma tinha vegetação nativa (MapBiomas). O que existe são manchas em processo de desertificação, que é degradação do solo por retirada de lenha e excesso de pastejo, e não um tipo de clima.

Toda porcentagem de desmatamento tem um "de quê" e um "desde quando"

“O Cerrado perdeu 28 %” e “o Cerrado perdeu metade” podem ser duas frases verdadeiras: a primeira conta a partir de 1985, quando começa a série de satélite; a segunda conta desde a vegetação original. Antes de aceitar ou recusar um número, procure a base (porcentagem do bioma, da vegetação que havia, do total desmatado no país) e a data inicial.

O mapa que acompanhou o texto-base do PAS 1 de 2023 é um exercício pronto dessa leitura. Ele trazia, sob o título “Biomas mais desmatados”, a distribuição percentual do desmatamento no país em 2021: Amazônia, 59 %; Cerrado, 30,2 %; Caatinga, 7 %; Mata Atlântica, 1,8 %; Pantanal, 1,7 %; Pampa, 0,1 %. Os seis números somam 100 % (com o arredondamento, 99,8 %). Eles dizem que, de cada 100 hectares desmatados no Brasil naquele ano, 59 estavam na Amazônia. Não dizem que 59 % da Amazônia foi desmatada, nem permitem comparar a pressão sobre cada bioma sem levar em conta o tamanho deles: o Cerrado tem menos da metade da área da Amazônia e respondeu por mais da metade do que ela perdeu.

Exemplo resolvido (a conta do que resta). Segundo o MapBiomas, 51,2 % da área do Cerrado tinha vegetação nativa em 2024, e o bioma perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024. A área do bioma é de 1 983 017 km² (IBGE). (a) Quanta vegetação nativa restava em 2024 e quanta havia em 1985? (b) Que fração da vegetação de 1985 foi perdida? © A frase “o Cerrado já perdeu metade da vegetação original” é confirmada, desmentida ou nenhuma das duas?

Passo 1. Converta a área do bioma: 1 km² = 100 ha, logo 1 983 017 km² ≈ 198,3 milhões de hectares (Mha). Em 2024 restavam 0,512×198,3≈101,50{,}512 \times 198{,}3 \approx 101{,}5 Mha. Em 1985 havia 101,5+40,5=142,0101{,}5 + 40{,}5 = 142{,}0 Mha, isto é, 71,6 % da área do bioma.

Passo 2. A perda em relação ao que havia em 1985 é de 40,5÷142,0≈28,5 %40{,}5 \div 142{,}0 \approx 28{,}5\,\%. É o número que o MapBiomas arredonda para 28 %.

Passo 3. A conta apoia a frase, com uma ressalva. Supondo que a vegetação nativa cobria todo o bioma antes da ocupação, em 1985 já haviam sido convertidos 198,3−142,0=56,3198{,}3 - 142{,}0 = 56{,}3 Mha. Somadas as duas fases, a perda chega a 96,8 Mha, ou 48,8 % do bioma: quase metade. O que a frase não mostra é o ritmo: 40,5 dos 96,8 Mha, 42 % da perda total, ocorreram depois de 1985, já com satélites medindo.

Conferência. Os números se encaixam: 71,6 % menos 51,2 % dá 20,4 % da área do bioma, e 20,4 % de 198,3 Mha são 40,5 Mha, a perda informada. Repare que 28 % (da vegetação que havia em 1985) e 20 % (da área do bioma) descrevem a mesma perda com bases diferentes.

Dois gráficos lado a lado. À esquerda, barras com a área desmatada por ano, em quilômetros quadrados, de 2013 a 2025, segundo o PRODES do INPE. As barras verdes, da Amazônia Legal, sobem de cerca de 5 900 em 2013 a um pico de 13 038 em 2021 e descem a 5 731 em 2025. As barras laranja, do Cerrado, começam em 13 482 em 2013, caem até cerca de 6 300 em 2019, voltam a subir até cerca de 11 000 em 2023 e chegam a 7 235 em 2025. À direita, um gráfico de linha com as médias anuais de gás carbônico em Mauna Loa, segundo a NOAA: a curva sobe de 316,91 partes por milhão em 1960 a 427,35 em 2025, cada vez mais inclinada; uma linha tracejada azul marca cerca de 280, o valor de antes da era industrial.
À esquerda, a taxa anual de desmatamento na Amazônia Legal e no Cerrado (INPE, PRODES; cada barra cobre de agosto de um ano a julho do seguinte; o valor de 2025 do Cerrado é estimativa). À direita, a concentração de CO₂ medida em Mauna Loa (NOAA). O primeiro gráfico mostra um fluxo: barra menor quer dizer perda mais lenta, e não recuperação. O segundo mostra um estoque que só cresce. Dados consultados em 2/10/2026. Diagrama autoral.

As cinco grandes pressões sobre a biodiversidade

A avaliação global da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), de 2019, ordenou as causas diretas da perda de biodiversidade no planeta pelo tamanho do efeito: mudança no uso da terra e do mar (a conversão de habitats em lavoura, pasto e cidade), exploração direta de organismos (pesca, caça, extração de madeira), mudança do clima, poluição e espécies exóticas invasoras. O mesmo relatório estimou em cerca de 1 milhão o número de espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção. As cinco pressões agem juntas e se reforçam: um fragmento de mata cercado de pasto sofre com a borda, com o fogo que vem do pasto, com o capim exótico que entra pela borda e com secas mais longas.

As próximas seções tratam de cada pressão com as três perguntas. As duas primeiras (habitat e desmatamento) são a mesma pressão vista de dois ângulos: o que acontece com o que sobra, e o que acontece com o clima, a água e o solo do lugar.

Perda e fragmentação de habitat: o que sobra não é o que parece

Converter vegetação nativa em lavoura, pasto, represa ou cidade retira habitat, o lugar em que uma espécie encontra as condições para viver. É a pressão apontada com mais frequência nas fichas das espécies ameaçadas. Mas a conversão raramente apaga tudo: deixa manchas. E uma mancha não funciona como um pedaço do todo.

Fragmentação é a divisão de um habitat contínuo em manchas isoladas. Ela acrescenta dois problemas à perda de área.

O efeito de borda. A faixa de um fragmento que encosta na lavoura ou no pasto é outro ambiente: recebe mais luz e mais vento, tem ar mais seco e temperatura mais variável, recebe a deriva de agrotóxicos e as sementes de capins exóticos, pega fogo com mais facilidade e é mais visitada por predadores de ninhos. As espécies que dependem de sombra e umidade recuam para o interior. A largura da borda varia com o que se mede e com o que há do outro lado; em florestas tropicais, medições situam a maior parte dos efeitos em dezenas a algumas centenas de metros. Para raciocinar, 100 m é uma ordem de grandeza razoável.

Exemplo resolvido (a conta da borda). Considere uma borda de 100 m. (a) Que fração de um fragmento quadrado de 100 ha (1 km de lado) é interior? (b) E se os mesmos 100 ha estiverem divididos em dez quadrados de 10 ha? © Qual é o menor quadrado que ainda tem algum interior?

Raciocínio. A borda come 100 m de cada lado. O interior é um quadrado de lado igual ao lado do fragmento menos 200 m.

interior=(lado−2×borda)2\text{interior} = (\text{lado} - 2 \times \text{borda})^2

(a) Lado de 1 000 m: interior de (1 000−200)2=640 000(1\,000 - 200)^2 = 640\,000 m², ou 64 ha. São 64 % do fragmento.

(b) Um quadrado de 10 ha tem 100 000 m² e lado de 100 000≈316\sqrt{100\,000} \approx 316 m. Interior: (316−200)2≈13 500(316 - 200)^2 \approx 13\,500 m², ou 1,35 ha. Dez deles somam 13,5 ha: 13,5 % dos mesmos 100 ha.

© O interior some quando o lado é de 200 m. Um quadrado de 4 ha ou menos é só borda.

Conferência. Sem borda, os dois arranjos seriam iguais. Toda a diferença entre 64 % e 13,5 % vem da razão entre perímetro e área, que é maior nos fragmentos pequenos. É o mesmo raciocínio da célula: quanto menor o corpo, mais superfície por unidade de volume.

Dois desenhos na mesma escala sobre fundo amarelo, que representa a lavoura. À esquerda, um quadrado de 1 quilômetro de lado, 100 hectares, com uma faixa de borda verde-clara de 100 metros e um interior verde-escuro de 64 hectares. À direita, dez quadrados de 316 metros de lado, 10 hectares cada, em duas fileiras de cinco, cada um com a mesma faixa de borda e um interior pequeno, de cerca de 1,35 hectare; somados, 13,5 hectares. Um quadro traz a fórmula: interior é igual ao lado menos duas vezes a borda, ao quadrado.
A mesma área de vegetação, em um bloco ou em dez pedaços. Com uma borda de 100 m, o bloco único tem 64 % de interior; os dez fragmentos, 13,5 %. Um mapa que informa só a área remanescente não distingue os dois casos. Diagrama autoral, em escala.

Populações pequenas e isoladas. Cada fragmento abriga uma população pequena, que não troca indivíduos nem genes com as vizinhas. Populações pequenas perdem variação genética, sofrem com o cruzamento entre parentes e podem desaparecer por um acaso: um incêndio, uma seca, um ano ruim de reprodução. O porquê está em dinâmica populacional. A consequência prática é o corredor ecológico: uma faixa de vegetação nativa que liga fragmentos e permite que animais, pólen e sementes circulem, de modo que várias populações pequenas voltem a funcionar como uma só. As matas ao longo dos rios costumam fazer esse papel.

A conta da borda muda a leitura dos números de vegetação remanescente. “Metade do bioma ainda tem vegetação nativa” pode descrever um bloco contínuo ou milhares de retalhos de poucos hectares, quase todos borda. Para a espécie que só vive no interior, a diferença é entre existir e não existir. E o corredor não substitui a área: liga o que restou, sem repor o que foi perdido.

Desmatar não tira só árvore: calor, água, solo e carbono

O desmatamento é a pressão; os mecanismos são vários e agem ao mesmo tempo.

Mais calor na superfície. Uma área com vegetação gasta boa parte da energia do Sol evaporando água pelas folhas, o que resfria o ar. O solo exposto absorve a radiação e esquenta.

Menos água retida e menos chuva reciclada. Copas, serapilheira e raízes fazem a chuva infiltrar devagar; sem elas, a água escoa pela superfície, leva solo e chega depressa ao rio. Com menos transpiração, volta menos vapor ao ar e chove menos nas regiões que recebiam essa umidade. As etapas estão em ciclos biogeoquímicos.

Carbono no ar. A queima e a decomposição da biomassa devolvem à atmosfera, em dias ou anos, o carbono que a vegetação levou décadas ou séculos para acumular.

Solo. Sem cobertura, a chuva arranca a camada superficial (erosão) e a deposita no leito dos rios (assoreamento); a matéria orgânica diminui.

Seres vivos. Somem as populações que dependiam daquela vegetação, e com elas os polinizadores e os inimigos naturais das pragas.

O PAS 1 reuniu os dois primeiros mecanismos num item de 2023 (item 15): o desmatamento nos biomas brasileiros “tende a afetar o clima, uma vez que, quanto menos florestas, maior a concentração de calor na superfície terrestre e menor a retenção da água da chuva”. Certo. Em 2020 (item 46), a frase “o desmatamento traz consequências danosas ao meio ambiente, mas não altera o ciclo da água” foi julgada errada, pelo mesmo raciocínio. E em 2019 (item 51) a banca levou a ideia para o litoral: a expansão urbana desordenada “tende a causar o desmatamento dos manguezais prejudicando o papel que esses ecossistemas exercem no controle do efeito estufa e na conservação da biodiversidade”. Certo: o solo encharcado do mangue guarda muito carbono, e o manguezal é berçário de peixes e crustáceos.

Biótico ou abiótico: o item discursivo de 2014

O item discursivo do PAS 1 de 2014 (item 70, tipo D) pediu exatamente a classificação: discorrer sobre os impactos da substituição do Cerrado pela monocultura de soja, mencionando “cinco impactos associados a aspectos bióticos e cinco, a aspectos abióticos”. A resposta se monta em duas colunas.

impactos bióticos (sobre seres vivos) impactos abióticos (sobre solo, água, ar, clima)
perda de espécies de plantas nativas, muitas endêmicas menor infiltração e menor recarga dos aquíferos
extinção local de populações de animais mais escoamento, erosão e assoreamento
fragmentação e efeito de borda no que resta solo exposto mais quente e com menos matéria orgânica
menos polinizadores e dispersores de sementes contaminação de solo e água por agrotóxicos e adubos
surtos de pragas na lavoura emissão de CO₂ (queima, decomposição) e de N₂O (adubo)

Duas observações sobre a tabela. A fronteira entre as colunas tem pontes: o agrotóxico na água é uma alteração abiótica, e a morte de organismos aquáticos que ele causa é biótica. E vários efeitos não aparecem no dia da derrubada: a queda da recarga do aquífero só se vê anos depois, quando a nascente seca na estiagem; o surto de praga depende de safras seguidas da mesma espécie.

Monocultura é o cultivo de uma única espécie, muitas vezes de uma única variedade, em grande área. Ela reduz a diversidade de espécies e a diversidade genética. Uma praga que se alimente daquela planta encontra alimento contínuo por quilômetros e nenhuma variação genética que a detenha; os predadores e parasitoides que a controlariam foram embora com a vegetação nativa. O resultado é a dependência de agrotóxicos. E o agrotóxico não fica na planta que o recebeu: parte é levada pelo vento (deriva), parte escoa com a chuva para os córregos, parte infiltra até a água subterrânea. Moléculas persistentes e solúveis em gordura ainda se concentram a cada nível da cadeia alimentar, a magnificação trófica explicada em cadeias e teias alimentares. O PAS 2 de 2018 (item 68) descreveu a cadeia inteira e a banca a considerou certa: a produção de commodities no cerrado emprega soluções que vão da correção dos solos ácidos “à utilização excessiva de agrotóxicos, o que tem causado a contaminação dos solos e das águas subterrâneas e superficiais e a redução ou a perda de biodiversidade e de áreas de cerrado preservado”.

Queimadas: o fogo fora de hora e fora de lugar

Há biomas em que o fogo natural faz parte da história, como o Cerrado, e biomas em que ele quase não ocorria, como a floresta amazônica. Em qualquer deles, a queimada usada para limpar área derrubada ou renovar pasto no fim da estação seca escapa com facilidade, sobe às matas de beira de rio, que não têm defesa contra o fogo, mata animais lentos e lança no ar, de uma vez, o carbono da vegetação e uma fumaça de partículas finas que chega aos pulmões de quem mora a centenas de quilômetros. O INPE registrou 278 299 focos de calor no Brasil em 2024, ano de seca severa, contra 189 901 em 2023 e 136 393 em 2025. O que distingue o fogo que o Cerrado tolera do incêndio que o destrói está na página do Cerrado.

Tirar mais do que repõe: pesca, caça, tráfico e madeira

Sobre-exploração é retirar indivíduos de uma população mais depressa do que ela consegue repor. A régua é a mesma para peixe, madeira, palmito ou caça.

Uso sustentável de um recurso vivo

Um recurso renovável tem uma taxa de reposição: quanto a população cresce por ano. O uso é sustentável quando a taxa de retirada é menor ou igual à taxa de reposição. Retirar mais que isso consome o estoque, e um estoque menor repõe menos no ano seguinte: a queda se acelera.

Exemplo resolvido (um estoque de peixes). Um estoque de 10 000 t de peixes cresce 20 % ao ano enquanto se mantém perto desse tamanho. (a) Qual é a maior captura anual que mantém o estoque? (b) O que acontece em três anos se a frota retirar 3 000 t por ano?

(a) A reposição anual é de 0,20×10 000=2 0000{,}20 \times 10\,000 = 2\,000 t. Capturando até 2 000 t por ano, o estoque termina o ano como começou.

(b) Ano 1: 10 000+2 000−3 000=9 00010\,000 + 2\,000 - 3\,000 = 9\,000 t. Ano 2: a reposição agora é de 0,20×9 000=1 8000{,}20 \times 9\,000 = 1\,800 t, e sobram 9 000+1 800−3 000=7 8009\,000 + 1\,800 - 3\,000 = 7\,800 t. Ano 3: 7 800+1 560−3 000=6 3607\,800 + 1\,560 - 3\,000 = 6\,360 t. Em três anos o estoque perdeu mais de um terço, e a cada ano perde mais do que no anterior (1 000, 1 200, 1 440 t).

Conferência. Com captura de 2 000 t, a conta devolve 10 000 t todos os anos. A captura de 3 000 t excede a reposição em 1 000 t no primeiro ano, e o excesso cresce porque a reposição encolhe junto com o estoque. A taxa de 20 % é uma simplificação; o crescimento real de uma população depende do tamanho dela, como mostra a curva logística em dinâmica populacional.

Duas regras de pesca agem sobre a reposição. O tamanho mínimo de captura garante que o peixe se reproduza ao menos uma vez antes de ser pescado. O defeso, a proibição da pesca na época de reprodução (a piracema, nos rios), garante que os adultos desovem. O PAS 1 de 2023 (item 60) propôs exatamente essas regras para a pesca submarina, “o tamanho mínimo dos peixes que podem ser pescados e a proibição ou restrição da pesca nas épocas de reprodução dos peixes”, e o item foi considerado certo. O texto-base do mesmo bloco registrava o resultado da falta delas: no arquipélago de São Pedro e São Paulo “já não há tubarões e os cardumes de atum foram bastante reduzidos por causa da pesca excessiva”. Em 2025 (item 90), com outra montagem da mesma reportagem como texto-base, a banca afirmou que a pesca no entorno do Parque Nacional de Fernando de Noronha “é um exemplo de prática de desenvolvimento econômico sustentável, já que promove o aumento da renda local sem provocar impactos relevantes nos ecossistemas marinhos”. Errado: pesca retira indivíduos, e só é sustentável com retirada medida e menor que a reposição; “sem impactos relevantes” é uma conclusão que o texto não autoriza.

Predadores de topo são os mais sensíveis, porque crescem devagar e têm poucos filhotes. Em 2019 (item 66), o PAS 1 afirmou que “a pesca predatória indiscriminada e a poluição das águas causada por derramamento de óleo de navios petroleiros são exemplos de ações antrópicas que contribuem para o declínio das populações de tubarões”. Certo. O item seguinte do mesmo bloco tirava a consequência para a cadeia alimentar: menos tubarões, mais consumidores de algas, menos algas, menor produtividade primária.

A mesma régua vale em terra. A caça e a captura de animais silvestres para o tráfico (aves canoras, papagaios e araras, répteis, peixes ornamentais) retiram reprodutores da população, e muitos animais morrem na captura e no transporte. A extração de madeira pode ser feita por corte raso, que retira tudo uma vez, ou por corte seletivo com plano de manejo, que retira algumas árvores por hectare e deixa a floresta se regenerar antes do corte seguinte. Em 2007 (item 100), o PAS 1 afirmou que o corte seletivo, “realizado segundo plano de manejo florestal que permita a regeneração da floresta, é mais viável, a longo prazo, do que o desmatamento completo”. Certo, e a condição que sustenta a frase está escrita nela: permitir a regeneração.

Exótica, estabelecida, invasora: três degraus, não um rótulo

Quase tudo o que o Brasil planta e cria veio de fora: o café da Etiópia, a soja da China, o boi e a cana da Ásia, a manga da Índia. Quase nada disso é um problema ambiental por ser estrangeiro. O vocabulário separa três situações.

Os três degraus

Exótica (ou introduzida): espécie que está fora da sua área de distribuição natural por ação humana, intencional ou acidental. A definição não inclui dano. Estabelecida: exótica que formou, no novo ambiente, uma população que se reproduz e se mantém sem ajuda. Invasora: estabelecida que se espalha e causa impacto medido sobre espécies nativas, sobre o funcionamento do ecossistema, sobre a economia ou sobre a saúde. Dos muitos organismos transportados, a maioria morre; dos que sobrevivem, poucos se estabelecem; dos estabelecidos, poucos invadem.

Escada de três degraus sobre uma base larga. A base, cinza, traz o rótulo transportada: espécies levadas por navios, comércio, criação e plantio, a maioria das quais morre no caminho ou ao chegar. O primeiro degrau, amarelo, é exótica: está fora da área de distribuição natural por ação humana, com os exemplos soja, café, boi e eucalipto dentro do talhão. O segundo degrau, laranja, é estabelecida: forma população que se reproduz e se mantém sem ajuda, com os exemplos pombo-doméstico e tilápia em rios e represas. O terceiro degrau, vermelho, é invasora: espalha-se e causa impacto medido, com os exemplos mexilhão-dourado, coral-sol, javali, capim-gordura e caramujo-africano. Setas com a palavra poucas sobem de um degrau ao seguinte. Um quadro lista o que ajuda a subir um degrau: clima parecido com o da origem, alimento disponível e ausência dos predadores, parasitas e competidores da região de origem.
Os três degraus de uma invasão biológica. A cada degrau sobem poucas espécies. Exótica não é sinônimo de invasora: a classificação depende do lugar e do impacto medido, e a mesma espécie pode estar em degraus diferentes em dois países. Diagrama autoral.

O que faz uma espécie subir os degraus. No lugar de origem, a população é mantida em número moderado por predadores, parasitas, doenças e competidores. Levada para outro continente, ela pode chegar sem nenhum deles. Se o clima for parecido e houver alimento, cresce quase sem freio, e as espécies nativas, que nunca conviveram com ela, não têm defesa. Ilhas e lagos, com poucas espécies e poucos predadores, são os ambientes mais vulneráveis.

Água de lastro. Navios vazios enchem tanques com água do porto para ganhar estabilidade e a despejam no porto de destino, com larvas, algas e microrganismos. Um texto sobre isso sustentou sete itens do PAS 1 de 2011. Dois são desta página. O item 74 afirmou que a expressão “uma espécie exótica introduzida” remete a “uma espécie introduzida em um local em que ela não ocorre naturalmente”: certo, é a definição. O item 73 afirmou que a baixa sobrevivência dos organismos no novo ambiente “se deve, portanto, exclusivamente às características físicas e químicas do novo ambiente”: errado, porque no destino há também predadores, competidores e parasitas, e porque poucos indivíduos podem não encontrar parceiros. Outros dois itens do mesmo bloco ligaram o tema aos níveis tróficos: que uma exótica consumidora terciária causaria dano maior que uma consumidora primária (item 68) e que espécies com potencial de invasão só existiriam “a partir do segundo nível trófico” (item 69). Os dois são errados: capins africanos, que são produtores, estão entre as invasoras mais danosas do Cerrado.

Em 2023 (item 59), o PAS 1 voltou ao assunto pelo avesso, afirmando que “o uso do lastro (tanques de água) de navios para introduzir espécies exóticas no arquipélago de São Pedro e São Paulo é a melhor estratégia para equilibrar o ecossistema e aumentar o lucro na atividade pesqueira”. Errado: a frase apresenta como remédio uma das principais vias de invasão dos mares.

Exemplos brasileiros.

  • Mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei). Molusco asiático que chegou ao estuário do rio da Prata, na Argentina, no início da década de 1990, na água de lastro de navios. Os primeiros registros no Brasil são de 1998 e 1999, no lago Guaíba (RS). Fixa-se em qualquer superfície dura, forma crostas, entope tubulações de hidrelétricas e de captação de água e toma o espaço e o alimento de moluscos nativos.
  • Coral-sol (gênero Tubastraea). Corais dos oceanos Pacífico e Índico, registrados na década de 1980 em plataformas de petróleo da bacia de Campos (RJ) e, em 1998, num costão rochoso de Arraial do Cabo. Cobrem costões e ocupam o lugar de corais e esponjas nativos.
  • Javali (Sus scrofa). Introduzido no Sul a partir da década de 1960, para produção de carne. Vive hoje em liberdade em vários estados, revolve o solo, destrói lavouras e ninhos. O Ibama autoriza o controle da população desde 2013.
  • Peixe-leão (Pterois volitans). Peixe do Indo-Pacífico, com espinhos venenosos, predador de peixes pequenos de recife. Teve um primeiro registro isolado no Brasil em 2014; desde 2020 os registros são recorrentes, na costa norte e em Fernando de Noronha.
  • Capim-gordura e braquiária. Gramíneas africanas trazidas como pasto. Invadem campos e bordas de fragmentos do Cerrado, sombreiam as plantas nativas e acumulam palha, que alimenta um fogo mais intenso.
  • Caramujo-gigante-africano (Lissachatina fulica). Trazido por criadores para substituir o escargot, escapou das criações e se tornou praga de hortas e jardins.
  • Tilápia e tucunaré. A tilápia é africana; o tucunaré é amazônico e foi solto em represas de outras bacias, onde preda peixes nativos que não o reconhecem como predador. O exemplo mostra que uma espécie pode ser exótica dentro do próprio país.

Os casos do mexilhão-dourado, do coral-sol e do javali estão descritos nas páginas do Ibama. Em escala mundial, a avaliação do IPBES de 2023 contou mais de 37 000 espécies exóticas estabelecidas, das quais mais de 3 500 são invasoras, e concluiu que as invasoras tiveram papel importante em 60 % das extinções registradas de animais e plantas.

Exótica não é invasora, e nativa também pode virar praga

A soja é exótica e não se mantém fora da lavoura: primeiro degrau. O eucalipto é australiano, e não “espécie nativa da região Sul”, como afirmou um item errado do PAS 1 de 2021 (item 17); na maior parte das plantações brasileiras ele não se espalha sozinho. O mesmo bloco trouxe outro item errado (item 19): “O eucalipto é uma planta típica de climas secos”, quando o texto-base dizia que as plantações “exigem muita água”. No sentido inverso, uma espécie nativa pode se tornar um problema quando perde os freios: a capivara, sem onças e com gramados irrigados, forma populações densas em áreas urbanas. O que produz uma praga é a falta de controle da população, e não o passaporte da espécie. E o sapo-cururu, nativo do Brasil, é invasor na Austrália: o degrau descreve um contexto, não a espécie.

Erradicar uma espécie estabelecida num lago, num rio ou num bioma inteiro é, quase sempre, impossível. O que funciona é a prevenção: controlar a água de lastro, proibir a soltura de peixes de outras bacias, fiscalizar o comércio de animais e plantas. O uso deliberado de inimigos naturais contra uma invasora, o controle biológico, exige as cautelas descritas em relações ecológicas.

Efeito estufa: natural, necessário e intensificado

O mecanismo cabe em três passos.

  1. A radiação do Sol é de onda curta: luz visível, mais um pouco de ultravioleta e de infravermelho próximo. A atmosfera é quase transparente à luz visível. Cerca de 30 % da energia solar que chega ao planeta é refletida de volta ao espaço por nuvens, gelo e superfícies claras; a maior parte do restante atravessa o ar e aquece o solo e o mar.
  2. A superfície aquecida também emite radiação, mas de onda longa: o infravermelho, que não se vê e se sente como calor.
  3. Alguns gases da atmosfera deixam passar a luz visível e absorvem o infravermelho: vapor de água (H₂O), gás carbônico (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O). Suas moléculas reemitem essa energia em todas as direções, inclusive de volta para baixo. Parte do calor que sairia para o espaço retorna à superfície.

O resultado é uma superfície mais quente do que seria sem esses gases. A temperatura média da Terra é de cerca de 15 °C; sem nenhum gás de efeito estufa, seria de cerca de −18 °C, abaixo do ponto de congelamento da água. O nitrogênio (N₂) e o oxigênio (O₂), que somam 99 % do ar, não absorvem infravermelho e não participam.

Efeito estufa natural e efeito estufa intensificado

Efeito estufa é a retenção, por certos gases da atmosfera, de parte do infravermelho emitido pela superfície. É natural e é condição para a vida como a conhecemos. Intensificação do efeito estufa é o aumento dessa retenção causado pelo aumento da concentração dos gases, por atividades humanas. Com mais gás, uma fração maior do infravermelho é interceptada, e a superfície aquece até que a energia que sai volte a igualar a que entra. O problema é a intensificação, e não o fenômeno.

Dois painéis lado a lado, cada um com uma faixa azul-clara de atmosfera sobre uma faixa verde de superfície. Em cada painel, duas setas retas, de cor laranja, descem do alto até a superfície, com a legenda luz visível, onda curta, atravessa; uma seta vermelha ondulada sobe da superfície, com a legenda infravermelho emitido; círculos com os rótulos CO2, H2O e CH4 representam moléculas de gases de efeito estufa; uma seta ondulada vermelha sobe para o alto, parte escapa, e outra desce até a superfície, parte volta. No painel da esquerda, natural, há três moléculas, a seta de retorno é fina e uma etiqueta indica média de cerca de 15 graus Celsius. No painel da direita, intensificado, há seis moléculas, incluindo N2O, a seta de retorno é mais grossa e a etiqueta indica média mais alta. Uma nota informa que, sem nenhum gás de efeito estufa, a média seria de cerca de 18 graus Celsius negativos e que o esquema está fora de escala.
Efeito estufa natural (à esquerda) e intensificado (à direita). A luz visível atravessa a atmosfera; o infravermelho emitido pela superfície é absorvido e reemitido pelos gases. Com mais moléculas, mais energia volta. O calor não fica preso: sai com atraso. Diagrama autoral, fora de escala.

O PAS 1 cobrou a distinção em 2021 (item 34), a partir de uma canção que dizia “geleiras vão derreter”: “O derretimento das geleiras referido na música é acentuado pela intensificação do efeito estufa”. Certo, e a palavra que sustenta a frase é “intensificação”. Em 2018 (item 62), o item afirmou que, nas grandes cidades, o aumento do teor de CO₂ na atmosfera “favorece o aumento da temperatura ambiente devido ao efeito estufa”. Também certo.

Cada gás tem a sua fonte

gás principais fontes humanas quanto retém em relação ao CO₂ (por massa, em 100 anos) permanência no ar
CO₂ (gás carbônico) queima de carvão, petróleo e gás natural; fabricação de cimento; desmatamento e queimadas 1 (é a referência) o excesso dura séculos
CH₄ (metano) pecuária (fermentação no estômago dos bovinos); arrozais alagados; aterros e lixões; esgoto; vazamentos de gás natural cerca de 27 a 30 vezes cerca de 12 anos
N₂O (óxido nitroso) solos adubados com fertilizantes nitrogenados; esterco cerca de 273 vezes cerca de um século
gases fluorados (CFC, HFC) refrigeração, espumas, aerossóis de centenas a mais de dez mil vezes, conforme o gás de anos a séculos, conforme o gás
vapor de água não é emitido em quantidade relevante pela atividade humana não se aplica dias

Os valores da terceira coluna são os potenciais de aquecimento global do sexto relatório do IPCC (2021). Eles permitem somar gases diferentes numa unidade só, o CO₂ equivalente (CO₂e): a massa do gás multiplicada pelo seu potencial.

O metano tem uma assinatura que a prova usa: ele se forma na decomposição sem oxigênio. É o gás do rúmen do boi, do fundo do aterro, do arrozal alagado, do reservatório com matéria orgânica submersa. O item 97 do PAS 1 de 2010 afirmou que “a decomposição aeróbica do lixo por micro-organismos e bactérias é um processo que gera gás metano e gás sulfídrico”. Errado: os dois gases são produtos da decomposição anaeróbia.

O vapor de água é o gás de efeito estufa mais abundante, mas não é uma causa do aquecimento atual. A quantidade de vapor no ar depende da temperatura: ar mais quente retém mais vapor, e o excesso volta como chuva em dias. Ele amplifica o aquecimento iniciado pelos outros gases.

Exemplo resolvido (comparar fontes pelo CO₂ equivalente). Uma fazenda emite por ano 100 t de CH₄ (rebanho), 2 t de N₂O (adubo) e 50 t de CO₂ (diesel das máquinas). Use os potenciais 28 para o metano e 273 para o óxido nitroso. Qual é a maior fonte?

Conta. Metano: 100×28=2 800100 \times 28 = 2\,800 t de CO₂e. Óxido nitroso: 2×273=5462 \times 273 = 546 t de CO₂e. Diesel: 50 t de CO₂.

Leitura. A maior fonte da fazenda sai do rúmen dos animais, e não de um escapamento. As 2 t de N₂O, que ninguém vê, pesam onze vezes mais que as 50 t do diesel.

Conferência. A soma é de 3 396 t de CO₂e, das quais o metano responde por 82 %. Sem a conversão, compararíamos 100 t com 50 t e 2 t e erraríamos a ordem de grandeza do óxido nitroso. Uma ressalva: o potencial de 28 é uma média sobre 100 anos. Como o metano dura cerca de 12 anos no ar, o seu efeito se concentra nas primeiras décadas; reduzir metano dá resultado mais rápido que reduzir CO₂.

O item do tipo C do PAS 1 de 2024 (item 41) se resolve com a tabela. As quatro opções associavam cada gás a uma fonte: o CO₂ aos fertilizantes nitrogenados; os gases fluorados a uma permanência “por muito pouco tempo” e a um calor que “pode ser convertido em energia elétrica”; o metano à pecuária; o N₂O à fabricação de aerossóis e a baterias. Só uma opção casa gás e fonte: “O metano (CH₄) é um gás muito eficiente em reter calor na atmosfera, sendo a pecuária uma das principais atividades emissoras desse gás”. Nas outras, a fonte de um gás foi dada a outro.

"O efeito estufa é ruim e precisa acabar"

Sem efeito estufa não haveria água líquida na superfície. A frase correta separa o fenômeno (natural) da sua intensificação (causada pelo aumento dos gases). Em item de julgamento, procure a palavra que faz essa separação: “intensificação”, “aumento”, “agravamento”. Uma frase que atribua o aquecimento à existência do efeito estufa, ou que o trate como invenção da era industrial, está errada.

Como se sabe que o planeta aquece e que a causa é humana

A afirmação tem quatro linhas de evidência independentes. Cada uma responde a uma objeção.

O ar de hoje, medido diretamente. Desde 1958, o observatório de Mauna Loa, no Havaí, mede a concentração de CO₂ longe de cidades e florestas. A média anual subiu de 315,98 ppm em 1959 para 427,35 ppm em 2025 (NOAA). Antes da era industrial, a concentração era de cerca de 280 ppm. A leitura da curva, com o vaivém de cada ano e a conta da taxa de aumento, está em ciclos biogeoquímicos; aqui importa a tendência, que só sobe.

O ar do passado, preso no gelo. A neve que se compacta em gelo na Antártida e na Groenlândia aprisiona bolhas de ar. Cilindros de gelo retirados de grandes profundidades guardam amostras da atmosfera de centenas de milhares de anos. Nos últimos 800 mil anos, o CO₂ oscilou entre cerca de 170 e 300 ppm, acompanhando as eras glaciais. O valor atual está muito acima de qualquer ponto desse registro.

A origem do carbono. O carbono dos combustíveis fósseis tem uma composição de isótopos diferente da do carbono dos vulcões e do oceano: é pobre em carbono-13 e não tem nenhum carbono-14, que decai em milhares de anos. O CO₂ da atmosfera vem ficando, ano a ano, mais pobre nesses dois isótopos. É a marca de carbono que ficou enterrado por milhões de anos.

Os termômetros. Estações em terra, boias e navios no mar e satélites, mantidos por instituições diferentes, chegam ao mesmo resultado. O sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, 2021) concluiu que a temperatura média da superfície em 2011–2020 foi 1,1 °C mais alta que em 1850–1900 e que é “inequívoco” que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra. Depois do relatório, a Organização Meteorológica Mundial confirmou 2024 como o ano mais quente da série de medições, com 1,55 °C (margem de 0,13 °C para mais ou para menos) acima da média de 1850–1900, e 2025 como o segundo ou terceiro mais quente, conforme a base de dados, com 1,44 °C. Os onze anos de 2015 a 2025 são os onze mais quentes já medidos. Um ano isolado acima de 1,5 °C não significa que o limite de longo prazo foi ultrapassado: os limites dos acordos se referem a médias de décadas.

As causas naturais conhecidas também são medidas. A energia emitida pelo Sol é acompanhada por satélite há décadas e não aumentou; grandes erupções vulcânicas esfriam o planeta por um ou dois anos. Nenhuma delas explica a subida. A frase “o clima sempre mudou” é verdadeira e não responde à pergunta: cada mudança do passado teve uma causa identificada, e a pergunta é qual causa age agora.

Tempo não é clima

Um dia frio, um inverno rigoroso ou uma cidade com temperatura abaixo da média não testam uma tendência global de décadas. Tempo é o estado da atmosfera num lugar e num dia. Clima é a média de décadas. Do mesmo modo, um único dia quente não prova o aquecimento: a evidência são as séries longas.

O que já mudou e o que se projeta

Consequências observadas. Geleiras de montanha recuam e os mantos de gelo perdem massa. O nível médio do mar subiu cerca de 20 cm entre 1901 e 2018, pela expansão da água mais quente e pelo derretimento do gelo sobre os continentes. Ondas de calor ficaram mais frequentes e intensas. O oceano absorve parte do CO₂ e fica mais ácido, o que dificulta a formação de conchas e esqueletos calcários. Recifes de coral branqueiam quando a água aquece demais. Plantas florescem mais cedo, e espécies deslocam sua distribuição para altitudes e latitudes mais frias, quando têm para onde ir.

O que é consenso e o que é incerto. Que o planeta aqueceu, que a causa principal são os gases de efeito estufa de origem humana e que mais emissão produz mais aquecimento são conclusões apoiadas por todas as linhas de evidência; o IPCC as trata como fatos estabelecidos. O que varia é o quanto: depende de quanto se emitirá e de detalhes do sistema climático ainda em estudo. Por isso as projeções são dadas em cenários e em faixas. No relatório de 2021, a melhor estimativa para o fim do século vai de cerca de 1,4 °C acima de 1850–1900, no cenário de emissões mais baixas, a cerca de 4,4 °C, no de emissões mais altas. O efeito sobre a chuva de cada região e a velocidade de perda dos mantos de gelo têm incerteza maior que a temperatura média global. Num item de prova, desconfie tanto da frase que nega o aquecimento quanto da que apresenta uma projeção como certeza com data marcada.

O Acordo de Paris, de 2015, fixou o objetivo de manter o aumento da temperatura média bem abaixo de 2 °C em relação ao período pré-industrial e de buscar limitá-lo a 1,5 °C.

Reduzir não é remover, e mitigar não é adaptar

As respostas à mudança do clima se dividem em duas famílias.

Mitigação é agir sobre a causa: diminuir a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera. Adaptação é agir sobre as consequências: preparar cidades, lavouras e ecossistemas para um clima que já mudou e continuará mudando. Diques contra a elevação do mar, drenagem para chuvas mais intensas, variedades agrícolas tolerantes à seca e sistemas de alerta de ondas de calor são adaptação. Nenhuma dessas medidas altera a concentração de gases.

Dentro da mitigação há dois verbos.

Reduzir emissões é diminuir o que entra na atmosfera: trocar carvão, petróleo e gás por fontes solar, eólica e hidrelétrica; usar transporte coletivo; aumentar a eficiência; parar de desmatar; manejar o rebanho e o adubo para emitir menos metano e óxido nitroso.

Remover CO₂ é retirar o que já está no ar. Em escala planetária, quem faz isso é a fotossíntese, e só enquanto a biomassa se acumula: uma floresta em crescimento numa área que era pasto, um manguezal que se recompõe, um solo que ganha matéria orgânica. Uma floresta madura guarda um estoque enorme de carbono, e por isso mantê-la em pé evita uma emissão; mas ela respira quase tudo o que fixa, e o seu saldo anual é pequeno.

Dois verbos para a mesma floresta

Parar de desmatar é reduzir emissão: evita que o carbono estocado vá para o ar. Restaurar a vegetação é remover: cria um estoque novo, com carbono retirado do ar. Trocar a fonte de energia, economizar combustível e produzir menos lixo reduzem o que entra; nenhuma dessas ações retira o que já entrou.

A distinção já decidiu questões. No ENEM de 2025, uma questão sobre mudanças climáticas perguntou que ação mitigadora auxilia na remoção de CO₂ da atmosfera e ofereceu cinco alternativas: plantar mais árvores, instalar usinas eólicas, ampliar a energia solar, manter os combustíveis fósseis no solo, produzir menos resíduos. Quatro reduzem; só a primeira remove. No PAS 1 de 2019 (item 96), a banca aceitou como certo que a fotossíntese “é responsável pela capacidade” que as plantas têm de “armazenar o gás de efeito estufa e, assim, contribuir para a redução dos efeitos do aquecimento global”. A redação é de divulgação: a planta armazena o carbono do gás, na forma de matéria orgânica.

Plantar eucalipto não é recuperar a mata

Uma plantação de árvores de uma só espécie retira CO₂ do ar enquanto cresce, e isso é verdade. Mas ela é cortada a cada poucos anos, e o destino do carbono depende do produto: no papel e no carvão, ele volta ao ar em pouco tempo. E uma monocultura de árvores exóticas não repõe as espécies, a teia alimentar nem o regime de água da vegetação original. “Reflorestar” e “plantar árvores” não são sinônimos de “restaurar”.

O Brasil emite de um jeito diferente

Na maior parte dos países industrializados, a principal fonte de gases de efeito estufa é a queima de combustíveis fósseis para gerar energia. No Brasil, a matriz elétrica é em grande parte renovável, e o perfil é outro.

Em 2024, as emissões brutas do país foram de 2,145 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, 16,7 % menos que em 2023, segundo o SEEG, o sistema de estimativas do Observatório do Clima.

setor parcela das emissões brutas em 2024 gás principal
mudança de uso da terra (principalmente desmatamento) 42 % CO₂
agropecuária 29 % CH₄ do rebanho e N₂O dos solos adubados
energia 20 % CO₂ dos combustíveis fósseis
resíduos 5 % CH₄ de aterros e esgoto
processos industriais 4 % CO₂

A queda de 2024 acompanhou a queda do desmatamento. Descontado o que a vegetação em crescimento removeu, as emissões líquidas foram de 1,489 bilhão de toneladas.

Duas leituras da tabela. Como a mudança de uso da terra é a maior parcela, a redução do desmatamento é a ação de maior efeito sobre as emissões brutas do país, e a conversão de habitats é também a primeira das cinco pressões sobre a biodiversidade: a mesma medida atende aos dois problemas. E o metano do rebanho e o óxido nitroso do adubo pesam mais no Brasil que nos países em que a energia domina.

Pegada de carbono é a estimativa do total de gases de efeito estufa, em CO₂ equivalente, associado a uma pessoa, a um produto ou a uma atividade. Serve para localizar as maiores parcelas, e não para decimais.

Camada de ozônio: outro problema, outro gás, outra radiação

O ozônio (O₃) é uma molécula de três átomos de oxigênio. Na estratosfera, entre cerca de 15 e 35 km de altitude, uma camada rarefeita desse gás absorve a maior parte da radiação ultravioleta (UV) do Sol. O ultravioleta que chega à superfície em excesso causa queimaduras, câncer de pele e catarata, danifica o DNA e prejudica o fitoplâncton e as plantas.

O problema começou com os clorofluorcarbonos (CFC), gases criados para geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, espumas e aerossóis. São estáveis, não tóxicos e não inflamáveis, e essa estabilidade é a origem do dano: não se degradam perto da superfície, sobem intactos até a estratosfera e ali são quebrados pelo ultravioleta, que libera átomos de cloro. Cada átomo de cloro participa da destruição de milhares de moléculas de ozônio antes de sair de circulação. A previsão desse mecanismo foi publicada em 1974 pelos químicos Mario Molina e Sherwood Rowland. Em 1985, medições na Antártida mostraram uma queda acentuada do ozônio a cada primavera: o “buraco”, que não é um furo, e sim uma região em que a camada fica muito fina.

A resposta foi o Protocolo de Montreal, de 1987, que determinou a eliminação gradual dos CFC e de outras substâncias que destroem o ozônio. O acordo foi ratificado por todos os países, e cerca de 99 % das substâncias controladas foram eliminadas. A avaliação científica de 2022 da Organização Meteorológica Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente projeta que a camada volte aos valores de 1980 por volta de 2040 na maior parte do mundo, de 2045 sobre o Ártico e de 2066 sobre a Antártida. Molina e Rowland dividiram com Paul Crutzen o Prêmio Nobel de Química de 1995.

Quadro comparativo com duas colunas e seis linhas. Coluna da esquerda, efeito estufa intensificado: radiação envolvida, infravermelho de onda longa emitido pela superfície da Terra; gases do problema, CO2, CH4 e N2O, com o vapor de água como amplificador; onde acontece, troposfera, a camada mais baixa da atmosfera; mecanismo, mais moléculas absorvem e reemitem infravermelho; consequência, aquecimento, nível do mar e mudança no regime de chuvas; acordo e situação, Convenção do Clima de 1992 e Acordo de Paris de 2015, emissões altas. Coluna da direita, destruição da camada de ozônio: ultravioleta de onda curta emitido pelo Sol; CFC e outros compostos com cloro e bromo; estratosfera, de 15 a 35 quilômetros de altitude; cloro liberado dos CFC transforma O3 em O2; mais ultravioleta B no solo, câncer de pele, catarata e dano ao plâncton; Protocolo de Montreal de 1987, camada em recuperação. Uma faixa na base informa que os CFC também são gases de efeito estufa e que, fora isso, radiação, gás, camada e tratado são diferentes.
Efeito estufa intensificado e destruição da camada de ozônio, linha por linha. As duas colunas só têm um ponto em comum: os CFC também retêm calor. Uma frase que junta pedaços de colunas diferentes está errada. Diagrama autoral.
"O calor do Sol entra pelo buraco da camada de ozônio e aquece a Terra"

A frase mistura dois problemas. O que passa por uma camada de ozônio mais fina é mais ultravioleta, que queima a pele e não é a causa do aquecimento global. O aquecimento vem do infravermelho que a superfície emite e que os gases de efeito estufa retêm. O CO₂ não destrói ozônio; os CFC destroem. E a camada de ozônio se recupera, enquanto a concentração de gases de efeito estufa continua a subir. Na dúvida, refaça o quadro: radiação, gás, camada da atmosfera, consequência.

Há um único ponto de contato real. Os CFC e alguns dos gases que os substituíram, os HFC, são gases de efeito estufa potentes. Ao eliminá-los, o Protocolo de Montreal também evitou parte do aquecimento. Isso não torna os dois problemas o mesmo problema.

Perto do chão, o ozônio tem outro papel: é um poluente, formado pela ação da luz do Sol sobre os gases dos escapamentos, que irrita as vias respiratórias e danifica as plantas. A mesma molécula protege na estratosfera e polui na superfície.

Eutrofização em cinco passos: sobra nutriente, falta oxigênio

Eutrofização é o enriquecimento de um corpo de água em nutrientes, principalmente fósforo e nitrogênio. O nome vem do grego e quer dizer “bem nutrido”. A água eutrofizada sofre de excesso, e não de falta, e o dano não vem de veneno. A sequência tem cinco passos.

  1. Entram nutrientes. Esgoto doméstico (fezes, urina, detergentes), adubo levado das lavouras pela chuva, efluentes de criações de animais. Por que esses nutrientes sobram no solo e chegam à água está em ciclos biogeoquímicos.
  2. Algas e cianobactérias proliferam. Fósforo e nitrogênio eram o que limitava o crescimento do fitoplâncton. Com a sobra, ele se multiplica em dias: é a floração. A água fica verde e turva; a luz não chega ao fundo, e as plantas submersas morrem. Algumas cianobactérias produzem toxinas que atacam o fígado e o sistema nervoso de quem bebe a água.
  3. A floração morre. As células vivem pouco, morrem em massa e afundam.
  4. A decomposição consome o oxigênio. Bactérias aeróbias decompõem essa matéria orgânica e, ao respirar, gastam o oxigênio dissolvido. A água guarda pouco oxigênio: cerca de 8 a 9 mg por litro quando saturada, a 20–25 °C, e menos ainda quando está mais quente.
  5. Falta oxigênio. Peixes e outros animais aeróbios morrem asfixiados. No fundo sem oxigênio, bactérias anaeróbias assumem a decomposição e liberam gás sulfídrico (H₂S), de cheiro de ovo podre, e metano.
O passo que não pode ser pulado

O nutriente não mata nada: ele alimenta. Quem consome o oxigênio é a decomposição da biomassa que o nutriente produziu. Sem o passo 2 (a floração) não há o passo 4 (a decomposição em massa). A eutrofização começa com excesso de nutriente e termina com falta de oxigênio.

O PAS 1 de 2022 pôs o erro clássico num item de uma linha (item 59): “A eutrofização ocorre pela diminuição de nutrientes na água”. Errado: é pelo aumento. O item seguinte (item 60) tratou da outra rota do adubo: “O uso de fertilizantes em lavouras pode ocasionar poluição do lençol freático”. Certo: o nitrato, muito solúvel, desce com a água que infiltra.

No alto, cinco caixas numeradas, ligadas por setas da esquerda para a direita: 1, entra nutriente, nitrogênio e fósforo de esgoto, adubo e fossas; 2, floração, algas proliferam e a água fica verde e turva; 3, morte em massa, as células morrem e afundam; 4, decomposição, bactérias aeróbias consomem o oxigênio; 5, falta de oxigênio, peixes morrem asfixiados e forma-se gás sulfídrico. Abaixo, um gráfico do oxigênio dissolvido, em miligramas por litro, ao longo de 48 horas, com faixas cinza nas noites. A curva azul, de um lago pobre em nutrientes, fica perto de 8 o tempo todo. A curva verde, de um lago eutrofizado, sobe até 14 por volta das 15 horas e cai abaixo de 2 por volta das 6 horas, cruzando uma linha tracejada vermelha em 3 miligramas por litro, abaixo da qual a maioria dos peixes de água doce sofre.
Os cinco passos da eutrofização e o que eles fazem com o oxigênio da água ao longo de dois dias. No lago eutrofizado, a mesma biomassa de algas produz oxigênio em excesso à tarde e o consome de madrugada. Curvas esquemáticas, não medidas de um lago real. Diagrama autoral.

Por que os peixes morrem de madrugada

O gráfico da figura explica um detalhe que parece contradizer a história. No lago eutrofizado, o oxigênio da tarde é mais alto que no lago limpo, porque bilhões de algas fazem fotossíntese ao mesmo tempo. À noite, a fotossíntese para, e a respiração das algas vivas e dos decompositores continua. O oxigênio cai hora a hora e atinge o mínimo pouco antes do amanhecer. É por isso que a mortandade é encontrada de manhã. No fundo, onde a luz não chega em hora nenhuma, o oxigênio fica baixo o tempo todo.

"Algas produzem oxigênio, logo a eutrofização oxigena o lago"

A primeira parte é verdadeira e a conclusão é falsa. O oxigênio produzido de dia fica na camada iluminada da superfície, e parte escapa para o ar. De noite e no fundo só há consumo. E a floração morta alimenta uma decomposição que gasta muito mais oxigênio do que o lago repõe. O saldo é negativo exatamente onde e quando os peixes precisam.

Esgoto, DBO e o perfil de oxigênio rio abaixo

O esgoto leva nutrientes e leva também matéria orgânica, que é decomposta diretamente, sem precisar passar por uma floração. A medida dessa carga é a demanda bioquímica de oxigênio (DBO): a quantidade de oxigênio que os microrganismos consomem para decompor a matéria orgânica de uma amostra de água. DBO alta quer dizer muita matéria orgânica e, portanto, muito oxigênio a ser gasto.

Num rio, a água corre enquanto a decomposição acontece, e o efeito aparece ao longo do percurso.

Exemplo resolvido (ler uma tabela de oxigênio ao longo de um rio). Um rio recebe esgoto sem tratamento em um ponto. A tabela traz o oxigênio dissolvido (OD) e a DBO em seis pontos (dados hipotéticos).

ponto posição em relação ao lançamento OD (mg/L) DBO (mg/L)
P1 5 km antes 8,0 2
P2 1 km depois 6,5 20
P3 10 km depois 3,0 12
P4 20 km depois 1,5 8
P5 40 km depois 4,0 4
P6 70 km depois 7,0 2

Onde o rio está pior? Em P4, a 20 km do lançamento, com 1,5 mg/L. O ponto de menor oxigênio não é o de maior DBO (P2).

Por quê? Em P2 a matéria orgânica acabou de chegar e ainda foi pouco decomposta. Enquanto a água desce, as bactérias respiram e gastam oxigênio mais depressa do que a superfície do rio o repõe. O OD cai até P4, mesmo com a DBO já diminuindo.

Por que o rio se recupera? Depois de P4 resta pouca matéria orgânica (DBO de 8 para 2 mg/L). O consumo diminui, e a reposição continua: o oxigênio do ar se dissolve na superfície, ajudado pela turbulência. O OD sobe para 4,0 e 7,0 mg/L. É a autodepuração do rio.

Conferência. Nos extremos, DBO baixa acompanha OD alto (P1 e P6). O mínimo de OD vem depois do máximo de DBO, como deve ser quando uma coisa causa a outra com atraso. A recuperação tem limite: se outra cidade lançar esgoto no km 30, a segunda queda começa antes de a primeira terminar.

Gráfico de linhas com a distância em quilômetros no eixo horizontal, de 20 quilômetros antes a 80 quilômetros depois do lançamento do esgoto, e miligramas por litro no eixo vertical. Uma linha vertical pontilhada marca o lançamento no quilômetro zero. A curva azul contínua, do oxigênio dissolvido, vale 8 antes do lançamento, cai para 6,5 no quilômetro 1, 3 no quilômetro 10 e atinge o mínimo de 1,5 no quilômetro 20; depois sobe para 4 no quilômetro 40 e 7 no quilômetro 70. A curva laranja tracejada, da DBO, salta de 2 para 20 logo depois do lançamento e cai para 12, 8, 4 e 2. Uma linha tracejada vermelha horizontal marca 5 miligramas por litro, o limite mínimo de oxigênio da classe 2. Faixas de fundo identificam as zonas de águas limpas, degradação, decomposição ativa, recuperação e águas limpas.
Oxigênio dissolvido (linha contínua) e DBO (linha tracejada) ao longo de um rio que recebe esgoto, com os dados da tabela. O mínimo de oxigênio aparece quilômetros abaixo do lançamento. Dados hipotéticos. Diagrama autoral.

A solução ataca o primeiro passo: tratar o esgoto antes de lançá-lo. O tratamento convencional remove a matéria orgânica; para evitar a eutrofização de um lago, é preciso retirar também o fósforo, numa etapa adicional.

O lago que Brasília adubou e depois limpou

O Lago Paranoá, o lago artificial de Brasília, recebeu por décadas esgoto que passava só por tratamento primário. De 1976 a 1992 esteve eutrofizado, com florações de cianobactérias, como a de 1978, e episódios de mortandade de peixes nas décadas de 1970 e 1980. A reversão veio pelo primeiro passo da sequência. Em 1993 e 1994, as duas estações de tratamento que lançam no lago foram ampliadas e ganharam tratamento terciário, a etapa que retira nutrientes do efluente. Com menos fósforo chegando, as florações diminuíram, e nos anos seguintes o lago passou a ser classificado em condições melhores. O lago não foi desinfetado. Deixou de ser adubado.

Poluição em nível de prova: chuva ácida, inversão térmica, resíduos, óleo e lama

Poluição é a introdução, no ar, na água ou no solo, de matéria ou energia em quantidade capaz de causar dano. Os casos abaixo são os que os exames pedem, cada um com o seu mecanismo.

Chuva ácida. A queima de carvão e de derivados de petróleo com enxofre lança no ar dióxido de enxofre (SO₂); motores e fornalhas produzem óxidos de nitrogênio (NOₓ). Na atmosfera, esses gases reagem com a água e formam ácido sulfúrico e ácido nítrico, que voltam com a chuva. A chuva sem poluição já é levemente ácida, com pH em torno de 5,6, por causa do CO₂ dissolvido; chama-se chuva ácida a que tem pH abaixo desse valor. Ela acidifica lagos e solos, danifica a vegetação e corrói monumentos e construções. Os gases viajam com o vento, e a chuva ácida pode cair longe da fonte.

Inversão térmica. Normalmente o ar junto ao solo é mais quente e menos denso que o ar acima dele; sobe e leva os poluentes. Em manhãs frias e sem vento, uma camada de ar quente pode ficar sobre o ar frio da superfície. O ar frio, mais denso, não sobe, e os poluentes se acumulam perto do chão. O fenômeno é natural; o problema é o que as cidades põem embaixo da camada.

Resíduos sólidos. O lixo orgânico enterrado sem oxigênio produz metano e um líquido escuro, o chorume, que contamina o solo e a água subterrânea. No lixão, o despejo é feito a céu aberto, sem proteção nenhuma. No aterro sanitário, o solo é impermeabilizado, o chorume e o gás são drenados, e o lixo é coberto todos os dias. A resposta que vem antes do aterro é a ordem de prioridade dos três verbos: reduzir (não gerar o resíduo), reutilizar (usar de novo o mesmo objeto, sem transformá-lo) e reciclar (transformar o material em matéria-prima de outro produto). O PAS 1 de 2021 (item 74) considerou certo que “o tripé reduzir, reutilizar e reciclar é uma prática sustentável a ser adotada”. Em 2007 (item 15), considerou errado que reciclagem e reutilização “devem ser usados como sinônimos”, com o exemplo de latas e vidros “desfeitos e transformados em novos produtos” que teriam sido “reutilizados”. Foram reciclados.

Plástico. O plástico comum não é decomposto pelos microrganismos em tempo útil: fragmenta-se em pedaços cada vez menores, os microplásticos, que são ingeridos por animais aquáticos e entram na cadeia alimentar. Tartarugas, aves e mamíferos marinhos morrem por ingerir ou se enroscar em plástico maior.

Óleo. O petróleo derramado no mar forma uma película que barra a luz e a troca de gases, cobre penas e pelos, intoxica larvas e ovos e se acumula nos tecidos dos animais.

Poluentes que se concentram na cadeia. Metais pesados, como o mercúrio do garimpo, e alguns agrotóxicos persistentes não são eliminados pelos organismos e aumentam de concentração a cada nível trófico. O PAS 1 de 2010 (item 95) descreveu o processo e o item foi considerado certo: algumas substâncias “entram na cadeia alimentar e aumentam sua concentração nos organismos a cada nível trófico”. O mecanismo está em cadeias e teias alimentares.

Um efeito indireto. A poluição da água pode desorganizar populações que ela não atinge diretamente. O PAS 2 de 2024 (item 79) afirmou que a alteração do tamanho de populações de peixes “causada pela poluição das águas ocasiona desequilíbrio nas populações de inseto”. Certo: os peixes comem larvas aquáticas de insetos; menos peixes, mais insetos.

Mariana, 2015: um desastre lido com as três perguntas

Em 5 de novembro de 2015, rompeu-se a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana (MG). Segundo o laudo técnico preliminar do Ibama, a barragem continha cerca de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro; 34 milhões foram lançados de imediato, e o restante continuou a escoar. A lama matou 19 pessoas, percorreu 663 km de rios e chegou ao oceano Atlântico, pela foz do rio Doce, em 21 de novembro. Em 25 de janeiro de 2019, outra barragem de rejeitos, da Vale, rompeu-se em Brumadinho (MG): foram cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos e 272 mortes.

O PAS 1 de 2016 pediu o mecanismo num item (item 62): “A lama torna-se um fator devastador dos ecossistemas aquáticos, por dificultar a entrada de energia luminosa, o que reduz a produtividade dos organismos que ocupam a base da pirâmide de energia na cadeia alimentar desses ecossistemas”. Certo. Aplicadas as três perguntas: a pressão é a lama; o mecanismo citado no item é a turbidez, que barra a luz e derruba a fotossíntese do fitoplâncton e das plantas aquáticas; a resposta é a queda da produtividade primária, que se propaga para todos os níveis da cadeia. O item cita um mecanismo. Há outros, que uma resposta discursiva deveria incluir: o soterramento do fundo e das margens, o entupimento das brânquias dos peixes, a destruição da mata das margens, a interrupção da captação de água das cidades.

Conservar: proteger sem usar, usar com regra, ligar e restaurar

A lei brasileira separa dois termos que a língua comum mistura. Preservação é a proteção de espécies, habitats e ecossistemas a longo prazo; nas áreas de proteção integral, significa mantê-los livres de alteração humana, admitido só o uso indireto dos recursos. Conservação é o termo mais amplo: a Lei 9.985 a define como o manejo do uso humano da natureza, que compreende a preservação, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente. Preservar é uma das maneiras de conservar.

Unidades de conservação: dois grupos, doze categorias

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), criado pela Lei 9.985, de 2000, organiza as áreas protegidas em dois grupos.

grupo o que se permite categorias
proteção integral só o uso indireto dos recursos: pesquisa, educação e, em algumas categorias, visitação. Não se coleta, não se caça, não se extrai estação ecológica, reserva biológica, parque nacional, monumento natural, refúgio de vida silvestre
uso sustentável uso direto de parte dos recursos, com regras fixadas no plano de manejo: moradia, extrativismo, agricultura, pesca, conforme a categoria área de proteção ambiental (APA), área de relevante interesse ecológico, floresta nacional, reserva extrativista, reserva de fauna, reserva de desenvolvimento sustentável, reserva particular do patrimônio natural

O que separa os grupos é o tipo de uso, e não a presença de pessoas. Um parque nacional é de proteção integral e recebe visitantes. Uma APA é de uso sustentável e pode ter cidades inteiras dentro. Dentro do primeiro grupo, as regras também variam: a reserva biológica e a estação ecológica são as mais restritivas e não admitem visitação pública, a não ser com objetivo educacional; o parque nacional tem a visitação entre as suas finalidades.

Em julho de 2026, o Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, mantido pelo Ministério do Meio Ambiente, reunia 3 576 unidades federais, estaduais e municipais: 1 127 de proteção integral e 2 449 de uso sustentável, das quais 1 500 são reservas particulares. No plano internacional, o Marco Global de Kunming-Montreal, adotado em 2022 pelos países da Convenção sobre Diversidade Biológica, fixou a meta de conservar pelo menos 30 % das áreas terrestres e marinhas até 2030.

O PAS 1 de 2025 (item 88) explorou a diferença entre duas categorias do mesmo grupo: “O atol das Rocas é uma reserva biológica sob proteção integral do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), de modo que é cobrada de visitantes e turistas uma taxa de preservação ambiental de acordo com os dias de permanência na área”. Errado. A primeira metade está certa; a consequência, depois de “de modo que”, é a regra de outra categoria. Reserva biológica não recebe turistas.

Gente dentro: o que os itens já perguntaram

A ideia de que conservar exige retirar as pessoas foi posta em item no PAS 3 de 2025 (item 66). O texto-base descrevia práticas indígenas de manejo da terra que “colaboravam para a conservação da floresta”, e o item concluía que, “para preservar a biodiversidade, é necessário que as áreas de conservação estejam desocupadas por populações humanas”. Errado: o texto dizia o contrário, e sete das doze categorias do SNUC são de uso sustentável, várias delas com moradores, como a reserva extrativista e a APA. O que decide o efeito é o modo de uso. No PAS 1 de 2025 (item 71), a banca nomeou a relação: “A interação histórica entre comunidades humanas e o ambiente em práticas de manejo sustentável no cerrado é conhecida como sociobiodiversidade”. Certo.

As terras indígenas não são unidades de conservação: são regidas pela Constituição, e não pelo SNUC. Os dados de satélite mostram, porém, o efeito do modo de uso. Elas ocupam 13 % do país e perderam menos de 1 % de sua vegetação nativa entre 1985 e 2024, contra 21 % nas áreas privadas (MapBiomas, Coleção 10). O dado mede um modo de uso do território. Não autoriza concluir que toda presença humana conserva, nem que toda presença humana degrada.

Fora das unidades: área de preservação permanente e reserva legal

Grande parte da vegetação nativa do país está fora das unidades de conservação, em propriedades rurais, onde vale o Código Florestal (Lei 12.651, de 2012). Ele cria duas obrigações.

  • Área de preservação permanente (APP): faixas que não podem ser desmatadas, qualquer que seja o tamanho da propriedade. Incluem as margens dos rios (30 m de cada lado nos cursos de água com menos de 10 m de largura, e mais nos rios maiores), o entorno das nascentes (raio de 50 m), as encostas com mais de 45° de inclinação e os topos de morro. Protegem a água e o solo por meio da vegetação.
  • Reserva legal: fração de cada propriedade rural que deve manter vegetação nativa, podendo ser usada com manejo sustentável. Na Amazônia Legal, é de 80 % nas áreas de floresta, 35 % nas de cerrado e 20 % nas de campos gerais; nas demais regiões do país, é de 20 %.

As matas das margens dos rios, protegidas como APP, formam uma rede que liga fragmentos: são os corredores ecológicos mais comuns da paisagem brasileira. E a conta da borda mostra que uma reserva legal em um bloco, encostada na APP, vale mais para a biodiversidade que a mesma área em retalhos.

Dentro e fora do habitat, e o que restaurar quer dizer

Conservação in situ é a que se faz no lugar em que a espécie vive: unidades de conservação, terras protegidas, corredores, manejo de populações. Conserva a espécie junto com as relações que ela mantém e com o ambiente em que continua a evoluir. Conservação ex situ é a que se faz fora do habitat: zoológicos, jardins botânicos, criadouros, bancos de sementes e de material genético. Guarda indivíduos e genes, permite a reprodução em cativeiro e a reintrodução, mas não conserva o ecossistema. As duas se completam; a segunda não substitui a primeira.

Restauração ecológica é a recuperação de um ecossistema degradado na direção do que ele era: as espécies nativas da região, a estrutura da vegetação e os processos, como a ciclagem de nutrientes e a dispersão de sementes. Não é sinônimo de plantar árvores. Num campo ou numa savana, restaurar inclui devolver os capins e arbustos nativos; plantar floresta ali seria trocar um ecossistema por outro. O processo natural que a restauração conduz é a sucessão ecológica.

Sustentabilidade com régua: taxa de uso, taxa de reposição

A definição mais citada é a do relatório Nosso Futuro Comum (1987), da comissão da ONU presidida por Gro Harlem Brundtland: desenvolvimento sustentável é o que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas. A frase não diz como medir. A ecologia fornece a medida.

Sustentabilidade em três condições

Recursos renováveis (peixes, madeira, água de um aquífero, solo): usar a uma taxa menor ou igual à taxa de reposição. Recursos não renováveis (petróleo, minérios, fosfato): usar cada vez menos e substituir, porque não há reposição em escala humana. Resíduos (esgoto, CO₂, lixo): gerar a uma taxa menor ou igual à capacidade do ambiente de absorvê-los. A conta só fecha se incluir quem vive do recurso: a dimensão social e a econômica são parte da definição.

As três condições reorganizam a página inteira. A sobre-exploração viola a primeira. A eutrofização e a intensificação do efeito estufa violam a terceira: nutriente e CO₂ lançados mais depressa do que o lago e a atmosfera conseguem absorver. O limite que o ambiente impõe ao tamanho de uma população, a capacidade de suporte, está em dinâmica populacional.

Pegada ecológica é a estimativa da área produtiva necessária para fornecer o que uma pessoa, uma cidade ou um país consome e para absorver os resíduos que gera. Compara-se com a biocapacidade, a área produtiva disponível. Pegada maior que biocapacidade significa consumir estoque. Pelas contas da Global Footprint Network, a humanidade usou em 2026 o equivalente a 1,73 planeta: o Dia da Sobrecarga da Terra, data em que o consumo do ano ultrapassa o que os ecossistemas repõem no ano, caiu em 30 de julho. Como toda estimativa agregada, ela serve para comparar e para localizar as maiores parcelas do consumo.

Matéria se recicla; energia, não

Vidro, metal, papel e nutrientes podem voltar ao ciclo. A energia não: a cada uso, parte dela se dissipa como calor e não pode ser reaproveitada para o mesmo trabalho. “Reciclar a energia” é expressão sem sentido físico. E “sustentável” não é sinônimo de “reciclável”: reciclar é o terceiro verbo da lista, depois de reduzir e reutilizar, porque ainda consome coleta, transporte, água e energia.

Como ler gráfico, mapa e tabela de impacto

Desmatamento por ano. O gráfico de barras do PRODES mostra uma taxa: quanto foi desmatado em cada período de doze meses. Uma barra menor que a anterior significa que se desmatou menos naquele ano, e não que a floresta voltou a crescer. Para saber quanto foi perdido no total, somam-se as barras. Antes de comparar dois biomas, confira se o gráfico está em área (km²) ou em porcentagem, e porcentagem de quê.

Curva de CO₂. O gráfico de Mauna Loa mostra um estoque: a concentração que está no ar. A inclinação da curva é a taxa de aumento, em ppm por ano, e ela cresceu: de 316,91 ppm em 1960 a 369,71 ppm em 2000 são 1,3 ppm por ano; de 2000 a 427,35 ppm em 2025, 2,3 ppm por ano (NOAA). A conta trecho a trecho e o serrilhado de cada ano estão em ciclos biogeoquímicos. Compare com o gráfico do desmatamento: lá, uma barra menor é uma perda mais lenta; aqui, mesmo que as emissões caiam, a concentração continua a subir enquanto entrar mais CO₂ do que sai. Sozinha, a série não informa de onde vem o carbono nem quanto a temperatura subiu; para isso servem as outras linhas de evidência.

Perfil de oxigênio. Num rio, leia o oxigênio dissolvido da nascente para a foz e procure o ponto de mínimo: ele fica abaixo do lançamento, e não nele. Num lago, pergunte a que horas e em que profundidade a medida foi feita: o valor da tarde, na superfície, pode ser alto num lago que fica sem oxigênio de madrugada.

Tabela de emissões por setor. Verifique se os valores estão em CO₂ ou em CO₂ equivalente e se são emissões brutas ou líquidas (descontado o que a vegetação em crescimento remove).

Os erros que a prova planta

  1. Mecanismo trocado entre estufa e ozônio. “O buraco na camada de ozônio causa o aquecimento global”, “o CO₂ destrói a camada de ozônio”, “o calor entra pelo buraco”. Ultravioleta, CFC e estratosfera são de um problema; infravermelho, CO₂ e aquecimento, de outro.
  2. Efeito estufa tratado como mal em si. O fenômeno é natural e necessário; o problema é a intensificação (2021, item 34).
  3. Fonte de um gás dada a outro. CO₂ atribuído a fertilizantes, N₂O a aerossóis (2024, item 41). Metano é da pecuária e da decomposição sem oxigênio, e não da decomposição aeróbica (2010, item 97).
  4. Eutrofização pelo avesso. “Diminuição de nutrientes” (2022, item 59); peixes “envenenados” pelo adubo; algas que “oxigenam” o lago. Excesso de nutriente no começo, falta de oxigênio no fim.
  5. Reduzir confundido com remover. Energia eólica, transporte coletivo e menos lixo reduzem emissões. Só a fotossíntese que acumula biomassa remove CO₂ (2019, item 96).
  6. Plantar eucalipto como recuperação da mata. Monocultura de árvores exóticas não repõe a biodiversidade (2022, item 71; 2021, item 17).
  7. Exótica tomada por invasora, e vice-versa. Exótica é definição geográfica (2011, item 74). Invasora exige população estabelecida e impacto. Introduzir espécies não equilibra ecossistema (2023, item 59).
  8. Dano da invasora medido pelo nível trófico. Produtores e herbívoros também invadem (2011, itens 68 e 69).
  9. Desmatamento que “dispersa” espécies. Espécie endêmica não muda de bioma; desmatar elimina populações (2024, item 32).
  10. Riqueza, abundância e endemismo misturados. Muitos indivíduos não é muitas espécies; poucas espécies exclusivas não é pobreza (2018, item 41).
  11. Porcentagem sem base. 59 % do total desmatado no país não é 59 % do bioma. Queda da taxa não é recuperação da área.
  12. Regra de uma categoria colada em outra. Reserva biológica com turistas (2025, item 88); proteção integral entendida como ausência total de pessoas.
  13. Conservação só sem gente. Sete das doze categorias do SNUC são de uso sustentável, e várias têm moradores; o critério é o modo de uso (PAS 3 2025, item 66).
  14. Reciclar e reutilizar como sinônimos (2007, item 15), e “reciclar a energia”.
  15. Biótico na coluna do abiótico. No item discursivo, o impacto certo na coluna errada não pontua (2014, item 70).

Como a prova cobra. A lista de exercícios desta página reúne 25 itens da 1.ª etapa do PAS sobre o assunto, aplicados de 2007 a 2025, como itens próprios. Vinte e três são de julgamento: catorze certos e nove errados. Há um de múltipla escolha (2024, item 41, sobre as fontes dos gases de efeito estufa) e um discursivo (2014, item 70, sobre impactos bióticos e abióticos da soja no Cerrado). Os nove itens errados têm o mesmo desenho: uma frase plausível com um termo trocado (nutrientes que “diminuem”, espécie “nativa” que é exótica, reserva biológica com “turistas”, espécies que “se dispersam” com o desmatamento, pesca “sem impactos relevantes”). Os certos, em geral, descrevem uma cadeia de causa e efeito completa, às vezes longa e com verbos como “tende” e “pode”. Comprimento e modalização não são sinal de erro. Quase todos os itens vêm presos a um texto-base de outra natureza (uma canção, uma tirinha, uma reportagem sobre recifes, um texto sobre um aqueduto romano), e o item de Biologia aproveita uma palavra do texto. No ENEM, o assunto aparece em situações-problema. Em 2025, uma questão pediu a ação que remove CO₂ da atmosfera, e outra perguntou que problema se evita quando as sobras de um biodigestor viram fertilizante em vez de serem descartadas: a eutrofização dos corpos de água.

O essencial em meia página

  • Três perguntas: qual a pressão, qual o mecanismo, qual a resposta medida. O erro típico é o mecanismo de um impacto colado na pressão de outro.
  • Biodiversidade: genética, de espécies e de ecossistemas. Riqueza (quantas espécies) não é abundância (quantos indivíduos). Endêmica: só ocorre ali. Hotspot: pelo menos 1 500 plantas endêmicas e 70 % da vegetação perdida; no Brasil, Mata Atlântica e Cerrado. Serviços ecossistêmicos: provisão, regulação, suporte e culturais.
  • Biomas: toda porcentagem tem um “de quê” e um “desde quando”. Taxa anual de desmatamento não é área acumulada.
  • Cinco pressões: mudança de uso da terra, exploração direta, clima, poluição, invasoras.
  • Fragmentação: interior = (lado − 2 × borda)². 100 ha em um bloco têm 64 % de interior; em dez pedaços, 13,5 %. Corredores ligam fragmentos.
  • Desmatamento: mais calor na superfície, menos água retida, carbono no ar, erosão, perda de espécies (2023, item 15). No discursivo, separar biótico de abiótico (2014, item 70).
  • Sobre-exploração: retirada maior que a reposição. Tamanho mínimo e defeso protegem a reposição (2023, item 60).
  • Exótica → estabelecida → invasora: fora da área natural; população que se mantém; impacto medido. Água de lastro é via de invasão (2011, itens 73 e 74; 2023, item 59). Eucalipto é australiano (2021, item 17).
  • Efeito estufa: luz visível entra, infravermelho é retido por H₂O, CO₂, CH₄ e N₂O. Natural (15 °C em vez de −18 °C) e intensificado. CO₂: fósseis e desmatamento. CH₄: pecuária e decomposição sem oxigênio. N₂O: adubo nitrogenado (2024, item 41).
  • Evidências: CO₂ medido no ar (de cerca de 280 ppm a mais de 427 ppm), gelo, isótopos, termômetros (+1,1 °C em 2011–2020, IPCC). Tempo não é clima.
  • Mitigar × adaptar; reduzir × remover: só a fotossíntese que acumula biomassa remove CO₂. Parar de desmatar reduz; restaurar remove.
  • Ozônio: ultravioleta, CFC, estratosfera, Protocolo de Montreal (1987), em recuperação. Não é a causa do aquecimento.
  • Eutrofização: nutrientes → floração → morte → decomposição consome O₂ → asfixia. Não é “diminuição de nutrientes” (2022, item 59). Peixes morrem de madrugada. DBO: oxigênio necessário para decompor a matéria orgânica; num rio, o mínimo de oxigênio fica abaixo do lançamento.
  • Poluição: chuva ácida (SO₂ e NOₓ); inversão térmica (ar frio preso sob ar quente); lixão × aterro; reduzir, reutilizar, reciclar, nessa ordem (2021, item 74; 2007, item 15); lama e turbidez derrubam a fotossíntese (2016, item 62).
  • Conservação: preservar (sem uso direto) é parte de conservar. SNUC: proteção integral (reserva biológica sem turismo, parque com visitação) e uso sustentável (APA, reserva extrativista). APP e reserva legal nas propriedades. In situ no habitat, ex situ fora dele. Restaurar não é plantar qualquer árvore.
  • Sustentabilidade: uso de renováveis abaixo da reposição, não renováveis cada vez menos, resíduos abaixo da absorção. Matéria se recicla; energia, não.
  • Vizinhos: etapas dos ciclos em ciclos biogeoquímicos; magnificação em cadeias e teias alimentares; populações pequenas e capacidade de suporte em dinâmica populacional; controle biológico em relações ecológicas; o bioma em Cerrado; restauração como processo em sucessão ecológica; esgoto e doenças em saneamento e saúde coletiva.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

As atividades humanas que ameaçam a biodiversidade | Biologia | Khan Academy
Khan Academy Brasil · 12:55
Introdução. Aula da California Academy of Sciences dublada pela Khan Academy Brasil. Organiza as ameaças locais à biodiversidade em quatro grupos: exploração de recursos, poluição (inclusive o esgoto e as zonas sem oxigênio criadas pelo excesso de fertilizante), mudança no uso da terra com destruição de habitat e introdução de espécies exóticas. É o panorama da seção “As cinco grandes pressões sobre a biodiversidade”; a quinta pressão, a mudança do clima, fica fora deste vídeo. Os exemplos não são brasileiros: ao assistir, troque cada um por um caso desta página.
Inversão térmica, Efeito estufa e Camada de ozônio - Aula 15 - Módulo VIII: Ecologia | Prof. Gui
Prof. Guilherme Goulart - Biologia · 13:32
Aprofundamento. O professor trata, em três blocos separados, da inversão térmica, do aumento do efeito estufa com o aquecimento global e da destruição da camada de ozônio pelos CFC, que liberam cloro sob radiação ultravioleta. É a matéria das seções “Efeito estufa: natural, necessário e intensificado” e “Camada de ozônio: outro problema, outro gás, outra radiação”, além do trecho sobre inversão térmica. Assista com o quadro comparativo desta página ao lado e preencha as linhas enquanto ouve. Dois avisos: a aula usa um valor antigo para o metano (21 vezes o CO₂; o relatório de 2021 do IPCC dá cerca de 27 a 30) e não menciona o Protocolo de Montreal.
ESPÉCIES EXÓTICAS | Prof. Paulo Jubilut
Paulo Jubilut · 15:24
Aplicação. A aula parte do javali e explica por que uma espécie levada para fora da sua área natural prospera sem os predadores de origem. Separa a introdução acidental (mexilhão-dourado e coral-sol, pela água de lastro e por estruturas flutuantes) da intencional e passa por peixe-leão, caramujo-africano e abelha africana. Corresponde à seção “Exótica, estabelecida, invasora: três degraus, não um rótulo”. Para cada espécie citada, decida em que degrau ela está e que dado justifica a classificação. O vídeo é de 2019 e não cobre a expansão posterior do peixe-leão.
IMPACTOS AMBIENTAIS NA PROVA QUESTÃO 3 ENEM PPL 2021
BIOLOGIA NA VEIA COM PROF. GIAN BRITO · 6:57
Resolução de questão. O professor resolve um item do ENEM PPL 2021 sobre um lago com peixes mortos e decomposição intensa: fala de esgoto, decompositores aeróbios, queda do oxigênio, DBO, nitratos e fosfatos, e elimina as alternativas até chegar à eutrofização. Use depois da seção “Eutrofização em cinco passos: sobra nutriente, falta oxigênio”: pause no enunciado, escreva os cinco passos e só então compare com a resolução.
Rota PAS 1
Ecologia II e a origem da vida: ciclos, impactos e começos · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Ecologia II e a origem da vida: ciclos, impactos e começos · Antes de começar; Efeito estufa, desmatamento e eutrofização: quando as setas são aceleradas (itens 2021/34, 2022/59, 2022/60, 2019/51); Cerrado (itens 2023/60 e 2018/41); Leia como na prova (2024/32); Como a banca cobra este capítulo (2024/41, tipo C, e 2014/70, tipo D); Exercícios 5, 6, 8, 9 e 10; Banco de treino T10 a T14 (2023/15)

    Recorte por assunto: só impactos, conservação e sustentabilidade. As etapas dos ciclos, o Cerrado como bioma, a sucessão ecológica e a origem da vida, do mesmo capítulo, ficam nas páginas próprias.

  • Biologia EM1 — Capítulo 10: Ecologia II, ciclos biogeoquímicos e o clima · O efeito estufa: natural, necessário e intensificado; A camada de ozônio é outro problema; Como sabemos: gelo, isótopos, termômetros; Reduzir não é remover: o Brasil, a floresta e a sua pegada; Eutrofização: quando o adubo chega ao lago (cinco etapas, Lago Paranoá, curva de oxigênio em 48 horas); exercícios 5, 7, 9 a 17 e 20 a 22

    Fonte dos mecanismos e das tabelas de gases. Os dados numéricos (NOAA, IPCC, OMM, SEEG, INPE, PNUMA/OMM) foram conferidos nas fontes primárias em 2/10/2026 e atualizados quando havia valor mais recente.

  • Biologia EM1 — Capítulo 12: Ecologia IV, Cerrado, impactos, conservação e saúde · Seis biomas: onde o Brasil está, e quanto ainda resta de cada um; Impactos: o que a conversão faz além de tirar árvores (lista vermelha, fragmentação e efeito de borda, monocultura, queimadas); Conservar: leis, áreas protegidas e gente dentro (SNUC, Código Florestal, restauração); Sustentabilidade: uma definição que dá para medir

    O Cerrado como território e a seção de saúde pública do mesmo capítulo pertencem às páginas cerrado e saneamento-e-saude-coletiva.

  • Biologia EM1 — Capítulo 11: Ecologia III, relações, populações e sucessão · Exótica, estabelecida, invasora: três degraus, não um rótulo (água de lastro, exemplos brasileiros, eucalipto, nativa que vira praga)

    Só a seção de espécies exóticas; relações ecológicas, populações e sucessão ficam nas páginas próprias.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 10 (itens reais com textos-base) · Textos-base I (2021, item 34), III (2022, itens 59 e 60) e IV (2024, item 41, com a figura descrita); gabarito comentado

    Itens reproduzidos verbatim, com os textos-base e os gabaritos oficiais.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 12 (itens reais com textos-base) · Textos-base I (2024, item 32), II (2023, item 15, com o mapa transcrito), III (2025, item 71), IV (2025, item 88, e texto-base do item 90), V (2023, item 60), VI (2022, item 71), VII (2019, item 96), X (2021, item 74), XI (2007, item 15) e XII (2014, item 70, tipo D); gabarito comentado e espelho do tipo D

    O texto do item 2007/15 está no bloco do Capítulo 10 (texto-base VI).

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 11 (itens reais com textos-base) · Textos-base II (2023, item 59), VI (2021, itens 17 e 19), VII (2011, itens 73 e 74) e XIV (2007, item 100); gabarito comentado

    O item 2011/68, do mesmo texto-base VII, pertence à página cadeias-e-teias-alimentares e é referenciado por GUID; o item 2011/69 é só citado na teoria.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 9 (itens reais com textos-base) · Texto-base III (2019, item 66: pesca predatória e derramamento de óleo)

    O item 2019/67, do mesmo texto, pertence à página cadeias-e-teias-alimentares e é só citado na teoria.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 7 (itens reais com textos-base) · Texto-base V (2018, item 62: CO₂ nas grandes cidades e efeito estufa), com a figura descrita

    Gabarito oficial C.

  • Rota PAS 1 — capítulo de Geografia da Parte IV · Unidades de conservação: o que cada categoria permite (texto-base de 2025 e itens reais 2025/88 e 2025/90, com gabarito)

    Enunciado e gabarito (E) do item 2025/90; o texto-base do bloco está no Bloco PAS do Capítulo 12 do EM1 (texto-base IV).

  • Rota PAS 2 — capítulo de Biologia da Parte III (grupos vegetais e Cerrado) · Itens reais PAS 2 2018/68 (agrotóxicos e perda de biodiversidade) e 2024/79 (poluição das águas, peixes e insetos)

    Itens autossuficientes; os textos-base dos blocos não estão reproduzidos no capítulo.

  • Rota PAS 3 — capítulo de Biologia da Parte III (evolução) · Leia como na prova: o bloco do cupuaçu (texto-base e item PAS 3 2025/66)

    Item sobre conservação com presença humana, julgado pelo texto-base reproduzido.

  • Biologia EM1 — Respostas dos Capítulos 10 e 12 · Checagens 6 a 10; exercícios de efeito estufa, ozônio e eutrofização

    Conferência de gabaritos e de distratores. As respostas do Capítulo 12 estão em resp12.tex, na mesma pasta.