Ciclos biogeoquímicos

Guia de estudo · Revisado em 02/10/2026

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O carbono do arroz do almoço e o carbono do diesel do ônibus saem para o ar como a mesma molécula, e o pé de feijão vive cercado de um ar que é 78 % nitrogênio sem conseguir usar um átomo dele. Como descobrir, em cada ciclo, de que reservatório o átomo saiu, quem o moveu e quanto tempo ele leva para voltar?

O que você vai aprender

  • Explicar por que a matéria circula e a energia flui, e descrever um ciclo biogeoquímico por reservatórios, fluxos e agentes.
  • Calcular o tempo de residência de um elemento em um reservatório (estoque dividido pelo fluxo de saída) e montar um balanço de entradas e saídas.
  • Descrever o ciclo da água (evaporação, transpiração, evapotranspiração, condensação, precipitação, infiltração, escoamento), distinguir pequeno e grande ciclo e converter milímetros de chuva em litros por metro quadrado.
  • Explicar o papel da vegetação na reciclagem da chuva (rios voadores) e prever o efeito do desmatamento sobre a evapotranspiração, a infiltração e o escoamento.
  • Indicar o sentido de cada processo do ciclo do carbono (fotossíntese, respiração, decomposição, combustão, troca com o oceano) e distinguir o ciclo rápido do ciclo lento, situando os combustíveis fósseis.
  • Diferenciar estoque, sumidouro e fonte de carbono em florestas em crescimento, maduras e queimadas.
  • Ler a curva de CO₂ de Mauna Loa, separando a oscilação anual da tendência, e calcular taxas de aumento e a fração das emissões que permanece no ar.
  • Relacionar o ciclo do oxigênio ao do carbono e justificar que o gás oxigênio liberado na fotossíntese provém da água.
  • Nomear as cinco etapas do ciclo do nitrogênio, a transformação química e o agente de cada uma (fixação, amonificação, nitrificação, assimilação, desnitrificação), sem trocar fixadoras, nitrificantes e desnitrificantes.
  • Explicar por que leguminosas enriquecem o solo e como rotação de culturas, adubação verde e inoculação da soja usam a fixação biológica.
  • Descrever o ciclo do fósforo como ciclo sedimentar, sem fase gasosa, e explicar por que o fósforo costuma ser o nutriente limitante.
  • Julgar itens do tipo Certo/Errado e de múltipla escolha sobre ciclos conferindo elo, agente e sentido da seta.

Meio-dia em Brasília, começo de outubro. No prato, arroz com feijão; na rua, o ônibus que vai levar você de volta; no céu, as nuvens da primeira chuva forte da estação. Três átomos desse almoço contam o assunto desta página. O carbono do arroz estava no ar, como gás carbônico, na safra passada: a planta o capturou na fotossíntese, guardou no amido do grão, e você o devolve ao ar pela respiração antes de o dia acabar. O carbono do diesel que o ônibus queima também já esteve no ar, só que há dezenas de milhões de anos: ficou soterrado esse tempo todo e volta em segundos, pelo escapamento. Os dois saem como a mesma molécula, CO2\mathrm{CO_2}. O nitrogênio da proteína do feijão veio do ar, que é 78 % gás nitrogênio, mas o pé de feijão não tirou dali um único átomo por conta própria: quem fez isso foram bactérias instaladas em pequenos nódulos da raiz. E a água da chuva da tarde pode ter saído, dias antes, das folhas de uma árvore a mais de mil quilômetros dali.

Nenhum desses átomos foi gasto. Todos mudaram de lugar e de forma química, e vão mudar de novo. Um ciclo biogeoquímico é a descrição desse vaivém: em que reservatórios o elemento fica (ar, água, solo, rochas, seres vivos), que processos o levam de um a outro e em quanto tempo. Para ler qualquer ciclo, e qualquer item de prova sobre ciclo, bastam três perguntas para cada seta: de onde para onde, quem faz, em que ritmo. Esta página percorre com essas perguntas os ciclos da água, do carbono, do oxigênio, do nitrogênio e do fósforo; mostra como ler um esquema com setas, uma tabela de estoques e a curva de CO2\mathrm{CO_2} medida no Havaí; e termina nos erros que os itens plantam. O caminho da energia pelos níveis tróficos está em pirâmides ecológicas; quem come quem e o trabalho dos decompositores, em cadeias e teias alimentares; o aquecimento global, a camada de ozônio, a eutrofização e a poluição, como problemas, em impactos ambientais e biodiversidade; o bioma e suas águas, em Cerrado. As reações internas da fotossíntese e da respiração celular também têm páginas próprias: aqui elas entram como setas.

Por que “ciclo”? A matéria volta, a energia passa

A Terra recebe energia o tempo todo e quase não recebe matéria. A luz do Sol entra, é capturada pela fotossíntese, passa do produtor ao herbívoro, do herbívoro ao carnívoro, de todos aos decompositores, e em cada passagem a maior parte vira calor. O calor é irradiado para o espaço e nenhum ser vivo consegue recolhê-lo para fabricar açúcar de novo. A energia atravessa o ecossistema uma vez. Com a matéria é diferente: fora alguns meteoritos que chegam e um pouco de gás leve que escapa, o planeta tem hoje praticamente os mesmos átomos de bilhões de anos atrás. Cada átomo de carbono, nitrogênio, fósforo, oxigênio e hidrogênio de uma célula sua já esteve no ar, na água, numa rocha ou em outro ser vivo, e vai estar de novo.

Em linguagem de Física: para a matéria, a Terra é quase um sistema fechado; para a energia, um sistema aberto. Por isso se diz que a matéria circula e a energia flui.

O vocabulário de qualquer ciclo

Ciclo biogeoquímico: percurso de um elemento (ou de uma substância, como a água) entre os seres vivos (bio) e os compartimentos não vivos do planeta (geo), com mudança de forma química (químico) ao longo do caminho. Reservatório (ou compartimento): lugar onde o elemento fica: atmosfera, oceano, águas doces, solo, rochas e sedimentos, seres vivos. A quantidade guardada num reservatório é o estoque. Fluxo: quantidade que passa de um reservatório a outro por unidade de tempo (toneladas por ano, quilômetros cúbicos por ano). Tempo de residência: tempo médio que um átomo passa num reservatório antes de sair.

tempo de resideˆncia=estoque do reservatoˊriofluxo que sai dele\text{tempo de residência} = \frac{\text{estoque do reservatório}}{\text{fluxo que sai dele}}

Estoque e fluxo são coisas diferentes, e confundi-las é a origem de muito erro de leitura. Um reservatório enorme com saída pequena guarda o átomo por milhões de anos: o carbono do calcário e do petróleo. Um reservatório pequeno com saída grande troca tudo em dias: a água do ar. Quando um livro fala em ciclo “rápido” e ciclo “lento” de um mesmo elemento, está comparando tempos de residência.

Modelo geral de um ciclo biogeoquímico. Dentro de uma moldura rotulada Terra, fechada para a matéria e aberta para a energia, há cinco caixas: atmosfera, seres vivos, oceano e águas doces, solo, e rochas e sedimentos. Setas verdes cheias indicam os fluxos rápidos de matéria: da atmosfera para os seres vivos, por fotossíntese e fixação; dos seres vivos para a atmosfera, por respiração; dos seres vivos para o solo, como restos e excretas; do solo para os seres vivos, por absorção; do solo para a atmosfera, por decomposição; e uma seta de duas pontas entre atmosfera e oceano, a troca de gases. Setas cinza tracejadas indicam os fluxos lentos: do solo para as rochas, por soterramento, em milhões de anos; das rochas para o oceano e as águas doces, por intemperismo; e das rochas para a atmosfera, pelos vulcões. Duas setas laranja tracejadas mostram a energia: a luz do Sol entra pela esquerda e chega aos seres vivos, e o calor sai deles para fora da moldura, rumo ao espaço. No rodapé, a fórmula tempo de residência igual a estoque do reservatório dividido pelo fluxo que sai dele, e a legenda das três cores de seta.
O modelo que serve para qualquer ciclo: caixas são reservatórios, setas são fluxos. As setas de matéria (verdes e cinza) fecham dentro do planeta; as de energia (laranja) entram como luz e saem como calor. Diagrama autoral.

Quem move os átomos

Parte das setas é pura física e geologia: a evaporação da água, a dissolução do CO2\mathrm{CO_2} no mar, o desgaste das rochas pela chuva. As outras são trabalho de seres vivos, e três grupos fazem quase tudo.

Os produtores (plantas, algas, cianobactérias) são a porta de entrada: tiram CO2\mathrm{CO_2} do ar e da água, e água e sais minerais do solo, e montam matéria orgânica. Os consumidores passam essa matéria adiante pela alimentação e devolvem parte dela pela respiração, pelas fezes e pela urina. Os decompositores, fungos e bactérias, fecham a volta: desmontam cadáveres, folhas caídas e excretas e devolvem ao ar, ao solo e à água os átomos em forma mineral (CO2\mathrm{CO_2}, amônio, fosfato), que os produtores usam de novo. Sem eles, os nutrientes ficariam presos na matéria morta. O item 16 do PAS 1 de 2007, sobre uma casa que transformava fezes e lixo orgânico em adubo, dizia: “A adubação feita com fezes e demais restos orgânicos encontrados no lixo é possível graças à ação de fungos e bactérias que atuam como decompositores.” Certo.

Há ainda etapas que só microrganismos fazem. Nenhuma planta e nenhum animal retira nitrogênio do ar, transforma amônio em nitrato ou devolve nitrato ao ar como gás. O ciclo do nitrogênio, adiante, é quase inteiro uma lista de bactérias. Quem são esses organismos, como grupo, está em bactérias.

A energia não cicla junto com a matéria

O raciocínio parece bom: a planta faz glicose, o boi come a planta, o boi morre, a bactéria decompõe e “devolve a energia” para a planta. O que a bactéria devolve é matéria: CO2\mathrm{CO_2}, amônio, fosfato. A energia química da glicose saiu como calor na respiração do boi e na da própria bactéria; a planta só recebe energia nova, do Sol. O PAS 1 de 2013 escondeu esse erro num texto sobre combustíveis (item 54): “É transferida entre os seres vivos na cadeia alimentar a energia que foi liberada na queima de petróleo ou de carvão mineral e ficou, por milhões de anos, fora de circulação.” Errado. O que ficou fora de circulação e volta com a queima é o carbono; a energia liberada na combustão vira calor e trabalho e não entra em cadeia alimentar nenhuma.

Exemplo resolvido: quanto tempo a água fica no ar?

A atmosfera guarda, a cada instante, cerca de 13 mil km³ de água, quase toda como vapor. Por ano, evaporam dos oceanos e dos continentes perto de 490 mil km³, que voltam como chuva e neve (valores arredondados de Trenberth e colaboradores, Journal of Hydrometeorology, 2007). O oceano guarda cerca de 1,34 bilhão de km³ e perde por evaporação uns 413 mil km³ por ano. Quanto tempo, em média, uma molécula de água fica no ar? E no mar?

No ar. Como o estoque do ar se mantém, o que sai por ano é igual ao que entra: 490 mil km³.

tar=13 000 km3490 000 km3/ano≈0,027 ano≈10 diast_{\text{ar}} = \frac{13\,000\ \text{km}^3}{490\,000\ \text{km}^3/\text{ano}} \approx 0{,}027\ \text{ano} \approx 10\ \text{dias}

No oceano.

tmar=1,34×109 km34,13×105 km3/ano≈3 200 anost_{\text{mar}} = \frac{1{,}34 \times 10^{9}\ \text{km}^3}{4{,}13 \times 10^{5}\ \text{km}^3/\text{ano}} \approx 3\,200\ \text{anos}

Leitura. A mesma substância tem tempos de residência que diferem por um fator de cem mil, conforme o reservatório. “Rápido” e “lento” são propriedades do reservatório, não da molécula.

Conferência. O resultado do ar combina com o que se observa: bastam poucas semanas sem chuva para o ar ficar seco, o que não aconteceria se a atmosfera guardasse água por anos. E dez dias são tempo suficiente para o vento levar o vapor a milhares de quilômetros, fato que a seção sobre os rios voadores vai usar.

Ciclo da água: os seres vivos estão dentro dele

No ciclo da água, o que circula é a própria molécula: é H2O\mathrm{H_2O} no mar, na nuvem, na folha e no lençol subterrâneo. O que muda é o estado físico e o lugar. Os processos:

  • Evaporação: a água líquida de oceanos, rios, lagos e do solo passa a vapor, com a energia do Sol.
  • Transpiração: a planta absorve água pelas raízes, conduz até as folhas e a perde como vapor pelos estômatos. Animais também devolvem água, pela respiração, pelo suor e pela urina, em quantidade muito menor.
  • Evapotranspiração: a soma da evaporação direta (do solo e das superfícies molhadas) com a transpiração das plantas. É assim que se mede, em conjunto, a água que uma área devolve ao ar.
  • Condensação: o vapor sobe, esfria e forma gotículas: nuvens e neblina.
  • Precipitação: chuva, granizo, neve.
  • Infiltração: parte da água que chega ao chão entra no solo, alimenta o lençol freático e os aquíferos e reaparece, semanas ou meses depois, nas nascentes.
  • Escoamento superficial: a parte que não infiltra corre pela superfície até córregos, rios e, por fim, o mar.
Pequeno ciclo e grande ciclo

Pequeno ciclo (ou ciclo curto): evaporação, condensação e precipitação. É só físico: a água vai do mar, dos rios e do solo para o ar e volta, sem passar por seres vivos. Grande ciclo (ou ciclo longo): inclui os seres vivos. A água é absorvida pelas raízes, percorre a planta e volta ao ar pela transpiração; animais a ingerem e a devolvem. Os dois nomes descrevem trajetos da mesma rede, e não dois sistemas separados: a molécula que hoje faz o trajeto curto pode, na próxima chuva, entrar por uma raiz.

O ciclo desenhado só com Sol, mar, nuvem e chuva é o do oceano. Em terra firme, o caminho principal de volta ao ar passa pelas plantas. Dos cerca de 113 mil km³ de água que caem por ano sobre os continentes, perto de 73 mil km³ retornam ao ar pela evapotranspiração, e os 40 mil km³ restantes chegam ao mar pelos rios e pelo fluxo subterrâneo (Trenberth e colaboradores, 2007). São quase dois terços da chuva continental devolvidos por solo e folhas.

Esquema do ciclo da água em uma paisagem em corte, fora de escala. À esquerda, o oceano; à direita, o continente com uma floresta, um rio que desce até o mar e, sob o solo, a faixa do lençol freático. Setas azuis mostram o pequeno ciclo: evaporação do oceano, 413 mil quilômetros cúbicos por ano; condensação em nuvens; precipitação sobre o oceano, 373 mil. Sobre o continente caem 113 mil quilômetros cúbicos por ano. Setas verdes mostram o grande ciclo: absorção pelas raízes e transpiração das folhas, que junto com a evaporação do solo forma a evapotranspiração, 73 mil. Setas marrons mostram a infiltração até o lençol freático e o fluxo subterrâneo em direção ao mar. Uma seta azul-escura mostra os rios e o escoamento superficial levando 40 mil quilômetros cúbicos por ano de volta ao mar. Uma seta no alto indica o vapor levado pelo vento do oceano para o continente, 40 mil. Um quadro de legenda informa que os fluxos estão em mil quilômetros cúbicos por ano e que o desenho está fora de escala.
O ciclo da água com os fluxos anuais em mil km³ (Trenberth e colaboradores, 2007). Em azul, o trajeto só físico (pequeno ciclo); em verde, o que passa pelas plantas (grande ciclo). O balanço fecha: 413 − 373 = 40 sobre o mar, e 113 − 73 = 40 sobre a terra. Desenho fora de escala. Diagrama autoral.

Uma conta ajuda a ler qualquer dado de chuva. Um milímetro de chuva equivale a um litro por metro quadrado, porque uma lâmina de 1 mm de altura sobre 1 m² tem volume de 1 litro. Vinte milímetros sobre uma horta de 5 m² são 20×5=10020 \times 5 = 100 litros. Os 1 500 mm que caem por ano em boa parte do Planalto Central são 1 500 litros em cada metro quadrado.

Os itens do PAS 1 sobre este ciclo reproduzidos nesta página perguntam duas coisas: o sentido da seta da transpiração e a fronteira entre os dois ciclos. Três itens dados como certos dizem a mesma coisa com palavras diferentes. Em 2015 (item 74): “As plantas perdem água para a atmosfera por meio da transpiração, o que aumenta a umidade do ar e, consequentemente, a probabilidade de precipitações na região onde elas estão localizadas.” Em 2016 (item 89): “Parte da água das chuvas que cai no solo é absorvida pelas raízes das árvores e acaba voltando à atmosfera pela transpiração das plantas, o que constitui um elo importante para o ciclo da água no planeta.” Em 2017 (item 45), diante de uma pintura de Frida Kahlo cheia de plantas com raízes à mostra, o item afirmava que as plantas “são elementos importantes para o fluxo de água entre a terra e a atmosfera”. Dois itens errados fazem a troca. Em 2021 (item 35): “O pequeno ciclo da água leva em conta apenas o papel dos seres vivos no ciclo.” É o contrário: o pequeno ciclo é o que dispensa os seres vivos. E uma opção do item 61 de 2022 dizia que “as plantas absorvem água do ambiente pela transpiração”: transpiração é saída, nunca entrada.

A água não é "consumida"

Dizer que uma floresta, uma lavoura ou uma cidade “consome” água sugere que a água deixa de existir. Ela muda de reservatório. A água que a árvore transpira vai para o ar e chove de novo em dias; a que a lavoura irrigada evapora sai do rio e vai para a atmosfera; a que a cidade usa volta como esgoto. O que se pode perder, num lugar e num período, é a disponibilidade: água no reservatório certo, na hora certa e limpa. Diante de qualquer “gasto” num ciclo, a pergunta é para qual reservatório a matéria foi.

A floresta fabrica chuva: rios voadores e o que muda quando a vegetação sai

Uma árvore grande é uma bomba de água movida a sol. Na Amazônia, uma árvore de copa larga pode transpirar mais de mil litros num dia. Somadas, as árvores da bacia amazônica lançam ao ar cerca de 20 bilhões de toneladas de água por dia, mais do que os cerca de 17 bilhões de toneladas que o rio Amazonas despeja no Atlântico no mesmo período (Antonio Nobre, O futuro climático da Amazônia, relatório de avaliação científica, 2014).

Esse vapor não fica parado sobre a floresta. Os ventos alísios, que entram pelo Atlântico, empurram a umidade para oeste; ela chove, é transpirada de novo, e segue. Ao encontrar a cordilheira dos Andes, a corrente de ar é desviada para o sul e leva umidade ao Centro-Oeste, ao Sudeste e ao Sul do Brasil, ao Paraguai e ao norte da Argentina. São os rios voadores: correntes de ar carregadas de vapor, que transportam volumes de água comparáveis aos dos grandes rios do continente. Parte da chuva que cai em Brasília na estação chuvosa foi transpirada por folhas amazônicas dias antes. O tempo de residência da água no ar, de cerca de dez dias, é o que torna a viagem possível.

Retirar a vegetação mexe no ciclo por dois lados.

Pelo lado do ar. Pasto e lavoura têm raízes mais rasas, menos área de folha por metro quadrado e passam parte do ano com pouca ou nenhuma transpiração. A evapotranspiração cai, o ar a favor do vento fica mais seco, e a chuva reciclada diminui.

Pelo lado do chão. Sob floresta ou cerrado nativo, a chuva encontra folhas caídas, raízes e um solo poroso: infiltra, recarrega o lençol freático e sai devagar pelas nascentes, inclusive na estação seca. Sobre solo exposto e compactado, a mesma chuva escoa em horas, arrasta terra, enche o rio de uma vez e deixa a nascente fraca na estiagem.

O tamanho do efeito depende do solo, do relevo e do que entra no lugar da vegetação. Numa bacia pequena, o total de água que sai pelo rio ao longo do ano pode até aumentar depois do corte, porque menos água volta ao ar. O que se perde, onde o solo fica exposto e compactado, é a regularidade: a água sai na enxurrada, em vez de ficar guardada para a seca. E, na escala de uma região inteira, menos vapor no ar significa menos chuva a favor do vento.

Desmatar altera, portanto, quanto de água volta ao ar e quando a água que caiu fica disponível. O item 46 do PAS 1 de 2020, num bloco sobre as queimadas do Pantanal, afirmava: “O desmatamento traz consequências danosas ao meio ambiente, mas não altera o ciclo da água.” Errado, pela segunda oração.

Siga a água numa vereda

Numa vereda do Cerrado, a chuva de dezembro tem três destinos. Uma parte escoa para o córrego. Outra infiltra, desce até o lençol freático e vai alimentar a nascente em julho, quando não chove há meses. A terceira é absorvida pelas raízes dos buritis e das árvores do entorno, sobe até as folhas e volta ao ar. As raízes profundas da vegetação nativa e o solo permeável são a razão de o bioma ser chamado de berço das águas: nele nascem rios que alimentam oito das doze grandes regiões hidrográficas brasileiras, entre elas as do São Francisco, do Tocantins-Araguaia e do Paraná. O que isso significa para o abastecimento e o que o desmatamento do bioma já mudou estão em Cerrado.

Exemplo resolvido: o balanço hídrico de uma bacia

Numa bacia hidrográfica chovem, em média, 1 500 mm por ano. Medições indicam que 60 % desse volume retornam ao ar por evapotranspiração; do restante, um terço infiltra e recarrega o lençol freático, e dois terços escoam pela superfície. Qual é a lâmina anual de cada destino?

Passo 1, evapotranspiração: 1 500×0,60=9001\,500 \times 0{,}60 = 900 mm.

Passo 2, o que sobra no chão: 1 500−900=6001\,500 - 900 = 600 mm.

Passo 3, infiltração e escoamento: 600÷3=200600 \div 3 = 200 mm infiltram; 600−200=400600 - 200 = 400 mm escoam.

Conferência. 900+200+400=1 500900 + 200 + 400 = 1\,500 mm: a conta fecha, como tem de fechar num balanço em que o estoque da bacia não muda de um ano para outro. O erro típico é calcular um terço da chuva total (500 mm) em vez de um terço do que restou. Em litros: cada metro quadrado da bacia manda 900 litros por ano de volta ao ar e guarda 200 litros no subsolo.

E se a vegetação for retirada? Suponha que a evapotranspiração caia para 45 % e que, com o solo compactado, só um quinto do restante infiltre. Evapotranspiração: 675 mm. Restante: 825 mm, dos quais 165 mm infiltram e 660 mm escoam. Com a mesma chuva, a água devolvida ao ar caiu de 900 para 675 mm, a recarga caiu de 200 para 165 mm, e o escoamento subiu de 400 para 660 mm: mais enxurrada na chuva, menos nascente na seca. Os percentuais desse segundo cenário são ilustrativos. O sentido das mudanças (menos evapotranspiração, mais escoamento e, onde o solo fica compactado, menos infiltração) é o esperado quando a vegetação nativa é retirada.

Ciclo do carbono: quatro processos, dois sentidos

O carbono é o esqueleto de toda molécula orgânica: açúcares, gorduras, proteínas, DNA. No ar ele está como gás carbônico, que em 2025 somava 427 de cada milhão de moléculas (0,04 %). É pouco, e é dali que sai praticamente todo o carbono dos seres vivos.

Cinco processos movem o carbono. Quatro ligam os seres vivos ao ar: fotossíntese, respiração, decomposição e combustão. O quinto, a alimentação, passa o carbono de um ser vivo a outro. O que interessa em cada um é o sentido da seta.

Fotossíntese: do ar para a matéria orgânica. Plantas, algas e cianobactérias usam a energia da luz para montar açúcar com CO2\mathrm{CO_2} e água, liberando oxigênio:

6 CO2+6 H2O→ luz C6H12O6+6 O26\,\mathrm{CO_2} + 6\,\mathrm{H_2O} \xrightarrow{\ \text{luz}\ } \mathrm{C_6H_{12}O_6} + 6\,\mathrm{O_2}

É a grande entrada biológica do carbono. Há uma segunda, pequena: a quimiossíntese, em que certas bactérias montam matéria orgânica com a energia de reações químicas, sem luz (as bactérias nitrificantes do solo, vistas adiante, são um exemplo).

Alimentação: de um ser vivo a outro. O carbono do capim vira carbono do boi; o do boi, carbono de quem o come. É a seta que acompanha a cadeia alimentar.

Respiração: da matéria orgânica para o ar. Produtores, consumidores e decompositores quebram moléculas orgânicas com oxigênio para obter energia, e devolvem CO2\mathrm{CO_2} e água:

C6H12O6+6 O2⟶6 CO2+6 H2O+energia\mathrm{C_6H_{12}O_6} + 6\,\mathrm{O_2} \longrightarrow 6\,\mathrm{CO_2} + 6\,\mathrm{H_2O} + \text{energia}

Decomposição: dos restos para o ar e para o solo. Fungos e bactérias respiram (ou fermentam) a matéria morta. Com oxigênio, o carbono sai como CO2\mathrm{CO_2}; em ambiente sem oxigênio, como o fundo de um brejo, um aterro ou o estômago de um boi, parte sai como metano, CH4\mathrm{CH_4}.

Combustão: da matéria orgânica para o ar, de uma vez. Queimar lenha, palha, floresta, carvão, gasolina ou gás faz em minutos o que a respiração e a decomposição fariam em anos: oxida o carbono a CO2\mathrm{CO_2}.

Um sentido, o da fotossíntese, retira carbono do ar. Os outros três, respiração, decomposição e combustão, devolvem. O oceano entra na conta por um caminho físico, a dissolução do gás na água, descrito na próxima seção.

Esquema do ciclo do carbono. No alto, uma caixa larga: gás carbônico da atmosfera. No meio, três caixas em linha: produtores, consumidores e decompositores. À direita, uma caixa azul: oceano, com gás carbônico dissolvido, fitoplâncton e carbonatos. Embaixo, uma faixa cinza: reservatórios do ciclo lento, de milhões de anos, com carvão, petróleo e gás natural e rochas carbonáticas, calcário. Uma seta verde desce da atmosfera para os produtores, rotulada fotossíntese. Setas vermelhas sobem dos produtores, dos consumidores e dos decompositores para a atmosfera, rotuladas respiração, e a dos decompositores também decomposição. Outra seta vermelha sobe dos produtores, rotulada queimadas. Setas azuis ligam produtores a consumidores, alimentação, e ambos aos decompositores, restos e excretas. Entre atmosfera e oceano há uma seta de duas pontas, dissolução e liberação. Setas cinza tracejadas descem dos decompositores e do oceano para a faixa de baixo, rotuladas soterramento e sedimentação, milhões de anos. Uma seta vermelha grossa sobe da faixa de baixo para a atmosfera, rotulada queima de fósseis e cimento, décadas. Uma nota no alto indica que a parte de cima do esquema é o ciclo rápido, de dias a séculos.
No ciclo do carbono, uma seta biológica desce do ar (fotossíntese, em verde) e várias sobem (respiração, decomposição e fogo, em vermelho). As setas tracejadas levam milhões de anos; a seta grossa de baixo para cima é a que as atividades humanas abriram. Diagrama autoral.
Planta também respira

“Produtor retira CO2\mathrm{CO_2}, consumidor devolve” é um atalho que leva a erro. O produtor faz as duas coisas: fotossíntese quando há luz, respiração o tempo todo, de dia e de noite, em todas as células vivas, das folhas às raízes. Ele só acumula carbono enquanto a primeira supera a segunda. Quem retira carbono do ar é o processo (fotossíntese), não o organismo. O item 44 do PAS 1 de 2020 trocou o processo: “A retirada de gás carbônico (CO2\mathrm{CO_2}) da atmosfera é feita por meio da respiração.” Errado: a respiração devolve.

Outros itens reais se resolvem com a mesma tabela de sentidos. Em 2015 (item 76): “O aumento da área verde promovido pelo plantio de um cinturão de árvores diminui a taxa de absorção de CO2\mathrm{CO_2} presente na atmosfera.” Errado: mais árvores em crescimento, mais fotossíntese, mais absorção. No item 61 de 2022, uma das opções dizia que “o ciclo do carbono se inicia com o processo de decomposição”. Ciclo não tem começo, e, se for preciso apontar a porta de entrada do carbono na vida, ela é a fotossíntese; a decomposição é devolução. E em 2020 (item 45), no bloco das queimadas do Pantanal: “Com as queimadas, parte do ciclo do carbono é prejudicada e o carbono não chega aos demais níveis tróficos.” Certo: a planta queimada não é comida por ninguém. O fogo desvia para o ar, de uma vez, o carbono que seguiria pela cadeia alimentar ou voltaria aos poucos pela decomposição.

Estoque, sumidouro e fonte: a floresta em três situações

Uma floresta em crescimento faz mais fotossíntese do que a soma da respiração de suas plantas, animais e decompositores. A diferença fica guardada como madeira, raízes e matéria orgânica do solo: a floresta é um sumidouro de carbono, e seu estoque aumenta.

Uma floresta madura tem as duas setas quase empatadas. O estoque é grande e estável; o saldo anual é perto de zero. Ela não está “limpando o ar” em ritmo acelerado, mas guarda fora da atmosfera uma quantidade enorme de carbono. Como as comunidades chegam a esse equilíbrio é assunto de sucessão ecológica.

Uma floresta derrubada e queimada vira fonte: o estoque acumulado em décadas ou séculos vai para o ar em horas, e o solo exposto continua perdendo carbono por anos.

Por isso duas frases que parecem iguais dizem coisas diferentes. “Plantar árvores retira CO2\mathrm{CO_2} do ar” fala de fluxo, e vale enquanto as árvores crescem. “Conservar a floresta mantém carbono fora do ar” fala de estoque, e vale mesmo quando o saldo anual é zero.

O mesmo átomo, dois relógios: o ciclo rápido e o ciclo lento

O carbono do arroz e o carbono do diesel, da abertura, diferem no reservatório de onde saíram.

O ciclo rápido (ou biológico) é a troca entre o ar, os seres vivos, o solo e a camada de cima do oceano. Os tempos vão de dias a séculos. A fotossíntese em terra firme fixa da ordem de 120 bilhões de toneladas de carbono por ano (gigatoneladas de carbono, GtC), e a respiração dos ecossistemas, somada ao fogo, devolve quase o mesmo. A troca de CO2\mathrm{CO_2} entre o ar e a superfície do mar é da mesma ordem, perto de 80 GtC por ano em cada sentido (valores arredondados dos relatórios de avaliação do IPCC de 2013 e 2021).

O oceano participa de dois modos. O físico: o CO2\mathrm{CO_2} se dissolve na água, mais nas águas frias, e forma ácido carbônico e íons bicarbonato e carbonato. O biológico: o fitoplâncton faz fotossíntese com o carbono dissolvido, e muitos organismos marinhos, de algas microscópicas a corais e moluscos, constroem conchas e esqueletos de carbonato de cálcio, CaCO3\mathrm{CaCO_3}. Quando morrem, parte desse material afunda.

O ciclo lento (ou geológico) começa aí. Matéria orgânica que escapa da decomposição, por ficar soterrada em pântanos sem oxigênio ou no fundo do mar, transforma-se, com pressão, calor e muito tempo, em carvão mineral (de florestas de cerca de 300 milhões de anos atrás), petróleo e gás natural (de plâncton marinho de dezenas a centenas de milhões de anos). Conchas e esqueletos acumulados viram calcário, o maior de todos os reservatórios de carbono do planeta. A volta natural desse carbono ao ar, por vulcões e pelo desgaste químico das rochas, é um fluxo de décimos de GtC por ano.

reservatório estoque aproximado de carbono tempo típico de residência
atmosfera (CO2\mathrm{CO_2}) cerca de 900 GtC anos
vegetação cerca de 450 GtC anos a séculos
solos (sem contar os solos congelados) cerca de 1 700 GtC décadas a séculos
oceano cerca de 38 000 GtC, quase todo em profundidade séculos a milênios
carvão, petróleo e gás (reservas conhecidas) cerca de 900 GtC milhões de anos
rochas carbonáticas (calcário) dezenas de milhões de GtC dezenas a centenas de milhões de anos

Os estoques de vegetação, solos, oceano e reservas fósseis são os do sexto relatório do IPCC (2021, capítulo 5, figura 5.12), arredondados: 450 e 1 700 GtC em terra; 900 GtC na camada de cima do mar, 37 100 GtC nas águas intermediárias e profundas; 580 GtC de carvão, 230 de petróleo e 118 de gás. O da atmosfera foi calculado para a concentração de 2025 (427×2,13≈910427 \times 2{,}13 \approx 910 GtC).

Combustível fóssil é carbono que estava fora de circulação

O carbono do petróleo, do carvão e do gás natural sempre fez parte do ciclo: foi fixado por fotossíntese, como o do arroz. A diferença é que foi parar num reservatório que só troca com o ar em escala de milhões de anos. Queimar esses combustíveis transfere carbono do ciclo lento para o rápido em décadas. A fabricação de cimento faz o mesmo com o calcário, pela reação CaCO3→CaO+CO2\mathrm{CaCO_3 \rightarrow CaO + CO_2}. O ciclo rápido não tem uma seta de volta com a mesma capacidade.

O PAS 1 de 2013 montou um bloco inteiro sobre isso, a partir de uma figura do ciclo fechado da biomassa. O item 59 dizia: “O emprego do carvão mineral e o da energia solar são formas de se obter energia sem afetar o ciclo do carbono.” Errado: a energia solar de fato não mexe no ciclo, mas o carvão mineral é carbono do ciclo lento devolvido ao ar. Quando o item junta dois casos com “e”, basta um falhar. O item 60, de múltipla escolha, lembrava que “o ciclo biológico do carbono é relativamente rápido” e pedia o processo pelo qual, nesse ciclo, o carbono é devolvido à atmosfera. As opções eram erupção de vulcões, produção de biomassa, decomposição orgânica e queima de combustíveis fósseis. Vulcões e fósseis pertencem ao ciclo geológico; produção de biomassa é retirada, não devolução; a resposta é a decomposição orgânica. E o item 53 afirmava que “a industrialização contribui para o aumento da biomassa e, consequentemente, para o aumento da captação de CO2\mathrm{CO_2} atmosférico”. Errado: fábricas e motores estavam, na figura, do lado que emite.

Lenha, bagaço de cana e etanol também liberam CO2\mathrm{CO_2} ao queimar, e ainda assim são tratados de outro modo. A razão é o reservatório de origem: o carbono da cana foi tirado do ar na safra anterior, e a próxima safra o retira de novo. A seta de volta existe e tem o mesmo tamanho, desde que a área continue plantada. Para o diesel, a seta de volta leva milhões de anos.

A curva de gás carbônico: como ler a série de Mauna Loa

Desde março de 1958, um observatório no alto do vulcão Mauna Loa, no Havaí, a 3 400 metros de altitude e longe de cidades e florestas, mede quantas moléculas de CO2\mathrm{CO_2} há em cada milhão de moléculas de ar seco. A unidade é ppm (partes por milhão). O programa foi iniciado pelo químico Charles David Keeling, e o gráfico leva o nome dele: curva de Keeling.

ano CO2\mathrm{CO_2} (ppm), média anual ano CO2\mathrm{CO_2} (ppm), média anual
1960 316,91 2010 390,10
1970 325,68 2020 414,21
1980 338,76 2023 421,08
1990 354,45 2024 424,61
2000 369,71 2025 427,35

Dados do Laboratório de Monitoramento Global da NOAA para Mauna Loa, consultados em outubro de 2026.

Dois gráficos lado a lado com dados da NOAA para Mauna Loa. À esquerda, médias anuais de gás carbônico, em partes por milhão, de 1960 a 2025: os pontos sobem de 316,91 em 1960 para 427,35 em 2025, numa curva que fica mais inclinada com o tempo; o eixo vertical vai de 300 a 440. À direita, as doze médias mensais de 2025: a linha sobe de 426,65 em janeiro até o máximo de 430,51 em maio, desce até o mínimo de 424,37 em setembro e volta a subir até 427,49 em dezembro; o eixo vertical vai de 422 a 432. Anotações indicam, no gráfico da direita, que a queda de maio a setembro corresponde à fotossíntese do verão do hemisfério norte e a subida de outubro a maio à respiração e à decomposição.
A curva de Keeling em duas escalas. À esquerda, a tendência: a concentração sobe todo ano, e cada vez mais depressa. À direita, o vaivém dentro de um ano: máximo em maio, mínimo em setembro. Os eixos verticais não começam no zero. Dados: NOAA, Laboratório de Monitoramento Global. Gráfico autoral.

A curva tem duas leituras.

O serrilhado. Dentro de cada ano, a concentração sobe até maio e cai até setembro. Em 2025, a média mensal foi de 430,51 ppm em maio e de 424,37 ppm em setembro: cerca de 6 ppm de diferença. A causa é biológica. A maior parte da terra firme do planeta, e portanto das florestas e lavouras, está no hemisfério norte. Na primavera e no verão de lá, de maio a setembro, a fotossíntese supera a respiração e a decomposição, e o ar perde CO2\mathrm{CO_2}. No outono e no inverno, as folhas caem, a fotossíntese diminui, a decomposição continua, e o ar ganha CO2\mathrm{CO_2}. O Havaí fica a 19° de latitude norte e recebe o ar desse hemisfério. O serrilhado é o ciclo rápido visto num gráfico: a fotossíntese e a respiração de meio planeta.

A subida. Sobre o serrilhado há uma tendência que não tem estação: de 316,91 ppm em 1960 a 427,35 ppm em 2025. Antes da era industrial, segundo as bolhas de ar presas no gelo antigo, a concentração ficava perto de 280 ppm; a de 2025 está cerca de 50 % acima disso. A subida é o carbono do ciclo lento chegando ao ciclo rápido.

Exemplo resolvido: a subida é constante?

Com a tabela, calcule a taxa média de aumento em três períodos: 1960 a 1970, 1990 a 2000 e 2020 a 2025.

325,68−316,9110≈0,88 ppm/ano369,71−354,4510≈1,53 ppm/ano427,35−414,215≈2,63 ppm/ano\frac{325{,}68 - 316{,}91}{10} \approx 0{,}88\ \text{ppm/ano} \qquad \frac{369{,}71 - 354{,}45}{10} \approx 1{,}53\ \text{ppm/ano} \qquad \frac{427{,}35 - 414{,}21}{5} \approx 2{,}63\ \text{ppm/ano}

A taxa triplicou. A curva não é uma reta: é curvada para cima.

Conferência. Somando as taxas das seis décadas (0,88; 1,31; 1,57; 1,53; 2,04; 2,41 ppm/ano, cada uma por dez anos) mais os cinco anos finais (5×2,635 \times 2{,}63), o total é 97,4+13,1=110,597{,}4 + 13{,}1 = 110{,}5 ppm, a diferença entre 316,91 e 427,35 a menos de arredondamentos. A leitura por trechos é coerente com a leitura de ponta a ponta.

O que a série permite afirmar e o que não permite. Permite: a concentração de CO2\mathrm{CO_2} no ar sobe desde 1960, em ritmo crescente. Não permite, sozinha: dizer de onde vem o carbono nem quanto a temperatura mudou. Essas conclusões dependem de outras medidas.

Exemplo resolvido: de tudo o que se emite, quanto fica no ar?

Cada 1 ppm de CO2\mathrm{CO_2} na atmosfera inteira corresponde a cerca de 2,13 GtC. Em 2024, a queima de combustíveis fósseis e a produção de cimento emitiram 10,3 GtC, e o desmatamento e outras mudanças no uso da terra, 1,3 GtC (Global Carbon Budget 2025, publicado em Earth System Science Data em 2026). A média anual em Mauna Loa passou de 421,08 ppm em 2023 para 424,61 ppm em 2024.

Se tudo ficasse no ar: (10,3+1,3)÷2,13=11,6÷2,13≈5,4(10{,}3 + 1{,}3) \div 2{,}13 = 11{,}6 \div 2{,}13 \approx 5{,}4 ppm de aumento.

O que se mediu: 424,61−421,08=3,53424{,}61 - 421{,}08 = 3{,}53 ppm.

Fração que ficou: 3,53÷5,4≈0,653{,}53 \div 5{,}4 \approx 0{,}65, cerca de dois terços. O restante, perto de 1,9 ppm (uns 4 GtC), foi absorvido pelo oceano, por dissolução, e pela vegetação em crescimento.

Conferência com a média de dez anos. O ano de 2024 foi atípico: sob efeito do El Niño, com seca e incêndios, a vegetação absorveu menos. Na média de 2015 a 2024, o mesmo relatório estima que, a cada ano, 5,6 GtC ficaram no ar, 3,2 GtC foram para o oceano e 2,4 GtC para a vegetação e os solos. Os sumidouros naturais retiram perto de metade do que é emitido, e a outra metade se acumula: é a subida da curva.

O excesso de CO2\mathrm{CO_2} tem consequência porque esse gás, como o vapor de água e o metano, absorve parte do calor (radiação infravermelha) que a superfície da Terra emite. Esse efeito estufa é natural: sem ele, a temperatura média da superfície seria cerca de 33 °C mais baixa. Mais CO2\mathrm{CO_2} no ar intensifica o efeito. As causas, as consequências e as respostas a esse problema são assunto de impactos ambientais e biodiversidade.

E o oxigênio? Um ciclo acoplado ao do carbono

O gás oxigênio, O2\mathrm{O_2}, forma 21 % do ar. Seu ciclo é o espelho do ciclo do carbono: onde uma seta retira CO2\mathrm{CO_2}, libera O2\mathrm{O_2}, e vice-versa.

  • A fotossíntese libera O2\mathrm{O_2}.
  • A respiração de plantas, animais e microrganismos, a decomposição aeróbia e a combustão consomem O2\mathrm{O_2}.
  • O oxigênio também circula preso a outras moléculas: na água, no CO2\mathrm{CO_2}, nos carbonatos e nos óxidos das rochas.
  • Na alta atmosfera, a radiação ultravioleta quebra moléculas de O2\mathrm{O_2}, e os átomos formam ozônio, O3\mathrm{O_3}, que absorve parte do ultravioleta. A camada de ozônio e sua destruição são tratadas em impactos ambientais e biodiversidade.

Cerca de metade da produção primária líquida do planeta, isto é, da matéria orgânica que a fotossíntese fabrica, descontada a respiração dos próprios produtores, vem do mar, pelo fitoplâncton, e a outra metade, da terra firme (Field e colaboradores, Science, 1998). O oxigênio do ar é obra das plantas terrestres e também de algas e cianobactérias microscópicas.

O oxigênio liberado na fotossíntese vem da água, não do $\mathrm{CO_2}$

A equação resumida da fotossíntese tem oxigênio dos dois lados, e é natural imaginar que a planta “arranca” o carbono do CO2\mathrm{CO_2} e solta o O2\mathrm{O_2} que sobrou. Não é o que ocorre. Na etapa que depende de luz, a planta quebra moléculas de água (fotólise da água): os hidrogênios seguem para a montagem do açúcar, e o oxigênio da água é liberado como O2\mathrm{O_2}. Os átomos de oxigênio do CO2\mathrm{CO_2} vão para o açúcar e para moléculas novas de água. Isso foi demonstrado em 1941, com água marcada com o isótopo oxigênio-18: o isótopo aparecia no gás liberado. Na respiração, o caminho se inverte: o O2\mathrm{O_2} inspirado termina como água, e o CO2\mathrm{CO_2} expirado leva o carbono do alimento.

Diagrama que acopla os ciclos do carbono e do oxigênio. No alto, duas caixas: à esquerda, gás carbônico mais água; à direita, matéria orgânica, representada pela glicose, mais gás oxigênio. Uma seta verde vai da esquerda para a direita, rotulada fotossíntese, com luz, feita por plantas, algas e cianobactérias. Uma seta vermelha vai da direita para a esquerda, rotulada respiração, decomposição e combustão, que liberam energia. No meio, um quadro mostra a origem dos átomos de oxigênio na fotossíntese, com a equação 6 gás carbônico mais 12 água produzindo glicose mais 6 gás oxigênio mais 6 água: a água consumida e o gás oxigênio estão em azul, ligados por uma seta azul; o gás carbônico, a glicose e a água formada estão em laranja, ligados por setas laranja. Embaixo, dois quadros de texto: à esquerda, o gás oxigênio forma 21 por cento do ar, a fotossíntese o libera e a respiração, a decomposição e a combustão o consomem; à direita, na estratosfera, o gás oxigênio, sob radiação ultravioleta, forma ozônio.
Fotossíntese e respiração são setas opostas, e por isso os ciclos do carbono e do oxigênio andam juntos. Na faixa de baixo, a origem dos átomos: o gás oxigênio liberado vem da água (azul); o oxigênio do gás carbônico (laranja) fica no açúcar e na água formada. Diagrama autoral.

Uma consequência dessa simetria desfaz a ideia de que a Amazônia seria “o pulmão do mundo”. Uma floresta madura produz muito oxigênio na fotossíntese e consome quase tudo na respiração de suas plantas, animais e, sobretudo, decompositores. O saldo é perto de zero, pelo mesmo motivo que o saldo de carbono. O papel da floresta nos ciclos é guardar um estoque enorme de carbono e bombear água para o ar. O oxigênio da atmosfera, por sua vez, é um estoque tão grande, acumulado ao longo de bilhões de anos de fotossíntese, que o consumo anual por respiração e combustão o altera muito pouco.

Ciclo do nitrogênio: o gás que a planta não consegue usar

De cada cinco moléculas do ar, quase quatro são gás nitrogênio, N2\mathrm{N_2}: 78 %. Todo aminoácido tem nitrogênio, e também as bases do DNA e do RNA, o ATP e a clorofila. Mesmo assim, uma planta de milho num solo pobre amarelece e cresce pouco “com fome” de nitrogênio, cercada desse gás por todos os lados.

O motivo está na molécula. Os dois átomos do N2\mathrm{N_2} estão unidos por uma ligação tripla, uma das mais fortes da Química. Nenhuma enzima de planta ou de animal a rompe. O nitrogênio que uma raiz consegue absorver está em formas combinadas, dissolvidas na água do solo: o íon amônio, NH4+\mathrm{NH_4^+}, e o íon nitrato, NO3−\mathrm{NO_3^-}. Entre o gás e a proteína há uma sequência de transformações, e quase todas são trabalho de bactérias.

As cinco etapas, na ordem em que o átomo as percorre

1. Fixação: N2\mathrm{N_2} do ar → amônia (NH3\mathrm{NH_3}), que na água do solo vira amônio (NH4+\mathrm{NH_4^+}). Quem faz: bactérias fixadoras; em escala menor, os raios; em escala industrial, as fábricas de adubo. 2. Amonificação: nitrogênio orgânico de cadáveres, folhas, fezes e urina → amônio. Quem faz: fungos e bactérias decompositores. 3. Nitrificação: amônio → nitrito (NO2−\mathrm{NO_2^-}) → nitrato (NO3−\mathrm{NO_3^-}). Quem faz: bactérias nitrificantes, em solo com oxigênio. 4. Assimilação: nitrato e amônio do solo → aminoácidos e proteínas da planta; daí para os animais, pela alimentação. 5. Desnitrificação: nitrato → N2\mathrm{N_2}, que volta ao ar. Quem faz: bactérias desnitrificantes, em ambiente sem oxigênio.

Esquema do ciclo do nitrogênio em três faixas. No alto, a faixa azul do ar, com a caixa gás nitrogênio, 78 por cento do ar. No meio, os seres vivos: uma caixa plantas, com proteínas e DNA, uma caixa animais e uma caixa restos, fezes e urina. Embaixo, a faixa do solo, com três caixas em linha: amônio, nitrito e nitrato. Setas numeradas ligam as caixas. Seta 1, fixação, do gás nitrogênio ao amônio, com a legenda rizóbios em nódulos de leguminosas, cianobactérias, raios e fábricas. Seta 2, amonificação, dos restos ao amônio, feita por decompositores. Seta 3a, do amônio ao nitrito, por Nitrosomonas, e seta 3b, do nitrito ao nitrato, por Nitrobacter; as duas formam a nitrificação, que exige oxigênio. Setas 4, assimilação, do nitrato e do amônio para as plantas. Uma seta alimentação vai das plantas aos animais, e setas de morte e excreção vão de plantas e animais aos restos. Seta 5, desnitrificação, do nitrato de volta ao gás nitrogênio, por bactérias como Pseudomonas, sem oxigênio. Uma seta vermelha tracejada sai do nitrato para baixo, rotulada lixiviação para o lençol freático e os rios.
O ciclo do nitrogênio com os agentes de cada etapa. As plantas só aparecem na seta 4: absorvem amônio e nitrato do solo, nunca gás nitrogênio do ar. A seta 1 reúne as três vias de fixação; a dos raios, a rigor, chega ao solo como nitrato, trazido pela chuva. A seta tracejada é a perda de nitrato para a água. Diagrama autoral.

1. Fixação: a única porta de entrada

A enzima capaz de romper a ligação tripla chama-se nitrogenase, e existe apenas em procariontes. Ela reduz o N2\mathrm{N_2} a amônia com alto gasto de energia (cerca de 16 moléculas de ATP por molécula de N2\mathrm{N_2}) e deixa de funcionar na presença de oxigênio. Há três vias de fixação.

Fixação biológica. As bactérias fixadoras mais conhecidas são os rizóbios, dos gêneros Rhizobium e Bradyrhizobium, que vivem em nódulos nas raízes de leguminosas (a próxima seção trata delas). Cianobactérias como Anabaena e Nostoc fixam nitrogênio na água e em solos úmidos; nos arrozais alagados, uma Anabaena que vive dentro de uma pequena samambaia aquática aduba a lavoura. Bactérias de vida livre no solo, como Azotobacter, fixam pouco por área, mas estão em toda parte.

Fixação atmosférica. A energia de um raio faz reagir o N2\mathrm{N_2} e o O2\mathrm{O_2} do ar. Formam-se óxidos de nitrogênio, que a chuva leva ao solo como nitrato. É uma entrada pequena.

Fixação industrial. Desde o início do século XX, o processo Haber–Bosch faz em fábrica o que a nitrogenase faz na bactéria:

N2+3 H2⟶2 NH3\mathrm{N_2} + 3\,\mathrm{H_2} \longrightarrow 2\,\mathrm{NH_3}

sob pressão de centenas de atmosferas, a cerca de 450 °C, com catalisador de ferro. A amônia é a matéria-prima dos adubos nitrogenados: ureia, nitrato de amônio, o “N” da sigla NPK.

via de fixação quanto fixa por ano (milhões de toneladas de N)
biológica natural em terra firme cerca de 60
biológica em lavouras de leguminosas cerca de 60
biológica nos oceanos cerca de 140
raios cerca de 5
indústria (Haber–Bosch) cerca de 120

Valores arredondados de Fowler e colaboradores (Philosophical Transactions of the Royal Society B, 2013). Somando fábricas e lavouras de leguminosas, a atividade humana fixa em terra firme mais nitrogênio do que todos os processos naturais dos continentes.

2. Amonificação: o que morre volta ao solo

Quando um organismo morre ou excreta, o nitrogênio está preso em proteínas, ácidos nucleicos, ureia. Fungos e bactérias decompositores quebram essas moléculas e liberam amônia, que na água do solo fica como amônio. É a etapa que recicla o nitrogênio de tudo o que viveu. A opção correta do item 61 do PAS 1 de 2022 era a definição dela: “as excretas nitrogenadas são convertidas em amônia por decompositores”. É também o que acontece na compostagem e na adubação com esterco: entrega-se matéria orgânica aos decompositores, que a convertem em amônio ao longo de semanas.

3. Nitrificação: de amônio a nitrato, em dois passos

No solo arejado, dois grupos de bactérias vivem de oxidar compostos de nitrogênio:

NH4+→ Nitrosomonas NO2−→ Nitrobacter NO3−\mathrm{NH_4^+} \xrightarrow{\ \textit{Nitrosomonas}\ } \mathrm{NO_2^-} \xrightarrow{\ \textit{Nitrobacter}\ } \mathrm{NO_3^-}

O primeiro passo, do amônio ao nitrito, é chamado de nitrosação; o segundo, do nitrito ao nitrato, de nitratação. As bactérias nitrificantes usam a energia dessas oxidações para fixar CO2\mathrm{CO_2}: são quimiossintetizantes, produtoras que não dependem de luz. Precisam de oxigênio. Hoje se sabe que arqueias também oxidam amônia em solos e oceanos; nos livros escolares, os nomes que aparecem são Nitrosomonas e Nitrobacter.

O nitrato é a forma que a maioria das plantas absorve em maior quantidade. É também a que mais se perde: é um íon negativo, que as partículas do solo não retêm, e a água da chuva o arrasta para o lençol freático e os rios. Essa perda se chama lixiviação.

4. Assimilação: do solo à proteína

As raízes absorvem nitrato e amônio dissolvidos na água do solo e a planta os incorpora em aminoácidos. Os animais obtêm nitrogênio comendo plantas ou outros animais. Uma das opções do item 61 de 2022, não assinalada no gabarito, dizia que “o nitrogênio é absorvido da água pelas plantas”. É a opção menos nítida das quatro, porque os íons chegam à raiz dissolvidos na água do solo. A frase, porém, põe a água como a fonte do nitrogênio, quando ela é só o veículo: a fonte são o amônio e o nitrato que a fixação, a amonificação e a nitrificação deixam no solo. Diante de uma opção que descreve sem reparo uma etapa do ciclo (a da amonificação, citada acima), é esta que se marca.

5. Desnitrificação: a volta ao ar

Em solos encharcados, no fundo de lagos e represas e em sedimentos, falta oxigênio. Ali, bactérias como as do gênero Pseudomonas usam o nitrato no lugar do oxigênio em sua respiração e o convertem em N2\mathrm{N_2}, que escapa para a atmosfera. A etapa fecha o ciclo e, do ponto de vista da planta, empobrece o solo: retira dele o nitrogênio que a fixação e a nitrificação tinham posto. Parte do nitrogênio sai como óxido nitroso, N2O\mathrm{N_2O}, um gás de efeito estufa. Em 2009, o PAS 1 deu como certo um item segundo o qual a construção de reservatórios de hidrelétricas pode contribuir para a desnitrificação: ambiente alagado, pouco oxigênio, bactérias desnitrificantes em atividade.

Três nomes parecidos, três sentidos diferentes

Fixação: do ar para o solo (N2\mathrm{N_2} → amônia). Nitrificação: dentro do solo (amônio → nitrito → nitrato). Desnitrificação: do solo para o ar (nitrato → N2\mathrm{N_2}). É fácil trocar uma pela outra, ou trocar o ponto de partida, como fez o item 54 do PAS 1 de 2020, comentado adiante. Dois testes resolvem: qual é a molécula de partida e qual é o destino. A fixação parte de N2\mathrm{N_2}, e só de N2\mathrm{N_2}. As bactérias dos nódulos das leguminosas são fixadoras, não nitrificantes. E a desnitrificação não “disponibiliza” nitrogênio para a planta: faz o oposto.

O reservatório deste ciclo também é ponto de troca. O item 32 do PAS 1 de 2021 afirmava: “A maior parte do nitrogênio do planeta Terra concentra-se no solo.” Errado: o grande reservatório ativo do ciclo é a atmosfera. O solo guarda uma fração mínima, e é por ser mínima e por vazar que ela limita o crescimento das plantas.

Exemplo resolvido: a fumaça da queimada é adubo?

Considere este raciocínio, montado para o exercício: “Queimar o pasto faz bem ao solo: o nitrogênio das plantas sobe na fumaça, as bactérias do solo pegam esse nitrogênio do ar e devolvem para as raízes. E a planta ainda pega nitrogênio do ar pelas folhas.” Julgue cada afirmação.

“O nitrogênio sobe na fumaça.” Verdade, e é esse o problema. Na combustão, o nitrogênio das proteínas da planta sai como gases: N2\mathrm{N_2}, óxidos de nitrogênio e um pouco de N2O\mathrm{N_2O}. Ele deixa o sistema solo e planta. O que fica na cinza são minerais que não viram gás, como potássio, cálcio e fósforo, e é por causa deles que o rebrote vem verde por algumas semanas. Cada queimada deixa o solo mais pobre em nitrogênio.

“As bactérias pegam esse nitrogênio do ar.” As fixadoras usam apenas N2\mathrm{N_2}. Não captam N2O\mathrm{N_2O} nem outros óxidos da fumaça. E o N2\mathrm{N_2} liberado se mistura ao enorme estoque do ar; a fração que voltaria àquele pasto por fixação é desprezível. O fogo ainda mata parte das bactérias da camada superficial.

“A planta pega nitrogênio do ar pelas folhas.” Não. O ar que entra pelos estômatos traz N2\mathrm{N_2} junto com o CO2\mathrm{CO_2} e o O2\mathrm{O_2}, mas a folha não tem enzima que o aproveite: ele sai como entrou. O nitrogênio que a planta usa entra pelas raízes, como amônio e nitrato.

Conferência com um item real. O PAS 1 de 2020 (item 54) trouxe a mesma ideia: “Em relação ao ciclo do nitrogênio, as queimadas são parcialmente benéficas, visto que bactérias do solo captam o N2O\mathrm{N_2O} liberado da combustão dos vegetais, transformando-o em amônia (NH3\mathrm{NH_3}), que pode ser utilizada pelas plantas.” Errado. O item descreve uma fixação (bactérias que captam um gás e o transformam em amônia) e troca a molécula de partida: N2O\mathrm{N_2O} no lugar de N2\mathrm{N_2}. Não é preciso nem discutir a palavra “benéficas”.

Exemplo resolvido: o que acumula e o que falta quando uma etapa para

Um produto aplicado ao solo inibe as bactérias nitrificantes, sem afetar decompositores, fixadoras nem plantas. Use o esquema do ciclo para prever o que acontece, nas semanas seguintes, com (a) o amônio do solo, (b) o nitrato, © a lixiviação, (d) o crescimento das plantas.

A regra é a de qualquer fila interrompida: o que está antes do bloqueio acumula; o que viria depois falta.

(a) Amônio: aumenta. A amonificação e a fixação continuam produzindo amônio, e a etapa que o consumia parou.

(b) Nitrato: diminui. Não se forma nitrato novo; o que havia é absorvido, lixiviado ou desnitrificado.

© Lixiviação: diminui. O que a água carrega é sobretudo o nitrato. O amônio, íon positivo, fica preso às partículas de argila e à matéria orgânica do solo.

(d) Plantas: continuam crescendo, em geral. A seta da assimilação sai também do amônio. Muda a forma absorvida, não a disponibilidade.

Conferência. Esse produto existe: são os inibidores de nitrificação, aplicados junto com adubos à base de amônio para reduzir a perda de nitrato. A previsão tirada do esquema coincide com o uso agrícola real.

Variação. Se o produto eliminasse os decompositores, travaria a amonificação. O nitrogênio ficaria preso em restos e excretas, o amônio deixaria de ser reposto, a nitrificação ficaria sem matéria-prima, e as plantas dependeriam só da fixação. Um esquema numerado do ENEM de 2023 perguntava justamente qual etapa deixaria de ocorrer se os decompositores fossem exterminados: a que parte dos detritos e chega à amônia.

Leguminosas, adubação verde e a soja que dispensa adubo nitrogenado

Arranque com cuidado um pé de feijão ou de soja e lave as raízes: elas trazem dezenas de bolinhas de poucos milímetros, os nódulos. Dentro de cada um vivem milhões de rizóbios. A planta entrega às bactérias açúcar produzido na fotossíntese e um ambiente com pouco oxigênio; as bactérias entregam amônio. As duas espécies ganham: é um mutualismo, relação detalhada em relações ecológicas. Cortado ao meio, um nódulo ativo é rosado por dentro. A cor vem da leg-hemoglobina, proteína parecida com a hemoglobina do sangue, que se liga ao oxigênio e o mantém em concentração baixa o bastante para a nitrogenase funcionar.

As leguminosas são a família do feijão, da soja, da ervilha, da lentilha, do amendoim, do grão-de-bico, e de muitas árvores. Nem todas formam nódulos, mas a maioria das cultivadas forma. Três práticas agrícolas tiram proveito disso.

Rotação de culturas. Alternar, na mesma área, uma leguminosa com uma cultura que exige muito nitrogênio, como o milho. Os restos da leguminosa (raízes, nódulos, palha) ficam no solo; os decompositores os convertem em amônio, as nitrificantes em nitrato, e o milho seguinte aproveita.

Adubação verde. Plantar uma leguminosa, como feijão-de-porco, crotalária, mucuna ou guandu, e incorporá-la ao solo ou deixá-la como cobertura antes de produzir grãos. Todo o nitrogênio fixado fica na área.

Consórcio. Cultivar a leguminosa junto com outra planta, na mesma época: o milho com feijão das roças tradicionais.

Nos três casos, a sequência é a do ciclo: fixação no nódulo, depois amonificação e nitrificação dos restos, depois assimilação pela cultura seguinte.

A soja brasileira e o inoculante

A soja ocupa quase 49 milhões de hectares no Brasil (Conab, safra 2025/26) e praticamente não recebe adubo nitrogenado. Antes do plantio, as sementes são tratadas com inoculante, um produto que contém linhagens selecionadas de Bradyrhizobium. As bactérias colonizam as raízes, formam os nódulos e fornecem o nitrogênio de que a planta precisa: cerca de 80 kg para cada tonelada de grãos. Um estudo de pesquisadores do IDR-Paraná e da Embrapa Soja (Telles, Nogueira e Hungria, Environmental Technology & Innovation, 2023) estimou em 15,2 bilhões de dólares o valor do adubo nitrogenado (ureia) que a fixação biológica substituiu na safra 2019/2020. Como a fabricação de adubo nitrogenado queima gás natural e o adubo aplicado libera N2O\mathrm{N_2O}, a fixação biológica também evita emissões.

A fábrica que alimenta metade do mundo

Em 13 de outubro de 1908, o químico alemão Fritz Haber registrou a patente da síntese de amônia a partir de N2\mathrm{N_2} e H2\mathrm{H_2}. Carl Bosch, na empresa BASF, levou o processo à escala industrial; a primeira fábrica funcionou em Oppau, em 1913. Haber recebeu o Nobel de Química de 1918, e Bosch dividiu o de 1931. Um século depois, Jan Willem Erisman e colaboradores calcularam (Nature Geoscience, 2008) que o nitrogênio de Haber–Bosch sustentava a alimentação de 48 % da população mundial. O mesmo processo forneceu a matéria-prima de explosivos nas duas guerras mundiais.

O adubo industrial resolve a falta de nitrogênio e cria um excesso. Em geral, a lavoura absorve cerca de metade do nitrogênio aplicado, ou menos. O restante segue as setas de saída do esquema: o nitrato é lixiviado para o lençol freático e para os rios; parte vira gás por desnitrificação, incluindo N2O\mathrm{N_2O}. O que esse excesso faz nos rios e lagos é retomado na seção sobre as atividades humanas.

Ciclo do fósforo: o único que não passa pelo ar

O fósforo está no DNA e no RNA, no ATP, nos fosfolipídios de todas as membranas e, nos vertebrados, nos ossos e dentes. Seu ciclo difere dos anteriores num ponto que muda tudo: não tem fase gasosa. Nas condições da superfície da Terra, o fósforo fica como fosfato (PO43−\mathrm{PO_4^{3-}}), em rochas, dissolvido na água ou em moléculas orgânicas. Não há um gás de fósforo que circule pela atmosfera. Por isso é chamado de ciclo sedimentar.

O percurso:

  1. Rochas fosfáticas (o mineral principal é a apatita, um fosfato de cálcio) são o reservatório de origem.
  2. O intemperismo, isto é, o desgaste das rochas pela chuva, pelos ácidos do solo e pelas raízes, libera fosfato devagar.
  3. As plantas absorvem o fosfato da água do solo, muitas vezes com ajuda de fungos associados às raízes, as micorrizas.
  4. Os animais o obtêm pela alimentação.
  5. Os decompositores devolvem ao solo o fosfato dos restos e das excretas.
  6. Uma parte pequena é levada pelos rios ao mar, onde o fitoplâncton a utiliza.
  7. O que afunda com os organismos mortos vira sedimento. Só volta à superfície quando o sedimento se transforma em rocha e a rocha é erguida por movimentos da crosta, em dezenas a centenas de milhões de anos.

O circuito solo, seres vivos, solo (passos 3 a 5) é rápido e apertado: numa floresta, quase todo o fosfato liberado pela decomposição é reabsorvido em pouco tempo. O circuito geológico (passos 6, 7, 1 e 2) leva dezenas a centenas de milhões de anos. Um atalho natural são as aves marinhas, que comem peixe e defecam em terra: o guano acumulado em ilhas foi um adubo muito procurado no século XIX.

Esquema do ciclo do fósforo. No alto, uma faixa clara rotulada atmosfera, com o aviso de que nenhuma seta de gás passa por ela. À esquerda, a caixa cinza rochas fosfáticas, apatita. No centro, a caixa fosfato na água do solo. Acima dela, as caixas plantas, com DNA, ATP e membranas, e animais, com ossos e dentes. À direita, a caixa restos e excretas, decompositores. Embaixo, a caixa azul oceano, fitoplâncton, e a caixa cinza sedimento marinho. Setas verdes mostram o circuito rápido: do fosfato do solo para as plantas, absorção com ajuda de micorrizas; das plantas para os animais, alimentação; de plantas e animais para os restos; e dos restos de volta ao fosfato do solo, decomposição. Uma seta azul vai do solo ao oceano, rios, e outra do oceano ao sedimento, afunda. Setas cinza tracejadas mostram o circuito lento: das rochas ao solo, intemperismo, e do sedimento às rochas, formação de rocha e soerguimento, dezenas a centenas de milhões de anos. Uma seta vermelha vai das rochas ao solo, rotulada mineração e adubo, décadas. Uma seta fina vai do oceano para os animais em terra, rotulada aves marinhas, guano.
No ciclo do fósforo não há seta que atravesse a atmosfera como gás. O circuito verde (solo, seres vivos, solo) gira em dias a meses; o cinza tracejado, em milhões de anos. A seta vermelha é a mineração, que põe no campo em décadas o fosfato que o intemperismo liberaria em eras. Diagrama autoral.

O item 36 do PAS 1 de 2021 cobrou exatamente a diferença: “No ciclo do fósforo, não há passagem do fósforo pela atmosfera.” Certo. O item mostra também que palavra categórica não é sinal automático de erro: aqui o “não há” é a própria definição de ciclo sedimentar. Uma ressalva de precisão, que não muda o gabarito: grãos de poeira levados pelo vento carregam fosfato de um continente a outro, como a poeira do Saara que chega à Amazônia. É transporte de partículas sólidas, e não uma fase gasosa do elemento.

Por que o fósforo costuma ser o nutriente limitante. O crescimento de produtores é freado pelo recurso mais escasso em relação à necessidade. Carbono vem do CO2\mathrm{CO_2}, sempre disponível; nitrogênio pode ser trazido do ar por bactérias fixadoras. O fósforo não tem reserva no ar nem “fixadores”: depende do desgaste lento das rochas e da reciclagem local. Em lagos e represas, é em geral o fosfato que decide quanto as algas crescem. Nos solos ácidos e antigos do Cerrado, o fosfato fica preso a óxidos de ferro e alumínio, e as plantas nativas dependem das micorrizas para obtê-lo.

Fósforo é recurso finito. Como o retorno geológico é lento, o fosfato dos adubos (o “P” do NPK) vem quase todo da mineração de rocha fosfática. Não existe fósforo “de fábrica”, como existe nitrogênio de Haber–Bosch, porque não há um gás de fósforo no ar para fixar. Cerca de dois terços das reservas conhecidas de rocha fosfática estão num só país, o Marrocos (Serviço Geológico dos Estados Unidos, Mineral Commodity Summaries, 2025).

O que as atividades humanas acrescentam e retiram de cada ciclo

Nenhuma das setas abaixo é nova na natureza: vulcões emitem CO2\mathrm{CO_2}, rios levam nutrientes ao mar, raios fixam nitrogênio. O que as atividades humanas mudam é o tamanho de algumas setas, a ponto de as outras não compensarem. O quadro registra só o mecanismo: o que entra a mais e o que sai a mais em cada reservatório.

ciclo o que entra a mais, e onde o que sai a mais, e de onde
água escoamento superficial rápido (solo exposto, compactado ou impermeabilizado); água retirada de rios e aquíferos para irrigação e cidades a evapotranspiração diminui onde a vegetação é retirada; a infiltração diminui onde o solo fica exposto e compactado, e lençol e nascentes recebem menos
carbono CO2\mathrm{CO_2} na atmosfera e dissolvido no mar, vindo da queima de carvão, petróleo e gás, do cimento, de queimadas e do desmatamento; metano de ambientes sem oxigênio (rebanhos, aterros, áreas alagadas) carbono dos reservatórios lentos (fósseis, calcário) e dos estoques de biomassa e de solo
oxigênio (nenhuma entrada relevante) O2\mathrm{O_2} consumido na combustão, em quantidade pequena diante do estoque do ar; O2\mathrm{O_2} dissolvido na água, consumido onde há muita matéria orgânica em decomposição
nitrogênio nitrogênio combinado no solo, vindo de adubos (Haber–Bosch) e de lavouras de leguminosas; óxidos de nitrogênio no ar, vindos de motores e queimadas nitrato lixiviado para o lençol e os rios; N2O\mathrm{N_2O} para o ar; nitrogênio da biomassa perdido como gás nas queimadas
fósforo fosfato no solo, vindo de adubo minerado; fosfato em rios e lagos, vindo de esgoto, detergentes e erosão de solos adubados rocha fosfática das jazidas; fosfato do solo, levado pela erosão

Duas linhas do quadro se encontram na água. Nitrato e fosfato em excesso num lago ou numa represa deixam de ser limitantes, e as algas e cianobactérias se multiplicam. Quando essa biomassa morre, a decomposição consome o oxigênio dissolvido, e peixes morrem asfixiados. O processo chama-se eutrofização, começa com excesso de nutrientes e termina com falta de oxigênio, e é tratado, com seus casos e soluções, em impactos ambientais e biodiversidade.

Quadro comparativo com quatro linhas, uma para cada ciclo, e quatro colunas de informação: maior reservatório, forma no ar, etapa-chave e quem faz, e o que a ação humana altera. Linha da água: maior reservatório, oceano, com cerca de 97 por cento da água; forma no ar, vapor de água; etapa-chave, evaporação e transpiração das plantas; o que a ação humana altera, menos evapotranspiração onde a vegetação é retirada e menos infiltração onde o solo fica compactado. Linha do carbono: maior reservatório, rochas carbonáticas, depois o oceano; forma no ar, gás carbônico; etapa-chave, a fotossíntese retira e a respiração, a decomposição e a combustão devolvem; alteração humana, queima de fósseis, cimento e queimadas. Linha do nitrogênio: maior reservatório, atmosfera, 78 por cento do ar; forma no ar, gás nitrogênio, que plantas e animais não usam; etapa-chave, fixação por bactérias, depois nitrificação, e a desnitrificação devolve; alteração humana, adubo industrial e leguminosas cultivadas. Linha do fósforo: maior reservatório, rochas e sedimentos; forma no ar, nenhuma, ciclo sedimentar; etapa-chave, intemperismo das rochas e reciclagem por decompositores; alteração humana, mineração de fosfato, adubo e esgoto.
Os quatro ciclos lado a lado. A coluna "forma no ar" resolve muitos itens: água, carbono e nitrogênio têm fase gasosa; o fósforo, não. A coluna do reservatório resolve outros: o do nitrogênio é o ar, não o solo. Quadro autoral.

Como ler um esquema de ciclo, uma tabela de reservatórios e um gráfico

Esquema com setas. Antes de olhar as alternativas, nomeie cada seta com três informações: molécula de partida e de chegada, agente, condição. Um esquema típico de ciclo do nitrogênio traz as caixas “gás nitrogênio”, “amônia”, “detritos”, “nitrito” e “nitrato” e setas numeradas. Seta que sai do gás e chega à amônia: fixação, bactérias fixadoras. Seta que sai dos detritos e chega à amônia: amonificação, decompositores. Amônia a nitrito e nitrito a nitrato: nitrificação, com oxigênio. Nitrato a gás: desnitrificação, sem oxigênio. Com as setas nomeadas, qualquer pergunta (“qual etapa para se tal grupo for eliminado?”, “qual etapa é uma oxidação?”) vira consulta à própria lista.

Num esquema de carbono, o teste é o sentido: toda seta que chega ao CO2\mathrm{CO_2} atmosférico é respiração, decomposição ou combustão; a que sai dele rumo a um ser vivo é fotossíntese. Num esquema de água, seta que sai da planta para o ar é transpiração; a que entra pela raiz é absorção.

Tabela de reservatórios e fluxos. Duas contas resolvem quase tudo.

  • Tempo de residência = estoque ÷ fluxo de saída. Confira as unidades: estoque em toneladas, fluxo em toneladas por ano, resultado em anos.
  • Balanço: variação do estoque = entradas − saídas. Se as entradas superam as saídas, o estoque cresce; se empatam, fica estável, por maior que seja o fluxo.

Exemplo resolvido: por que o nitrogênio do ar é “inerte” e o carbono do ar não

elemento no ar estoque fluxo anual de saída do ar
carbono (CO2\mathrm{CO_2}) cerca de 900 GtC cerca de 200 GtC por ano (fotossíntese em terra e no mar, mais dissolução no oceano)
nitrogênio (N2\mathrm{N_2}) cerca de 3,9×1093{,}9 \times 10^{9} milhões de toneladas cerca de 400 milhões de toneladas por ano (toda a fixação: biológica, raios e indústria)

Carbono: 900÷200=4,5900 \div 200 = 4{,}5 anos. Nitrogênio: 3,9×109÷400≈1073{,}9 \times 10^{9} \div 400 \approx 10^{7} anos, dez milhões.

Leitura. Um átomo de carbono do ar é capturado em poucos anos, porque a fotossíntese e o oceano o usam em escala planetária. Um átomo de nitrogênio do ar espera milhões de anos, porque só a nitrogenase de alguns procariontes, os raios e as fábricas rompem a ligação tripla. “Inerte”, aqui, é a descrição de um fluxo minúsculo diante de um estoque enorme.

Conferência. O tempo de residência de 4,5 anos não significa que o CO2\mathrm{CO_2} emitido por um motor desaparece do ar em quatro anos. Cada molécula que sai é trocada por outra que entra, pela respiração e pela liberação do oceano. O excesso só diminui pelo saldo entre entradas e saídas, que é pequeno, e por isso persiste por séculos. Tempo de residência de uma molécula e tempo de ajuste do estoque são grandezas diferentes.

Gráfico. Leia, nesta ordem: o que está em cada eixo e em que unidade; onde o eixo vertical começa (um eixo que não parte do zero amplia variações pequenas); a tendência geral; as oscilações. Só depois procure a causa de cada uma. Na curva de CO2\mathrm{CO_2}, a oscilação anual tem causa biológica, e a tendência, causa humana; quem confunde as duas lê o gráfico errado.

Sete erros clássicos, e como os itens os plantam

Nos itens reais do PAS 1 reunidos nesta página, o erro vem quase sempre do mesmo modo: um processo real com uma peça trocada, que pode ser o reservatório, a molécula de partida, o agente ou o sentido da seta. Para cada item, confira os três: elo, agente, sentido.

1. Achar que a planta absorve nitrogênio do ar. A planta absorve amônio e nitrato do solo, pelas raízes. Quem tira N2\mathrm{N_2} do ar são bactérias fixadoras. Variante: pôr no solo a maior parte do nitrogênio do planeta (PAS 1 2021, item 32, errado).

2. Trocar fixação, nitrificação e desnitrificação. Fixação: ar para o solo, parte de N2\mathrm{N_2}. Nitrificação: amônio a nitrato, com oxigênio. Desnitrificação: solo para o ar, sem oxigênio. Variante: uma bactéria fixando um gás que não é N2\mathrm{N_2} (PAS 1 2020, item 54, errado).

3. Atribuir ao CO2\mathrm{CO_2} o oxigênio liberado na fotossíntese. Ele vem da água.

4. Inverter as setas da respiração e da fotossíntese. A fotossíntese retira CO2\mathrm{CO_2}; a respiração devolve (PAS 1 2020, item 44, errado). Planta respira o tempo todo. Mais árvores em crescimento absorvem mais, e não menos (PAS 1 2015, item 76, errado).

5. Deixar o carbono do petróleo e do carvão fora do ciclo. Ele faz parte: estava num reservatório lento. Queimá-lo altera o ciclo (PAS 1 2013, item 59, errado).

6. Tratar a água como consumida, tirar os seres vivos do ciclo da água ou trocar o pequeno ciclo pelo grande. A água muda de reservatório; em terra, a maior parte volta ao ar por evapotranspiração; o pequeno ciclo é o físico (PAS 1 2021, item 35, errado); desmatar altera o ciclo (PAS 1 2020, item 46, errado).

7. Fazer a energia ciclar junto com a matéria. A matéria volta; a energia sai como calor (PAS 1 2013, item 54, errado). E, para o fósforo, o erro simétrico: procurar uma fase gasosa que não existe (PAS 1 2021, item 36, certo ao negá-la).

Dos nove itens reais citados nesta lista, de 2013 a 2021, oito estavam errados, e em todos a falha cabia em uma palavra ou expressão: “solo”, “N2O\mathrm{N_2O}”, “respiração”, “diminui”, “carvão mineral”, “apenas”, “não altera”, “energia”. Um item de ciclo pode estar correto em todo o resto e cair por um termo.

O essencial em meia página

  • Matéria circula, energia flui. A Terra é quase fechada para a matéria e aberta para a energia. Decompositores devolvem átomos, não energia.
  • Reservatório, fluxo, tempo de residência (estoque ÷ fluxo de saída). Ciclo rápido e ciclo lento são tempos de residência diferentes do mesmo elemento. Balanço: variação do estoque = entradas − saídas.
  • Água. Evaporação, transpiração (juntas, evapotranspiração), condensação, precipitação, infiltração, escoamento. Pequeno ciclo: só físico, sem seres vivos. Grande ciclo: passa pelas plantas. Em terra, cerca de dois terços da chuva voltam ao ar por evapotranspiração. A floresta bombeia água para o ar (rios voadores); desmatar reduz a evapotranspiração e, onde o solo fica exposto e compactado, a infiltração, e aumenta o escoamento. 1 mm de chuva = 1 L/m².
  • Carbono. A fotossíntese retira CO2\mathrm{CO_2} do ar; respiração (de todos, plantas inclusive), decomposição e combustão devolvem; o oceano dissolve e libera. Ciclo rápido: ar, seres vivos, solo, superfície do mar. Ciclo lento: fósseis e calcário. Queimar fósseis leva carbono do lento para o rápido. Floresta em crescimento é sumidouro; madura é estoque; queimada é fonte.
  • Curva de CO2\mathrm{CO_2}. Serrilhado anual (máximo em maio, mínimo em setembro): fotossíntese e respiração do hemisfério norte. Tendência: de 316,91 ppm (1960) a 427,35 ppm (2025), cada vez mais rápida. Cerca de metade do que se emite fica no ar.
  • Oxigênio. Espelho do carbono: a fotossíntese libera O2\mathrm{O_2}, que vem da água; respiração e combustão consomem. Floresta madura tem saldo perto de zero.
  • Nitrogênio. Reservatório: o ar (78 % de N2\mathrm{N_2}), que plantas e animais não usam. Fixação (N2\mathrm{N_2} → amônia: rizóbios em nódulos de leguminosas, cianobactérias, raios, Haber–Bosch); amonificação (restos → amônio: decompositores); nitrificação (amônio → nitrito → nitrato: Nitrosomonas e Nitrobacter, com oxigênio); assimilação (plantas absorvem nitrato e amônio); desnitrificação (nitrato → N2\mathrm{N_2}, sem oxigênio). Leguminosas enriquecem o solo: rotação de culturas, adubação verde, soja inoculada.
  • Fósforo. Ciclo sedimentar, sem fase gasosa: rocha, solo, seres vivos, sedimento. É lento, finito na escala humana e, em geral, o nutriente limitante em lagos.
  • Diante de um item de ciclo, confira elo, agente e sentido da seta: de onde para onde, quem faz, em que condição.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Biologia - Ciclos biogeoquímicos
SeduES · 31:02
Introdução. Aula da Secretaria de Educação do Espírito Santo em que a professora Thaiane Falcão Gon percorre, em cerca de meia hora, os ciclos da água, do carbono, do nitrogênio e do oxigênio. É o panorama das seções “Ciclo da água”, “Ciclo do carbono: quatro processos, dois sentidos”, “E o oxigênio?” e “Ciclo do nitrogênio” desta página. Assista antes de ler e anote, para cada seta que a professora desenhar, de onde ela sai, aonde chega e quem a faz. O trecho final, sobre efeito estufa e aquecimento global, pertence à página de impactos ambientais.
CICLO DO NITROGÊNIO - CICLOS BIOGEOQUÍMICOS | Biologia com Samuel Cunha
Biologia com Samuel Cunha · 23:00
Aprofundamento. Aula de 23 minutos dedicada só ao ciclo do nitrogênio: fixação, nitrificação e desnitrificação, etapa por etapa. Corresponde à seção “Ciclo do nitrogênio: o gás que a planta não consegue usar” e ao quadro das cinco etapas. Use depois de ler a seção e confira, em cada etapa, a molécula de partida, a de chegada e o grupo de bactérias, que é exatamente o que os itens trocam.
'Rios voadores': fenômeno natural leva umidade da Floresta Amazônica para outras regiões
Repórter Eco · 6:22
Aplicação. Reportagem do Repórter Eco, da TV Cultura, com pouco mais de seis minutos, sobre como a umidade devolvida ao ar pela floresta amazônica chega ao Centro-Oeste, ao Sudeste e ao Sul do Brasil. Mostra em imagens o que a seção “A floresta fabrica chuva: rios voadores e o que muda quando a vegetação sai” descreve com números. Ao assistir, identifique no trajeto a evapotranspiração, o transporte de vapor e a precipitação.
CICLOS BIOGEOQUÍMICOS NO ENEM 2016 - questão 8
BIOLOGIA NA VEIA COM PROF. GIAN BRITO · 5:16
Resolução de questão. Em cinco minutos, o professor Gian Brito resolve um item do ENEM de 2016 (2.ª aplicação) que apresenta o esquema de um ciclo e pede que se identifique de qual elemento se trata, entre água, fósforo, enxofre, carbono e nitrogênio. É o procedimento da seção “Como ler um esquema de ciclo, uma tabela de reservatórios e um gráfico”: nomear cada seta antes de olhar as alternativas. Tente resolver antes de ver a resposta.
Rota PAS 1
Ecologia II e a origem da vida: ciclos, impactos e começos · PAS 1

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 1 — Ecologia II e a origem da vida: ciclos, impactos e começos · Antes de começar: dez minutos de aquecimento; Ciclo da água: a chuva que a floresta fabrica (itens 2016/89, 2017/45, 2020/46); Ciclo do carbono: o mesmo átomo, dois relógios (itens 2020/44, 2013/53, 2015/76); Ciclo do nitrogênio: o gás que a planta não consegue usar (itens 2009/57, 2020/54, 2021/36); Como a banca cobra este capítulo (histórico por tema); Resolvidos (adubação verde); Exercícios 1, 3, 5 a 7 e 11; Banco de treino (itens 2015/74, 2021/35, 2013/59, 2013/60, 2021/32, 2022/61)

    Recorte por assunto: só os ciclos. Efeito estufa, desmatamento e eutrofização como problemas, Cerrado, sucessão e origem da vida, do mesmo capítulo, pertencem a outras páginas.

  • Biologia EM1 — Capítulo 10: Ecologia II, ciclos biogeoquímicos e o clima · Por que "ciclo"? Matéria que volta, energia que passa (reservatórios, fluxos, tempo de residência); O ciclo da água: os seres vivos estão dentro dele (ciclo curto e longo, rios voadores, desmatamento); O ciclo do carbono: o rápido, o lento e o que nós aceleramos (curva de Keeling, estoques e fluxos, balanço); O ciclo do nitrogênio: quem faz a etapa que a planta não faz (cinco etapas, Haber–Bosch, soja); O ciclo do fósforo: sem passar pelo ar; tabela dos quatro ciclos; exercícios 1 a 4, 8 e 9; ENEM 2023, questão 132

    Fonte dos dados com referência (Trenberth e colaboradores, 2007; Nobre, 2014; IPCC; Fowler e colaboradores, 2013; Erisman e colaboradores, 2008; USGS, 2025). Os números de CO₂ foram conferidos na NOAA em 2/10/2026; o balanço de carbono foi atualizado para o Global Carbon Budget 2025; os estoques de carbono vêm da figura 5.12 do sexto relatório do IPCC; a área de soja, da Conab (safra 2025/26). Efeito estufa, ozônio, evidências do aquecimento, pegada de carbono e eutrofização, do mesmo capítulo, pertencem à página de impactos ambientais.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 10 (itens reais com textos-base) · Textos-base I (2021, itens 32, 35 e 36), II (2020, itens 46 e 54), III (2022, item 61), V (2013, itens 54 e 59, com a figura descrita) e VI (2007, item 16); gabarito comentado

    Itens do PAS/UnB reproduzidos verbatim, com os textos-base integrais e os gabaritos oficiais (preliminar para 2013).

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 7 (texto-base do item 2020/44) · Texto-base VI (2020, item 44)

    Texto-base das queimadas do Pantanal e item sobre a retirada de CO₂ da atmosfera.

  • Biologia EM1 — Bloco PAS do Capítulo 9 (textos-base dos itens 2020/45 e 2017/45) · Texto-base IV (2020, item 45) e texto-base IX (2017, bloco da pintura de Frida Kahlo, com a descrição da obra)

    O item 2017/45 vem do capítulo do Rota PAS 1; o texto-base e a descrição da pintura, deste bloco.

  • Biologia EM1 — Respostas do Capítulo 10 · Checagens 1 a 5; exercícios 1 a 4, 8 e 9

    Conferência de gabaritos, de contas (tempo de residência, taxas por década) e da análise de distratores.