Na manhã de sexta-feira, 15 de novembro de 1889, quem passou pelo Campo de Santana, no Rio de Janeiro, viu tropas formadas, ouviu vivas e não entendeu o que estava acontecendo. Três dias depois, um dos fundadores do Partido Republicano, Aristides Lobo, escreveu ao Diário Popular de São Paulo que o povo “assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”, e que muitos acreditaram sinceramente estar vendo uma parada militar. A frase virou a mais citada da história republicana brasileira porque resume, sem querer, o que esta página explica: nasceu em 1889 uma república sem republicanos na rua, e ela se organizou, nos quarenta anos seguintes, de modo a continuar sem eles. A Constituição de 1891 falou em “cidadãos”, mas tirou o voto de quem não sabia ler, num país em que isso era a maioria dos homens adultos e a totalidade das mulheres por interpretação corrente; o voto que sobrou era dado sem sigilo, diante do fazendeiro que empregava o eleitor; os resultados passavam por comissões que decidiam quais diplomas valiam. Dois a cinco por cento da população escolheram presidentes entre 1894 e 1930. E, no entanto, a população apareceu, e muito, nessa história: em Canudos, nas ruas do Rio em novembro de 1904, nos encouraçados em 1910, no Contestado, nas fábricas de São Paulo em 1917, nos quartéis em 1922. Apareceu como revolta, não como voto. A pergunta que organiza as seções seguintes é essa: como funcionou, por dentro, uma república com tão poucos eleitores, e por que a participação de quem não votava tomou a forma que tomou.
O vocabulário que a prova supõe sabido
- República: forma de governo em que o chefe de Estado é escolhido por prazo certo, não herda o cargo. A brasileira foi proclamada em 15 de novembro de 1889 e regulada pela Constituição de 24 de fevereiro de 1891. Primeira República e República Velha designam os mesmos quarenta e um anos; “Velha” é o adjetivo que os vencedores de 1930 colaram no regime que derrubaram, e carrega juízo de valor.
- Governo Provisório (1889–1891): o governo de Deodoro da Fonseca entre o golpe e a Constituição, que legislou por decreto: separou Igreja e Estado, criou o casamento civil, naturalizou os estrangeiros residentes, mudou a bandeira, convocou a Constituinte.
- Federação: as antigas províncias viraram estados, cada um com constituição própria, um governador eleito (a época dizia “presidente do estado”), forças policiais, justiça e impostos de exportação próprios. O oposto do Império centralizado. Presidencialismo: o presidente é eleito e governa sem depender da maioria do Congresso; mandato de quatro anos, sem reeleição imediata.
- Sufrágio e alistamento: sufrágio é o direito de votar; alistamento é a inscrição na lista de eleitores. A Constituição de 1891 deu o sufrágio aos homens de 21 anos que se alistassem e excluiu mendigos, analfabetos, praças de pré (soldados e marinheiros) e religiosos de ordens com voto de obediência. Não há censo de renda, como havia no Império; o filtro é a escrita.
- Voto a descoberto: voto sem sigilo, assinado ou declarado diante da mesa. A legislação eleitoral da Primeira República (a lei de 1892 e a Lei Rosa e Silva, de 1904) admitia que o eleitor votasse a descoberto, e foi esse voto, que o chefe local podia conferir e cobrar, o que prevaleceu na prática. O voto secreto garantido por lei só entrou com o Código Eleitoral de 1932.
- Oligarquia: governo de poucos; aqui, as famílias e grupos de grandes proprietários que controlavam cada estado por meio de um partido único estadual (o Partido Republicano Paulista, o Mineiro, o Rio-Grandense).
- Coronel: chefe político local, em geral fazendeiro, cuja patente é herança da Guarda Nacional do Império e nada tem a ver com o Exército. Coronelismo: o sistema de troca entre o coronel, que entrega os votos de seus dependentes, e o governo estadual, que lhe garante o domínio dos empregos públicos, da força policial e do dinheiro do município. Voto de cabresto é o voto conduzido pelo coronel; curral eleitoral é o conjunto de eleitores que ele conduz.
- Política dos governadores: o pacto montado por Campos Sales (1898–1902) entre o governo federal e as situações estaduais: o presidente apoia quem governa cada estado e recebe em troca bancadas fiéis no Congresso. Comissão de Verificação de Poderes e degola: a comissão da Câmara que reconhecia (ou não) os diplomas dos eleitos; “degolar” era negar o diploma ao oposicionista que vencera nas urnas.
- Café com leite: nome dado à preponderância de São Paulo e Minas Gerais na presidência. Tendência, não lei: houve presidentes de Alagoas, do Rio Grande do Sul e da Paraíba.
- Tenentismo: o movimento de jovens oficiais do Exército que, a partir de 1922, se levantou em armas contra as oligarquias e a fraude, sem programa social definido. Bota-abaixo: apelido das demolições da reforma urbana de Pereira Passos no Rio (1903–1906).
Uma linha do tempo de 1889 a 1930

A linha tem dois blocos de tamanhos muito diferentes. A República da Espada dura cinco anos (1889–1894), com dois marechais na presidência, uma bolha financeira, duas guerras civis e a Constituição. A República Oligárquica dura trinta e seis (1894–1930), com presidentes civis, um pacto político estável a partir de 1898 e uma sequência de revoltas de quem estava fora do pacto. Leia a linha procurando o que se repete: a cada década há uma revolta grande (Canudos nos 1890, Vacina e Chibata nos 1900–1910, Contestado e a greve de 1917 nos 1910, os tenentes nos 1920), e nenhuma delas pediu o voto, porque o voto não era o canal de quem se revoltava.
15 de novembro de 1889: um golpe de quartel que ninguém na rua esperava
O Império caiu com um marechal doente a cavalo e um gabinete que não sabia que estava sendo deposto. Deodoro da Fonseca, de 62 anos, saiu da cama com febre para ir ao Campo de Santana comandar a tropa que cercou o quartel-general; o visconde de Ouro Preto, chefe do gabinete, foi preso ali; só no fim da tarde, na Câmara Municipal, José do Patrocínio e outros republicanos civis proclamaram a República, e à noite o Decreto n.º 1, redigido por Rui Barbosa, “proclamou provisoriamente” a república federativa e instalou o Governo Provisório. Na madrugada de 17, a família imperial embarcou para a Europa. Quem fez o 15 de novembro foram os oficiais do Exército politizados pela Questão Militar e pelo positivismo da Escola Militar (Benjamin Constant), com o apoio dos republicanos civis de São Paulo, que desde o Manifesto de 1870 pediam federação, e dos fazendeiros que a abolição sem indenização tinha afastado da monarquia um ano antes. Não houve mobilização popular contra o trono nem a favor da república; houve um golpe e, depois, a propaganda.
O Governo Provisório governou por decreto durante quinze meses e decidiu coisas que durariam um século: a Grande Naturalização (Decreto n.º 58-A, de 14 de dezembro de 1889) fez brasileiros todos os estrangeiros residentes que não declarassem o contrário em seis meses; o Decreto n.º 119-A, de 7 de janeiro de 1890, separou a Igreja do Estado e garantiu a liberdade de culto; o casamento civil (Decreto n.º 181, de 24 de janeiro de 1890) tirou da Igreja o registro das famílias; a bandeira ganhou o lema positivista “Ordem e Progresso” (Decreto n.º 4, de 19 de novembro de 1889). No mesmo período, o ministro da Fazenda Rui Barbosa autorizou bancos regionais a emitir papel-moeda com lastro em títulos públicos (decreto de 17 de janeiro de 1890) para dar crédito a uma economia que acabara de perder o escravo como capital. O resultado foi o Encilhamento: uma febre de companhias de fachada e especulação na bolsa do Rio, inflação e, em 1891, a quebra. O nome vem do lugar do hipódromo onde se encilham os cavalos e se fazem as apostas; a economia da década de 1890 ficou marcada por ele e pela desvalorização do mil-réis.
Quem fez a República e quem só assistiu
Três grupos fizeram o 15 de novembro: oficiais do Exército (Deodoro, Floriano, Benjamin Constant), republicanos civis paulistas e fluminenses (Quintino Bocaiúva, Campos Sales, Prudente de Morais, Rui Barbosa, que era liberal e aderiu) e, por omissão, os fazendeiros do Vale do Paraíba, ressentidos com a Lei Áurea. Dois grupos não participaram: a população urbana, que a palavra de Aristides Lobo descreveu, e a população rural, que nem ficou sabendo no mesmo dia. É por isso que a banca pune toda afirmação que atribua o nascimento da República a uma “mobilização popular”: o item de 2014 que atribuiu a implantação do regime à população mobilizada contra a “intransigência” da monarquia foi julgado errado, e o item de múltipla escolha de 2024 deu como certa a opção mais modesta, a de que 1889 “assinalou o início da presença dos militares na política do país”.
Leitura de fonte 1: a carta de Aristides Lobo (18 de novembro de 1889)
Observar. A fonte é um artigo-carta publicado no Diário Popular de São Paulo em 18 de novembro, três dias depois do golpe, por um republicano histórico que acabava de ser nomeado ministro do Interior do Governo Provisório. O trecho central: “Por ora a cor do governo é puramente militar e deverá ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada.” Repare nos sujeitos: “deles”, os militares; “o povo”, que assiste; “o elemento civil”, cuja colaboração foi “quase nula”. Repare no tom: não é celebração, é diagnóstico com um tanto de amargura.
Hipotetizar. Quem escreve é ministro do novo governo e republicano de longa data; não tem interesse em diminuir a República. Se mesmo ele registra que o fato foi “deles só” e que o povo não entendeu, a hipótese é que o golpe surpreendeu até os republicanos civis, que esperavam chegar ao poder pela propaganda e pela eleição e se viram carregados por um movimento de quartel. “Bestializado” é a palavra de um homem que esperava um povo republicano e encontrou uma plateia.
Contextualizar. Em 1889, o Partido Republicano tinha poucos deputados e os republicanos de São Paulo discutiam esperar a morte de Pedro II; o Exército, por sua vez, acumulava desde 1883 a Questão Militar (oficiais punidos por falar à imprensa, o Clube Militar de 1887, a recusa de caçar escravizados fugidos). A conspiração que derrubou o gabinete Ouro Preto foi militar, e Deodoro, até a véspera, queria apenas depor o ministério, não o imperador. Lobo descreve exatamente essa assimetria: militares no comando, civis a reboque, povo de fora.
Corroborar. A carta não está sozinha. O decreto que criou a bandeira reproduziu o lema de Comte, e não uma divisa republicana clássica; os dois primeiros presidentes foram marechais; a Constituinte de 1891 elegeu Deodoro por 129 votos contra 97 dados a Prudente de Morais, com o Exército na porta. Décadas depois, José Murilo de Carvalho (Os bestializados, 1987) tomou a frase de Lobo como título e mostrou, com jornais, processos e registros da capital, que o povo do Rio não era indiferente à política, mas que a política oficial da República não lhe oferecia canal, e por isso ele participava de outro modo, pela recusa. E as outras leituras? Há quem leia Lobo como vencido ressentido com a cor militar do governo, e há quem lembre que o “povo” da frase é o do Rio de Janeiro, não o do país. As duas ressalvas não mudam o essencial que a prova cobra: a República não nasceu de baixo para cima. O item que afirmar o contrário está errado.
A Constituição de 1891: federação, presidencialismo e o filtro da escrita
A Assembleia Constituinte, eleita em setembro de 1890 por um eleitorado já sem censo de renda, aprovou em 24 de fevereiro de 1891 uma Constituição curta, copiada em boa parte da dos Estados Unidos: “Estados Unidos do Brasil”, três poderes, um presidente eleito por voto direto para quatro anos, um Senado com três senadores por estado, uma Câmara proporcional à população, um Supremo Tribunal Federal com o poder de julgar leis. A novidade que mais importava a quem a escreveu, os republicanos paulistas, estava no artigo 2.º: as províncias viraram estados, com o direito de cobrar imposto sobre a própria exportação, contrair empréstimos no exterior, ter polícia e força própria. São Paulo, que exportava café, passou a ficar com o dinheiro do café. Foi isso que a palavra “federação” quis dizer em 1891: autonomia para os estados ricos.
O artigo 70 definiu quem votava. O eleitor é o cidadão com 21 anos completos que se alistar segundo a lei; não podem alistar-se os mendigos, os analfabetos, as praças de pré e os religiosos de ordens com voto de obediência; os não alistáveis são também inelegíveis. O texto não fala em mulheres: a exclusão delas vinha da leitura corrente de “cidadãos” no masculino e da lei eleitoral, e durou até 1932. O texto também não fala em sigilo: a lei ordinária de 1892 e depois a Lei Rosa e Silva, de 1904, admitiram o voto a descoberto, assinado ou declarado diante da mesa, e foi ele que prevaleceu onde havia quem o cobrasse. Faça a conta com o censo de 1890: 14,3 milhões de habitantes, dos quais pouco mais da metade homens, pouco menos da metade deles com 21 anos ou mais, e cerca de 80% desses analfabetos. Sobram perto de 300 mil homens que sabiam ler e podiam se alistar. Na eleição presidencial de 1894, a primeira direta, foram contados 290 mil votos, pouco mais de 2% da população; em 1910, na disputa entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa, 626 mil, menos de 3% de 23 milhões; em 1930, na última, 1,8 milhão, cerca de 5% de 37 milhões. O filtro da escrita, num país sem escola, fez o resto.

Três coisas que 1891 fez e uma que não fez
Fez: trocou o censo de renda do Império pelo filtro da alfabetização (uma ampliação no papel, uma restrição na prática, porque a Lei Saraiva de 1881 já exigia saber escrever e a renda deixou de importar); deu aos estados a receita da exportação e a polícia; criou um presidente forte, eleito por quatro anos e sem reeleição. Não fez: não deu sigilo ao voto. Dessa omissão depende todo o resto: um voto sem sigilo é um voto que pode ser cobrado, e quem podia cobrá-lo era o coronel.
Leitura de fonte 2: o artigo 70, lido pelo que diz, pelo que faz e pelo que cala
Observar. O artigo começa generoso (eleitor é todo cidadão de 21 anos que se aliste) e termina com uma lista de exclusões: mendigos, analfabetos, praças de pré, religiosos de ordens monásticas. A lista é curta e não menciona renda, raça nem sexo. O parágrafo 2.º fecha o círculo: quem não pode se alistar não pode ser eleito.
Hipotetizar. Uma lista de exclusões curta pode excluir muita gente se um de seus itens for grande. “Analfabetos” era o maior grupo da população. A hipótese é que o constituinte escolheu o critério que parecia moderno (saber ler como sinal de capacidade cívica) sabendo que ele produzia um eleitorado mínimo, e que o silêncio sobre as mulheres não era esquecimento: a Constituinte rejeitou as emendas que propunham o voto feminino.
Contextualizar. Em 1881, a Lei Saraiva já exigira que o eleitor soubesse escrever e reduzira o eleitorado imperial de mais de um milhão de votantes (1872) para cerca de 150 mil eleitores, menos de 1% da população (117 mil em 1886). A República herdou esse corte e apenas tirou a renda. O voto das praças de pré já era negado pela Lei Saraiva, e a República manteve a exclusão por desconfiança da tropa: soldados e marinheiros acabavam de derrubar o Império e votariam, nos quartéis, sob o olhar dos oficiais. O dos religiosos, pela lógica da separação entre Igreja e Estado que o Governo Provisório acabara de decretar.
Corroborar. As eleições presidenciais confirmam a hipótese: 2% em 1894, 3% em 1910, 5% em 1930, nunca mais que isso sob a Constituição de 1891. A exclusão do analfabeto sobreviveu à própria Primeira República: o Código de 1932 e as Constituições de 1934, 1946 e 1967 a mantiveram, e ela só caiu com a Emenda Constitucional n.º 25, de 1985. E as outras leituras? Há quem destaque que 1891 ampliou a cidadania política ao abolir a renda, e isso é verdade no papel; há quem lembre que a prática eleitoral, com a fraude e a degola, importava mais que a lei. As duas leituras cabem na mesma frase: a lei era menos restritiva que a do Império, e a eleição, tão controlada quanto. O que a prova pune é a confusão entre as duas datas-chave: voto secreto e voto feminino são de 1932, não de 1891; o fim da exclusão do analfabeto é de 1985, não de 1891 nem de 1932.
República da Espada (1889–1894): dois marechais, uma bolha e duas guerras civis
Deodoro, eleito indiretamente pela Constituinte em 25 de fevereiro de 1891, governou nove meses em conflito com o Congresso, que lhe negava o decreto do porto de Torres e o ameaçava com a lei de responsabilidade. Em 3 de novembro de 1891 ele fechou o Congresso por decreto; em 23 de novembro, diante da revolta da esquadra em Niterói (Custódio de Melo) e da paralisação ferroviária, renunciou. Assumiu o vice, Floriano Peixoto, e aqui a Constituição foi lida de um jeito conveniente: o artigo 42 mandava convocar nova eleição se a vaga se abrisse nos dois primeiros anos do mandato, e Floriano, apoiado pelos jacobinos (republicanos radicais das cidades), pelo Congresso que ele reabriu e pelos oficiais positivistas, ficou até o fim, em 1894. Enfrentou duas guerras ao mesmo tempo. A Revolução Federalista (fevereiro de 1893 a 1895) no Rio Grande do Sul opôs os maragatos de Gaspar Silveira Martins, que queriam parlamentarismo e a saída de Júlio de Castilhos, aos pica-paus castilhistas, que governavam o estado com a Constituição positivista de 1891 e tinham o apoio de Floriano; foi uma guerra de degolas, que chegou ao Paraná e a Santa Catarina. A Revolta da Armada (setembro de 1893 a março de 1894), no Rio, foi a sublevação da Marinha, de tradição monárquica e rival do Exército, contra o presidente que se recusava a convocar eleições; os navios bombardearam a capital por meses, até que Floriano comprou uma esquadra improvisada e os rebeldes se refugiaram em navios portugueses. “Marechal de Ferro” e “Consolidador da República” são títulos dessa fase. A sucessão, porém, foi civil: em 1.º de março de 1894, Prudente de Morais, paulista do PRP, foi eleito com os votos de 2% da população, e os militares voltaram ao quartel por trinta e seis anos, salvo Hermes da Fonseca (1910–1914).
Fichas trocadas na República da Espada
A banca gosta de inverter os campos. Floriano e os jacobinos são o polo autoritário e positivista, o da “ditadura republicana” que o Rio Grande de Castilhos pôs em prática; Prudente de Morais e os presidentes civis que o seguiram são o polo liberal federalista, o que escreveu a Constituição e venceu. O item de 2013 que atribuiu a Floriano a defesa do federalismo liberal e a Prudente a ditadura positivista foi julgado errado. Segunda inversão: Deodoro não foi deposto por eleição, renunciou; Floriano não foi eleito, herdou. Terceira: o Encilhamento é de 1890–1891, obra de Rui Barbosa, e não uma crise da década de 1920.
1898: Campos Sales monta a engrenagem
Manuel Ferraz de Campos Sales assumiu em 1898 com o Tesouro quebrado e tomou duas decisões que fizeram a República durar. A primeira foi financeira: negociou com os Rothschild, em Londres, o funding loan de 10 milhões de libras, com três anos sem pagar juros, e impôs ao país um ajuste de corte de gastos, queima de papel-moeda e aumento de impostos, que o tornou impopular e estabilizou o câmbio. A segunda foi política e ele a explicou em 1908, no livro Da Propaganda à Presidência: “É de lá, dos estados, que se governa a República, por cima das multidões que tumultuam agitadas nas ruas da capital da União. A política dos estados é a política nacional.” Em vez de disputar os estados com partidos nacionais, que não existiam, o presidente passou a apoiar quem governava cada estado, a “situação”, e a receber dela deputados e senadores que votassem com o governo. A garantia era uma reforma do regimento da Câmara, em 1899–1900: a sessão que abria cada legislatura passou a ser presidida pelo presidente da legislatura anterior, que nomeava a Comissão de Verificação de Poderes, e esta reconhecia os diplomas a partir das atas autenticadas pelas situações estaduais; o candidato de oposição que vencesse nas urnas podia simplesmente não ser reconhecido. É a degola. O pacto se chamou política dos governadores e durou, com crises, até 1930.

Leitura de fonte 3: Campos Sales explica o próprio sistema (1908)
Observar. A frase “é de lá, dos estados, que se governa a República” opõe dois lugares: os estados, de onde se governa, e “as ruas da capital da União”, onde “multidões tumultuam agitadas”. O autor é o presidente que criou o arranjo, escrevendo seis anos depois de deixar o cargo, para justificá-lo.
Hipotetizar. Um presidente que diz governar “por cima das multidões” não está descrevendo um defeito, está descrevendo um método. A hipótese é que a política dos governadores foi concebida contra a rua, isto é, contra a instabilidade que as multidões do Rio tinham mostrado nos anos de Floriano, e a favor de um acordo entre elites que não dependesse de eleitor nenhum.
Contextualizar. Entre 1893 e 1897, a capital viveu a Revolta da Armada, o jacobinismo florianista e o atentado contra Prudente de Morais (1897); o Congresso tinha maiorias instáveis; os estados eram dominados por partidos únicos. Campos Sales precisava de votos no Congresso para aprovar o ajuste do funding loan e os tinha onde os governadores mandavam. O sistema nasceu de uma necessidade de curto prazo e virou estrutura.
Corroborar. O ENEM de 2014 pôs essa citação num item e deu como certa a estratégia de “atrair o apoio das oligarquias regionais”; o PAS de 2019 descreveu o pacto “de Campos Sales a Washington Luís” como troca de favores entre governo federal e oligarquias estaduais e deu certo. A historiografia acrescenta uma ressalva: Cláudia Viscardi (O teatro das oligarquias, 2001) mostrou que o pacto era instável, que São Paulo e Minas disputavam entre si e com o Rio Grande e a Bahia, e que cada sucessão presidencial foi uma negociação com crise. E as outras leituras? Há quem veja na política dos governadores a única forma possível de governar uma federação sem partidos nacionais, e há quem a veja como a institucionalização da fraude. As duas estão certas sobre fatos diferentes: o arranjo deu estabilidade (nenhum presidente civil foi deposto entre 1894 e 1930) ao preço de fechar a política para quem não era situação.
O coronel: a peça de baixo da engrenagem
A engrenagem de Campos Sales só funcionava porque, no município, alguém entregava os votos. Esse alguém era o coronel. Victor Nunes Leal, em Coronelismo, enxada e voto (1949), tirou o fenômeno do folclore do “mandão rural” e o definiu como relação: o coronelismo é “um compromisso, uma troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente influência social dos chefes locais”. O coronel não era onipotente; era um proprietário em decadência econômica que ainda mandava nos dependentes (agregados, meeiros, pequenos posseiros, empregados) e que trocava esse mando por favores do governo estadual: a nomeação do delegado, do juiz, do coletor, da professora; a verba da estrada e da escola; a impunidade dos seus capangas; a perseguição dos adversários. O governador precisava dos votos do coronel para eleger a bancada que o presidente exigia; o coronel precisava do governador para continuar mandando. O voto a descoberto fechava o circuito: o eleitor que dependia do coronel votava diante dele e sabia que o voto seria lido. “Voto de cabresto” é a imagem do animal conduzido; “curral eleitoral”, a do rebanho. Onde o cabresto não bastava, entravam a ata falsa (“eleição a bico de pena”, escrita pelo escrivão sem que ninguém votasse), o eleitor fantasma e, no limite, o jagunço na porta da seção, cena que Erico Verissimo descreveu em O tempo e o vento e que o ENEM de 2018 cobrou.
Onde os historiadores discordam: o coronel era forte ou fraco?
Leal insistiu que o coronelismo era sinal de fraqueza do poder privado, não de força: o coronel precisava do Estado porque já não conseguia manter os dependentes sozinho, e por isso o fenômeno é da República federativa, não do Império. Maria Isaura Pereira de Queiroz (O mandonismo local na vida política brasileira, 1976) estendeu a noção para trás e para frente e falou em mandonismo, uma estrutura de clãs e parentelas anterior e posterior a 1889. José Murilo de Carvalho (Mandonismo, coronelismo, clientelismo, 1997) propôs separar os três termos: mandonismo é o poder pessoal do chefe local em qualquer época; coronelismo é o sistema político específico da Primeira República, que ligou esse chefe ao Estado; clientelismo é a troca de favores por apoio, que sobrevive até hoje sem coronel. A prova raramente pede a diferença, mas pune a generalização: dizer que o coronelismo “desapareceu em 1930” ou que foi “erradicado” depois de 1945 é errado, porque o clientelismo que o sustentava continuou.
Café com leite, com a nuance que a prova exige
Dos presidentes que governaram entre 1894 e 1930, quatro eram paulistas (Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves e Washington Luís; Júlio Prestes, também paulista, foi eleito em 1930 e não tomou posse), três mineiros (Afonso Pena, Venceslau Brás e Artur Bernardes; o mineiro Delfim Moreira exerceu a presidência como vice em 1918–1919), um fluminense (Nilo Peçanha, vice que assumiu em 1909), um gaúcho (o marechal Hermes da Fonseca) e um paraibano (Epitácio Pessoa); antes deles, os dois marechais eram alagoanos. O nome “café com leite” descreve a preponderância de São Paulo (café) e de Minas (que produzia leite, mas era sobretudo o estado mais populoso e a maior bancada) e sugere uma alternância combinada. A historiografia recente corrige a imagem em três pontos: não havia revezamento regular (São Paulo emplacou três presidentes seguidos no começo); as duas oligarquias disputavam entre si e precisavam de alianças com o Rio Grande, a Bahia e Pernambuco; e as sucessões foram quase todas tensas, com candidaturas de oposição (a Campanha Civilista de Rui Barbosa em 1910, a Reação Republicana de Nilo Peçanha em 1922) que perderam nas urnas controladas, não por falta de disputa. O item do PAS de 2017 que descreveu São Paulo e Minas “tendo feito, ainda, alianças com as elites de outros estados” foi julgado certo; a variante que dissesse “sem exceções” seria errada. O ENEM de 2011 cobrou a ressalva com dois textos de historiadores (Boris Fausto e Steven Topik) e deu como certa a alternativa de que as disputas do período contradizem a “suposta estabilidade da aliança”.

A economia do pacto era o café. Quando a superprodução derrubou os preços, os três estados cafeeiros (São Paulo, Minas e Rio de Janeiro) assinaram em 26 de fevereiro de 1906 o Convênio de Taubaté: o governo compraria o excedente de café, estocaria e venderia aos poucos, financiando a compra com empréstimos externos e um imposto por saca exportada, e manteria o câmbio desvalorizado para que o exportador recebesse mais mil-réis por libra. Foi a primeira política de valorização de um produto no Brasil e transferiu para o Estado, e para todos os contribuintes, o risco de uma lavoura que era de poucos. Ao lado do café, a imigração: entre 1890 e 1930 entraram no Brasil cerca de 3,5 milhões de imigrantes, a maioria italianos, portugueses e espanhóis, dirigidos às fazendas paulistas pelo sistema de colonato (salário fixo por mil pés de café cuidados, mais a colheita e a roça de subsistência) e, cada vez mais, às fábricas de São Paulo. O decreto n.º 528, de 1890, que abriu os portos aos “indivíduos válidos e aptos para o trabalho”, excluiu africanos e asiáticos salvo autorização do Congresso: a imigração desejada era europeia, e o projeto de “branquear” a população estava escrito na lei.
A cidade reformada: Pereira Passos, Oswaldo Cruz e o morro
Em dezembro de 1902, o presidente Rodrigues Alves nomeou prefeito do Rio de Janeiro o engenheiro Francisco Pereira Passos, com poderes para governar sem o Conselho Municipal, e deu ao médico Oswaldo Cruz a Diretoria-Geral de Saúde Pública. A capital tinha fama de “Porto Sujo” e “Cidade da Morte”: navios evitavam a Guanabara por causa da febre amarela, que em 1895 matou 234 dos 340 tripulantes de um cruzador italiano. Em quatro anos, Passos abriu a Avenida Central (hoje Rio Branco) demolindo centenas de prédios, alargou ruas, construiu a Avenida Beira-Mar, proibiu vendedores ambulantes, cães soltos e o costume de cuspir no chão, e derrubou cortiços em nome da higiene. A imprensa chamou de “bota-abaixo”; a crônica, de “o Rio civiliza-se”. Oswaldo Cruz montou brigadas de mata-mosquitos contra a febre amarela e, contra a peste, uma caça aos ratos paga por cabeça. Quem perdeu a casa no centro subiu os morros: o da Providência, ocupado desde 1897 por soldados que voltavam de Canudos e deu ao país a palavra “favela” (nome de um arbusto do sertão baiano), e os vizinhos. A modernização da belle époque carioca produziu, no mesmo gesto, a avenida e a favela; o ENEM de 2014 chamou isso de “ideal de civilização acompanhado de marginalização”.
A Revolta da Vacina (novembro de 1904)
A varíola matava milhares por ano no Rio, e a vacina existia desde o século anterior, mas era aplicada por poucos e temida por muitos. Em 31 de outubro de 1904, o Congresso aprovou a lei da vacinação obrigatória, e o regulamento que vazou para a imprensa previa multas, demissão de funcionários não vacinados e a entrada de agentes sanitários nas casas. A oposição (jacobinos florianistas, positivistas contrários à “tirania sanitária”, monarquistas, o jornal Correio da Manhã) organizou uma Liga contra a Vacina Obrigatória, e os comícios de 10 e 11 de novembro viraram motim: de 10 a 16 de novembro, a população do centro e dos bairros pobres ergueu barricadas, virou bondes, cortou a iluminação e enfrentou a polícia e o Exército; um levante de cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha (14 de novembro), de inspiração positivista, tentou derrubar o governo e foi esmagado. O balanço oficial: cerca de 30 mortos, 110 feridos, 945 presos, centenas deportados para o Acre. A obrigatoriedade foi suspensa em 16 de novembro; a vacina continuou, e em 1908 uma nova epidemia de varíola matou mais de seis mil pessoas na cidade.
Por que a vacina, se o problema era a cidade
A leitura mais aceita, de Nicolau Sevcenko (A Revolta da Vacina, 1984) e de José Murilo de Carvalho (Os bestializados, 1987), é que a vacina foi a gota: a população do centro vinha de dois anos de demolições, despejos, proibições e de uma polícia que prendia por “vadiagem”; a entrada de um agente do governo na casa, para tocar no corpo das mulheres e das filhas, foi lida como a última invasão. Carvalho chamou essa reação de cidadania “em negativo”: gente sem voto que participa da política recusando o que o Estado lhe impõe (o imposto, o recrutamento, a vacina), não reivindicando o que ele lhe deve. O ENEM de 2019 cobrou exatamente isso, com um trecho do próprio Carvalho, e deu como certa a alternativa de que a ação popular questionava “o arbítrio governamental”. Há uma segunda leitura, de Jeffrey Needell, que dá mais peso à conspiração militar e ao oportunismo da oposição; e uma terceira, de Sidney Chalhoub, que liga a revolta à longa história do medo das famílias pobres diante da polícia e da medicina. O que nenhuma delas sustenta é a ideia de um povo “ignorante” contra a ciência: o que se recusava era a força, não a vacina.

Canudos (1893–1897): o arraial que a República leu como ameaça
Antônio Vicente Mendes Maciel, cearense de Quixeramobim nascido em 1830, andou vinte anos pelo sertão do Nordeste como beato, rezando, pregando e construindo igrejas e cemitérios, até fixar-se em 1893 numa fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris, no norte da Bahia, que rebatizou de Belo Monte. Em quatro anos, o arraial reuniu perto de 25 mil pessoas, sertanejos pobres, vaqueiros, libertos da abolição, indígenas aldeados, atraídos pela promessa de terra, trabalho e proteção, com propriedade comum da terra e uma economia de criação de bodes e couro que exportava para as vilas vizinhas. O Conselheiro pregava contra o casamento civil e os impostos da República e chamava o regime de “lei do cão”, mas Canudos nunca atacou ninguém: foi atacado. A primeira expedição (novembro de 1896, um tenente e cem soldados) saiu de Juazeiro da Bahia para prender o beato e foi derrotada em Uauá; a segunda (janeiro de 1897, um major e 550 homens) recuou; a terceira (março de 1897, 1.300 homens sob o coronel Moreira César, herói florianista) foi destroçada e o comandante morreu; a imprensa do Rio decidiu que havia uma conspiração monarquista no sertão, e jornais monarquistas foram depredados na capital. A quarta expedição (junho a outubro de 1897), com perto de dez mil soldados e artilharia, cercou e bombardeou o arraial durante meses; o Conselheiro morreu de disenteria em 22 de setembro; em 5 de outubro Belo Monte caiu, e seus últimos defensores foram mortos. Os prisioneiros homens foram degolados; mulheres e crianças, distribuídas. Euclides da Cunha, que cobrira a campanha como correspondente de O Estado de S. Paulo mandando telegramas do sertão, escreveu em Os Sertões (1902) a frase que ficou: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo.”
Leitura de fonte 4: Euclides da Cunha sobre Antônio Conselheiro
Observar. Em Os Sertões, Euclides descreve o Conselheiro como “grande homem pelo avesso”, “delegado dos céus”, ao mesmo tempo lúcido e insano, e nega-lhe qualquer “intuito político”: “República e Monarquia constitucional” seriam “abstrações inacessíveis” ao beato. Sobre os sertanejos, fala em “retrogradação”, “raças cruzadas”, “degenerados”, e, ao mesmo tempo, em “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.
Hipotetizar. O autor oscila entre a ciência racial do seu tempo (Gumplowicz, Spencer, o darwinismo social que explicava os sertanejos como “sub-raça” condenada) e o que viu com os próprios olhos: gente que resistiu a quatro expedições. A hipótese é que o livro foi escrito contra a própria tese: começou como denúncia do “fanatismo monarquista” e terminou como acusação ao Exército e à República, que ele chama de “crime”.
Contextualizar. Euclides era engenheiro militar, republicano, positivista, e foi ao sertão em 1897 convencido de que encontraria uma Vendeia monarquista (a comparação com a revolta camponesa da Revolução Francesa é dele). A República acabara de sobreviver à Armada e aos federalistas; o jacobinismo da capital via inimigos em toda parte. Os telegramas que mandou ao jornal mudam de tom à medida que a campanha avança. O livro, publicado cinco anos depois, é o resultado dessa mudança.
Corroborar. A historiografia posterior confirmou a parte do livro que contradiz sua própria teoria racial: Canudos tinha economia, organização e lideranças (Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora, 1974; Marco Antonio Villa, Canudos: o povo da terra, 1995; José Calasans, desde os anos 1950), não era monarquista no sentido político (não havia contato com restauradores) e foi destruída por decisão de um governo acuado. O PAS de 2009 cobrou precisamente a negação do “intuito político” por Euclides e julgou errado o item que lhe atribuía a confirmação da tese do “monarquista perigoso”; o ENEM de 2015 pôs lado a lado o “resistiu até o esgotamento” de Euclides e o “fanatismo e banditismo” de um relatório militar e pediu que se reconhecesse em cada um uma representação (bravura e loucura). E as outras leituras? Há quem leia Canudos sobretudo como movimento religioso (o milenarismo sertanejo que também produziu Juazeiro e o Contestado), e há quem o leia como conflito de terra e de trabalho num sertão em crise depois da abolição. As duas convergem no que importa à prova: Canudos foi uma comunidade de excluídos que a República, sem conhecer, decidiu exterminar.
Contestado (1912–1916): a ferrovia, a madeireira e os “irmãos”
Na fronteira disputada entre Paraná e Santa Catarina (o nome vem da contestação territorial), a construção da ferrovia São Paulo–Rio Grande pela Brazil Railway, de Percival Farquhar, e a concessão a sua subsidiária, a Lumber, de uma faixa de 15 quilômetros de cada lado dos trilhos, com direito de expulsar os posseiros, desfizeram a economia da erva-mate e da madeira de que viviam milhares de caboclos. Em torno do monge José Maria, curandeiro e pregador morto no combate do Irani em outubro de 1912, formaram-se as “cidades santas” (Taquaruçu, Caraguatá, Santa Maria), onde se dizia “quem tem, mói; quem não tem, mói também”, e se esperava a volta do monge à frente de um exército encantado. O governo federal mandou, sob o general Setembrino de Carvalho, quase sete mil soldados, artilharia e, pela primeira vez no Brasil, aviões de observação; as cidades santas foram arrasadas entre 1914 e 1915, e o último chefe, Adeodato, preso em 1916. O ENEM de 2010 cobrou a causa (a “desorganização da economia tradicional” dos posseiros) e o de 2025 cobrou a natureza do movimento (reação ao “mandonismo da elite rural”). Compare com Canudos: mesma fé sertaneja, mesma leitura do governo (fanatismo), mesmo desfecho; mas no Contestado o inimigo imediato tinha nome de empresa.
A Revolta da Chibata (novembro de 1910)
No fim da noite de 22 para 23 de novembro de 1910, uma semana depois da posse de Hermes da Fonseca, os marinheiros dos encouraçados Minas Geraes e São Paulo, os navios mais modernos da Marinha, comprados na Inglaterra, tomaram o controle das embarcações, mataram oficiais que resistiram e apontaram os canhões para o Rio. O estopim fora o açoite de 250 chibatadas aplicado a um marinheiro no dia anterior, diante da tripulação em forma. A marujada era composta sobretudo de homens negros e pardos, muitos recrutados à força, vinte e dois anos depois da abolição; a oficialidade era branca e tratava o castigo corporal, abolido no papel em 1889 e restabelecido em 1890, como disciplina. O líder, João Cândido Felisberto, gaúcho, filho de ex-escravizados, mandou ao presidente uma mensagem que pedia o fim da chibata, melhor comida e soldo, e dava prazo. O Congresso votou a anistia em 25 de novembro e os navios se renderam. Em dezembro, o governo expulsou centenas de marinheiros, prendeu dezenas na Ilha das Cobras, onde dezesseis morreram asfixiados numa cela, e embarcou outros no navio Satélite para trabalhos forçados na Amazônia; João Cândido ficou preso e foi internado como louco, e só foi absolvido em 1912. “Almirante Negro” é o nome que a canção de João Bosco e Aldir Blanc lhe deu em 1975; em 2008, uma lei federal o anistiou de novo, simbolicamente.
O que a prova troca na Chibata e na Vacina
Chibata: não foi do “alto escalão” da Marinha (foi dos praças contra os oficiais), não foi no Exército, não foi contra o tráfico (1910, não 1850), e a anistia não foi “respeitada” (foi traída em semanas). Vacina: é 1904, varíola, Oswaldo Cruz, governo Rodrigues Alves; não 1918, não gripe espanhola (contra a qual não havia vacina). O PAS de 2021 plantou a troca de data e doença e julgou errado; o PAS de 2021 (2.ª etapa) pôs a revolta no “alto escalão” e julgou errado. Terceira troca: a Chibata não foi a primeira nem a última revolta da Marinha republicana (a Armada de 1893 veio antes), mas foi a primeira dos marinheiros contra a oficialidade.
Leitura de fonte 5: a mensagem dos marinheiros ao presidente (22–23 de novembro de 1910)
Observar. No documento que os jornais reproduziram, os revoltosos se apresentam como “marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos”, dizem não suportar mais “a escravidão na Marinha brasileira” nem a “falta de proteção” que a Pátria lhes dá, afirmam que não querem “a volta da chibata”, dirigem o pedido ao presidente e ao ministro da Marinha e fecham com um prazo: querem “a resposta já e já”. Três palavras saltam: “cidadãos”, “escravidão”, “já”.
Hipotetizar. Homens que a Constituição excluía do voto (praças de pré, artigo 70) se apresentam como “cidadãos brasileiros e republicanos”; homens que a abolição deveria ter alcançado chamam de “escravidão” o regime do navio. A hipótese é que a mensagem foi escrita para ser lida pelo país, não só pelo presidente: ela devolve ao regime o vocabulário do regime (cidadania, república, abolição) e cobra a conta.
Contextualizar. O castigo físico fora abolido na Marinha pelo Decreto n.º 3, de 16 de novembro de 1889, um dia depois da proclamação, e restabelecido em 1890 pelo regulamento disciplinar; a modernização da esquadra, com os dreadnoughts de 1910, não modernizou a relação entre oficiais e marinheiros, e parte dos revoltosos aprendera, nos estaleiros ingleses, como funcionavam os navios e como os marinheiros de lá eram tratados. O ENEM de 2018 cobrou essa “manutenção da mentalidade escravocrata da oficialidade após a queda do regime imperial” como causa da tensão.
Corroborar. O desfecho confirma a leitura: a anistia veio pelo Congresso porque os canhões estavam apontados, e a punição veio pela caserna assim que os canhões foram entregues. Não havia sindicato, partido ou imprensa que representasse os marinheiros; o canal foi a arma, e a resposta do Estado, a expulsão e a cela. E as outras leituras? Há quem veja na revolta sobretudo uma questão de disciplina militar e modernização técnica, e há quem a leia, como Álvaro Pereira do Nascimento (Cidadania, cor e disciplina na Revolta dos Marinheiros de 1910, 2008), como capítulo da história do pós-abolição: a chibata era a continuidade do açoite do engenho, e a revolta, um ato de cidadania de quem não tinha cidadania. A segunda leitura é a que a prova tem cobrado.
1917: a greve geral de São Paulo e o operariado anarquista
A indústria leve de São Paulo (tecidos, alimentos, calçados, chapéus) cresceu com a Primeira Guerra, quando as importações minguaram, e cresceu com salários achatados, jornadas de dez a doze horas, trabalho de mulheres e crianças, que formavam boa parte do operariado têxtil paulista e inflação dos alimentos. Em junho de 1917, os operários do Cotonifício Crespi pararam pedindo aumento; em 9 de julho a polícia matou o sapateiro José Martinez numa manifestação, e o enterro virou greve geral: cerca de 50 mil trabalhadores, fábricas, bondes e padarias paradas, a cidade sem abastecimento por uma semana. O Comitê de Defesa Proletária, formado por anarquistas e socialistas (Edgard Leuenroth, Gigi Damiani) e por jornalistas que mediaram com o governo, apresentou as reivindicações: aumento de 20%, jornada de oito horas, proibição do trabalho de menores de 14 anos e do noturno de mulheres e menores, libertação dos presos, respeito ao direito de associação. Os patrões concederam o aumento e o governo prometeu estudar o resto; nos anos seguintes vieram a repressão (a Lei Adolfo Gordo, de 1907 e 1921, deportava estrangeiros “indesejáveis”) e, em 1919, uma nova onda de greves. O movimento era anarcossindicalista: pregava a ação direta, a greve geral e a abolição do Estado e da propriedade, e desconfiava dos partidos e das eleições (de que os operários imigrantes, não naturalizados, estavam de qualquer modo excluídos). O PAS de 2011 cobrou essa descrição e deu certo; o PAS de 2008 julgou errado o item que negava a existência de greves antes de 1917. A legislação social que o operariado pedia só viria depois de 1930, pela mão do Estado e sob tutela, o que é o assunto da página seguinte.
Rio Branco e as fronteiras: a política externa da ordem
Enquanto a política interna se fechava, a externa abria mapas. O barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Júnior, foi ministro das Relações Exteriores de 1902 a 1912, sob quatro presidentes, e deixou o país com as fronteiras que tem hoje. Antes de ser ministro, vencera por arbitragem as questões de Palmas, contra a Argentina (1895, laudo do presidente norte-americano Cleveland), e do Amapá, contra a França (1900, laudo do Conselho Federal suíço). Como ministro, resolveu o Acre: a região, boliviana pelo tratado de 1867, estava ocupada por seringueiros brasileiros que se revoltaram contra a Bolívia e contra o arrendamento do território ao Bolivian Syndicate, uma companhia anglo-americana; pelo Tratado de Petrópolis (17 de novembro de 1903), o Brasil ficou com o Acre (cerca de 190 mil quilômetros quadrados) e pagou à Bolívia dois milhões de libras, pequenas compensações de terra e o compromisso de construir a ferrovia Madeira–Mamoré, que daria saída à borracha boliviana. Perdeu, em 1904, a questão do Pirara para a Inglaterra, por laudo do rei da Itália. O método de Rio Branco foi o direito e a negociação, não a guerra, e a sua aposta estratégica foi a aproximação com os Estados Unidos, potência emergente que substituía a Inglaterra como principal comprador do café: em 1905 as legações em Washington e no Rio foram elevadas a embaixadas, as primeiras do Brasil, e em 1906 a III Conferência Pan-Americana reuniu-se no Rio. O historiador norte-americano E. Bradford Burns chamou essa aposta de “aliança não escrita” (The Unwritten Alliance, 1966): não houve tratado, houve uma escolha de parceiro que serviu para definir fronteiras, ganhar prestígio e afirmar liderança na América do Sul sem abrir mão de objetivos próprios. O ENEM de 2014 cobrou exatamente essa combinação de aproximação e autonomia.
1922: a contestação muda de andar
Até 1922, a Primeira República tinha sido contestada por baixo e de fora: sertão, morro, navio, fábrica. Em 1922, ano do centenário da Independência e da Exposição Internacional que o celebrou no Rio, a contestação veio de dentro das elites e da classe média urbana, em três frentes que não se combinaram e apontaram na mesma direção. Entre 13 e 17 de fevereiro, no Theatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Villa-Lobos, Di Cavalcanti, patrocinada por Paulo Prado, da oligarquia do café) atacou o academismo e propôs uma arte brasileira moderna. Entre 25 e 27 de março, em Niterói, nove delegados fundaram o Partido Comunista do Brasil (Astrojildo Pereira, ex-anarquista), que seria posto na ilegalidade meses depois e disputaria com o anarquismo a direção do operariado. Em 5 de julho, oficiais do Forte de Copacabana se levantaram contra a posse de Artur Bernardes, eleito numa campanha envenenada por cartas falsas atribuídas a ele contra o Exército, e contra a prisão de Hermes da Fonseca e o fechamento do Clube Militar; dezoito homens marcharam pela avenida Atlântica contra as tropas legalistas, e dois sobreviveram (Eduardo Gomes e Siqueira Campos). Foi o começo do tenentismo. No mesmo ano, o Centro Dom Vital, de Jackson de Figueiredo, organizou a reação católica e conservadora à República laica, e Mário de Andrade e Drummond trocariam cartas sobre o que esperar da política. O PAS cobrou duas vezes, em 2013 e 2016, a ideia de que os três eventos exprimiram, “ainda que de variada maneira”, o esgotamento do modelo político, social e cultural do regime, e deu certo nas duas.

O que os tenentes queriam e o que não queriam
Queriam: voto secreto, Justiça Eleitoral, moralização administrativa, ensino público, um Executivo que pusesse ordem nas oligarquias; alguns, a reforma agrária e a nacionalização de minas, mas isso era minoria. Não queriam: entregar o poder ao povo que não votava, nem fazer revolução social; desconfiavam dos partidos e dos políticos civis, e governariam, depois de 1930, como interventores nomeados. O tenentismo foi uma revolta de classe média fardada contra o sistema eleitoral, não contra a propriedade. Em 1924, em 5 de julho de novo, o levante paulista do general Isidoro Dias Lopes ocupou São Paulo por três semanas e foi bombardeado pelo governo; os rebeldes retiraram-se para o interior e se juntaram, no Paraná, à coluna gaúcha de Luís Carlos Prestes. A Coluna Prestes (abril de 1925 a fevereiro de 1927) percorreu cerca de 25 mil quilômetros por treze estados sem ser derrotada, pregando o voto secreto e a derrubada de Bernardes, e sem conseguir levantar a população rural, que os coronéis (Lampião recebeu patente de capitão para combatê-la) mantinham presa. Exilou-se na Bolívia. Bernardes governou os quatro anos em estado de sítio.
1926–1930: o pacto se rompe por dentro
Washington Luís, paulista, assumiu em 1926 com a bancada em paz e o café valorizado, e caiu por ter quebrado a regra que o sustentava. Em 1929, a quebra da bolsa de Nova York derrubou o preço do café à metade e deixou o Instituto do Café de São Paulo com estoques que ninguém comprava; o presidente recusou o socorro aos cafeicultores, apegado ao plano de estabilização da moeda, e, para a sucessão de 1930, indicou outro paulista, Júlio Prestes, em vez do mineiro Antônio Carlos de Andrada, que esperava a vez. Minas Gerais rompeu, aliou-se ao Rio Grande do Sul e à Paraíba e lançou a Aliança Liberal, com Getúlio Vargas para presidente e João Pessoa para vice, num programa que repetia os tenentes: voto secreto, anistia, legislação trabalhista. A eleição de 1.º de março de 1930 deu a vitória a Júlio Prestes, por 1,09 milhão de votos contra 742 mil, nas urnas de sempre. Os aliancistas aceitaram a derrota até que, em 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado em Recife por um adversário político local, por motivos pessoais, e o crime foi lido como político. Em 3 de outubro, a revolta começou em Minas, no Rio Grande e na Paraíba; em 24 de outubro, antes que as colunas chegassem ao Rio, os generais depuseram Washington Luís e, em 3 de novembro, entregaram o governo a Vargas. A Primeira República acabou como começara, com militares depondo um governo, e com uma diferença: desta vez havia uma coalizão civil, uma campanha eleitoral derrotada e tenentes nas colunas. O que veio depois é o assunto da página seguinte; aqui basta registrar que o voto secreto, o voto feminino e a Justiça Eleitoral, pedidos desde 1922, vieram em 1932, e que a exclusão do analfabeto ficou.
Onde os historiadores discordam
As teses em disputa sobre a Primeira República
A república que não foi (José Murilo de Carvalho, Os bestializados, 1987; A formação das almas, 1990): a República nasceu sem povo e tentou fabricar símbolos (Tiradentes, a bandeira, o hino) para legitimar-se; a população do Rio participou “em negativo”. O ENEM de 2010 cobrou a transformação de Tiradentes em herói de uma república “de poucas raízes populares”. Coronelismo como relação (Victor Nunes Leal, 1949): o sistema é uma troca entre poder público em expansão e poder privado em decadência, e por isso é da federação de 1891, não do Império. Teatro das oligarquias (Cláudia Viscardi, 2001): o pacto café com leite foi instável e negociado a cada sucessão, com São Paulo e Minas disputando e os estados médios decidindo. Cidades e revoltas (Nicolau Sevcenko, Literatura como missão, 1983, e A Revolta da Vacina, 1984; Sidney Chalhoub, Cidade febril, 1996): a modernização da capital foi um projeto de exclusão, e as revoltas urbanas, sua resposta. Sertão (Walnice Galvão, Marco Antonio Villa, José Calasans): Canudos foi comunidade com economia e organização, não bando de fanáticos, e sua destruição foi decisão política. Trabalho (Boris Fausto, Trabalho urbano e conflito social, 1976): o operariado da Primeira República formulou reivindicações que a legislação de 1930 incorporaria sob controle. Onde discordam: no peso do voto. Para uns, a fraude e o cabresto fazem das eleições uma farsa; para outros (Viscardi; Renato Lessa, A invenção republicana, 1988), as eleições eram disputadas de verdade dentro das elites e o pacto de Campos Sales tinha regras, ainda que excludentes. A prova aceita as duas coisas: eleições fraudadas e disputadas; exclusão e regra.
O que 1889–1930 explica no Brasil de hoje
O analfabeto só voltou a votar com a Emenda Constitucional n.º 25, de 15 de maio de 1985, e a Constituição de 1988 fez o voto facultativo para ele, para os maiores de 70 e para os jovens de 16 e 17 anos: um século de exclusão terminou em 1985, não em 1930. O voto secreto é de 1932 e a urna eletrônica, de 1996; a Justiça Eleitoral, que o tenentismo pediu, existe desde 1932 com um intervalo (1937–1945). O clientelismo sobreviveu ao coronel: a troca de voto por emprego, cesta, ambulância ou emenda parlamentar é o que a ciência política chama de clientelismo, e a expressão “coronelismo eletrônico”, dos anos 1990, nomeou o controle de concessões de rádio e televisão por políticos. Canudos virou memória disputada: o arraial original está sob as águas do açude de Cocorobó, construído em 1969; o Parque Estadual de Canudos (1986) e o Centro de Estudos Euclydes da Cunha, da Universidade do Estado da Bahia, guardam o sítio e a documentação; a Marinha só reconheceu João Cândido em 2008; a Revolta da Vacina voltou ao debate público na pandemia de covid-19, quase sempre lida errado, como se tivesse sido uma revolta contra a vacina e não contra a força.
Anacronismos e erros clássicos sobre a Primeira República
Doze frases que custam um ponto
- “A República foi proclamada por mobilização popular contra a monarquia.” Golpe militar com adesão civil; povo “bestializado” (PAS 2014, E).
- “Em 1891 o voto passou a ser secreto.” O sigilo é de 1932; 1891 manteve o voto a descoberto (PAS 2013, E).
- “A Constituição de 1891 deu o voto às mulheres.” Não falou nelas; o voto feminino é do Código de 1932.
- “O eleitorado da Primeira República era amplo, porque a renda deixou de ser exigida.” A exclusão do analfabeto o manteve entre 2% e 5%.
- “Paulistas e mineiros se revezaram na presidência sem nenhuma exceção.” Hermes (RS), Epitácio (PB), Nilo (RJ).
- “A Revolta da Vacina foi em 1918, contra a gripe espanhola.” 1904, varíola (PAS 2021, E).
- “A Revolta da Chibata foi do alto escalão da Marinha.” Foi dos praças contra os oficiais (PAS 2021, E).
- “A anistia aos marinheiros foi respeitada.” Foi traída em semanas.
- “Canudos foi uma conspiração monarquista.” Era uma comunidade sertaneja de fundo religioso; o próprio Euclides negou o intuito político (PAS 2009, E).
- “A seca de 1915 derrubou os coronéis do sertão.” A seca expulsava o retirante e reforçava a dependência do coronel (PAS 2025, E).
- “Semana de Arte Moderna, PCB e tenentismo foram um único movimento.” Três frentes distintas que expressaram o mesmo esgotamento (PAS 2013 e 2016, C para a convergência, E para a fusão).
- “O coronelismo acabou em 1930” (ou “foi erradicado depois de 1945”). O voto secreto o enfraqueceu; o clientelismo continuou (PAS 2019, E).
Como a prova cobra a Primeira República
O molde preferido é o texto-base de historiador com itens pendurados: Hebe Mattos em 2013 (seis itens, três errados por inferência indevida, troca de fichas e ponte falsa com o presente, três certos por descrição precisa); Carlos Fico em 2017 e um texto sobre modernização em 2019 (política dos governadores descrita com as balizas certas, certo); Marco Antonio Villa em 2014 (mobilização popular, errado). O segundo molde é a obra literária como gancho: Incidente em Antares em 2009 (“o Velho” é Pedro II), Os Sertões em 2009 (o que Euclides nega), Vidas Secas em 2015 (Canudos e a “variada natureza” das revoltas do sertão), Poética de Bandeira em 2016 (1922), O Quinze em 2025 (cangaço e coronéis). O terceiro é o relógio: datas trocadas (1904 por 1918) e doenças trocadas. O ENEM prefere o texto curto de historiador com uma pergunta de interpretação: a frase de Campos Sales, a definição de Leal, o trecho de Carvalho sobre a Vacina, a carta de Mário de Andrade a Drummond sobre a Aliança Liberal, a charge de O Malho de 1904. Em todos, a regra é a mesma: o item certo delimita (datas, agentes, “tendência”, “em parte”); o errado absolutiza (“sem exceções”, “total”, “erradicou”) ou inverte (quem fez, quando, contra quem).
O essencial em meia página
A República foi proclamada em 15 de novembro de 1889 por um golpe de quartel assistido por um povo “bestializado” (Aristides Lobo) e organizada pela Constituição de 24 de fevereiro de 1891: federação, presidencialismo, voto dos homens alfabetizados de 21 anos, a descoberto, sem mulheres, praças, mendigos nem religiosos de ordens; eleitorado de 2% a 5% da população. A República da Espada (1889–1894: Deodoro, Floriano, Encilhamento, Armada, Federalista) deu lugar à República Oligárquica (1894–1930), cuja engrenagem Campos Sales montou em 1898–1900: o coronel conduz o voto de cabresto, o governador fornece a bancada, o presidente não intervém no estado e a Comissão de Verificação degola a oposição (política dos governadores); São Paulo e Minas preponderam, com alianças e exceções (café com leite); o Convênio de Taubaté (1906) põe o Estado a serviço do café. Quem não votava participou pela revolta: Canudos (1896–1897, Conselheiro, destruída pela quarta expedição; Os Sertões, 1902), Vacina (novembro de 1904, Rio de Passos e Oswaldo Cruz, contra a força, não contra a ciência), Chibata (novembro de 1910, João Cândido, anistia votada e traída), Contestado (1912–1916, ferrovia e Lumber contra posseiros), greve geral de 1917 (operariado anarquista de São Paulo). Rio Branco (1902–1912) fechou as fronteiras por arbitragem e tratado (Acre, Petrópolis, 1903) e apostou na “aliança não escrita” com os Estados Unidos. Em 1922, a contestação veio de dentro: Semana de Arte Moderna, PCB, Copacabana e o tenentismo (1924, Coluna Prestes 1925–1927). Em 1929–1930, a crise do café e a candidatura de Júlio Prestes romperam o pacto; a Aliança Liberal perdeu nas urnas e venceu nas armas em outubro de 1930. Datas-fixas: 1889, 1891, 1898, 1904, 1906, 1910, 1917, 1922, 1930; e, para não trocar, 1932 (voto secreto e feminino) e 1985 (voto do analfabeto).