Sistema reprodutor

Guia de estudo · Revisado em 05/10/2026

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Um teste de farmácia acusa gravidez duas semanas depois de uma relação, antes de qualquer sintoma. Que hormônio ele detecta, quem o produz, e que sequência de ovulação, fecundação na tuba e implantação no útero precisou acontecer, dia a dia, para ele existir?

O que você vai aprender

  • Explicar por que a reprodução sexuada exige gametas haploides formados por meiose e por que a fecundação restaura o número diploide e gera variabilidade genética.
  • Identificar, no sistema genital masculino e no feminino, o órgão que produz, o que amadurece, o que transporta e o que secreta, e localizar a fecundação (tuba) e a nidação (endométrio).
  • Descrever a espermatogênese e a ovogênese degrau a degrau, comparar calendário, pausas, citocinese e rendimento, e calcular cromossomos e moléculas de DNA em cada célula (o ovócito ovulado tem 23 cromossomos e 46 moléculas).
  • Montar o eixo GnRH, FSH e LH nos dois sexos, com os alvos (Sertoli, Leydig, folículo, corpo lúteo), os esteroides produzidos e o feedback negativo, e prever que o FSH sobe quando a gônada falha (homens sem testículos, menopausa).
  • Descrever o ciclo menstrual de 28 dias com as curvas de FSH, LH, estrogênio e progesterona, a espessura do endométrio e a temperatura basal, reconhecer o feedback positivo do pico de LH e calcular o dia da ovulação em ciclos de outra duração (ciclo menos 14).
  • Explicar a fecundação (capacitação, reação acrossômica, bloqueio da polispermia), a clivagem, o blastocisto, a nidação e o papel do hCG na manutenção do corpo lúteo e no teste de gravidez.
  • Relacionar placenta, duração da gestação (40 semanas da DUM), parto por feedback positivo da ocitocina e lactação por prolactina e ocitocina, e situar a recomendação de aleitamento exclusivo até os 6 meses.
  • Classificar os métodos contraceptivos pelo elo da cadeia que interrompem, ler a eficácia como gravidezes por 100 mulheres-ano em uso correto e típico (OMS) e explicar por que a pílula de emergência não é abortiva e por que só o preservativo previne ISTs.
  • Associar cada IST ao agente (vírus, bactéria ou protozoário), à via de transmissão e à prevenção (preservativo, vacina contra HPV e hepatite B, testagem e tratamento na gestação).
  • Explicar a infertilidade pelos elos da cadeia nos dois sexos e descrever a FIV e a ICSI, com a história de Louise Brown (1978) e do Nobel de 2010.
  • Distinguir sexo cromossômico, sexo gonadal (SRY), sexo genital (ação da testosterona) e identidade de gênero, e julgar os itens 88 e 90 do PAS 3 de 2009.
  • Julgar itens Certo/Errado e de múltipla escolha sobre reprodução conferindo, para cada hormônio, quem o produz, o que ele faz e em que momento do ciclo está alto, e o degrau da escada em que cada célula está, como nos itens 104 de 2008, 67 de 2010, 113 de 2013 e 84 de 2015 do PAS 3.

Uma pessoa compra um teste de gravidez na farmácia, molha a tira na urina e, em três minutos, lê duas linhas. O que a tira detectou foi um hormônio, o hCG, que não existia no corpo dela duas semanas antes: ele é produzido por um grupo de células do próprio embrião, poucos dias depois de ele se fixar na parede do útero. Para chegar a esse ponto, aconteceu uma sequência que esta página desmonta passo a passo: um ovócito que começou a meiose antes de ela nascer foi acordado por um pico de hormônio da hipófise, deixou o ovário, encontrou um espermatozoide na tuba uterina, virou zigoto, dividiu-se por uma semana enquanto descia para o útero e se implantou num endométrio que a progesterona vinha preparando. Cada etapa tem um endereço, um hormônio e um dia aproximado, e é isso que as provas perguntam.

Esta página é a referência completa do sistema reprodutor humano no nível do ensino médio e dos vestibulares: por que a reprodução sexuada exige gametas com metade dos cromossomos; a anatomia funcional masculina e feminina, órgão por órgão; a gametogênese, com a escada das células e a contagem de cromossomos e de moléculas de DNA; o eixo hipotálamo, hipófise e gônadas, a puberdade e os caracteres sexuais; o ciclo menstrual em detalhe, com as quatro curvas hormonais, o endométrio e a temperatura basal; a fecundação, a nidação, o hCG, a placenta, o parto e a lactação; os métodos contraceptivos com mecanismo e eficácia medidos pela OMS; as infecções sexualmente transmissíveis; a infertilidade e a reprodução assistida; a menopausa; os números de saúde pública do Brasil; uma história em sete datas; e os erros que os itens do PAS e do ENEM exploram. A meiose em si, fase a fase, está em mitose e meiose; o que é hormônio, receptor e feedback negativo, em sistema endócrino; os vírus e as bactérias das ISTs, em vírus e bactérias; a vacina contra o HPV, em vacinas e soros. Os folhetos embrionários, os anexos e o desenvolvimento do embrião depois da nidação ficam para a página de embriologia.

Reprodução sexuada: dois gametas, metade dos cromossomos cada um

Uma célula do seu corpo tem 46 cromossomos, em 23 pares: um cromossomo de cada par veio da mãe, o outro, do pai. Ela é diploide (2n). Se dois pais entregassem 46 cromossomos cada um, o filho teria 92, o neto, 184, e em poucas gerações o número explodiria. A solução que todos os animais de reprodução sexuada usam é a mesma: antes de formar gametas, uma divisão especial, a meiose, reduz o número à metade. O espermatozoide e o ovócito são haploides (n = 23), e a fecundação, a fusão dos dois, restaura os 46 no zigoto. Metade mais metade dá inteiro, e o inteiro é novo: o filho não é cópia de nenhum dos pais.

Esse “novo” é o segundo motivo da reprodução sexuada. Na meiose, os pares de cromossomos homólogos se separam ao acaso e trocam pedaços entre si (o crossing-over), de modo que cada gameta carrega uma combinação única de alelos. Somada ao encontro casual de um espermatozoide com um ovócito, a meiose produz variabilidade genética: irmãos do mesmo casal são diferentes entre si, e uma população tem, a cada geração, um estoque renovado de combinações sobre as quais a seleção natural pode agir. A reprodução assexuada (uma bactéria que se divide, uma planta que brota de um pedaço de caule) é mais rápida e barata, mas gera clones. A sexuada é mais cara (precisa de dois indivíduos, de órgãos especializados e de um encontro) e gera diferença. O mecanismo da meiose, com a separação dos homólogos na primeira divisão e das cromátides na segunda, está em mitose e meiose; aqui ela entra como ferramenta: é o que a gametogênese faz.

Três palavras que a prova troca entre si

Gônada é o órgão que produz gametas e hormônios sexuais: testículo ou ovário. Gameta é a célula reprodutiva haploide: espermatozoide ou ovócito. Gonadotrofina é o hormônio da hipófise que comanda a gônada: FSH ou LH. Uma frase que diga “o FSH é produzido pelos testículos” trocou gonadotrofina por hormônio gonadal; uma que diga “o sêmen é o gameta masculino” trocou o veículo pela célula. As duas aparecem em itens de prova.

Anatomia masculina: do túbulo seminífero à uretra

O sistema genital masculino tem três partes com três verbos: as gônadas produzem (espermatozoides e testosterona), as vias transportam e amadurecem, e as glândulas anexas diluem e nutrem. Siga o espermatozoide.

Testículos e escroto. Os dois testículos ficam fora da cavidade abdominal, numa bolsa de pele e músculo, o escroto. A posição não é acidental: a espermatogênese funciona melhor de 2 a 4 °C abaixo da temperatura central do corpo, e o escroto regula essa diferença contraindo (aproxima os testículos do corpo no frio) ou relaxando (afasta no calor). Testículos que não descem para o escroto na infância (criptorquidia) produzem espermatozoides em quantidade reduzida, e é por isso que o pediatra confere a descida no primeiro ano de vida. Dentro de cada testículo há centenas de túbulos seminíferos enovelados. Na parede deles ficam as células germinativas em todos os estágios, da espermatogônia ao espermatozoide, abraçadas por células de sustentação, as células de Sertoli, que nutrem as células em formação, organizam o ambiente e formam, com junções entre si, uma barreira entre o sangue e o interior do túbulo (a barreira hematotesticular), que impede que o sistema imune reconheça os espermatozoides como estranhos. Entre os túbulos, no tecido intersticial, ficam as células de Leydig, que produzem testosterona sob comando do LH. Testículo é, portanto, glândula mista: exócrina pelo túbulo (gametas por ducto) e endócrina pelo interstício (hormônio no sangue).

Epidídimo. Os espermatozoides saem dos túbulos imóveis e incapazes de fecundar. Eles entram no epidídimo, um tubo de cerca de 6 m enovelado sobre o testículo, e levam em média 12 dias para percorrê-lo. Nesse trajeto adquirem mobilidade e terminam a maturação; na cauda do epidídimo ficam armazenados até a ejaculação. Produzir e amadurecer são etapas diferentes, em órgãos diferentes: o testículo produz, o epidídimo amadurece. Essa diferença é a chave de um item real de 2012, discutido adiante, em que uma doença bloqueia o epidídimo e os espermatozoides existem mas não chegam ao sêmen.

Ducto deferente, ducto ejaculatório e uretra. Na ejaculação, a musculatura lisa empurra os espermatozoides do epidídimo para o ducto deferente, um tubo muscular que sobe pelo canal inguinal, entra na cavidade pélvica e passa por trás da bexiga. É por ser acessível dentro do escroto que a vasectomia corta e fecha um pedaço dele: os espermatozoides continuam sendo produzidos (e a testosterona continua sendo secretada, porque as células de Leydig não são tocadas), mas deixam de chegar ao sêmen. O deferente recebe o ducto da vesícula seminal e vira ducto ejaculatório, que atravessa a próstata e desemboca na uretra. A uretra masculina é via comum de urina e sêmen, mas nunca ao mesmo tempo: na ejaculação, o esfíncter do colo da bexiga fecha.

Glândulas anexas e sêmen. Os espermatozoides são cerca de 5 % do volume do sêmen. O resto vem de três glândulas. As vesículas seminais, atrás da bexiga, contribuem com cerca de 60 % do volume, num líquido rico em frutose, o açúcar que as mitocôndrias da peça intermediária do espermatozoide usam para produzir o ATP do flagelo. A próstata, do tamanho de uma noz, abaixo da bexiga e em volta da uretra, acrescenta um líquido leitoso e alcalino que ajuda a neutralizar a acidez da vagina e contém enzimas que primeiro coagulam e depois liquefazem o sêmen. As duas glândulas bulbouretrais, abaixo da próstata, liberam antes da ejaculação um muco lubrificante que limpa resíduos de urina da uretra; esse líquido pré-ejaculatório pode arrastar espermatozoides que já estavam na uretra, e é um dos motivos pelos quais o coito interrompido falha.

estrutura o que faz o que não faz (erro de prova)
túbulo seminífero produz espermatozoides (espermatogênese); células de Sertoli sustentam não produz testosterona (isso é Leydig, entre os túbulos)
células de Leydig produzem testosterona sob LH não produzem gametas
epidídimo amadurece e armazena espermatozoides não é local de fecundação nem de produção
ducto deferente transporta na ejaculação; alvo da vasectomia não é o ureter (que leva urina do rim à bexiga)
vesículas seminais ~60 % do sêmen; frutose não armazenam espermatozoides
próstata líquido alcalino; coagula e liquefaz o sêmen não guarda espermatozoides; não produz hormônio sexual
uretra via comum de urina e sêmen, nunca simultâneas não é o ducto deferente

Ereção e ejaculação são dois processos. A ereção é vascular: sob comando do sistema nervoso parassimpático, as arteríolas do tecido erétil do pênis dilatam, os espaços se enchem de sangue e as veias de drenagem ficam comprimidas. A ejaculação é muscular e simpática: contrações do epidídimo, do deferente, das glândulas e dos músculos da base do pênis expulsam o sêmen. Um item que explique ereção por “aumento da produção de testosterona no momento” erra o mecanismo: a testosterona mantém a função ao longo de meses, mas quem dispara a ereção, em segundos, é um reflexo nervoso.

Esquema do trajeto do espermatozoide em quatro estações ligadas por setas azuis: túbulo seminífero (produz; com a nota de que as células de Sertoli ficam dentro do túbulo e as de Leydig, entre os túbulos, produzem testosterona sob LH), epidídimo (amadurece e armazena, cerca de 12 dias), ducto deferente (transporta; a tesoura vermelha marca o ponto da vasectomia) e uretra (via comum de urina e sêmen, nunca ao mesmo tempo). Abaixo, três caixas com as glândulas anexas que desembocam no caminho: vesículas seminais (cerca de 60 por cento do volume, frutose), próstata (líquido alcalino que coagula e liquefaz) e glândulas bulbouretrais (muco pré-ejaculatório). Na base, uma barra horizontal da composição aproximada do sêmen: 60 por cento vesículas seminais, 30 por cento próstata, 5 por cento espermatozoides e o restante bulbouretrais.
O trajeto do espermatozoide e quem acrescenta o quê. Produzir (túbulo), amadurecer (epidídimo), transportar (deferente) e diluir (glândulas) são quatro verbos em quatro endereços. A vasectomia corta o terceiro e não toca no primeiro: a testosterona continua. Diagrama autoral, fora de escala.

Anatomia feminina: ovários, tubas, útero, vagina, vulva e mamas

O sistema genital feminino tem os mesmos três verbos, com um quarto que o masculino não tem: além de produzir, transportar e secretar, ele abriga o embrião por nove meses. Siga o ovócito.

Ovários. São dois órgãos do tamanho de uma amêndoa, um de cada lado do útero, presos por ligamentos. Cada ovário guarda os ovócitos dentro de folículos: o ovócito no centro, cercado por células foliculares (granulosa e teca) que o nutrem e produzem estrogênio. Ao nascer, uma menina tem no par de ovários de um a dois milhões de ovócitos, todos já parados no início da meiose; nenhum novo será formado. Da puberdade à menopausa, um folículo amadurece e se rompe a cada ciclo, liberando o ovócito (a ovulação); o que sobra do folículo vira corpo lúteo, uma glândula temporária que produz progesterona. O ovário também é glândula mista: gameta por rompimento da superfície, hormônio pelo sangue.

Tubas uterinas. Cada tuba (ou trompa) é um tubo de cerca de um palmo que vai do útero até perto do ovário, terminando em franjas, as fímbrias, que varrem a superfície do ovário na ovulação e captam o ovócito. Não há tubo fechado ligando ovário e tuba: o ovócito é lançado na cavidade pélvica e capturado pelas fímbrias. Cílios do epitélio e contrações da parede empurram o ovócito em direção ao útero. É na porção mais larga da tuba, a ampola, que o espermatozoide costuma encontrar o ovócito: a fecundação acontece na tuba, não no útero. Quando o embrião se implanta na própria tuba (gravidez ectópica, 1 a 2 % dos casos), a tuba não suporta o crescimento e a situação é uma emergência.

Útero. É um órgão muscular oco em forma de pera invertida, com três camadas: por fora, uma serosa; no meio, o miométrio, a parede muscular lisa que se contrai no parto; por dentro, o endométrio, a mucosa que muda a cada ciclo. O endométrio tem duas partes: uma camada basal, permanente, e uma camada funcional, que cresce sob estrogênio, torna-se secretora sob progesterona e descama na menstruação. É na camada funcional que o blastocisto se implanta. A parte inferior do útero, o colo (ou cérvix), abre-se na vagina e produz um muco cujo aspecto muda com os hormônios: fluido e elástico perto da ovulação (deixa passar espermatozoides), espesso no resto do ciclo (barreira). O exame preventivo do câncer de colo, o Papanicolau, raspa células dessa região.

Vagina e vulva. A vagina é o canal muscular que liga o colo ao exterior: recebe o sêmen, é a via de saída da menstruação e o canal do parto. Seu pH é ácido (em torno de 4), mantido por bactérias que fermentam o glicogênio do epitélio, e essa acidez mata milhões de espermatozoides nos primeiros minutos; a alcalinidade do sêmen compensa em parte. A vulva é o conjunto das estruturas externas: monte púbico, grandes e pequenos lábios, clitóris, e os orifícios da uretra e da vagina. Uretra e vagina são aberturas distintas: na mulher, a uretra só conduz urina.

Mamas. As glândulas mamárias são anexos do sistema reprodutor: tecido glandular organizado em lobos que desembocam no mamilo, imerso em tecido adiposo. Crescem na puberdade sob estrogênio, desenvolvem os alvéolos secretores na gestação sob estrogênio, progesterona e prolactina, e produzem leite depois do parto. Os dois hormônios da lactação são tratados adiante.

estrutura o que faz o que não faz (erro de prova)
ovário guarda ovócitos em folículos; produz estrogênio (folículo) e progesterona (corpo lúteo) não produz FSH nem LH (hipófise)
tuba uterina capta o ovócito; local habitual da fecundação não é o local da nidação
endométrio camada funcional cresce, torna-se secretora e descama; local da nidação não produz progesterona (recebe)
miométrio músculo liso; contrai no parto sob ocitocina não descama
colo do útero muco cervical variável; Papanicolau não é o local da fecundação
vagina pH ácido; canal do parto não é a uretra
Esquema do sistema genital feminino em vista frontal simplificada: dois ovários amarelos nas laterais, duas tubas uterinas roxas com fímbrias voltadas para os ovários, o útero rosa ao centro com a parede em duas camadas rotuladas miométrio e endométrio, o colo e a vagina embaixo. Círculos numerados marcam o caminho do ovócito: 1, ovulação no ovário; 2, captação pelas fímbrias; 3, fecundação na ampola da tuba, em horas; 4, descida pela tuba em clivagem (dias 1 a 5); 5, nidação no endométrio (dias 6 a 7). Uma seta tracejada azul vinda de baixo, pela vagina, pelo colo e pelo útero, mostra o caminho dos espermatozoides até a tuba, com a nota de que vivem até cinco dias no trato.
O caminho do ovócito e o dos espermatozoides se cruzam na tuba. A fecundação acontece na ampola, no primeiro dia; a nidação, no endométrio, no fim da primeira semana. O ovário não está ligado à tuba por um tubo fechado: as fímbrias capturam o ovócito na cavidade pélvica. Diagrama autoral, fora de escala.
"A fecundação ocorre no útero" e "a menstruação elimina o óvulo"

Os dois erros aparecem em alternativas de prova. O útero é o lugar da nidação, cerca de seis dias depois da fecundação, que já aconteceu na tuba. E a menstruação é a descamação da camada funcional do endométrio, provocada pela queda de progesterona e estrogênio quando o corpo lúteo regride; o ovócito não fecundado degenerou na tuba uma ou duas semanas antes, e nem seria visível. O que sai na menstruação é sangue e tecido endometrial.

Gametogênese: a mesma meiose com dois resultados muito diferentes

A gametogênese é a formação dos gametas a partir de células germinativas diploides, por meiose seguida de diferenciação. O roteiro é o mesmo nos dois sexos (multiplicação por mitose, crescimento, meiose I, meiose II, maturação), mas o calendário, o rendimento e o tamanho das células não poderiam ser mais diferentes.

Espermatogênese: contínua, quatro por quatro. Nos túbulos seminíferos, as espermatogônias (2n) multiplicam-se por mitose desde a puberdade e durante toda a vida: uma das células-filhas continua espermatogônia (a reserva nunca acaba) e a outra cresce e vira espermatócito I (2n, com o DNA já duplicado). O espermatócito I faz a meiose I e origina dois espermatócitos II (n, cromossomos ainda com duas cromátides); cada um faz a meiose II e origina duas espermátides (n, cromátides separadas). Resultado: quatro espermátides por espermatócito I, todas do mesmo tamanho. As espermátides são células redondas que ainda não parecem gametas; na espermiogênese elas perdem quase todo o citoplasma, condensam o núcleo, montam o acrossomo (uma vesícula de enzimas sobre o núcleo, derivada do complexo de Golgi) e o flagelo, com mitocôndrias enroladas na peça intermediária. Não há terceira divisão: espermiogênese é diferenciação. Da espermatogônia ao espermatozoide formado, o processo leva cerca de 64 dias (mais os 12 do epidídimo), e novas levas começam a cada 16 dias em pontos diferentes do túbulo, o que torna a produção contínua: centenas de milhões por ejaculação.

Ovogênese: começa antes de nascer, para duas vezes, rende um. As ovogônias (2n) multiplicam-se por mitose apenas na vida fetal. Ainda antes do nascimento, todas viram ovócitos I e iniciam a meiose I, mas param na prófase I. A menina nasce com um a dois milhões de ovócitos I parados, e a maior parte degenera (atresia) ao longo da infância e da vida adulta. Da puberdade em diante, a cada ciclo, um grupo de folículos é recrutado, um se torna dominante e, sob o pico de LH, o ovócito I dele completa a meiose I. A divisão é desigual: quase todo o citoplasma fica numa célula, o ovócito II, e a outra, minúscula, é o primeiro corpúsculo polar, que degenera. O ovócito II inicia a meiose II e para de novo, na metáfase II: é nesse estado que ele é ovulado. A segunda divisão só termina se um espermatozoide entrar, e ela produz o óvulo propriamente dito (que já está sendo fecundado) e o segundo corpúsculo polar. Resultado: um gameta funcional por ovócito I, grande e cheio de reservas, e dois ou três corpúsculos polares que se perdem. A rigor, a célula liberada na ovulação é um ovócito II, e “óvulo” é o nome que ela recebe por poucos instantes, ao completar a meiose; na linguagem escolar e nas provas, “óvulo” e “ovócito” costumam ser usados como sinônimos para a célula ovulada.

critério espermatogênese ovogênese
onde túbulos seminíferos (testículo) folículos (ovário)
quando começa puberdade vida fetal (ovogônias e ovócitos I antes do nascimento)
quando termina não termina: contínua até o fim da vida (declina com a idade) menopausa (reserva finita, sem reposição)
pausas nenhuma: meiose I e II em sequência duas: prófase I (do feto à puberdade) e metáfase II (da ovulação à fecundação)
citocinese igual: 4 células do mesmo tamanho desigual: 1 célula grande + corpúsculos polares
gametas por célula que entra em meiose 4 espermatozoides por espermatócito I 1 óvulo por ovócito I
gametas por ciclo centenas de milhões por ejaculação em geral 1 ovócito por ciclo (~28 dias)
tamanho do gameta pequeno, quase sem citoplasma grande, uma das maiores células do corpo
mobilidade flagelo próprio transportado por cílios e contrações da tuba
quem conclui a meiose II a espermátide, no túbulo o ovócito II, só se fecundado
Duas escadas de células lado a lado. À esquerda, em azul, a espermatogênese: espermatogônia 2n (46 cromossomos, 46 moléculas de DNA), mitose, espermatócito I (46 cromossomos, 92 moléculas), meiose I, dois espermatócitos II (23 cromossomos, 46 moléculas), meiose II, quatro espermátides (23 cromossomos, 23 moléculas), espermiogênese, quatro espermatozoides iguais, com a faixa contínua da puberdade ao fim da vida, cerca de 64 dias, sem pausas. À direita, em rosa, a ovogênese: ovogônia só na vida fetal; ovócito I (46 cromossomos, 92 moléculas) parado em prófase I do feto à puberdade; meiose I desigual sob o pico de LH; um ovócito II grande (23 cromossomos, 46 moléculas) mais um primeiro corpúsculo polar pequeno; parado em metáfase II, que é como se ovula; meiose II só se o espermatozoide entrar; um óvulo (23 e 23) mais o segundo corpúsculo polar; faixa com reserva finita de 1 a 2 milhões, duas pausas, citocinese desigual. Faixa inferior com a regra: cromossomo se conta pelo centrômero, molécula de DNA pela cromátide; o ovócito ovulado tem 23 cromossomos e 46 moléculas.
Duas escadas, a mesma meiose. A da esquerda rende quatro células iguais e corre sem parar da puberdade em diante; a da direita rende uma célula grande, começa antes do nascimento e para duas vezes. Os números de cromossomos e de moléculas de DNA em cada degrau são os que as provas pedem. Diagrama autoral.
Contar cromossomos e contar moléculas de DNA

Um cromossomo é contado pelo centrômero: um cromossomo com duas cromátides-irmãs continua sendo um cromossomo, mas tem duas moléculas de DNA. A célula humana em G1 tem 46 cromossomos e 46 moléculas; depois da fase S (antes da meiose I), 46 cromossomos e 92 moléculas. A meiose I separa homólogos: cada produto tem 23 cromossomos, ainda duplicados, e 46 moléculas. A meiose II separa cromátides: 23 cromossomos e 23 moléculas. O ovócito ovulado está parado na metáfase II, logo tem 23 cromossomos e 46 moléculas de DNA: cada cromossomo ainda carrega as duas cromátides-irmãs presas pelo centrômero. O item 113 do PAS 3 de 2012 afirmou esses mesmos números, e o gabarito foi certo.

Exemplo resolvido: a escada com números. Em um experimento, 25 espermatócitos I e 25 ovócitos I completam a meiose sem perdas. (a) Quantos gametas funcionais cada grupo origina? (b) Quantas moléculas de DNA nuclear tem um espermatócito II humano? © Um homem heterozigoto Aa tem espermatogônias de dois tipos, A e a? Resposta: (a) 25 × 4 = 100 espermatozoides; 25 × 1 = 25 óvulos (e 50 a 75 corpúsculos polares, que não são gametas). (b) O espermatócito II é produto da meiose I: 23 cromossomos, cada um com duas cromátides, logo 46 moléculas. © Não. A espermatogônia é diploide e carrega os dois alelos, A e a, em cada célula; “dois tipos” só surgem depois da meiose I separar os homólogos, nos espermatócitos II e nos espermatozoides. O item 44 do PAS 3 de 2025 afirmou que um homem AS tinha espermatogônias com A e espermatogônias com S, e foi errado por esse motivo. Conferência: em (a), o número de divisões é o mesmo nos dois sexos; o que muda é quantos produtos sobrevivem como gameta. Em (b), a pergunta é sobre moléculas, não sobre cromossomos; se fosse cromossomos, a resposta seria 23.

"A mulher nasce com os óvulos prontos" e "espermatozoide dura algumas horas"

A mulher nasce com ovócitos I parados na prófase I, não com óvulos: cada um ainda precisa completar duas divisões, a primeira no ciclo em que é ovulado e a segunda só se for fecundado. O que é verdade é que a reserva é definida ao nascer e só diminui. Quanto ao espermatozoide, ele dura minutos na acidez da vagina, mas, uma vez no muco cervical e nas tubas, sobrevive por até cinco dias (dados do MedlinePlus). O ovócito, ao contrário, vive menos de 24 horas depois da ovulação. Essa assimetria define a janela fértil, discutida adiante.

O eixo hormonal: hipotálamo, hipófise e gônadas

O comando dos dois sistemas é o mesmo, e é o mesmo eixo que a página de sistema endócrino apresenta para a tireoide e a suprarrenal. O hipotálamo secreta GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas) em pulsos; o GnRH chega à adeno-hipófise pelo sistema porta e faz a hipófise lançar no sangue as duas gonadotrofinas, FSH (folículo-estimulante) e LH (luteinizante); as gonadotrofinas agem na gônada, que responde produzindo gametas e hormônios esteroides; e os esteroides, somados a um peptídeo chamado inibina, fazem feedback negativo sobre a hipófise e o hipotálamo. Os nomes das gonadotrofinas vêm do ovário, mas elas agem igualmente no testículo.

No testículo. O LH liga-se às células de Leydig e as faz produzir testosterona (6 a 7 mg por dia num adulto, com concentração dentro do testículo cerca de 100 vezes maior que no sangue). O FSH liga-se às células de Sertoli e sustenta a espermatogênese; as células de Sertoli, em resposta, produzem inibina, que freia especificamente o FSH. A testosterona alta inibe GnRH e LH. O circuito é um termostato: testosterona baixa, hipotálamo e hipófise aceleram; testosterona alta, freiam. É daí que vem o efeito dos anabolizantes: testosterona em dose alta vinda de fora freia LH e FSH, as células de Leydig param de ser estimuladas, o próprio testículo reduz a produção e a espermatogênese cai. A dose de fora não “soma”: substitui e desliga.

No ovário. O FSH faz crescer os folículos, e as células foliculares produzem estrogênio (o principal é o estradiol). O LH completa a maturação, dispara a ovulação e transforma o folículo rompido em corpo lúteo, que produz progesterona (e estrogênio). O estrogênio faz feedback negativo durante quase todo o ciclo, mas, quando o folículo dominante o eleva muito por dois ou três dias, o sinal se inverte e vira feedback positivo: o estrogênio alto estimula a hipófise, que responde com o pico de LH. É o único feedback positivo do eixo, e ele é o gatilho da ovulação. A progesterona do corpo lúteo volta a frear a hipófise na segunda metade do ciclo.

hormônio quem produz alvo o que faz
GnRH hipotálamo adeno-hipófise libera FSH e LH (em pulsos)
FSH adeno-hipófise folículo (granulosa); Sertoli amadurece folículos; sustenta a espermatogênese
LH adeno-hipófise folículo e corpo lúteo; Leydig pico dispara a ovulação; forma o corpo lúteo; produção de testosterona
estrogênio folículo (e corpo lúteo; placenta) endométrio, hipófise, corpo todo reconstrói o endométrio (fase proliferativa); caracteres secundários femininos; feedback negativo e, no pico, positivo
progesterona corpo lúteo (e placenta) endométrio, hipófise, mamas endométrio secretor; mantém a gestação; freia contrações; feedback negativo
testosterona células de Leydig (pequenas quantidades no ovário e na suprarrenal) tecidos de todo o corpo, Sertoli, hipófise espermatogênese; caracteres secundários masculinos; libido; feedback negativo
inibina Sertoli; granulosa hipófise freia o FSH
hCG trofoblasto (embrião) e placenta corpo lúteo mantém o corpo lúteo na gestação
ocitocina hipotálamo, liberada pela neuro-hipófise miométrio; mamas contrações do parto; ejeção do leite
prolactina adeno-hipófise mamas produção de leite
Esquema em dois painéis com o mesmo topo: o hipotálamo libera GnRH em pulsos para a adeno-hipófise, que libera FSH e LH. No painel do testículo, à esquerda, a seta laranja do LH chega às células de Leydig, que produzem testosterona, e a seta verde-azulada do FSH chega às células de Sertoli, que sustentam a espermatogênese e produzem inibina; setas tracejadas vermelhas de feedback negativo voltam da testosterona ao hipotálamo e à hipófise e da inibina só à hipófise; uma caixa vermelha explica que sem testículo o FSH sobe (de 3 a 18 para 30 a 200 mUI/mL) e que o anabolizante desliga o eixo. No painel do ovário, à direita, o FSH faz o folículo crescer e produzir estrogênio, o LH dispara a ovulação e forma o corpo lúteo, que produz progesterona; setas tracejadas vermelhas de feedback negativo voltam dos dois esteroides, e uma seta verde grossa marca o estrogênio muito alto por cerca de dois dias estimulando a hipófise: o feedback positivo que gera o pico de LH.
Um só eixo, dois painéis. As gonadotrofinas são as mesmas; o que muda é a célula-alvo e o esteroide produzido. A seta verde é a exceção do sistema: o estrogênio alto, por dois ou três dias, estimula em vez de frear, e o resultado é o pico de LH. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido: quem sobe quando a gônada falha. Uma tabela de valores de referência diz que o FSH de homens adultos fica entre 3 e 18 mUI/mL, e que em homens que perderam os testículos fica entre 30 e 200 mUI/mL. Por que a falta de testículos aumenta o FSH? Resposta: porque o testículo é quem freia a hipófise. Sem testículo não há testosterona nem inibina; sem o freio, o hipotálamo e a hipófise seguem lançando GnRH, FSH e LH em quantidade crescente, sem que nada os faça parar. É a regra geral do feedback negativo: quando a glândula-alvo falha, o hormônio de comando sobe. O item 128 do PAS 2 de 2009 apresentou exatamente essa tabela e afirmou que os níveis altos de FSH em homens sem testículos se explicam pela retroalimentação negativa: certo. Conferência: o mesmo raciocínio explica o FSH alto na menopausa (ovário sem folículos, sem inibina e com pouco estrogênio) e o TSH alto numa tireoide sem iodo.

"Testosterona é hormônio masculino, estrogênio é feminino"

Os dois sexos produzem os dois. O ovário secreta pequenas quantidades de testosterona (a maior parte convertida em estradiol), e a suprarrenal produz andrógenos em todos; o testículo e o tecido adiposo masculino convertem parte da testosterona em estradiol, que o homem precisa para a densidade óssea e para fechar as cartilagens de crescimento. O que difere é a proporção e a fonte principal. Um item que diga “a testosterona está presente apenas no organismo masculino” está errado.

Puberdade: o eixo acorda

Na infância, o eixo existe mas está quase desligado: a hipófise é tão sensível ao feedback negativo que concentrações mínimas de esteroides bastam para mantê-la quieta. Por volta dos 8 ou 9 anos, o LH começa a ser detectável, primeiro em pulsos noturnos; ao longo dos anos seguintes a sensibilidade ao freio diminui, o hipotálamo passa a lançar GnRH em pulsos mais frequentes e as gônadas ficam mais responsivas a FSH e LH. O resultado é a puberdade: as gônadas passam a produzir esteroides em quantidade adulta e a formar gametas. Pelo MedlinePlus, ela costuma começar entre 8 e 13 anos nas meninas e entre 9 e 14 nos meninos, com variação individual grande e influência de genética, nutrição e estresse. Nas meninas, o primeiro sinal visível costuma ser o broto mamário, seguido de pelos pubianos, do estirão de crescimento e, por último, da menarca, a primeira menstruação; nos meninos, o aumento dos testículos, depois pelos, estirão, voz e a primeira ejaculação. A ordem é previsível; a idade, não.

Os caracteres sexuais secundários são tudo o que distingue os sexos sem ser gônada ou genitália: nos meninos, sob testosterona, barba e pelos, voz grave (laringe maior), massa muscular e óssea, pele mais oleosa; nas meninas, sob estrogênio, mamas, quadris mais largos, distribuição de gordura, e a maturação do útero e da vagina. Os caracteres primários são as gônadas e os órgãos genitais, formados na vida fetal.

Cariótipo, gônada, genitália e gênero: quatro níveis, quatro momentos

Um bloco do PAS 3 de 2009 trouxe uma tabela com quatro níveis da identidade sexual humana, cada um definido num momento diferente. O primeiro se fecha na fertilização: o espermatozoide traz X ou Y, e o cariótipo fica 46,XX ou 46,XY (sexo cromossômico). O segundo se decide por volta da sexta semana de vida embrionária: a gônada, até ali indiferenciada, vira testículo se o gene SRY do cromossomo Y estiver presente e ativo, e vira ovário se não estiver (sexo gonadal). O terceiro vem na oitava semana e já não depende de cromossomo, e sim de hormônio: o testículo fetal lança testosterona, e são os tecidos da genitália externa, respondendo a ela por receptores, que tomam a forma masculina (sexo genital ou fenotípico). Tire a testosterona, ou tire os receptores, e um embrião com testículos e cariótipo XY forma genitália externa de padrão feminino, que foi o raciocínio pedido no item 88 daquele bloco. O quarto nível, a identidade de gênero, é o modo como a pessoa se reconhece, e a tabela da prova o registrou na coluna dos “sentimentos”, presente “desde a infância, talvez mais cedo”: nenhum cariótipo, biópsia ou exame de genitália o informa. O item 90 do mesmo bloco contou o caso de uma criança cuja genitália masculina foi perdida logo após o nascimento e reconstruída como feminina, e que, adulta, se reconhecia como homem, e perguntou se o caso confirmava que a identidade de gênero deve ser determinada por exame de genitália, genes e cromossomos. Errado: se a cirurgia não mudou a identidade, a identidade não vem da genitália.

O ciclo menstrual em detalhe

Um ciclo é contado do primeiro dia de sangramento ao dia anterior ao sangramento seguinte. O comprimento médio é 28 dias, e é esse o modelo que as provas usam, mas ciclos mais curtos ou mais longos são comuns, e a mesma pessoa varia de um mês para outro. O que é relativamente fixo é a segunda metade: do dia da ovulação até a menstruação seguinte passam cerca de 14 dias, porque esse é o tempo de vida do corpo lúteo sem gravidez. O que varia é a primeira metade, o tempo que o folículo leva para amadurecer. Dois ciclos acontecem em paralelo e são descritos com nomes diferentes: o ciclo ovariano (fase folicular, ovulação, fase lútea) e o ciclo uterino (menstruação, fase proliferativa, fase secretora). Os nomes do ovário e os do útero descrevem o mesmo período visto de dois órgãos.

Dias 1 a 5: menstruação (fase folicular inicial). No fim do ciclo anterior o corpo lúteo regrediu; estrogênio e progesterona estão no mínimo. Sem sustentação hormonal, as arteríolas da camada funcional do endométrio se contraem, o tecido morre e descama: menstruação, de 2 a 7 dias, em média 5. Ao mesmo tempo, com os esteroides baixos, o freio sobre a hipófise afrouxa e o FSH sobe um pouco: um grupo de folículos é recrutado e começa a crescer.

Dias 6 a 13: fase folicular e fase proliferativa. Os folículos em crescimento produzem estrogênio em quantidade crescente. O estrogênio reconstrói a camada funcional do endométrio (fase proliferativa do útero), torna o muco cervical fluido e elástico e, por feedback negativo, faz o FSH cair de leve. Com menos FSH, só o folículo mais sensível continua crescendo, o folículo dominante; os outros entram em atresia. É assim que, em geral, um único ovócito é ovulado por ciclo.

Dias 12 a 14: pico de LH e ovulação. Quando o estrogênio do folículo dominante se mantém muito alto por cerca de dois dias, o feedback vira positivo: o GnRH e a hipófise respondem com um pico de LH (e um pico menor de FSH). O LH faz o ovócito I completar a meiose I (vira ovócito II e para na metáfase II), ativa enzimas que digerem a parede do folículo e, no dia seguinte ao início do pico, o folículo se rompe: ovulação, por volta do dia 14 num ciclo de 28. Testes de ovulação de farmácia detectam o pico de LH na urina. Depois do pico, o LH cai rapidamente.

Dias 15 a 25: fase lútea e fase secretora. O folículo rompido é transformado pelo LH em corpo lúteo, que produz progesterona em grande quantidade e estrogênio. A progesterona transforma o endométrio proliferado em endométrio secretor: as glândulas se enrolam e secretam nutrientes, os vasos se espiralam, tudo para receber um embrião. A progesterona também espessa o muco cervical de novo, freia as contrações uterinas e eleva a temperatura basal em alguns décimos de grau, o que permite reconhecer, pelo termômetro, que a ovulação já aconteceu. Progesterona e estrogênio altos mantêm FSH e LH baixos: nenhum folículo novo amadurece.

Dias 26 a 28: regressão do corpo lúteo. O corpo lúteo vive de 10 a 12 dias sem um sinal de gravidez. Sem hCG, ele degenera em corpo albicans, progesterona e estrogênio despencam, o endométrio perde a sustentação e, no dia 1 seguinte, descama. A queda dos esteroides libera a hipófise, o FSH sobe e um ciclo novo começa; visto do eixo, o mês inteiro é uma só volta do circuito de freio e liberação. Se houver gravidez, o hCG do embrião mantém o corpo lúteo e nada disso acontece.

Gráfico com o eixo horizontal de 1 a 28 dias e quatro painéis empilhados. No painel da hipófise, a curva do FSH, verde-azulada, com uma leve elevação nos primeiros dias e um pico menor no dia 13, e a curva do LH, laranja, baixa durante o ciclo com um pico alto e estreito no dia 14. No painel do ovário, o estrogênio, verde, sobe ao longo da fase folicular até um máximo no dia 12, cai na ovulação e tem um segundo platô menor na fase lútea; a progesterona, roxa, fica quase nula na primeira metade, alta entre os dias 16 e 25 e cai no fim. No painel do endométrio, a área rosa da espessura: baixa e hachurada em vermelho nos dias 1 a 5 (menstruação), crescendo nos dias 6 a 14 (proliferativo) e espessa e secretora dos dias 15 a 28. No painel da temperatura, a curva vermelha da temperatura basal sobe alguns décimos de grau logo depois da ovulação e cai no dia 28. Uma linha tracejada laranja marca o dia 14 com a etiqueta ovulação. Abaixo, faixas com as fases: ovariana (folicular, ovulação, lútea de cerca de 14 dias, fixa) e uterina (menstrual, proliferativa, secretora).
As quatro curvas de um ciclo de 28 dias e o que acontece no útero e na temperatura. Leia de cima para baixo em qualquer dia: dia 2, tudo baixo e menstruação; dia 12, estrogênio no máximo e endométrio proliferado; dia 14, pico de LH; dia 21, progesterona no máximo, endométrio secretor, temperatura alta. Valores ilustrativos. Diagrama autoral.
Como ler um gráfico de ciclo em quatro perguntas

Diante de um gráfico com as curvas, pergunte: (1) qual curva tem um pico estreito perto do meio? É o LH: o pico marca a ovulação, e o dia seguinte é o início da fase lútea. (2) Qual curva está alta só na segunda metade? É a progesterona: ela denuncia um corpo lúteo ativo. (3) Qual curva sobe ao longo da primeira metade e cai logo antes do pico de LH? É o estrogênio. (4) O que o endométrio está fazendo? Crescendo (estrogênio), secretando (progesterona) ou descamando (os dois caíram). Com essas quatro respostas, qualquer alternativa que ponha “progesterona alta no dia 2”, “ovulação sem pico de LH” ou “endométrio descamando com progesterona alta” se elimina sozinha.

Exemplo resolvido: a ovulação num ciclo de 35 dias. Uma pessoa tem ciclos regulares de 35 dias. Em que dia ocorre, aproximadamente, a ovulação, e por quê não é o dia 14? Resposta: a fase lútea dura cerca de 14 dias em qualquer ciclo regular, porque é a vida do corpo lúteo; o que se alonga num ciclo longo é a fase folicular. Logo, ovulação ≈ comprimento do ciclo − 14 = 35 − 14 = dia 21. Num ciclo de 24 dias seria o dia 10. O “dia 14” é um resultado do modelo de 28 dias, não uma regra. Conferência: a janela fértil é a ovulação mais os cinco dias anteriores (vida do espermatozoide) e o dia seguinte (vida do ovócito); num ciclo de 35 dias ela vai do dia 16 ao dia 22, e os dias 11 a 15, “férteis” no calendário de 28, aqui não são. É por isso que a tabelinha falha: ciclos variam, e a parte que varia é justamente a que vem antes da ovulação.

Três barras horizontais, uma para cada ciclo: 21 dias, 28 dias e 35 dias. Cada barra tem a fase folicular à esquerda, em azul, com comprimento variável (6, 13 e 20 dias), um marcador laranja da ovulação (dias 7, 14 e 21) e a fase lútea à direita, em roxo, sempre com 14 dias. Abaixo de cada barra, uma faixa verde marca a janela fértil, dos cinco dias antes da ovulação ao dia seguinte (dias 2 a 8, 9 a 15 e 16 a 22). Uma legenda explica que o corpo lúteo vive cerca de 14 dias sem gravidez, que a janela acompanha a ovulação e não o calendário de 28 dias, e por que a tabelinha falha.
A parte fixa é a lútea. Num ciclo de 21 dias a ovulação cai no dia 7; num de 35, no dia 21. A janela fértil acompanha a ovulação, não o calendário de 28 dias, e é isso que torna os métodos de tabela pouco confiáveis. Diagrama autoral.

Ciclo menstrual e ciclo estral. Só primatas (humanos e alguns macacos) menstruam: o endométrio descama e sangra. Na maioria dos outros mamíferos (cadelas, gatas, vacas, roedores), o ciclo é estral: o endométrio é reabsorvido em vez de descamar, e a fêmea só aceita o macho num período curto de receptividade, o estro (“cio”), que coincide com a ovulação. A frequência também é outra, e varia muito de espécie para espécie; na cadela, o cio está longe de ser mensal. O item 104 do PAS 2 de 2011 afirmou que as fêmeas dos carnívoros (a ordem dos cães, gatos, ursos e focas) apresentam oscilações mensais de estrogênio, e o gabarito foi errado: o ciclo delas não é mensal, e o sangramento que a cadela apresenta no início do cio não é menstruação.

Quem produz, o que faz, quando está alto: as três perguntas que a prova embaralha

Para cada hormônio, responda três perguntas antes de julgar qualquer frase: quem o produz, o que ele faz e em que momento do ciclo está alto. FSH: hipófise; crescimento do folículo (e, no homem, sustentação da espermatogênese via Sertoli); alto no início do ciclo. LH: hipófise; ovulação e formação do corpo lúteo (e, no homem, testosterona via Leydig); pico no dia 14. Estrogênio: folículo; reconstrução do endométrio e caracteres femininos; máximo pouco antes do pico de LH. Progesterona: corpo lúteo; endométrio secretor e manutenção da gestação; alta só na segunda metade. Ocitocina: neuro-hipófise; contração do útero no parto e ejeção do leite; fora do ciclo. Os itens do PAS 3 sobre o tema falseiam uma das três respostas e mantêm as outras duas certas. O 67 de 2010 manteve a origem do FSH e trocou o efeito (o FSH “preparando o útero” e “determinando os caracteres femininos”, que são ações do estrogênio e da progesterona). O 113 de 2013 trocou a origem do preparo do útero (ocitocina e LH no lugar de estrogênio e progesterona). O 104 de 2008 trocou o momento (FSH e LH “em grande quantidade” na hora da fertilização, quando o pico já passou e quem sobe é a progesterona). O tipo C de 2015 (item 84) trocou o momento em três alternativas e manteve só uma intacta: progesterona alta no dia 2, corpo lúteo desfeito no dia 16 e progesterona vinda “das glândulas do endométrio” no dia 27 são as três erradas; a certa é o pico de LH do dia 14 com o endométrio no auge da proliferação. Confira as três respostas, uma de cada vez, e a frase se decide sozinha.

Fecundação: um encontro na tuba, com três travas

A corrida é de eliminação, não de velocidade. Centenas de milhões de espermatozoides são depositados na vagina; milhões morrem na acidez em minutos, outros milhões não atravessam o muco do colo, milhares são destruídos por leucócitos no útero, e só algumas centenas chegam à ampola da tuba. No caminho, os fluidos do trato feminino promovem a capacitação: a membrana da cabeça do espermatozoide perde colesterol e fica instável, e o batimento do flagelo se torna mais vigoroso. Sem capacitação não há fecundação, e é por isso que, na fertilização in vitro, o sêmen é lavado para retirar o líquido seminal, que contém substâncias que a impedem.

Três camadas e a reação acrossômica. O ovócito II chega à tuba cercado por duas proteções: por fora, a corona radiata (células foliculares), por dentro, a zona pelúcida (uma camada de glicoproteínas). Os espermatozoides atravessam a corona e, ao tocar a zona pelúcida, ligam-se a receptores que disparam a reação acrossômica: o acrossomo libera enzimas que digerem um túnel na zona. Muitos espermatozoides gastam o acrossomo abrindo caminho; o que fecunda raramente é o primeiro a chegar. Um deles alcança a membrana do ovócito, as membranas se fundem e o núcleo do espermatozoide entra.

Bloqueio da polispermia. Se dois espermatozoides entrassem, o zigoto seria triploide, incompatível com a vida. O ovócito tem duas travas. A rápida: no instante da fusão, a membrana do ovócito muda sua permeabilidade a íons e se despolariza, e outros espermatozoides não conseguem fundir-se; dura cerca de um minuto. A lenta (reação cortical): a entrada de cálcio faz vesículas corticais despejarem enzimas que endurecem a zona pelúcida e destroem os receptores dos espermatozoides. A partir daí a zona é uma casca.

A meiose termina e o zigoto se forma. A entrada do espermatozoide acorda o ovócito II parado na metáfase II: ele completa a meiose II, expulsa o segundo corpúsculo polar e, por instantes, é um óvulo. Os dois núcleos haploides (pronúcleos) se aproximam, o DNA se duplica e as cromátides se alinham para a primeira mitose: está formado o zigoto, 46 cromossomos, 23 de cada genitor. O sexo cromossômico foi definido pelo espermatozoide: o ovócito sempre carrega um X; o espermatozoide carrega X ou Y.

Da tuba ao útero: clivagem, blastocisto e nidação

O zigoto desce pela tuba dividindo-se por mitoses rápidas, a clivagem (ou segmentação): a cada divisão as células ficam menores e mais numerosas, e o conjunto conserva o tamanho do zigoto, porque a zona pelúcida ainda o cerca. Cerca de três dias depois da fecundação, com umas 16 células compactadas, ele é uma mórula e chega ao útero. Lá flutua mais alguns dias, forma uma cavidade cheia de líquido e vira blastocisto, com cerca de 100 células em dois grupos: a massa celular interna, que formará o embrião, e o trofoblasto, a camada externa que formará a parte fetal da placenta. O blastocisto sai da zona pelúcida (“eclosão”) e, no fim da primeira semana (dias 6 a 7), encosta no endométrio secretor e começa a nidação (implantação): células do trofoblasto digerem o endométrio e o embrião afunda na mucosa, que se fecha sobre ele. Ovulação, fecundação e nidação são três eventos, em três lugares, em três momentos: dia 14 do ciclo, no ovário; poucas horas depois, na tuba; uma semana depois, no útero.

hCG: a mensagem que segura o corpo lúteo. Assim que se implanta, o trofoblasto passa a secretar a gonadotrofina coriônica humana (hCG), um hormônio parecido com o LH. O hCG chega ao ovário pelo sangue e mantém o corpo lúteo, que continuaria produzindo progesterona em vez de regredir: o endométrio não descama, a menstruação não vem, e esse é o primeiro sinal de gravidez. O hCG passa à urina, e é ele que o teste de gravidez de farmácia detecta, com anticorpos contra a molécula; como só o trofoblasto o produz, um teste positivo significa que há um embrião implantado. O teste pode ser positivo poucos dias depois da nidação, em geral na data em que a menstruação viria. No fim do primeiro trimestre, a placenta já produz progesterona e estrogênio por conta própria, o corpo lúteo deixa de ser necessário e o hCG cai. Nada disso é “o hormônio da menstruação”: hCG só existe quando há embrião.

Linha do tempo sobre um esquema simplificado da tuba uterina à esquerda e do útero à direita, com o ovário e o corpo lúteo no canto inferior esquerdo. Dia 0: fecundação na ampola da tuba, com a meiose II terminando. Dia 1: zigoto em duas células. Dias 2 a 3: 4 e 8 células, em clivagem. Dia 3: mórula de 16 células chegando ao útero. Dia 5: blastocisto com massa celular interna e trofoblasto. Dias 6 a 7: nidação, o trofoblasto afunda no endométrio secretor. À direita, uma caixa verde com a curva do hCG subindo a partir do dia 8, produzido pelo trofoblasto, e a nota de que o teste de farmácia usa anticorpos anti-hCG na urina; uma seta tracejada verde vai do hCG até o corpo lúteo: mantido, a progesterona continua, o endométrio não descama e não há menstruação. Faixa inferior: três eventos, três lugares, três momentos.
Uma semana entre a fecundação e a nidação, e três endereços. O embrião não cresce durante a clivagem; só se divide. O hCG, produzido depois da implantação, é o sinal que impede o corpo lúteo de regredir, e é o que o teste de farmácia detecta na urina. Diagrama autoral, fora de escala.

Gêmeos. Em cerca de 1 % dos ciclos dois ovócitos são ovulados; se os dois forem fecundados, nascem gêmeos dizigóticos (fraternos, bivitelinos): dois zigotos, duas placentas, geneticamente tão parecidos quanto irmãos comuns, podendo ser de sexos diferentes. Mais raramente, um único zigoto ou blastocisto se divide em dois embriões: gêmeos monozigóticos (idênticos, univitelinos), com o mesmo genoma e o mesmo sexo; se a separação ocorre no estágio de blastocisto, o mais comum, os dois costumam compartilhar a placenta. “Um óvulo fecundado por dois espermatozoides” não gera gêmeos: gera um zigoto triploide inviável, e foi essa a afirmação, errada, do item 126 do PAS 2 de 2009, que atribuía exatamente essa origem aos gêmeos univitelinos (o item está reproduzido e resolvido na página de embriologia).

Gestação, parto e lactação

Placenta. Formada pelo trofoblasto (lado fetal) e pelo endométrio (lado materno), a placenta é o órgão de trocas: o sangue fetal corre em capilares dentro de vilosidades banhadas por sangue materno, e gases, nutrientes, anticorpos e resíduos atravessam a parede das vilosidades, sem que os dois sangues se misturem. O cordão umbilical liga o feto à placenta com duas artérias (levam sangue pobre em oxigênio do feto à placenta) e uma veia (traz o sangue oxigenado de volta): o nome do vaso vem do sentido, não do conteúdo. A placenta também é glândula endócrina: produz hCG, progesterona, estrogênio e lactogênio placentário, e é ela que sustenta a gestação a partir do primeiro trimestre. Ela não é uma barreira absoluta: álcool, nicotina, vários medicamentos e alguns agentes infecciosos (o vírus da rubéola, o Treponema da sífilis, o Toxoplasma) a atravessam. O desenvolvimento do embrião em si, com os folhetos, os anexos e a formação dos órgãos, é assunto da página de embriologia.

Duração. A gestação é contada, por convenção médica, a partir do primeiro dia da última menstruação (DUM), porque essa data é conhecida e a da fecundação não: 40 semanas, ou 280 dias, até a data provável do parto. Como a fecundação acontece cerca de duas semanas depois da DUM, a gestação real, da fecundação ao nascimento, tem cerca de 38 semanas (266 dias). O “nove meses” é a mesma conta em meses de 30 dias.

Parto: o feedback positivo. No fim da gestação a progesterona (que freava o útero) perde terreno para o estrogênio, e o miométrio fica cheio de receptores de ocitocina. Quando a cabeça do bebê pressiona o colo do útero, receptores de estiramento mandam sinal ao hipotálamo, que libera ocitocina pela neuro-hipófise; a ocitocina contrai o útero, que empurra mais o bebê contra o colo, que libera mais ocitocina. É o mesmo circuito de amplificação descrito em sistema endócrino, e ele só termina com um evento de fora: o nascimento. A ocitocina sintética é usada para induzir o trabalho de parto.

Lactação: dois hormônios, duas etapas. Produzir leite e ejetá-lo são processos diferentes. A prolactina (adeno-hipófise) faz os alvéolos das mamas sintetizarem leite; durante a gestação, o estrogênio e a progesterona altos bloqueiam esse efeito, e é a queda deles depois do parto que libera a produção. A ocitocina (neuro-hipófise), liberada pela sucção do bebê, contrai as células que envolvem os alvéolos e ejeta o leite. A sucção estimula os dois: quanto mais o bebê mama, mais prolactina e mais leite, e é por isso que a produção cai quando a mamada é substituída. A amamentação frequente também freia o GnRH e pode suspender a ovulação por meses (o método da lactação e amenorreia, LAM, na tabela adiante). O Ministério da Saúde e a OMS recomendam aleitamento materno exclusivo até os 6 meses (sem água, chás ou outros alimentos) e amamentação continuada, com alimentos complementares, até os 2 anos ou mais. O primeiro leite, o colostro, é rico em anticorpos: imunidade passiva natural, como a página de vacinas e soros explica.

"A pílula engana o corpo com uma falsa gravidez"

Meia verdade. A pílula combinada contém estrogênio e progestagênio em dose constante, e o eixo lê esses esteroides como lê os da fase lútea: FSH e LH ficam baixos por feedback negativo, nenhum folículo amadurece e não há pico de LH, logo não há ovulação. Nisso ela imita a situação hormonal da gestação, em que a progesterona alta também suspende a ovulação. Mas não há hCG, não há corpo lúteo mantido e não há embrião: o endométrio fica fino, e o sangramento da pausa dos comprimidos é a descamação por queda hormonal, menor que uma menstruação comum. Dizer que a pílula “simula uma gravidez” descreve o freio sobre o eixo; dizer que ela “faz o corpo pensar que está grávido” como se houvesse os sinais de gestação é exagero.

Contracepção: onde cada método interrompe a cadeia

Para haver gravidez é preciso ovular, os espermatozoides precisam chegar à tuba, o encontro precisa acontecer e o blastocisto precisa se implantar. Cada método contraceptivo atua em um desses elos, e saber o elo é saber o mecanismo. A tabela a seguir usa os números da OMS: gravidezes por 100 mulheres no primeiro ano de uso, com uso consistente e correto (o método em si) e com o uso como ocorre na prática (o método mais o esquecimento, o atraso, o erro). A diferença entre as duas colunas é a dependência do usuário: os métodos que não exigem ação diária (implante, DIU, esterilização) têm as duas colunas quase iguais; os que dependem de disciplina (pílula, preservativo, tabela) abrem uma distância grande.

método como atua (elo interrompido) uso correto uso típico protege de ISTs
pílula combinada (estrogênio + progestagênio) feedback negativo: sem pico de LH, sem ovulação 0,3 7 não
minipílula (só progestagênio) espessa o muco cervical; pode inibir a ovulação 0,3 7 não
injetável trimestral (progestagênio) espessa o muco; inibe a ovulação 0,2 4 não
injetável mensal (combinado) inibe a ovulação 0,05 3 não
adesivo e anel vaginal (combinados) inibem a ovulação 0,3 7 não
implante subdérmico (progestagênio, de longa duração) espessa o muco; inibe a ovulação 0,1 0,1 não
DIU de cobre o cobre danifica os espermatozoides e impede o encontro com o ovócito 0,6 0,8 não
DIU hormonal (levonorgestrel) espessa o muco cervical e bloqueia o encontro dos gametas 0,5 0,7 não
preservativo masculino barreira: espermatozoide não chega ao ovócito 2 13 sim
preservativo feminino barreira 5 21 sim
vasectomia corta o ducto deferente: sêmen sem espermatozoides 0,1 0,15 não
laqueadura tubária fecha as tubas: ovócito e espermatozoide não se encontram 0,5 0,5 não
amenorreia da lactação (LAM, até 6 meses) a sucção frequente suspende a ovulação 0,9 2 não
métodos de percepção da fertilidade (dias fixos, muco, sintotérmico) evitar relações nos dias férteis 1 a 5, conforme o método 2 a 14 não
tabelinha (calendário) e temperatura basal isoladas idem, com estimativa menos precisa sem taxas confiáveis (OMS) sem taxas confiáveis não
pílula de emergência (levonorgestrel ou ulipristal) atrasa ou impede a ovulação; não age depois da nidação 1 a 2 por uso (menos de 1 com ulipristal) não

Três leituras da tabela. Primeira: só o preservativo (masculino ou feminino) protege ao mesmo tempo contra gravidez e contra ISTs, e a OMS repete isso em todo documento sobre contracepção; os métodos hormonais, o DIU e as cirurgias não protegem contra infecção nenhuma. Segunda: a pílula com uso correto falha em 3 a cada 1 000 mulheres por ano, mas em uso típico falha em 7 a cada 100, porque o esquecimento de comprimidos libera a hipófise; o implante e o DIU não têm esquecimento, e por isso são chamados de métodos de longa duração reversíveis. Terceira: o coito interrompido não está na tabela como método recomendado: além da dependência total de controle, o líquido das glândulas bulbouretrais pode conter espermatozoides. No Brasil, preservativos e vários métodos contraceptivos estão disponíveis gratuitamente na rede pública de saúde; a escolha é individual e orientada por um profissional de saúde, e esta página descreve mecanismos, não indica métodos.

Pílula de emergência. Tomada em até cinco dias depois da relação (quanto antes, mais eficaz), ela age impedindo ou atrasando a ovulação. Se a ovulação já aconteceu, ela não impede a fecundação, e, segundo a OMS, não interrompe uma gestação estabelecida nem prejudica um embrião já implantado: não é abortiva. O DIU de cobre inserido em até cinco dias é a forma mais eficaz de contracepção de emergência (mais de 99 %), porque danifica os espermatozoides antes do encontro. Como não age depois da nidação, nenhum dos dois funciona “para cancelar” uma gravidez em curso.

Cadeia horizontal de cinco elos rosa ligados por setas: ovulação, espermatozoides, encontro na tuba, fecundação e nidação. Sobre cada elo, caixas com os métodos que o interrompem: sobre a ovulação, pílula combinada e minipílula, injetáveis, implante, anel e adesivo, pílula de emergência (atrasa) e amenorreia da lactação; sobre os espermatozoides, preservativos (única barreira contra ISTs), vasectomia, DIU de cobre e espermicida; sobre o encontro na tuba, laqueadura, DIU hormonal e o muco espesso da minipílula e do implante; sobre fecundação e nidação, caixas tracejadas com a nota de que nenhum método recomendado atua ali e de que a pílula de emergência não age depois da nidação. Na parte inferior, barras horizontais da falha em gravidezes por 100 mulheres no primeiro ano, verde para uso correto e vermelho-claro para uso típico: implante 0,1 e 0,1; vasectomia 0,1 e 0,15; DIU de cobre 0,6 e 0,8; laqueadura 0,5 e 0,5; pílula combinada 0,3 e 7; injetável trimestral 0,2 e 4; preservativo masculino 2 e 13; preservativo feminino 5 e 21; dias fixos 5 e 12.
Onde cada método corta a cadeia e quanto ele falha. Os hormonais agem no primeiro elo, as barreiras e a vasectomia no segundo, a laqueadura no terceiro; nenhum método recomendado age depois da nidação. As barras mostram por que a diferença entre uso correto e uso típico é o que separa a pílula do implante. Dados da OMS. Diagrama autoral.

Exemplo resolvido: ler a eficácia como falha por 100 mulheres-ano. Um estudo acompanhou 200 mulheres que usaram preservativo masculino como único método durante um ano; ocorreram 26 gravidezes. (a) Qual é a taxa de falha, em gravidezes por 100 mulheres-ano? (b) Ela se parece mais com a coluna de uso correto ou com a de uso típico da OMS? © O que explicaria a diferença entre as duas colunas para esse método? Resposta: (a) 26 ÷ 200 × 100 = 13 por 100 mulheres-ano. (b) Com a de uso típico (13), e não com a de uso correto (2). © Uso inconsistente: relações sem o preservativo em alguns dias, colocação tardia (o líquido pré-ejaculatório pode conter espermatozoides), rompimento ou deslizamento. Conferência: a unidade “por 100 mulheres-ano” é o que permite comparar métodos: 13 por 100 em um ano equivale a 130 por 1 000. Se o estudo tivesse durado seis meses, a taxa teria de ser anualizada antes da comparação.

Infecções sexualmente transmissíveis: agente, transmissão, prevenção

As ISTs são causadas por mais de 30 bactérias, vírus e parasitas, transmitidos por contato sexual (vaginal, anal e oral) e, em vários casos, da mãe para o filho na gestação, no parto ou na amamentação. A OMS estima que mais de um milhão de infecções curáveis sejam adquiridas por dia no mundo; em 2020, foram cerca de 374 milhões de infecções novas por uma de quatro ISTs curáveis (clamídia, 129 milhões; tricomoníase, 156 milhões; gonorreia, 82 milhões; sífilis, 7,1 milhões). Em 2022, 1,1 milhão de gestantes tinham sífilis, com mais de 390 mil desfechos adversos ao nascimento. A tabela separa os agentes porque é isso que a prova pergunta, e remete às páginas em que cada grupo está detalhado.

infecção agente (grupo) transmissão prevenção e tratamento
HIV/aids vírus de RNA (retrovírus), vírus sexual; sangue; vertical (gestação, parto, amamentação) preservativo; PrEP e PEP; testagem; antirretrovirais (não curam; levam a carga viral a indetectável); tratamento da gestante reduz a transmissão vertical a menos de 1 % (Ministério da Saúde)
HPV (papilomavírus) vírus de DNA sexual, por contato de pele e mucosa vacina (SUS: dose única aos 9 anos, com resgate até 14 anos, 11 meses e 29 dias; cobre os tipos 6, 11, 16 e 18); preservativo reduz mas não elimina; Papanicolau detecta lesões precursoras
herpes genital vírus de DNA (HSV-2, HSV-1) sexual, por contato com lesões preservativo (parcial: lesões fora da área coberta); antivirais controlam, não curam
hepatite B vírus de DNA sexual; sangue; vertical vacina (no calendário do SUS desde o nascimento); preservativo
sífilis bactéria (Treponema pallidum), bactérias sexual; vertical (sífilis congênita); contato com lesões preservativo; teste rápido gratuito no SUS (resultado em até 30 minutos); penicilina cura; testar e tratar a gestante evita a forma congênita
gonorreia bactéria (Neisseria gonorrhoeae) sexual; vertical (conjuntivite do recém-nascido) preservativo; antibiótico (resistência crescente, alerta da OMS)
clamídia bactéria (Chlamydia trachomatis) sexual; vertical preservativo; antibiótico; muitas vezes sem sintomas; com a gonorreia, causa principal de doença inflamatória pélvica e infertilidade feminina
tricomoníase protozoário (Trichomonas vaginalis), protozoários sexual preservativo; antiparasitário

Três regras organizam a tabela. Vírus não se cura com antibiótico: HIV, HPV, herpes e hepatite B são tratados ou controlados com antivirais, prevenidos com vacina (HPV e hepatite B) ou com preservativo; bactérias e protozoários têm cura com antibióticos e antiparasitários. O preservativo é a única prevenção comum a todas, e mesmo ele é parcial para as ISTs que produzem lesões fora da área coberta (sífilis, herpes, HPV). A transmissão vertical é evitável: o pré-natal do SUS inclui testes de HIV, sífilis e hepatite B justamente porque tratar a gestante protege o bebê. O item 101 do PAS 1 de 2008 afirmou que “HIV, sífilis e condiloma são DSTs causadas por vírus”: a sífilis é bacteriana, e o item foi errado por um nome numa lista de três. (A sigla DST, usada na época, foi substituída por IST, porque muitas dessas infecções não produzem sinais de doença e ainda assim se transmitem.)

A vacina contra o HPV e o câncer de colo do útero

O câncer do colo do útero é causado pela infecção persistente por tipos oncogênicos do HPV, sobretudo os tipos 16 e 18, e, segundo o INCA, é o terceiro câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, com 19 310 casos novos estimados por ano no triênio 2026 a 2028 (17,59 por 100 mil mulheres), mais frequente nas regiões Norte e Nordeste. É também um dos cânceres mais evitáveis: a vacina, aplicada antes do início da vida sexual, impede a infecção pelos tipos que causam a maioria dos casos, e o exame preventivo detecta lesões anos antes de virarem câncer. O calendário do Ministério da Saúde prevê uma dose aos 9 anos para meninas e meninos, com resgate até os 14 anos. Os itens 76 a 79 do PAS 1 de 2013 cobraram essa política quando ela ainda era “meninas de 9 a 13 anos”: a vacina não protege contra o herpes (item 76, errado), deve ser dada antes da maturidade reprodutiva (77, certo) e vacinar meninos interrompe a transmissão (79, certo).

Infertilidade e reprodução assistida

A OMS define infertilidade como a ausência de gravidez depois de 12 meses ou mais de relações regulares sem contracepção, e estima que mais de 10 % dos casais no mundo sejam afetados. As causas se distribuem entre os dois parceiros e por todos os elos da cadeia: no homem, principalmente problemas na ejaculação, ausência ou baixa quantidade de espermatozoides, ou espermatozoides com forma e mobilidade alteradas; na mulher, alterações dos ovários (anovulação), das tubas (obstrução, muitas vezes sequela de clamídia ou gonorreia), do útero e do eixo hormonal; e em uma parte dos casos a causa não é identificada. Atribuir a infertilidade “à mulher” é erro de biologia e de justiça: a OMS registra que, mesmo quando a causa é masculina, a mulher costuma ser a responsabilizada.

O espermograma. O exame mede volume, concentração, número total, mobilidade e morfologia dos espermatozoides, comparando-os com limites de referência do manual da OMS, que considera normal, entre outros critérios, uma concentração de pelo menos 15 milhões por mL e pelo menos 40 % de espermatozoides móveis. Concentração abaixo disso é oligozoospermia; ausência total de espermatozoides no sêmen é azoospermia, que pode ser secretora (o testículo não produz) ou obstrutiva (produz, mas o caminho está bloqueado, como no epidídimo de homens com fibrose cística). Duas condições femininas frequentes merecem uma frase cada: a endometriose, em que tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero (ovários, tubas, peritônio) e responde aos hormônios do ciclo, causando dor e aderências; e a síndrome dos ovários policísticos, um desequilíbrio hormonal com excesso de andrógenos e ovulação irregular ou ausente.

Fertilização in vitro (FIV). Quando os gametas não conseguem se encontrar no corpo, o encontro é feito fora dele. A paciente recebe FSH para amadurecer vários folículos de uma vez; os ovócitos são aspirados do ovário; o sêmen é lavado e concentrado (o que também promove a capacitação); ovócitos e espermatozoides são postos juntos numa placa; os embriões são cultivados por alguns dias, até o estágio de 8 células ou de blastocisto; e um ou dois são transferidos ao útero por um cateter fino. A FIV faz a fecundação e as primeiras clivagens no laboratório, mas não dispensa a nidação: o embrião transferido ainda precisa se implantar, e é por isso que nem toda transferência resulta em gravidez. Robert Edwards, que começou a estudar a fecundação humana nos anos 1950 e, com o ginecologista Patrick Steptoe, desenvolveu a técnica, viu nascer em 25 de julho de 1978 o primeiro bebê concebido por FIV, Louise Brown; recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2010, quando cerca de quatro milhões de pessoas já tinham nascido pela técnica. Na ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide), descrita em 1992, um único espermatozoide é injetado diretamente no ovócito com uma micropipeta; ela resolve casos em que há poucos espermatozoides, ou espermatozoides que não conseguem penetrar a zona pelúcida, e permite usar espermatozoides colhidos diretamente do epidídimo ou do testículo. Ovócitos, espermatozoides e embriões podem ser congelados em nitrogênio líquido e usados anos depois.

Exemplo resolvido: escolher a técnica pelo elo que falhou. Num homem com fibrose cística, a secreção alterada do epitélio do epidídimo bloqueia o transporte dos espermatozoides: há produção, mas o sêmen não os contém (azoospermia obstrutiva). Que técnica é plausível para que ele tenha filhos, e que consequência o uso dela tem para a espécie? Resposta: se os espermatozoides existem e estão retidos antes do epidídimo, colhem-se espermatozoides diretamente do epidídimo (ou do testículo) e fertiliza-se o ovócito fora do corpo (FIV, em geral com ICSI). A consequência populacional é que um alelo que, sem a técnica, não seria transmitido (o homem seria infértil) passa a ser transmitido aos filhos: a mutação deletéria se perpetua. Foi a alternativa correta do item 109 do PAS 3 de 2012. Conferência: as alternativas erradas trocavam o endereço (a próstata não armazena espermatozoides), a técnica (congelar embriões não resolve a coleta) ou o conceito (chamar de “seleção natural” uma intervenção que a contorna).

As técnicas de reprodução assistida resolvem obstáculos biológicos e abrem questões que a biologia não encerra: o destino dos embriões não utilizados, a seleção de embriões por diagnóstico genético, a doação de gametas, o acesso desigual a tratamentos caros. O item 95 do PAS 3 de 2009 partia da notícia de uma menina nascida por fertilização in vitro “a partir de um gameta selecionado por não ter o gene BRCA1 mutado” (o gene ligado ao câncer de mama e de ovário) e afirmou que, por serem bem embasadas, as novas tecnologias teriam eliminado as questões polêmicas sobre direitos reprodutivos: errado. O próprio texto da prova lembrava que, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina avalia quais intervenções são éticas, sinal de que a discussão segue aberta; um procedimento pode ser eficaz e, ao mesmo tempo, continuar sendo objeto de debate sobre quem o usa, para quê e com que limites. E o lugar da fecundação não altera a taxa de mutação: crianças nascidas por reprodução assistida não têm mais erros de cópia no DNA por terem sido concebidas numa placa, como a página de mutações discute a propósito de um item de 2013.

Menopausa e andropausa: quando a gônada para, o comando sobe

A menopausa é o fim dos ciclos menstruais, por esgotamento dos folículos ovarianos; é considerada estabelecida depois de 12 meses sem menstruação. Nos anos que a antecedem (perimenopausa), os ciclos ficam irregulares, a inibina cai e o FSH sobe; depois dela, com pouco estrogênio e nenhuma progesterona cíclica, FSH e LH ficam altos de forma permanente, pela regra do feedback negativo: a glândula-alvo parou, o freio sumiu, o comando sobe. A queda do estrogênio explica os sintomas (ondas de calor) e as consequências de longo prazo (perda de densidade óssea, aumento do risco cardiovascular). A fertilidade feminina é máxima nos vinte e poucos anos, declina lentamente até os 35 e mais rápido depois, até terminar na menopausa. No homem não há um evento equivalente: a produção de testosterona e de espermatozoides declina gradualmente a partir dos 40 ou 50 anos (o que se chama, por analogia, andropausa), sem um marco como a última menstruação, e a espermatogênese continua, em ritmo menor, até o fim da vida.

Saúde reprodutiva em números

Câncer. Pelas estimativas do INCA para cada ano do triênio 2026 a 2028, o câncer de mama feminina é o mais incidente do país (78 610 casos novos, 71,57 por 100 mil mulheres; 20 165 mortes em 2023) e o de próstata é o mais incidente entre os homens (77 920 casos, 74,62 por 100 mil homens; 17 258 mortes em 2023); o de colo do útero tem 19 310 casos novos estimados por ano. Os três têm relação com esta página: o risco de câncer de mama aumenta com a exposição ao estrogênio ao longo da vida (menarca precoce, menopausa tardia, não ter filhos); a próstata cresce sob andrógenos e dobra de tamanho na puberdade; o de colo é causado pelo HPV e evitável por vacina e rastreamento. O câncer de testículo é raro e acomete sobretudo homens jovens; o autoexame e a consulta diante de um nódulo são a forma de detecção precoce.

Gravidez na adolescência. A taxa de fecundidade de adolescentes (nascimentos por 1 000 mulheres de 15 a 19 anos) no Brasil caiu de 61,8 em 2015 para 42,7 em 2023, pelas estimativas das Nações Unidas reunidas pelo Banco Mundial; a média mundial em 2023 foi 41,3 (OMS). A OMS lembra que a gravidez nessa faixa está associada a maior risco de complicações para a mãe e o bebê e à interrupção dos estudos, e que acesso a informação e a contracepção é o que a reduz.

Mortalidade materna. Em 2023 morreram cerca de 260 mil mulheres no mundo por causas ligadas à gestação e ao parto, mais de 700 por dia, a maioria evitável (OMS); a razão de mortalidade materna mundial caiu cerca de 40 % entre 2000 e 2023. Para o Brasil, a estimativa das Nações Unidas é de 67 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2023, depois de um pico de 128 em 2021, durante a pandemia de covid-19. Pré-natal, parto assistido e tratamento de hemorragias, infecções e hipertensão são o que faz a diferença.

Desreguladores endócrinos. Algumas substâncias usadas em plásticos, agrotóxicos e cosméticos imitam ou bloqueiam estrogênio e andrógenos nos receptores das células, e são investigadas como fatores de alteração da puberdade e da fertilidade; o tema está em sistema endócrino.

Respeito e consentimento. Tudo o que esta página descreve acontece em corpos de pessoas. Sexualidade saudável, na definição da OMS, exige informação, ausência de coerção e de violência e acesso a cuidados; relações sexuais pressupõem consentimento de ambas as partes, e a lei brasileira protege crianças e adolescentes de qualquer ato sexual. Isso não é um apêndice moral à página: é a condição para que a biologia descrita aqui seja vivida com saúde.

Uma história em sete datas

  • 1677: Antoni van Leeuwenhoek, em Delft, examina ao microscópio uma amostra de sêmen trazida por um estudante e descreve os “animálculos”, os espermatozoides; ele achava que eram eles, e não o óvulo, que continham o futuro indivíduo.
  • 1826 a 1827: Karl Ernst von Baer identifica o óvulo nos ovários de uma cadela e o descreve numa monografia: o gameta feminino dos mamíferos, procurado desde o século XVII, era uma célula microscópica dentro do folículo.
  • 1876: Oscar Hertwig observa, em ouriços-do-mar, que o núcleo do espermatozoide se funde com o núcleo do óvulo: a fecundação é a união de dois núcleos, um de cada gameta.
  • 1960: a agência reguladora dos Estados Unidos aprova a primeira pílula anticoncepcional, resultado do trabalho de Gregory Pincus e John Rock; a pílula separou, pela primeira vez de modo confiável, sexo e reprodução.
  • 1978: nasce Louise Brown, primeiro bebê concebido por fertilização in vitro, fruto da parceria entre o fisiologista Robert Edwards e o ginecologista Patrick Steptoe.
  • 1992: a ICSI, injeção de um único espermatozoide dentro do ovócito, resolve casos graves de infertilidade masculina.
  • 2010: Robert Edwards recebe o Nobel de Fisiologia ou Medicina pelo desenvolvimento da FIV.

Erros clássicos, e por que estão errados

  • “A ovulação é sempre no dia 14.” É o dia 14 num ciclo de 28; o que é fixo é a fase lútea (cerca de 14 dias). Num ciclo de 35, a ovulação cai por volta do dia 21.
  • “A menstruação é o óvulo não fecundado saindo.” É a descamação do endométrio por queda de progesterona e estrogênio; o ovócito degenerou dias antes.
  • “O óvulo é fecundado no útero.” Na tuba (ampola). O útero é o lugar da nidação, uma semana depois.
  • “O espermatozoide vive algumas horas.” Minutos na vagina, mas até cinco dias no muco cervical e nas tubas; o ovócito é que vive menos de um dia.
  • “A mulher nasce com os óvulos prontos.” Nasce com ovócitos I parados na prófase I; cada um ainda precisa de duas divisões.
  • “A pílula de emergência é abortiva.” Atrasa ou impede a ovulação; não age depois da nidação e não interrompe gestação (OMS).
  • “Coito interrompido protege.” O líquido pré-ejaculatório pode conter espermatozoides, e o controle falha; a OMS não o lista entre os métodos.
  • “Testosterona só no homem, estrogênio só na mulher.” Ambos produzem ambos; mudam a proporção e a fonte.
  • “hCG é o hormônio da menstruação.” É o hormônio do embrião implantado; mantém o corpo lúteo e impede a menstruação.
  • “O sexo é definido pelo óvulo.” O ovócito sempre leva X; é o espermatozoide (X ou Y) que define o sexo cromossômico.
  • “O preservativo falha muito.” Com uso correto, 2 gravidezes por 100 mulheres-ano; o número alto (13) é o do uso inconsistente, e nenhum outro método protege de ISTs.
  • “A vasectomia reduz a testosterona.” Corta o ducto deferente; as células de Leydig continuam intactas.
  • “O FSH prepara o útero” / “a ocitocina prepara o útero”. Preparar o endométrio é estrogênio (proliferação) e progesterona (secreção); FSH amadurece folículos e ocitocina contrai o útero no parto.

Como a prova cobra

No PAS 3, o assunto apareceu em oito itens, todos concentrados nas provas de 2008 a 2015; de 2016 em diante a banca não voltou a ele, mas os oito estão reproduzidos e comentados nesta página: três sobre a ficha dos hormônios (2008/104, 2010/67, 2013/113, todos errados por trocar o serviço de um hormônio pelo do vizinho), um tipo C sobre o calendário do ciclo (2015/84), três sobre sexo, gênero e bioética num bloco de 2009 (88, 90 e 95) e um tipo C sobre reprodução assistida na fibrose cística (2012/109). No PAS 2, a reprodução humana aparece dentro da zoologia: um bloco de 2009 sobre saúde reprodutiva (itens 123 a 130, com uma tabela de FSH; o 128, reproduzido aqui, é o do FSH alto em homens sem testículos) e o ciclo estral dos carnívoros em 2011 (item 104). Na citologia da 3.ª etapa, a gametogênese rendeu 2012/113 (as 46 moléculas de DNA do ovócito ovulado) e 2025/44 (as espermatogônias AS); no PAS 1, as ISTs entram pela microbiologia (2008/101) e pela vacina contra o HPV (2013/76 a 79). O método para julgar qualquer um deles é o mesmo: responder, para o hormônio citado, quem o produz, o que ele faz e em que momento do ciclo está alto; e, nas frases sobre células, conferir o degrau da escada em que a célula está (diploide ou haploide; quantas moléculas de DNA).

O essencial em meia página

  • Gametas são haploides (n = 23) e nascem da meiose; a fecundação restaura 2n = 46 e gera variabilidade.
  • Espermatogênese: espermatogônia → espermatócito I → 2 espermatócitos II → 4 espermátides → 4 espermatozoides; contínua desde a puberdade, cerca de 64 dias, nos túbulos seminíferos; Sertoli sustenta, Leydig produz testosterona; o epidídimo amadurece.
  • Ovogênese: ovogônias na vida fetal → ovócito I parado na prófase I até a puberdade → no ciclo, meiose I desigual → ovócito II (parado em metáfase II, é o que se ovula) + corpúsculo polar → meiose II só com a fecundação; 1 óvulo por ovócito I; reserva finita.
  • Contagem: ovócito ovulado = 23 cromossomos, 46 moléculas de DNA.
  • Eixo: GnRH → FSH e LH → gônadas; FSH amadurece (folículo; Sertoli), LH dispara (ovulação; Leydig → testosterona); esteroides e inibina fazem feedback negativo; sem gônada, FSH e LH sobem.
  • Ciclo de 28 dias: dias 1 a 5 menstruação (tudo baixo); fase folicular/proliferativa com estrogênio subindo; dia 14 pico de LH (feedback positivo do estrogênio) e ovulação; fase lútea/secretora com progesterona do corpo lúteo; sem hCG, o corpo lúteo regride e o endométrio descama. Fase lútea fixa (~14 dias): ovulação ≈ ciclo − 14.
  • Fecundação na tuba (capacitação, reação acrossômica, bloqueio da polispermia); clivagem; mórula (dia 3); blastocisto; nidação no endométrio (dias 6 a 7); hCG do trofoblasto mantém o corpo lúteo e é o que o teste detecta.
  • Gestação: 40 semanas (280 dias) da última menstruação; placenta troca sem misturar sangues e é glândula endócrina; parto por feedback positivo da ocitocina; leite produzido pela prolactina e ejetado pela ocitocina; aleitamento exclusivo até 6 meses.
  • Contracepção: hormonais suprimem o pico de LH (sem ovulação); barreiras e vasectomia impedem o espermatozoide de chegar; laqueadura e DIU impedem o encontro; só o preservativo previne ISTs; pílula de emergência atrasa a ovulação e não é abortiva.
  • ISTs: HIV, HPV, herpes e hepatite B são vírus (vacina para HPV e hepatite B); sífilis, gonorreia e clamídia são bactérias (cura com antibiótico); tricomoníase é protozoário.
  • Infertilidade: 12 meses sem gravidez; causas nos dois sexos; FIV (1978; Nobel 2010) faz a fecundação fora do corpo mas não dispensa a nidação; ICSI injeta um espermatozoide.
  • Menopausa: folículos acabam, estrogênio cai, FSH e LH sobem.

Exercícios temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar o banco de questões. O conteúdo da aula continua disponível.

Flashcards temporariamente indisponíveis

Não foi possível consultar os cartões de revisão.

Sistema reprodutor feminino - Biologia - Ensino Médio
Canal Futura · 10:55
Introdução. Apresenta os órgãos do sistema genital feminino (ovários, tubas, útero, vagina, vulva) e o caminho do ovócito, a base da seção “Anatomia feminina: ovários, tubas, útero, vagina, vulva e mamas”.
Ovários: ciclo menstrual (ciclo ovariano)
MK Fisiologia · 19:04
Aprofundamento. Regulação hormonal do ciclo ovariano com GnRH, FSH, LH, estrogênio, inibina e progesterona nas fases folicular, ovulação e lútea, o conteúdo da seção “O ciclo menstrual em detalhe” e do gráfico das quatro curvas. A autora disponibiliza a transcrição.
Gametogênese - Aula 34 - Módulo I: Biologia Celular
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Aplicação da meiose. Espermatogênese e ovogênese passo a passo, com as diferenças entre elas, como na seção “Gametogênese: a mesma meiose com dois resultados muito diferentes” e na tabela comparativa.
Resumão do Vitão - Fisiologia Humana - Ciclo Menstrual - Conteúdo + 7 Exercícios ENEM UERJ FUVEST
QUIBIO com Vitor Considera · 34:16
Resolução de questões. Resumo do ciclo menstrual seguido de sete questões de vestibulares resolvidas (a partir de 21:15), para treinar a leitura de gráficos e a ficha dos quatro hormônios das seções “Como ler um gráfico de ciclo” e “Como a prova cobra”.
Rota PAS 3
Histologia e fisiologia humana: o corpo em rede · PAS 3

Fontes desta página

Os materiais abaixo contribuíram para a explicação e os exemplos deste assunto.

  • Rota PAS 3 — Histologia e fisiologia humana: o corpo em rede · Antes de começar: dez minutos de aquecimento (homeostase e feedback negativo; hormônio e receptor); Sistemas genitais: o ciclo comandado pela hipófise (eixo FSH/LH, o calendário dos quatro hormônios, sexo e gênero, reprodução assistida; itens 2008/104, 2010/67, 2013/113, 2015/84, 2009/88, 2009/90, 2009/95 e 2012/109); Banco de treino, itens 12 e 13

    Recorte por assunto: só os sistemas genitais e a reprodução humana. A página acrescenta, ausentes do capítulo: anatomia funcional, gametogênese com contagem, o ciclo menstrual com as curvas e a regra dos 14 dias, fecundação e nidação, hCG, gestação, parto e lactação, contracepção com a eficácia da OMS, ISTs, infertilidade, menopausa, saúde pública e história.

  • Rota PAS 3 — Gabaritos e resoluções do capítulo de Biologia (Parte IV) · Itens 12 e 13 (pico de LH e ovulação; caracteres sexuais secundários e o eixo)

    Conferência dos gabaritos das variantes do livro.

  • Rota PAS 2 — Zoologia: embriologia, fisiologia comparada e sentidos · Embriologia: do zigoto ao ovo que conquistou a terra firme (embriologia humana: fecundação na tuba, nidação, placenta, gêmeos, o ciclo hormonal e a retroalimentação negativa; itens 2009/128 e 2011/104); Como a banca cobra (o bloco de saúde reprodutiva de 2009)

    Só a reprodução humana; o ovo amniótico, os anexos e as estratégias dos mamíferos ficam na página de embriologia.

  • Rota PAS 3 — Citologia e bioquímica · Gametogênese humana (a escada da espermatogênese; contagem de cromossomos e moléculas de DNA; itens 2012/113 e 2025/44)

    Os dois itens reais pertencem à página de mitose e meiose e são reusados aqui por GUID.