Em 4 de setembro o MEC publicou quatro guias para o Dia D da apropriação dos resultados, que acontece nas escolas de 8 a 11 de setembro. Um para redes, um para direção escolar, um para coordenadores pedagógicos e um para professores.
O guia para redes lista oito pontos de metodologia que a escola deve cobrir. Um deles, literal: “Cruzamento dos resultados do Saeb com evidências das avaliações internas”.
O guia manda cruzar. Não diz com que instrumento. Esta página é o instrumento.
Guia do MEC pede o cruzamento, literalmente
A Atividade 1 do guia para coordenadores dura 40 minutos e tem um produto declarado: “Base conceitual comum para ler resultados”. Os objetivos são diferenciar avaliação externa de interna, diferenciar diagnóstica, formativa e somativa, e entender os conceitos de proficiência, habilidade e descritor.
O guia para professores põe o encadeamento em um quadro: matriz de referência, habilidades, descritores, itens da avaliação e escala de proficiência. A atividade prática é localizar na escala a habilidade encontrada na matriz.
E o glossário define o termo que costuma ser lido errado: “PROFICIÊNCIA: Medida do desempenho do estudante em uma área ou domínio avaliado, expressa em uma escala que permite interpretar níveis de desempenho. Não deve ser apresentada simplesmente como ‘nota’.”
Para as redes públicas há um prazo junto. Os guias avisam que será aberta uma aba nova no Simec, com lançamento das informações até 30 de outubro, para as 26 redes estaduais, o Distrito Federal e as 442 redes municipais priorizadas no Brasil Aprende+. Escola privada não reporta ao Simec. O método vale igual.
Proficiência não é nota, e isso decide o que dá para comparar
A proficiência do Saeb é uma posição em uma escala de 0 a 500 pontos, calculada por Teoria de Resposta ao Item. A média da escola é a média dessas posições. A nota da prova interna é o percentual de acerto naquela prova, com aqueles itens, naquele dia.
Comparar 232 pontos com 7,5 não significa nada. As duas medidas não estão na mesma régua.
O que está na mesma régua é o descritor. Cada item do Saeb é escrito para cobrar uma habilidade da matriz de referência, identificada por um descritor. O descritor D1 de Língua Portuguesa, por exemplo, é “localizar informações explícitas em um texto”. Um item da prova da escola pode ser escrito para o mesmo descritor.
O ponto de contato não é o número. É o descritor.
Há um segundo dado que ajuda a ler o Saeb, e vale registrar de onde ele vem. O Inep não publicou um ponto de corte nacional oficial para o que é aprendizado adequado. A metodologia do VAAR para o exercício de 2027, em nota técnica do próprio Inep, adota o critério mais frequente nos sistemas estaduais:
| Língua Portuguesa | Matemática | |
|---|---|---|
| 5º ano EF | acima de 200 | acima de 225 |
| 9º ano EF | acima de 275 | acima de 300 |
| 3ª/4ª série EM | acima de 300 | acima de 350 |
A mesma nota técnica avisa que esse corte cai no dia em que o Inep publicar a interpretação pedagógica oficial da escala. Use o número para ler o boletim de 2025. Não escreva meta de contrato em cima dele.
Matriz, descritor, item e escala: o encadeamento em cinco passos
O guia desenha o encadeamento como conceito. Abaixo ele vira procedimento para uma coordenação com o boletim do Saeb 2025 na mão.
1. Leia a distribuição, não a média. O resultado da escola traz o percentual de estudantes em cada nível da escala. Uma média de 210 pode ser uma turma concentrada em torno de 210 ou uma turma dividida entre 170 e 250. As duas pedem aulas diferentes. Anote quantos por cento estão abaixo do corte de adequado e em quais níveis eles se concentram.
2. Traduza o nível em habilidade. O Inep publica, para cada nível da escala, a descrição do que o estudante daquele nível provavelmente já faz e ainda não faz. Se 40% da turma está entre 175 e 200 em Língua Portuguesa no 5º ano, a descrição desse trecho da escala diz quais descritores esses alunos costumam acertar e quais costumam errar. Esses descritores são a lista de suspeitos.
3. Escolha cinco ou seis descritores e monte a prova. Três a quatro itens por descritor, mesmo formato do Saeb, múltipla escolha. Uma prova de 20 itens cobre o que cabe em um mês de retomada. Marque cada item com o descritor que ele cobra antes de aplicar, não depois. Se a escola trabalha com habilidades da BNCC, a marcação pode ser pelo código da habilidade. O que importa é que o item nasça com etiqueta.
4. Leia por descritor, não por aluno. Depois da correção, a tabela útil tem uma linha por descritor e duas colunas: o que o Saeb indicou para aquele trecho da escala e o percentual de acerto da turma nos itens internos daquele descritor. Um exemplo montado para o 5º ano, Língua Portuguesa, com uma turma concentrada entre 175 e 200 pontos:
| Descritor | Leitura do Saeb (faixa 175 a 200) | Prova interna, acerto da turma |
|---|---|---|
| D1, localizar informação explícita | domina | 91% |
| D4, inferir informação implícita | ainda não domina | 38% |
| D6, identificar o tema do texto | em transição | 62% |
| D11, distinguir fato de opinião | ainda não domina | 44% |
A linha do D4 confirma o Saeb: o problema é da habilidade, não do dia da prova. A linha do D6 mostra uma turma que já avançou desde 2025. O próximo mês de aula tem assunto.
5. Repita antes do Saeb 2027. O resultado final do Saeb 2025 saiu em 6 de agosto de 2026. O próximo ciclo é 2027, com resultado em 2028. O MEC pediu às redes que não esperassem por ele. Uma prova interna por descritor no início de 2027 diz se a retomada de 2026 funcionou, com um ano de antecedência sobre a medida federal.
Prova interna não devolve proficiência
Ela não devolve proficiência. Percentual de acerto em 20 itens montados pela escola não vira ponto na escala do Saeb, porque a escala depende de itens calibrados em amostra nacional e de um modelo de Teoria de Resposta ao Item. Fornecedor que oferece “sua prova na escala Saeb” precisa mostrar a calibração. Sem isso, o número é uma nota com outro nome.
Para a decisão que a coordenação precisa tomar, isso não é problema. A pergunta da coordenação é qual descritor retomar. A comparação por descritor responde. A conversão para a escala é problema de rede grande com psicometria própria, não de escola.
Onde o encadeamento costuma quebrar
O passo 3 é o que mais falha, e falha por um motivo de rotina. O professor pede questões aos colegas por WhatsApp, recebe arquivos em Word por e-mail, monta a prova no Drive. Nenhuma questão chega com descritor. A etiqueta é posta depois, de memória, e o passo 4 vira palpite.
A correção da prova interna também precisa devolver o resultado por questão, não só por aluno. Nota final por aluno não separa D4 de D6. Se a correção é manual e a planilha registra só a soma, o cruzamento que o MEC pede não tem dado para acontecer.
Nos dois casos a solução é a mesma: a questão carrega a habilidade desde o banco, e a correção devolve a tabela aluno por questão. O resto é aritmética de uma tarde.
Por onde começar esta semana
Se a escola participa do Dia D, a Atividade 1 do guia já está montada. Acrescente o passo 1 acima com o boletim de 2025 projetado. Saia da reunião com a lista de descritores do passo 2.
Se a escola não participa, o boletim do Saeb da sua escola está público desde agosto, por nome ou código no portal do Inep. O procedimento é o mesmo, sem a aba do Simec.
O Saeb mede a cada dois anos. A escola mede quando quiser. O encadeamento é o que faz as duas medidas falarem do mesmo aluno.
No módulo de provas da Unidos Educação, cada questão do banco carrega disciplina, dificuldade, nível de Bloom e habilidade da BNCC. O pedido de questões aos professores sai da plataforma, não do grupo de WhatsApp, e a prova sai diagramada no padrão da escola ou do ENEM. Depois da aplicação, o cartão-resposta digitalizado ou fotografado devolve o mapa de acertos questão por questão. Com a habilidade ao lado de cada linha, a leitura por descritor do passo 4 está pronta.