Em 25 de agosto de 2026 a FTD anunciou a compra da Estuda.com. O comunicado destacou o banco: mais de 300 mil questões, mais de 1.300 escolas, mais de 700 milhões de itens respondidos.
Um ano antes, a SOMOS havia declarado que o assistente de IA do Plurall, o Plu, tinha gerado 262 mil questões e 214 mil provas desde o lançamento. Em 2024, o Comando do Exército escreveu num ato de compra de plataforma de avaliação a exigência de “um vasto banco de questões (mínimo de 150.000)”.
Trezentas mil compradas, 262 mil geradas, 150 mil como piso de edital. O número do banco virou requisito de entrada. Deixou de ser o argumento.
O que a escola precisa não é um banco grande. É um banco em que cada questão carrega etiqueta suficiente para ser encontrada, e em que o resultado da prova volta para a questão. Esta página é sobre montar esse banco.
Tamanho virou requisito de entrada, não diferencial
| Quem | Número declarado | O que o número mede |
|---|---|---|
| Estuda.com, comprada pela FTD em ago 2026 | mais de 300 mil questões | acervo acumulado em 1.300 escolas ao longo de anos |
| SOMOS, assistente Plu, até abr 2025 | 262 mil questões geradas | o que a IA produz em pouco mais de um ano, com 70% de satisfação |
| Comando do Exército, dispensa de jul 2024 | mínimo de 150 mil | piso escrito por comprador público |
| Módulo de provas da Unidos Educação | 26 mil questões de ENEM, vestibulares e concursos | cada uma com assunto, formato, dificuldade, exame de origem e autor |
A conta da escola é outra. Uma rede com nove anos de fundamental e dez componentes aplica por volta de quatro provas por componente por ano, com 20 questões cada. São cerca de 7.200 questões aplicadas por ano, 80 por componente e ano. Com cem questões etiquetadas por componente e ano, o banco tem 9.000, monta as quatro provas do ano sem repetir e sobra uma prova de recuperação. Com 250 por componente e ano, roda três anos.
Nove mil questões etiquetadas é o tamanho de um banco de escola. O que decide o uso é o filtro.
Sete campos que fazem a questão valer guardar
| Campo | Exemplo | Para que serve |
|---|---|---|
| 1. Disciplina e assunto em árvore | Matemática › Funções › Função do 2º grau | achar a questão |
| 2. Habilidade da BNCC ou descritor | código no formato EF07MA13 | cruzar com o Saeb e com o planejamento |
| 3. Nível de Bloom | aplicar | equilibrar a prova entre lembrar e analisar |
| 4. Dificuldade declarada | média | montar a prova antes de aplicar |
| 5. Dificuldade observada e discriminação | 0,62 de acerto, 0,41 de discriminação | saber o que a questão fez com a turma |
| 6. Autor e origem | Profa. Carla, autoral. Ou Enem 2019. Ou adaptada com IA | crédito, filtro e rastro |
| 7. Gabarito e resolução, ou expectativa de resposta | corrigir e reaproveitar |
Sem os campos 1, 2 e 6, a questão não é encontrável. Sem o campo 5, o banco não aprende.
O campo 3 se define ao escrever a questão e se confirma depois de aplicar. Como classificar e como checar está em taxonomia de Bloom na prova.
O campo 4 e o campo 5 precisam ser dois campos. A dificuldade declarada é a estimativa do professor. A observada é o percentual de acerto real, e muda de turma para turma. Uma sobrescrevendo a outra apaga o histórico.
Quatro fontes de questão, e o preço público de uma
Professores da escola. É a fonte principal e a menos aproveitada. Toda prova de bimestre tem 20 questões escritas por alguém que conhece a turma. Hoje elas ficam no Word do professor e na pasta do Drive da coordenação, e somem no ano seguinte. Um pedido formal por professor, com cota e tipo de questão, traz cada uma para o banco com o autor creditado.
Provas antigas. Cinco anos de provas em Word e PDF são o banco que a escola já tem e não consegue usar. Colar o conteúdo num extrator que separa enunciado, alternativas e gabarito, revisar questão a questão e salvar com os campos 1, 2 e 6 marcados resolve em semanas o que a digitação manual não resolveria em anos.
Exames públicos. Enem e vestibulares são de acesso público e foram testados em escala. Entram com o exame e o ano no campo 6.
Variantes. A mesma questão com números e contexto diferentes, para aplicar em turmas distintas ou para recuperação. Gerada a partir da original, comparada lado a lado, salva com o autor original creditado e o selo “Adaptado com IA”.
Sobre o valor disso: em setembro de 2026 o município de Jaguaribara, no Ceará, publicou um pregão de avaliação com o item “elaboração de item de Língua Portuguesa” e “elaboração de item de Matemática” a R$ 196,67 a unidade, 264 de cada. É um dos poucos preços unitários de questão publicados em compra pública. A questão que o professor escreve para a prova do bimestre e joga fora com a prova vale isso no mercado.
IA gera rascunho, o professor decide o que entra
Os números da SOMOS são o melhor dado público sobre o assunto. O Plu gerou 262 mil questões até abril de 2025. A satisfação dos professores com as questões geradas foi de 70%. Com os planos de aula gerados pela mesma ferramenta, 86%.
Dezesseis pontos de diferença dentro do mesmo produto, com os mesmos usuários. Trinta por cento de insatisfação com item gerado é a taxa de revisão que a escola precisa prever.
A regra que sai daí tem três partes. Questão gerada ou adaptada por IA entra no banco depois que um professor leu e conferiu o gabarito. A origem fica marcada no campo 6, para que a prova de fim de ano possa filtrar autoral se a coordenação quiser. E o nível de Bloom sugerido pela IA preenche o campo vazio, sem sobrescrever a classificação que o professor já fez.
As diretrizes de IA aprovadas pelo CNE em 1º de setembro de 2026 classificam como alto risco os sistemas que influenciam avaliação, com exigência de supervisão humana. A leitura do professor antes de a questão entrar no banco é essa supervisão, feita no lugar mais barato: antes da prova, não depois da nota.
Ciclo que faz o banco melhorar: aplicar, ler por questão, atualizar
O banco só melhora se a prova voltar para ele. O ciclo tem quatro passos.
- Aplicar a prova montada a partir do banco, no papel com cartão-resposta ou online.
- Corrigir por questão. A nota por aluno não basta. O cartão digitalizado ou fotografado devolve quem marcou o quê em cada item.
- Ler os três números de cada questão: percentual de acerto, discriminação entre o terço superior e o inferior da turma, e para onde foram os erros. O procedimento está em análise de itens.
- Atualizar a questão no banco: preencher a dificuldade observada, corrigir o nível de Bloom se o resultado contradisser o rótulo, trocar o distrator que ninguém escolheu, descartar a questão com discriminação negativa.
O passo 4 é o que quase nunca acontece, e é o único que separa banco de arquivo. Depois de quatro aplicações, a dificuldade observada vale mais que a declarada, e a questão que rodou em quatro turmas tem quatro medidas em vez de um palpite.
2028 vai pedir reetiquetagem, e quem marcou habilidade migra
O Saeb está trocando de régua, e o banco da escola vai sentir.
Segundo a cobertura da Revista Educação de agosto de 2026, os descritores do Saeb foram alinhados à BNCC em 2025, itens de resposta construída entraram em caráter experimental em algumas amostras, e Ciências da Natureza e Ciências Humanas passaram a ser avaliadas por amostra no 5º ano. Segundo a apresentação do Inep ao Conselho Estadual de Educação de São Paulo, em 27 de agosto de 2026, republicada pela Academia Paulista de Educação, 2027 mantém a matriz atual com a introdução de testlets, e 2028 adota uma nova matriz alinhada à BNCC, organizada por competências, eixos cognitivos e eixos de conhecimento. Nenhum dos dois é ato normativo ainda.
Três consequências para o banco.
A questão que já carrega o código da habilidade da BNCC no campo 2 migra para a matriz nova por tabela. A questão marcada só com “Matemática, 7º ano” vai precisar ser lida e reetiquetada uma a uma. Quem marcar habilidade agora paga esse custo uma vez. Quem não marcar paga em 2028, com o acervo maior.
Banco de Ciências da Natureza e de Ciências Humanas para o fundamental I é o que quase nenhuma escola tem, porque o Saeb do 5º ano só cobrava Português e Matemática. A amostra abre essa frente.
E questão discursiva com expectativa de resposta guardada no campo 7 passa a ter uso além da prova do bimestre. Como cruzar o resultado interno com o do Saeb está em como cruzar o Saeb com a avaliação interna.
Por onde começar
Se o banco da escola é uma pasta no Drive, pegue as provas do último bimestre, cole no extrator ou cadastre uma a uma, e marque disciplina, habilidade e autor na entrada. Vinte questões por componente. É uma tarde por professor.
Se o banco existe e não tem habilidade marcada, etiquete primeiro as cem questões mais usadas. As outras esperam.
Se o banco tem habilidade e não tem dado observado, ligue a correção por questão na próxima prova e deixe o campo 5 se preencher sozinho.
O banco não fica bom quando cresce. Fica bom quando volta a ser lido depois da prova.
No módulo de provas da Unidos Educação, o banco tem 26 mil questões de ENEM, vestibulares e concursos, e cada uma guarda assunto em árvore, formato, dificuldade, exame de origem, autor e nível de Bloom. A busca cruza os filtros para incluir e para excluir. O professor cola a prova antiga do Word e a extração separa enunciado, alternativas e gabarito para revisão antes de salvar. A variante por IA entra com o autor original creditado e o selo “Adaptado com IA”. A prova colaborativa traz a questão de cada professor para o banco da escola, com a autoria preservada.